A Viagem

3 Sorrateios na Ponte SUL


Após inspiradoras conversas e descobertas, lembrei-me que ainda estava muito quente ali. Minha vontade era me jogar num balde de gelo. Bluhumus parecia organizar uma coisa parecida com papéis. E também eu havia esquecido da senhora. Ela veio até mim, com uma compaixão inigualável e me oferecera um pouco de água. Singela sua atitude, mas a água do copo evaporava. Eu tomei depressa, antes que toda água se esvaísse. Ao entregar o copo para senhora, pude perceber que, naquele fatídico rosto não havia um nariz nem uma boca. Apenas os olhos.

— Agradeça a hospitalidade de minha esposa — disse Bluhumus. Pensei “uau” —, pois temos que ir. Vossa senhoria não gostou nada, nada do que soube.

Fiquei com vontade de indagar quem era tal Vossa Senhoria, mas por força do hábito, acabei não perguntando.

A casa parecia ter outra porta, nos fundos, no que aparentava ser uma cozinha. Bluhumus foi por ali, e em seguida fui junto. Vi a senhora, e acenei. Não sabia se a veria de novo, mas com certeza fiquei eternamente agradecido.

A porta da casa finalmente fechou. Andamos por um corredor escuro. Era o lugar menos quente que eu havia passado. Mas em compensação, continuava muito seco. Começamos a ver uma luz, bem a fundo. Ela começou acrescer, crescer e crescer, até revelar um imenso covil de pontes. O calor também reapareceu. Era realmente enorme, e eu conseguia notar suas ramificações de muita distância. Quando olhei para o teto, vi o que se parecia com estrelas, mas Bluhumos explicou-me que eram apenas resquícios dos gases que continham ali.

— Realmente surpreendente. — disse ele. — Como viera parar aqui.

— O que exatamente é aqui? — retruquei.

Bluhumus não pareceu muito contente com minha pergunta, mas ele não ameaçou me atacar, como eu estava esperando. Por fim disse:

­ ­— Estamos atravessando a Ponte SUL. — respondeu, ignorando completamente minha indagação. — Estamos no maior conjunto de pontes desse lugar. Você consegue chegar exatamente em qualquer lugar a partir daqui.

Qualquer lugar.

— Então quer dizer que eu posso voltar para onde eu estava? — perguntei de novo.

Bluhumus fitou-me, antes de dizer qualquer coisa.

— É mais complicado do que você pensa garoto. Primeiro, não sabemos quem é você, nem de onde você veio. — disse. — Vou te levar até Vossa Mercê, para que faça uma análise melhor sobre você. Depois disso, precisamos atravessar Seol, depois de lá fica o seu mundo.

O meu mundo fica depois de Seol. Isso me alegrou um pouco.

­— Mas esteja preparado. As análises de Vossa Mercê não são muito agradáveis.

Então, isso acabou com uma das minhas esperanças.

Notava-se algumas coisas que perambulavam sobre a ponte. Assemelhavam-se a véus negros. Pareciam muito apressados. Envolto tudo aquilo, levantava-se uma imensa caverna de luz reluzente vermelha e laranja. O calor era infernal, e o cheiro era enxofre puro. Parecia que estávamos caminhando dentro de um vulcão, muito e muito a fundo.

Atravessamos por uns dez minutos, e parecia que a ponte não tinha fim, apenas o começo. Notei já havia um tempinho que a ponte estava se inclinando para baixo e o calor ficava muito mais quente.

— Senhor Bluhumus, por que aqui é tão quente — perguntei pela última vez.

Ele pareceu estar totalmente descontente e incomodado. Ele virou sua cabeça para mim mais uma vez. As cavidades onde deveriam estar os globos oculares pareciam ganhar profundidade.

— Você faz muitas perguntas garoto!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.