Minha ida aconteceu mais rápido que meu retorno. E foi muito mais desgastante do que o necessário. Tive de ficar atento a tudo que via e tudo que ouvia. Lembrava-me de que, antes de ir, havia tomado algo que o gosto ainda não me saía da língua. Era um gosto alcalino e enferrujado, de ferro molhado quando se cheira. Minha mente atordoou-se, as tonturas tomaram conta do meu corpo quando por final, desfaleci. Ao acordar senti uma breve dor em meu corpo, e náuseas recorrentes do que eu havia feito, e finalmente me dei conta de que havia acordado em uma barca.

Era um lugar muito cáustico e seco. Ao respirar, via a umidade que saía dos meus pulmões esfumaçar. Tentei sentar-me, mas as juntas dos meus braços e pernas estavam doendo muito. Olhei ao meu redor para ver se via alguém ou conseguia ajuda. Pensei que veria um céu azul escuro e estrelado, e por baixo veria um oceano turquesa e iluminado. Muito de encontro ao que pensei, vi um teto rochoso cheio de estalactites, como uma imensa gruta e um oceano de plasma incandescente. Notei que segurava algo na minha mão direita. Parecia umas pequenas moedas, das quais não pareciam com nenhum dinheiro que eu conhecia. Peguei uma delas e joguei naquele mar. A moeda começou a desintegrar por completo. Eu realmente não gostaria de cair naquele oceano. Coloquei as moedas num bolso que havia no short que estava vestindo. Por fim, ao olhar ao meu redor, notei que havia alguém junto comigo na barca. Ao meu lado estava uma criatura vestida de negro. Por força de vontade, perguntei onde estávamos, e para onde estávamos indo. Ela nem sequer mexeu-se, e eu também não conseguia ver seu rosto — se é que havia algum ­—. Vi que ela usava um remo para guiar a barca. O remo entrava e saia pelo mar intacto.

Já meio recuperado de forças, e meio receoso aonde íamos, eu ouvi um barulho longínquo. Parecia alguma coisa rangendo, e foi quando paramos em algum lugar, no meio daquela imensidão da gruta. A criatura que remava pegou seu remo e levantou um dos braços contra o ar, fazendo movimentos muito esquisitos. Repentinamente, uma porta abriu-se em pleno ar. A criatura ficou parada, talvez esperando que eu me levantasse. Uma voz, bem nítida gritou através da porta flutuante, dizendo: “Vamos, não tenho o dia todo!”. Por dedução, eu cri que teria que atravessar. Então levantei-me, abri e passei pela porta. Quando olhei para atrás, vi a barca partir para qualquer lugar longe dali, com a criatura vestida de negro.

Lá dentro ainda era quente, mas não como do outro lado. Lá havia um senhor sentado em um sofá vermelho fogo. Ao que parece normal, mas quando olhei seu rosto, havia uma faixa cobrindo seus dois olhos, ou onde deveriam estar. E também havia uma senhora, que era muito esbelta, que chegava a ser esquelética.

— Alguém... poderia me dizer o que está acontecendo? — supliquei.

O senhor fez um movimento com a mão. Pude sentir minhas entranhas se revirarem de ponta cabeça. Minhas lágrimas de dor evaporavam e eu rangia os dentes.

— Cale-se! Estou ocupado! Já começo contigo. — respondeu.

Eu não me lembrava de quem eu era, muito menos do que estava fazendo ali. Então, quando vi a senhora olhando diretamente para mim, resolvi suplicar com os olhos. Pareceu-me que ela tinha entendido e consentido e poderia fazer alguma coisa para me ajudar.