A Terapia: Laços De Sangue
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Notas iniciais

— Eu respirei fundo, apertei as mãos, fechei os olhos e me permiti preencher a sala.
— Deu o melhor de si?
— Mais que isso, eu senti fisicamente a superação.
— E então o que deu errado, Alex?
— Minha voz não foi a única coisa que ouvi, doutora. Eu pensei que pudesse deixar para trás, superar o trauma como você disse que eu faria. – Alex franze a testa e olha para a psiquiatra com insolência – Mas não! Estou na quinta sessão em um único mês e eu não sinto diferença alguma.
— Seus amigos pontuaram alguma mudança de comportamento?
— Eu não tenho amigos mais, só suspeitos, lembra?
— Agressividade! – Escreveu em seu bloco de notas – Mais do mesmo. Continue com seus antidepressivos e retorne amanhã, sei que está fora do planejamento, mas não te cobrarei por isso.
— E o que devo fazer até lá? Aquele som não me deixa dormir à noite, só faz piorar.
— Pela primeira vez durante toda a terapia, Alex, você me mostrou positividade. – A doutora sorri – Busque a sensação de se superar novamente, encontre o que ainda te fragmenta e tenha controle sobre isso.
— Eu sei bem o que devo fazer. – Ainda pensativa, Alex afirma confiante.
6 meses atrás
— Rápido, Alex, você vai se atrasar!
— Que escândalo é esse, garota? Que horas são?
Ao ver o relógio às 7h da manhã, Alex pula da cama e corre para escovar os dentes, trocar de roupa e amarrar o cabelo.
— Não vai nem tomar um banho? Seu rosto está péssimo!
— Não enche, Lexa. Eu ainda sou a mais velha. – Zombou enquanto se maquiava.
— O papai não para de ligar, mas não teremos tempo de dar o bom dia de sempre para ele, o trânsito em Nova Iorque é péssimo e se brincar, perderemos essa chance.
— Vai atrás do táxi, eu desço em cinco minutos.
— Pedi ao Richard para nos buscar hoje.
Alex borra o batom de susto, fecha o estojo de maquiagem com raiva e se dirige até a irmã.
— Sério isso? – Pergunta irritada – Ele não é o cara certo para você, pensei que tinham terminado, quer dizer, você me disse que tinham terminado!
— Isso foi antes de sairmos essa noite. – Lexa conta envergonhada – Ele é legal, vai! Você nunca aprovou nenhum namorado meu, é paranoia de irmã três anos mais velha, sempre acha que ou é um assassino em série ou um usuário de drogas.
— Isso não é verdade, eu gostava do Jordan.
— Ele me traiu. E eu só tinha 10 anos.
— Era o único inocente. – As duas riem do sarcasmo – E o Richard é sim um homem perigoso, não confie em ninguém que tenha um passado secreto, principalmente para dividir a cama.
— Assim como o Grant no terceiro ano do colegial? Você me fez passar a maior vergonha quando apareceu no meu baile de formatura e anunciou que ele havia implantado uma bomba em minha coroa de rainha do baile.
— O terrorismo estava em alta. – Justificou sem seriedade.
— Tá bom então, ligarei e irei cancelar a carona. Boa sorte para chegar atrasada. – Lexa ironizou.
— Tudo bem! Você venceu! Mas só dessa vez.
— Eu sabia! – Lexa abraçou a irmã em comemoração – Antes deixa eu ajeitar essa maquiagem aí.
Depois de prontas, ambas seguiram ao carro de Richard e foram em direção à Academia de Artes de Nova Iorque. Após várias alfinetadas entre a irmã e o cunhado durante o percurso, Alex agradece a carona, despede-se da irmã e, na Academia, é chamada para adentrar à sala de audições.
— Bom dia. – Disse, friamente, uma senhora em uma bancada acompanhada de dois técnicos.
— Bom! – Soou nervosa, mas gentil.
— Conte-nos sobre ti e em seguida pode começar.
— Meu nome é Alexandra Devitto, tenho 21 anos e tenho várias nacionalidades como podem ver em meus traços. Vim de Chicago para tentar a vida aqui na cidade de Nova Iorque junto com minha irmã caçula. Nas artes, sou uma atriz, cantora, dançarina e toco piano, violino e violão. Curto música de origem brasileira, inglesa, estadunidense e africana, mas principalmente folk, baladas, soul, pop e Broadway.
— Conte-nos menos sobre ti e em seguida pode começar. – Retificou um dos técnicos já impaciente.
— Ok.... Cantarei “Hello” do Lionel Richie para vocês.
Enquanto isso, Lexa estava aos beijos com Richard dentro do carro num estacionamento.
— Cuidado para não perder a hora. – Ele falou rapidamente antes de roubar outro beijo.
— Ainda temos tempo.
— São 8:30.
Eles pararam de se beijar, ela olhou para ele fixamente e saiu do carro.
— O que foi agora, amor? – Perguntou com exaustão.
— Amor? Desde quando você me chama de amor, Richard? Tenho que entrar na agência agora, te encontro depois.
— Tá agindo daquele jeito quando não gosta de algo que fiz, né? Tudo bem, vou trabalhar, boa sorte com o seu sonho ou sei lá o que.
Lexa despediu-se, entrou no prédio e pegou o elevador.
— Está buscando um emprego? – Puxou assunto com um jovem de cabelos ruivos, olhos claros e postura despojada.
— Estou sendo interrogado pela minha concorrente? – Brinca.
— Ah, não mesmo, quer dizer, depende.
— A julgar pelo material em suas mãos, você é uma jornalista, certo?
— Eu devia ser mais discreta. – Sorriu – Sou sim, quero um estágio, entrei na universidade recentemente.
— Eles vão gostar da tua postura, posso ler a sua matéria?
Ela o encarou com relutância.
— Estou tentando a vaga para publicitário.
— Assim sim! Claro que pode! Julga para mim.
O elevador chega ao último andar, abre e ambos prosseguem.
— Espetacular! Eu não teria chances contra você, abordar tabus de forma tão experiente surpreende qualquer agência. Boa sorte, sua sala é a da esquerda.
Ela agradece, eles se cumprimentam e Lexa recolhe a pasta farta de matérias impressas. Chegando à ala, é sugerido na entrevista que ela se apresente.
— Bom dia, meu nome é Leah Xavier Devitto, sou de uma família bem miscigenada como pode notar pelo nome, e por isso usei a cultura oriental contra a ocidental como tema-base. Entrei aos 17 na Universidade de Chicago, de onde vim, hoje tenho 19, curso Jornalismo e busco estagiar para concluir hora extra em meu curso e facilitar meu caminho para a New York Times, o auge da minha carreira.
— Deixe o material na mesa e pode ir para casa, ligaremos até amanhã qualquer coisa.
Leah recebe uma mensagem de Richard dizendo que a buscaria para almoçar e avisa a Alex que não irá voltar com ela. Por essa razão, a cantora decide visitar o Central Park antes de ir para casa. Para ela, a paisagem natural e as pinturas bucólicas são como fontes de inspiração.
— Cabelos longos, lisos e claros, pele morena, olhos verdes e corpo cheio de curvas. Qual parte de ti não grita miscigenação? – Questiona sorridente um rapaz em meio ao Central Park.
— Sempre descreve as garotas que tem interesse assim?
— Agressividade.... Isso é bem pessoal. – Ele ri.
— Cabelos morenos, pele branca, olhos castanhos e dentição perfeita. Tudo bem cuidado. Você é gay? – Eles riem.
— Minha namorada discordaria.
— Namorada?! – Ela se assusta – Já pensou o que ela acharia de mim se te ouvisse? Não sou dessas.
— Pega leve.... Somos confiantes. Prazer, sou o John.
— Prazer, Alexandra.
— Quer sair para almoçar? Aposto que ainda não se alimentou.
— Você é muito corajoso mesmo, né?! – Pergunta ainda inconformada – Tenho que ir agora, até breve.
Alex, nesse mesmo dia, acordou atrasada para a audição e por essa razão não tomou café da manhã, ela estava faminta, mas sempre foi uma mulher respeitosa e confiável, jamais ousaria aceitar um convite desse cunho, por mais inocente que pudesse ser. À noite, já em casa, enquanto faziam maratona de Grey’s Anatomy, Alex e Lexa conversavam sobre o dia que tiveram.
— Eu discuti com o Richard, conheci uma versão fofa do Ed Sheeran musculoso e espero conseguir o meu estágio.
— E depois reatou com o Richard, esqueceu?
— Nem começa.... Como foi o teu dia?
— Fiz a audição do jeitinho que ensaiei e conheci um homem maravilhoso no Central Park, ele é intrigante, galanteador e gentil, mas comprometido, não sei o que sentir sobre.
— Incorpora tua irmã! Acaba com a garota e conquista ele.
— Eu sou a irmã boa, esqueceu, biscate? Além do mais, nem devo encontra-lo novamente.
— Verdade.... Você nunca pensa rápido. O papai não parou de ligar hoje, mas estive muito ocupada, você falou com ele?
— Ah! Eu fiquei de te falar sobre isso, tive que desligar o meu celular por causa da audição e quando liguei tinha várias mensagens dele, ainda nem li. Você acha que foi uma boa escolha?
— O quê?
— Tudo isso. Depois da morte da mamãe não sei se devíamos ter largado ele assim.
— Alex, já faz um ano. Ela não foi morta, ela foi assassinada! O Richard acha que precisamos parar de usar as palavras leves para a situação, temos que encarar isso do jeito que foi. E o papai não veio porque não quis, nós insistimos bastante! Lá ele tem comodidade, está bem casado com a madrasta, está com nosso irmão, e tá mais seguro em casa que aqui. Aceita essa por ele, irmã.
— Você tem razão, apesar de ser pirralha. E desde quando o Richard se mete em sua vida familiar? Eu não quero isso! Não me obrigue a mandar ele se pôr no lugar dele. – Disse furiosa.
Lexa pretendia responder à altura em defesa do namorado, porém, o celular de Alex tocou e a interrompeu. Era a Academia de Artes informando que ela estava aprovada e começaria imediatamente no dia seguinte. A caçula foi até a cozinha, pegou um champanhe e abriu em comemoração.
— Vê, irmã? O início de nossos sonhos já começou nessa cidade iluminada, é por essa razão que o papai ficará contente. Esqueça o garoto do Central Park e aproveite os da Academia! Corre, liga para o papai, ele precisa saber.
O celular de Lexa tocou e, simultaneamente, Alex ligou para o pai. De alguma forma, frente a frente, ambas em choque esboçavam reações de surpresa e ansiedade exagerada. Passaram-se alguns minutos até que desligassem.
— Inacreditável! – A caçula gritava aos prantos – A agência me ligou para dizer que meu material está incompleto e contrataram no meu lugar um rapaz com o mesmo tema-base abordado de uma forma melhor. O Ed Sheeran do elevador armou para mim!
— Lexa... – soou calmamente – O que vamos fazer?
— O que vamos fazer?! – Ironizou – Eu vou voltar lá amanhã, encontra-lo cara a cara e desmascará-lo na frente da agência inteira!
— Não é disso que estou falando, Leah. Era a madrasta no telefone, o papai foi encontrado morto nessa manhã. – Tremia Alex – Quer dizer, morto não...
— Assassinado. – Lexa completou assustada.
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