A Terapia: Laços De Sangue
2 Baby, it's you
Notas iniciais

Já fazia um mês desde o ocorrido, dizem que com o tempo a dor é controlada, mas elas não pareciam progredir. Na verdade, a primeira semana foi a mais difícil, elas pegaram a primeira passagem para Chicago e em um dia cuidaram do funeral e do enterro. O que as intrigava era que a causa da morte era a mesma da mãe: arma de fogo. Um disparo preciso à distância, para ser exato.
A polícia? Bem, manteve-se inútil. Entopem as meninas de palavras como “investigaremos a causa disso e o criminoso terá a justiça que merece” e ainda pronunciam repetidamente as que mais estressam: “Eu prometo”. Prometer era fácil, mas enterrar o pai ao lado da mãe após um ano de sua misteriosa morte pela mesma causa não era para qualquer um, e as irmãs Devitto até que se saíram bem.
Após uma semana em Chicago, as irmãs retornaram as atividades em Nova Iorque e trouxeram consigo o irmão de 16 anos à pedido da madrasta por tempo limitado, cerca de alguns dias até empacotarem as coisas do pai na casa. Foram dias agitados para a família, Ben, o irmão, culpava Lexa profundamente pelo ocorrido, sempre dizia: “Você sabe que tem um fardo para carregar, né? Minhas irmãs crescem, buscam ganhar a vida e nos abandonam de qualquer jeito. Eu e o papai. A madrasta é gentil, mas era dever de vocês cuidarem dele como ele sempre cuidou de vocês. A Alex ainda se preocupava com ele, mas e você, Lexa? Você partiu sem olhar para trás. Você não tem o direito de se lamentar, a culpa é sua! Se há justiça nas palavras daquele policial, ela deve começar por você”.
O impacto de cada palavra tirava da irmã a chance de responder, ela tinha medo do ressentimento do irmão, tanto para o bem dele, quanto para o dela. Ele retornou para casa e elas seguirem em diante.
— Como vamos sair nesse dia chuvoso? – Perguntou a jornalista.
— Acho que podemos nos dar um desconto, né?
— Agora que conseguiu entrar na Academia? Você sai tão rápido quanto entrou, tá?
— E o Ed Sheeran? Resolveu com ele?
— Tivemos um começo ruim. Ele pegou minhas matérias, roubou a minha vaga e me chamou para jantar.
— Sério isso? Esse é o teu nível de facilidade?
— Eu fiz o que disse que faria. Voltei lá, contei tudo para a supervisora e ela disse que resolveria em semanas. Só não esperava me encantar por ele.
— Você se vingou e ele ainda quis papo?
— Bom, ele não sabe. Eu reportei na época que não o conhecia, mas não vai dar em nada.
— E o Richard?
— Ele esfriou comigo há um tempo, não confunda as coisas, ele ainda é o meu namorado, só que estou aberta a explorar mais do Bill.
— Já sabe o nome dele?
— Não sou tão biscate assim.
— Bom, o Richard é ciumento e violento, só te digo para ter cuidado. E boa sorte com esse Bill quando a supervisora tomar alguma atitude.
— Relaxa.... Qualquer coisa eu ligo para o papai.
Alex a encarou e após alguns segundos de silêncio, Lexa assentiu e se lembrou. Com a mão na cabeça, lamentou-se.
— Eu nunca vou me acostumar.
— Nunca nos acostumamos com esse tipo de coisa. – Alex abaixou a cabeça.
— E o Ben ainda não me perdoou, eu tenho medo do que ele pode achar de mim.
Alex sentou-se ao lado da irmã, a abraçou de lado e deitou a cabeça em seu ombro.
— Ele é só um adolescente rebelde, há muita coisa para digerir ainda, dê tempo ao tempo. O importante é você ter em mente que a culpa não foi sua.
A feição da caçula já apresentava uma melhora, porém, Alex não acreditava no que dizia. Em seu íntimo, as ideias de que o motivo e o assassino não se revelaram a conferia ainda mais culpa, dia após dia. Além do mais, ela era a mais velha da família, tinha em suas mãos a responsabilidade de cuidar da segurança do restante.
— Enfim, vamos marcar um jantar aqui em casa. Você traz o Richard e o Bill, eu trago o John.
— Só o John? Você já foi melhor.
— Então tudo bem, convidarei a Alana e o Jake da Academia para vir também. Tenho umas partituras para definir com eles e precisamos encher a casa.
— Adorei! Só não gosto muito dessa Alana.
— Ela é minha melhor amiga de lá, me ajudou bastante nos ensaios. Para com o ciúme!
Em meio a risadas, elas seguiram ao celular para convidar os amigos e foram rapidamente trocar de roupa e preparar o jantar. Mesmo com a diferença de idade, Lexa cozinhava melhor que a irmã e fez, por conta própria, um prato de culinária brasileira e um sírio. Os primeiros a chegar foram Bill e John. Lexa levou Bill para conhecer o apartamento, enquanto Alex sentava ao lado de John na sala de estar à espera dos outros convidados para jantarem. Era um clima tênue com a música “Não precisa mudar” de Ivete Sangalo e Saulo Fernandes tocando em volume médio.
— Essa música é africana? – John interrogou curioso.
— Brasileira. – Corrigiu – Axé. Me surpreende essa sensibilidade, você chegou bem perto! Ela traz características africanas sim.
— Os vocais estão ótimos, quando poderei te ouvir cantar?
— Vamos torcer para que eu estreie na Broadway e aí, quem sabe, né? – Pronunciou em tom sexy – Ainda está namorando?
— Nós demos um tempo. Ela se ocupa demais com os outros compromissos e nossa relação não estava mais fluindo bem.
Sem disfarçar, Alex se alegrou e aproximou-se do rapaz. No quarto, Lexa e Bill relembravam em risadas de como se conheceram.
— Espero que você não tenha ressentimentos, Lexa. Eu precisava desse emprego para me estabilizar aqui.
— Não tenho. A agência era um passo significativo para eu conseguir o que quero, mas se eu for boa mesmo, conseguirei de outro jeito.
— E o que você quer?
— Fazer algum peso no mundo além do meu próprio corpo. Ser estampada em uma matéria no NY Times que represente a superação de alguém, um primeiro passo contra o fundo do poço.
— Profundo... – Ele sorriu – O céu é o limite para você, né? Suas matérias são incríveis.
— Confesso que fiquei lisonjeada contigo usando a minha produção para ser aprovado. De uma forma ou de outra foram as minhas palavras ali, eu tenho parte da vitória.
— Não parte, toda ela. – Aproximou-se e a pressionou levemente contra a parede. – Eu só não lhe entrego a minha vaga porque preciso disso para sobreviver, teria que te matar se tivesse conquistado em meu lugar. – Brincou estranhamente.
— Eu tenho um namorado...
— Ele não está aqui, está?
Bill roubou um beijo suave de Lexa, que o puxou para um amasso. As coisas esquentaram, ela fechou a porta com o pé e eles tiraram a roupa um do outro em direção a cama, onde começaram a transar. Em outro cômodo, John estava aos beijos com Alex, nesse caso um pouco mais românticos que sexuais, mas acabaram interrompidos pelo som da campainha. Era Jake e Richard chegando.
— Sejam bem-vindos! Agora só falta a Alana.
— Ela sempre chega atrasada, né? – Jake zombou.
— Isso se chama conexão de best friends, nós temos esse probleminha.
— E quem é aquele gato em teu sofá? – O amigo da Academia sussurrou.
— Pula fora, ele é hétero e é meu. – Avisou com clareza – Entre, Richard. Vou lhe dar trégua esta noite, a Lexa está lá no quarto.
— Não precisa me mandar entrar, cuida do jantar que é melhor.
— Por falar nisso, é melhor começarmos sem a Alana já que ela vai se atrasar. – Jake pronunciou.
— Tudo bem então, sentem-se à mesa que eu vou chamar a Lexa para servir.
— Não! – Richard interrompeu – Pode deixar que eu a chamo.
— Tudo bem. Venham, John e Jake.
Enquanto na mesa o assunto era as partituras do dueto de Jake e Alex, a tensão amorosa nos olhares da cantora e do John era mais que evidente. Havia paixão pura e inquestionável ali. Por outro lado, a última chama de esperança no relacionamento da irmã foi apagada quando Richard abriu a porta e encontrou a namorada o traindo. Ele tentou bater no Bill, mas a gritaria de Lexa fez todos da mesa correrem até o quarto e John o conteve. Com dedos na cara, choro e gritos, Lexa e Richard romperam o namoro ali na frente de todos, ele foi embora do jantar e ela seguiu atrás, Bill pediu desculpas e retirou-se para casa, e os três restantes retornaram à mesa.
— Que babado! – Jake anunciou.
— Minha irmã não tem jeito. Eu estou envergonhada!
— Há relatividade nisso, Alexandra. Um relacionamento que só há compromisso e mais nada não é um relacionamento, ele parecia um homem com ego ferido e ela uma garota assustada pela exposição.
A descrição peculiar de John chamou atenção de Alex, ela se sentiu ainda mais atraída pela inteligência e beleza do rapaz.
— Eles só estavam juntos por status. Ele nunca agradou a família e ela já estava meio fria com a relação. – A irmã confessou.
— E o que você acha do Bill? – Jake se intrometeu.
— Que tá indo muito rápido. Ela teve um início ruim com ele e só o conhece há um mês. Não sei se vai pra frente...
— E por que não? Sabe com qual história isso se parece? – Ele a intrigou – Você me conquistou tão rápido quanto e acho que vai pra frente sim.
— Então vamos comer! O que é isso? – O acadêmico quebra o clima.
— Comida brasileira e comida síria. Prato típico de nossa família. Meus avós e pais vêm de lá.
— Comida síria? – John se assustou.
— Minha irmã que fez, ela insiste em unir cultura ocidental e oriental na tentativa de fazer do mundo um lugar melhor.
— Entendo, mas como bom americano me recuso a comer isso. Vou ficar com a brasileira mesmo.
Irritada com o que ouviu, Alex é interrompida por Jake antes de reclamar. Na rua, Lexa resolvia as coisas com Richard.
— Então vai acabar assim? – Ela repetia.
— Você não tem vergonha de ainda perguntar?! – Gritava furioso – Eu não quero mais nada de você, Leah. Espero que se dê bem com aquele idiota.
— Ele me dá atenção, sabe aproveitar o tempo comigo. Você só queria alguém para dizer que era sua!
Ainda mais revoltado com o contra-ataque, ele a puxou pelo cabelo até um beco escuro e foi claro no aviso.
— Eu mato você e ele. Não sou homem de tolerar traição, observe cada movimento seu com cuidado e suma daqui antes que eu adiante os planos.
Jogada no chão com um empurrão, Lexa chora e Richard vai embora. Bill a encontra e imediatamente a socorre. Ele a leva para a casa dele onde conversam melhor sobre o ocorrido.
— Meu deus! Ele é um psicopata! – O ruivo afirma sem desvios.
— Esqueça-o, ele não vai me fazer mal. – Ela tenta contornar a situação menos assustada – E quanto a nós? O que temos?
— Eu quero estar com você, namorá-la, seguir seriamente com isso.
— Obrigada por me preencher quando mais precisei. Não tenho como agradecer...
— Então deixa eu agradecer por você.
Embarcados em um novo relacionamento sério, eles se beijam até cair no sono. No apartamento das irmãs, Alex observa a repulsa do acompanhante pelo prato sírio. Jake vai ao karaokê e canta “Baby it’s you” versão Beatles como teste da audição que fará na semana seguinte e John aproveita para surpreendê-la. Ele se levanta da mesa e ajoelha-se.
— Calma aí, vai me pedir em casamento? – Ela questiona surpresa.
— Não sei se é muito comum, mas você aceita namorar comigo?
Tomada pelo momento, ela se emociona e aceita apenas com o movimento da cabeça. Eles se beijam, Jake comemora e a campainha novamente toca. Na casa de Bill, Lexa desperta do sono com a chegada de uma mensagem em seu celular, ela cuidadosamente levanta e vai até a sala ler. Estava escrito: “Você terá a justiça que merece! ” em número desconhecido. Assustada, ela imediatamente tecla para a irmã: “Eu estou bem, vou passar a noite na casa do Bill e amanhã logo cedo volto para aí. Meu número de inimigos só aumenta, primeiro nosso irmão e agora meu ex”. Jake atende a porta de casa e se depara com Alana, a melhor amiga de Alex, que nem entra na casa.
— John? – Alana pergunta entristecida. – Foi para isso que você me pediu um tempo?
— Oi, Ala! Entre, o que está acontecendo? – A dona da casa perguntou.
Alana pisou os pés no apartamento, foi até a amiga e deu-lhe um tapa na cara.
— Você é louca? – John se pronunciou.
— Ele é meu namorado, piranha. Eu pensei que nós fôssemos amigas!
— Espera, Alana, mas eu não sabia... – Diz a cantora preocupada.
— Ex-namorado, Alana! Nós demos um tempo há algumas semanas, lembra? – John corrigiu.
— E você nem esperou para se deitar com a minha melhor amiga. Eu vou embora daqui! Acho melhor você observar cada passo seu, amiga, não apareça mais nunca na minha frente. Não cruze o meu caminho nem na Academia. – Ameaçou com tons de sarcasmo.
— Olha, garota, eu já te disse que não sei o que está acontecendo. Eu não sabia de vocês! Você conhece a minha índole. E quanto às audições para o musical da próxima semana?
— Acho melhor você pular fora, se roubar mais alguma coisa minha, eu não sei o que sou capaz de fazer com você. Fique longe dele, de mim e do meu papel, volte para onde veio!
Alana deu de ombros e foi embora rapidamente dali. John pediu desculpas a Alex pelo transtorno e disse que retornaria para explicar melhor a história, mas que não era culpa dele. Ela compreendeu e pediu que fossem embora, Jake e John, com a justificativa de que havia sido “demais para uma só noite”. Após alguns minutos de choro, Alex resolveu responder a irmã por mensagem. Na casa de Bill, Leah recebeu uma ligação e atendeu imediatamente.
— Boa noite, é Leah Devitto? – Perguntou a atendente.
— Boa noite, é sim. Quem gostaria?
— Sou a supervisora da agência midiática que buscou há algum tempo. Investiguei a tua denúncia e já tomei as medidas cabíveis, Bill está demitido e a vaga é sua, você tem uma semana para se apresentar. Obrigada e tchau!
A situação era crítica, por mais feliz que quisesse estar com a proximidade do seu sonho, ela se sentia mal com o impacto que isso causaria na vida de Bill, sobretudo agora que namoravam. Ele mesmo brincou que precisava muito dessa vaga, mas também era crucial na vida profissional dela, e agora a vida de ambas as irmãs só se complicava cada vez mais. Ela, sem saber o que fazer, recorreu a Alex.
— A inimizade está no nosso sobrenome. Sabe a minha melhor amiga? Bem, ela é a ex do John. Não sei o que dizer. — A irmã mais velha avisou via mensagem.
— Acrescente mais um inimigo na minha lista. Namorando ou não, eu vou pegar a vaga de emprego do Bill de volta! — Lexa determinou.
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