A Ultima Chance
11 Capítulo - 11
Notas iniciais

Capítulo – 11
Foi até o lugar e viu os cacos no chão, o que aquilo significativa? Seria um aviso de Radamanthys? Ou será que nada daquilo foi real?
Sentou numa cadeira confuso, estava pálido.
— Camus já colocou a mesa? O jantar já está pronto... — Shaka parou de falar vendo o amigo sentado com um ar confuso, — Camus você está bem?
O ruivo nada respondeu, estava confuso, nem ao menos ouviu Shaka se aproximar.
Shaka imaginou que talvez o ruivo estivesse passando mal novamente, se aproximou de Camus e, com a voz calma, perguntou ao lhe tocar o ombro: — Camus, está bem? Sente alguma coisa?
O aquariano apenas o olhou confuso enquanto balançava a cabeça negativamente.
— O que está sentindo? Me fala. — Pediu Shaka tentando manter-se calmo.
— O copo está quebrado e... eu não sei... Isso é real Shaka eu estou... Eu estou doente? Será que isso é real? — Camus falava confuso.
Shaka estava começando a se assustar com o jeito de Camus.
— Eu não quero morrer Shaka... Estou fazendo tudo certo, não estou? O tratamento... a escola... Estou lutando, não? — Camus falava desconexo e com a voz emocionada.
Shaka segurou a cabeça de Camus colocando uma mão em cada lado, o fazendo olhar em seus olhos. – Camus, você não vai morrer, tem muito que viver ainda, tem os seus alunos e a sua escola que ficaram desamparados sem você. Tem a mim e a seus amigos que o amamos e tem três pessoas especiais que te amam muito e sofriam muito se você ousar nos deixar.
Ao ouvir as palavras do amigo Camus perguntou: — Está enganado. eles não... Não me amam... nem ao menos me querem por perto.
— Camus, acho que nem eles sabem mensurar o quanto te amam, estão afastados porque acham que você é eterno, não sabem do seu estado, por isso que acho que devia falar com todos, passar por isso junto com eles e...
Shaka não concluiu, foi cortado por Camus.
— Não posso Shaka, não posso! Se eu falar pra eles e... — Camus se emocionou, — se eu sentir que eles estarão ao meu lado somente por pena ou obrigação... não ia aguentar e talvez sucumbisse de vez.
Obviamente Shaka não entendia as reais razões de Camus, achava que era somente orgulho.
— Camus, não se envergonhe de precisar de ajuda principalmente das pessoas que ama.
O ruivo balançou a cabeça. — Você não entende, não é orgulho pelo menos não só orgulho é... deixa pra lá, vamos jantar sua comida está com numa cara ótima. — Sugeriu Camus mudando de assunto, o copo estava quebrado por alguma razão, "talvez seja Radamanthys tentando me perturbar" pensou Camus, que levantou disposto a não cair em qualquer tipo de provocação.
Shaka o ajudou a pôr a mesa, eles jantaram em silêncio Camus não estava com fome sentia-se enjoado, mas comeu o que conseguiu para valorizar o trabalho que Shaka estava tendo.
Acabado o jantar Camus tentou fazer a cabeça de seu amigo, para que ele fosse embora cuidar de suas coisas, mas Shaka insistiu que ficaria ali aquela noite, e se tudo fosse calmo no dia seguinte ele deixaria Camus "em paz".
O ruivo não tardou a se recolher, estava se sentindo cansado e sentia, mesmo que não reclamasse, muitas dores no corpo.
*_*_*_*_*_*_*
Milo saiu do escritório no fim da tarde, esteve muito abatido e nervoso durante o dia, não havia rendido no trabalho, sua cabeça estava em outro lugar, precisava conversar com alguém, alguém sábio e sensato.
Não sabia dizer o porquê, talvez fosse por que Aioros sabia de uma parte da história que levou a sua separação, então Milo seguiu para a casa do sagitariano, parou o carro em frente a casa, desceu e tocou a campainha.
Aioros recebeu o dobro da quantia que os demais cavaleiros quando voltaram a vida, ninguém reclamou ou contestou todos sabiam que ele merecia tal bônus por ter salvo Athena quando esta ainda era um bebê. Por este motivo a casa de Aioros era muito mais luxuosa, grande e tinha um belo jardim, feito por Afrodite, na entrada da casa.
Aioros estava em casa e foi atender a porta, viu quem era e olhou confuso, — Milo! Que bons ventos o trazem aqui?
— Preciso conversar com alguém. — Falou o escorpiano e Aioros entendeu o recado fazendo sinal com a cabeça para que Milo o seguisse e seguiram para a sala.
— Quer tomar algo? — Aioros ofereceu indo pegar uma dose de whisky que Milo aceitou. — Então, o que houve?
Milo estava sentando com o copo nas mãos, tomou um gole, e ainda olhando para o copo respondeu, — o Camus acho que ele tem outro.
Milo mal terminou a frase e já começou a chorar, este era seu jeito passional.
— Puxa... que bom pra ele. — Falou Aioros sério, fazendo Milo o olhar confuso.
— Ah! Milo, o que quer que eu diga? Você também está com outro, não está? Não estava aos beijos com Kanon na frente dele? — Questionou o sagitariano sério.
— Não, não, não estou com ninguém, eu só queria que ele sentisse o que eu sinto, queria que ele tivesse ciúme de mim. — Milo confessou arrasado.
Aioros o olhou incrédulo.
— Você foi lá se desculpar e ele terminou com você, não foi? Queira que ele tivesse feito o papelão que você fez na Itália, mas ele simplesmente terminou com você? – Questionou o amigo.
— Não! Fui eu quem terminou, fui eu... — Respondeu Milo emocionado, fazendo Aioros o olhar perturbado.
— Me explica isso que agora eu tô confuso. Você foi se desculpar e terminou com ele?
Milo suspirou triste antes contar ao amigo o que aconteceu, — Eu o agredi Oros, eu faço mal a ele, — ao ver a cara de espanto do amigo Milo explicou, — fui lá me desculpar, mas queria saber por que ele não me falou antes, por que ele não me confrontou assim que descobriu, nós discutimos e... Ele ficou falando... Aí perdi a cabeça.
Milo voltou a chorar.
— Por Athena, Milo! Você precisa de um tratamento, você o agrediu e ainda terminou com ele?
— Vi que eu tinha ido longe demais, vi que estava fazendo mal a ele, vi que... Talvez ele estivesse melhor sem mim, mas o amo tanto, tanto que não tô conseguindo suportar ficar sem ele. — Confessou Milo, — eu não consigo imaginá-lo com outra pessoa, não consigo!
— Como você fez Aioros? Como conseguiu lidar com aquela história do Shura com o Matteu e o Dite? Me ajuda a suportar! — Pediu Milo desesperado.
—Milo, entenda... primeiro deve compreender que somos pessoas diferentes eu, você, o Camus e o Shura, e são situações diferentes também. — Aioros sentou perto do escorpiano que deitou a cabeça em seu colo, Aioros riu, Milo não passava de um menino grande.
— Sempre me senti inseguro com o Camus, ele é sempre tão seguro de tudo, tão firme, mas tão reservado sempre, na maior parte das vezes tive que ir com calma, paciência para vencer as barreiras que ele colocava, para conseguir ter nossa primeira vez. Nossa... eu penei muito. Tinha horas que duvidava do seu amor, ele raramente dizia que me amava e quando o fazia era por que eu dizia que precisava ouvir, acho que ele nunca me disse por conta própria. — Revelou Milo.
— Como eu disse, Milo, somos pessoas diferentes. O Camus, pelo que eu me lembro, sempre teve este jeito, sério e reservado, acho que ele evoluiu muito desde vocês namoram, acho que você o ajudou a se tornar menos sisudo, menos tenso. — Começou a explicar o sagitariano, — Mas, esta é a essência dele, você deveria saber! E diz que tem ciúmes e isso é insegurança. O que você tem que entender ou acreditar, e aceitar sei lá, é que o Camus é louco por você. Ele te ama e muito, podemos ver isso pela forma com que ele te olha, sabe quando saímos e você vai dançar com a gente? O Camus sempre fica na mesa, mas ele te olha sempre apaixonado, um olhar de admiração.
—Sério? Sério mesmo que ele me olha assim?
— Como pode nunca ter reparado? — Se questionava Aioros.
Milo sorriu ouvir isso aqueceu seu coração.
— Vocês começaram a namorar logo que voltaram, não foi? — Perguntou Aioros e Milo confirmou com a cabeça e acrescentou.
— Acho que sempre nos amamos, eu pelo menos o amo desde sempre, consegui roubar alguns beijos dele na época de cavaleiros, mas ele sempre me afastava e brigava comigo. — Lembrou-se Milo sorrindo e foi acompanhado pelo amigo.
— Milo, como você é tonto, está dizendo que conseguia beijar um cavaleiro de ouro e não sabe se era correspondido? Só o fato de estar aqui vivo me contando isso já é uma resposta, claro que era correspondido. — Explicou Aioros.
— Eu e o Shura não, nós tínhamos sentimentos um pelo outro, mas quando tudo aconteceu... Isso ficou parado em nossos corações, quando voltamos, pra mim era tudo muito confuso, nós começamos a namorar, mas não estávamos prontos para isso, ele sentia culpa em relação a mim, e eu queria alguém que me amasse, não que se sentisse na obrigação de estar comigo, — lembrou Aioros do início de seu relacionamento com o capricorniano, — nós estávamos estremecidos quando Dite e Matteu começaram a assediar o Shura e ele se deixou levar por aqueles dois malucos.
— Eu não consigo entender a relação deles, nunca aceitaria algo assim. — Comentou Milo.
— Quando o Shura se envolveu com eles, nós não tínhamos mais nada, havíamos terminado, — começou a contar Aioros sua história, — mas uma relação a três não é fácil, Afrodite e Matteu se amam e se entendem no relacionamento aberto deles, sabe, eles são cúmplices e acho que apesar deles estarem abertos para o sexo com outros homens, amor mesmo acho que sentem somente um pelo outro.
Comentava sua impressão o sagitariano, — acho que o Shura sentiu isso, sentiu a falta de um amor, de alguém que o amasse, bom ele já estava sozinho quando reatamos no ano passado. Eu já estava preparado pra ele, para um relacionamento e nós tentamos, deu certo e agora vamos nos casar.
— Fico feliz por vocês Aioros, de verdade, mas no meu caso... acho que estraguei tudo, eu não tinha visto o Camus desde o dia na boate, sabe quando eu beijei o Kanon foi uma armação eu queria que ele viesse falar comigo, — falou Milo voltando a ficar emocionado, — quando brigávamos sempre era eu quem tomava a iniciativa de o procurar, de falar com ele, o Camus nunca fez isso! Mas dessa vez eu não tive coragem de procurá-lo, não depois do que eu fiz, não depois de agredi-lo.
Milo voltou a chorar.
— Mas Milo... quando o Camus foi lá na boate, tenho certeza que ele queria conversar com você. Por que você não tentou dar uma chance a ele, por que não tentou conversar com ele? Por que ficou com o Kanon? Por que aquela cena? — Perguntava Aioros tentando entender as razões do escorpiano.
Com a voz característica de quem estava chorando Milo respondeu, — queira que ele sentisse o que eu sinto, queria ver o Camus com ciúmes de mim, na minha cabeça ele iria levantar nervoso, me puxar pelo braço, dizer que eu era dele, dar uns tapas no Kanon, me levar embora, e fazer amor de reconciliação até o dia amanhecer, mas ele fez algo pior que me dar um soco no meio da cara, ele me olhou triste... nunca vou esquecer o olhar magoado com que ele me olhou antes de sair da boate naquela noite.
— Já tentou procurar o Camus? Já tentou falar com ele? — Perguntou o novo de Shura.
— Eu vi naquela noite o quanto eu faço o Camus sofrer, aquele olhar magoado estava lá... ele sempre foi prudente e saiu, depois de ter bebido duas ou três doses de vodka. Se tivesse acontecido algo a ele seria culpa minha, então decidi me afastar dele, o Camus merece ser feliz e eu só o faço sofrer, — sentenciava Milo arrasado, — ontem foi a primeira vez que o vi desde aquela noite na boate.
Milo soluçou em seu pranto.
— Ontem foi a primeira vez que o vi desde a boate, e percebi que eu o amo ainda mais, se isso é possível, mas fui até a casa dele e ele não estava, e tinha um copo de whisky em cima da estante, um copo pela metade, ele tá com alguém Aioros. — Afirmou Milo enxugando as lágrimas.
— Milo, você define as coisas pela sua cabeça, então não o viu com ninguém? Apenas está deduzindo isso com sua mente louca? — Tentou argumentar Aioros.
— Não, não foi só por isso. Ontem eu fiquei lá, no apartamento dele até alta madrugada e nenhum sinal dele, eu decidi ir embora com medo da minha reação se o visse chegar com outro homem, eu ia fazer uma besteira, Oros. Eu o amo, mas faço mal a ele, não posso me aproximar dele, queria poder deixá-lo livre, mas não quero! Não sei o que fazer. — Falava um confuso Milo se levantando e andando de um lado para o outro.
— Milo... não vai poder fugir dele pra sempre, não vai poder deixar esta história de vocês assim, um amor mal resolvido, vocês tem que conversar como adultos que se amam. — Aconselhou Aioros sabiamente.
— Eu não sei Oros, acho melhor eu me manter longe dele, pelo menos até onde eu consegui evitar. — decidiu Milo.
— E se ele arrumar outro? Vai deixar ele sozinho por aí? — Aioros insistia.
— Eu não quero mais fazer mal a ele. Não quero. — manteve-se firme o escorpiano.
Mas Aioros estava decidido a juntá-los nem que fosse para ter uma conversa definitiva.
Assim que Milo foi embora, o sagitariano ligou para seu noivo. — Shura! Sou eu, amor, o Milo esteve aqui, ele está arrasado com o fim do namoro com o Camus, temos que fazer alguma coisa por eles, nem que seja apenas juntá-los para que possam conversar.
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*
Na manhã do seguinte Camus levantou cedo, não podia perder mais um dia. Seu corpo doía, sentia-se fraco, contudo, ele tinha que ser forte, mesmo com Shaka tentando fazer com que descansasse mais aquele dia.
Foi para a escola e falou para a diretora que teve um mal-estar, apenas uma queda de pressão e assim seguiu para suas aulas sem aborrecimentos.
Na hora do almoço, Camus foi até o centro da cidade, precisava comprar uns materiais para o laboratório da escola.
Após comprar algumas coisas e encomendar outras, Camus foi almoçar num restaurante simples, mas bem aconchegante e que tinha uma comida saborosa, apesar de não sentir fome Camus sabia que precisava se alimentar. Havia acabado de fazer seu pedido quando ouviu uma voz feminina o cumprimentando virou-se para a fonte da tal voz e viu Hilda de Polares parada a sua frente de braços dados com Siegfried.
— Olá, Camus! Quanto tempo!
— Oh! Senhorita Hilda, que surpresa. — O ruivo cumprimentou a mulher estendendo a mão e com um aceno de cabeça o seu acompanhante.
— Senhora! — Hilda o corrigiu mostrando sua aliança. — Me casei com Siegfried há alguns anos.
Hilda, como reencarnação do Deus Odin, conseguiu com a união das safiras trazer todos seus guerreiros deuses de volta à vida.
— Parabéns! Eu realmente não sabia, — comentou Camus surpreso, — fico realmente feliz por vocês.
— Não fizemos festa nem nada por isso o chamei, mas me conte como está você? E os meninos? E o Milo, vocês já se casaram? — Perguntou com naturalidade a moradora de Asgard, Siegfried, no entanto ficou desconfortável com tal situação, eles conviveram com Camus, Issak e Hyoga quando estes moravam na Sibéria, Camus sempre ajudava Hilda quando podia, na época de cavaleiro, sua homossexualidade não era conhecida.
Camus sempre muito reservado nunca escondeu, porém nunca falou a respeito e como cavaleiro de ouro ele havia abdicado do amor, como seus companheiros. Só quando teve a chance de ter uma vida normal foi que assumiu seu amor por Milo, e nunca teve vergonha de sua condição sexual.
Ao ouvir a pergunta de Hilda, Camus se mexeu desconfortável na cadeira, não queria expor sua vida e não queria ser rude.
Decidiu omitir alguns fatos. — O Hyoga entra na universidade este ano, e o Issak decidiu que vai pensar um pouco antes de se precipitar com algum curso que não goste. — Camus decidiu não falar sobre Milo.
— Como estão os rapazes? — Perguntou Camus, sim ele conhecia a grande maioria dos ex-guerreiros deuses pois, sempre trabalhavam em equipe quando os vilarejos próximos a eles sofriam com o duro inverno.
— Estão bem, eles namoram mulheres. — Nem mesmo Siegfried saberia dizer o por que deste seu último comentário, ele ficou sem graça e Hilda deu uma cotovelada em suas costelas, Camus por sua vez não compreendeu o comentário pois seu celular tocou neste instante.
— Só um instante que eu vou atender o celular. — Avisou Camus se levantando.
— Siegfried o que deu em você? Que observação mais sem pé nem cabeça. — Ralhou a mulher.
— Não sei, sei lá é estranho saber que o Camus é gay, sabe... ele gosta de homens. — Falou sem graça o marido.
— E o que tem isso?
— Não sei Hilda, só não esperava... digo ele nunca... Olha o Mime e o Alberich sempre foram diferentes, um delicado demais e o outro "moderno" então saber que eles são gays pra mim foi normal, mas o Camus sempre foi tão sério, tão firme eu achei que ele era normal. — comentou Siegfried fazendo Hilda o olhar zangada.
— E agora ele está verde com bolinhas roxas por um acaso? Siegfried, não importa com quem ele durma, ele é o Camus, aquele que sempre nos ajudou que sempre foi nosso amigo. A única coisa que mudou nele foi o fato dele não ser mais cavaleiro de Athena, assim como você não é mais um guerreiro deus de Asgard.
Todos os guerreiros que lutam por seus deuses ganham direito a uma vida normal, se assim o merecerem, contudo nesta nova vida eles levam as memórias, mas não os poderes. Nesta nova vida são homens comuns. Este acordo foi assinado por Hades com todos os deuses, para que os guerreiros que lhes foram fiéis não tivessem o triste destino de ser castigado no mundo dos mortos quando acontecesse seu desencarne. Os guerreiros só tinham essa chance quando o mundo estava em paz.
— Não... Mas... — tentou falar o marido de Hilda, e foi cortado pela esposa.
— Se eu fosse homem me amaria menos? Acha que o amor é somente algo carnal? — Questionava a mulher fazendo Siegfried ficar pensativo — Eu o amo, Siegfried, independente desta capa terrena, talvez o Camus ame o Milo da mesma forma, não os julguemos com preconceitos tolos.
No lado de fora do restaurante Camus atendia sua ligação.
— Alô, Aioros que surpresa! — E na verdade foi mesmo, pois somente Mu e Shaka tinham este número. — Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu sim! Como muda de celular e não avisa ninguém? — Questionou o sagitariano do outro lado da linha.
Camus não sabia o que responder, não imaginou que alguém poderia sentir sua falta, — Er... Desculpe eu perdi meu telefone e não tive tempo de resgatar o número. — Desculpou se.
— Hunf! Estou ligando porque vou me casar semana que vem e quero o senhor aqui. — Intimou Aioros.
— Casar? Mas o Saga falou em noivado. — Comentou Camus lembrando da conversa com o amigo no café.
— Sim, você esteve lá e não ficou, por isso não consegui te avisar antes, não te chamei pessoalmente porque não tinha seu número. — Falou o amigo sentido.
Camus sabia o porquê de não ter ficado, viu Milo e quis sair de lá o quanto antes.
— Eu tinha que dar aula, não pude ficar. Mas o Saga falou noivado. — Mudou de assunto o ruivo.
—Sim, era noivado, mas viajaremos para a Califórnia onde tudo já está certo, então vamos "nos casar" aqui, lá acontecerá uma festa antes do oficial, uma festa de casamento antes do casamento, mas não abro mão da sua presença! — Intimou novamente o sagitariano.
Camus sorriu e pensou antes de responder, seria uma semana antes de acabar o prazo dado por Radamanthys, seria uma boa idéia ver Milo com seu novo namorado mostrando sua felicidade tão próximo ao fim do seu prazo? O sorriso de Camus morreu em seus lábios.
— Não vou prometer nada farei o possível para estar lá, ok?
— Venha! Quero meus amigos todos próximos a mim, vai ser importante, Camus! — Insistiu Aioros.
Camus suspirou e concordou — Ok, estarei lá. — Não tinha certeza se iria, mas não ia ficar debatendo sobre isso.
Aiorios sorriu antes de dizer. — Vou te esperar.
Assim que desligou o celular Camus voltou à mesa onde estavam Hilda e Siegfried, o rapaz parecia constrangido com algo, pois evitou olhar para Camus, "seria vergonha por estarem casados?"— Pensou especulando Camus ao se sentar.
— Perdão eu tive que atender. — Desculpou-se o ruivo.
— Tudo bem, espero que não tenha sido nenhum problema, você ficou um tanto pálido depois da ligação. — Falou a mulher que tinha uma sensibilidade muito acima do normal, por ser a representante do Deus Odin na terra.
Camus a olhou sem ação, muitas vezes sentia-se sem graça com a perspicácia de Hilda.
— Impressão sua, está tudo bem. Apenas um amigo que vai se casar e ligou me convidando, ele e o namorado tiveram algumas idas e voltas e por fim se acertaram. — explicou Camus, e Siegfried se levantou dizendo que precisava ir ao banheiro.
— O que ele tem? Me parece um tanto estranho hoje. — Perguntou o ruivo.
— Deixe-o, ele está se acostumando com as coisas novas. — Simplificou a mulher. — Mas me fala de você, como está? — Perguntou Hilda com um olhar que penetrava fundo na alma de Camus.
— Estou tentando, estou lutando. — Respondeu Camus imediatamente sem saber ao certo o porquê fizera aquilo.
— Longe de todos que o amam?
Era como se ela soubesse, como se soubesse de tudo, não de sua doença apenas, mas do jogo imposto por Radamanthys.
— Não me afastei por vontade minha, eu... Eu sinto a falta deles, mas...
— Mas se isolou. Tem amigos, não tem? Não se isole, não dê tanta importância ao orgulho, ele não leva à nada, vá em busca da sua felicidade.
Havia um clima de paz, uma paz que há muito Camus não sentia, enquanto Hilda falava, era como se eles não estivessem mais num restaurante. Camus queria perguntar mais, queria saber como? Como poderia ele ir em busca da felicidade? O que era a felicidade?
Havia muito a perguntar, mas o clima foi quebrado com a volta de Siegfried.
— Vamos pedir? — Perguntou o marido de Hilda fazendo Camus despertar dos devaneios.
— Claro meu amor, dizem que aqui servem um ótimo assado de carneiro, o que acha Camus? — Perguntou a mulher como se nada tivesse acontecido.
O aquariano demorou a responder, ele estava tentando assimilar o que foi dito.
— Camus, está tudo bem? — Questionou Siegfried.
— Hã...? Sim, digo... pode ser. — Respondeu Camus confuso ainda olhando pra Hilda.
O almoço foi tranquilo conversaram amenidades. Camus notou que Siegfried estava mais relaxado. O ruivo não saberia dizer se Hilda tinha algo a ver com isso, mas as dores haviam dado uma trégua, e ele sentiu-se disposto como há muito não sentia.
*-*-*-*-*-*-*
Após aquele encontro os dias foram passando, Camus não sabia como correr atrás da sua felicidade, continuava a manter sua doença em segredo, não queria a pena de ninguém.
Domingo ele acordou cedo, estava bem disposto, havia combinado que os pedreiros trabalhariam aos domingos para que o seu laboratório ficasse pronto a tempo.
Camus era detalhista e gostava de acompanhar o trabalho de perto.
Foi de coletivo até a escola e lá ficou analisando o trabalho, alertando para alguma imperfeição. Já eram quase doze horas e os homens estavam terminando naquele dia, quando um dos trabalhadores foi falar com Camus.
— Senhor, precisamos conversar.
— Sim, claro! O que houve? — Perguntou o ruivo solícito.
— É sobre a fiação, ela está velha e isso além de gastar muita energia também pode dar um curto circuito. — Avisou o homem.
"Mais essa"- pensou o ruivo, toda reforma estava sendo custeada por ele e todas suas economias estavam sendo aplicadas na reforma, e agora mais gastos?
— Certo faça um orçamento pra mim, mas só com o necessário, sim? — Respondeu o ruivo, que pelo jeito ficaria com o caixa zerado, ainda tinha seu apartamento, talvez vendesse e comprasse um menor, quem sabe no bairro próximo à escola? Não via problemas em morar na periferia.
Pouco antes do horário do almoço os trabalhadores encerraram as atividades, era domingo não trabalhariam o dia todo. Camus havia entrado no seu laboratório a fim de verificar se estava tudo em ordem ali, os equipamentos tinham chegado e segunda pela manhã ele instalaria tudo.
Saiu, trancou tudo e foi para o pátio sempre verificando se estava tudo certo quando um homem desconhecido chegou.
— Meu filho precisa de comida na mesa, tem empresas querendo vir se instalar aqui e só temos este espaço, é você quem é essa reformando a escola? Ela já estava pra fechar. — O homem falava com raiva olhando para Camus. — Eu vou fazer com que mude de ideia, que saia daqui. — Ameaçou o homem, pegando um pedaço de madeira e indo em direção a Camus.
"Agora acabou!"— pensou o professor, dando alguns passos pra trás, não tinha condições físicas de entrar numa luta, quando esbarrou em outra pessoa que mais parecia uma parede, "por Athena que não sejam companheiros desse homem" — pensou Camus antes de virar.
Nunca sentiu tanta felicidade em ver seu amigo Aldebaran.
Aldebaran sempre teve porte para assustar qualquer um que fosse, mesmo sem ser mais um guerreiro de Athena, o porte físico do ex-cavaleiro de touro ainda impunha respeito, e combinando isso com a cara de poucos amigos que ele fazia ao olhar para o tal homem desconhecido o deixava ainda mais intimidador.
— Algum problema, Camus? -Perguntou sem tirar os olhos do estranho.
Camus que se encontrava agora ao lado do amigo respondeu: — Não, creio que este senhor já está de saída.
O homem estava furioso, mas não seria sábio partir para cima do grandalhão ao lado do professor frágil, olhou os dois e proferiu: — Essa escola vai fechar, vai acabar! Se prepare você não vai ser segurança o tempo todo! — Ameaçou e saiu correndo quando Aldebaran fez menção de ir pra cima dele.
— Babaca! — Rosnou o taurino antes de se virar para Camus — você está bem?
— Sim, ele não chegou a fazer nada comigo, você chegou bem a tempo. Obrigado! — Agradeceu o ruivo.
Camus olhou o amigo e franziu a testa. — Mas o que faz aqui?
— Vim buscá-lo para almoçar, hoje é domingo e o Mu não quer que fique só... e nem adianta me olhar assim, fui avisado que se eu não o levar comigo, não entro em casa. — Respondeu o amigo.
Camus sorriu, talvez Hilda tivesse razão, talvez não devesse esconder seu estado dos outros, mas pensou em Milo, não queria a pena do ex-namorado, não isso seria demais pra ele já era ruim demais saber que Milo já o tinha esquecido.
Camus se apoiou em Aldebaran, sabia que precisava controlar os pensamentos caso contrário as dores aumentariam, fechou os olhos e respirou fundo.
— Camus você está bem? — Perguntou o taurino vendo o amigo empalidecer.
— Sim, — concordou com a cabeça, — foi só um... Não foi nada, vamos... antes que Mu comece a arrumar suas malas. — Brincou o ruivo saindo da escola e tomando o cuidado de trancar tudo.
*_*_*_*_*_*_*_*
O almoço foi tranquilo, um almoço em família. Aldebaran, Mu e Kiki formavam uma família feliz, Camus sentiu uma pontada de inveja dos amigos, "talvez se os rapazes fossem novos como o Kiki quando tivemos a chance de voltar, tudo fosse diferente"— pensava.
— Aldebaran, vamos ao jogo, não vamos? Você prometeu. — Pedia entusiasmado o menino no alto dos seus doze anos.
— Kiki, deixe o Aldebaran em paz. — Ralhou Mu não muito sério e se virou para Camus para explicar a confusão. — Hoje é dia do jogo das estrelas das seleções de futebol do mundo e Aldebaran prometeu que o levaria.
— Bom, se há uma promessa, então ela deve ser cumprida. — Falou Camus divertido para a alegria do garoto.
— Ok! Ok! — Falou Aldebaran se levantando e indo se arrumar com um delirante Kiki ao seu lado.
Mu e Camus estavam sentados na varanda da bela casa rústica do casal de ex-cavaleiros de ouro, era uma casa térrea com a decoração rústica e aconchegante, contemplavam o belo jardim do ariano.
Camus se sentia, as dores do seu corpo haviam dado uma trégua seu corpo estava relaxado e adormeceu deixando Mu falando sozinho.
— ... então o Kiki insistiu para entrar na escola de futebol e ele é fã de alguns jogadores que... Camus? — Percebeu o amigo dormindo, sorriu por ver o amigo relaxado, mas não pôde conter a preocupação de ver o quão frágil seu amigo estava. Olhou seus cabelos curtos, não escondeu o choque quando o viu assim, por sorte Kiki na inocência dos seus doze anos falou com simplicidade, “Sr. Camus está diferente com os cabelos curtos, mas está bonito gostei”.
Assim, o clima que estava tenso se acalmou e Mu concordou, “Sim ficou muito bem”.
Mu foi até seu quarto pegar uma leve manta para cobrir o amigo, o tempo estava frio e Camus apesar de gostar do frio não era mais um cavaleiro de gelo.
Não tardou muito Shaka chegou à casa de Mu, avisou que não vinha para o almoço, mas que passaria lá à tarde.
— Oi Mu, que silêncio! Onde estão todos? — Na realidade estava perguntando do barulhento Kiki.
— Aldebaran e Kiki foram ao jogo e Camus adormeceu na varanda. — Respondeu um num tom baixo.
Shaka olhou o amigo dormindo e se voltou para Mu.
— Estou preocupado com ele, um. Está se isolando do mundo, não podemos deixar.
— Eu sei, também acho que precisamos fazer algo. — Respondeu o amigo.
*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*
Milo e Aioros chegaram ao endereço que tinham anotado, Aioros o convenceu Milo a ir.
Viram o nome na porta “Pessoas que Amam Demais”, pensou e dar meia volta, mas respirou fundo e pensou em Camus, se quisesse seu amor de volta teria que se tratar.
Chegaram ao local e viram algumas pessoas sentadas, Milo observou que alguns ali tinham o olhar sofrido e carregado, ele conhecia aquele olhar, pois era o mesmo que via sempre que se olhava no espelho.
A sessão começou.
Milo estava sentando desconfortável, ouviu alguns relatos, uma garota que, em prantos, revelou que tentou matar a companheira jogando o carro em cima dela ao vê-la conversando com outra garota na saída do seu trabalho, e depois descobriu que a outra garota era apenas uma amiga, estava apenas esperando o marido.
Ouviu o caso do marido que confessou seguir a esposa a ponto de perder o emprego com essa obsessão. Teve o caso da mãe que não deixava o filho fazer amizades por achar que ninguém era bom o suficiente pra ele.
— Alguém mais deseja falar? — Perguntou a mulher que intermediava a reunião.
Milo emocionado se levantou e foi para a frente pedindo a palavra.
Aioros olhou pra ele o incentivando a falar.
— Eu me chamo Milo.
— Olá Milo — cumprimentaram os colegas de mazelas.
— Eu... Eu tenho, — Milo soltou o ar dos pulmões e se corrigiu — eu tinha um namorado, nós nos conhecemos desde a infância e acho que sempre nos amamos, apesar de assumirmos nosso amor apenas há alguns anos.
Todos o olhavam com calma.
— Somos diferentes, eu sempre fui ciumento, mas acho que... Eu comecei a passar de todos os limites da sanidade.
Era estranho estar ali falando para aquelas pessoas estranhas, mas da mesma forma era libertador poder conversar com quem o entenderia com quem não o julgaria como um louco ou insano, então prosseguiu lembrando-se do fato que o fez perceber seu problema.
— Meu namorado, — Milo sentia-se melhor em chama-lo assim, — ele é professor. Professor por talento, por amor e por vocação, ele dá aulas em uma conceituada universidade, mas — Milo fechou os olhos e continuou. — Um dia ele chegou em casa radiante, feliz como eu nunca tinha visto, dizendo que conseguiu a vaga para dar aulas numa escola pública, ele havia se inscrito e enfim a vaga saiu. Ele falava com tanto entusiasmo e paixão por poder trabalhar com crianças carentes... que enfim poderia fazer algo por elas. — Milo olhou para as pessoas a sua frente e emocionado continuou. — Vejam meu namorado estava feliz, fazendo algo digno e eu senti ciúmes, senti ciúmes daquela droga de escola. Eu falava que não daria certo, que a prioridade dele teria que ser a universidade, que ele ia ficar sem tempo para mim, para nós. Eu sempre marcava compromissos para os dias em que ele tinha que dar aulas e quando ele se recusava a faltar era sempre um motivo para brigas, eu o cobrava, dizia que ele não estava dando conta do nosso relacionamento, que ele tinha que largar aquele emprego.
Milo sentiu as lágrimas rolarem em seu rosto.
— Eu... tinha ciúmes da escola, por ter visto a paixão nos olhos dele, paixão que tinha que ser pra mim, não para uma escola. Comecei a exigir demais dele, por várias vezes eu acordava de madrugada e o via preparando aulas que ele não fazia quando estava comigo por saber que eu reclamaria.
Milo suspirou mais uma vez e concluiu, — enfim fiz da vida do meu namorado um inferno com meu ciúme, o sobrecarregava o fazendo preparar suas aulas escondido de mim, nunca o apoiei na única coisa que o fazia, de fato, feliz na vida.
E Milo concluiu, — este é o tipo de pessoa que eu sou: Capaz de sentir ciúmes de uma escola, ciúmes de ter a pessoa que amo dando sua atenção às crianças carentes.
Milo foi sentar-se aliviado por ter falando e conseguido enxergar seu problema, sim foi mais fácil daquela forma... contando, se expondo aos outros.
— Obrigado Milo, que bom que percebeu seu problema e veio atrás de ajuda.
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Camus acordou um pouco atordoado sem saber ao certo onde estava, aos poucos foi reconhecendo o lugar e se recostou na confortável cadeira de balanço, uma música instrumental tocava ao fundo, era tudo bem relaxante.
Fechou os olhos novamente sentindo a calma da música, algum tempo depois viu Mu se aproximando.
— Ah! Vejo que acordou! Venha, vou preparar um chá. — Chamou o amigo gentil.
Camus o seguiu.
— Mu eu tenho que ir, já abusei demais da sua hospitalidade.
Quando chegou à mesa viu Shaka sentado.
— Boa tarde, Camus! — Cumprimentou o loiro indiano.
— Boa tarde! — Respondeu Camus sentando à mesa.
— Estávamos fazendo uma sessão de yoga, é ótimo para alongar e relaxar, devia se juntar a nós qualquer dia. — Convidou Mu colocando algumas guloseimas na mesa.
"Com as dores que sinto pelo corpo? Impossível" — Pensou o ruivo, mas nada respondeu.
Logo Aldebaran chegou cumprimentando o marido com um selinho.
— Onde está o Kiki? — Perguntou o tibetano sentindo falta do garoto.
— Com Genbu, foram jogar vídeo game, ou que nome tenha aquilo, estão bem animados por causa do jogo. — Respondeu o taurino.*
— Aldebaran eu sou o tipo de visita que vem para o almoço e fica até o jantar, — falou Camus sorrindo.
Conversavam animadamente quando o celular de Camus tocou.
O ruivo estranhou quando pegou o aparelho viu o número de Zima.
— Alô.
— CAMUS! NOSSA ESCOLA... O FOGO... ELA ACABOU, CAMUS! — A mulher falava desconexa e gritando.
— Zima, acalme-se, o que houve? — Camus falou tenso chamando a atenção dos outros.
— ACABOU TUDO, A ESCOLA ACABOU!! ELA ESTÁ QUEIMANDO! – Berrava a mulher do outro lado da linha.
— O QUÊ? Calma eu estou indo!
Desligou o telefone e olhou para os amigos.
— A escola, eu preciso ir pra lá.
Os amigos seguiram para a escola no carro de Aldebaran.
Quando chegaram viram a escola em chamas, Camus saiu do carro correndo e foi segurado por Aldebaran que rapidamente abraçou o amigo pelo peito.
— NÃO!!! NÃO!!! — Camus se debatia nos braços do amigo.
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