A Variável Não Planejada Parte 2
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Capítulo 6
Durante a noite tive febre altíssima e acabei tendo sonhos estranhos. Em alguns, aquelas criaturas estranhas vinham atrás de mim e conseguiam me pegar me comendo viva. Em outros a cena que Janson me batia e era avisado por uma voz feminina no rádio se repetia, mas não importava quantas vezes aquilo se repetia, eu não conseguia distinguir de quem era a voz.
Acordei toda suada na madrugada, meu braço estava pior do que antes, ele ardia de forma insuportável. Tirei meu casaco e arregacei a manga esquerda.
Meu antebraço estava muito vermelho e inchado, os arranhões estavam até com um pouco de pus.
— Kathy?
Era Winston.
— Você tá bem? – disse com a voz cansada.
— Estar bem é um termo muito relativo...
— Concordo... – deu uma risadinha fraca
— Como estão seus machucados? – perguntei
— Horríveis... e os seus? — o olhei com os olhos arregalados – Nem adianta tentar disfarçar... eu vi...
Suspirei e mirei o chão.
— Tem razão. Esses arranhões ardem pra porra...
— Hum, nem me diga...
— Deixa eu dar uma olhada...
Me aproximei dele e com cuidado ergui sua blusa. Tentei manter a expressão neutra, mas acho que não consegui.
— Tá horrível... não é?
— Nem tanto... hã... pode ser que leve um tempo, mas vai curar...
— Kathy... sabemos o que vai acontecer...
— Não... você não sabe Winston, vamos cuidar de você e vai ficar melhor...
— Você tava lá quando a Paige falou sobre o fulgor... alguns são imunes e outros não... eu posso me tornar um deles...
— Não, pode ser que esteja assim porque não tivemos tempo de limpar o ferimento, mas... podemos tentar achar algo para te ajudar...
— Kathy... temos que estar prontos para o pior... se eu piorar...
— Win...
— Se eu piorar... – ele me calou segurando minhas mãos – me deixem para trás...
— Ainda tem chance de sermos imunes...
— E pode ser que só um de nós seja...
— Não posso perder você Winston... nenhum de nós pode...
— Temos que estar prontos para o que vier... prometa que se eu piorar... vai deixar eu dar um jeito nisso... antes que eu me transforme...
— Tudo bem... – disse com relutância – não importa o que aconteça com qualquer um de nós dois, faremos o que for melhor para todos, mesmo que isso signifique... – minha garganta travou
— Mesmo que signifique a morte de um de nós...
Concordei e mesmo tentando, não consegui segurar as lágrimas, apoiei a minha testa na dele e choramos juntos.
— Sinto muito Winston... por não ter te mandado para o Braço Direito quando tive chance...
— Não se culpe Kathy... poderia ter acontecido em qualquer situação... você não tem culpa de eu não ser imune...
Acordei um pouco assustada com a voz de Thomas, parece que ele estava espantando algo ou alguém. Olhei para os lados e vi que não era nada demais, só um corvo tentando roubar algo da nossa mochila.
Acho que dormimos por umas 5 horas, mas pra mim parecia que tinham sido 5 minutos e que tinha sido atropelada. Meu corpo todo estava dolorido, minha cabeça latejava e meu braço queimava.
Eu ainda não tinha contado o que aconteceu comigo para os outros. Tinha dado um jeito de limpar os ferimentos o melhor que pude, enfaixei do jeito que deu e usava um casaco para esconder, mas eu supunha que deveria falar logo, não queria colocar a vida dos meus amigos em risco caso eu começasse a virar uma daquelas coisas.
Pelo menos Winston já sabia e com nosso acordo, acredito que daria tudo certo... claro, dependendo do ponto de vista.
— Sumiram? – perguntou Newt
— Acho que eles não são muito fãs da luz do dia, pra nossa sorte. – eu disse
— Melhor seguir em frente. – disse Thomas
Começamos a nos levantar e pegar nossas mochilas. Winston teve dificuldade para levantar e Caçarola o ajudou. Aquilo não estava me cheirando bem. Winston não estava com a cara nada boa, eu não podia dizer o mesmo de mim, mas não estava me sentindo tão mal. Meu braço estava doendo e como que febril? Desculpe, não sou médica, mas acho que o garoto estava pior do que eu.
Caminhando à luz do dia pudemos ver o que antes a noite pareciam pedaços de concreto. Havia toda uma cidade a nossa volta, porém, toda degradada, destruída, alguns prédios soterrados na areia, vários destroços pelas ruas, que nem podiam ser chamadas mais de ruas.
— O que será que rolou nesse lugar? – disse Caçarola
— Não sei, mas parece que ninguém vem aqui há muito tempo. – disse Newt
— Por acaso vocês já esqueceram o que aquela vaca da Paige nos disse? – eu comentei – O sol explodiu, as pessoas começaram a ficar doentes, o que acharam que aconteceria com a cidade?
— Oh, peraí! Para. – disse Thomas
Ficamos esperando ele dizer o que estava errado.
— Estão ouvindo?
Sinceramente... eu não ouvi nada, mas fiz a egípcia porque parece que todos tinham ouvido menos eu. Até que Thomas deu a louca e falou para nos escondermos e aí eu vi o que era.
Um avião meio estranho, acho que era para transportar cargas grandes, e dois helicópteros. Já sabem quem eram, não?
— Nunca vão parar de procurar a gente. – disse Minho
— Claro que não. Agora é questão de honra pra eles, fomos o labirinto que mais deu trabalho. – eu disse
Continuamos nossa jornada. Thomas ia na frente e eu estava no meio do grupo com meu ritmo estável, nem tão rápida nem tão lerda. De tempos em tempos Tommy perguntava se estávamos bem. Winston dizia que sim, mas pra mim ele estava sempre preste a cair, por isso fiquei mais pra trás caso algo acontecesse.
Quanto ao meu braço, eu ainda o sentia doer e arder, não conseguia saber se estava quente por causa do sol, por causa da caminhada ou por causa do machucado. Eu torcia pra ser do sol.
Ainda sentia minha cabeça latejar de dor e tempos em tempos sentia ânsia de vômito. Pode ser que fosse por causa do calor, mas também me sentia tonta e de vez em quando minha visão ficava embasada.
Será que estava me tornando um deles???
Depois de passarmos pelos escombros, tivemos que caminhar pela areia. Morros e mais morros de areia, por toda parte.
— Mais um pouco gente! – disse Thomas lá de cima
Quando chegamos ao topo, pudemos ver mais prédio soterrados, mais morros de areia e montanhas bem ao longe.
— Aquelas montanhas, só podem ser elas. – disse apontando – Vamos pra lá.
— Ainda tá longe. – lamentou Newt
— Então é melhor começarmos logo.
Assim que ele acabou de falar Winston deu mais um passo e caiu sem forças. Ainda bem que eu estava alerta e consegui segurá-lo e coloca-lo devagar na areia, mas o ruim foi que tive que fazer força com meu braço machucado, e queimou pra caralho.
— Winston! – gritaram os outros
Ele desmaiou.
— Ele se machucou feio. – disse Caçarola
— O que vamos fazer? – perguntou Teresa para Thomas
— Droga... – disse pensativo
— Vamos ajuda-lo. – eu disse
Fizemos uma “maca” improvisada e nós revisávamos para arrastá-la. Caminhamos por horas, sem tempo para descanso, ainda mais depois que entramos no meio de uma pequena tempestade de areia. Ventos fortes jogavam areia em nossos rostos, era muito difícil respirar e tentar não ter o rosto cortado.
Por mais que eu tentasse me manter firme, meu corpo clamava por descanso. Meu estômago ainda estava se revirando e a vontade de vomitar era cada vez maior. Minhas pernas já estavam querendo desistir de aguentar meu peso. E então, o pior aconteceu, comecei a colocar tudo pra fora.
Nada melhor do que parar de quatro no meio de uma tempestade de areia no sol escaldante.
Meu corpo tremia de tanto esforço que meu estômago fazia pra colocar tudo pra fora, até não ter mais nada. Depois comecei a tossir por causa da areia, minha cabeça doía demais e não conseguia distinguir as silhuetas que apareciam a minha frente nem conseguia ouvir o que diziam. De repente, tudo ficou preto.
Quando acordei já estávamos fora da tempestade. Newt, Minho e Caçarola estavam tirando areia de todos os lugares imagináveis e os inimagináveis.
Assim que fiz menção de levantar senti minha cabeça girar e voltei a deitar soltando um grunhido. Ouvindo isso, os três se viraram pra mim.
— Kathy! – Newt foi o primeiro a me ajudar a sentar
Tentei falar, mas minha boca estava sequíssima, fiz sinais para que eles entendessem do que eu precisava e logo já estavam dando generosos goles d’água. Agora podia falar.
— O que... aconteceu? Cadê o Winston?
— Nós é que temos que te perguntar. – Newt estava bravo – Quando ia me contar sobre isso?
Ele apontou para meu braço esquerdo que agora estava com um curativo novo e parecia arder bem menos.
— Eu...
— Quando ia contar Katherine?!
— Não me chame de Katherine. – disse cerrando os dentes
— Desculpe.
— Você deveria ter nos contado. – só agora eu percebia a presença de Teresa – Só nos deu mais trabalho desmaiando no meio de uma tempestade de areia!
— Ei! – disse Newt irritado
— É a verdade! E pior ainda, e se ela se transformasse? Quando nos contaria? Quando estivesse comendo nossas cabeças?!
— Eu conversei com Winston... – chamei a atenção pra mim de novo – Concordamos que se algo acontecesse, tomaríamos as medidas necessárias para proteger vocês...
— Parece que você teve sorte. – olhei para a garota – Você é imune, pode ser que passou mal por causa do clima e do ferimento, mas não vai se tornar um deles. Seu braço não está podre como aquelas coisas.
Ela nem me deu a oportunidade de dizer algo, saiu logo até onde eu pude ver Thomas observando o horizonte.
— É verdade? – perguntei olhando para meu braço
— É... mas... não podemos dizer o mesmo do Winston... – disse Minho
— Cadê ele?
— Deitado ali. – apontou Caçarola
Olhei para onde ele apontou e Winston parecia estar dormindo.
— Me desculpem...
— Conversaremos melhor sobre isso depois. – disse Newt
Eu podia perceber que ele estava furioso, mas ao mesmo tempo preocupado.
— Ainda falta muito? – Newt gritou para Thomas
— Só mais um pouquinho... – disse Thomas
— Quer dizer que falta muito. – eu disse – Ele é um péssimo mentiroso.
— É. Não foi muito convincente. – disse Newt desanimado
Fechei os olhos e comecei a pensar em tudo o que tinha feito até ali. O que aconteceria com Winston? Por que tinha que ser desse jeito? Por que nos selecionar assim? E aí, veio o tiro.
— Ei! – gritou Newt – Gente chega aqui em baixo.
Thomas e Teresa desceram correndo. Era Winston. Já podem imaginar o que ele planejou fazer.
Era uma confusão de vozes. Thomas tentou se aproximar do Winston, mas ele começou a vomitar sangue. Eu sabia o que viria agora, e não seria fácil.
— Se afastem! – eu disse me levantando – Winston...
— Tá... aumentando... – disse ofegante levantando a blusa – Dentro de mim... – seus olhos me olhavam suplicantes
Me aproximei dele vagarosamente, ainda não estava 100%. Me sentei ao seu lado e acariciei seus cabelos.
Sua barriga estava roxa, as veias eram aparentes, mas não estavam normais, sua pele estava com aparência de podre. Ele estava morrendo.
Winston abaixou a blusa, soltou o ar num suspiro profundo e olhou pra mim.
— Eu não vou conseguir... – disse num sussurro – Por favor... não me deixa virar uma daquelas coisas... por favor Kathy...– ele implorou olhando no fundo dos meus olhos
Todos ficamos em silêncio. Estávamos receosos com o que tínhamos que fazer. Sabíamos que era preciso, mas não tínhamos força pra isso...
— Me dá... – mesmo falando baixinho eles me ouviram, mas Caçarola hesitou
Newt pegou o revólver da mão dele e o direcionou a mim.
— Peraí, Newt...– Thomas tentou protestar
— Podem ir na frente... – eu disse determinada com uma mão onde ficava o coração do Winston
— Kathy... – tentou Thomas de novo
— Vão na frente! – disse olhando dura pra ele – É o nosso acordo... – suspirei — Por favor...
De um em um, os garotos da clareira foram dizendo o seu adeus a mais um amigo. Thomas foi o último a ir depois de pedir desculpa.
Nesse meio tempo, tentei me preparar para o que iria acontecer, mas percebei que nunca estaria pronta para matar um amigo.
— Você não precisa fazer isso Kathy... – disse ele alcançando minha mão que estava em seu peito
— Eu sinto muito Winston... sinto muito mesmo... – disse acariciando seu rosto
— Tá tudo bem... pelo menos eu protegi vocês...
— Você foi muito corajoso, Winston... sempre foi... não é à toa que era o encarregado dos retalhadores... – tentei dar um sorriso em meio às lágrimas
— Vocês foram a melhor família que eu... poderia ter...
— Não vamos te esquecer...
— Sei que não... lembre sempre das minhas piadas ruins...
— Pode deixar.
Ele pegou a arma da minha mão, e então, entendi que ele precisava fazer isso. Acomodei sua cabeça no chão e me preparei para ir embora. Dei uma última olhada pra ele.
— Vou contar ao Chuck e ao Alby tudo o que fizemos... – disse dando um sorrisinho
— Sei que vai... – disse segurando as lágrimas
— Cuida deles Kit Kat...
Não consegui responder com palavras, apenas assenti e lhe dei um beijo na testa. Me virei e comecei a andar para onde os outros tinham ido.
Não sei por quanto tempo andamos, pareceu uma eternidade, eu estava atenta para quando ouviria o tiro. Mas, mesmo atenta, fui pega de surpresa quando ouvi o disparo.
Estávamos andando em fila, uns um pouco distantes dos outros. Eu era a última e quando ouvi o barulho tão temido, minhas pernas fraquejaram e cai de joelhos na areia.
Thomas veio me ajudar a ficar em pé, fiz o que pude para não ser um estorvo (de novo) para o grupo. Depois que recuperei as forças das pernas só continuei andando ao lado dele com as mãos entrelaçadas, mas minha mente estava em outro lugar.
Me lembrava de tudo o que passamos na clareira, nas vezes que Winston veio à enfermaria com cortes nos braços ou dedos.
Mais um para sentir saudades.
Mais um membro da família se foi.
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