A Terapia: Laços De Sangue

3 O papel que você nasceu para roubar


Notas iniciais
Se a dose de suspense e de perdas não foi o suficiente, tente a sorte mais uma vez nesse capítulo! Boa leitura, meus caros.

Leah Xavier lembrava daquela noite como uma conjunção de emoções distintas. Havia acabado de sair de um relacionamento, iniciado outro e já tinha que trair a confiança do parceiro novamente. Tudo que parecia correr bem se tornava um campo de batalha para as irmãs, basicamente nada era conquistado com facilidade – isso ainda sob viés do lado bom.

O propósito das Devitto sempre foi evoluir profissionalmente, porém, obstáculos pessoais e amorosos costumavam impedir repetidamente. Lexa voltou à cama após a ligação, eles transaram mais uma vez no meio da noite, mas a única coisa que ecoava na cabeça dela era como em um dia ela estaria deitando com ele, e noutro estaria enfiando a faca nas costas. Parecia controverso, mas longe de ser descartado.

Com Alex foi diferente, ela se sentia mal pela amiga, porém, confiava na palavra de inocência de John e sabia que ele teria uma boa explicação, afinal, uma coisa era certa: Eles não estavam juntos mais. Ainda assim, como uma mulher adulta, ela se sentiu na necessidade de esclarecer as coisas com Alana, principalmente com a audição para o musical Grease na Broadway se aproximando. No dia seguinte, as duas se encontraram na aula de interpretação da Academia de Artes de Nova Iorque.

— Preparada para sábado? – Alexandra perguntou na intenção de quebrar o gelo.

— Ainda vai fazer a audição? Não tem mais amigas para roubar namorado? – Engrossou.

— Alana, para com isso. Você sabe que eu não sou dessas, se eu soubesse eu tinha pulado fora.

— Tinha? Porque eu soube que isso foi o que você fez no Central Park quando se conheceram, mas e o restante as semanas? Em um mês você só descobriu que ele tinha terminado naquele jantar.

— Como você pode afirmar isso? Tem falado com ele?

— Foi nele que você procurou um ombro para lidar com a morte de seu pai? – Alana cruzou os braços e foi direta.

— Não precisa colocar o meu pai no meio. – Pediu educadamente.

— Você tem razão, deixa eu só retificar uma coisa para você. – Alana aproximou-se do ouvido dela e começou a sussurrar – Eu pensei ter sido clara o suficiente quando disse para ficar longe de mim, dele e do meu papel de sábado. Mantenha isso em mente e boa sorte para interpretar alguma figurante. – Esnobou.

— Eu desisto. Não tenho medo de você. O papel e o cara serão meus e tudo o que você poderá fazer é chorar como sempre. Ah! E é melhor você ter cuidado em vez de mim, eu ainda lhe devo um tapa que você me deu em minha própria casa, se cuida! – Alex mandou um beijo e voltou a prestar atenção na aula.

Tomada pela raiva, Alana se levantou e foi em direção à fora da sala, quando chegou perto de sair, ainda de costas deu um aviso que parou a classe e fez todos ouvirem.

— Você tem razão, não precisa colocar o seu pai no meio, ele teria vergonha de te ouvir.

E então ela partiu. Lexa acordou um pouco mais cedo que Bill e foi para casa de táxi, ela estava evitando muito contato com ele, ao chegar lá se deparou com John na porta.

— Está esperando a amada?

— Estou sim, acabei de chegar e trouxe esse buquê colhido à mão para ela como pedido de desculpas pelo que houve ontem.

— Romântico! – Brincou – Estou sabendo do ocorrido. Não curto me intrometer, mas se serve de ajuda, o problema de vocês é bem mais simples do que o que parece, não há culpados. Ela tem isso em mente também.

— Obrigado! Eu disse a ela o mesmo sobre ti, parecia ser um relacionamento desgastado com correntes de compromisso e nenhum laço afetivo.

— Era exatamente isso, só erramos em não ter dado um tempo. Ele jamais aceitaria porque é um cara possessivo.

— E não é violento?

— Talvez. Ou minha irmã abre demais o jogo ou você é mestre em análise, é algum psicólogo?

— Não, sou engenheiro ambiental. E você?

— Estudante de jornalismo, mas devo começar um estágio essa semana.

— Boa sorte!

— Obrigada. Por que não entra e se senta até minha irmã chegar? Podemos almoçar as sobras de ontem.

— Falando nisso, a comida estava divina!

— Modéstia à parte, eu sei disso. A Síria tem ótimos aspectos que a nossa cultura insiste em mascarar.

— Ah não... – Ele interrompe – O prato sírio não, me perdoe.

— Uma boa chef aceita uma crítica.

Ela se questionou mentalmente se era questão de gosto ou algum tipo de preconceito, contudo, preferiu deixar passar. Os dois entraram e o telefone dele não parava de tocar, alguns minutos depois, já suado e impaciente, ele teve uma mudança de planos.

— Vou ter que ir agora...

— Aguenta aí, minha irmã já está chegando.

— Não, é que tenho urgências para resolver em uma obra aqui perto. E sua irmã disse que iria atrasar um pouco por causa do trânsito, entrega a ela essas flores aí. Obrigado pela recepção!

— Então tá, vai lá. Sinta-se à vontade.

Sem muita demora após a saída do John, Alex chegou e ainda que faminta, dirigiu-se rapidamente para a sala para ensaiar.

— Você não vai almoçar? – A caçula perguntou.

— Não dá! O papel que nasci para fazer é mais que sucesso profissional agora, é pessoal também.

— Isso tem a ver com Alana, não tem?

— Ela vai tentar roubar tudo de mim, vingar-se. Meu namorado, minha peça...

— O John esteve aqui e lhe deixou flores, ele quer explicar o ocorrido e garantir que tá tudo bem contigo.

— Ele esteve aqui?

— Ué, pensei que soubesse.

— Depois eu me resolvo com ele, senta aí e me diz se tá bom ou se preciso melhorar em algo.

Alex ligou o karaokê e cantou “If I Ain’t Got You” de Alicia Keys.

— Está esplêndido! Mas sabe o que eu faria para surpreender? Tocaria o piano ao mesmo tempo. Você sabe que naquela Academia o que mais tem são cantores bons, mostre algum diferencial. A Sandra Dee ou sei lá o quê é vulnerável e sagaz ao mesmo tempo, exponha seu lado ousado.

— Você é a melhor irmã do mundo! Ideia maravilhosa. Agora vou ensaiar com o piano e vou fazer algumas modificações, o Jake vem mais tarde me ajudar, vá dar uma volta na cidade que preciso de espaço.

— Sim, senhora mandona! Pelo menos o Jake é gay e eu sei que você não vai pegar.

— Engraçadinha.... Vai!

Lexa contou que ia se encontrar com o Bill, contudo, seus planos eram outros. Ela pagou um táxi para seguir o John por três motivos que não podia deixar escapar: Primeiro o preconceito com o povo sírio, depois o fato dele mentindo sobre ter falado com Alex, e terceiro a incoerência em arrancar flores sendo um engenheiro ambiental.

Com quilômetros percorridos até chegar ao Brooklyn, ela o perdeu de vista, desceu do táxi e entrou no mesmo corredor em busca dele, mas foi surpreendida.

— Leah Xavier? – Ele apareceu por trás dela e perguntou.

— John? O que tá fazendo aqui?

— Eu notei que eu estava sendo perseguido, você é mesmo uma boa jornalista, pena que descuidada. – Falava em tom assustador.

— Sou corajosa também, isso aqui não vai me amedrontar. – Cruzou os braços – Eu só saio daqui com respostas, ou terei que contar tudo a minha irmã.

— Há coisas que é melhor não saber, querida. – Pôs a mão por dentro do sobretudo como se fosse sacar algo e a intimou.

— Mas eu sou uma boa jornalista, lembra? Quem era nos telefonemas? Com o que você trabalha? Por que tanto tradicionalismo americano? O que você quer da minha irmã?

— Pega leve, Leah. Uma de cada vez. Eu não posso responder tudo, mas você já desconfia o suficiente para me arruinar. Viu no que você se meteu? Ou explico e te vigio ou terei que te matar.

— Já disse, isso não me amedronta. Pode me vigiar, eu não contarei a ninguém. Além do mais, eu sou tão descuidada que avisei ao taxista o que estava fazendo, só não expliquei os reais motivos, o número dele tá pendurado na geladeira lá de casa e o Bill é uma testemunha perfeita de como eu não estava com ele. Apague-me e minha irmã saberá.

Ele bate palmas sarcasticamente e diz estar impressionado, contudo, logo retorna a mão ao saque e retira rapidamente algo que a faz fechar os olhos e gritar assustada, ela pensou ser uma arma, mas era um distintivo.

— Meu nome não é John, é Matthew Radcliff. Sou um agente especial da FBI formado em quântico, não um engenheiro ambiental. Meu serviço é secreto e para a segurança do nosso país contra o terrorismo, precisa se manter assim.

— Então sua aversão ao oriente vem de um sentimento cívico? Eu devia ter imaginado. Pois saiba que estarei no NY Times algum dia e você irá compreender que há chances de manter o mundo coeso sem os horrores da guerra. Agora responda, o que você quer da minha irmã?

— Não misture as coisas, eu a amo de verdade, mas é vital para a segurança dela que isso se mantenha em segredo, você sabe.

— Sim, eu sei. Seu segredo está guardado comigo.

— Mais que obrigatório que esteja. Eu não posso me expor, se o FBI desconfiar eles vão mandar apagar você.

— Então um protege o outro, entendeu?

— Combinado! Volte para casa, esse local aqui não é seguro.

Ainda frente a frente com o agente, Lexa recebeu mais uma vez uma mensagem desconhecida a ameaçando. Ela mentiu para o Matthew e disse ter sido Alex a apressando para assistir à audição que faria mais tarde, Matthew confirmou presença e Lexa partiu para a casa do Bill sequencialmente.

Na Academia, o anfiteatro estava lotado de convidados e os bastidores estavam uma loucura, Alana e Alex só faziam se estranhar. Horas depois, todos estavam preparados para as apresentações, o papel contaria 70% com o voto técnico e 30% com o popular ali presente. O namorado, a irmã e o novo cunhado de Alex estavam na primeira fileira da plateia em torcida. Uma voz anunciou que a estreia da noite seria Alana Campbell, composta por um vestido longo de paetê, ela atraiu todos os olhares e cantou “Hopelessly Devoted To You” da própria Olivia Newton-John em tons ainda mais altos.

— Ela está indo bem, né? – sussurrava o Matthew durante a apresentação.

— Infelizmente. – respondeu a irmã.

Lexa recebeu uma mensagem da agência e isso rapidamente chamou a atenção de Bill. Ele não viu o conteúdo, mas notou de onde era. O mais curioso para ele foi como ela se comportou, a velocidade com a qual ela escondeu o celular e avisou que ia ao banheiro. A informação da agência era que ela tinha até aquela noite para se apresentar senão seria cortada e Bill continuaria na vaga. No banheiro, ela se esbarrou com Richard, o que a deixou sem fôlego.

— O que você está fazendo aqui? – perguntou meio incrédula.

— Vim assistir ao show da minha ex-cunhada e ficar bem próximo de você. – ironizou.

— Saia de perto de mim e pare com as mensagens, senão serei obrigada a pedir ordem de restrição na justiça! Você não me assusta.

Ela bateu o ombro nele e voltou para o anfiteatro. Bill já não estava mais, segundo John, ele havia ido atrás dela. Lexa até pensou em retornar, mas Alex foi anunciada como a seguinte e subiu aos palcos para apresentar “If I Ain’t Got You” da Alicia Keys tocando piano e cantando simultaneamente, então a estudante optou por aguardar. Diretamente do palco, os olhos de Alex brilhavam de emoção ao ver os da irmã e do namorado na primeira fileira, o brilho que isso trouxe para a performance foi fundamental e notado por todos. O problema foi quando Lexa se retirou às pressas de lá, a cantora estremeceu um pouco e perdeu o controle da música, mas não parou de cantar.

Antes de ir, Lexa avisou ao Matthew que precisava ir na agência requisitar a vaga de estágio e pediu para que não falasse ao Bill, apenas à Alex quando o show terminasse. No corredor vazio, em extremos opostos, os olhares de Richard e Bill se encontraram, um olhar provocador de Richard foi suficiente para tirar Bill do sério, este avançou para cima dele o socando no rosto. O ex se estilhaçou no chão e o golpe sangrou imediatamente a sua boca, Bill sentou-se sob o abdômen do rapaz e antes de golpeá-lo novamente foi detido pelo Matthew, que o agarrou pela cintura e afastou-lhe.

— Calma, cavalheiros! – Matthew ordenou.

Cuspindo sangue e deitado apoiado pelos cotovelos, Richard se pronunciou.

— Você sabe onde está Lexa agora?

— O quê? – espantou-se Bill.

— Veja por si mesmo.

Richard estendeu-lhe a mão para entregar o celular da ex que havia roubado discretamente no momento que se esbarraram no banheiro.

— Ela está requisitando a sua vaga na agência. A sua queridinha está arrancando tudo de você.

— Ela não faria isso! Eu confio nela e ela em mim, eu expliquei para ela a minha necessidade de manter esse emprego. Você não vai me jogar contra ela!

— Ué, então leia.

Bill pegou o celular, observou as ligações, leu a mensagem e não conteve a ira. Tentou bater em Richard mais uma vez, mas estava bem preso aos braços de Matthew.

— Eu vou acabar com ela! – Bill gritou.

— Isso é exatamente o que estou tentando fazer. – O ex consolou.

O jornalista e o ex-namorado foram juntos, naquele momento, atrás da garota para resolverem as pendências. Matthew tinha que voltar para torcer pela namorada e assistir ao resultado, porém, o senso de justiça dele não se tranquilizou, observando minuciosamente a fúria esbanjada pelos dois rebeldes, tudo o que pôde fazer foi avisar via mensagem para a amada que ia acompanha-los na busca pela Lexa visando a própria segurança da garota. Nos bastidores, Jake se preparava para entrar e tentar o papel principal de Danny Boy, enquanto Alex e Alana, após se apresentarem, resumiam-se a insultos.

— Fez bem, Alex, mas acho que o musical precisa de alguém que saiba cantar e atuar ao mesmo tempo, não cantar e tocar. Ah, e você perdeu o tempo na segunda parte da música. – Alana iniciou.

— Sério? Porque quando usei os melismas para recuperar o tempo eu lembro da plateia de pé aplaudindo. – respondeu à altura.

— De qualquer forma, boa sorte agora para saber de quem será o papel. Acho que a melhor forma de você sair segura disso é abandonando a competição, sua família pode pagar o preço da sua insolência.

A hora enfim chegou e as concorrentes do papel principal de Sandra Dee foram chamadas em fileira ao palco para o resultado final. Um dos técnicos foi à frente e anunciou.

— Todos aqui na fileira sentem que esse é o papel que você nasceu para fazer, e talvez até seja. O importante é ressaltar que um musical nível Broadway precisa de técnica, ter uma crítica positiva nas estampas dos jornais, mas também precisa do voto popular. E por uma diferença de dois votos, a vencedora desse papel é Alexandra Devitto!

Em meio à ecstasy do resultado, Alex pôs a mão sob o rosto e cerrou os olhos buscando o acompanhante para comemorar, mas tudo o que viu foram os lugares vazios da primeira fileira. A intensidade do holofote atrapalhava um pouco a visão, contudo, foi o suficiente para observar um perfil na plateia indo em direção à saída e, no mais breve dos instantes, reconheceu o sorriso ameaçador de todas as outras vezes que brigou com ela: Era Alana. Ela não suportou nem ver à comemoração, engoliu seco e retirou-se do local furiosa.

Do lado de fora da Academia, pelas ruas escuras e molhadas da chuva, Lexa corria rumo à agência. Quando Alex a ligou e Richard atendeu, não foi necessário mais que quinze segundos para que largasse o salto e fosse correndo atrás do táxi mais próximo. Era um tipo de perseguição: a caçula tentava requisitar a vaga, Richard e Bill tentava prestar contas com a garota, Matthew acompanhava os dois, Alana fugia do local e Alex ia atrás da irmã.

A conclusão disso se deu quando, ao quase atropelar a irmã, Alex saiu do táxi e foi correndo abraça-la.

— Você está bem? Por que o Richard está com teu telefone? – A cantora perguntava alisando o rosto da irmã.

— Eu precisava vir rapidamente, mas não encontrei nenhum táxi. Como foi? Você venceu?

— Eu venci. – chorou – Eu venci essa por nós duas! Agora você vai subir naquele prédio e vai conquistar o teu sonho também. O Bill descobriu?

— Não tem como, ele não estava lá?

— Nenhum deles estava. – A mais velha estranhou. – Nem o John, nem o Richard, nem o Bill e nem a Alana.

— Ligue para o Jake! Veja se eles retornaram!

Alex afastou-se alguns metros para fazer a ligação.

— O Matthew era o único que sabia sobre o que farei com o Bill dali. – Lexa informou.

— Matthew?

Um só som foi mais que suficiente. Alguma vidraça quebrou e prendeu a atenção de Alex que dirigiu o olhar instintivamente, quando retornou aos olhos da irmã, um estouro e uma marca sangrenta foi tudo o que viu: A história se repetia, naquele momento ela sabia que havia perdido mais um ente querido para a sagacidade de um tiro preciso. Como o papel da irmã no mundo que alguém nasceu para roubar.

Notas finais
Agora sim! Antes de lerem o último capítulo, é importante que deixem aqui o último nome suspeito da lista de vocês. Boa sorte para desvendarem.