A Torre Esquecida
2 Trem Maldito
Notas iniciais
Eu não conseguia me mexer.
Eu não queria me mexer.
O vento soprava sobre o meu cabelo, todas as ruas da cidade vistas de cima pareciam tão insignificantes. Estava presa naquele momento de "aceitação" quando alguma coisa acontece e demora algum tempo para você digerir o que você viu. Eu salvei um.. " Trapinch"? Minha casa foi invadida, levara minha mãe e eu fui salva por um "Lucario"? Que era aparentemente alguma coisa da minha mãe.
Ele era sério, me carregava enquanto pulava entre os prédios sem reclamar, choramingar. Ele tinha pernas fortes, elas não cediam nunca, acho que se assemelhavam a de um lobo ou coisa do tipo Uma coisa que chamou minha atenção é que vi uma lágrima correr pelo seu pelo, eu tenho certeza disso. Era difícil saber o que passava por sua cabeça, já que ele e eu parecíamos não falar a mesma língua, mas essa era uma expressão universal: ele estava triste.
O engraçado é que eu me sentia salva perto dele, era um sentimento muito estranho para mim, levando em consideração que eu nunca tinha o visto e nem conhecia nada sobre sua suposta espécie. Mas nada faz mais sentido, para que questionar? Suspirei, fazendo um leve carinho no outro que dormia em meus braços.
Fomos até uma estação de trem, o estranho é que eu nunca tinha percebido ela ali. Eu`sei que tinha milhares espalhadas pela cidade, mas nesse bairro, que era um residencial, não tinha nenhuma, pelo menos que eu me lembre. Parecia ser algo comum, tinha algumas maquinas que vendiam bilhetes, uma maquina de refrigerantes, e um banco onde podia-se esperar o próximo trem. Lucario aterrissou no meio da estação, como se fosse algo normal, o que me fez estremecer um pouco, o que as pessoas achariam se visse um lobo com 1.50 de altura, carregando uma menina e uma planta carnívora com patas?
Para minha surpresa ninguém fez nada, e para piorar, era como se as pessoas não nos percebessem. Ele me pôs no chão mas não soltou minha mão, como se ele realmente levasse as palavras da minha mãe muito a sério. Fomos até uma das maquinas. Elas tinham alguns possíveis destino, mas não parecia ser para nenhum deles que nós iriamos. Lucario segurou sua pata no visor por alguns segundos e uma tela especial apareceu, ela mostrou a palavra "Johto" e quase instantaneamente um ticket saiu. Ainda segurando minha mão, ele me levou até perto da linha de espera, sem falar uma palavra ( Não sei o que ele estava esperando, afinal, ele não aparentava falar nada). A música ambiente deixava isso tudo mais estranho, eu balançava lentamente meu corpo, tentando afastar os pensamentos, eu estava concentrada no chão, torcendo que alguma formiga pudesse passar por ali e eu poder observar ela caminhando.,
Um sopro passou na minha frente e um vagão parou. Ninguém da estação se mexeu, como se o trem não estivesse ali. As pessoas continuavam a reclamar da demora, do clima, mas ninguém comentava nada do trem que tinha acabado de parar. Lucario me puxou para dentro, e mesmo confusa eu só o segui. A atendente era ..uma bola de algodão rosa. Tinha uma espécie de ovo na barriga e tinha um ar bastante amigável. Ela fazia uma dancinha ritmada com seus braços, eu achei uma fofura, não aguentei em deixar um riso escapar. Por fim, nós guiou até uma espécie de cabine, voltando logo para o seu posto.
Não era nada demais. Tinha dois extensos sofás e uma enorme janela, típico de um trem de viagens longas. Sentei-me e fiquei de frente para o "Lobo" ( que é tudo menos isso, para ser honesta) nós nos encaramos, e uma tensão engraçada ficou no ar, não aguentei e dei uma risada. Isso pareceu anima-lo, que sorriu de um modo tímido para mim. Eu não conseguia ter medo dele, era como um amigo, peludo, e com cara canina. "Trapinch" desceu do meu colo e sentou do outro lado, ele e o Lucario pareciam se entender, eu somente fiquei observando os dois conversarem.
O trem deu partida, eu observei enquanto a estação se distanciava. Um aperto subiu no meu peito, será que minha mãe está bem? Eu não conseguia fingir, eu realmente estava me moendo dentro por causa dela, por causa de tudo isso. Até agora todas as minhas viagens tinham sido feitas com ela, era estranho não tê-la por perto
Minha pálpebras pesaram, e encostada na janela eu acabei pegando no sono.
(..)
Eu dei um solavanco forte no sofá e acordei alarmada. Teríamos chegado?
Observei os outros dois no banco e eles pareciam confusos, Lucario logo se ergueu e começou a farejar o ar. Como não possuo nenhum dom especial, dei uma espionada pela janela: O trem tinha parado, e alguém estava retirando todos os passageiros. Bom, eu pensei, deve ter quebrado e estão recolocando-os. Alguns minutos a mais da minha atenção mudaram tudo, um dos homens que retirava as criaturas do trem, segurava um ferro flamejante, muito parecido com aqueles que marcam vacas.
Algo estava errado aqui.
Tentei forçar minha visão, vi que a mesma coisa estava acontecendo nos vagões mais na frente, nós não teríamos muito tempo se quiséssemos escapar. Vendo todo aquele desespero, a única coisa que passou pela minha cabeça é que eu estava em perigo, não só eu, mas todos que estavam aqui.
Eu me levantei com pressa, pegando o "Trapinch" nos braços outra vez, eu estava angustiada, precisávamos sair dali. Não demorou muito tempo para os outros passageiros entrarem em pânico também, vários grunhidos, berros, gritos, tomaram conta do local, todo mundo estava agitado. Visivelmente alarmado, Lucario segurou minha mão e me puxou para o corredor. Lá a situação estava ainda pior, vários seres estavam inquietos pelos corredores, como se tentassem escapar: Alguns batiam nas janelas, outros apenas corriam de um lado para o outro. Era desesperador, eu estava com medo, a única coisa que eu queria fazer nesse momento era chorar.
Me desviava como podia de alguns pequenos que corriam de um lado para o outro, uma espécie de pássaro marrom com duas cabeças tropeçou e ficou grunhindo, o rosinha tentava acalmar todos. Minha cabeça girava, era muita informação, muitas criaturas que eu nunca tinha visto antes.
Aquela ali tinha enorme garras de metal
Aquela era rosa das orelhas muito grandes
Um tia um esqueleto na cabeça
Não sei mais para onde olhar
Uma espécie de cobra bateu sua cauda em mim no desespero.
Dois grandões começaram a brigar no fundo.
Eu dei um soluço de desespero, os grunhidos se intensificavam, as batidas eram mais forte. Se isso não é o inferno, não sei o que pode ser. Eu senti um peso no meu ombro, duas criaturas pularam nele, e começaram a apertar minhas bochechas. Provavelmente meu estado não deixou estranha-las. Eram amarelas, uma tinha detalhes vermelhos, a outra azuis, e estavam tentando me consolar. Eu não entendia o que seus miados significavam, mas elas afagavam meu rosto e tentavam forçar um sorriso em mim. O que me deixava ainda pior, parecia que elas tinham aceitado o que estava por vir e simplesmente pararam de se importar.
De repente, Lucario aperta minha mão, apontando para uma saída de emergência no teto. Ele grunhiu algo e algo dentro de mim dizia que ele falava " espere aqui". Foi só um golpe, acertou um chute forte na tampa de metal, que destravou, era uma saída! Ele saiu e estendeu sua mão para me pegar.
—Segurem firme!— eu falei para os dois no meu ombro e para o "Trapinch" que ficou agarrado a um deles enquanto nós subíamos. Eu não sei bem por que eu falei com eles, mas algo dentro de mim dizia que eles eram tão humanos quanto eu. Quando estávamos todos lá em cima, Lucario já queria se apressar para descer, mas eu o censurei, precisávamos ajudar os outros. Eu coloquei minha cabeça para dentro do buraco.
— Ei! Escutem! Vamos todos sair, mantenham a calma e venham com cuidado, ajudem os menores primeiro!— Eu falava, e os dois no meu ombro emitiam ruídos, o que chamava a atenção de todos ali dentro.
Para minha surpresa todos entenderam e concordaram. Eles formaram uma fila e foram ajudando os menores a sair, todos estavam colaborando. Pareci algo com um prédio em chamas, e as pessoas se solidarizando para tentar salvar as crianças, era um ato muito puro. Eu me sentia motivada a ajudar eu pegava os pequenos e os colocava em cima do trem, Lucario descia eles, e depois , livres, corriam para uma floresta , estávamos indo bem, até as criaturas começarem a ficar muito grande para o buraco. Eu não queria desistir.
Três não passavam de jeito nenhum; um era muito musculoso e tinha a tonalidade roxa; o outro parecia um gato com orelhas curtas, sem rabo, e com fogo saindo pelas costas; e o último era a bolinha de algodão que era como uma recepcionista no trem.
Fiz um sinal para o gatão vir mais uma vez, e tentei puxa-lo com a força que pude, mas o buraco não iria ceder, dei uma olhada para os vagões mais na frente e os homens fardados estavam cada vez mais perto, pensei que meu coração fosse pular pela boca, eu não poderia deixar ninguém para trás. De repente, ele se soltou da minha mão e caiu de volta no vagão, eu pude ver seus olhos lacrimejando. Começou então a grunhir algumas coisas, e por último me entregou um ovo, então essa criatura era uma fêmea? Ainda mais uma mamãe?
— Calma! Vocês vão conseguir sair dai! Todo mundo vai se salvar.— Eu falei gaguejando, eu não iria aceitar a derrota.
Os homens estavam muito perto. O musculoso grunhiu, e Lucario me jogou em suas costas e me arrastou para longe do trem. Eu senti meus olhos encherem de lágrimas.
eu não consegui salvar eles.
Ele me soltou á alguns metros do trem, minha visão estava embaçada, minha única reação foi abraçar o ovo e cai de joelhos, não controlando as lágrimas que molhavam a grama.
A pior coisa para mim era me sentir inútil, tentar ajudar alguém e falhar. Era algo que eu não conseguia aguentar. Acho que naquele momento tudo se juntou, eu conseguia sentir meu coração queimando, meu peito apertava muito. Eu estava em um lugar estranho, com criaturas estranhas, e eu era uma inútil. Só o ato de chorar fazia toda a minha face arder, a única coisa que eu queria era gritar.
Os amarelados tentaram me consolar, e eu conseguia sentir Trapinch esfregar sua cabeça contra minha perna, por que parecia que eles eram tão humanos? Eles se solidarizaram um com o outro dentro do trem, entendiam o que eu falava, e uma mãe acabou de se sacrificar pelo bem do filhote.
Que nem a minha fez.
Esse era o pior dia da minha vida. Eu quero minha mãe! Eu quero minha casa! Eu quero ir para o colégio e escutar quão inútil eu sou. Isso deve soar como masoquismo, entretanto, são momentos como esse que nos lembram que nossa vida era um conto de fadas. A única coisa que eu quero é que tudo isso não seja nada mais que um sonho ruim, saber que amanhã eu irei acordar e vai ter panquecas queimadas com suco para o café da manhã, que nós vamos combinar como passar o meu aniversario.
—Você ai! Não se mexa.— Uma voz ecoou pela floresta. Eu senti um vento frio subir a espinha e virei devagar na direção do som.— Se afaste dos Pokémons e não os dê nenhuma ordem
"Pokémons" Essas pessoas só podem estar brincando comigo. Essas criaturas não tem como ser Pokémons! Eles não existem, é burrice pensar nisso.
Meu coração pulsou.
Olhei para os lados. Lucario, Plusle, Minun, Trapinch. Esses são nomes de Pokémons! Isso não pode estar acontecendo, isso não é real.
— Você está surda, garota?! Nos obedeça.— Um outro homem disse, se aproximando do primeiro. Os dois estavam armados com armas muito grandes, elas tinham uma espécie de foguete não ponta, mas tinham portes de armas de fogo normal. Eu me sentia em uma guerra.
Todos olhavam para mim como se esperassem que eu desse uma resposta. As criaturas olhavam para mim como se quisessem alguma ordem, os homens queriam que eu me entregassem, eu só queria correr.
— Weavile, Fury Swipes.
Um brilho atravessou os céus, cortando as armas dos homens em pedaços. Os dois gritaram e caíram para trás. Um deles, teve um reflexo rápido e sacou uma espécie de controle remoto de seu uniforme militar, seus dedos trêmulos pressionaram um botão, esse acionou um alarme muito alto. Uma silhueta saltou de uma das árvores e pousou sobre o homem caído, pisando em seu controle sem dó, depois disso, os barulhos cessaram.
— Quem é você?— eu disse, com a visão turva. Eu não consegui escutar a resposta, cai no chão esgotada.
Ele correu em minha direção e me envolveu com seus braços.
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