A VOLTA DO PIRATA DO ESPAÇO

4 Erupção de fúria no coração de Rita.


Notas iniciais
1 - Entalpia (H) é grandeza termodinâmica que mede a quantidade de energia térmica (calor) trocada por um sistema a pressão constante. 2 - Tori-Shima (Ilha do Pássaro em japonês) é uma ilha vulcânica desabitada, localizada no sul do arquipélago japonês de Izu. 3 - Ver o anime original no episódio 20 'Saudações': https://www.youtube.com/watch?v=5Zj6_JMvd-g 4 - Ver o anime original no episódio 09 'Amizade Entre Balas': https://www.youtube.com/watch?v=zIYFYIo9vZg 5 - Ver o anime original no episódio 36 'Soem os sinos da paz': https://www.youtube.com/watch?v=i_o4PvRPU3k

BASE DA HORDA MERODAK — SALA DE COMANDO DE KLETUS


Kletus examinava mapas e dados energéticos da Terra diante de uma grande tela holográfica. Alguns passos atrás, Karpenek consultava informações técnicas em um terminal. A porta se abriu. Um capitão entrou na sala.


Era um humanoide de aparência incomum. Completamente calvo, tinha a pele cinzenta, perfeitamente lisa, sem poros aparentes ou qualquer vestígio de pelos. No rosto angular, os lábios finos e cerrados acentuavam a expressão severa sob o nariz afilado. Os olhos eram inteiramente negros, semelhantes a duas superfícies de obsidiana, com um discreto brilho óptico artificial.


Vestia uma túnica militar bege, de gola alta e rígida, abotoada com precisão até o pescoço. No lado direito do peito estava o símbolo da Horda Merodak. Ele parou diante de Kletus. E se apresentou em Merodak-ryn, o idioma usado pelos membros do horda Merodak.


— Orð-zh fær-zh, kapozh Lagan-zh her-zh lazh-st.

(Capitão Lagan, apresentando-se conforme solicitado.)


Kletus voltou-se para ele.


— Nær-zh hvir-zha kan-vha. (Pode aproximar-se).


Lagan avançou alguns passos. Kletus conhecia seu histórico. Era um militar disciplinado, inteligente e extremamente cuidadoso em suas operações. Entre os capitães da Horda, havia poucos por quem demonstrasse um respeito semelhante. Karpenek, entretanto, ergueu os olhos do terminal. Ao reconhecer Lagan, sua expressão mudou discretamente. Lagan percebeu, mas não disse nada.


Kletus projetou um mapa da Terra. Uma pequena ilha vulcânica apareceu no centro da projeção.


— Tori-Shima-holm-zh. (Tori-Shima).


Lagan estudou o relevo no mapa.


— Eld-holm-zh lazh-st. (Uma ilha vulcânica).

Kletus:

_Czezh-ivh. Zhr-vrak-n ske-mæl-zh jord-djup-zh

u-lik-zh finn-vha. Jord-varm-zh stor-khel-zh

lazh-st. Få-zh terr-folk-zh lazh-st dœd-zh.

För-thi-zh, for-bjud-stell-zh lazh-st.

(Exatamente. Nossos sensores identificaram uma anomalia abaixo da região. Existe atividade geotérmica excepcionalmente intensa no subsolo. Os poucos terráqueos que viviam nessa região morreram. Por isso, o local proibido para habitação permanece.)


Lagan compreendeu.


— Mest-varm-dhr-mêla-zh!

(Energia geotérmica de alta entalpia¹).


Kletus ampliou a projeção e fez surgir uma rota sobre o mapa.


— Zhr-vrak-tar-zh bral-as-zh fær-zh krav-as-zh hvir-zha fær-zh. Karpenek-zh hvir-zha leð-zh, vakt-sköld-zh klo-rin-zh lazh-st.

(Partirá da nossa base no Oceano Antártico e seguirá em direção ao Atlântico Norte. Karpenek irá guiá-lo por uma rota livre dos principais corredores de navegação e das áreas de maior cobertura de radar).


Lagan lançou um rápido olhar para Karpenek. Manteve a expressão impassível, mas deixou escapar um suspiro de irritação antes que pudesse contê-lo. Kletus prosseguiu, como se não tivesse percebido.


— Zhr-vrak-tar-zh Is-hav-zh, så-n Ost-hav-zh fyr-ti-linj-zh hvir-zha nå-zh. Vakt-sköld-zh fær-zh hvir-zha fær-vha. Terr-folk-zh hvir-zha se-zh arzh-emvha vilzh-vha!

(Do Atlântico Norte, você seguirá para o Ártico e então descerá pelo Oceano Pacífico até alcançar o paralelo quarenta. A partir daí, poderá prosseguir sem a mesma preocupação com os sistemas de vigilância. Para nós, é interessante e até necessário que os terráqueos registrem sua passagem nesse trecho).


Lagan observou a trajetória projetada.


— Is-as-zh fær-zh mål-kro-zh calc-zh?

(Os terráqueos presumirão que veio do Ártico)


A linha da rota mudou novamente, afastando-se das regiões de maior tráfego marítimo.


— Čet-des-skel-zh nå-zh, mål-kro-zh nietzh-pa-zh, rån-stell-zh hvir-zha dœlj-zh! U-orð-zh stor-zh mær-zh, stür-mêla-zh u-stæd-zh yde-zh lazh-st. Ske-tar-zh, skif-rin-zh stor-zh fær-zh hvir-zha fær-vha, Tori-Shima-holm-zh be-rak-zh nå-zh!

(Ao alcançar o paralelo quarenta, não deixe que os terráqueos descubram para onde você foi. Isso irá confundi-los ainda mais e aumentar a insegurança de seus governos. Volte a se afastar dos radares e das principais rotas de navegação e siga diretamente para Tori-Shima²).


Kletus encerrou a projeção da rota e assentiu.


— Skär-dhr-mêla, lad-mach-tar-zh, stor-mach-zh. Zhr-vrak se-zh frû. Mæla-zh Zhr-vrak pa-zh frû, mæl-ta-zh Zhr-vrak se-zh frû, stür-ni-zh. Zhr-vrak ni-zh frû. Dhr-mêla stor-khel-zhdelt-tar-zh stor-zh, ny-zh spræng-mach-zh, bygg-zh Zhr-vrak ni-zh frû.

(A Horda poderá usar parte dessa energia para recarregar seus sistemas de armazenamento e alimentar equipamentos de alta potência. Avaliaremos os recursos, extrairemos o que for necessário e partiremos quando decidirmos. Essa energia será fundamental para ampliar nossa base secreta e construir novos robôs-bombas.)


Lagan fez uma breve inclinação de cabeça.


— Czezh-ivh. (Entendido).


— Daxemora-spræng-mach-zh, bellig-krig-zh hvir-zha ta-zh, Eld-holm-zh fær-zh! Dhr-mêla stor-khel-zh hvir-zha pa-zh frû. Mæl-ta-zh be-rak-zh se-zh frû! (Você irá até lá com o robô-bomba Daxemora e uma equipe de soldados. Quero que avaliem a capacidade energética da região. Se os dados forem confirmados, iniciem a extração imediatamente).


— Skön-zh lazh-st. (Será feito).


Lagan fez uma pausa.


— Daxemora-spræng-mach-zh ny-zh mach-bygg-zharzh-emvha gœr-zh sên.

(Tomei a liberdade de aprimora r alguns sistemas do Daxemora antes de partir).


Karpenek levantou os olhos.


— Ny-zh mach-bygg-zh? (Aprimoramento de engenharia?)


Lagan voltou-se para ele.


— Czezh-ivh. Jord-djup-zh rin-zh, jord-varm-zh ske-mæl-zh, spræng-mach-zh mæla-zh arzh-emvha gœr-zh sên.

(Sim. Fiz algumas alterações nos sistemas de navegação subterrânea, nos sensores geotérmicos e na capacidade de análise estrutural do robô-bomba).


Karpenek cruzou os braços.


— Hvir-zha mach-bygg-zh lazh-st arzh-emvha nietzh-sköð-vha.

(Interessante. Não sabia que você havia se tornado engenheiro).


Lagan manteve a expressão impassível.


— Mach-bygg-zh arzh-emvha nietzh-lazh-st. Meg-folk-zh mach-bygg-zh ukend-stell-zh arzh-emvha nietzh-tror-vha!

(Não me tornei engenheiro. Apenas não confiei a exploração de um ambiente desconhecido à capacidade tecnológica de um megoviano).


Karpenek ergueu lentamente a cabeça.


— Vath-kraz-zh, lazh-st!... (Cuidado, vathusiano...)


Lagan permaneceu imóvel.


— Var-zh arzh-emvha lazh-st. (Apenas estou sendo prudente).


Karpenek soltou uma breve risada de desprezo. Deixando a língua merodaque de lado e falando em sua língua natal


—Sč-sienʔ D-sâñkʼ? Vathusian-V-lâñ-Z-lhân... Pþlen-tûs-Sč-âñkʼ O-tâ-Pþâss L-tâk N-fâ... Megoviano-Z-lhân Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ-M-êlañ O-tâ-Pþâss X-sienʔ L-tâk Kâ!

(Prudente? Se os vathusianos parassem de se achar mais inteligentes do que realmente são, talvez tivessem tempo de aprender a ser tão bons cientistas quanto os megovianos).


O silêncio tomou a sala. Lagan estreitou ligeiramente os olhos. E respondeu no mesmo idioma, mas em seu dialeto


— Megovian-V-lâñ-Z-lhân... Sč-sienʔ-Žâñkʼ Pþâss-Þmâñ-klhân L-tâk N-fâ... T-Pþâss X-sienʔ L-tâk Kâ. Megovia-Z-lhân... Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ Pþâss-Mitlã Ltâk Nâ... My-lhân L-tâk Ø! (Talvez os megovianos devessem aprender que o conhecimento não é propriedade de uma espécie. Embora eu ache que vocês não tenham tanto assim).


Karpenek entendeu e deu um passo à frente.


— Sč-sienʔ O-tâ Mbþâx Râ? (O que você disse?)


Antes que qualquer um dos dois pudesse continuar, um estrondo metálico ecoou pela sala. Kletus havia golpeado a mesa com o braço mecânico. O impacto fez o tampo estremecer violentamente. Os dois capitães ficaram imóveis.


Kletus permaneceu sentado.


Falou baixo, com calma, pesando cada palavra.



— HALT-ZH! (BASTA! / CESSEM IMEDIATAMENTE!)


Ninguém respondeu.


Kletus olhou primeiro para Karpenek.


Depois para Lagan.


— Graig-jord-zh hvir-zha to-zh fød-zh. Meg-folk-zh... Vath-folk-zh... Graig-jord-zh ord-zh lazh-st. Her-zh nietzh-lazh-st!

(Vocês dois nasceram no planeta Graigus. Megoviano... Vathusiano... Essas palavras podem ter algum significado em Graigus. Aqui, não!)


Lagan permaneceu em silêncio.


— Zhr-vrak-zh fær-zh, hvir-n fortid-zh dœd-zh! Graig-jord-zh fortid-zh Graig-jord-zh lazh-st. Her-zh... ENE-ZH LAZH-ST: MERODAK-ZH!

(A partir do momento em que entraram para esta horda, seus passados no planeta Graigus deixaram de importar. Aqui, apenas uma realidade existe: MERODAK!).


Kletus inclinou-se ligeiramente para a frente.


A palavra pareceu permanecer no ar por alguns segundos.


— Merodak-kraz-zh lazh-st! Sên-stæd-zh orð-klor-zh Merodak-kraz-zh ni-zh klo!

(Todos aqueles que servem à Horda são merodaques afirmou, incisivo. E merodaques não desperdiçam tempo discutindo o que deixaram no passado).


Kletus apontou para a projeção.


— Lagan-zh, Daxemora-spræng-mach-zh ta-zh Eld-holm-zh fær-zh! (Lagan, prepare o Daxemora e parta para Tori-Shima).


— Czezh-ivh, Jakrol-mêlzh! (Sim, Grande Almirante).


Kletus olhou para Karpenek.


— Karpenek-zh, her-zh ske-mæl-zh hvir-zha vakt-zh! (E você , Kapernek, acompanhará os dados da operação daqui).


Karpenek fez uma breve inclinação de cabeça.


— Czezh-ivh . (Entendido).


Kletus voltou a observar o mapa.


—Fær-vha! (Podem ir)


Lagan fez uma saudação e saiu. Karpenek permaneceu alguns segundos parado, olhando para a porta por onde o vathusiano havia desaparecido. Depois também se retirou. A porta se fechou. Kletus ficou sozinho na sala. Diante dele, a imagem de Tori-Shima continuava brilhando no ar.


───────────────────────────────────


O ronco do motor do avião biplano 'Havilland Tiger Moth', apelidado pelos homens da base de 'Libélula Vermelha', quebrava a tranquilidade da manhã sobre Akanejima. Pequeno e escarlate, tinha dois assentos em tandem e era leve e ágil o bastante para servir tanto aos treinamentos quanto às missões de observação. Joe ocupava o assento dianteiro. Atrás dele, Sabu acompanhava atentamente cada movimento.


Joe inclinou suavemente a aeronave para a esquerda, corrigiu com o leme e iniciou uma curva fechada. Em seguida, nivelou as asas, fez uma pequena guinada para a direita e retomou a trajetória. Sabu repetiu a sequência. Não com a mesma elegância, mas sem cometer nenhum erro grave. Joe observou os instrumentos e depois olhou rapidamente para trás.


— Se você quer ser o piloto número um da Equipe Tobishima, vai ter que fazer tudo o que eu fizer.


Sabu sorriu.


— Até agora estou conseguindo.


Joe soltou uma breve risada.


— Estou percebendo. Andou treinando enquanto estive fora?


— Umas três vezes.


Joe ergueu uma sobrancelha.


— Três?


— Sozinho.


— Sozinho?


— E sem autorização do professor Tobishima.


Joe balançou a cabeça, divertido.


— Imagino que ele tenha ficado feliz.


— Muito. Tanto que me mandou para a escola de cadetes para eu aprender a ser obediente.


Joe riu.


— E depois?


— Depois foi tudo no simulador.


Joe fez uma pequena correção no manche.


— Então vamos descobrir se o simulador ensinou você a fazer esta.


Sabu percebeu a mudança de direção. À frente, próximo a uma praia deserta, erguia-se uma formação rochosa. A erosão havia aberto um enorme arco natural, como uma janela escavada na montanha. Sabu arregalou os olhos.


— E-e-espera aí, Joe!


Joe manteve o avião na direção do arco.


— O quê?


— Aquele arco, não!


Joe sorriu.


— Lembra dele?


— Como eu poderia esquecer? Você quase morreu lá quando enfrentou aquele piloto gailariano que desafiou você!³


Joe fez uma pequena pausa. A lembrança veio acompanhada de outra, bem menos agradável.


— Ora, Sabu. Antes de eu partir para Okinawa, nós treinamos muito isso. Lembra?


— Lembro.


— E você se saiu bem.


Sabu ficou alguns segundos em silêncio.


Então soltou, sem pensar:


— Claro. Fui aprendendo no desespero. Você estava naquela fase de depressão suicida, quando a Rita foi embora...


Joe virou lentamente a cabeça.


— O que você disse, Sabu?


Sabu empalideceu.


— Err... nada.


— Eu ouvi alguma coisa.


— Não ouviu, não.


— Sabu...


— Vamos fazer logo isso e depois vamos embora. Tenho aula de língua gailariana, filosofia, engenharia...


Joe voltou a olhar para a frente.


— Então, senhor estudioso, você vai tirar isso de letra.


Sabu respirou fundo.


— Vou?


— Vai.


Joe reduziu ligeiramente a velocidade.


— Desta vez, é você quem vai fazer. Eu só vou orientar.


— Você está falando sério?


— Muito.


A praia desapareceu parcialmente sob a asa direita. O arco cresceu diante deles. Joe alinhou a aeronave.


— Muito bem, Sabu. Mire a hélice no centro do arco. Mantenha as asas niveladas. Quando passar, ganhe altura gradualmente — explicou Joe, com calma. — Não tenha pressa. Há bastante espaço depois do arco.


Sabu engoliu em seco.


— Tempo? Espaço? Só se for o arco para o outro mundo.


Joe riu.


A Libélula Vermelha se aproximou da formação rochosa. Joe baixou ligeiramente o nariz.


— Prepare-se.


Sabu segurou os controles.


— Estou preparado.


— Ainda não.


Joe fez uma pequena correção de atitude e, no instante seguinte, transferiu os comandos para Sabu.


— Agora.


Sabu assumiu o controle.


Por um momento, o avião pareceu inclinar-se demais.


Ele corrigiu.


As asas voltaram ao nível.


O arco estava cada vez mais próximo.


— Devagar...


Sabu manteve a trajetória.


— Isso...


A aeronave entrou no vão.


A rocha passou a poucos metros de cada lado das asas.


Sabu prendeu a respiração.


Por um segundo, pareceu que o tempo havia parado.


Então a Libélula Vermelha atravessou o arco.


— Agora sobe! — orientou Joe.


Sabu puxou suavemente os comandos.


O nariz se elevou.


A aeronave ganhou altura e deixou a formação rochosa para trás.


Sabu abriu um sorriso enorme.


— Consegui!


Joe assentiu.


— Muito bem.


— Eu consegui!


— Conseguiu mesmo.


Sabu riu, satisfeito consigo mesmo.


Foi então que Joe olhou para o alto.


Muito acima deles, quase perdido na claridade do céu, algo passou depressa.


Um reflexo.


Grande demais para ser um pássaro.


Rápido demais para ser uma aeronave comum.


Joe acompanhou o movimento com os olhos.


O objeto desapareceu em poucos segundos, seguindo em direção ao sul do arquipélago de Izu.


O sorriso de Joe desapareceu.


— Você viu isso, Sabu?


Sabu ainda estava comemorando.


— Eu consegui...


Joe apontou para o céu.


— Sabu.


— Hã?


— Você viu o que acabou de passar lá em cima?


Sabu olhou depressa na direção indicada.


— O quê?


— Um borrão luminoso.


Joe continuou observando o céu vazio.


— Foi rápido demais. Seguiu para o sul.


Sabu finalmente percebeu a seriedade na voz do instrutor.


— Um robô-bomba nos viu?


Joe balançou a cabeça.


— Acho que fomos nós que vimos ele.


Sabu olhou para o sul.


— Então vamos atrás?


Joe voltou a atenção para os instrumentos.


— Vamos sobrevoar as ilhas do sul e tentar localizar alguma coisa.


— Mas como? Se for um robô-bomba, ele é rápido demais para a Libélula Vermelha!


— Eu sei.


Joe verificou o combustível.


— Mas não precisamos alcançá-lo. Só precisamos descobrir para onde ele está indo.


Sabu assentiu.


Joe conferiu os instrumentos uma última vez.


— Gen e Ippei deixaram o tanque bem abastecido para um voo extra.


Ele ajustou o rumo. A Libélula Vermelha inclinou-se suavemente para o sul.


— Então vamos ver o que está escondido lá embaixo.


Sabu olhou mais uma vez para o céu atrás deles.


— Espero que seja alguma coisa interessante.


Joe sorriu de canto.


— Depois do que acabamos de ver, eu preferia que não fosse.


O pequeno avião ganhou velocidade e seguiu sobre o arquipélago, enquanto Akanejima ficava para trás.


───────────────────────────────────


O Daxemora avançava lentamente sobre o terreno escuro, enquanto seus sensores analisavam as características geológicas da ilha. Lagan acompanhava os dados no visor de comando.


— Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ... Sč-sienʔ-V-lhân-Mbþâx Pþâss-M-êlañ... Sč-sienʔ-D-sâñkʼ Sč-sienʔ-Þmâñ My-lhân L-tâk Ø. Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ-M-êlañ Sč-sienʔ-D-sâñkʼ... Sč-sienʔ-V-lhân-Mbþâx O-tâ-Pþâss S-sienʔ Râ.

(Temperatura elevada. Pressão subterrânea estável. O reservatório está exatamente onde nossos sensores indicaram).


O robô-bomba parou sobre uma extensa área de rocha escurecida. Estruturas mecânicas se abriram em sua parte inferior e começaram a perfurar o solo. Poucos minutos depois, os primeiros sistemas de captação foram ativados. Tubulações metálicas penetraram na superfície, alcançando as camadas mais profundas do terreno. Os indicadores do painel começaram a subir.


— Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ Pþâss-M-êlañ-Z-lhân Sč-sienʔ-D-sâñkʼ S-sienʔ Râ! (Iniciando transferência para os capacitores de energia entálpica).


No interior do Daxemora, os módulos de armazenamento começaram a receber a energia extraída do reservatório geotérmico. Uma nuvem esbranquiçada surgiu próxima à área de perfuração. Lagan voltou sua atenção para os sensores atmosféricos.


— Sč-sienʔ, D-sâñkʼ-M-êlañ (Interessante, A leitura é fascinante...)



A voz de Karpenek surgiu no canal de comunicação.


— Hvir-mæla myn pa-zh sên? (O que você encontrou?)


Lagan analisou os dados durante alguns segundos.


— Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ... Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ-M-êlañ My-lhân X-sienʔ Ø. ( Dióxido de enxofre. E sulfeto de hidrogênio).


Karpenek fez uma expressão de desagrado.


— Sč-sienʔ-V-lhân-Mbþâx (Gases vulcânicos).


— Huma-Z-lhân... Sč-sienʔ-Þmâñ Pþâss-M-êlañ L-tâk Ø Gases tóxicos para humanos.


Lagan continuou examinando as leituras.


— Graigus-Vathus... Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ L-tâk Ø. (Mas perfeitamente toleráveis para um vathusiano de Graigus).


Houve alguns segundos de silêncio.


Karpenek não respondeu.


Lagan ampliou os dados no visor.


— Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ... O-tâ-Pþâss X-sienʔ N-fâ Kâ. (Esses gases... nós não os desperdiçar devemos.)


— O-tâ X-sienʔ Râ? (O que está pensando?)


Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Lagan.


— Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ... Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ-M-êlañ O-tâ X-sienʔ Kâ. Sč-sienʔ-D-sâñkʼ, Sč-sienʔ-V-lhân-Mbþâx S-sienʔ Râ, Sč-sienʔ-Þmâñ My-lhân X-sienʔ Kâ! (Podemos instalar uma unidade secundária de processamento. Captar os gases, concentrá-los e armazená-los em reservatórios pressurizados).


Karpenek percebeu imediatamente a intenção.


— Sč-sienʔ-D-sâñk (Para quê?)


Lagan finalmente desviou os olhos do painel.


— Þmâñ My-lhân L-tâk Ø (Armas químicas).


Karpenek franziu a testa.


— Daxemora-Ž-sâñkʼ... Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ My-lhân X-sienʔ N-fâ Ø! (O Daxemora não possui sistemas para isso).


— Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ... Sč-sienʔ-Þmâñ X-sienʔ N-fâ Râ. (Não possuía... no passado.)


Karpenek ficou em silêncio por alguns instantes.


— Sč-sienʔ-D-sâñkʼ-M-êlañ... Daxemora-Ž-sâñkʼ O-tâ X-sienʔ Râ? (A unidade robótica... você adaptou novamente?)

— Skr-lhâk-Z-lhân (Antes de partir).


A resposta pareceu irritá-lo ainda mais.


— Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ-M-êlañ (Naturalmente).


Lagan ignorou o comentário.


— Huma-Z-lhân-Mbþâx... Sč-sienʔ-D-sâñkʼ O-tâ X-sienʔ Kâ... Sč-sienʔ-Þmâñ-Z-lhân Sč-sienʔ-V-lhân My-lhân L-tâk Ø! (Podemos transportar os reservatórios e utilizá-los posteriormente contra instalações humanas. Uma quantidade relativamente pequena seria suficiente para contaminar uma área considerável).


A comunicação ficou silenciosa. Então outra voz surgiu no canal.


Kletus.


— Mach-tar-zh bygg-mach-zh, hvir-tids-zh ni-zh frû? (Quanto tempo para instalar o sistema?)


Lagan respondeu sem hesitar.

— My-lhân X-sienʔ (Poucas horas).


— Lagan-zh! Merodak-ryn-zh orð-zh se-zh!

(Lagan! Fale na língua Merodak)


— U-skild-zh, Jakrol-mêlzh.

(Desculpe-me, Grande Almirante.)


— Dhr-lad-mach-zh, hvir-mæl-zh se-zh frû?

(E os capacitores entálpicos... como operam?)


— Dhr-mæl-ta-zh rån-mæl-zh fær-zh. To-mæl-zh, se-zh frû! (A extração continuará normalmente. Os dois processos podem funcionar simultaneamente).


Kletus observou os dados projetados diante de si.


— Skön-zh lazh-st! (Então faça).


Karpenek virou-se para a tela.


—Jakrol-mêlzh, mæla-zh fær-ni-zh frû! (Grande Almirante, isso desviará recursos da operação principal).


Kletus ergueu os olhos.


— Nietzh fær-ni-zh klo. (Não desviará).


Uma breve pausa.


— Mæla-zh, mæl-stor-zh se-zh frû! (Acrescentará recursos à operação).


Karpenek apertou os lábios. Lagan voltou aos controles do Daxemora.


— Be-rak-zh, skön-zhni-zh frû! ( Começarei imediata mente.)


Kletus encerrou a comunicação. Por alguns segundos, Karpenek permaneceu olhando para os dados.


Então murmurou:


— Graigus-Vathus... Sč-sienʔ-Ž-sâñkʼ L-tâk Ø (Vathusiano arrogante)


Do outro lado da comunicação, Lagan esboçou um pequeno sorriso.


— Megov-Sč-sienʔ (Megoviano ressentido).


A comunicação foi encerrada. O Daxemora retomou a operação. Sob seus pés mecânicos, a terra vulcânica começou a vibrar levemente. As enormes brocas instaladas nas pernas do robô começaram a girar. O movimento produziu um ruído grave e contínuo, que se espalhou pela área vulcânica.


O Daxemora abriu parcialmente os suportes laterais para estabilizar o corpo. A estrutura pesada permaneceu imóvel enquanto as brocas avançavam pela rocha, lançando fragmentos de pedra para os lados. Lagan acompanhava os dados no painel.


— Þmâñ-D-sâñkʼ... My-tâ Þmâñ-Kâ Ø! (Aumentem a pressão de perfuração gradualmente).


Dois soldados da Horda trabalhavam junto às estruturas auxiliares, verificando as tubulações e os sistemas de captação. Todos graigusianos, pois eram os únicos resistentes, até certo ponto, àqueles gases tóxicos.


— Þmâñ-D-sâñkʼ... L-tâk Kâ Ø! (Pressão subindo!)


Lagan ergueu os olhos.


— Skr-lhâk-Þmâñ... My-tâ N-fâ Kâ! (Reduzam a velocidade!)




As brocas diminuíram a rotação.


— Þmâñ-Mbþâx... My-lhân N-fâ-S-sienʔ Ø! (Não queremos romper o reservatório de uma vez).


Um dos soldados olhou para os sensores atmosféricos.


— S-sienʔ-Ž-sâñkʼ... L-tâk Kâ Ø! ( Os níveis de gás estão aumentando!)


Lagan levantou-se de seu posto.



Os subordinados imediatamente ajustaram seus equipamentos.


— Þmâñ-Ž-sâñkʼ... Kâ-Mbþâx My-tâ N-fâ-S-sienʔ Kâ! (O sulfeto de hidrogênio é inflamável. Evitem qualquer fonte de ignição próxima às áreas de exaustão.) O

Um dos soldados confirmou:


— Pravâ myn znyat. ( Entendido, capitão).


Lagan voltou a observar o painel.


— Zapal vy nekrut. Wysok-Datch vy otwod. (E não confiem no cheiro para detectar um vazamento. Se os sensores acusarem concentração elevada, afastem-se imediatamente.)



O soldado assentiu.


— Pravâ myn tak (Sim, capitão).


As brocas voltaram a girar.


Desta vez, a resistência da rocha era maior.


O Daxemora pressionou o corpo contra o terreno.


As estruturas metálicas estremeceram.


Então um estalo surdo veio das profundezas.


Os soldados pararam. Lagan olhou para o painel.


— m'b-tha-ks d-a-ch m-ai-n z-ni-at (Reservatório atingido).


Os indicadores dispararam.


Uma coluna de vapor e gases vulcânicos escapou pelas fissuras abertas ao redor das brocas.


— p-ra-va d-a-ch vy o-t-wo-d ( Reduzam a pressão!)


Os soldados correram para verificar as conexões.


Lagan acompanhou a leitura. A temperatura subia, assim como a pressão.


— Pravâ-Datch vy znyat. Zapal vy otwod nekrut. (Estabilizem as válvulas. Não deixem o fluxo escapar para a área de operação).


Enquanto os sistemas eram ajustados, o Daxemora iniciou a transferência da energia capturada. Os capacitores de energia entálpica foram sendo carregados um após o outro.


Lagan observou os indicadores com satisfação.


— Datch-Tak. (Excelente).


Então um dos operadores levantou a cabeça.


— Karpon (Capitão).


Lagan não respondeu imediatamente.


— Znyat myn kâ? (O que foi?)


— Mbþâx-Zapal myn znyat. (Detectamos uma aeronave).


Lagan virou-se.


—Kâ-Mbþâx myn kâ? (Em qual setor foi detectado?)


O soldado apontou para o painel.


— Tori-Shima myn znyat. (Sobre Tori-shima).


Lagan aproximou-se do visor. Uma pequena marca aparecia no radar. Movia-se rapidamente sobre Tori-Shima.


— Pravâ-Datch myn znyat kâ? ( Identificação? / A assinatura de código tu confirmas?)


— Pravâ-Datch myn nekrut. (Ainda não temos leitura).


Lagan observou a trajetória. A aeronave estava se aproximando.


— Wysok myn kâ? (Altitude registrada)?


O operador informou.


Lagan estreitou os olhos.


— Merodak-Mbþâx myn nekrut. Não é uma aeronave da Horda.


Outro soldado ampliou a imagem.


— Maly-Mbþâx myn znyat. (Parece um avião pequeno).


O operador olhou para Lagan e disse:


—Pravâ-Datch myn otwod kâ? Devemos interromper a operação?


Lagan continuou observando a marca no radar.


— Nekrut (Não).


Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Lagan.


— Zapal-Myn myn znyat. (Vamos descobrir por que os terráqueos vieram)

Ao longe, aproximava-se o ronco da Libélula Vermelha. Joe manteve o avião em altitude de cruzeiro, contornando a ilha, que parecia deserta. Não havia embarcações nas proximidades. Nenhuma construção. Nenhuma movimentação que justificasse a presença de uma aeronave naquela região. Sabu observava o terreno.


— Está vendo alguma coisa, Joe?


Joe manteve os olhos à frente.


— Nada.


Ele fez uma pequena correção no curso.


— Depois daqui, só temos o rochedo de Sōfugan.


Sabu olhou para o horizonte.


— Então provavelmente foi só aquele reflexo que vimos.


Joe não respondeu. Continuou observando a ilha, incomodado com alguma coisa que não conseguia explicar. Não havia evidência concreta, nenhum sinal no radar, nenhuma estrutura visível. Mesmo assim, tinha a sensação de que alguma coisa deveria estar ali. Joe baixou um pouco o nariz da aeronave.


— Vou voar mais baixo, Sabu.


— Mais baixo?


— Quero dar outra olhada na ilha.


Joe ajustou os comandos.


— E fique de olhos abertos. Avise se notar alguma coisa estranha.


Sabu endireitou-se no assento.


— Certo, Joe!


A Libélula Vermelha iniciou uma descida suave. O pequeno avião passou mais próximo das encostas vulcânicas de Tori-Shima, contornando a ilha em uma trajetória baixa. Joe observava cada detalhe.


Rochas.


Fendas.


Vegetação rasteira.


Nada.


Mas, sob centenas de metros de rocha, o Daxemora continuava trabalhando. No interior do robô-bomba, os sensores registraram imediatamente a mudança na trajetória da aeronave. Lagan acompanhou a marca no radar.


— Estão descendo.


Um dos soldados aproximou-se do painel.


— Parece que estão procurando alguma coisa.


Lagan acompanhava o pequeno sinal.


— Ou descobriram algo ou, no mínimo, estão desconfiados.


Ele fez uma breve pausa.


— Aquele incompetente do Karpenek me garantiu que não encontraríamos curiosos neste trecho.


O soldado olhou para o capitão.


— Devemos atacar os intrusos?


— Não.


Lagan sequer desviou os olhos do radar.


— Se ainda estão procurando, é porque não nos encontraram.


Ele ampliou a trajetória da aeronave.


— Apenas fiquem de sobreaviso. Não façam nada que revele nossa posição.


A Libélula Vermelha completou mais uma passagem sobre Tori-Shima. Joe olhou para baixo.


Nada.


Nenhum movimento.


Nenhum sinal.


Apenas a paisagem vulcânica e o mar aberto. Depois de alguns minutos, Sabu voltou a consultar os instrumentos.


— Joe...


— O que foi?


— Acho melhor voltarmos.


Joe olhou para ele.


— Por quê?


— Combustível.


Sabu apontou para o indicador.


— Se continuarmos procurando, daqui a pouco não vai sobrar o suficiente para a volta.


Joe verificou os instrumentos.


Sabu tinha razão.


Ele ainda olhou uma última vez para Tori-Shima.


— Está bem.


Joe iniciou uma curva suave.


— Mas vou voltar aqui.


Sabu franziu a testa.


— Com a Libélula Vermelha?


Joe balançou a cabeça.


— Não. — Olhou novamente para a ilha. — Da próxima vez, venho com o Pirata do Espaço.


A aeronave começou a ganhar distância de Tori-Shima. Joe acionou o rádio.


— Base Akane, aqui é Joe. Estamos retornando.


Uma pausa.


— Encontramos uma coisa estranha durante o voo. Vimos um reflexo no céu seguindo para o sul e decidimos investigar Tori-Shima.


Sabu observava a ilha desaparecer lentamente atrás deles.


Joe continuou:


— Não encontramos nada, mas continuo desconfiado de que esteja acontecendo alguma coisa naquela região.


A resposta da base veio pelo rádio. Joe ajustou o rumo para Akanejima.


— Assim que chegarmos, vou informar tudo pessoalmente. Pretendo voltar para aquela ilha com o Pirata do Espaço.


No subsolo, o operador da Horda acompanhava o afastamento da aeronave.


— Maly-Mbþâx Karpon-Lagan otwod. (Capitão Lagan, o pequeno avião está indo embora).


Lagan permaneceu alguns segundos em silêncio. Pôs-se a pensar no que acabara de acontecer.


— Maly-Mbþâx myn znyat. Mbþâx-Zapal myn nekrut. (Um veículo aéreo tão pequeno e primitivo sobrevoando uma região tão distante? Não deve ter vindo de muito longe).


Lagan ampliou a projeção da região.


— Akane-Mbþâx myn znyat. Datch-Tak! (E, se não me falha a memória, a instalação aérea mais próxima, relativamente falando, fica na Ilha Akane. É isso!)


Os soldados voltaram-se para ele.


— Groizer-Mbþâx myn pravâ-datch. (Seja lá quem forem aqueles pilotos, eles informarão a base do Pirata do Espaço).


Lagan sorriu.


— Tori-Shima Groizer-Mbþâx znyat. (E o Pirata do Espaço virá até aqui para prosseguir a investigação).


Ele se virou para os subordinados.


— Pravâ-Datch vy otwod. Zapal vy znyat. (Rápido! Recolham tudo o que pudermos levar. Voltaremos em outra ocasião).


Os soldados começaram imediatamente a acelerar os procedimentos de retirada.


— Datch-Tak, Karpon! Certo, capitão!


— Groizer-Mbþâx vy otwod. (Vamos aumentar o ritmo para sairmos antes que o Pirata do Espaço chegue!)


Lagan virou-se bruscamente.


— Otwod kâ? (Sair antes?)


O soldado parou.


Lagan caminhou lentamente em sua direção.


— Groizer-Mbþâx vy otwod kâ? (Quem falou em evitar o Pirata do Espaço?)


O soldado ficou em silêncio. Um sorriso surgiu no rosto de Lagan.


— Pravâ-Datch vy otwod myn znyat. Eu disse para terminarmos o trabalho antes que ele chegue.


Ele voltou os olhos para os instrumentos.


— Groizer Pirbþâx myn znyat... Se ele realmente vier...


Uma pausa.


— Tori-Shima myn znyat-tak! Quero estar aqui para recebê-lo.


────────────────────────────────────────


BASE DA ILHA AKANE — SALA DE COMANDO


Joe e Sabu terminaram o relato diante de Tobishima. Rita e o chefe Sólus acompanhavam a conversa, atentos, próximos ao painel principal. Tobishima cruzou os braços.


— O que vocês viram não é o único registro estranho das últimas horas.


Joe levantou os olhos.


— O que aconteceu?


— Houve relatos de avistamento de um UAP sobre o Pacífico Norte. O objeto foi detectado vindo da região do Ártico e seguindo para o sul.


Sólus ampliou um mapa sobre a tela. Uma linha surgiu sobre o oceano.


— O acompanhamento durou pouco — explicou Tobishima. — O objeto desapareceu dos sistemas de detecção quando estava próximo ao paralelo quarenta.


Joe aproximou-se do painel.


— Próximo ao paralelo quarenta? — Ele observou a trajetória por alguns segundos. — Se for outra incursão da Horda Merodak, estão usando mais uma rota diferente.


Tobishima assentiu.


— O padrão combina com os outros registros. Rotas diferentes, pontos de entrada diferentes e nenhuma trajetória que permita estabelecer com segurança de onde vieram.


Joe continuou olhando para o mapa.


— E depois?


— Nada — respondeu Tobishima. — O contato desapareceu.


Joe apontou para o sul.


— Mas não muito longe daqui nós vimos aquele borrão luminoso.


Rita se aproximou.


— Você acha que pode ser o mesmo objeto?


— Não sei, Rita.


Joe ampliou a região do arquipélago.


— Mas há uma coisa que me incomoda.


Ele traçou mentalmente a direção.


— Se esse objeto realmente mudou de rota depois do último registro, teria que descer em direção ao sul para chegar ao arquipélago de Izu.


Sabu acompanhava o raciocínio.


Joe continuou:


— E o que nós vimos veio justamente do leste.


Rita olhou para ele.


— Você acha que eles estão mudando de direção para evitar os sistemas de detecção?


— Acho que é exatamente isso que estão tentando fazer.


Joe voltou os olhos para Tori-Shima.


— E tem outra coisa.


Tobishima esperou.


— Eu sobrevoei Tori-Shima. Não encontrei nada.


Joe fez uma pausa.


— Mas continuo achando que havia alguma coisa naquela ilha.


Sólus perguntou:


— Algum sinal específico?


— Não.


Joe balançou a cabeça.


— Só uma sensação. Nada que eu possa colocar no relatório como evidência.


Tobishima sorriu discretamente.


— Mas você quer voltar.


Joe olhou para Rita, que já parecia saber o que ele iria pedir.


— Quero.


Joe voltou-se para Tobishima.


— Professor, quero autorização para ir até Tori-Shima com o Pirata do Espaço. Se realmente não houver nada lá, voltaremos. Mas prefiro ter certeza.


Tobishima permaneceu alguns segundos diante do mapa.


— Você tem alguma ideia do que pode encontrar?


— Não — respondeu Joe, sem hesitar. — E é justamente isso que me preocupa.


Rita tomou a palavra.


— Eu vou com ele.


Tobishima olhou para os dois e depois voltou-se para o painel.


— Muito bem.


Ele apontou para a região de Tori-Shima.


— Joe, Rita, preparem o Pirata do Espaço. Quero uma varredura completa da ilha e das águas ao redor.


Joe assentiu.


— Sim, senhor.


Rita fez o mesmo.


— Entendido.


Tobishima encerrou:


— E mantenham os olhos abertos. Se houver realmente alguma coisa naquela região, desta vez quero saber exatamente o que é.


Joe e Rita se afastaram. Sabu permaneceu olhando para o mapa. A linha que representava a trajetória desconhecida terminava muito ao norte. A outra, registrada pela Libélula Vermelha, apontava para o sul. E, entre as duas, havia uma distância que ninguém na sala conseguia explicar. No hangar, o Pirata do Espaço já estava preparado.


Joe e Rita ocupavam seus postos na cabine de comando.


— Sistemas prontos.


Rita verificou os instrumentos.


— Energia normal.


Joe segurou os comandos.


— Então vamos. Acionar os motores!


Na sala de controle, Tobishima acompanhava a operação. A máquina entrou no túnel de lançamento. Longo e estreito, o corredor atravessava o interior da ilha e conduzia diretamente à falésia submarina. As luzes de sinalização passavam rapidamente pelas laterais. Joe manteve o controle firme.


— Velocidade constante.


Rita observava os instrumentos.


— Estamos chegando à saída.


À frente, uma claridade azulada começou a aparecer.


O túnel terminava sob o oceano.


A grande comporta submarina abriu-se.


A água do mar surgiu diante deles.


Por um instante, o Pirata do Espaço pareceu mergulhar diretamente no oceano.


Então os propulsores foram acionados.


O Pirata do Espaço saiu da falésia submarina.


A massa gigantesca rompeu a superfície com violência.


Uma coluna de água explodiu ao redor da máquina.


— Pirata do Espaço, decolar!


Os propulsores aumentaram de potência.


O Pirata do Espaço começou a subir.


— Toda a velocidade!


A aeronave acelerou sobre o oceano.


Atrás dela, muito abaixo, a superfície do mar voltou lentamente à tranquilidade.


A Base da Ilha Akane desapareceu atrás da linha do horizonte.


O Pirata do Espaço seguia para o sul, em direção a Tori-Shima. A ilha vulcânica surgiu no horizonte poucos minutos depois, isolada no meio do oceano.


Joe reduziu ligeiramente a velocidade.


— Rita, você vê alguma coisa?


Rita examinou o terreno pelo para-brisa e conferiu os instrumentos.


— Nada ainda, Joe. Nada no visual ou nos radares.


Joe estreitou os olhos.


— Então vamos olhar mais de perto.


Ele iniciou uma descida gradual.


— Vou voar mais baixo e atravessar a ilha de norte a sul.


O Pirata do Espaço baixou rapidamente.


As encostas vulcânicas passaram sob eles.


Joe manteve a aeronave estável, acompanhando o relevo.


Rita continuava observando o solo.


Sua visão gailariana permitia distinguir detalhes que os sensores da nave ainda não haviam identificado.


De repente, ela inclinou-se para a frente.


— Joe...


— O que foi?


— Olhe ali embaixo.


Joe procurou o ponto indicado.


— Onde?


— Naquela área de rocha escura.


Ela apontou novamente.


— Não parecem pequenos aparatos de extração?


Joe estreitou os olhos.


— Eu não estou vendo nada.


— Ali! Bem naquele canto, próximo ao...


Uma explosão interrompeu a frase.


BOOOOM!


Um míssil surgiu do terreno vulcânico e atingiu violentamente a parte traseira do Pirata do Espaço.


A aeronave foi lançada para a frente.


— JOE!


O painel inteiro tremeu.


Joe segurou os comandos com força.


— Segure-se!


O Pirata do Espaço perdeu altitude e começou a rolar para a direita.


A borda da imensa cratera vulcânica surgiu perigosamente próxima.


Joe puxou os comandos.


A asa passou a poucos metros da borda rochosa.


O Pirata do Espaço quase raspou a encosta antes de recuperar sustentação.


Rita olhou para os instrumentos.


— Danos na seção traseira!


— Eu sei!


Joe corrigiu a trajetória.


— Mas ainda estamos voando.


Outro disparo cortou o céu.


Joe fez uma guinada brusca.


O míssil passou por baixo da aeronave.


Então uma voz surgiu no sistema de comunicação.


— Então vocês são Joe e Rita.


Joe e Rita se entreolharam.


A voz continuou:


— Bem-vindos a Tori-Shima.


Uma risada ecoou pelo canal.


— Aqui será o túmulo de vocês.


Uma pausa.


— Eu sou o Capitão Lagan.


Outra risada.


— Seu coveiro, à sua disposição!


— Hahahahahaha!


Joe apertou os comandos.


— Outro maluco...


Rita apontou para o radar.


— Joe! Vários contatos!


A tela do radar se encheu de pequenos sinais à frente deles.


— Ele está lançando uma salva inteira!


Joe inclinou o Pirata do Espaço.


— Vamos ver se esse coveiro sabe acompanhar um piloto!


Lagan acionou os controles.


— Daxemora! BATERIA DE MÍSSEIS, FOGO!!


Compartimentos nas laterais do robô-bomba se abriram.


Uma sequência de mísseis foi lançada em rápida sucessão.


Os projéteis se espalharam pelo céu e convergiram sobre o Pirata do Espaço.


Joe fez uma rolagem para a esquerda.


Dois mísseis passaram por cima.


Outro veio diretamente pela frente.


Joe puxou a aeronave para baixo.


O míssil passou raspando.


— Mais alguns!


Rita acompanhava os sinais.


— Três pela direita!


Joe executou uma guinada violenta.


Um míssil passou.


O segundo explodiu atrás deles.


O terceiro atingiu a parte inferior da nave.


BOOM!


A cabine tremeu.


— Fomos atingidos!


Joe manteve o controle.


— Ainda temos potência!


Lagan sorriu.


— DAXEMORA! RAIO DE FULGOR, FOGO!!!


As estruturas frontais do robô-bomba se abriram.


Feixes de energia cruzaram o céu.


Joe desviou do primeiro.


O segundo passou sobre a cabine.


O terceiro atingiu a asa.


Faíscas espalharam-se pela fuselagem.


— Joe!


— Eu estou bem!


Joe mergulhou em direção ao oceano.


Lagan acompanhou.


— Não adianta fugir!


O Daxemora acelerou. Mais mísseis partiram.


Joe iniciou uma série de manobras evasivas.


Guinada.


Rolagem.


Mergulho.


Subida.


O Pirata do Espaço parecia dançar entre os projéteis.


Mas nem todos foram evitados.


Um míssil explodiu junto à fuselagem.


Outro atingiu a parte traseira.


A nave começou a perder estabilidade.


— A sustentação está caindo! — avisou Rita.


Joe tentou corrigir.


— Aguente mais um pouco!


Lagan não dava trégua.


— RAIO DE IMPACTO DAXEMORA!


Uma descarga energética atingiu diretamente o Pirata do Espaço.


A nave estremeceu violentamente.


Uma chama surgiu na parte traseira.


— Fogo! — gritou Rita.


Joe olhou rapidamente para os indicadores.


— Extintores automáticos!


O sistema foi acionado.


Mas as chamas continuaram.


O Pirata do Espaço começou a perder altitude.


A superfície do oceano aproximava-se rapidamente.


Lagan riu.


— É o fim!


Joe apertou os comandos.


— Ainda não!


A aeronave inclinou-se.


O nariz apontou para baixo.


O oceano parecia cada vez maior.


Rita segurou-se ao painel.


— Joe!


— Confie em mim!


No último instante, Joe puxou os comandos. O Pirata do Espaço saiu do mergulho quase rente à superfície. As ondas foram cortadas pela passagem da nave.


Joe estabilizou a aeronave.


Lagan ficou surpreso.


— O quê?!


Joe respirou fundo.


— Agora é a nossa vez.


Rita olhou para ele.


— Você tem algum plano?


Joe sorriu.


— Tenho.


O Pirata do Espaço começou a subir.


Lagan lançou outra salva de mísseis.


— DAXEMORA! TEMPESTADE DE MÍSSEIS!


Os projéteis partiram em todas as direções.


Joe não tentou fugir.


— Rita!


— Estou pronta!


Joe iniciou uma subida vertical.


Os mísseis passaram abaixo.


No ponto mais alto da manobra, Joe executou uma reversão brusca.


O Pirata do Espaço mergulhou de volta, agora diretamente contra o Daxemora.


Lagan arregalou os olhos.


— Ele está vindo para cima de mim?!


Joe acionou o primeiro sistema.


— RAIO SÔNICO PIRATA! FOGO!


Uma poderosa descarga sonora atingiu o Daxemora.


O robô-bomba foi violentamente empurrado para trás.


Placas metálicas se soltaram.


Alarmes dispararam na cabine de Lagan.


— AAARRGGHH! MALDITOOOOO!!!!!!


Joe não lhe deu tempo para reagir.


— BOLA DE FOGO! FOGO!


O disparo atingiu o Daxemora em cheio.


Uma explosão envolveu o robô-bomba.


Lagan foi lançado contra o encosto de seu assento.


— Maldito Pirata do Espaço!


Rita apontou para os instrumentos.


— Joe! Ele está danificado!


Joe manteve a aproximação.


— Então vamos terminar isso!


Os compartimentos de armamento do Pirata do Espaço se abriram.


— MÍSSEIS PIRATAS! FOGO!


Uma salva de mísseis foi lançada.


Lagan tentou manobrar.


Tarde demais.


Os projéteis atingiram o Daxemora em sequência.


BOOM! BOOM! BOOM!


A blindagem foi rasgada.


Uma das estruturas laterais foi destruída.


Fumaça começou a sair da parte traseira do robô-bomba.


Os alarmes internos não paravam.


Lagan olhou para os indicadores.


— Sistemas de propulsão comprometidos...


Ele fechou os punhos.


O Daxemora ainda poderia lutar. Mas não daquela maneira.


Lagan fez uma rápida avaliação da situação.


— Recuar. Iniciar manobra evasiva!


O Daxemora recuou em alta velocidade, lançando uma fumaça espessa que encobria sua fuga. Lagan abriu novamente o canal.


— Aproveitem a vitória enquanto podem!


Joe respondeu:


— Da próxima vez, não vai ser tão fácil fugir, Lagan!


A comunicação foi cortada. O Daxemora desapareceu no horizonte, deixando atrás de si uma longa trilha de fumaça.


Joe respirou fundo.


Rita observou os instrumentos danificados.


— Acho que encontramos alguma coisa em Tori-Shima.


Joe olhou para a ilha vulcânica.


— Encontramos.


Ele fez uma pausa.


— E agora sabemos quem estava escondido lá.


────────────────────────────────────────


CENA — BASE DA HORDA MERODAK


A porta da sala de comando se abriu.


Lagan entrou.


Lagan mantinha a postura militar, mas trazia as marcas do combate em que o Daxemora fora danificado. Parte da armadura do capitão estava chamuscada, e uma das placas do ombro apresentava uma fissura. Kletus estava diante do grande painel central. Karpenek permanecia alguns metros atrás, em silêncio. Lagan parou diante do Grande Almirante.


— Ja-krol M-êlañ, Pravâ-Datch myn znyat... (Grande Almirante, a operação...)


Kletus levantou uma das mãos. Lagan imediatamente se calou.


— Myn znyat kâ, Karpon-Lagan? (Sabe por que não o mato agora, Capitão Lagan?)


Lagan permaneceu imóvel.


Kletus aproximou-se lentamente.


— Pravâ-Datch Karpon-Lagan vy znyat. (Porque, apesar do seu fracasso, você trouxe alguma coisa).


Ele indicou os registros da operação.


— Daxemora-Datch myn znyat. (Daxemora veio carregada com uma quantidade considerável de energia).


Kletus fez uma breve pausa.


— Tori-Shima-Zapal myn znyat. Zapal-Myn vy otwod. (E uma boa quantidade de gases tóxicos daquela região. O suficiente para sufocar uma cidade de médio porte).


Lagan respirou fundo.


—Pr-tâ, Ja-krol M-êlañ! (Muito obrigado, Grande Almirante!)


Karpenek permaneceu em um canto da sala, com o rosto impassível. Por dentro, porém, sentia uma satisfação que mal conseguia conter. O conterrâneo vathusiano, que partira tão confiante, agora precisava agradecer por não ter sido executado. Kletus voltou-se para Lagan.


— Myn znyat kâ, Karpon-Lagan? Não se apresse em agradecer, Lagan.


O sorriso desapareceu do rosto do capitão.


— Pravâ-Datch-Zapal vy znyat-tak nekrut... Se não me apresentar um plano que justifique mantê-lo vivo....


Lagan ergueu ligeiramente o queixo.


— Pravâ-Datch-Zapal myn znyat. (Eu tenho um grande plano).


Kletus fez um gesto para que continuasse.


— Daxemora-Datch, Ja-krol M-êlañ, myn znyat. Pravâ-Datch vy otwod. Veja, Grande Almirante. Posso readaptar o maquinário do Daxemora para otimizar a extração dos gases e a transferência de energia para nossos capacitores.


Karpenek olhou diretamente para Lagan.


— Zapal-Datch vy otwod nekrut. Tori-Shima Zapal-Myn-Mbþâx znyat. Zapal-Mbþâx Daxemora-Datch otwod. Tori-Shima Groizer-Mbþâx znyat. (Só que, desta vez, não teremos sequer uma hora para permanecer no subsolo recolhendo recursos. A Marinha terráquea já está vigiando o entorno de Tori-Shima. E, mesmo que o seu robô-bomba destrua a frota em tempo recorde, o Pirata do Espaço será acionado e chegará ao local em minutos).


Lagan voltou-se para Kletus.


— Pravâ-Datch-Zapal myn znyat. Tori-Shima Daxemora-Datch otwod. Podemos contornar isso.


Lagan abriu um mapa tridimensional de Tori-Shima.


— Tori-Shima-Mbþâx Daxemora-Datch otwod. Daxemora Tori-Shima-Zapal myn nekrut znyat. (Não precisaremos chegar à ilha pelo ar nem pelo mar. Posso fazer o Daxemora avançar pelo subsolo do fundo oceânico e alcançar Tori-Shima por baixo.)


Karpenek franziu a testa.


Lagan continuou:


— Zapal-Myn-Mbþâx Tori-Shima znyat. Daxemora Tori-Shima-Zapal myn otwod. Enquanto os navios estiverem vigiando a superfície, estaremos avançando sob eles. Quando perceberem nossa presença, já estaremos sob a ilha.


Ele ampliou a projeção do terreno vulcânico.


— Tori-Shima myn znyat. Daxemora-Zapal Daxemora-Datch myn otwod. Zapal-Myn-Mbþâx otwod nekrut. (Voltaremos a Tori-Shima. O Daxemora poderá recolher uma quantidade muito maior de energia entálpica e gases vulcânicos sem que ninguém perceba. E, quando perceberem, será tarde demais).


Kletus permaneceu observando o mapa.


— Pravâ-Datch-Zapal Karpon-Lagan vy znyat. (prossiga com o plano, Capitão Lagan)

Lagan endireitou-se.


Kletus continuou:


— Groizer-Datch vy znyat. .Yan-Datch Groizer-Zapal myn otwod. (E quero que traga a sucata do Pirata do Espaço. O Silício Milagroso, do qual a nave criada pelo professor Yan é feita, poderá ser de grande utilidade para nossas futuras naves).


Lagan sorriu.


— Pr-tâ, Ja-krol M-êlañ! (Sim, Grande Almirante).


────────────────────────────────────────


BASE DA ILHA AKANE — SALA DE COMANDO


Tobishima observava as imagens do combate sobre Tori-Shima, congeladas no monitor principal. A silhueta do Daxemora aparecia entre os registros capturados pelos sensores, enquanto os dados da batalha eram analisados pelos sistemas da base. O professor voltou-se para Sólus.


— Chefe Sólus, alguma informação sobre esse robô-bomba e seu piloto?


Sólus consultou os registros de inteligência gailariana antes de responder.


— O robô-bomba é, sem dúvida, o Daxemora. Quanto ao piloto, o último registro conhecido o identifica como Arbrers Lagan.


Uma imagem do capitão surgiu no painel.


— Ele é natural do planeta Graigus, um militar da espécie vathusiana. Graigus passou por uma guerra civil entre os vathusianos e os megovianos. O lado de Lagan perdeu o conflito, e ele foi encarcerado na prisão espacial de Bronzons-S. Mais tarde, durante um ataque da Horda Merodak à instalação, foi libertado e recrutado pelos piratas.


Joe cruzou os braços, observando a imagem.


Sólus continuou:


— Lagan é considerado um piloto engenhoso e inventivo. Há registros de que participou diretamente do desenvolvimento e das modificações do próprio Daxemora. Isso não chega a surpreender. Em Graigus, tanto os vathusianos quanto os megovianos incentivam seus melhores combatentes a se tornarem o que chamam de cidadãos de Ciência: guerreiros capazes de desenvolver conhecimento técnico e aplicá-lo em combate. Outra característica atribuída a Lagan é a arrogância. Ele é extremamente orgulhoso e não costuma aceitar derrotas com facilidade.


Joe soltou um breve suspiro.


— Então escolheu a organização certa.


Rita olhou para ele.


— Por quê?


— Piratas espaciais, arrogância, orgulho ferido... Não parece uma combinação muito favorável para quem pretende desistir de uma luta.


Tobishima permaneceu pensativo por alguns instantes.


— Não sou psicólogo nem investigador forense, mas desconfio que, depois de Joe e Rita terem ferido o orgulho dele, não vai demorar para voltar.


Ele olhou para a imagem de Tori-Shima.


— E talvez tente novamente no mesmo lugar em que ocorreu o combate.


Sólus assentiu.


— Penso o mesmo. E vou mais longe: ele provavelmente voltará com muitos daqueles novos truques que os terranos costumam dizer que alguém guarda na manga.


Joe fez uma careta.


— Ótimo. Era exatamente do que precisávamos.


— A Horda não vai abrir mão tão facilmente da Ilha dos Pássaros — prosseguiu Sólus. — Se Lagan encontrou uma fonte de energia que considera útil, é razoável supor que tentará retornar.


Rita voltou os olhos para o mapa da ilha.


— Aquela região vulcânica deve representar uma fonte considerável de energia para eles. Durante o sobrevoo, percebi equipamentos de extração e estruturas semelhantes a capacitores de energia, bastante comuns entre mineradores espaciais.


O chefe Sólus aproximou-se do painel.


— Se estavam recolhendo energia entálpica, talvez pretendessem armazená-la para uso posterior. Isso explicaria por que podem continuar a operação mesmo depois de terem sido detectados.


— Nesse caso, a Marinha precisa manter vigilância naquela região — disse Joe.


Tobishima assentiu.


— Já está mantendo. Comuniquei o ocorrido ao conselheiro Yoshida, que repassou as informações ao próprio ministro da Defesa.


Joe soltou uma risada sem humor.


— Que, para variar, ainda quer acobertar tudo, não é mesmo, professor?


Tobishima suspirou.


— Infelizmente, sim.


Ele retirou os óculos, esfregou os olhos por um instante e voltou a colocá-los.


— Pelo que Yoshida me informou, o governo continua receoso de divulgar a existência da Horda Merodak. Parece que estão esperando que ataquem diretamente alguma grande cidade para só então avisar a população.


Rita franziu a testa.


— Mas, quando isso acontecer, talvez já seja tarde demais para evitar o pânico.


— Esse é justamente o problema — respondeu Tobishima. — Quanto mais tempo esconderem o que está acontecendo, menos tempo teremos para preparar as pessoas.


Ele cruzou os braços.


— O governo parece mais apavorado com a possibilidade de admitir a verdade do que com a necessidade de enfrentar a ameaça. Eu e Yoshida estamos perdendo a paciência com essa situação.


Tobishima olhou novamente para o mapa.


— É uma pena que ele não seja mais nosso ministro da Defesa.


Por alguns segundos, ninguém disse nada. Na tela, Tori-Shima permanecia aparentemente tranquila, cercada pelo oceano. Joe observou a ilha.


— Se Lagan voltar, não vamos esperar que ele ataque primeiro.


Rita ficou ao lado dele.


— Desta vez, estaremos preparados.


Sólus, porém, não parecia tão convencido.


— Preparados, sim. Mas não subestimem Lagan. Um combatente que sobreviveu a uma guerra civil, a uma prisão espacial e à própria Horda Merodak não deve ser tratado como um adversário comum.


Joe manteve os olhos no mapa.


— Não pretendo fazer isso.


A imagem de Tori-Shima continuava no monitor, silenciosa e desabitada. Mas ninguém naquela sala acreditava que a tranquilidade duraria muito.


────────────────────────────────────────


A noite estava tranquila ao redor de Tori-Shima. Uma pequena frota da Marinha japonesa patrulhava as águas próximas à ilha. Radares varriam continuamente o céu e o mar, enquanto os navios mantinham vigilância sobre qualquer movimento suspeito. Nenhum deles percebeu a aproximação de um UAP.


Voando rente à superfície, o objeto aproximou-se sem ser detectado e mergulhou no oceano. Mesmo sob a água, continuou escapando aos sistemas de rastreamento dos navios.


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Era Daxemora.


Pilotado pelo capitão Lagan, o robô-bomba desceu até o fundo do oceano e avançou em direção à base submarina de Tori-Shima. No interior da cabine, o capitão Lagan acompanhava atentamente os dados fornecidos pelos sensores. O terreno vulcânico exigia cautela. Abaixo da ilha havia fraturas, zonas hidrotermais e regiões onde água e gases permaneciam submetidos a altas temperaturas e pressões.


Daxemora posicionou-se contra o leito oceânico. A enorme broca instalada em sua extremidade começou a girar. Rocha vulcânica foi triturada enquanto a máquina penetrava lentamente no fundo do mar. Lagan acompanhava a trajetória da perfuração, corrigindo-a sempre que os sensores indicavam alterações perigosas na temperatura ou na pressão do subsolo. Ele não podia simplesmente seguir em linha reta.


A perfuração precisava contornar as regiões mais instáveis do sistema vulcânico. Romper uma zona contendo fluidos hidrotermais superaquecidos e pressurizados poderia provocar uma liberação violenta de vapor e gases. Pior ainda seria abrir inadvertidamente uma passagem que permitisse à água do mar alcançar uma região de rocha extremamente quente ou próxima de material magmático.


Daxemora prosseguiu.


Metro após metro, a máquina abriu caminho através das camadas vulcânicas, seguindo uma trajetória cuidadosamente calculada sob Tori-Shima. Na superfície, os navios da Marinha continuavam sua patrulha. Os radares continuavam varrendo a região. Nenhum deles havia percebido que Daxemora passara pela frota. E muito menos que, naquele momento, o robô-bomba pilotado por Lagan já avançava pelo subsolo da Ilha dos Pássaros.


Daxemora finalmente interrompeu o avanço. Os sensores confirmavam que haviam alcançado a região pretendida sob Tori-Shima. Ao redor da máquina, as leituras indicavam temperaturas elevadas e intensa atividade hidrotermal. Lagan examinou os dados que se acumulavam nos monitores.


—Pr-tâ. Tori-Shima-Zapal vy znyat. Zapal-Datch vy otwod. Zapal-Myn vy otwod. Daxemora-Zapal myn znyat. (Muito bem. Chegamos. Preparem os capacitores de energia entálpica e iniciem a captação. Convertam toda a energia que pudermos aproveitar e transfiram primeiro para os sistemas de armazenamento)

Os soldados da Horda imediatamente começaram os procedimentos.


— Voh-Kro vy drak. Pravâ-Karn myn vels. (Quero os reservatórios pressurizados carregados o mais depressa possível).


— Kapor myn tak. (Sim, capitão)!


No exterior de Daxemora, unidades de extração começaram a ser instaladas nas paredes rochosas. Sondas penetraram nas regiões previamente selecionadas, enquanto condutos reforçados eram conectados aos sistemas de armazenamento da máquina. Os primeiros indicadores começaram a subir. Lagan recostou-se no assento e observou as imagens e os diagramas nos monitores do Daxemora. Sorriu, satisfeito com o andamento da operação.


— Joe-Rita-Kēll Sild-myn otwod. Zapal-Sild Karn-vy drak-klo. (Se tudo ocorrer como planejei, será o fim de Joe e Rita. A sorte não lhes dará outra vitória).


Seu sorriso aumentou.


— Merodak-Ryn-Pravâ Myn-Kro vlosk. Karpenek-Megov-Datch Myn-Zapal skrat. (Meu nome será eternizado no panteão dos heróis da Horda Merodak. Terei prestígio suficiente para ocupar o lugar daquele idiota do Karpenek, o diretor-doutor megoviano).


Lagan passou os dedos pelo queixo, saboreando a própria ideia.


— Zapal-Voh myn drak... (E quem sabe...)


Fez uma pequena pausa.

— Lagan Ja-krol M-êlañ (Grande Almirante Lagan).


Começou a rir sozinho.


— Hehehehehe...


— Karpor Lagan? Capitão Lagan?


Lagan quase saltou do assento.


— Nâ? (O QUÊÊÊ?!)


Virou-se bruscamente.


Um dos soldados estava parado à entrada da cabine.

— Myn-Kro vy drak-klo?! Tbne-Datch ko-ryn otwod?! (Quer me matar de susto?! Quem lhe deu ordem para entrar na minha cabine sem avisar)?


O soldado pareceu confuso.


— Pr-tâ, Kapor... Myn-Voh myn skrat. Pravâ-vy vy-myn otwo (Mas, capitão... eu anunciei minha presença quando o chamei. Como sempre fazemos).


Lagan ficou alguns segundos encarando-o.


— Kro-Datch myn otwod-klo! Zapal-Sild vy drak. Zapal-Voh vy-klo skrat! Não interessa, seu xereta! Você tem sorte de eu estar de bom humor!


O soldado permaneceu imóvel. Lagan apontou para ele, impaciente.


— Voh-Datch vy skrat! Nâ vy otwod? Agora fale! O que veio me dizer?

— Znyat-Datch timacit skrat, Kapor. Tafawt-myn Pravâ-Karn vels... Voh-Kro Akane-Datch vy otwod. (O maquinário já iniciou a extração, capitão. Nesse ritmo, estimamos que os capacitores estarão carregados ao amanhecer e teremos armazenado gás tóxico em quantidade contra a Ilha Akane).


Os olhos de Lagan se iluminaram.


— Zapal... zapal! Ótimo... ótimo!


Ele voltou-se para os monitores.


— Rak-Karn vy drak. Preparem alguns mísseis.


— Akane-Datch vy otwod? Para atacar a Ilha Akane?


— Klo-datch. Ainda não


Lagan sorriu.


— Terrâ-Pravâ-vy myn vels . Vamos afundar navios da Marinha terráquea.


O soldado hesitou.


— Tori-Shima-Pravâ vy drak? Os navios que estão patrulhando Tori-Shima?


— Pr-tâ. X-Groizer myn skrat. Exatamente. Quero chamar a atenção do Pirata do Espaço.


Lagan tornou a observar as leituras do subsolo.


— Sild-Datch Nâ-vy skrat klo. Znyat-Datch vy otwod. Ninguém faz nada que possa denunciar nossa posição. Continuem a operação e permaneçam atentos.


— Pr-tâ, Kapor! Sim, capitão!


O soldado fez continência e deixou a cabine. Lagan permaneceu diante dos monitores, acompanhando os indicadores dos capacitores subirem lentamente.

— Joe-Rita vy otwod. Pravâ-Datch myn drak. Venham, Joe e Rita. Desta vez, estarei esperando por vocês.


────────────────────────────────────────


Na Ilha Akane, a noite seguia tranquila, sem sinal da ameaça que se movia sob Tori-Shima. A base estava tranquila. Algumas luzes permaneciam acesas nos edifícios, enquanto, acima deles, o céu se estendia limpo e estrelado.


Perto da pista, o pequeno de Havilland Tiger Moth permanecia estacionado. O velho biplano vermelho, apelidado pelo pessoal da base de Libélula Vermelha, parecia ainda menor sob a imensidão do céu. Rita estava encostada na fuselagem, olhando para as estrelas. Fazia muito tempo que não parava assim para contemplar o céu.


Joe a encontrou ali e se aproximou em silêncio. Como Rita não pareceu se incomodar com sua presença, encostou-se no avião ao lado dela. Durante algum tempo, nenhum dos dois falou. Rita continuou olhando para o céu.


— Sabe que dia é hoje, Joe?


Ele voltou o rosto para ela.


— Não sei. Mas, pela maneira como perguntou, imagino que seja especial.


Rita esboçou um pequeno sorriso.


— Para mim, foi.


Joe esperou.


— Foi neste dia que enfrentamos o robô-bomba de Harlock⁴. Aquele velho amigo da minha família em Gailar que estava servindo a Geldon.


A lembrança voltou imediatamente à mente de Joe.


— Eu me lembro dele. Ele me capturou, mas depois me libertou.


Rita disse:


— Harlock era um homem honrado. Só percebeu tarde demais o erro que havia cometido ao seguir Geldon.


Joe assentiu lentamente.


— E decidiu pagar por isso.


Rita desviou os olhos das estrelas.


— Ele se sacrificou. Fez com que eu derrubasse a nave dele depois de me convencer de que havia matado você.


Joe olhou para Rita. Ela percebeu, mas prosseguiu.


— Foi naquela época que comecei a compreender o que realmente sentia por você. O quanto você já era importante para mim.


Joe baixou os olhos, e Rita continuou:


— Eu fiquei com raiva, Joe. Muita raiva. Mas, mesmo naquele momento, alguma coisa dentro de mim dizia que havia algo errado. Que Harlock não estava contando a verdade. Aquilo não combinava com o homem que eu conhecia.


Ela respirou fundo.


— E eu estava certa. Você estava vivo.


Joe permaneceu calado, apenas escutando.


— Mesmo assim, naquele momento, a raiva foi maior. Harlock queria que eu o derrubasse, e eu acabei fazendo exatamente o que ele queria.


Joe abriu a boca, procurando alguma coisa para dizer.


— Rita, eu...


Antes que ele terminasse, Rita se afastou da lateral do avião e deu alguns passos, o suficiente para ficar diante dele. Joe acompanhou seus movimentos. Rita levantou uma das mãos e tocou delicadamente o rosto dele.


— Joe, lembra quando eu disse que me sentia segura ao seu lado, quando pilotávamos juntos o Pirata do Espaço⁵?


— Lembro, Rita.


Ela não retirou a mão.


— E você?


Joe franziu ligeiramente a testa.


— Eu?


— O que sentia quando estava ao meu lado?


Joe respirou fundo.


— Rita, eu sei aonde você quer chegar. Eu...


— Por favor.


Ela o interrompeu suavemente.


— Não precisa dizer o que eu já sei. Responda apenas à pergunta. Quando nós dois estávamos lá em cima, enfrentando Geldon, o que você sentia quando eu estava ao seu lado?


Joe permaneceu em silêncio por alguns instantes. Dessa vez, não tentou escapar da pergunta.


— Confiança.


Rita escutava cada palavra, atenta.


— Eu enfrentava o perigo de frente, mas isso não significa que não tivesse medo. Eu tinha. Muitas vezes.


Ele olhou diretamente para ela.


— Mas, quando você estava comigo, eu me sentia mais confiante. E, se é isso que quer saber... sim. Eu também me sentia seguro.


Rita sorriu, aliviada ao ouvi-lo finalmente dizer aquilo.


— Porque confiava em mim? — perguntou Rita.


— Porque confiava em você — respondeu Joe.


Rita deixou a mão deslizar lentamente do rosto dele.


— Então confie em mim mais uma vez.


Joe imediatamente compreendeu.


— Rita...


— Joe...


— Como você pode saber que está preparada para uma coisa que nunca viveu?


Rita ficou séria, mas Joe continuou:


— É fácil dizer isso agora. Mas daqui a alguns anos... daqui a algumas décadas...


Rita o interrompeu novamente.


— E você sabia?


Joe parou.


— Sabia o quê?


— Sabia exatamente o que aconteceria todas as vezes em que entrávamos no Pirata do Espaço para enfrentar um robô-bomba?


Joe nada respondeu.


— Sabia se voltaríamos? Sabia se ficaríamos feridos? Sabia se alguma coisa daria errado? Sabia se aquela seria nossa última batalha juntos?


— Não.


— Mesmo assim, você ia.


Joe desviou os olhos por um instante.


Rita continuou:


— E eu ia com você.


Aquilo o fez olhar novamente para ela.


— Nós tínhamos confiança, mas não sabíamos o que ia acontecer. Confiávamos um no outro para enfrentar o que viesse.


Joe permaneceu calado. Agora entendia perfeitamente aonde Rita queria chegar.


— Talvez... — começou ele.


Parou por alguns segundos.


— Talvez o problema seja eu.


Rita não respondeu imediatamente.


— Então encare mais esse desafio.


Ela se aproximou um pouco mais.


— Por você... e por mim.


Antes que Joe pudesse responder, Rita inclinou-se e beijou suavemente seu rosto. Ao se afastar, olhou-o nos olhos.


— Confie em mim, Joe. Como sempre fez.


Rita se virou e começou a caminhar em direção aos alojamentos. Joe permaneceu encostado na Libélula Vermelha.


Não a chamou.


Apenas acompanhou Rita com os olhos até vê-la desaparecer. Depois voltou a olhar para as estrelas. Aquela não era mais a jovem que tantas vezes tivera dificuldade até mesmo para compreender o que sentia. Rita sabia o que queria. Havia pensado sobre aquilo durante anos e, agora, estava dizendo claramente que aceitava também as consequências de sua escolha.


Joe sempre acreditara que sua resistência era uma maneira de protegê-la. Mas, pela primeira vez, começou a se perguntar se havia também alguma coisa de orgulho naquela atitude. Talvez estivesse tentando decidir por Rita quanto sofrimento ela poderia suportar. E ela acabara de lembrá-lo de algo que ele próprio parecia ter esquecido.


Durante todas aquelas batalhas, confiar nunca significara ter certeza de que tudo terminaria bem. Significava enfrentar juntos o que viesse. Joe permaneceu ali por mais algum tempo, olhando para o mesmo céu que Rita contemplara poucos minutos antes.


— Não vai ser fácil, Rita...


Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.


— Mas eu vou tentar. Eu prometo.


Continuou contemplando as estrelas.


────────────────────────────────────────


Tori-Shima


Amanhecia na Ilha dos Pássaros. As primeiras luzes surgiam no horizonte, revelando a silhueta escura de Tori-Shima. Ao redor da ilha vulcânica, a pequena frota da Marinha japonesa continuava sua patrulha, mantendo o mesmo ir e vir iniciado durante a noite. Durante horas, radares e sonares haviam vasculhado a região.


Nada encontraram.


Até que um dos operadores se inclinou bruscamente sobre o sonar.


— Contato!


O oficial responsável voltou-se para ele.


— Onde?


O operador empalideceu.


— Logo abaixo de nós!


O alarme soou.


— Todos aos postos de combate!


Era tarde demais.


O mar pareceu se erguer. Uma enorme massa rompeu a superfície entre os navios, lançando água a dezenas de metros de altura.


Era Daxemora.


Na cabine do robô-bomba, Lagan observou tranquilamente os alvos surgirem em seu visor. E entrou na canal de comunicação da pequena frota.


— Então estes são os navios de guerra que vocês, terráqueos, me trouxeram?


As embarcações começaram a girar seus canhões. Lagan soltou uma pequena risada. E os provocou.


— Primitivos.


Os sistemas de mira de Daxemora marcaram os navios.


— BATERIA MERODAK!


Daxemora abriu fogo.


Uma única sequência de disparos varreu a formação. O primeiro navio foi atingido próximo à ponte. A explosão atravessou sua superestrutura. Outro recebeu um impacto junto à linha d'água. O casco se abriu e começou imediatamente a adernar. O terceiro tentou mudar de direção.


Não teve tempo.


Um novo disparo atingiu a popa e detonou parte da embarcação. Os navios restantes abriram fogo.


Projéteis e mísseis subiram em direção a Daxemora.


Lagan fez apenas uma pequena correção nos controles.


O robô-bomba desviou da trajetória dos disparos e ganhou altitude.


— É só isso?


A resposta veio dos próprios sistemas de Daxemora.


Os últimos navios estavam marcados no visor.


Lagan sorriu.


— TEMPESTADE DE MÍSSEIS!


Uma única salva partiu.


Não houve necessidade de outra.


Os mísseis se dividiram entre os alvos e desceram sobre a frota.


Explosões sucessivas iluminaram o mar.


Quando o estrondo terminou, nenhuma das embarcações permanecia em condições de combate. Algumas ardiam sobre a superfície. Outras já começavam a desaparecer sob as águas.


Lagan observou os destroços por alguns segundos.


Nenhuma comemoração exagerada.


A frota jamais fora seu verdadeiro adversário.


— Muito bem.


Desativou o sistema de armas.


— Isso deverá chamar a atenção deles.


Um soldado aproximou-se.


— Kapor, Terrâ-Pravâ-vy Zapal otwod. Capitão, todos os navios foram neutralizados.


Lagan olhou na direção de Tori-Shima.


— Zapal. Rak-Karn-vy vy drak klo. Ótimo. Então não desperdicem mais munição com eles.


Seu sorriso reapareceu.


— Znyat-Pravâ vy skrat. Agora preparem tudo.


Fez uma breve pausa.


— Groizer Karn-Datch vy skrat. Hora de preparar a armadilha para o Pirata do Espaço.


Ilha Akane


Na sala de comando da Base Akane, o conselheiro Yoshida aparecia no monitor principal.


Embora já não ocupasse o cargo de ministro da Defesa, sua posição no governo e, sobretudo, os anos de colaboração com o professor Tobishima e sua equipe faziam com que continuasse sendo o principal intermediário entre a equipe e as autoridades japonesas sempre que as forças convencionais se viam diante de uma ameaça que não conseguiam enfrentar.


E, naquela manhã, não era diferente.


O semblante de Yoshida estava grave.


— Professor Tobishima, recebemos a confirmação há poucos minutos. Perdemos a pequena frota da Marinha que patrulhava o sul do arquipélago de Izu.


Tobishima se aproximou do monitor.


— Onde exatamente?


— Nas proximidades de Tori-Shima.


Joe e Rita trocaram imediatamente um olhar.


Tobishima franziu a testa.


— Mas será que é mesmo Lagan quem está atacando? No mesmo local onde ocorreu o primeiro confronto contra o Pirata do Espaço?


— Tudo indica que sim — respondeu Yoshida. — E não temos qualquer registro de que o UAP tenha deixado a região desde então.


Rita ficou pensativa.


— No mesmo lugar...


Olhou para Joe.


— Ou é uma provocação ou uma armadilha.


— Talvez as duas coisas — respondeu Joe.


Ele se voltou para o monitor.


— Armadilha ou não, se for Lagan, desta vez ele não vai escapar.


Tobishima olhou seriamente para os dois.


— Seja como for, não temos escolha. Joe, Rita... tomem cuidado!


Os dois responderam juntos:


— Sim, senhor!


Joe e Rita correram para o hangar.


Pouco depois, já estavam em seus lugares na cabine do Pirata do Espaço.


Joe ajustou os controles.


— Sistemas de voo?


Rita conferiu os indicadores diante dela.


— Normais.


— Propulsão?


— Normal.


Joe colocou as mãos nos comandos.


— Então vamos.


Os motores começaram a ganhar potência. No interior da base, mecanismos hidráulicos entraram em funcionamento. A plataforma que sustentava o Pirata do Espaço começou a avançar pelo túnel de lançamento construído no interior da ilha. À frente, as comportas submarinas se abriram. A água invadiu o compartimento externo. O Pirata do Espaço avançou.


Por alguns instantes, a enorme aeronave seguiu completamente submersa, deixando atrás de si um rastro de turbulência enquanto contornava a estrutura rochosa da Ilha Akane. Então Joe puxou os controles.


— Pirata do Espaço... decolar!


A máquina inclinou o nariz para cima.


Os motores rugiram.


O Pirata do Espaço acelerou sob a água e disparou em direção à superfície. Segundos depois, rompeu o mar junto à falésia da Ilha Akane. Uma enorme coluna de água se ergueu ao redor da aeronave. O Pirata do Espaço continuou subindo, passou diante do paredão rochoso e ganhou rapidamente altitude. Na cabine, Joe estabilizou a trajetória. Rita conferiu a navegação.


— Rota para Tori-Shima calculada.


— Certo.


Joe avançou os controles.


— Vamos descobrir o que Lagan está preparando.


O Pirata do Espaço inclinou-se para o sul e acelerou sobre o Pacífico. Atrás deles, a Ilha Akane logo começou a desaparecer no horizonte. Não demorou muito para que o Pirata do Espaço alcançasse a região de Tori-Shima. A ilha surgiu adiante, solitária no Pacífico. Do alto, tudo parecia tranquilo demais. Nenhuma aeronave desconhecida cruzava o céu. Nenhuma máquina inimiga pairava sobre o mar.


Mas os sinais do ataque estavam por toda parte. Joe reduziu a velocidade ao se aproximar. Abaixo deles, manchas de óleo se espalhavam pela água. Alguns destroços ainda flutuavam, enquanto pequenas colunas de fumaça marcavam os pontos onde os navios da Marinha haviam sido destruídos. Rita examinava atentamente os instrumentos.


— Nenhum sinal.


Joe percorreu o horizonte com os olhos.


— Não estou gostando disso. Eu poderia apostar que aquele Lagan ainda está por aqui.


Rita tornou a conferir os sensores.


— Também tenho essa impressão, Joe.


Ela olhou para a ilha.


— Estou desconfiada da própria Tori-Shima.


Joe não respondeu de imediato. Fez o Pirata do Espaço ganhar um pouco de altitude e iniciou uma passagem sobre a ilha. A aeronave atravessou lentamente o céu acima do terreno vulcânico. Na cabine, Rita aumentou a sensibilidade dos sensores. O radar convencional continuava sem mostrar qualquer alvo, mas ela passou a observar também as leituras do terreno.


Nada.


Joe fez uma segunda passagem, desta vez mais baixa. As encostas vulcânicas passaram sob eles. Rochas escuras, antigas áreas de atividade eruptiva, terreno irregular. Nenhum sinal de Daxemora.


— Ele não pode simplesmente ter desaparecido — disse Joe.


Rita não respondeu.


Estava concentrada em uma das telas.


Uma oscilação apareceu.


Sumiu.


Depois tornou a aparecer. Rita ajustou os controles.


— Joe...


O tom da voz dela o alertou.


— O que foi?


— Passe novamente sobre aquela região.


Joe inclinou o Pirata do Espaço.


— Alguma coisa no radar?


— Não exatamente.


A aeronave fez a curva e voltou. Rita acompanhou as leituras.


A oscilação reapareceu.


Dessa vez permaneceu.


— Aí está.


Joe olhou rapidamente para os instrumentos.


— O quê?


— Os sensores estão captando alguma coisa no subsolo da ilha.


Joe franziu a testa.


— Atividade vulcânica?


— Não.


Rita fez outra leitura.


— O padrão é diferente. Há uma concentração de energia lá embaixo... e está oscilando de maneira regular demais para ser natural.


Joe voltou os olhos para o terreno que passava sob a aeronave. Em algum lugar sob aquelas toneladas de rocha vulcânica, havia alguma coisa. E, se Rita estivesse certa, aquilo estava funcionando.


— Então foi por isso que não encontramos nada na superfície...


Rita olhou para ele.


— Joe, se for Daxemora, Lagan pode estar em qualquer ponto abaixo de nós.


Joe permaneceu alguns segundos em silêncio. A lembrança do primeiro combate voltou à sua mente. Lagan havia demonstrado ser arrogante, mas estava longe de ser um piloto imprudente. Voltar exatamente ao mesmo lugar e depois desaparecer não combinava com uma retirada.


Combinava com preparação.


Joe tomou uma decisão.


— Só existe uma maneira de descobrir.


Rita percebeu imediatamente o que ele pretendia.


— Joe...


Ele já acionava os controles.


— Vou descer com o Tanque-Pirata.


Rita observou novamente as leituras subterrâneas.


— Se Lagan estiver realmente lá embaixo, estaremos entrando exatamente onde ele quer. Tome cuidado, Joe.


Joe sabia disso.


Seus olhos permaneceram fixos à frente.


— Eu sei.


O Pirata do Espaço continuou sobrevoando Tori-Shima. Abaixo deles, a ilha permanecia imóvel.


Silenciosa.


Como se nada houvesse sob aquelas rochas. Joe pousou a mão sobre o comando de liberação do Tanque-Pirata.


— Por isso mesmo, vamos entrar com cuidado.


Pouco depois, o Tanque-Pirata avançava pelo interior de Tori-Shima. A broca frontal triturava a rocha vulcânica, abrindo passagem alguns metros de cada vez. Joe mantinha a velocidade reduzida. Ali embaixo, não havia céu, horizonte ou espaço para uma manobra evasiva. Havia apenas o estreito túnel que surgia diante dele e as informações dos instrumentos. A temperatura externa continuava subindo. Joe observou o indicador.


— Quarenta e oito... cinquenta e dois...


A voz de Rita chegou pelo comunicador, acompanhada por uma leve interferência.


— Joe, estou recebendo variações térmicas cada vez maiores à sua frente.


— Eu também.


— Não é só temperatura. Há pressão acumulada em algumas regiões. Você está entrando numa parte muito instável da ilha.


Joe reduziu a rotação da broca.


— Se Lagan conseguiu entrar por aqui, deve existir uma passagem segura.


— Deve existir — respondeu Rita. — Mas não sabemos qual foi.


Joe sorriu de leve.


— Por isso tenho você aí em cima.


Rita não achou graça.


— Estou falando sério, Joe.


— Eu também.


O G-Tank prosseguiu.


A broca rompeu uma camada mais fina de rocha e encontrou uma cavidade natural.


Joe interrompeu imediatamente a perfuração.


À frente havia um espaço subterrâneo irregular, formado por antigas galerias vulcânicas. As paredes escuras refletiam pontos avermelhados vindos de fissuras mais profundas.


Joe fez o Tanque-Pirata avançar lentamente.


— Encontrei uma galeria.


Rita consultou os sensores.


— Estou vendo. E o sinal ficou muito mais forte.


Joe olhou para o indicador.


Ela tinha razão.


— Ele está perto.


Um alerta soou no radar.


Joe virou o rosto.


Um ponto apareceu atrás dele.


— Joe!


O alerta de Rita chegou praticamente ao mesmo tempo.


— Alguma coisa está vindo na sua direção!


Joe puxou os controles.


Uma explosão atingiu a parede à sua esquerda.


O impacto sacudiu violentamente o Tanque-Pirata e lançou uma chuva de fragmentos de rocha sobre ele.


— Lagan!


Uma segunda explosão veio logo depois.


Joe acelerou.


O G-Tank avançou pela galeria enquanto novos disparos atingiam o túnel atrás dele.


Então a voz de Lagan surgiu no comunicador.


— Hahahahaha! Finalmente resolveu me visitar, Joe!


Joe olhou para o radar.


Daxemora vinha atrás dele.


— Eu sabia que você estava aqui.


— Sabia?


Lagan riu novamente.


— Então por que parece tão surpreso?


Daxemora disparou.


Joe desviou para uma passagem lateral.


O raio passou rente ao G-Tank e atingiu a parede, fazendo parte do teto desabar.


Joe acelerou antes que as pedras bloqueassem a passagem.


— Rita, consegue acompanhar Lagan?


No Pirata do Espaço, ela alternava rapidamente entre os instrumentos.


— Parcialmente. A rocha está interferindo no radar, mas consigo identificar os dois sinais quando passam pelas regiões menos densas.


— Então me avise se ele tentar me cercar.


Rita hesitou.


— Joe...


— O quê?


— Ele não está tentando cercar você.


Joe franziu a testa.


— Como assim?


— Está seguindo você.


Outro disparo atingiu o chão logo atrás do G-Tank.


Joe fez uma curva brusca.


— Isso eu já percebi.


— Não, Joe. É justamente isso que está estranho.


Rita ampliou o mapa subterrâneo que os sensores conseguiam construir.


— Daxemora poderia ter cortado seu caminho duas vezes. Ele não fez isso.


Joe olhou rapidamente para o radar.


— Talvez não consiga.


Rita não respondeu.


Não estava convencida.


O G-Tank entrou em outra galeria.


A temperatura subiu abruptamente.


Um alerta soou.


Joe reduziu a velocidade.


À direita, através de uma abertura na rocha, uma luminosidade avermelhada pulsava nas profundezas.


Lava.


— Rita, encontrei atividade magmática.


— Saia daí, Joe.


A resposta veio imediatamente.


— Estou procurando outra passagem.


— Não. Quero dizer agora. Saia dessa região.


Joe percebeu a mudança na voz dela.


— O que aconteceu?


— As leituras estão mudando depressa demais.


Rita observava vários indicadores ao mesmo tempo.


— Há movimentação de fluidos quentes abaixo de você. E a pressão está aumentando.


Joe procurou outra saída.


Encontrou uma abertura estreita à esquerda.


— Vou contornar.


O Tanque-Pirata avançou.


Daxemora apareceu novamente no radar.


— Ele continua atrás de você! — avisou Rita.


Joe apertou os controles.


— Então venha, Lagan.


O G-Tank atravessou a passagem.


Daxemora veio atrás.


Joe fez uma curva.


Depois outra.


A galeria se alargou.


Uma fissura incandescente apareceu à frente.


Joe desviou.


Outra surgiu à esquerda.


Ele mudou novamente de direção.


No Pirata do Espaço, Rita olhava para o mapa que se formava no monitor.


As passagens percorridas pelo G-Tank começavam a formar um desenho no mapa.


Ela se inclinou para a tela.


Alguma coisa estava errada.


— Joe...


Ele fez outra curva.


Mais uma fissura.


Dessa vez, lava começou a escorrer por uma abertura recém-formada.


— Droga!


Joe recuou e tomou outra passagem.


Lagan não atacou.


Aquilo chamou sua atenção.


Joe olhou para o radar.


Daxemora havia parado.


— Por que ele não está vindo?


Rita continuava olhando para o mapa.


Então compreendeu.


Seus olhos se arregalaram.


— Joe, pare!


— O quê?


— Pare agora!


Joe freou o G-Tank.


— Rita?


Ela ampliou a imagem.


As galerias pelas quais Lagan o havia conduzido formavam quase um círculo ao redor da posição do Tanque-Pirata.


E não era apenas isso.


Os pontos de maior temperatura também o cercavam.


— Joe... ele não estava perseguindo você.


Silêncio.


— Ele estava conduzindo você.


Joe olhou para o radar.


Daxemora começou a se afastar.


Lagan riu.


— Finalmente perceberam.


Joe tentou retornar pela passagem de onde viera.


Uma explosão subterrânea fez a galeria tremer.


Uma fissura abriu-se diante do G-Tank.


Lava começou a subir.


Joe virou imediatamente.


Outra passagem estava sendo tomada pelo calor.


— Lagan!


A voz do capitão veio tranquila.


— Você é um excelente piloto, Joe. Foi exatamente por isso que eu sabia que conseguiria escapar de cada um dos meus ataques.


Joe ficou imóvel por um instante.


Agora entendia.


Os disparos.


As oportunidades que Lagan não aproveitara.


As rotas de fuga.


Tudo havia sido deliberado.


— Você nunca tentou me atingir.


— Agora está entendendo.


Daxemora acelerou pelo túnel que havia preparado anteriormente.


Lagan gargalhou.


— Eu apenas precisava que você chegasse ao lugar certo!


No Pirata do Espaço, alarmes começaram a soar.


Rita olhou para as leituras térmicas.


— Joe, saia daí! A temperatura está aumentando por todos os lados!


O G-Tank avançou contra uma das passagens.


A broca atingiu a rocha.


Joe aumentou a potência.


— Vamos!


A broca girava, mas o tanque avançava devagar.


A estrutura inteira da ilha começou a vibrar.


Na superfície, o mar ao redor de Tori-Shima se agitou.


Pequenas colunas de vapor começaram a escapar de fissuras nas encostas.


Rita percebeu novos sinais aparecendo no monitor.


— Joe... alguma coisa está acontecendo com o vulcão.


As perfurações realizadas por Daxemora, a abertura de novas fraturas e a circulação repentina de material superaquecido haviam alterado o equilíbrio daquele sistema subterrâneo já instável.


A pressão aumentava.


Canais antes separados começavam a se comunicar.


No interior da ilha, a lava avançava pelas fissuras.


Joe olhou ao redor.


O G-Tank estava cercado.


— Rita...


A comunicação chiou.


— Joe!


— Acho que encontrei a armadilha.


— Saia daí!


Joe aumentou a potência da broca.


— É exatamente o que estou tentando fazer!


Muito acima dele, alguma coisa rompeu uma das encostas de Tori-Shima.


Daxemora emergiu numa explosão de rocha e poeira.


A máquina ganhou altitude.


Lagan olhou para baixo.


A ilha começava a estremecer.


— Hahahahaha! Perfeito!


No Pirata do Espaço, Rita viu o sinal de Daxemora reaparecer.


— Lagan!


Ela fez menção de avançar contra ele.


Então outro alerta a fez olhar para os sensores.


O sinal de Joe ainda estava lá embaixo.


Rita parou.


— Joe!


Daxemora continuou subindo.


Lagan acionou um comando.


Um compartimento se abriu na parte inferior da máquina.


Dentro dele havia uma bomba.


Os indicadores de energia começaram a subir.


A carga recebeu parte da energia acumulada durante a operação subterrânea.


— Ainda falta o toque final.


Daxemora afastou-se da ilha.


Rita percebeu a abertura do compartimento.


— O que ele está fazendo...?


A bomba caiu.


— Não!


Rita acelerou o Pirata do Espaço.


Tarde demais.


A carga atingiu exatamente a região sob a qual o sinal do G-Tank permanecia cercado.


Por uma fração de segundo, nada aconteceu.


Então Tori-Shima pareceu se partir por dentro.


Uma explosão colossal ergueu parte do terreno.


A onda de choque atravessou o ar e atingiu o Pirata do Espaço, fazendo a aeronave balançar violentamente.


— AAAAAH!


Rita agarrou os controles.


Abaixo dela, uma enorme massa de rocha, cinzas, vapor e gases vulcânicos foi lançada para o céu.


O mar recuou violentamente junto a parte da costa e voltou contra a ilha em ondas turbulentas.


Fissuras avermelhadas abriram-se pelo terreno.


Uma coluna escura começou a subir.


O vulcão havia entrado em erupção.


Rita mal olhava para aquilo.


Seus olhos estavam presos ao radar.


O ponto que representava o G-Tank havia desaparecido.


— Joe?


Nada.


Rita apertou o comunicador.


— Joe!


Somente estática.


— Joe, responda!


Nenhuma resposta.


Ela mudou a frequência.


— G-Tank, aqui é Rita! Joe, está me ouvindo?


Chiado.


Rita aumentou a potência do transmissor.


— Joe!


Nada.


A respiração dela começou a ficar mais rápida.


— Joe, responda!


Abaixo, Tori-Shima continuava estremecendo.


Outra explosão lançou rochas para o alto.


Rita desviou o Pirata do Espaço quase instintivamente.


Seus olhos voltaram imediatamente para o radar.


Nenhum sinal.


— Joe...


Tentou outra vez.


— Joe, por favor... responda.


Silêncio.


A fumaça subia diante dela.


O ponto continuava ausente do radar.


Rita apertou o comunicador com mais força.


— Joe!


Nada.


E, pela primeira vez desde que entrara no Pirata do Espaço naquela manhã, Rita deixou de olhar para os instrumentos. Ficou olhando para a enorme coluna de fumaça que se erguia de Tori-Shima. Lá embaixo, em algum lugar sob toneladas de rocha vulcânica, estava Joe.


Ou estivera.


E ele não respondia. Na sala de comando da Base Akane, ninguém dizia uma palavra. Nos monitores, a imagem transmitida mostrava Tori-Shima parcialmente encoberta pela enorme coluna de cinzas e gases que continuava a subir do vulcão. Os instrumentos registravam perturbações por toda a região. Mas ninguém prestava muita atenção aos números. Tobishima, Sabu, Gen, Ippei, Sólus, Bidkon e Liriana observavam Rita.


A voz dela continuava chegando pela transmissão.


— Joe! Joe, responda!


Somente estática.


— Joe, aqui é Rita! Você está me ouvindo?


Nada.


Tobishima se aproximou do comunicador.


— Rita, continue tentando entrar em contato com Joe. Mas não tire os olhos da nave inimiga. Lagan ainda está aí.


Por alguns segundos, Rita pareceu nem sequer ouvi-lo.


— Joe... responda...


— Rita!


Dessa vez, a voz firme de Tobishima conseguiu alcançá-la. Ela piscou e olhou para os instrumentos.


— Sim, professor...


— Continue procurando por Joe. Mas fique atenta. Você ainda está em combate.


Rita respirou fundo.


— Sim, senhor.


Imediatamente voltou ao comunicador.


— Joe, responda. Por favor...


Sabu estava inclinado sobre o console, olhando para o monitor como se pudesse obrigar algum sinal a aparecer.


— Vamos lá, Joe... responda.


Gen permanecia de braços cruzados, mas sua expressão estava longe da habitual tranquilidade.


— Não vai ser esse vulcão que vai parar o Joe.


Ippei assentiu rapidamente.


— Claro que não. O Tanque-Pirata foi construído para resistir. Ele pode ter aguentado.


Fez uma pequena pausa.


— Eu acho...


Gen virou lentamente o rosto para ele.


— O que você quer dizer com “eu acho”?


— Quero dizer que pode ter resistido!


— Então por que falou “eu acho”?


— Porque eu não estava lá quando construíram o Tanque-Pirata!


— Então não fala “eu acho” numa hora dessas!


— Mas foi você que começou dizendo que o vulcão não ia parar o Joe!


— Porque não vai!


Sabu olhou para os dois.


— Dá para vocês pararem?


Os dois se calaram. A pequena discussão não havia aliviado coisa alguma. Liriana permanecia alguns passos atrás deles. Ela quase não olhava para Tori-Shima. O olhar estava preso à imagem de Rita. Liriana conhecia aquele rosto.


Conhecia a maneira como a prima sorria, como se irritava, como tentava manter a serenidade diante dos outros. Conhecia até os pequenos gestos que Rita fazia quando estava preocupada e não queria demonstrar. Mas nunca a vira daquela maneira. Rita apertava repetidamente os controles do comunicador. Seus olhos percorriam o radar e voltavam para a coluna de fumaça à frente.


— Joe... consegue me ouvir?


Estática.


— Joe?


Nada.


A voz de Rita começou a falhar. Liriana deu involuntariamente um passo em direção ao monitor. Sólus percebeu, mas não disse nada.


— Joe, por favor... — insistiu Rita.


Rita tentou novamente, sem conseguir conter as primeiras lágrimas.


— Responda.


Liriana baixou os olhos por um instante. Bidkon olhou para ela e depois tornou a observar a transmissão. Sabu fechou as mãos sobre a borda do console.


— Vamos, Joe...


No monitor, Rita continuava sozinha na cabine do Pirata do Espaço.


— Joe...


Nenhuma resposta.


Então, em outro dos monitores da sala, um sinal reapareceu. Sólus foi o primeiro a percebê-lo.


Seu semblante mudou.


— Professor...


Tobishima voltou-se para ele.


Sólus apontou para a tela.


— Daxemora.


A máquina de Lagan continuava no ar.


E estava se aproximando do Pirata do Espaço.


Lagan apareceu no telecomunicador do Pirata do Espaço. Ao ver Rita cabisbaixa, em prantos, resolveu tripudiar.


— É inútil, gailariana. Seu amigo Joe já está morto. E o Tanque-Pirata agora é seu túmulo.


Rita não respondia. Continuava tentando chamar Joe.


Lagan insistiu, sarcástico:


— Se quiser continuar insistindo, eu permitirei que tente o impossível. Lagan é um cavalheiro que respeita as damas... hahahahahaha!


Rita mantinha a cabeça baixa, segurando o manche com as duas mãos e mal contendo os soluços. Na Base Akane, ninguém falava. O choro dela ecoava pela sala de comando.


— Muito bem, gailariana. Levante essa cabeça e não fique triste. Eu lhe farei o favor de mandar você para o mesmo inferno para onde enviei seu amigo Joe. Assim, vocês poderão ser felizes juntos por toda a eternidade.


Aos poucos, o choro cessou. Rita apertou o manche com força. Ainda estava de cabeça baixa quando começou a falar:


— Lagan... se Joe morreu...


Só então ergueu o rosto, devagar, até encarar Lagan no telecomunicador. Instantes antes, mal conseguia falar entre os soluços; agora, mantinha os olhos fixos nele. As lágrimas ainda escorriam, mas a voz já não tremia ao pronunciar a sentença.


— ... então você acabou de cometer o último erro da sua vida.


Lagan ficou alguns segundos encarando Rita pelo telecomunicador. O sorriso desaparecera de seu rosto. Então estreitou os olhos.


— Veremos.


Daxemora avançou.


— BATERIA MERODAK!


Os primeiros disparos cortaram o céu.


Rita puxou o manche. O Pirata do Espaço inclinou-se para a esquerda, escapando da primeira sequência por poucos metros. Ela corrigiu imediatamente, desceu e deixou outra rajada passar por cima da cabine.


Lagan acompanhou a manobra.


— RAIO DE FULGOR MERODAK!


Rita viu o clarão surgir diante de Daxemora e virou antes mesmo que o feixe fosse disparado. O raio passou pela lateral do Pirata do Espaço.


Ela não disse nada.


Apenas alinhou a aeronave e apertou os disparadores.


Os mísseis partiram das asas.


Lagan precisou quebrar a trajetória.


— O quê?!


Daxemora girou para escapar. Um míssil passou rente à fuselagem; outro explodiu próximo o bastante para fazê-lo perder altitude por alguns segundos.


Na Base Akane, Sabu se inclinou sobre o console.


— Ela nem chamou o ataque...


Ninguém respondeu.


Tobishima percebebera a mesma coisa.


Desde os primeiros combates contra Geldon, Joe e Rita anunciavam as armas quase por instinto. Fazia parte do ritmo com que pilotavam o Pirata do Espaço.


Agora só se ouvia Lagan.


— LANÇAMENTO CARMESIM!


Rita mergulhou.


Os projéteis passaram atrás dela.


Ela puxou o Pirata para cima, cruzou por baixo de Daxemora e atirou novamente.


Lagan desviou tarde.


Uma explosão atingiu a lateral da máquina.


— Maldita!


Rita acompanhou a curva.


Sua respiração estava pesada, mas regular. De vez em quando, uma lágrima descia até o queixo e caía sobre o uniforme.


Ela sequer levava a mão ao rosto.


Liriana continuava parada diante do monitor da base.


— Rita...


Sólus olhou de relance para ela.


Liriana demorou um instante antes de falar novamente.


— Eu nunca vi minha prima assim.


Daxemora recuperou altitude.


Lagan voltou a atacar.


— TEMPESTADE DE MÍSSEIS!


Uma saraivada se abriu diante do Pirata do Espaço.


Rita reagiu imediatamente. Fez uma curva fechada, escapou dos primeiros mísseis e desceu em direção a Tori-Shima. Os restantes corrigiram a rota e vieram atrás.


Ela levou a aeronave quase até a coluna de cinzas que ainda se erguia do vulcão.


Sabu prendeu a respiração.


— Rita, cuidado...


O Pirata entrou na nuvem.


Lagan acompanhou o radar.


— Não vai se esconder de mim!


O sinal desapareceu por um instante.


Voltou.


Atrás de Daxemora.


Lagan arregalou os olhos.


— Como?!


Rita saiu das cinzas já atirando.


As explosões envolveram a lateral de Daxemora.


Lagan foi lançado contra o encosto.


— Sua desgraçada!


Ele recuperou o controle e voltou ao telecomunicador.


Rita ainda estava ali.


Olhos fixos nele.


Lagan respirou fundo.


— RAIO DE IMPACTO DAXEMORA!


Rita desviou por baixo.


O raio passou sobre a cabine.


Ela girou, voltou à posição de ataque e apertou novamente os disparadores.


Daxemora escapou por pouco.


Gen falou baixo:


— Ela está atrás dele.


Sabu não tirava os olhos da tela.


— E ele está fugindo dela.


Lagan ouviu os alarmes internos.


Olhou para os indicadores.


Os sistemas ainda respondiam.


— Então vamos ver quanto você aguenta!


Ele afastou Daxemora e ganhou distância.


— TEMPESTADE DE MÍSSEIS!


Desta vez, a salva foi muito maior.


Rita tentou abrir caminho entre os projéteis.


Dois passaram à frente.


Outro explodiu sob a asa.


Os seguintes a alcançaram.


O céu se iluminou ao redor do Pirata do Espaço.


Na Base Akane, Sabu se levantou.


— RITA!


Uma esfera luminosa envolveu a aeronave.


Bidkon aproximou-se do monitor.


— O campo de força!


A fumaça começou a se dissipar.


O Pirata do Espaço ainda estava lá.


Rita foi sacudida violentamente dentro da cabine, mas manteve as mãos no manche.


Lagan viu o brilho da barreira.


— Então é verdade...


Um dos soldados no cockpit de Daxemora olhou para ele.


— Kapor? Capitão?


— A proteção que usaram contra Mobula.


Lagan sorriu novamente, mas desta vez havia irritação no gesto.


— Vamos descobrir quanto ela suporta.


Daxemora atacou outra vez.


Mais mísseis.


Rita tentou evitá-los, mas Lagan corrigia a trajetória a cada manobra.


As explosões atingiram a barreira em sequência.


O campo brilhou, oscilou, tornou a estabilizar.


No cockpit do Pirata, uma luz de advertência começou a piscar.


Depois outra.


Rita olhou para os instrumentos.


Um pequeno estalo veio do painel.


Faíscas saltaram perto de sua mão.


Na base, Bidkon empalideceu.


— Ele está forçando a barreira.


Tobishima voltou-se para ele.


— Quanto ela aguenta?


Bidkon hesitou.


— Foi instalada para suportar ataques concentrados durante um período limitado. Se ele continuar...


Outro impacto sacudiu o Pirata do Espaço.


Bidkon terminou:


— ...vai começar a comprometer os outros sistemas.


Lagan percebeu a oscilação.


— RAIO DE FULGOR MERODAK!


O feixe atingiu o campo.


Rita foi lançada contra o cinto.


O painel diante dela piscou.


Uma das telas se apagou por alguns segundos.


Voltou.


Outro circuito entrou em curto.


Rita abaixou o rosto quando uma faísca explodiu perto do capacete.


Lagan riu.


— Está acabando, gailariana!


Rita ergueu os olhos.


Ele ainda aparecia no telecomunicador.


Ela tornou a olhar para o radar.


Daxemora vinha diretamente contra ela.


Lagan disparou.


Rita puxou o manche no último instante.


O Pirata passou por baixo da máquina inimiga.


Ao cruzar, ela disparou a 'Bola de Fogo'.


Daxemora foi atingido na parte traseira.


Lagan sentiu o impacto.


Alarmes começaram a soar.


— O que aconteceu?!


Um dos soldados verificou o painel.


— Rak-Znyat Kro-Datch vlosk! (Sobrecarga no sistema de armamento!)


Outra luz se acendeu.


— Voh-Pravâ Kro-Datch vlosk! (O estabilizador traseiro também sofreu danos!)


Lagan tentou corrigir.


Daxemora respondeu com atraso.


— Vy otrâ! (Restabeleçam!)


— Myn skrat! (Estamos tentando!)


O segundo soldado olhou os níveis de energia.


— Kapor, myn skrat, Pravâ-Datch myn vlosk. Capitão, se continuarmos nesse ritmo, podemos perder os controles de voo.


Lagan fitou o Pirata do Espaço.


Rita vinha novamente.


O sorriso dele desapareceu.


— Vy voh! (Evasão).


O soldado se virou.


— Kapor? (Capitão?)


— Myn drak. Datch-Voh vy skrat! (Você ouviu. Evasão!)


Daxemora mudou de direção.


Na Base Akane, Gen abriu um sorriso.


— Está fugindo!


Sólus não comemorou.


— Ainda não.


Um dos soldados de Daxemora olhou para Lagan.


— Kapor... myn vlosk... (Capitão... se voltarmos derrotados...)


Lagan não respondeu.


— Ja-krol M-êlañ, myn otrâ klo. (O Grande Almirante não vai perdoar).


O outro completou:


— Myn mâ vels. (Ele vai nos matar).


Lagan virou lentamente a cabeça.


— Datch-Znyat vlosk vy skrat? (Quem falou em voltar para a base?)


Os dois homens se calaram.


Lagan acionou o mapa de navegação.


Um ponto surgiu na tela.


Ilha Akane.


— Akane-Datch karn Voh-Kro Znyat myn skrat. (Vamos atacar a Ilha Akane com os reservatórios de gases vulcânicos).


Lagan aumentou a potência.


— Myn Gailar vlosk. Mâ skrat, Voh-Kro mâ drak. (Se aquela gailariana quiser me seguir, que venha. Quando chegar, encontrará apenas cadáveres).


Na Base Akane, Sólus percebeu a mudança de rota.


— Professor!


Tobishima aproximou-se.


— O que foi?


Sólus apontou para a tela.


— Daxemora está vindo para cá.


Bidkon verificou os dados.


— Os reservatórios...


Sabu olhou para ele.


— Que reservatórios?


— Os gases que extraíram de Tori-Shima.


Tobishima acionou imediatamente o canal.


— Rita! Lagan está indo para Akane!


Rita já havia percebido.


Seus olhos acompanharam o sinal de Daxemora.


Pela primeira vez desde o início da luta, falou.


— Ele não vai chegar aí.


Lagan ouviu.


— Ah, não?


Compartimentos traseiros se abriram em Daxemora.


Uma massa espessa de fumaça foi lançada para trás.


Em segundos, a nave desapareceu dentro dela.


— CORTINA DE FUMAÇA!


Rita continuou avançando.


O radar oscilou.


Daxemora sumiu da visão direta.


Lagan riu.


— Agora venha me procurar!


Rita levou a mão a outro controle.


Sua voz saiu firme.


— RAIO ARCO-ÍRIS PIRATA!


O feixe multicolorido atravessou a fumaça.


A cortina se abriu em turbilhões.


Por trás dela, Daxemora apareceu.


O raio continuou avançando.


Lagan arregalou os olhos.


— Não!


O impacto atingiu a máquina.


Daxemora perdeu estabilidade.


Rita já vinha atrás.


Compartimentos se abriram nas asas traseiras do Pirata do Espaço.


Ela apertou os disparadores.


Os mísseis partiram.


Lagan tentou virar.


O primeiro atingiu a blindagem.


Outro explodiu junto à estrutura lateral.


Um terceiro acertou a parte traseira.


Daxemora começou a cair.


Alarmes tomaram a cabine.


— Syr-Lât ryn prak! (Estou perdendo os controles!)


Lagan forçou o manche.


Nada.


Mais uma explosão sacudiu a nave.


Ele ergueu os olhos para o telecomunicador.


Rita permanecia olhando para ele.


Lagan respirou com dificuldade.


— Maldita...


Rita não respondeu.


— Maldita gailariana apaixonada...


Ele bateu a mão nos controles.


— MALDITAAAAA!


Rita levou a mão ao comando final.



Ficou alguns segundos olhando para Daxemora, para Lagan, o adversário que, até aquele momento, ela acreditava ter arrancado Joe de sua vida.


Sua mão se fechou sobre o disparador.


— TORPEDO VOADOR!


O torpedo deixou o Pirata do Espaço.


Lagan tentou fazer Daxemora responder.


A máquina mal se moveu.


O torpedo atingiu em cheio.


Lagan gritou:


"AER-ZH STÆRK-ZH-IVH!

AER-ZH JAKROL-MÊLZH-IVH!

AER-ZH KVORDL-ZH-IVH!"

(GLÓRIA AOS FORTES! GLÓRIA AO GRANDE ALMIRANTE! GLÓRIA À HORDA)!


A explosão tomou o céu. Por alguns segundos, Daxemora ainda foi visível dentro da bola de fogo, até se desfazer.


Fragmentos incandescentes começaram a cair em direção ao mar.


O sinal desapareceu do radar.


O telecomunicador se apagou.


Rita continuou olhando para o lugar onde Lagan estivera.


A mão permanecia sobre o comando.


Aos poucos, seus dedos relaxaram.


A respiração que conseguira manter sob controle começou a falhar novamente.


Ela baixou os olhos.


Joe continuava sem responder.


Na Base Akane, Sabu foi o primeiro a falar.


— Ela conseguiu...


Ippei ergueu o punho.


— Rita conseguiu! Ela derrotou Lagan!


Gen respirou fundo.


— Acabou com aquele desgraçado.


Por um instante, parecia que a sala inteira estava pronta para comemorar.


Tobishima continuou olhando para o monitor.


— Mas a que preço?


A alegria morreu ali.


Sabu tornou a olhar para a transmissão.


Liriana também.


Rita estava sozinha no cockpit.


Lá fora, Tori-Shima continuava ardendo.


A coluna de fumaça subia sobre a ilha, enquanto pequenas explosões iluminavam a encosta.


Rita olhou para o radar.


Nenhum sinal do Tanque-Pirata.


A raiva que a sustentara durante a batalha se esgotara.


Ela levou a mão ao comunicador.


— Joe...


Esperou.


Nada.


Rita fechou os olhos.


Quando tornou a falar, sua voz saiu baixa, ainda embargada.


— Professor Tobishima...


— Estou ouvindo, Rita.


Ela olhou uma última vez para Tori-Shima.


— Lagan foi destruído.


Fez uma pausa.


— Estou voltando para a base.


Então o comunicador chiou.


Rita parou.


Um ruído fraco saiu do alto-falante, quase perdido na interferência.


Ela virou-se depressa para o painel.


— ...ta...


Rita ficou imóvel.


Na Base Akane, Sólus ergueu a cabeça.


— Esperem.


Outro chiado.


Dessa vez, uma voz.


Muito baixa.


— ...Rita...


Os olhos dela se arregalaram.


— Joe?


Silêncio.


Rita se inclinou para o comunicador.


— Joe?! Joe, está me ouvindo?


A resposta veio entrecortada.


— Estou... tentando...


Rita levou a mão à boca. As lágrimas voltaram de uma vez.


— JOE!


Na Base Akane, Sabu quase pulou sobre o console.


— É ELE!


Gen bateu as duas mãos na mesa.


— Eu sabia! Eu sabia que aquele vulcão não ia acabar com ele!


Ippei apontou para o monitor, eufórico.


— Está vivo! O Joe está vivo!


Liriana juntou as mãos diante do rosto e fechou os olhos por um instante, num gesto espontâneo de agradecimento. Quando tornou a abri-los, estava sorrindo. Até Tobishima deixou escapar um suspiro longo antes de se aproximar do comunicador.


— Joe, aqui é Tobishima. Informe sua posição.


A resposta demorou alguns segundos.


— Professor... acho que estou... debaixo do mar.


Sabu olhou para Gen.


— Debaixo do mar?


Rita enxugou o rosto rapidamente.


— Joe, como você conseguiu sair?


Ele respirou com dificuldade antes de falar.


— Quando percebi que não dava para voltar... continuei descendo.


Rita franziu a testa.


— Descendo?


— Usei a broca. Fui mais fundo... para fugir das galerias de lava. Quando veio a explosão, eu já tinha saído da área onde Lagan me prendeu.


Houve uma pausa.


— Continuei perfurando... até atravessar a rocha abaixo da ilha. Saí pelo fundo oceânico.


Rita fechou os olhos por um instante. A imagem dele preso naquele inferno subterrâneo voltou à sua cabeça, mas agora havia uma diferença: Joe estava falando com ela.


Estava vivo.


— Onde você está exatamente?


— Tentando descobrir.


Um ruído metálico surgiu pelo comunicador. Joe soltou um gemido. Rita se endireitou imediatamente.


— Joe?


— Estou bem.


Ela não acreditou nem por um segundo.


— Você está ferido.


— Um pouco.


— Quanto é “um pouco”?


Joe não respondeu.


— Joe.


— Bati a cabeça... e acho que alguma coisa me acertou no ombro.


Rita apertou os lábios.


— E o Tanque-Pirata?


— Também já esteve melhor.


Como se quisesse confirmar, um alarme fraco soou do outro lado da comunicação.


— Energia quase no fim — continuou Joe. — Os controles estão respondendo mal.


Rita voltou os olhos para os sensores.


— Estou procurando seu sinal.


Sólus ajudava a partir da base.


— Rita, tente uma varredura abaixo da costa sudoeste. Estou captando uma emissão muito fraca naquela direção.


Ela ajustou os instrumentos.


Por alguns segundos, nada.


Então apareceu.


Um ponto minúsculo.


Rita quase riu de alívio.


— Encontrei você!


— Eu sabia... que você ia encontrar.


A voz de Joe estava ficando mais fraca.


— Não tente fazer nada. Eu vou até você.


— Rita...


— O quê?


— O tanque ainda consegue subir.


— Joe, não.


— Se eu desligar agora... talvez não consiga ligar de novo.


Ela hesitou.


Joe conhecia aquela máquina.


E, por mais que quisesse simplesmente ordenar que ele permanecesse imóvel, sabia que podia ter razão.


— Está bem. Mas não force mais do que o necessário.


— Vou tentar.


— E se sentir que vai apagar, me avise.


Joe soltou uma pequena risada sem força.


— Como?


Rita quase respondeu atravessado.


Não conseguiu.


Acabou rindo também, ainda chorando.


— Idiota.


O Pirata do Espaço desceu em direção ao oceano.


Rita reduziu a velocidade e manteve a aeronave em voo baixo, acompanhando o sinal que subia lentamente nas telas.


A superfície do mar se rompeu.


O Tanque-Pirata emergiu.


Rita prendeu a respiração.


O pequeno veículo estava coberto de marcas, com parte da blindagem deformada e vários sistemas apagados. Por alguns segundos, pareceu que voltaria a cair na água.


— Joe!


— Estou aqui...


O G-Tank recuperou altitude com dificuldade.


Voava inclinado.


Rita reduziu ainda mais a velocidade do Pirata do Espaço.


— Venha pela direita. Vou manter a nave o mais estável possível.


— Certo.


— Devagar.


— Certo, Rita.


O Tanque-Pirata começou a se aproximar.


Faltavam poucos metros quando perdeu altitude outra vez.


— Joe!


Ele puxou os controles.


O veículo tornou a subir.


— Ainda... estou aqui.


— Então continue aqui.


A resposta demorou.


— Pretendo.


Rita olhou para o indicador de alinhamento.


— Mais um pouco.


O G-Tank aproximou-se da asa direita.


— Agora.


Joe reuniu o pouco que lhe restava.


Corrigiu a trajetória.


As estruturas finalmente se alinharam. O sistema de recolhimento entrou em funcionamento. As travas capturaram o Tanque-Pirata e o puxaram para seu compartimento na asa. Rita soltou o ar que estava prendendo havia vários segundos.


— Joe?


Nenhuma resposta.


— Joe!


Então ouviu o mecanismo interno. No cockpit do G-Tank, a poltrona destravou. Ainda sentado, Joe começou a descer. A cadeira percorreu os túneis internos do Pirata do Espaço. Joe mantinha os olhos semicerrados, a cabeça tombando vez ou outra contra o encosto. A poltrona avançou pela última seção. Então começou a subir. Rita virou-se ao ouvir o mecanismo aproximar-se.


A cadeira emergiu no cockpit principal e se encaixou na posição de Joe.


Joe estava pálido.


Havia sangue seco junto à testa, e seu uniforme trazia marcas de poeira, óleo e fuligem. Rita soltou o cinto imediatamente.


— Joe!


Ele abriu os olhos por um instante.


Olhou para ela.


Pareceu querer sorrir.


— Rita...


E desmaiou sobre os controles.


— Joe!


Rita acionou o piloto automático e foi até ele.


Segurou seu rosto.


— Joe, olha para mim.


Nada.


Ela levou os dedos ao pescoço.


Sentiu o pulso.


Depois observou sua respiração.


Regular.


Fraca por causa do cansaço, mas regular. Rita fechou os olhos e encostou a testa na dele.


— Meu Deus...


A voz de Tobishima veio pelo comunicador.


— Rita! Como ele está?


Ela demorou alguns segundos para conseguir responder.


— Está vivo. Está respirando normalmente.


Passou rapidamente as mãos pelo uniforme dele, procurando algum ferimento mais grave.


— Tem um ferimento na cabeça e parece machucado no ombro, mas não estou vendo nenhuma hemorragia séria.


Tobishima respondeu imediatamente:


— Traga-o para a base. Vou deixar a enfermaria preparada.


— Sim, professor.


Na sala de comando, Sabu ergueu os braços.


— ELE ESTÁ BEM!


Gen deu um tapa nas costas dele.


— Eu falei!


— Você falou depois que ele já tinha respondido!


— Não interessa!


Ippei começou a rir.


— Vocês conseguem discutir até numa hora dessas?


Sólus permaneceu mais contido, mas havia alívio evidente em seu rosto. Bidkon soltou um longo suspiro e se recostou na cadeira. Liriana continuava com as mãos juntas diante do rosto.


— Obrigada...


Tobishima ouviu e sorriu discretamente. No Pirata do Espaço, Rita tornou a olhar para Joe.


Ele continuava desacordado.


Ela ajeitou cuidadosamente sua cabeça contra o encosto e voltou ao próprio assento. Antes de se sentar, segurou a mão dele por alguns segundos.


— Eu achei que tinha perdido você... Seu... seu cabeça-dura, que eu tanto amo.


A voz saiu baixa. Rita respirou fundo, deixou escapar um sorriso cansado e enxugou uma lágrima com o dorso da mão.


— Então descanse. Eu levo você para casa.


Rita voltou os olhos para a frente. Ao longe, a Ilha Akane começava a surgir no horizonte.

Notas finais
1 - Entalpia (H) é grandeza termodinâmica que mede a quantidade de energia térmica (calor) trocada por um sistema a pressão constante. 2 - Tori-Shima (Ilha do Pássaro em japonês) é uma ilha vulcânica desabitada, localizada no sul do arquipélago japonês de Izu. 3 - Ver o anime original no episódio 20 'Saudações': https://www.youtube.com/watch?v=5Zj6_JMvd-g 4 - Ver o anime original no episódio 09 'Amizade Entre Balas': https://www.youtube.com/watch?v=zIYFYIo9vZg 5 - Ver o anime original no episódio 36 'Soem os sinos da paz': https://www.youtube.com/watch?v=i_o4PvRPU3k