A Terapia: Laços De Sangue

4 Mais uma sessão e ponto final!


Notas iniciais
Mais do que nunca, tenham uma boa sorte para finalizar esse novo mundo que adentraram. Boa leitura a todos!

Com a cabeça da irmã deitada em seu colo, Alex ligou para a ambulância, mesmo sabendo que não havia nada que pudesse ser feito numa gravidade dessas. Ela checou repetidamente a pulsação da irmã, mas nada, nenhum sinal, então só lhe restou aguardar. Em meio à chuva de madrugada numa área pouco movimentada, a única feição que podia expressar era os olhos esbugalhados e a boca bem fechada. Nenhuma lágrima caiu, o olhar estava preso à irmã, mas o pensamento estava nas nuvens, o próprio psicológico turvava a imagem que via. Há níveis de sofrimento, e o dela foi tão brusco que nada se manifestou. Ou melhor, restringiu-se a uma coisa: Culpa e vingança.

Naquele dia, a ambulância levou as duas, uma com atestado de óbito e outra em estado profundo de choque. Apenas Matthew e Jake foram visita-la no hospital, os outros nem sequer apareceram, tanto naquela noite quanto nas semanas seguintes. Os amigos do colegial, amigos dos pais e a madrasta foram os únicos que compareceram ao velório, a mais velha não recebeu alta após ser internada numa clínica psiquiátrica e o Matthew não perdia a companhia. Nem o irmão, perdido pelo ressentimento, deu as caras. A memória dela foi minimamente honrada, e nada mais.

Exatos dois meses e mais algumas semanas após o assassinato, Alexandra Devitto mantinha a memória da irmã em teu apartamento, todo dia chuvoso ou som de vidro se quebrando trazia à tona aquela memória, porém, não era isso que a preocupava, era a possibilidade que tinha, segundo a psiquiatra, de apagar a irmã da memória como resposta psicológica à dor e à negação. Ela podia ser chamada de Alexandra Devitto-Radcliff, pois havia se casado com o Matthew, moravam juntos no apartamento dela, estava grávida de um filho dele e estava livre para fazer a terapia ao longo da semana, sem internamento.

Sobre a Broadway, a estreia dela foi cancelada devido à clínica psiquiátrica e Alana teve o que tanto desejou. O musical não rendeu bons comentários, porém, serviu de impulso à carreira dela, que conquistou um prêmio Tony de atuação. O Bill conseguiu ser promovido e escrever diretamente para NY Times. E o Matthew, após contar tudo para a sua esposa, aposentou-se do FBI e vive como corretor de imóveis. Houve dias que ele foi a única razão pela qual ela não se matou, mas com calma, retomaram a vida.

— Você sabe que seu sonho não acabou, né? – O marido perguntou.

— Eu tive um ano intenso, e sei que ainda piso nessa cidade pelo que posso fazer por mim e pela memória da minha família. Amanhã eu tenho uma nova audição para o papel de Elphaba em Wicked na Broadway, vou dar o melhor de mim.

Ele a olhou nos olhos como se a visse pela primeira vez, inclinou-se e a beijou.

— Você e ela arriscaram tudo nessa cidade, me orgulho de nunca desistir. Nosso filho também irá!

Ela ainda conseguia se sentir amada, e apesar de superar certos aspectos, existia algo que se comportava como uma âncora para o desenvolvimento dela nas terapias: A falha da justiça. Todos os familiares haviam sido assassinados pelo mesmo motivo e ninguém descobria o motivo ou a pessoa, ela sentia culpa de não proteger a família como uma irmã mais velha deveria fazer e de ter permitido que os dias continuassem normalmente mesmo sem resolução para os casos. Até comprou um apartamento para o irmão e a madrasta que se mudariam no mês seguinte.

Ainda estudando na Academia de Artes de Nova Iorque, ela não tinha nenhum amigo. Jake se mudou para o Brasil e Alana largou a Academia para se dedicar integralmente ao sucesso que estava fazendo. Na audição para o novo musical, ela via mais que uma chance de se recompor, então ainda confiante, caminhou até o centro do palco e cantou “See You Again” do Charlie Puth diretamente do piano. Ao término, dirigiu-se em seu novo carro à terapia.

— Eu respirei fundo, apertei as mãos, fechei os olhos e me permiti preencher a sala.

— Deu o melhor de si?

— Mais que isso, eu senti fisicamente a superação.

— E então o que deu errado, Alex?

— Minha voz não foi a única coisa que ouvi, doutora. Eu pensei que pudesse deixar para trás, superar o trauma como você disse que eu faria. – Alex franze a testa e olha para a psiquiatra com insolência – Mas não! Estou na quinta sessão em um único mês e eu não sinto diferença alguma.

— Seus amigos pontuaram alguma mudança de comportamento?

— Eu não tenho amigos mais, só suspeitos, lembra?

— Agressividade! – Escreveu em seu bloco de notas – Mais do mesmo. Continue com seus antidepressivos e retorne amanhã, sei que está fora do planejamento, mas não te cobrarei por isso.

— E o que devo fazer até lá? Aquele som não me deixa dormir à noite, só faz piorar.

— Pela primeira vez durante toda a terapia, Alex, você me mostrou positividade. – A doutora sorri – Busque a sensação de se superar novamente, encontre o que ainda te fragmenta e tenha controle sobre isso.

— Eu sei bem o que devo fazer. – Ainda pensativa, Alex afirma confiante.

Foram as palavras determinantes no momento certo, tudo ficou claro para a garota! Ela sabia como deixar isso para trás, mas era uma questão de tempo, então foi para casa jantar com o marido como em um dia qualquer.

— Já senti o cheiro de comida brasileira. – Alex falou ao chegar em casa e pôr a bolsa e as chaves em cima da mesa.

— Nosso preferido, né?

— Dei sorte de casar com o melhor cozinheiro da cidade.

Ela foi até ele e o beijou.

— E esse avental é bem sexy...

— Você deveria tentar cozinhar, amor.

— Eu sou um desastre!

— Aprende algo, lhe dou uma semana.

— Combinado então, mas não vale reclamar. – Com um sorriso encantador, ela afirmou.

— O que houve? Você está radiante!

— Eu não segurei a onda e chorei no meio do teste, mas acho que eles vão reconsiderar.

— Que bom! Já emendamos o jantar com a sua aprovação.

2 meses depois

A aura de Alex era outra, com um sorriso radiante no rosto e olhos apreciadores da arte ali presente, ela desfilava pelas ruas de Nova Iorque como uma pessoa completamente renovada. Da água para o vinho. Amava respirar o ar do Central Park, assistir Grey’s Anatomy e viajar por todo o mundo em busca de extremos culturais diferentes. Até continuar com a terapia continuou.

— Bom dia, Alex! Seu horário é o melhor do meu turno, não conte a ninguém. – A psiquiatra anunciou bastante animada.

— Bom dia, doutora! Eu aprendi com a melhor a esbanjar bondade.

— Conte-me sobre esse barrigão lindo! Está de quantos meses?

— Cinco meses incompletos.

— Que venha saudável igual a mãe!

— Ah, eu lhe trouxe um presente, tenho que ir agora porque estou atrasada para meus compromissos, mas preciso que espere eu sair e abra.

— Sem problemas, boa sorte, querida. Ah, esqueci de avisar, você já está bem saudável, não precisa dos antidepressivos e nem da terapia mais, então infelizmente terei que finalizar por aqui.

— Sério? – lamentou-se.

— Sério. Me liga de amiga pra amiga, me chama pra jantar, vou adorar acompanhar a tua família.

— Eu pensei que tivessem te informado sobre a minha família...

— Calma, Alex. Estou falando da que você está começando agora. – alegrou-se.

— Então... Só mais uma sessão e ponto final?

— Só mais uma sessão e ponto final.

As duas se despediram bastante felizes e, com a saída da Alex, a psiquiatra pegou o presente e abriu, era um folheto que não demorou muito para ser lido.

“Se você está lendo isso aqui, então significa que deu tudo certo na minha vida. Na semana seguinte ao conselho de “encontrar superação”, eu fui aprovada para o musical de Wicked na Broadway, lá eu senti as energias do meu corpo se interconectarem novamente, todas as apostas e riscos que eu havia tomado valeram o sabor da vitória, o sabor do sonho. Uma vez me disseram que a vida é uma grande escalada, pode parecer alto como o Everest ou difícil como subir nas paredes, mas a vista é ótima e isso compensa todo o esforço. Apostei tudo que eu tinha, o conforto da casa dos meus pais, a minha segurança e a de todos eles. Desde jovem nunca desisti de sonhar, e agora você pode ver aonde cheguei. Nas coisas mais corriqueiras e nas decisões mais difíceis, o futuro se delicia de realização, como o primeiro metrô que peguei para Nova Iorque, mas que me trouxe para um novo mundo.

Tive perdas, não tenho pai, não tenho mãe, nem irmãs ou amigos, contudo, ganhei um filho a quem darei o nome da principal pessoa que fez tudo isso ser possível. Se alguém aí me lê, saiba que eu estou depondo a favor da dedicação subjetiva e da justiça. Porque foi isso que devolveu a minha vida.

Você deve estar se perguntando se eu sou ‘a garota cujo os familiares foram assassinados’ e tudo bem, porque é assim mesmo que se dissemina a informação na cultura ocidental. Eu investiguei por todo esse tempo o que ocorreu com os meus entes, e nada mais foi do que homicídio com o uso minucioso de um rifle à longa distância. Demorei para juntar os pontos, mas rapidamente notei que o Bill, apesar da devoção pela vaga, o Richard, apesar do amor doentil, e a Alana, apesar do desejo de vingança por mim, não tinham motivos algum para matar os meus pais. A pessoa com quem eu deito, sim. Ou melhor, deitava.

Matthew Radcliff é um agente especial da FBI, participante de uma força-tarefa contra o terrorismo, e o mais importante: Corrupto e xenófobo. Ao descobrir que a família Devitto é composta por miscigenação, de diversas nacionalidades, ele matou um a um. Começando pela minha mãe, com maior parentesco sírio, depois meu pai, com parentesco israelense, e enfim, minha irmã, a garota que tinha em si o sonho de divulgar empatia pela cultura alheia, o sonho de quebrar a linha ideológica de violência entre oriente e ocidente – e mais que isso, a garota que tinha poder o suficiente para chegar nesse patamar de influência.

Na semana seguinte à audição, eu preparei o jantar do meu maridinho, mal sabia ele que disfarçado de comida brasileira, havia comida síria, e envenenada. Eu matei o pai do meu filho com prazer de observá-lo elogiar a culinária ‘brasileira’. Ah, como eu disse, ele era corrupto, então a equipe policial sempre encobriu o caso. Como vi que nunca teria 100% de certeza, matei todos os outros que de alguma forma sonharam em fazer algo de ruim a minha irmã. O Richard, o Bill... A Alana deixei escapar, o problema dela sempre foi comigo mesmo. Vale lembrar que no óbito da minha irmã, foi encontrado um feto morto em seu ventre, o teste de DNA comprovou que era filho do Richard com ela, mas que morreu uma hora antes do tiro. Provavelmente com o susto de encontrar o ex-namorado psicopata no meu show.

Hoje sou mais que bem-sucedida! Fui elogiada pela personificação da maldade na peça adaptada de Wicked na Broadway, gravei o meu primeiro álbum com ritmos do mundo inteiro que ficou em primeiro lugar na Billboard, e expandi minhas técnicas artísticas em pinturas após abrir a galeria chamada “A Lexa”. É um nome criativo visto que presenteia a minha irmã e traz nossos nomes ao mesmo tempo.

De alguma forma, meus métodos não são os adequados, mas foi por isso que mencionei que sou ‘a garota dos familiares assassinados’, porque se é ocidental, é visto como vítima, e não como o que realmente sou: Uma assassina vingativa à sangue frio. Espero que tenham entendido, da pior forma, como a mídia controla as coisas por aqui e como a minha irmã teria feito vocês entenderem isso de forma diferente, se não fossem tão americanos.

Adeus, irmã, espero ter realizado o teu sonho. ”

— New York Times, 2015

Notas finais
Foi um prazer compartilhar a minha história com vocês! Obrigado pelos comentários, pelo incentivo e pela participação. Até breve, leitores!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!