Notas iniciais
1 Referência ao capítulo 7 (A caçada) do anime original: https://www.youtube.com/watch?v=v3w97D59DMU


O mar estava tranquilo naquela manhã.


O barco de Gen avançava suavemente sobre as ondas. Durante algumas horas, parte da equipe da Base da Ilha Akane podia deixar de lado radares, pesquisas, reuniões e a ameaça da Horda Merodak.


Gen parecia particularmente à vontade.


- Antes de trabalhar com a equipe da Base da Ilha Akane, eu era pescador. Essa era a minha profissão. Passei muitos anos no mar e conheço bem estas águas.


Sabu olhou para ele.


- Isso explica muita coisa.


Gen franziu a testa.


- O que explica?


Sabu:


- Você sempre fala como se ainda estivesse pescando.


Ippei riu:


- Deixa o homem. Ele conhece o mar.


- Finalmente alguém reconhece — disse Gen.


Thallus observava Gen com interesse.


- A experiência profissional certamente deve ser importante para determinar os melhores locais de pesca.


Gen abriu um sorriso:


- Exatamente. É preciso saber observar o mar, conhecer as correntes e entender o comportamento dos peixes.


Sabu assentiu com seriedade exagerada:


- Então estamos em boas mãos.


Gen sorriu:


- Finalmente você entendeu.


Sabu:


- Só falta o peixe.


Ippei começou a rir.


Gen balançou a cabeça.


- Pesca exige paciência.


- Então você está tranquilo — respondeu Sabu. — Afinal, já está esperando há bastante tempo.


Joe, Rita e Liriana riram.


Gen olhou para Sabu, já desconfiado.


- Você está muito engraçadinho hoje.


Sabu:


- Eu estou apenas prestando atenção na demonstração do especialista.


Thallus continuava acompanhando a conversa.


- Tecnicamente, ainda não houve nenhuma demonstração de talento.


Gen olhou para ele, meio que irritado com a afirmação. O que não passou despercebido por Sabu que abriu um sorriso:


- Tá vendo? Até ele percebeu.


Gen soltou um suspiro.


- Vocês não têm jeito, nunca reconhecerão o meu talento.


Liriana olhou para Rita.


- É este o barco?


Rita voltou-se para ela.


- Este?


- O barco onde aconteceu aquela história do tubarão¹.


Joe imediatamente olhou para Rita. Sabu e Ippei também prestaram atenção. Gen percebeu o assunto igualmente e já parecia saber que aquilo não terminaria bem.


- Ah, essa história...


Liriana sorriu:


- Rita me contou que houve um acidente durante uma pescaria.


- Houve mesmo — disse Ippei.


Sabu acrescentou:


- E foi uma confusão.


Gen tentou se defender.


- Eu estava tentando controlar a situação.


- Você derrubou todo mundo — disse Ippei.


Gen:


- Foi um acidente.


- Você praticamente passou por cima de nós — completou Sabu.


Gen:


- Eu estava tentando pegar o tubarão!


Sabu ficou olhando para ele:


— Você trouxe o tubarão para o barco ou o tubarão saltou para cima de você?


Gen percebeu a armadilha:


- Não foi exatamente isso que eu quis dizer.


Joe, Rita , Ippei e Liriana começaram a rir. Enquanto Thallus prestava atenção naquela curiosa interação humana.



Gen apontou para eles:


- Qual é a graça?


Sabu abriu um sorriso:


- Nenhuma. Só estou lembrando que o grande pescador precisava de ajuda para trazer um peixe para o barco.


Gen estreitou os olhos:


- Eu não precisava de ajuda.


Sabu:


- Ah! Não?


Gen num tom meio orgulhosa:


- Não, eu estava mantendo tudo sob controle.


Sabu pensou por um instante.


- Então talvez você só precisasse de alguém para impedir que você caísse no mar.


Gen ficou mais ainda expressão séria.


- Vem cá, seu moleque! Você vai ver!


Sabu levantou-se e saiu correndo pelo convés.


-Ver o quê? Você me pegar? Hahaha!



Joe continuou rindo, enquanto Rita balançou a cabeça também achando graça de tudo aquilo.


- Eles continuam exatamente iguais.


Liriana observava a perseguição com um sorriso, especialmente em Sabu.


Thallus também acompanhou Gen e Sabu por alguns segundos, antes de voltar sua atenção para Rita.


- E o que aconteceu depois?


Rita respirou fundo, e tentou explicar tendo os impropérios entre Gen e Sabu como barulho de fundo da conversa.


- Bem, Thallus, o que aconteceu foi que o tubarão saltou para dentro do barco. Gen perdeu o equilíbrio e caiu no mar. Joe pegou uma faca de pescador, mergulhou para salvar Gen e matou o animal.


(Para de correr, Sabu!). (Você está ficando velho, hein,Gen?!)


Rita continuou:

- Quando vi o sangue na água, achei que Joe tivesse sido devorado.


(Eu vou mostrar quem está velho!). (Vai ter que me pegar primeiro!).


Rita:

- O susto foi tão grande que acabei perdendo a consciência...



Sabu e Gen imediatamente se intrometeram, ao fundo, enquanto a perseguição continuava


- Ela desmaiou!!!


- Na mesma hora!!!!


Rita olhou para os dois.


- Vocês poderiam colaborar menos, por favor?!


Joe sorriu.


- E quando você acordou...


(Vem cá, seu moleque!) . (Não posso, não tá vendo que tô correndo?!)


Rita percebeu o que ele pretendia dizer.


- Joe...


- Você me confundiu com Kent.


Liriana:


- O seu primeiro, namorado?!


Rita ficou um pouco desconcertada.


- Foi um momento de confusão.


Joe sorriu:


- Uma confusão bastante específica.


Liriana olhou para Rita, divertida.


( Eu vou pegar você, Sabu! ). ( Tenta! )


Rita respirou fundo.


- Foi uma situação muito estranha.


Joe olhou para ela.


- Para mim, foi uma situação bastante "interessante"...


Rita ergueu uma sobrancelha.


- Interessante? Joe, eu não sabia o que estava vendo.


Joe desviou os olhos para o horizonte.


- Entendo.


Liriana pressentiu algo naquelas entrelinhas de Joe, algo que pudesse ser entendido como uma pequena manifestação de ciúme.


Thallus, por sua vez, parecia mais interessado em outra questão.


- Há algo que não compreendo.


Joe olhou para ele.


- O quê?


-Quando Rita começou a nos explicar os costumes dos terranos, ela falou sobre alimentação, trabalho, relações sociais e comportamento familiar.


(Pare de fugir, Sabu!) (Você que não consegue me pegar!)


Thallus continuou, apontando para Gen e Sabu:


-Mas não me lembro de ela ter mencionado 'ESSE' — Thallus colocou mais ênfase aqui- tipo de comportamento. Por que você omitiu essa característica?


Liriana não conseguiu segurar a risada.


- Rita olhou para o outro lado do barco, onde Sabu corria pelo convés, com Gen furioso atrás dele.


(Volta aqui!) (Se conseguir me pegar, eu paro!)


Rita sorriu.


- Porque entender esses dois, especialmente Sabu, não é para principiantes.



Sabu:


- EU OUVI ISSO!!!


Joe caiu na gargalhada. Ippei também. Liriana abaixou o rosto, rindo


Gen, ainda correndo atrás de Sabu, gritou:


- E EU TAMBÉM OUVI E CONCORDO!!!


Por alguns minutos, naquele barco, não havia 'Horda Merodak', 'Grande Almirante' e nem ameaça de guerra. Havia apenas velhos e novos amigos, um mar tranquilo e uma pescaria que, como tantas outras coisas naquela equipe, acabara virando motivo para uma boa briga.



Aos poucos, a perseguição entre Gen e Sabu terminou. Gen desistiu de alcançá-lo, ainda resmungando, enquanto os demais continuavam rindo.


O barco seguia tranquilamente sobre o mar, e por alguns instantes, tudo voltou ao normal.


Então Gen percebeu alguma coisa.


- Esperem.


Todos olharam para ele.

- O que foi, Gen? — perguntou Joe.


Gen apontou para o mar.


- O barco parou.


Joe olhou para trás. O motor continuava funcionando, mas o barco não avançava.


Gen verificou rapidamente os controles.


- O motor está funcionando normalmente.


Thallus olhou para a água.


- As ondas também diminuíram.


Rita ficou em silêncio.


O vento continuava soprando, mas o mar havia se tornado estranhamente liso. Nenhuma onda batia contra o casco e nenhuma corrente parecia movimentar a superfície.


Sabu deixou de sorrir.


- Isso não é normal.


De repente, todos ouviram um ruído. Um som grave, vindo de algum lugar sob o barco.


Gen se levantou.


- O que foi isso?


Ninguém respondeu. O som desapareceu, e por alguns segundos, houve apenas o ruído do motor.


Então o barco sofreu um violento solavanco.


- Segurem-se! — gritou Gen.


O casco inclinou-se bruscamente.


Todos tentaram se agarrar ao que encontravam pela frente.


- Cuidado!


O barco virou.Todos caíram na água. Por alguns segundos, houve apenas confusão, gritos e respingos.


Então...


Silêncio.


Joe emergiu primeiro.


- Todos estão bem?


- Sim! — responderam quase ao mesmo tempo.


Rita apareceu ao lado dele. Liriana, Thallus, Sabu, Ippei e Gen também conseguiram se manter próximos ao casco virado.


Joe olhou para o mar e notou que as ondas haviam voltado, assim como o vento agitava novamente a superfície.


Tudo parecia absolutamente normal.


Gen olhou para a embarcação virada.


- O que aconteceu?


Thallus não respondeu. Parecia tão confuso quanto os demais.


Sabu apontou para longe.


- Esperem! Olhem ali!


Um pequeno bote salva-vidas havia se soltado do barco.


Por sorte, permanecera flutuando.


Joe nadou até ele.


- Vamos todos para lá.

Um a um, eles conseguiram embarcar.


Joe assumiu os remos.


Depois de alguns minutos, a praia já podia ser vista ao longe.


Ninguém dizia muita coisa. Aquela brincadeira que havia começado poucos minutos antes parecia ter acontecido em outro mundo.


Quando chegaram à praia, Joe saltou do bote e ajudou os outros a desembarcar.


Joe:

- Todos estão bem?


- Sim!


Joe respirou fundo.


Olhou uma última vez para o mar.


- Vamos para a base. Temos que explicar ao Professor Tobishima o que aconteceu.


Ninguém discordou.


Eles começaram a caminhar pela praia. Atrás deles, o mar continuava completamente normal.


Como se nada tivesse acontecido.


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SALA DE COMANDO — BASE DA ILHA AKANE


Joe terminava de relatar o que havia acontecido.


- ... então foi tudo isso que aconteceu, Professor.


Tobishima permaneceu pensativo por alguns instantes.


- Sem dúvida, muito estranho. O que você acha, Sr. Sólus?


Sólus consultou alguns dados em seu terminal.


- Estou acompanhando os relatórios de vigilância no entorno das ilhas do arquipélago de Izu, especialmente nas ilhas mais próximas de Akanejima. Até agora, não houve registros de atividades estranhas, tanto no ar quanto no mar.


Tobishima assentiu.


- Bem, nessa época do ano, as jubartes vêm para dar à luz perto das ilhas. É possível que uma baleia desse porte tenha se comportado de maneira agressiva para proteger um filhote, caso tenha considerado a traineira uma ameaça.


Joe franziu a testa.


- Mas, Professor Tobishima, não foi um ataque de baleia. Eu me lembro de que o barco ficou imóvel misteriosamente, mesmo com o motor ligado. E o mar, mesmo com o vento, não ficou agitado. Foi como se tivesse ficado paralisado por alguns instantes.


Rita assentiu.


- Joe está certo, professor. O que aconteceu parece mais compatível com algum tipo de fenômeno eletromagnético.


Joe permaneceu pensativo:


- Eu ainda acho que a Horda está por trás disso.


Tobishima olhou para ele:


- Compreendo. Foi a primeira coisa em que pensei também. Mas, como não há evidências nos registros de vigilância, preciso considerar outras explicações.


Joe não pareceu convencido:


- Mas, professor, a Horda foi capaz de ludibriar nossos sistemas de rastreamento e alterar seus trajetos. Por que não poderia enganar nossos radares de vigilância?


Sólus concordou:


- É algo bastante plausível.


Tobishima pensou por alguns segundos:


- Muito bem. Façamos o seguinte. A Marinha está investigando toda a área do arquipélago de Izu desde o início deste conflito. Continuarei me comunicando com eles e, se surgir alguma anomalia, mandarei o Pirata do Espaço investigar através do Tubarão Pirata. Vocês dois permaneçam atentos e preparados.


- Sim, senhor.


Tobishima então olhou para Sólus:


- Senhor Sólus, você me disse que, excluindo aquela réplica da nave da época de Geldon que realizou o primeiro ataque, a Horda costuma utilizar cinco robôs-bombas em seus ataques.


Sólus assentiu.


- Sim.


- Um deles já foi utilizado. Fale-me sobre os outros quatro.


-Desde muito tempo, a Horda, como já expliquei, utiliza alguns robôs-bombas para iniciar seus ataques ou atacar um planeta em vários pontos ao mesmo tempo, ou se focar um ponto de maior resistência, neste caso, o Pirata do Espaço seria esse ponto, e ao longo de sua história, a Horda também perdeu alguns robôs, construiu e reconstruiu outros tantos. Por isso, a quantidade sempre variou entre cinco e oito naves.


No painel central, surgiram imagens de cinco robôs-bombas. Quatro permaneciam coloridos. O quinto, o 'Lepidoros', aparecia sem cores, indicando que já havia sido destruído.


Sólus prosseguiu:


- Mas, nos últimos casos, conforme os dados que a Inteligência Gailariana me enviou, a Horda tem utilizado estes cinco robôs-bombas. O não significa que mais não estejam sendo construídos.


Tobishima observou as imagens.


Sólus fez uma breve pausa:


- Se me perguntarem se existe algum desses robôs-bombas seria capaz de supostas manobras aquáticas de natureza extremamente furtiva, que eu diria...


Ele apontou para uma das imagens.


- ... este tipo aqui.


Sólus apontou para uma das imagens, um robô-bomba em forma de arraia.


— Este é o Mobula.

Tobishima observou a máquina.


— Um robô-bomba aquático?


— Exatamente. Sua configuração foi desenvolvida para operações no mar, embora também possa voar. Pode permanecer submerso por longos períodos, aproximar-se de seus alvos sem ser detectado e atacar de surpresa.


Sólus ampliou a imagem.

— O último piloto conhecido foi o Capitão Rostris, do planeta Mylion.


No painel, a imagem do Mobula foi substituída pelo registro de seu piloto.


Rostris tinha a pele azul-esverdeada, marcada por pequenas manchas alaranjadas, uma cabeça alongada e duas grandes estruturas laterais semelhantes a nadadeiras. Seus olhos grandes e escuros, de tonalidade castanho-avermelhada, davam-lhe uma expressão fria e desconfiada. Vestia o uniforme escuro da Horda Merodak, com placas metálicas leves, cinturão de equipamentos e proteções nos braços e nas pernas.


Tobishima, Joe e Rita observaram a imagem por alguns instantes.


Rita:

— Ele era um militar antes de entrar para a Horda?


Sólus:

— Não. Rostris era um contrabandista espacial. Um criminoso habilidoso, acostumado a operar sozinho e a assumir riscos que poucos da laia dele aceitariam.


Tobishima voltou-se para Sólus:


— E como ele acabou trabalhando para a Horda?

— Kletus tinha interesse em suas habilidades. Quando a Horda atacou Mylion, Rostris não apenas colaborou com os invasores. Ele os ajudou a entrar em seu próprio planeta.

Tobishima pareceu surpreso:


— Contra o próprio povo?

— Sem qualquer remorso.

Sólus fez uma breve pausa:

— A Horda já possuía o Mobula. Kletus sabia que aquela máquina poderia ser uma recompensa adequada para um piloto como Rostris.

Tobishima compreendeu.

— Então ele ofereceu o Mobula a Rostris e uma patente alta na Horda Merodak.

— Sim. Como um simples presente, que na verdade, foi uma recompensa.

Sólus voltou os olhos para a imagem.

— Foi o pagamento de Kletus. Uma maneira de transformar um colaborador ocasional em um membro permanente da Horda.


Tobishima permaneceu em silêncio por alguns segundos.


— Inteligente.— Admitiu Tobishima — Kletus sabia que Rostris não era leal a Mylion. Era leal às próprias vantagens. Dar-lhe uma máquina como o Mobula significava oferecer exatamente aquilo que ele procurava.


Sólus então completou:


— Esse é um aspecto importante da Horda Merodak. Nem todos os seus recrutas são conquistados da mesma maneira. Alguns são capturados. Outros são resgatados de prisões espaciais. E alguns são atraídos pelo que a Horda pode oferecer.


Rita resume:

— Poder. Liberdade. Butim.

Sólus apontou novamente para o Mobula.

— Para Rostris, o Mobula foi suficiente.


Joe:


— Ele tem um estilo de combate?


Sólus olhou para Joe por alguns instantes.


— É interessante que tenha me feito essa pergunta. E minha resposta é sim, um estilo bem peculiar, se me permite dizer.


Sólus voltou-se para o painel.


— Rostris gosta de terror psicológico. Ele não ataca de uma vez. Monta tocaias e faz ataques curtos e precisos, como se quisesse provocar seus inimigos e fazê-los perder o juízo.


Joe permaneceu atento.


— Então, se o ataque à traineira foi obra de Rostris, devemos esperar mais ataques desse tipo?


— Exatamente.


Rita franziu a testa.


— Quando você fala em mais ataques desse tipo, significa ataques a barcos, vilarejos costeiros e até mesmo à nossa base?


Sólus fez uma breve pausa.


— Receio que sim, Srta. Rita.


Ele voltou os olhos para o painel.


— Rostris é imprevisível.


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ILHA AKANE — VILA DE PESCADORES


A manhã transcorria normalmente em uma pequena vila de pescadores da Ilha Akane.


Barcos retornavam do mar. Outros se preparavam para partir. Pescadores carregavam caixas, verificavam redes e conversavam enquanto os motores das embarcações começavam a funcionar.


Então, sem qualquer aviso, o mar parou.


Os barcos permaneceram imóveis, apesar dos motores continuarem funcionando.


Ninguém compreendeu o que estava acontecendo.


Um pescador olhou para o motor de sua embarcação.


— O que está acontecendo?


Outro barco tentou avançar.


Nada.


Então, de repente, um forte baque veio debaixo da água.


O impacto atingiu todas as embarcações praticamente ao mesmo tempo.


Os barcos estremeceram. Alguns perderam o equilíbrio. Outros tiveram seus cascos danificados. Motores foram arrancados de seus suportes e equipamentos caíram no convés.


Antes que os pescadores pudessem reagir, algo os atingiu por baixo.


Um após outro, foram tragados para o mar.


Em poucos instantes, não havia mais ninguém nos barcos.


A superfície voltou a ficar silenciosa.



O mesmo aconteceu em outros pontos do arquipélago.


Barcos de pesca desapareciam sem explicação.


Em algumas ilhas, embarcações eram encontradas à deriva, com os motores ainda funcionando.


Em outras, simplesmente não havia sobreviventes.


Os incidentes se multiplicaram rapidamente nas proximidades de Akanejima e das ilhas vizinhas.


Não demorou para que as primeiras informações chegassem à Base da Ilha Akane.


SALA DE COMANDO


Tobishima chamou Joe e Rita imediatamente.


— Vários incidentes estão acontecendo com barcos de pesca perto da Ilha Akane. E não acredito que isso seja obra de baleias jubartes.


Joe e Rita permaneceram atentos.


— Quero que vocês vão com o Pirata do Espaço e façam uma varredura em toda a área.


— Sim, senhor.


Pouco depois, o Pirata do Espaço decolou de sua pista submarina.


A gigantesca máquina emergiu do mar e tomou rapidamente o céu do arquipélago, iniciando uma ampla varredura de toda a extensão da costa da Ilha Akane e das ilhas vizinhas.


Joe e Rita sobrevoaram os locais onde os incidentes haviam ocorrido.


E então viram.


Destroços espalhavam-se pelo mar.


Embarcações destruídas permaneciam à deriva.


Nas praias da região, corpos de pescadores eram trazidos pelas ondas.


Rita levou a mão à boca.


— Meu Deus, Joe...


Ela permaneceu alguns segundos sem conseguir continuar.


— Isso... isso é muita crueldade.


Joe apertou os controles.


— Seja lá quem for esse miserável, ele vai pagar por cada vida.


Joe olhou para os instrumentos.


— Rita, vou fazer uma busca com o Tubarão Pirata. Com você aqui em cima e eu lá embaixo, aumentaremos nossas chances de encontrar esse assassino.


Rita imediatamente percebeu o risco.


— Tome cuidado, Joe. Pode ser uma armadilha para nos atrair.


— Pode ser.


Joe olhou para o mar abaixo deles.


— Mas ele vai se arrepender de tudo isso quando nós o encontrarmos.


Joe acionou um comando.


Sua poltrona começou a descer pelo interior do Pirata do Espaço, atravessando os compartimentos internos da máquina até chegar à pequena cabine do Tubarão Pirata.


A nave submarina foi liberada por um compartimento localizado sob a asa do Pirata do Espaço.


Caiu no mar.


Por alguns segundos, permaneceu imóvel na superfície.


Então seus propulsores foram acionados.


O Tubarão Pirata mergulhou.


E desapareceu nas profundezas.


---



O Tubarão Pirata avançava lentamente pelas profundezas.


A luz do dia desaparecia pouco a pouco acima de Joe.


No interior da pequena cabine, os instrumentos permaneciam estáveis.


Joe observava o sonar.


Nada.


Apenas o relevo submarino.


Ele avançou mais alguns metros.


Nada.


Então um sinal apareceu.


Um ponto luminoso surgiu no monitor.


Joe estreitou os olhos.


— O que é isso?


O sinal desapareceu.


Joe reduziu a velocidade.


Esperou.


Nada.


Voltou alguns metros.


O ponto reapareceu.


Desta vez, por apenas alguns segundos.


Joe acionou o sistema de rastreamento.


— Vamos ver onde você está.


O sonar começou a varrer a região.


Nada.


Joe franziu a testa.


O sinal havia desaparecido novamente.


Então percebeu uma coisa.


O ponto não estava se afastando.


Estava parado.


Joe olhou para o monitor por alguns segundos.


— Estranho...


Ele avançou na direção indicada.


O sonar continuou silencioso.


De repente, uma sombra atravessou a tela.


Joe imediatamente parou o Tubarão Pirata.


— Quem está aí?


Nenhuma resposta.


Ele fez uma nova varredura.


Nada.


Joe começou a olhar ao redor pela pequena janela frontal.


A escuridão era quase completa.


Então alguma coisa passou diante dele.


Rápida demais para ser identificada.


Joe virou o Tubarão Pirata.


Nada.


Seu coração acelerou.


— Apareça...


Silêncio.


O sonar emitiu um sinal.


Joe olhou para o painel.


Um objeto estava atrás dele.


Ele virou rapidamente.


Nada.


O sinal desapareceu.


Joe respirou fundo.


Então ouviu um ruído metálico.


Toc.


Outro.


Toc.


Como se alguma coisa estivesse batendo lentamente no casco.


Joe ficou imóvel.


— Isso não é possível...


Toc.


Desta vez, o som veio debaixo da cabine.


Joe olhou para os instrumentos.


Nenhuma indicação de contato.


Nenhuma alteração no sonar.


Mas o som continuava.


Toc.


Toc.


Toc.


Joe desligou momentaneamente os propulsores.


O Tubarão Pirata ficou completamente parado.


O ruído cessou.


Joe esperou.


Nada.


Ligou novamente os propulsores.


Toc.


O som voltou.


Joe compreendeu.


Aquilo estava acompanhando seus movimentos.


Ele acelerou.


O ruído desapareceu.


Joe diminuiu a velocidade.


Toc.


Parou.


Silêncio.


Joe olhou para o sonar.


— Está me seguindo...


Nesse instante, uma forma enorme passou rapidamente pela frente do Tubarão Pirata. Joe recuou a pequena nave e uma silhueta desapareceu na escuridão. Ele tentou acompanhá-la.


Nada.


Então, no sonar, surgiu um sinal.


Um segundo depois, outro.


E outro.


Joe olhou para o painel.


Três sinais.


Depois quatro.


Todos ao redor dele.


Joe tentou identificar as posições.


Os sinais desapareceram simultaneamente.


A cabine ficou em silêncio, no momento em que Joe percebeu então que havia cometido um erro, já que ele não estava procurando alguma coisa, mas alguma coisa estava procurando por ele.


E, muito acima das profundezas, Rita continuava sobrevoando a região sem saber que Joe havia acabado de entrar em uma armadilha.



Em baixo d'agua, Joe percebe que talvez Rostris esteja usando um sistema de contramedidas acústicas capaz de emitir sinais que confundem sonares e fazem um único objeto parecer estar em várias posições, através de ecos falsos.


O contato desapareceu outra vez. Joe manteve os olhos no sonar, mas não havia como uma nave daquele tamanho simplesmente desaparecer.


Ele observou o relevo submarino.


— Não desapareceu.


Rita, acompanhando os dados do Pirata do Espaço, perguntou:


— O que foi?


— Está usando o fundo do mar.


Joe ampliou a leitura.


— Há uma formação rochosa logo à frente. Se ele entrou naquela depressão, o relevo pode estar interferindo no retorno do sonar.


Rita ficou em silêncio por um instante.


— Então você acha que ele está escondido ali?


Joe não respondeu imediatamente.


— Acho que ele quer que eu pense isso.


O Tubarão Pirata avançava lentamente entre as formações rochosas, com Joe mantendo os olhos no sonar.


Nenhum contato.


Ele observou o relevo à frente.


Uma enorme depressão se abria no fundo do oceano, descendo até uma região onde a luz já não alcançava.


Joe reduziu a velocidade.


— Se ele estiver aqui, não vai aparecer no sonar.


Subitamente, todos os instrumentos do Tubarão Pirata oscilaram.


Joe levou a mão aos controles.


— O quê...?


As luzes do painel piscaram.


O motor perdeu potência.


O Tubarão Pirata parou.


Joe tentou religar os propulsores.


Nada.


— Vamos...


Tentou novamente.


Nenhuma resposta.


Joe olhou para os instrumentos.


— Interferência eletromagnética?


Então percebeu uma sombra enorme passando diante da cabine.


Seus olhos se arregalaram.


— Então você estava aí!


Joe acionou os propulsores.


O Tubarão Pirata continuava imóvel.


A sombra desapareceu.


Joe olhou rapidamente para todos os lados.


Nada.


Então, de repente;


"BOOOOM"!


Uma violenta pancada atingiu o Tubarão Pirata por baixo.


A pequena nave foi arremessada para cima e começou a rodopiar descontroladamente.


— Argh!


Joe tentou recuperar o controle.


O Tubarão Pirata girava sobre si mesmo, descendo em espiral.


Joe agarrou os controles.


— Segura!


A depressão do fundo oceânico aproximava-se rapidamente.


Ele tentou estabilizar a nave.


Os comandos não respondiam.


— Vamos! Vamos!


O Tubarão Pirata mergulhou cada vez mais.


Acima dele, muito distante, Rita percebeu a alteração no sinal.


— Joe?


O marcador do Tubarão Pirata desapareceu de sua tela.


— Joe!


Rita aproximou o Pirata do Espaço da região.


— Joe, responda!


Nenhuma resposta.


Ela olhou para o oceano abaixo.


— Joe!


O Tubarão Pirata desapareceu na escuridão da fossa submarina.


Rita apertou os controles.


— Joe!


Então, sem qualquer aviso, vários projéteis romperam a superfície do oceano.


''FSSSH! FSSSH! FSSSH''!


Mísseis subiram da água em direção ao Pirata do Espaço.


Rita percebeu o ataque no último instante.


— Mísseis!


Ela puxou os controles.


O Pirata do Espaço realizou uma rolagem brusca, mas os projéteis já estavam próximos.


''BOOM! BOOM! BOOM''!


As explosões atingiram a parte inferior da máquina. O Pirata do Espaço foi violentamente sacudido, mas Rita conseguiu recuperar o controle, mas olhou imediatamente para o painel.


O sinal do Tubarão Pirata continuava ausente.


— Joe...


Ela apertou o comunicador.


— Joe! Responda!


Silêncio.


Rita olhou novamente para a superfície escura do oceano.


Pela primeira vez desde que iniciara aquela missão, percebeu que não estava mais procurando um inimigo. Estava tentando encontrar Joe.


O Tubarão Pirata continuava descendo em espiral.


Joe lutou contra os controles.


— Vamos...vamos... estabilize!


A pequena nave respondeu lentamente aos comandos.


Joe corrigiu a inclinação, acionou os propulsores e conseguiu recuperar o controle.


O Tubarão Pirata parou de girar.


Joe respirou fundo.


Então ouviu Rita pelo comunicador.


— Joe! Você está bem?


— Estou.


Joe verificou rapidamente os instrumentos.


— O Tubarão Pirata está funcionando.


Rita soltou o ar, aliviada.


— Graças a Deus...


Joe olhou para o sonar.


— E você?


— Fui atacada.


Joe ficou sério.


— O quê?


— Mísseis saíram do mar e atingiram a parte inferior do Pirata do Espaço. Consegui evitar danos maiores.


Joe apertou os controles.


— Então foi ele...


— Joe, tome cuidado. Pode ser exatamente isso que ele queria.


— Eu sei.


Joe iniciou uma nova varredura.


— Mas agora ele cometeu um erro.


— Que erro?


— Atacou você.


A voz de Joe havia mudado.


Rita percebeu.


— Joe...


— Fique aí em cima. Vou encontrá-lo.


— Não se arrisque.


— Não vou.


Joe acelerou o Tubarão Pirata.


O pequeno submarino avançou pelas profundezas, percorrendo a região onde acreditava que o Mobula estivesse escondido.


Joe examinava o sonar.


Nada.


Mudou de direção.


Nada.


Subiu alguns metros.


Depois voltou a descer.


Nada.


O Mobula havia desaparecido.


Joe ampliou o alcance dos sensores.


— Vamos...


Percorreu uma nova área.


Nenhum sinal.


Nem uma sombra.


Nem um eco.


Nada.


Joe continuou procurando.


Minutos se passaram.


Rita também fazia sua própria varredura do alto, acompanhando a região por diferentes ângulos.


— Joe, não estou conseguindo detectar nada.


— Eu também não.


Ele continuou avançando.


Mais uma vez, nada.


O Mobula havia simplesmente desaparecido.


Fora do alcance dos sensores de Rita.


Fora do alcance dos sensores de Joe.


Joe permaneceu em silêncio por alguns instantes.


Então compreendeu.


Aquela conclusão não lhe agradou.


— Esse maldito...


Rita ouviu pelo comunicador.


— O que foi?


Joe manteve os olhos fixos no sonar.


— Ele está brincando com a gente.


O Tubarão Pirata continuou avançando pela escuridão.


Mas Rostris já não estava mais ali.


Tinha desaparecido.



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BASE DA HORDA MERODAK — SALA PARTICULAR DE KLETUS


Kletus permanecia diante de um grande painel virtual, observando os registros da operação, até que uma outra tela de comunicação apareceu dentro do mesmo painel apareceu.


Rostris fez sua saudação:


— Jakrol-mêlzh...

(Grande Almirante...)


Kletus não tirou os olhos dos registros na outra parte do painel imediatamente:


Almirante Kletus:

— Rostris-kapozh...

(Capitão Rostris...)


Rostris:


— Jakrol-mêlzh... mnezh-anvha plan-zh akkurat begyzh-vha!

(Grande Almirante... a operação conforme o nosso plano exatamente começou!)

Kletus finalmente voltou os olhos para ele.


Almirante Kletus:

— Fort-sezh-va.

(Prossiga.)


— Arzh-emvha för-ut-sezh-va zone-zh Groizer entrzh-vha. Sjö-haj-zh Styr-mêlzh ned-gå-zh, czezh-ivh arzh-emvha lammzh-vha. Efter-zh, huvud-skip-zh arzh-emvha belligzh-vha.


(O Pirata do Espaço entrou na área que eu esperava. O piloto desceu com o Tubarão Pirata e eu consegui paralisá-lo. Depois, ataquei a nave principal).


Rostris esboçou um sorriso, e prossegue:


— Arzh-emvha vazh-sh lazh-st diizh-n an-ing-zh vet-zh nietzh-klo.

(Eles não tiveram a menor ideia de onde eu estava).


Kletus permaneceu em silêncio.


Rostris continuou:


— Mer-zh diizh-n arzh-emvha för-ut-sezh-va er-kännzh-vha. Klok-zh-mer arzh-emvha lazh-st.

(Confesso que esperava mais deles. Fui mais esperto).


Kletus o observou por alguns segundos.


— Hvir-zha stolt-zh-fel... Rostris... akt-zh-va.

(Com a sua prepotência... Rostris... cuidado.)


O sorriso desapareceu lentamente do rosto do capitão.


Kletus voltou-se para o painel.


— Hvir-zha en-gang över-raskzh-vha fiend-zh, fel-zh gjen-vetzh-vha lazh-st. Dess-utom, Groizer tre-n styr-mêlzh nietzh-klo, helzh-vha hjälp-unit-zh lazh-st, diizh-n saml-zh-va velzh-vha vetzh-vha.

(Um inimigo que você consegue surpreender uma vez pode aprender com o próprio erro. Além disso, o Pirata do Espaço não se resume a dois pilotos, mas também a toda uma equipe de suporte, que estará sempre analisando e aprendendo também).


Rostris permaneceu calado, e Kletus continuou:


— Bellig-operazh segr-zh hvir-zha villzh-vha-niet.

(Não confunda uma operação bem-sucedida com uma vitória).


Rostris:

— Jakrol-mêlzh... czezh-ivh lazh-st.

(Grande Almirante... assim é.)


Kletus fez uma pequena pausa.


— Czezh-ivh operazh mål-zh Groizer krosszh-vha nietzh-klo, strax-zh nietzh-klo.

(O objetivo desta operação não é destruir o Pirata do Espaço, pelo menos, não de imediato).


Rostris ergueu os olhos.


— Ie, Jakrol-mêlzh.

(Sim, Grande Almirante.)


Kletus:

— Diizh-n trygg-zh nietzh-klo arzh-emvha kännzh-vha vilj-zhvha. Mission-zh hvir-zha fort-sezh-va, Rostris.

(Quero que eles sintam que não estão seguros. Continue sua missão, Rostris).


Sua voz permaneceu baixa e tranquila.


— Akane-holm-zh base-zh ro-zh hvir-zha takzh-vha.

(Tire a paz mental do pessoal da Base da Ilha Akane).


Rostris sorriu novamente.


— Jakrol-mêlzh-vha... czezh-ivh med glädj-zh arzh-emvha utför-zh!

(Almirantíssimo... farei com tudo o prazer)



A transmissão é encerrada. Kletus voltou os olhos para os registros do monitor, sem mudar expressão alguma de seu rosto.


— Vazh-sh tid... tre-n styr-mêlzh ut-hålzh-vha... arzh-emvha sezh-va.


( Vamos ver quanto tempo conseguem suportar).

_____________________________________________________________________


BASE DA ILHA AKANE


Joe estava afastado dos demais, sentado sozinho, absorto em seus pensamentos.


Ainda tentava compreender o que havia acontecido no fundo do mar.


Sabu e Gen observavam-no de longe.


— É melhor nem chegar perto dele agora.


Gen olhou para Sabu.


— Por quê?


— Porque ele fica irritado quando quase perde um combate.


Gen sorriu.


— Você ainda se lembra daquela vez?


— Claro que lembro.


Sabu apontou discretamente para Joe.


— Quando ele perdeu aquela luta contra o robô-bomba daquele tal General Daggar, ficou tão nervoso que parecia que ia explodir junto com o Pirata do Espaço.


Gen riu.


— E o Pirata do Espaço ficou bem avariado naquela luta.


— Exatamente. Por isso é melhor deixar Joe quieto por enquanto.


Rita e Liriana, que estavam passando por perto, haviam escutado a conversa.


Rita aproximou-se dos dois.


— Estou impressionada, Sabu. Você realmente se lembra de tudo isso.


Sabu sorriu, satisfeito.


— Eu presto atenção.


Rita olhou para Joe por alguns instantes.


— Mas pode ficar tranquilo.


Sabu voltou os olhos para ela.


— Por quê?


Rita sorriu discretamente.


— Assim como Daggar foi derrotado, Rostris também será.


Joe, ainda distante, permaneceu calado, mas, ao ouvir o nome de Rostris, levantou os olhos por um instante.



Tobishima aproximou-se do grupo.


— Ah, então vocês estão aqui.




Todos se voltaram para ele. Enquanto Gen saiu de fininho indo pro seu alojamento para evitar bronca.


— Bem, eu não quero ser babá de ninguém, mas temos recomendações a serem seguidas. Todos para seus alojamentos. E ao contrário do Sr. Bidkon; que me pediu autorização para ficar trabalhando no sistema de radar do Pirata do Espaço noite a dentro, vocês não são do turno da noite.


Ele olhou para Rita, Sabu e Liriana.


— Ou são?


Rita e Liriana, uníssonas:


— Não, professor.


Sabu também respondeu:


— Não, professor Tobishima.


Tobishima olhou para eles.


— Então está resolvido.


Sabu começou a acompanhar Liriana.


Tobishima percebeu.


— Sabu.


— Sim?


— Por que você está seguindo Liriana? Seu alojamento é do outro lado. Esqueceu?


Sabu olhou para Liriana, depois para Tobishima.


— Ah... er... hehe... esqueci. Deve ter sido o sol na cabeça.


Tobishima suspirou.


— Antes fosse. Ao menos entraria alguma luz para iluminar o seu juízo.


Sabu baixou a cabeça.


— Certo, professor. Boa noite a todos.


Liriana começou a rir.


Rita:


— Boa noite, Sabu.


Ele se afastou rapidamente.


Pouco depois, todos seguiram para seus alojamentos. Quando Rita e Liriana chegaram ao corredor onde ficavam os aposentos das duas, lado a lado, Rita parou diante da porta, e olhou para a prima.


—Ŋe nēdu e-šēra zai. (Eu conheço esse sorriso.)


Liriana ficou ligeiramente surpresa.


— E-šēra? (Que sorriso?)


— E-šēra dēra u-sabu nēdu ai anur u-ane? (O que você estava dando quando Sabu resolveu 'esquecer' onde ficava o próprio alojamento.)


Liriana tentou disfarçar.


— Rita...


— Zai ya nēša u-sabu? (Você queria que ele fosse atrás de você?)


Liriana desviou os olhos.


— Ai dāru māta... (Não é bem assim...)


Rita sorriu.


— Ai zāru. U-sabu šēmu-an, māta ai šāru. (Pode ficar tranquila. Sabu pode ser meio brincalhão, mas não tem maldade.)


Liriana permaneceu em silêncio, enquanto Rita continuou:


— U-ane hu e-nēša-ra dāru pēril u-nēra-an-ta zai Gailar. (E talvez ele seja melhor do que alguns dos seus ex-namorados de Gailar.)


Liriana arregalou um pouco os olhos.


— Rita!


Rita riu.


Liriana finalmente sorriu, mas ainda parecia desconcertada:


— E-pāru dēša a-māta-ta. Tšā... vēra... (É muito cedo para dizer qualquer coisa. Mas... de qualquer maneira...)


Ela olhou ao redor antes de continuar.


— Qa zai ya dēša ai u-ane-ta. (Prometa que não vai falar disso com ninguém.)


Rita:


— Ŋe ya qa.(Prometo.)


Liriana baixou a voz.


— Ha-ve ŋe nēdu pēra dēša a-māta-še dēra e-šēru a-gāla, pēra u-ane-ta hu qa e-šēra u-kēva dāru nēša. (Segundo alguns estudos que li sobre os costumes terrestres, certos homens daqui têm alguns tabus em relação a mulheres mais experientes do que eles.)


Rita pensou por um instante.


— Ve u-sabu ai sāra e-šāru. (Talvez Sabu não pense assim.)


Liriana olhou para ela.


— Ve. (Talvez.)


Então sorriu de lado.


— A u-joe? (E o que o Joe pensa?)


O sorriso de Rita desapareceu.


Ela olhou discretamente para o outro lado do corredor.


Ao longe, Joe ainda estava sozinho, sério, perdido em seus pensamentos.


Rita voltou os olhos para Liriana.


— Ŋe nēdu māta u-joe sāra. (Eu sei o que Joe pensa.)


Fez uma pequena pausa.


— Tšā, rī ŋe ya vōra tēru qēru. (Mas, por enquanto, vou deixar que o tempo seja o conselheiro.)


Liriana franziu levemente a testa.


Tēru? U-joe hu nēdu tēru? (Tempo? E Joe tem isso?)


A pergunta atingiu Rita de maneira inesperada, deixando-a alguns segundos em silêncio.


Liriana percebeu imediatamente que havia tocado em um ponto delicado. Rita, porém, não se zangou. Conhecia a prima o bastante para saber que não havia maldade na pergunta.


— Ve e-uru māta qa ai nēru. (Talvez seja justamente por isso que não devemos ter pressa.)


Liriana permaneceu olhando para ela.


Rita sorriu discretamente.


— Pēra māta qa nēša dēra u-ane-ta ya hēva. (Algumas coisas precisam acontecer quando as pessoas finalmente estão prontas para elas.)


Liriana entendeu o sentido.


Rita então acrescentou, com um pequeno sorriso:


— A zai nēru nēdu māta u-ane sāra, ve zai hu dēša u-sabu. (E, se você realmente quer saber o que alguém pensa sobre isso, talvez possa perguntar ao Sabu.)


Liriana ficou ainda mais desconcertada.


— Rita!


Rita abriu a porta de seu alojamento.


— E-šēla nēra, Liriana. (Boa noite, Liriana.)


— E-šēla nēra. (Boa noite.)


As duas entraram em seus respectivos quartos.


Por alguns segundos, Liriana permaneceu parada diante da própria porta.


Depois, sem perceber, sorriu.


MAIS TARDE.


Tobishima encontrou Joe ainda sentado e pensativo.


— Vá dormir, Joe. Sei que está refletindo sobre a luta. Provavelmente está pensando em estratégias, tentando descobrir como aquele piloto conseguiu surpreendê-lo. Mas, se quer ter boas ideias, durma e acorde disposto. Tenho certeza de que a inspiração de que precisa virá pela manhã.


Joe permaneceu alguns segundos em silêncio.


— Eu estava refletindo sobre muitas coisas, professor.


Tobishima esperou Joe prosseguir.


— Aquele piloto soube trabalhar muito bem o ambiente a seu favor. Ele provavelmente já estudou o fundo do mar que cerca nossa ilha. O Pirata do Espaço deve ter algum recurso que possa nos ajudar contra isso.


— Certamente, Joe. Bidkon está trabalhando nisso agora.— Tobishima fez uma pequena pausa.— Mas lembre-se de uma coisa. O Pirata do Espaço depende tanto dos recursos da máquina quanto do talento de seus pilotos.


Joe assentiu.


— Vá descansar agora. Eu não tenho idade para carregá-lo no colo para botar para dormir, você não é mais criança.


Joe deixou escapar um leve sorriso.


— Está bem, professor. Amanhã conversaremos sobre as estratégias.


— Então, boa noite, Joe.


Tobishima deu alguns passos, mas parou.


— Ah, e mais uma coisa.


Joe olhou para ele.


— Você disse que estava pensando em muitas coisas. Está mesmo pensando somente na batalha?


Joe hesitou por um instante.


— Mas é claro, professor. Eu... estava pensando em todos os movimentos do inimigo.


Tobishima o observou em silêncio.


Então sorriu discretamente.


— Sabe, Joe, você é um excelente piloto. Um dos melhores, se não o melhor, que já conheci. Foi meu aluno e acabou superando até mesmo o seu professor.


Joe abaixou os olhos, sem saber exatamente onde aquela conversa iria chegar.


— Mas existe uma coisa que você ainda não aprendeu.— Tobishima fez uma breve pausa.— E, para ser sincero, eu até me orgulho disso.


Joe voltou a olhar para ele.


— Você não sabe mentir.


Joe ficou calado.


Tobishima retomou o caminho.


— Lembre-se, meu filho. A vida raramente oferece uma segunda chance. Portanto, quando ela aparecer, aproveite.


Tobishima seguiu para seus aposentos.


Joe permaneceu sozinho. Por alguns instantes, tentou convencer a si mesmo de que seu chefe e mentor não havia querido dizer nada além daquilo. Que estava falando apenas sobre a batalha. Sobre o Pirata do Espaço. Sobre a guerra. Mas Joe sabia que não era verdade, sendo que então, Tobishima tinha razão.


Joe não sabia mentir.


Nem mesmo para si próprio.


__________________________________________________________________________________


ATAQUE À BASE DA ILHA AKANE


A madrugada havia tomado conta da Ilha Akane. Na Base, depois de um dia intenso, quase todos já haviam se recolhido aos seus alojamentos. Os corredores estavam silenciosos, e apenas alguns setores permaneciam iluminados.


Então, sem qualquer aviso, uma explosão sacudiu a instalação.


O estrondo foi tão forte que as paredes dos alojamentos tremeram. Alguns objetos caíram das prateleiras e, segundos depois, as luzes se apagaram em parte da base.


Antes que alguém pudesse entender o que havia acontecido, uma segunda explosão atingiu o setor externo.


Os alarmes começaram a tocar.


Portas se abriram por todos os corredores. Técnicos e militares deixaram seus quartos às pressas, enquanto as luzes de emergência começavam a iluminar a base com uma tonalidade avermelhada.


— Ataque inimigo!


A voz de um dos operadores ecoou pela sala de comando.


Tobishima entrou rapidamente no centro de controle.


— O que aconteceu?


Um dos operadores voltou-se para ele.


— Ainda não sabemos, professor. Fomos atingidos duas vezes em menos de um minuto.


Outro operador já trabalhava diante de seu console.


— Estou tentando localizar a origem dos disparos.


Tobishima aproximou-se do grande painel.


— Algum contato no radar?


— Nenhum.


— Alguma aeronave?


— Nada.


— Embarcação?


— Também não.


Um novo estrondo interrompeu a conversa.


A base tremeu novamente.


No painel central, alguns sistemas chegaram a oscilar antes de voltarem ao funcionamento normal.


— De onde veio esse? — perguntou Tobishima.


O operador verificou os dados.


— Ainda não consigo determinar.


Tobishima franziu a testa.


— Como isso é possível?


— Não sei, professor. Os radares estão funcionando normalmente.


Outro técnico levantou-se de sua estação.


— Os sensores externos também não registraram aproximação alguma.


Tobishima olhou para os monitores.


Nada.


Nenhum sinal de aeronave.


Nenhuma assinatura energética.


Nenhum objeto detectável nas proximidades da ilha.


Era como se alguém estivesse atacando a base sem precisar estar ali.


Joe chegou à sala de comando alguns instantes depois.


— Professor Tobishima!


O professor virou-se.


— Joe, você deveria estar no seu alojamento.


— O que está acontecendo?


— Ainda não sabemos.


Joe olhou para o painel.


— Quem está atacando?


— Não sabemos.


— De onde estão vindo os disparos?


— Também não sabemos.


Joe permaneceu alguns segundos observando os monitores.


Mais um impacto fez a base estremecer.


Ele imediatamente se voltou para Tobishima.


— Quero sair com o Pirata do Espaço.


Tobishima hesitou.


— Para onde?


Joe pareceu surpreso com a pergunta.


— Para localizar o inimigo.


— Mas nós não sabemos onde ele está.


— Então eu vou procurá-lo.


Tobishima aproximou-se do painel.


— Joe, não temos sequer uma direção provável. Se eu mandar você para o norte, pode estar ao sul. Se mandar para o mar, pode estar sobre a ilha. Não temos um único dado que indique onde procurar.


Joe apertou os lábios.


— E se continuarmos aqui, ele poderá atacar novamente.


Tobishima sabia que Joe tinha razão, mas ainda não estava convencido de que mandar o Pirata do Espaço para uma busca às cegas fosse a decisão correta.


Foi então que Rita entrou na sala.


— Joe está certo.


Os dois olharam para ela.


Rita aproximou-se dos monitores.


— Se o inimigo conseguiu atacar a base sem ser detectado, pode estar usando algum método para ocultar sua presença. Precisamos descobrir como.


Joe assentiu.


— É exatamente o que estou pensando.


Tobishima permaneceu em silêncio por alguns segundos.


A base havia sido atingida várias vezes, e ainda não havia qualquer informação concreta sobre o agressor.


Finalmente, tomou sua decisão.


— Muito bem. Vocês dois farão uma patrulha de emergência.


Joe assentiu.


— Sim, senhor.


— Mas não quero que procurem combate. Primeiro descubram onde ele está.


Rita respondeu:


— Entendido.


Joe e Rita deixaram a sala de comando.


Poucos minutos depois, o Pirata do Espaço foi preparado para a decolagem.


A grande nave deixou o hangar subterrâneo e emergiu da passagem marítima da Base da Ilha Akane. Assim que alcançou o céu, Joe iniciou a varredura da região.


Rita acompanhava os instrumentos ao seu lado.


— Nenhum contato — informou ela.


Joe alterou a direção.


— Amplie o alcance do radar.


Rita executou a ordem.


Alguns segundos se passaram.


— Nada.


Joe continuou voando.


— Alguma assinatura energética?


— Nenhuma.


A nave prosseguiu sobre o oceano.


Joe mudou novamente o curso.


Rita acompanhava cada alteração nos instrumentos.


— Ainda nada, Joe.


— Continue procurando.


O Pirata do Espaço avançou por vários quilômetros.


Nada.


Joe começou a ampliar a área de busca.


— Vamos verificar o setor nordeste.


Rita observou o mapa.


— Já verificamos essa região.


— Então vamos mais longe.


— Certo.


A nave mudou de direção.


Minutos depois, continuava sem encontrar qualquer sinal.


Rita olhou para Joe.


— Estamos procurando alguma coisa que não quer ser encontrada.


Joe permaneceu concentrado nos controles.


— Eu sei.


Ele diminuiu ligeiramente a velocidade e Rita observou o oceano abaixo, escuro pelo céu da madrugada.


— Você acha que ele ainda está por perto?


Joe demorou alguns segundos para responder.


— Se eu estivesse no lugar dele, estaria.


A busca continuou.


Mas não encontraram nada.


Nem no céu.


Nem sobre o oceano.


Nem nos radares.


Enquanto o Pirata do Espaço procurava, muito abaixo da superfície, uma enorme silhueta permanecia imóvel entre as formações do fundo oceânico.


A Mobula estava escondida nas profundezas. Dentro da cabine, Rostris observava os instrumentos numa tela que mostrava a posição do Pirata do Espaço, enquanto outra acompanhava os dados do sonar.


Ele permaneceu imóvel, esperando.


Então sorriu.


— Continue procurando...


Rostris desligou parte dos sistemas da Mobula. A nave desapareceu ainda mais profundamente na escuridão. Acima dela, o Pirata do Espaço continuava sua busca.


Rostris abriu um canal de comunicação.


A imagem de Kletus surgiu diante dele.


— Jakrol-mêlzh. (Grande Almirante).


— Lær-fær-zh. (Relate, Rostris).


— O ataque à Base da Ilha Akane foi concluído. Causamos danos à instalação e obrigamos o Pirata do Espaço a deixar a base.


Kletus permaneceu em silêncio por alguns instantes.


— Zhr-mæl mâ fær-ni-sên-zh-el? (E ele encontrou você?)


— Klo. (Não).


Rostris sorriu.


— Ryn-mæl mâ PA-mæl-zh. (Está procurando por mim neste momento).


Kletus observou os dados diante de si.


— PA-mæl mâ SE-zh otwod. (Então continue deixando que procure).


Rostris compreendeu imediatamente.


— Ryn-mæl myn tno-la-zh. (O senhor quer que eu permaneça oculto).


— Skön-zh. Zhr-mæl PA-ni mâ ni-frû-zh. (Exato, quero que ele comece a duvidar da própria capacidade de encontrá-lo).


Rostris sorriu.


— Skön-ni-zh. (Entendido).


— Klo fær-zh. Vrud-mæl mlen-NI-zh. (Não tenha pressa. O medo é mais úil quando cresce lentamente).


Rostris ficou em silêncio por um instante.


—Fær-frû-mæl PA-el-zh? (E qual será o próximo passo?)


Kletus respondeu sem alterar a expressão:


— Mâ-staz vêr-mæl NI-SE-zh otwod. (Continuar tirando a paz mental deles).




Enquanto isso, o Pirata do Espaço continuava avançar sobre o oceano escuro, durante a madrugada, e a única iluminação ao redor vinha das próprias luzes de navegação e das potentes lanternas instaladas na parte inferior da nave. Os fachos percorriam a superfície do mar, revelando por alguns instantes as ondas que se quebravam sob a escuridão.


Dentro da cabine, o brilho dos instrumentos iluminava o rosto de Joe e Rita.


Joe mantinha os olhos no radar.


E Nada.


Ele ampliou o alcance da varredura e mudou ligeiramente o curso.


Rita acompanhou os dados no painel ao seu lado e leitura continua sendo a mesma.


— Ainda não apareceu nada.


Joe não respondeu.


Reduziu a velocidade e fez o Pirata do Espaço descer alguns metros.


Os fachos das lanternas percorreram novamente o oceano.


Abaixo deles, apenas água escura.


— Alguma coisa nas câmeras externas? — perguntou Joe.


Rita verificou os monitores.


— Nada.


Joe aumentou novamente o alcance do radar.


— E agora?


— Continua limpo.


Ele fez uma nova mudança de direção.


Rita percebeu a tensão no rosto dele.


— Joe, já estamos procurando há algum tempo.


— Eu sei, Rita, e não encontramos absolutamente nada.


Joe apertou os controles.


— A base foi atacada. Alguém disparou contra nós e simplesmente desapareceu.


— Talvez seja isso que ele queria.


Joe olhou para Rita.


— O que você quer dizer?


— Se foi Rostris quem atacou a base, talvez ele não quisesse que o encontrássemos.


Joe voltou os olhos para o radar.


— Então ele está brincando conosco.


— Porvalmente sim, Joe.


— Não gosto disso, Rita, não gosto mesmo.


Rita olhou para ele.


— Eu sei.


Joe mudou novamente o curso.


— Se ele estiver escondido em algum lugar, vamos encontrá-lo.


— E se for justamente isso que ele espera que você faça?


Joe ficou calado.


Rita continuou:


— Ele atacou a base, desapareceu e fez você sair imediatamente para procurá-lo. Agora estamos voando sobre o oceano no meio da madrugada, procurando uma nave que não deixa nenhuma assinatura.


Joe olhou para o mar através do vidro da cabine.


Os fachos das lanternas continuavam percorrendo a superfície.


— Você está dizendo que devemos voltar?


— Estou dizendo que precisamos pensar antes de continuar.


Joe respirou fundo.


— Não consigo simplesmente voltar, depois do que aconteceu na base...


Ele interrompeu a frase.


Rita observou-o por alguns segundos.


— Você está com raiva.


— É claro que estou.


Sua resposta veio seca.


— Eu quero Rostris ou seja lá quem for agora, porque não suporto a ideia de um novo ataque. — Joe apertou os punhos sobre os controles.— Ele não vai fazer isso novamente.


Rita:


— Talvez não faça.


Rita voltou os olhos para o radar.


— Talvez faça algo pior.


Joe a encarou.


Rita demorou alguns segundos antes de continuar.


— É isso que me assusta.


Joe ficou em silêncio.


— Estou com medo, Joe.


Ele suavizou a expressão.


Rita continuou olhando para o painel.


— Não sabemos onde ele está. Não sabemos o que ele pretende fazer. Não sabemos quando será o próximo ataque.

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Joe olhou novamente para o oceano.


— Eu também estou preocupado.


— Preocupado?


Joe respirou fundo.


— Está bem. Com medo também.


Rita finalmente olhou para ele.


Joe voltou a atenção para os instrumentos.


— Mas, se Rostris realmente está fazendo isso para nos deixar com medo, não podemos permitir que ele decida o que vamos fazer.


Rita assentiu lentamente.


— Então continuamos procurando?


Joe observou o radar e depois o oceano iluminado pelos fachos das potentes lanternas da nave.


— Continuamos procurando.


Ele fez uma nova correção de curso.


— Mas desta vez vamos pensar como ele.


— Se Rostris quisesse fugir, teria se afastado da ilha. Mas ele atacou a base e ficou invisível antes que pudéssemos reagir.


Rita começou a compreender.


— Você acha que ele ainda está por perto.


— Acho que sim.


Joe voltou os olhos para o radar.


— Ele quer saber como vamos reagir. Se eu fosse ele, não ficaria tão longe a ponto de perder a oportunidade de observar a nossa resposta.


Rita examinou o oceano através das lanternas.


— Então ele pode estar nos observando agora.


Joe ficou alguns segundos em silêncio.


— É o que eu faria.


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ALOJAMENTOS DA COMITIVA GAILARIANA, MAIS TARDE



A movimentação na base havia diminuído, mas ninguém parecia realmente disposto a dormir.


Nos alojamentos da comitiva gailariana, Liriana e Thallus caminhavam lentamente pelo corredor. Conversavam em Gailar-emê, em voz baixa, enquanto retornavam aos seus quartos.


Alguns metros adiante, Sabu permanecia parado junto a uma das janelas.


Não fazia nada, apenas observava o movimento da base através do vidro, ainda tentando assimilar tudo o que havia acontecido naquela noite.


Liriana e Thallus aproximaram-se.


Quando perceberam que Sabu estava ali, passaram imediatamente a falar em no idioma local, como determinava o protocolo da comitiva quando um terráqueo estivesse próximo, mesmo que aparentemente não participasse da conversa, para demonstrar respeito.


Liriana baixou a voz.


— Thallus, você acha que talvez não devêssemos ter vindo?


Sabu ouviu, mas não se virou imediatamente.


Thallus percebeu a preocupação da colega de comitiva.


— Por que está pensando nisso?


Liriana hesitou.


— Desde que chegamos, tudo parece ter ficado mais complicado. Primeiro a Horda. Depois os ataques. Agora isso.


Ela olhou para o corredor vazio.


— Talvez a nossa presença aqui esteja causando problemas.


Sabu finalmente se voltou para os dois, num tom surpreendentemente sério.


— Você realmente está pensando nisso?


Liriana pareceu um pouco constrangida por ele ter ouvido, desejando não ter seguido o protocolo tão à risca.


— Eu não sei, Sabu. Só estou tentando entender o que está acontecendo.


Sabu aproximou-se.


— Mas ir embora resolveria alguma coisa?


Liriana não respondeu.


Thallus olhou para Sabu.


— Essa também é uma questão que estamos tentando compreender.


Sabu permaneceu alguns segundos em silêncio.


— Gailar já passou por situações assim antes, não é?


Thallus assentiu.


— Sim. Durante a história de nossas expedições, houve tentativas de acordos científicos e diplomáticos que algumas vezes, não ocorriam de modo pacífico e que por isso, fracassaram, prejudicadas por interesses políticos e econômicos que levaram até mesmo a atos de sabotagens. Mas também houve tentativas difíceis que passaram pelos mesmos problemas e ainda sim, tiveram sucesso.


Sabu pensou um pouco.


— Então como vocês sabem em qual situação estão agora?


Thallus respondeu:


— Não sabemos.


Sabu olhou para Liriana.


— Então ainda não acabou.


Liriana continuou séria.


— Mas pode não dar certo.


Sabu foi simples em sua observação:


— Mas isso não significa que devemos desistir antes de descobrir.


Liriana observou-o.


Sabu continuou:


— Se alguém está tentando fazer a Terra e Gailar desconfiarem um do outro, abandonar a comitiva agora seria exatamente o que essa pessoa gostaria.


Thallus permaneceu pensativo.


— É uma possibilidade.


— Eu sei.


Sabu olhou novamente para a janela.


— E eu não quero ajudar quem fez isso.


Liriana percebeu a firmeza em sua voz.


— Você não está com medo?


Sabu demorou um instante para responder.


— Estou.


Liriana pareceu surpresa, aquele não parecia ser o Sabu brincalhão que ela estava se acostumando.


Sabu respirou fundo.


— O medo serve para mostrar que existe alguma coisa errada. Mas não acho que ele tenha que decidir o que vamos fazer.


Thallus observou o rapaz em silêncio.


Sabu então sorriu discretamente.


— Se depender de mim e dos meus amigos, essa comitiva vai continuar trabalhando.


Liriana sorriu.


— Você fala como se tivesse muita confiança neles.


— Eu tenho.


— No Joe e na Rita?


— Nos dois.


Sabu respondeu sem hesitar.


— Eles já derrotaram Geldon. Vão derrotar esse tal de Kletus.


Liriana ficou olhando para ele. Naquela noite, havia algo diferente em Sabu. Ela estava acostumada ao rapaz que fazia piadas, tentava impressioná-la e às vezes se metia em explicações técnicas muito além do necessário. Mas aquele era outro lado dele. Um lado sério e determinado. E, naquele momento, Liriana desconfiou que talvez aquele lado sempre tivesse estado ali e apenas aparecia quando a situação exigia.


Ela sorriu.


— É bonito ver você falando assim.


Sabu ficou sem jeito, como se estivesse saindo de um tipo de "transe de seriedade".


— Assim como?


— Sério.


Ele tentou recuperar o tom habitual.


— Não se acostume.


Liriana começou a rir.


Thallus observou os dois e balançou levemente a cabeça, ele sabia que algo estava surgindo ali, mas preferiu deixar de lado.


Por alguns instantes, a tensão daquela noite pareceu diminuir, mas ninguém ali tinha esquecido o ataque, assim como não se sabia quando Rostris voltaria a atacar.


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### A FALÉSIA SUBMARINA — MADRUGADA


Menos de vinte e quatro horas haviam se passado desde o primeiro ataque à Base da Ilha Akane.


Os trabalhos de reparo ainda estavam concentrados na pista de decolagem, atingida durante o ataque anterior. Técnicos e engenheiros trabalhavam desde a noite anterior para recuperar o acesso à superfície e permitir que o Pirata do Espaço pudesse voltar a operar normalmente.


Na sala de controle, Tobishima acompanhava os relatórios enquanto Sólus analisava os mapas da região.


— Quanto tempo até conseguirmos liberar a pista? — perguntou Tobishima.


Um dos técnicos consultou os dados.


— Se não houver novos problemas, ainda precisaremos de algumas horas, talvez, mais um dia.


Tobishima respirou fundo.


— E tempo demais...


Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um dos operadores chamou a atenção de todos.


— Professor!


Tobishima virou-se.


— O que aconteceu?


O operador apontou para o painel.


— Detectamos uma movimentação estranha no mar.


Sólus aproximou-se imediatamente.


— Em que região?


— Ao sul da ilha.


Uma sequência de sinais apareceu no monitor e desapareceu quase no mesmo instante.


— Perdi o contato — informou o operador.


Sólus estreitou os olhos.


— Tente novamente.


O operador iniciou outra varredura.


Nada.


Tobishima permaneceu olhando para o painel.


— Pode ser Rostris?


— Não podemos confirmar — respondeu Sólus. — Mas eu não descartaria essa possibilidade.


No mesmo instante, muito abaixo da superfície, a Mobula avançava silenciosamente em direção à falésia submarina.


Rostris conhecia a região.


Conhecia também a importância daquela passagem.


A grande abertura na parede rochosa conduzia diretamente ao acesso submarino da Base da Ilha Akane.


Era por ali que o Pirata do Espaço deixava a instalação quando precisava decolar.


Rostris reduziu a velocidade.


A Mobula aproximou-se do paredão.


Então abriu fogo.


O primeiro impacto atingiu a rocha.


Um estrondo abafado percorreu a água.


Outro disparo atingiu um ponto mais profundo da falésia.


A estrutura rochosa começou a ceder.


Rostris permaneceu imóvel, observando.


Mais um ataque.


Dessa vez, uma grande massa de pedras se desprendeu da parte superior da falésia e despencou sobre a passagem submarina.


A corrente de água foi violentamente deslocada.


Rochas, areia e destroços desceram pela encosta, acumulando-se diante da abertura.


Rostris observou o deslizamento terminar.


A passagem estava bloqueada.


Ele não precisava destruir o Pirata do Espaço.


Bastava impedir que ele saísse.


Na Base da Ilha Akane, os sensores registraram a perturbação.


— Temos um grande deslocamento de massa na região da falésia submarina! — avisou o operador.


Tobishima levantou-se imediatamente.


— Mostre.


A imagem surgiu no painel.


Sólus aproximou-se.


— Isso não parece um deslizamento natural.


— Não — respondeu Tobishima.


Outro operador verificou os dados.


— Professor... a passagem submarina foi atingida.


Tobishima ficou imóvel.


— O acesso?


— Está bloqueado.


Por alguns segundos, ninguém disse nada.


Então Tobishima perguntou:


— O Pirata do Espaço consegue sair?


O operador hesitou.


— Não pelo acesso principal.


Tobishima fechou os olhos por um instante.


A pista de decolagem ainda estava em reparos.


Agora, a única saída submarina da nave também estava bloqueada.


Sólus compreendeu imediatamente o que aquilo significava.


— Ele está nos prendendo aqui.


Tobishima olhou para ele.


— Primeiro a pista. Agora a passagem.


Sólus assentiu.


— Não são ataques independentes.


Tobishima voltou-se para os técnicos.


— Quanto tempo para liberar a passagem?


Um engenheiro foi chamado às pressas.


Ele examinou os dados da falésia.


— Precisamos avaliar a estabilidade da estrutura antes de enviar equipes para lá.


— Quanto tempo?


— Não posso dar uma estimativa segura.


Tobishima elevou a voz.


— Precisamos de uma estimativa!


O engenheiro respirou fundo.


— Se for apenas retirar os destroços da entrada, algumas horas. Mas, se houver risco de novos deslizamentos, teremos que trabalhar muito mais devagar.


Sólus observava o mapa.


— E se a estrutura continuar cedendo?


O engenheiro não respondeu imediatamente.


— Nesse caso, poderemos perder a passagem por completo.


O silêncio voltou à sala.


Tobishima olhou para o relógio.


Depois para os monitores.


— Então não podemos esperar.


Ele se virou para os técnicos.


— Quero equipes trabalhando na passagem assim que for seguro entrar.


— Sim, professor.


— E mantenham o reparo da pista.


Um dos técnicos pareceu surpreso.


— Dos dois ao mesmo tempo?


Tobishima respondeu imediatamente:


— Dos dois ao mesmo tempo.


Sólus olhou para ele.


— Estamos dividindo nossas equipes.


— Não temos escolha.


Tobishima voltou-se para o painel.


— Se Rostris bloqueou a passagem de propósito, ele espera que demoremos para liberá-la.


Sólus completou:


— E, enquanto estivermos ocupados tentando recuperar nossas saídas, ele terá liberdade para agir.


Tobishima permaneceu em silêncio.


Era exatamente isso.


A Base da Ilha Akane já estava trabalhando no limite para recuperar sua capacidade de resposta.


Agora, precisava fazer tudo novamente.


E Rostris sabia disso.


No setor inferior da base, equipes começaram a ser mobilizadas para a passagem submarina.


Técnicos preparavam equipamentos de escavação e estruturas de sustentação. Engenheiros analisavam os riscos de novos deslizamentos. Mergulhadores eram chamados para avaliar a situação do lado externo.


Todos trabalhavam depressa.


Mas ninguém precisava dizer o que estava passando pela cabeça de cada um: o inimigo estava conseguindo.


Primeiro, havia atacado a base sem ser visto, depois, havia desaparecido e agora, em menos de um dia, havia bloqueado uma das principais vias de saída do Pirata do Espaço.


Tobishima permaneceu diante do painel, acompanhando o avanço das equipes.


Sólus aproximou-se.


— Professor...


Tobishima não tirou os olhos da tela.


— Eu sei.


— Ele está nos obrigando a correr atrás dos danos.


Tobishima finalmente olhou para Sólus.


— E ainda não terminamos de reparar o primeiro ataque.


Do lado de fora, as equipes continuavam trabalhando.


Dentro da base, os alarmes haviam cessado.


Mas ninguém se sentia tranquilo.


O silêncio que restara depois do ataque era ainda mais angustiante, porque agora todos começavam a compreender a verdadeira estratégia de Rostris, que não precisava destruir a Base da Ilha Akane rapidamente.


Bastava tirar dela, uma por uma, as possibilidades de reagir.


A notícia de que a passagem submarina havia sido bloqueada espalhou-se rapidamente pela base.


No setor de manutenção, os técnicos interromperam por alguns instantes o trabalho na pista de decolagem. Não demorou para que todos entendessem a gravidade da situação.


Joe chegou ao local acompanhado de Sabu, Gen e Ippei.


Diante deles, um dos monitores mostrava a imagem da falésia submarina. A entrada estava completamente tomada por pedras e destroços.


Joe permaneceu olhando para a tela.


— Então agora também estamos presos por baixo.


Gen cruzou os braços.


— Primeiro a pista. Agora a passagem submarina. Esse sujeito realmente sabe onde bater.


Ippei aproximou-se do monitor.


— E fez isso em menos de um dia.


Joe não respondeu.


Sabu observava os técnicos que passavam apressados pelo corredor, carregando equipamentos.


— Eles vão conseguir liberar a passagem?


Joe olhou para ele.


— Vão ter que conseguir.


Sabu percebeu a tensão na voz do amigo.


— Mas o reparo da pista também continua.


— Eu sei.


Gen soltou o ar lentamente.


— Então estamos tentando consertar duas saídas ao mesmo tempo.


Ippei corrigiu:


— Duas das nossas principais saídas.


Sabu permaneceu olhando para a tela.


— Ele não está tentando destruir o Pirata do Espaço?


Joe ficou alguns segundos em silêncio.


— Não, pelo menos não tão rápido, eu acho.— disse pensativo — Está tentando impedir que ele seja usado.


Sólus, que havia se aproximado sem que eles percebessem, ouviu a conclusão de Joe


— Exatamente.


Os quatro se voltaram para o gailariano.


Sólus apontou para o monitor.


— Rostris está reduzindo nossa capacidade de resposta. Enquanto as equipes estiverem ocupadas recuperando a passagem e a pista, teremos menos recursos disponíveis para qualquer outra emergência.


Gen balançou a cabeça.


— E ele pode atacar novamente quando quiser.


— Essa é a preocupação — respondeu Sólus.


Ippei olhou para Joe.


— Se ele fizer isso, ficaremos sem o Pirata do Espaço.


Joe permaneceu olhando para a imagem da passagem bloqueada.


— Não podemos deixar chegar a esse ponto.


Sabu observou Joe por alguns instantes.


— Você está pensando em alguma coisa?


Joe demorou a responder.


— Ainda não.


A sinceridade da resposta deixou os outros em silêncio.


Joe costumava ter uma solução para quase tudo que envolvia o Pirata do Espaço. Mas, naquele momento, estava diante de um problema que não podia resolver com uma manobra, um míssil ou uma batalha.


Gen olhou novamente para a tela.


— Então o plano dele está funcionando.


Ninguém respondeu.


A frase permaneceu no ar por alguns segundos.


Sólus finalmente falou:


— Sim. Até agora, está.


Joe apertou os punhos.


Sabu percebeu.


— Joe...


— Eu sei.


Joe voltou os olhos para os destroços que bloqueavam a passagem.


— Mas isso não vai continuar assim.


Do outro lado do corredor, técnicos gailarianos e terráqueos já se preparavam para descer até a passagem submarina.


Sabu observou a movimentação.


— Então vamos ajudar.


Gen olhou para ele.


— Você sabe trabalhar com equipamento de escavação?


Sabu deu um sorriso discreto.


— Não.


Gen ergueu uma sobrancelha.


— Pelo menos foi sincero.


— Mas posso aprender.


Ippei sorriu.


— Isso é mais parecido com o Sabu que eu conheço.


Sabu olhou novamente para o acesso bloqueado.


— Não podemos simplesmente ficar esperando que Rostris decida o que faremos.


Joe ouviu a frase, e não respondeu, mas seu olhar mudou, porque Sabu tinha razão.


A Base estava encurralada.


E, pela primeira vez desde que Rostris surgira, todos começavam a perceber que a questão não era apenas derrotar o inimigo quando ele aparecesse, mas recuperar a capacidade de lutar antes que ele decidisse atacar novamente.


Rita chegou ao recinto alguns instantes depois.


Trazia ainda o comunicador nas mãos e caminhava rapidamente pelo corredor, até encontrar Joe, Sabu, Gen, Ippei e Sólus diante do monitor.


— Joe.


Ele se voltou.


— Rita.


Ela se aproximou do grupo e olhou para a imagem da passagem submarina.


Por alguns segundos, não disse nada.


— Então é verdade...


Joe assentiu.


— A passagem está completamente bloqueada.


Rita aproximou-se um pouco mais do monitor.


— E a pista ainda está em reparos.


— Sim — respondeu Joe.


Rita olhou para Sólus.


— Quanto tempo para liberar a passagem?


— Ainda não sabemos. Os engenheiros precisam avaliar a estabilidade da falésia submarina antes de iniciar a remoção dos destroços.


Rita permaneceu olhando para a imagem.


— Ele está nos prendendo aqui.


— Foi exatamente o que pensamos — respondeu Sólus.


Rita voltou-se para Joe.


— E você?


Joe cruzou os braços.


— Estou pensando.


Ela percebeu a tensão no rosto dele.


— Você está pensando em Rostris.


— Em quem mais?


Rita aproximou-se dele.


— Não deixe que ele faça você agir por impulso.


Joe olhou para ela.


— Eu sei.


Sabu observava os dois em silêncio.


Gen, ao seu lado, murmurou:


— Pelo menos agora temos a Rita para impedir que ele faça alguma loucura.


Joe ouviu.


— Eu ouvi isso, Gen.


Gen deu de ombros.


— Era para ouvir mesmo.


Ippei tentou conter um sorriso.


Rita, porém, continuava séria.


— Precisamos entender o que ele pretende fazer depois disso.


Sólus assentiu.


— E precisamos recuperar nossa capacidade de resposta antes que ele tenha oportunidade de agir novamente.


O TEMPO PASSA.


A tensão ainda dominava o recinto quando Tobishima recebeu uma nova comunicação.


Ele olhou para o terminal e depois para os demais.


— Eu já solicitei ajuda. O Ministério da Defesa foi informado sobre a situação e está mobilizando reforços para a região.


O grande telão da sala se acendeu.


Yoshida apareceu na transmissão, acompanhado por outros funcionários do governo.


— Professor Tobishima, acabei de receber uma atualização. O Ministério da Defesa está concentrando todos os reforços e a maior parte de sua atenção no arquipélago de Izu. As forças disponíveis na região estão sendo direcionadas para lá.


Tobishima assentiu.


— Isso é necessário. Mas temo que já estejamos atrasados.


Antes que Yoshida pudesse responder, a porta da sala se abriu.


Liriana e Thallus entraram apressadamente.


A expressão dos dois chamou imediatamente a atenção de todos.


— Professor...


Liriana parou por um instante, tentando recuperar o fôlego.


— Temos mais notícias.


Tobishima se voltou para ela.


— O que aconteceu?


Liriana olhou para Thallus.


— Thallus, mostre as informações mais recentes.


Thallus aproximou-se de um dos terminais. O equipamento, conectado à rede mundial por meio dos sistemas de tecnologia gailariana adaptados à infraestrutura terrestre, começou a reunir informações de diversas fontes.


— Estou captando as notícias que estão surgindo agora — explicou Thallus. — Algumas ainda não foram divulgadas oficialmente.


Joe se aproximou.


— O que está acontecendo?


Thallus permaneceu diante do terminal.


— Rostris não parou depois do ataque à passagem submarina.


A expressão de todos mudou.


— O que ele fez? — perguntou Rita.


Thallus abriu uma série de registros no painel.


— Há relatos de embarcações desaparecendo ou afundando em diferentes pontos do arquipélago de Izu.


Gen aproximou-se.


— Quantas?


— Ainda não temos um número confiável.


Thallus mudou os dados.


— Mas não são apenas barcos de pesca. Há hidrofólios de alta velocidade e navios de passageiros entre as embarcações atingidas.


O silêncio tomou conta da sala.


Liriana completou:


— Os primeiros rumores já estão circulando pela internet. Pessoas relatam que algumas embarcações simplesmente afundaram sem que houvesse uma causa aparente.


Thallus continuou acompanhando as informações que chegavam.


— Há ocorrências em diferentes pontos do arquipélago. As rotas marítimas estão começando a ser interrompidas.


Sólus aproximou-se do terminal.


— Então ele está isolando a ilha.


Tobishima não respondeu.


Kaela, que acompanhava tudo alguns metros atrás, ficou pálida.


— Espere...


Ela se aproximou de Thallus.


— Você disse navios de passageiros?


— Sim, doutora.


Kaela olhou para Liriana.


— Alguns professores e alunos da Universidade de Tóquio deveriam vir para cá hoje.


Liriana confirmou.


— Para as atividades na clínica?


— Aulas, estágio e acompanhamento dos trabalhos — respondeu Kaela. — Eles deveriam chegar nos próximos dias.


Midori, que até então permanecera em silêncio, aproximou-se rapidamente.


— Quais embarcações?


Thallus procurou os registros mais recentes.


— Ainda não temos a identificação de todos.


Midori olhou para a tela.


— Meu noivo...


Sua voz falhou.


Rita aproximou-se imediatamente.


— Midori?


— Ele é um dos professores que viriam para cá.


Midori voltou os olhos para o monitor, tentando encontrar alguma informação.


— Ele deveria estar em uma dessas embarcações.


Rita segurou seu braço.


— Ainda não sabemos se ele está entre os passageiros.


— Mas pode estar.


Midori começou a perder o controle.


— Ele pode estar naquele barco...


Rita a abraçou.


— Calma. Ainda não sabemos o que aconteceu com ele.


— E se...


— Não pense nisso agora.


Midori segurou-se em Rita, enquanto Thallus continuava acompanhando as informações que chegavam.


Kaela permaneceu imóvel diante do painel.


Seu rosto demonstrava preocupação.


— Há pessoas que estavam vindo para cá...


Sólus respondeu em voz baixa:


— E agora nem mesmo sabemos quais rotas ainda são seguras.


No telão, Yoshida acompanhava tudo em silêncio.


Tobishima finalmente se voltou para ele.


— Conselheiro Yoshida...


Yoshida ergueu os olhos.


— Sim?


Tobishima apontou para os monitores.


— Acho que agora não tem mais jeito.


Yoshida permaneceu calado.


— Será que o governo japonês ainda vai tentar abafar isso? — continuou Tobishima. — A panela de pressão vai explodir. Temos que destampá-la enquanto ainda dá tempo.


Ele fez uma breve pausa.


— Se é que ainda temos tempo de contar com alguma confiança da população.


Yoshida permaneceu em silêncio por alguns segundos.


Então respirou fundo.


— Concordo com o senhor, professor.


Tobishima aguardou.


— Vou pressionar ainda mais o Ministro da Defesa. Não podemos continuar tratando esses acontecimentos como incidentes isolados.


Yoshida olhou para os demais presentes na sala.


— E se for o caso eu mesmo vou falar com o Primeiro-Ministro. E se nada for feito, eu mesmo comunicarei a imprensa, mesmo que eu sofra consequencias por isso.


Tobishima assentiu.


— Lamento que tenhamos chagado a esse estado de coisas , Conselheiro, mas precisamos fazer isso agora.


Yoshida concordou.


— Sim. Mas, neste momento, nossa prioridade continua sendo deter o responsável direto por toda essa tragédia.


Joe, que acompanhava a conversa em silêncio, cerrou os punhos.


— Rostris...


Ele se virou bruscamente e golpeou a parede com força.


O impacto ecoou pela sala.


Rita olhou para ele.


Joe permaneceu parado, respirando pesadamente, com a sensação de estar diante de uma ameaça que continuava agindo enquanto eles permaneciam presos na base, incapazes de alcançá-la.


Sabu observou o amigo sem dizer nada.


Gen também ficou em silêncio.


Ippei baixou os olhos.


Do outro lado da sala, Kaela ainda acompanhava as informações sobre os barcos.


Midori continuava amparada por Rita.


Thallus recebia novas mensagens a cada poucos segundos.


E, no telão, Yoshida permanecia conectado à base.


Como arquipélago começava a ser isolado, a situação havia deixado de ser apenas um problema militar, pois a população começava a perceber que alguma coisa estava acontecendo.


E Rostris ainda estava livre.


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FUNDO DO OCEANO — LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA


A Mobula permanecia imóvel no fundo do oceano.


As luzes externas estavam apagadas. Apenas alguns indicadores iluminavam discretamente a cabine de comando, enquanto Rostris aguardava.


O capitão permanecia sentado diante dos instrumentos, acompanhando os dados recebidos durante a operação.


Então, o telecomunicador emitiu um sinal.


Rostris ativou o canal.


A imagem de Kletus surgiu no monitor.


— Rostris-kapozh... bellig-mål-zh gjen-vet-zh arzh-emvha vilj-zhvha.

(Capitão Rostris. Quero um relatório da missão).


Rostris sorriu.


— Jakrol-mêlzh... bellig-ger-zh segr-zh khel-mål-zh lazh-st!

(Grande Almirante... a operação é um sucesso absoluto!)


Kletus permaneceu em silêncio, aguardando.


— Först-zh, Akane-holm-zh stöð-zh mnezh-anvha belligzh-vha, Mobul-zh diizh-n finn-zh nietzh-klo. Efter-zh, Groizzh-er arzh-emvha søk-zh ut-gå-zh, dœlj-zh arzh-emvha lazh-st.

(Primeiro, atacamos a Base da Ilha Akane sem que eles conseguissem localizar a Mobula. Depois, quando o Pirata do Espaço saiu para me procurar, permaneci oculto).


Rostris fez uma pequena pausa, claramente satisfeito com o próprio desempenho.


— Så-n, Groizer stöð-zh atter-gå-zh, tid-mål-zh arzh-emvha vent-zh, Groizer sjö-vegh-zh ut-gå-zh arzh-emvha belligzh-vha. Sten-ras-zh arzh-emvha skap-zh velzh-vha vegh-zh hel-blok-zh.

(Em seguida, quando o Pirata do Espaço voltou à base, esperei o momento certo e ataquei a passagem submarina por onde o Pirata do Espaço deixa a base. Provoquei um deslizamento e bloquei completamente a saída).


Kletus observava sem interrompê-lo.


— Flyg-vegh-zh först-bellig-zh allr-ezh krosszh-vha. Nu-zh-tid flyg-vegh-zh atter-bygg-zh velzh-sam-tid sjö-vegh-zh rens-zh diizh-n behœv-zh. Groizzh-er flyg-ut-zh nietzh-klo!

(A pista de decolagem já estava danificada pelo primeiro ataque. Agora eles precisam reparar a pista e, ao mesmo tempo, desobstruir a passagem submarina. O Pirata do Espaço não pode decolar).


Kletus fez um breve movimento de cabeça.


— Rostris-kapozh... fort-sezh-va.

(Prossiga, Capitão Rostris)


Rostris assim prossegue:


— Izu-holm-vha fær-næt-khe-zh arzh-emvha belligzh-vha, ny-het-zh stöð-zh helzh-vha hör-zh.

(Ataquei o sistema de transporte do arquipélago de Izu, a notícia de ter chegado aos ouvidos de todos na base).

Kletus:


— Czezh-ivh arzh-emvha för-ut-sezh-va. Bra-zh hvir-zha handl-zh, Rostris-kapozh.

(Seguramente, eu conto com isso. Agiu bem, Capitão Rostris).



O capitão sorriu.


— Stor-zh tack-zh, Jakrol-mêlzh.

(Muito obrigado, Grande Almirante).


Kletus permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.


Almirante Kletus:

— Ny-zh komm-ord-zh hvir-zha mottag-zh.

(Você receberá uma nova diretriz.)


Rostris endireitou-se ainda mais na cadeira.


O olhar de Kletus tornou-se mais frio ainda.


— Akane-holm-zh stöð-zh be-rak-zh hvir-zha belligzh-vha.

(Você atacará diretamente a Base da Ilha Akane).


Rostris permaneceu atento.


— Diizh-n torn-zh. Diizh-n flyg-hus-zh. Mest-mål-zh manskap-zh stell-zh lazh-st.

(Suas torres. Seus hangares. Os setores onde houver maior concentração de pessoal).


Kletus fez uma pequena pausa.


— Død-zh khel-mål-zh arzh-emvha vilzh-vha.

(Quero o máximo de mortes possível).


O sorriso de Rostris desapareceu.


— Czezh-ivh.

(Entendido).


Almirante Kletus:

— Joe-zh Rita-zh likh-zh behåll-zh, bellig-spår-zh hel-zh likh-zh bær-zh diizh-n arzh-emvha vilzh-vha. Nær-folk-zh sköld-zh nietzh-klo diizh-n skön-zh arzh-emvha vilzh-vha. Stöð-bellig-zh efter-bellig-zh diizh-n tank-zh dœlj-zh lazh-st. Om-zh død-zh diizh-n, Akane-holm-zh Zhr-vrak-zh rån-vha!

(Se Joe e Rita sobreviverem, quero que carreguem as consequências do ataque pelo resto de suas vidas. Quero que compreendam que não conseguiram proteger aqueles que estavam ao seu lado. Quero que o que acontecer na base permaneça em suas mentes muito depois que a batalha terminar, mas, se morrerem, a Horda tomará a Ilha Akane).


Rostris permaneceu em silêncio.


— Nip-holm-zh fær-zh, mål-jord-zh u-orð-zh mnezh-anvha spred-zh!

(E, a partir do Japão, começaremos a espalhar o caos pelo mundo).


A transmissão ficou silenciosa por alguns segundos.


Então Kletus prosseguiu:


— Skär-tid-zh nu-zh-tid lazh-st, hvir-zha vent-zh lazh-st.

(Falta pouco agora, permaneça onde está e aguarde).


— Jakrol-mêlzh... czezh-ivh.

(Sim, Grande Almirante).


— Akane-holm-zh stöð-zh redd-zh bellig-spår-zh hvir-zha sköð-zh vilzh-vha. Redd-zh diizh-n handl-zh lazh-st.

(Quero que observe a repercussão psicológica dos ataques recentes na Base da Ilha Akane. Deixe que o medo faça o seu trabalho).


Rostris:

— Så-n, ny-zh bellig-zh... når-zh lazh-st?

(E o próximo ataque... quando será?)


Almirante Kletus:

— Få-tim-zh fær-zh lazh-st.

(Dentro de algumas horas.)


A transmissão foi encerrada.


O monitor voltou à escuridão.


Rostris permaneceu imóvel por alguns segundos.


Depois voltou os olhos para os instrumentos da Mobula e disse para si mesmo.


— Czezh-ivh, Jakrol-mêlzh... fryd-zh arzh-emvha lazh-st.

(Sim, Grande Almirante, será um prazer).


No fundo do oceano, a Mobula continuou imóvel.


Em algum lugar muito distante dali, na Base da Ilha Akane, equipes ainda lutavam para recuperar suas vias de saída. E, enquanto todos corriam contra o tempo, Rostris aguardava.


A corrida contra o tempo havia começado.


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BASE DA ILHA AKANE — HORAS DEPOIS


A tensão dominava toda a base. Técnicos trabalhavam simultaneamente na pista de decolagem e na passagem submarina, enquanto os operadores recebiam novos relatos de incidentes pelo arquipélago de Izu.

As informações chegavam de vários pontos ao mesmo tempo, dificultando a coordenação das equipes.

Gen, Ippei e Sabu acompanhavam os monitores, enquanto os gailarianos tentavam organizar os dados recebidos pelos sistemas de comunicação.

Kaela e Liriana permaneciam preocupadas com os professores e alunos que ainda poderiam estar nas embarcações atingidas.

Midori continuava sem notícias de seu noivo, e Rita permanecia ao seu lado.

Até falsos alarmes provocavam reações imediatas, deixando claro o quanto os nervos estavam à flor da pele.

Quando Tobishima entrou na sala de comando, percebeu que a pressão começava a afetar o julgamento de todos.


— Mantenham a calma. Ainda temos nossas equipes, nossos aliados e o Pirata do Espaço. Ainda temos tempo.




A tensão ainda dominava a sala quando Bidkon entrou apressadamente. Havia algo diferente em sua expressão. Pela primeira vez naquela noite, parecia confiante.


Ele foi diretamente até Tobishima.


— Professor!


Tobishima voltou-se para ele.


— O que aconteceu, Bidkon?


— Acho que descobri como localizar o invasor.


A conversa na sala cessou imediatamente.


Joe ergueu os olhos. Sólus se aproximou. Sabu, Gen e Ippei, inclusive Doutora Kaela e Rita que continuou ao lado de Midori também voltaram a atenção para o engenheiro.


Bidkon apontou para os monitores.


— Desde que o Pirata do Espaço retornou à base, eu vinha trabalhando nos sistemas de detecção da nave. Reforcei o conjunto de radares com um sistema de correlação de ecos e ampliei a filtragem de assinaturas de baixa refletividade.


Tobishima franziu a testa.


— E conseguiu alguma coisa?


Bidkon sorriu.


— Consegui quebrar a invisibilidade do invasor.


A notícia percorreu a sala como uma descarga elétrica.


— Tem certeza? — perguntou Tobishima.


— Absoluta.


Bidkon aproximou-se do terminal.


— O sistema não procura mais apenas uma assinatura direta. Ele cruza pequenas perturbações no campo de detecção, variações de pressão, reflexos distorcidos e alterações no relevo submarino. A Mobula consegue desaparecer dos nossos radares convencionais, mas não consegue desaparecer completamente do ambiente ao redor.


Joe aproximou-se.


— Então você encontrou uma pista?


— Mais do que isso.


Bidkon conectou seu terminal ao sistema central.


— Eu já sei onde ela está.


Os monitores da sala se iluminaram.


Um mapa do arquipélago de Izu apareceu no telão.


Uma marca surgiu no extremo sul.


Bidkon ampliou a imagem.


— A Mobula está aqui.


Todos se aproximaram.


— 30°08′14″ norte, 140°19′27″ leste.


Sólus observou a posição no mapa.


— Entre Izu-Torishima e Sōfugan.


Bidkon assentiu.


— Exatamente.


Joe finalmente esboçou um sorriso.


— Então encontramos você, Rostris, seu maldito!


Bidkon prosseguiu:


— Também analisei o ataque paralisante da Mobula. De fato é um tipo avançado de ataque eletromagnético que atua no ambiente ao redor do objeto alvo, mas sem afetar o funcionamento, forçando o equipamento se esgotar. Notei isso, quando analisei as notícias dos ataques à via te transporte marítimo entre as ilhas. Algumas embarcações foram logo derrubadas e afundadas por baixo, devido ao ataque do robô-bomba vindo do fundo do mar, outras tiveram explosões em seus maquinários. Daí adaptei no Pirata do Espaço e no Tubarão Pirata um sistema de defesa automático, um tipo de campo de força que repele esse tipo de ataque, que é acionado automaticamente e numa intensidade um pouco maior.


Tobishima:


- Sr.Bidkon, isso é música para nossos ouvidos. Prof. Yan fez uma excelente escolha e colocá-lo como integrante da comitiva.


Gen foi o primeiro a querer a reação.


— Então o que estamos esperando? Vamos atrás dele, antes que ele faça mais vítimas!


Ippei, porém, apontou para os monitores.


— Mas como vamos tirar o Pirata do Espaço daqui?


A pergunta fez todos voltarem os olhos para a passagem submarina bloqueada.


Joe permaneceu alguns segundos olhando para o mapa. Então pareceu encontrar a resposta.


— Professor Tobishima, o Pirata do Espaço pode ser elevado pela plataforma subterrânea até a pista principal?


Tobishima pensou por um instante.


— Pode. Mas a pista ainda está em reparos, portanto, mesmo que coloquemos a nave lá, não haverá espaço suficiente para que ela tome distância e alcance a velocidade necessária para decolar.


Joe sorriu.


— Não precisamos que ele decole como nave.


Tobishima olhou para ele.


— Como assim?


— Se o Pirata do Espaço estiver na pista, mesmo parado, ele pode se transformar no robô de combate, e depois, pode saltar. Com os propulsores do robô, conseguirá ganhar altura suficiente para voltar à configuração de nave de combate aéreo.


O rosto de Tobishima se iluminou.


— Boa ideia, Joe!


Gen abriu um sorriso.


— É isso!


Ippei também pareceu aliviado.


— Então ainda podemos sair!


Tobishima virou-se para Rita e, finalmente, deu a ordem que todos aguardavam.


— Joe! Rita! Preparar o Pirata do Espaço!


Os dois responderam imediatamente:


— Sim, senhor!



Joe entrou na cabine de pilotagem acompanhado por Rita. Ambos vestiam seus trajes brancos com detalhes coloridos, enquanto o lenço amarelo de Joe se destacava sobre o uniforme.


Os dois se sentaram nas poltronas verdes. A porta da cabine se fechou e, logo em seguida, Joe e Rita já apareciam usando seus capacetes: o de Joe, branco e azul; o de Rita, rosa, com o formato semelhante a orelhas.


No painel diante deles, alavancas verdes com pontas vermelhas foram acionadas. Botões amarelos e diversos indicadores ocupavam a estrutura mecânica do painel.


Joe voltou a aparecer em seu posto de comando.


Então, a cena mostrou o Pirata do Espaço em sua forma de fortaleza aérea gigante, azul e vermelha, dentro do hangar.


O robô avançou em direção à abertura circular e saiu da base.


O Pirata do Espaço avançou pela pista da base, até onde era possível, e acionou a configuração de robô de combate. Seus movimentos eram firmes e precisos enquanto atravessava a área terrestre.


Uma de suas asas cinzentas se abriu parcialmente, revelando os compartimentos de armamento. Dois punhos fechados gigantes foram lançados em rápida sucessão como se fossem foguetes.


Em seguida, a cena destacou os componentes mecânicos do robô: o punho cerrado, o braço azul e vermelho e a articulação cinzenta de uma das pernas, enquanto o conjunto mecânico continuava em movimento.


Visto por trás, o Pirata do Espaço avançou pela pista, andando em sua forma humanoide de frente.


— Pirata do Espaço, saltar!!!


Os jatos instalados nos pés do robô foram acionados.


Uma forte rajada de propulsão atingiu o solo enquanto o Pirata do Espaço se impulsionava para cima. Seu corpo deixou a pista e ganhou altura rapidamente, sustentado pelos jatos.


Ainda no ar, o robô começou a mudar de configuração.


As pernas se recolheram para dentro da estrutura. Os braços foram posicionados junto ao corpo, enquanto diferentes segmentos da carcaça se deslocavam e se encaixavam.


As asas cinzentas se abriram.


A estrutura humanoide foi progressivamente transformada na configuração aerodinâmica da nave. O torso se reorganizou, os componentes externos se ajustaram e a cabeça desapareceu dentro da fuselagem.


Em poucos instantes, o robô havia deixado de existir como forma de combate.


O Pirata do Espaço estava novamente em sua configuração de nave de combate aéreo.


Os jatos continuaram impulsionando a nave enquanto ela avançava, ganhando velocidade e afastando-se da base.


— A toda velocidade, vamos!


O Pirata do Espaço acelerou, avançando sobre o ocean, em direção às coordenadas indicadas pelo radar. A distância até a posição da Mobula diminuía rapidamente. À medida que se aproximavam das coordenadas, uma nova indicação surgiu no radar.


Rita inclinou-se para observar o painel.


— Joe, lá está o robô-bomba!


Joe fixou os olhos nos instrumentos.


— Desta vez ele não vai escapar. Preparar Tubarão Pirata.


No interior da aeronave, Joe, ainda usando seu uniforme de piloto, acionou uma alavanca amarela no painel de controle.


Seu assento começou a se elevar.


A estrutura subiu por um túnel interno até alcançar outro compartimento da aeronave. Em seguida, Joe foi conduzido por um duto vermelho que o levou diretamente à cabine do Tubarão Pirata.


O pequeno veículo subaquático, pintado em vermelho, amarelo e verde, estava alojado na parte inferior do Pirata do Espaço.


Enquanto a aeronave sobrevoava o oceano, o compartimento inferior se abriu.


O Tubarão Pirata se desprendeu da fuselagem e caiu em direção à água.


Atingiu a superfície com velocidade e mergulhou imediatamente, levantando uma grande quantidade de espuma.


Já sob as ondas, Joe assumiu o controle.


O Tubarão Pirata avançou rapidamente entre formações rochosas escuras, seguindo as indicações do radar em direção à posição da Mobula.


O Tubarão Pirata avançava entre as formações rochosas do fundo do mar, seguindo as indicações do radar. Joe mantinha os olhos fixos nos instrumentos, corrigindo continuamente a trajetória.


Então, uma silhueta surgiu no visor.


Joe reduziu a velocidade.


Ali estava a Mobula.


O enorme robô-bomba permanecia parcialmente oculto entre as irregularidades do relevo submarino, praticamente confundindo-se com o ambiente ao redor.


Joe não hesitou.


Acionou os controles de armamento.


Uma rajada de pequenos mísseis foi disparada pelo Tubarão Pirata.


Os projéteis avançaram pela água e atingiram a Mobula em rápida sucessão.


Rostris, que estava cochilando foi pego de surpresa, caindo de sua cadeira de comando.


— O quê?! Como?! Hã????! Maldito! Como me achou?!


A Mobula imediatamente acelerou e desapareceu atrás de uma formação rochosa.


Joe acompanhou a movimentação pelo radar.


O Tubarão Pirata mudou de direção.


Rostris tentou novamente utilizar o relevo submarino como cobertura. Passou por uma depressão do fundo, contornou uma parede rochosa e mergulhou entre duas grandes formações.


Mas Joe já havia compreendido sua estratégia.


Cada vez que a Mobula tentava desaparecer atrás do relevo, o radar do Tubarão Pirata revelava sua posição.


Joe disparou outra sequência de mini-mísseis.


Rostris conseguiu escapar por pouco.


A Mobula mudou bruscamente de direção e tentou se esconder novamente.


Joe continuou seguindo-a.


— Pode tentar se esconder onde quiser...


O Tubarão Pirata contornou uma formação rochosa.


A Mobula estava ali.


Joe disparou novamente.


Rostris percebeu que aquela perseguição havia mudado.


Então decidiu usar seu último recurso.


A Mobula acionou seu sistema de ataque eletromagnético.


Uma descarga percorreu a água em direção ao Tubarão Pirata.


Os instrumentos começaram a oscilar.


Rostris sorriu.


Mas, em vez de desligar, os sistemas do pequeno submarino permaneceram funcionando.


Os indicadores voltaram à estabilidade.


Joe percebeu o que havia acontecido.


O sistema de defesa automático instalado por Bidkon havia entrado em ação.


Rostris arregalou os olhos.

— Hvad-zh?! (O quê?!)


A Mobula ficou exposta por alguns segundos.


Joe aproveitou a oportunidade e atacou novamente, atingindo o Mobula novamente.


Rostris percebeu que não conseguiria vencer aquela perseguição debaixo d’água.


A única alternativa era levar o combate para onde a Mobula teria maior mobilidade.


Acionou os propulsores.


A Mobula disparou em direção à superfície.


Joe foi atrás.


Os dois veículos romperam a água quase simultaneamente.


A Mobula ganhou altura, seguida pelo Tubarão Pirata.


Joe sorriu.


— Agora você não me escapa, Rostris!


O Pirata do Espaço se aproximou por cima.


O compartimento inferior da aeronave se abriu e o Tubarão Pirata foi recolhido para dentro da fuselagem.


No interior da aeronave, Joe deixou a cabine do pequeno submarino e foi conduzido novamente pelo duto vermelho.


Seu assento o levou de volta ao posto de pilotagem.


Joe reassumiu seu lugar ao lado de Rita.


Ela olhou para ele.


— Conseguiu encontrá-lo.


Joe voltou os olhos para a frente.


A Mobula já estava à distância, preparando-se para o confronto.


O Pirata do Espaço acelerou.


Rostris também.


Desta vez, não havia mais o relevo do fundo do mar para esconder a Mobula.


O combate aéreo começava.



Rostris foi o primeiro a atacar.


As asas da Mobula se abriram e, de seus compartimentos laterais, uma sequência de mísseis foi lançada contra o Pirata do Espaço.


Joe percebeu o ataque a tempo.


O Pirata do Espaço fez uma manobra evasiva, inclinando-se bruscamente para o lado enquanto os mísseis passavam pela sua trajetória e explodiam à distância.


Joe imediatamente contra-atacou.


— Metralhadora-pirata, FOGO!!!


Uma rajada de projéteis saiu do armamento do Pirata do Espaço e avançou em direção à Mobula.


Rostris, porém, já havia previsto a reação, fazendo com que Mobula executasse uma rápida mudança de direção, desviando-se da linha de tiro.Os projéteis passaram pelo espaço vazio e desapareceram ao longe.

Joe acompanhou a manobra.


Rostris havia conseguido evitar o primeiro contra-ataque.


Rostris não perdeu tempo. A Mobula manteve-se diante do Pirata do Espaço, voando com movimentos aparentemente mais lentos, como se estivesse apenas esperando o momento certo.


— Muito bem, Pirata do Espaço. Não ache que eu não sei lutar no ar. Chegue mais perto e verá.


Joe manteve a perseguição.


A Mobula permitiu que o Pirata do Espaço se aproximasse cada vez mais. Rostris parecia aceitar deliberadamente a aproximação, sem tentar escapar.


Então, quando Joe já estava próximo o suficiente, a Mobula mudou bruscamente de posição.


Da extremidade traseira de sua estrutura, saíram vários raios de energia que atingiram diretamente o Pirata do Espaço.


A descarga percorreu toda a aeronave.


Os sistemas estremeceram e uma forte descarga elétrica atravessou a cabine. Joe e Rita sentiram o impacto da eletricidade, enquanto os instrumentos oscilaram diante deles.


A dor era intensa.


Mesmo assim, Joe conseguiu permanecer no controle.


— LANÇAR BOLA DE FOGO!


O armamento foi acionado.


A bola de fogo atingiu a Mobula em cheio, envolvendo o robô-bomba em uma explosão.


Rostris reagiu imediatamente.


— Maldito Pirata do Espaço! Agora vocês verão do que eu sou capaz! ATAQUE PARALIZANTE, AGORA!


A Mobula iniciou seu ataque eletromagnético.


Uma descarga concentrada avançou em direção ao Pirata do Espaço.


Desta vez, porém, a proteção instalada por Bidkon entrou automaticamente em funcionamento.


O ataque foi bloqueado.


Rostris aumentou a potência.


A descarga tornou-se mais intensa.


Ainda assim, o Pirata do Espaço resistiu.


Rostris aumentou novamente.


E mais uma vez.


No interior da cabine, Rita acompanhava atentamente os instrumentos.


Os sistemas do Pirata do Espaço começavam a apresentar oscilações.


— Joe, a proteção está segurando, mas estamos começando a ter problemas nos sistemas!


Joe continuou segurando os controles.


A nave Mobula também começava a sofrer as consequências do esforço.


Seus sistemas estavam sendo levados ao limite pela potência exigida para manter o ataque.


Rostris, porém, não diminuía a intensidade.


O confronto se tornou uma disputa de resistência. De um lado, a Mobula aumentava continuamente a potência de seu ataque eletromagnético, enquanto que do outro, o sistema de proteção do Pirata do Espaço resistia, embora a própria máquina começasse a sentir os efeitos da sobrecarga.

Era como uma queda de braço entre as duas máquinas.


E nenhuma das duas parecia disposta a ceder.


Rostris percebeu que o Pirata do Espaço ainda resistia e decidiu levar o ataque ao limite.


— MÁXIMA POTÊNCIA, AGORA!


A Mobula aumentou brutalmente a intensidade da descarga eletromagnética.


Os efeitos sobre o Pirata do Espaço tornaram-se cada vez mais evidentes. Os instrumentos oscilaram violentamente e diversos sistemas começaram a apresentar falhas momentâneas. A aeronave tremia sob o efeito da interferência.


Rita acompanhava os monitores.


— Joe, temos que contra-atacar antes que o Pirata do Espaço sofra uma pane!


Joe tentou manter os controles estáveis.


— Os monitores estão oscilando. Quase não dá para atacar!


Rita percebeu uma possibilidade.


— Aperte direto os botões de comando. Não tire o dedo. No primeiro momento entre as oscilações, conseguiremos atingi-lo!


Joe entendeu imediatamente.


Manteve o comando pressionado, esperando pela pequena janela entre as oscilações dos sistemas.


— Pois muito bem, então aí vai! ARCO-ÍRIS PIRATA, FOGO!


Com enorme esforço, o Pirata do Espaço conseguiu disparar.


Um raio multicolorido saiu pela abertura de sua boca e atravessou o espaço em direção à Mobula.


O disparo atingiu o robô-bomba em cheio.


A descarga eletromagnética foi interrompida.


Rostris perdeu completamente o controle da situação. O impacto fez sua cadeira de comando se deslocar violentamente, e ele acabou caindo dela.


Joe não lhe deu tempo para se recuperar.


— BUMERANGUE PIRATA, VAMOS!


No topo da cabeça do Pirata do Espaço, entre as duas grandes antenas, abriram-se os compartimentos de lançamento.


Dois discos em formato de meia-lua foram disparados.


Os Bumerangues Piratas avançaram em direção a Mobula como lâminas cortantes. Atingiram a estrutura do robô-bomba em sucessão, cortando e danificando partes de sua carcaça.


Depois de completar o ataque, os dois discos fizeram uma curva e retornaram à trajetória do Pirata do Espaço, recolhendo-se novamente à fuselagem.


A Mobula estava severamente danificada.


Joe preparou o ataque seguinte.


— TORPEDO VOADOR, FOGO!


Rostris, ainda atordoado pelos impactos, ergueu-se com dificuldade. A Mobula estava severamente danificada, mas ele ainda segurava os controles.


Então, tomado pela fúria, bradou:


"AER-ZH STÆRK-ZH-IVH!

AER-ZH JAKROL-MÊLZH-IVH!

AER-ZH KVORDL-ZH-IVH!"

(GLÓRIA AOS FORTES! GLÓRIA AO GRANDE ALMIRANTE! GLÓRIA À HORDA)!


Tão logo as palavras foram ditas, o Torpedo Voador atingiu a Mobula em cheio.


Uma explosão violenta envolveu o robô-bomba.


A estrutura da Mobula foi destruída pelo impacto, encerrando o ataque de Rostris.



BASE DA ILHA AKANE

NO INTERIOR DO PIRATA DO ESPAÇO


A explosão da Mobula ainda podia ser vista ao longe quando o sinal de comunicação foi estabelecido.


A tela de telecomunicação se iluminou, mostrando o Professor Tobishima.


— Parabéns, Joe. Rita. Conseguiram novamente.


Joe sorriu, mas antes que pudesse responder, Tobishima continuou:


— E tenho uma boa notícia. O noivo de Midori e os alunos da Doutora Kaela estão todos bem.


Rita imediatamente se voltou para a tela.


— Todos?


— Todos. A embarcação foi atingida por Rostris ainda nas proximidades da costa de Tóquio e acabou afundando, mas as equipes de resgate chegaram a tempo. Todos foram retirados da água com vida.


Joe soltou o ar que parecia estar prendendo.


— Que bom...


Rita abriu um sorriso de alívio.


— Graças a Deus!


A notícia encerrava uma das maiores preocupações que haviam pesado sobre a base nas últimas horas.


Tobishima então informou:


— Voltem para a Ilha Akane. Temos muito o que conversar.


A transmissão foi encerrada.


Joe voltou a atenção para os controles, enquanto Rita permanecia sorrindo.


Pela primeira vez desde o início daquela crise, os dois podiam respirar um pouco mais tranquilos.


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BASE DA ILHA AKANE


Enquanto aguardavam o retorno do Pirata do Espaço, Sabu e Liriana permaneciam próximos à área externa da base.


Sabu parecia satisfeito consigo mesmo.


— Viu? Eu disse que não havia com o que se preocupar.


Liriana olhou para ele.


— Você disse isso depois que tudo terminou.


Sabu ficou alguns segundos em silêncio.


— Detalhes.


Liriana sorriu.


— Mas você estava preocupado.


— Eu? Nunca.


Ela ergueu uma sobrancelha.


— Sabu...


— Está bem. Talvez um pouquinho.


Ele olhou para o céu, na direção de onde esperavam que o Pirata do Espaço retornasse, e prosseguiu:


— Espero que você também tenha mudado de ideia.


— Sobre o quê?


— Sobre a comitiva gailariana. Você achava que talvez a presença dela aqui estivesse causando todos esses problemas.


Liriana pensou por alguns instantes.


— Talvez eu tenha pensado assim.


— E agora?


Ela olhou para Sabu.


— Agora acho que, se tudo der certo, talvez algumas coisas não precisem terminar quando esta missão acabar.


Sabu franziu a testa, tentando entender.


— Você está falando da comitiva?


Liriana sorriu.


— Poderia estar.


Ela olhou para o céu antes de continuar:


— Se tudo der certo, alguns irão para Gailar. Outros ficarão aqui para receber os próximos.


Sabu ficou em silêncio.


— E quem vai? Quem fica?


Liriana voltou os olhos para ele.


— Ainda não sabemos.


Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Liriana, enquanto Sabu continuou olhando para ela, com um olhar que transmitia confusão.


Talvez estivesse falando apenas da comitiva. Afinal, alguns poderiam ir para Gailar, enquanto outros permaneceriam na Terra para receber os próximos visitantes. Ou talvez ela estivesse pensando em sua Rita, que naquele momento retornava com Joe a bordo do Pirata do Espaço. Talvez eles não precisassem se separar de novo.


Sabu olhou para o céu.


Liriana continuava sorrindo, mas não explicou.


E, sem perceber que aquelas palavras talvez também dissessem respeito a ele, Sabu permaneceu tentando descobrir o que ela realmente quis dizer com "coisas que não precisam terminar".






Notas finais
1 Referência ao capítulo 7 (A caçada) do anime original: https://www.youtube.com/watch?v=v3w97D59DMU