A Teoria das Cores
53 Verde IV
TOLERÂNCIA
Voltar a nossa cidade natal após um longo período fora é uma experiência fantástica. Os ares daquele local tão familiar aos olhos e ao coração nos preenchem por inteiro com as lembranças de um tempo que já se foi, mas que ainda permanece vivo na memória e que se intensifica a cada retorno. Passear pelas ruas, pelas praças... Ver rostos conhecidos, outros novos... Ver o progresso e ter o pé na nostalgia. Uma experiência quase tão boa quanto o próprio ato de viajar. Ian, ao chegar à rodoviária de Porto Alegre, capital do RS, sentiu-se exatamente assim: Aprendera muito em sua estadia em Nova Petrópolis, ainda sim continuava a ser ele mesmo no fim das contas.
Descera do ônibus após oito pessoas, vendo Clara, sua mãe, feliz da vida a aguardá-lo ao lado dos primos Micael, Levi, Luan e Andreas, com expressão de felicidade nítida em seus rostos.
— FILHOTEEEEE! – Exclamou a mulher – Até que enfim veio pra cá! Achava que a Isa e o meu irmão tinham te sequestrado pra sempre!
— Que isso, mãe! – O rapaz riu, dando um beijo na bochecha da mãe – Eu tô lá estudando. Quando dá, eu venho aqui. Sempre fiz isso.
— É... Mas pro coração de uma mãe, um filho sair de casa representa muito. Acaba com a gente.
— Só mais um tempo, dona Clara. Só mais um tempo.
— E a gente não ganha abraço não ?! – Contestou Mica.
O outro riu, desfazendo-se do abraço materno e indo em direção aos primos. Todos se abraçaram em circulo, com Ian ao meio. Sentia-se tão amado, gostava dessa sensação boa de ter quem tanto queria bem ao seu lado. Era uma pena não estarem todos juntos... Havia alguém que não estava ali...
— Estávamos sentindo tua falta, velho – Mica tornou a falar, tirando o outro das nuvens.
— E tem como não sentir? Sou f*da demais gente – Gabou-se, arrancando risos dos presentes – Brincadeira gurizada. Também tava com o coração apertado de saudades.
— O importante é que tu tá aqui agora – Drê, o mais velho dos primos, comentou sorrindo – Pro resto, o dilúvio.
— Alguém me explica o que é essa expressão “O dilúvio”? Nunca ouvi isso na vida – Luan solicitou.
— É a mesma coisa que “F*da-se” só que mais poético.
— Valeu aí! Tava meio perdido ultimamente quando tu falava isso.
Todos riram.
— Vamos logo, galerinha! Eu deixei tudo no fogo lá em casa! – Chamou Clara – Se depender do meu querido marido, o arroz vira uma crosta da Terra.
— Tadinho do tio Sérgio, tia! – Mica ria do comentário.
— Só estou ressaltando os fatos – Mostrou a língua – Ele é péssimo cozinheiro. Sabiam que teve uma vez, quando estávamos na praia...
Clara continuou seu relato enquanto todos iam em direção ao carro, estacionado há alguns metros da rodoviária. Depois de entrarem no veículo e darem partida, demoraram alguns minutos para chegarem ao prédio onde moravam quase todos os primos, com exceção de Levi, Luan e Daniel... Esse último, aliás, não saíra da memória de Ian por nada no mundo. Só queria estar com ele ali, naquele momento, anunciando aos demais que o coração do rapaz era seu por completo. Era utópico pensar naquilo, todavia o beijo não saciou basicamente nada de seu desejo pelo primo, e através disso, acreditava que as teorias de que não era amor verdadeiro o que sentia pelo mais novo e sim um fogo ardente, caíam por terra.
Chegaram em casa eram 11h44min. De fato, como afirmado por sua mulher, Sérgio havia esquecido do arroz. A sorte de todos é que o mesmo não havia torrado, podendo assim ter uma refeição animada. Clara e o marido não escondiam a felicidade em ver a maioria dos primos de seu filho ali, reunidos e felizes, mostrando o laço forte que os unia. Isso os fazia felizes, e se os pais de todos ali estivessem, certamente concordariam. Almoçaram cantando, contando anedotas, trocando algumas farpas, aprontando... Uma verdadeira refeição em família.
Assim que terminaram, todavia, Andreas cutucou Ian, fazendo gestos para que o mesmo o acompanhasse até seu quarto ao fim do corredor que passava pela sala de estar. O ambiente não era tão diferente quanto o quarto na casa de Daniel: Havia a mesma placa “filosófica” para não entrar, porém não era tão espaçoso. A cor das paredes era de um azul Royal lindo aos olhos, traziam consigo uma sensação de paz imensa. O teto em madeira cedrinho envernizado e posicionado na vertical davam um bonito contraste, servindo de suporte para o ventilador de teto com lâmpada, localizado bem ao centro do quarto. Na parede ao lado da porta, uma escrivaninha de cor marrom forte onde deveria ficar o notebook do rapaz e alguns cadernos (Provavelmente de desenhos ou anotações), na parede oposta uma janela com persianas horizontais cor creme, localizadas acima da cama que ia de um lado ao outro do lugar, e na parede direta um grande guarda roupa da mesma cor das persianas.
— Que saudade que eu tava disso aqui – Disse o mais novo.
— Ainda tem o teu cheiro – Andreas, assim que entrou, fechou a porta e o agarrou por trás beijando seu pescoço – Adoro vir aqui escondido dos tios quando me bate saudade de ti.
— Vem aqui todo dia então? – Brincou.
— Vai tomar no r*bo, vai – O outro entrou na brincadeira – Faz uma semana que te vi, mas parece uma eternidade.
— Também tava morrendo de saudade de ti, chiclete – Virou-se, roubando um beijo do mais velho – Mas antes de qualquer coisa precisamos resolver certos assuntos.
— Deixa ver se eu adivinho – Revirou os olhos, se afastando – Aniversário do Micael.
— Que bom que o senhor já tá sabendo – Cruzou os braços, sorrindo debochado.
— Pra quê estragar o dia falando daquilo? Já passou! Tudo foi resolvido!
— Tu deu um soco no nosso primo por causa de ciúmes, Drê. Aquele pedido de desculpas que tu deu no outro dia foram suficientes pra não criar um clima péssimo entre todos nós, mas não foi resolvido nada ainda.
— Tu quer que eu faça o quê? Vá em Nova Petrópolis beijar os pés do santo Daniel? – Ironizou.
— Não, Drê – Sentou na cama – Quero que tu tire esse peso de ódio do teu coração. Tu tem noção que tu tá odiando nosso próprio primo?
— Tu só fala isso porque ele é teu protegido – Falou cabisbaixo, mantendo a face fechada – Se eu tivesse socado o Luan, o Levi ou Mica tu ia ficar bem quietinho.
— Eu não sou a favor de violência. Até parece que tu não sabe – Puxou o mais velho para sentar em seu colo – Independente de quem fosse, são nossa família. Crescemos juntos como irmãos.
— E tu acha justo um “irmão” ser mais amado que os outros?! – Contestou – Ainda mais um que não tá nem aí para os teus sentimentos.
— Drê, fala sério. Isso é hipocrisia tua – Notou – Se eu tivesse gostando de ti, tu não estaria reclamando de ser o único “irmão” amado.
O outro nada respondeu, confirmando a hipótese do primo.
— O que mais me incomoda é ele não te amar e tu tá aí rastejando por ele – Confessou – Não é só por ele ser o mais amado.
— Ele me beijou – Confessou.
O mais velho levantou de seu colo e o encarou perplexo.
— C-como é que é, Ian? – Questionou.
— Esse era outro assunto que eu ia falar contigo – Levantou – Mas quis aproveitar teu comentário pra mostrar que não é bem assim. Dan me ama sim... Do jeito dele, mas ama.
Andreas riu fraco, levando a mão direita próximo a sua boca e mordendo fraco seu indicador. Em seguida, socou de leve a escrivaninha. Era óbvio que estava com raiva.
— Que p*rra! – Exclamou, virando para o menor – Pra que ele fez isso?! Pra te enlouquecer é? Não é ele o “hétero top” que só pega quem tem b*c*ta?! O que deu nele?!
— Não. Foi pra ver se encerrava essa história de eu pegar meus primos – Coçou a nuca.
— E adiantou?
— Claro que não – Foi sincero – Quantas vezes vou ter que dizer que eu quero algo a mais com ele?
— E pra que tu tá dizendo isso pra mim? – Revidou – Pra me machucar? Pra me ferir ou quê?
O outro ia responder, porém notou que os olhos claros de Andreas começavam a marejar. Suspirou fundo, colocou a mão em cima do ombro do rapaz e disse:
— Eu sempre pensei que antes de ficantes, éramos primos e confidentes. Mas... Tu tá certo. Esquece o que eu disse beleza?
— Tu já me disse que não vamos mais ficar juntos... Só que isso dói, Ian. Dói muito – Confessou- Toda vez que eu lembro que não vamos mais transar...
— Foi uma das maneiras que eu encontrei pra não te usar, Drê. Tentei preservar o teu sentimento.
— Isso só fez eu me sentir pior. E agora, o Daniel resolve que quer te beijar-
— Eu já te disse que foi pra por um ponto final, c*r*lho. Não vou namorar com ele.
— Mas queria – Encarou-o – E ainda quer.
Ian nada respondeu. Andreas apenas limpou as lágrimas que se formavam e disse algo antes de sair.
— A gente se fala mais tarde. Vou pra casa agora.
Fechou a porta com certa força, deixando o mais novo desnorteado no quarto. Aquela situação o desagradava profundamente. Sentia que esse clima de rivalidade entre Andreas e Daniel ia os afastar mais ainda, e não queria aquilo de forma alguma. Um de seus maiores desejos era manter todos os primos unidos, e ter uma ameaça a isso – causada por ele próprio – o desmotivava por completo. Não tardou muito, fora a vez de Micael bateu a porta do quarto, abrindo-a com um olhar preocupado.
— Tudo na paz aqui, mano? – Perguntou.
— Queria poder dizer que sim – Comentou – Entra aí.
O rapaz assim o fez, se sentando na cadeira preta de couro que havia em frente a escrivaninha.
— Quer conversar?
— Vai ser bom – Sorriu fraco – É tanta loucura pra minha cabeça... Talvez um olhar de fora me ajude nisso.
— Diga aí qual a treta.
— Andreas tá me dando a maior moral e o Daniel, que até outro dia não queria saber de guris, resolveu me beijar.
— Sério?! – Exclamou surpreso – C*r*lho velho, achava que o Dan nunca fosse-
— É... Eu também já tava achando. E foi ele quem me beijou, não o contrário.
— Tipo... Ele chegou e te beijou? É isso?
— Sim.
— Bah! Tu deve ter ido nas nuvens né? Queria tanto isso.
— Não vou negar. Fui mesmo. Só que... Acabei de contar pro Drê, enquanto tentava consertar a c*g*da do teu aniversário. No fim arranjei mais uma pra consertar. Que c*r*lho mesmo...
— Calma aí, velho – Mica colocou as mãos no ombro do mais velho – Tu não tem culpa do que o Drê sente. Eu e os guris já tentamos argumentar com ele, só que o cara não se ajuda!
— Eu curto ficar com ele, de verdade – Admitia – Só que... O amor que eu sinto pelo Dan é maior que qualquer demonstração que eu já tenha feito pra vocês sabe? Eu sinto que só vou conseguir deixar claro os meus sentimentos no dia que eu tiver ele pra mim, e a gente poder trepar todo dia.
O garoto de topete loiro não pode deixar de rir.
— Então tu só consegue demonstrar teu carinho pelo Dan trepando com ele?
— Isso! – Exclamou sorrindo – Sei lá, velho. É tudo tão estranho pra mim quanto é pra vocês. Eu sinto que... Ele é a única pessoa que me desperta esse desejo de vida a dois, saca?
— E a Ágata? Tu não sente nada por ela não?
— Sinto, e até achei que fosse a mesma coisa mas... Agora consigo ver que não é. Essa situação vai acabar me deixando louco.
— Eu tenho a solução – Sorriu malicioso – O que acha de mandar ela pro delícia aqui?
O garoto então o encarou e riu fraco.
— Tu ficou a fim dela? Por que não me contou?
— Respeito, né velho? É tua mina até que se prove o contrário.
— E desde quando tu precisa de autorização? Pensa que eu esqueci da Michele e do namorado que serviu no exército e quase te fuzilou?
Micael tornou a rir.
— Ah... Ele não era meu parente – Colocou as mãos atrás da cabeça – Já tu...
— Tá certo – Continuava a sorrir – Sabe se pelo menos ela investiria em ti?
— Tu é quem tem que me dizer. Pansexual não pega até bicho?
— Não banca o engraçadinho – Mostrou a língua – Primeiro: Pegamos todas as PESSOAS, sem nenhum tipo de julgamento. Segundo: Mesmo assim, ela precisa querer ficar contigo né? Não é assim.
— Tu podia fazer a mão pra mim, né? – Suplicou – Qual é, tu tá lá!
— Posso tentar. Por que não?
— Valeu! – Comemorou, dando um leve abraço no primo – E quanto ao Drê, relaxa. Ele vai se encontrar. É que tem todo o lance de tu ser o primeiro guri dele e tal... Se a primeira mina a gente nunca esquece, imagina o primeiro mano.
O outro riu.
— Vou tentar. Obrigado por me entender, Mica. Significa muito pra mim.
— Agora chega desse clima de enterro e ‘bora lá na redenção – Puxou o rapaz pelo braço – Tem uma surpresa.
— Beleza.
Os rapazes então passaram pela sala chamando Luan e Levi e seguiram para o parque Farroupilha, popularmente chamada de Redenção. Um local de memórias, momentos... Ponto de encontro para amigos, apaixonados, velhos conhecidos, etc. e sendo considerado patrimônio público da capital gaúcha.
Existem várias opções de lazer, como o parque de diversões, os passeios de trenzinho e pedalinhos, etc. Além de diversos recantos, como Orquidário, Recanto Alpino, Recanto Oriental, Recanto Europeu, Solar, Fonte Luminosa, Espelho d’água e Auditório Araújo Viana, o parque conta ainda com 38 monumentos, com destaque para o Monumento ao Expedicionário.
Os primos pararam bem em frente ao Monumento ao Expedicionário, como se aguardassem algo. Micael alternava seu olhar entre o celular e os arredores de onde estavam, confirmando as suspeitas de que esperavam alguém. De repente, visualizou um rapaz vindo na direção do grupo. Estava sob um skate tradicional e sem camisa, mostrando seu peito definido e de cor caramelo. Seus cabelos eram tão negros quanto à noite, contudo as laterais eram raspadas quase zero, sobrando apenas uma tira comprida amarrada por um pequeno rabo de cavalo. Vestia um calção Kappa Xaron de cor azul forte, e em seus pés um par de Tênis FiveBlu Escalator Duo marrom. Seus olhos eram de um verde tão alucinante quanto sua própria persona.
— Não liga pra cara de limão. Ele é tri gente fina – Avisou Mica, sorrindo.
— Quem é aquele? – Questionou Ian.
— Jonathan. Não tá lembrado?
— Jonathan? Tipo, O Jonathan? – Estava incrédulo.
— Sim. Eu te disse que tinha uma surpresa.
Então era aquilo: Jonathan. Não tinha conhecimento dos primos manterem contato com o rapaz, e agora estava vindo em sua direção, atiçando memórias do passado. Um passado bom, difícil de se apagar...
***
Seguir sem alguém para lhe dar alicerce era algo impossível ao jovem Daniel. O rapaz, desde a partida do primo mais velho, parecia estar ligado no piloto automático: Só fazia o habitual e nada mais. Naquela tarde de segunda feira, trabalhou com o mínimo de esforço possível — Para não dizer que não fez quase nada. Chegando em casa, tentou ligar para Vanessa a fim de convidá-la para ir ao “Wunder Bar”, porém a garota parecia continuar a evitá-lo. Não entendia porquê... O que havia feito de errado? Talvez, com o beijo que dera em Ian, isso fosse justificável. Contudo a loira não tinha conhecimento daquele fato para poder ficar brava. O que ocorria então?
Decidira por aquilo em pratos limpos, custasse o que tivesse de custar. Faria isso por duas razões: Querer a verdade e não ficar sozinho em casa sem seu tão adorado primo. Avisou aos pais sobre sua saída e partiu em direção a casa da loira. Assim que chegou em frente ao prédio, encontrou Jeff, Sabine e a família se preparado para partir em viagem.
— Fala aí – Tentou parecer animado – Já estão indo?
— Daniel, não é? – Alícia, a mãe da loira, perguntou simpática – Sim. Estamos indo pra Porto Alegre. De lá, vamos pro Mato Grosso.
— Aproveitem. Dizem que é tri legal lá.
— Essa viagem vai ser f*da demais, tenho certeza – Jeff comentou, encarando Sabine que ficou roxa de vergonha.
— V-veio aqui se despedir, Dan? – Mudou o rumo da conversa.
— Sim, e também porque a Van mora aqui também – Não mentiu, tampouco disse a verdade.
— Oi? – A loira o encarou – Tua namorada mora aqui?
— Sim. Nunca viu ela?
— Não – Estava incrédula – Tu tem certeza?
— Bem Bine, ainda sei onde minha namorada mora né?
A garota não ficou muito contente com a resposta, porém seguiu com uma expressão natural.
— É verdade. Só fiquei assim por que... Realmente, nunca cruzei com ela pelos corredores. Aliás, naquele dia que nos encontramos ela vinha de outro lugar e não daqui.
— Ela gosta de caminhar. Talvez seja isso.
— É... Talvez.
— Bom gente, boa viagem pra vocês. Vou indo nessa – Despediu-se.
— Até! – Todos exclamaram, com exceção da garota, que permanecera com uma face chateada em seu rosto. Jeff, notando a decepção, tratou de colocar sua mão no ombro dela, que o encarou e sorriu fraco, reconhecendo o ato singelo.
Dan continuou a sua ida até o apartamento da namorada. Como o porteiro já o conhecia, pôde entrar sem grandes problemas. Subiu até a porta e tocou a campainha, sendo recepcionado por Vitória, a mãe de Vanessa.
— Oi querido! – Exclamou a mulher, contente – Quanto tempo! Anda sumido hein?
— Muitos compromisso né? – Justificou-se – E a senhora como está?
— Estou ótima! Veio falar com a Van?
— Se a senhora não se incomodar...
— Imagina! Tu és o namorado dela, não tem que pedir permissão.
— Obrigado.
Entrou desajeitado. A presença da mãe de sua namorada o deixava amedrontado, pois Vitória parecia uma mulher altiva, de sociedade, como as esposas de homens multimilionários que via nos seriados e filmes de TV.
— Não interfonou para subir? – Questionou a mulher.
— Não. A minha amiga tava saindo e aproveitei a deixa.
— Ufa! Ainda bem! – Suspirou aliviada – Se eu não tivesse ouvido esse interfone, já ia me consultar com algum médico. Deus me livre ficar surda!
O rapaz riu.
— E o seu Ralf? Como tá?
— O de sempre. Trancado naquele escritório tratando de vendas de um terreno de uma cidade aqui da volta. Nunca vi como trabalha esse homem – Comentava – Bom, vou chamar a Vanessa. Fica á vontade.
Não demorou até que ambas retornassem a sala. A garota estava vestida com um blusão de lã vermelho, calças de abrigo largas, meias brancas nos pés e os cabelos loiros presos a um rabo de cavalo. Parecia tensa com a presença do namorado.
— Vou pro meu quarto e deixar vocês conversarem. Com licença – Disse Vitória.
E assim ambos ficaram se encarando, constrangidos com a presença um do outro.
— O-oi – Van limitou-se a dizer.
— E aí – Respondeu Dan, coçando a nuca.
— Tu... Tá precisando de alguma coisa?
O rapaz então suspirou, encarou o teto e depois a namorada.
— Acho que de uma explicação. Seria bem útil pra mim saber o que eu fiz pra tu tá me evitando.
— Te evitando? Por que acha isso? – Desconversou, em vão.
— Não tenta me enrolar, Van. Eu tô ligado que tu tá bem esquisita desde que voltamos daquele aniversário – Jogou as cartas na mesa – Eu... Eu fiz errado? Não te dei prazer?
— Que isso, Dan?! – Sorriu, indo ao seu encontro e dando-lhe um abraço – Imagina! Tu fez tudo certo.
— Então que p*rra que tá rolando?! Achava que depois de eu ter superado meu problema a gente ia poder ser feliz, mas tô vendo que tem outro obstáculo.
— Aí Dan... – Mordeu o lábio inferior, nervosa – É que... É tão desagradável o que aconteceu.
— O quê? – Pressionou – Algum guri lá... Tentou fazer algo contigo?
— Não – Foi sincera – Tô vendo que não dá pra fugir né? Então melhor falar de uma vez.
— Por favor – Disse impaciente.
— Eu fiquei com a Ágata.
Dan a encarou, mantendo o olhar sério.
— Era isso? – Perguntou.
— Eu juro que eu não tive culpa! Tipo, ela pediu e eu acabei dando um selinho nela pra ver se ela se aquietava. Tá difícil manter isso escondido de ti, só que eu não tinha opção melhor. E também... Fiquei com vergonha de te encarar... Depois disso.
O rapaz ficou quieto, tentando ligar os pontos.
— Por isso tu agiu tão estranho naquela noite – Concluiu – Tu tinha ficado com uma guria.
— E-eu sei que traição não tem perdão, Dan. Por isso eu não quis te contar – A loira parecia realmente chateada.
Notando seu estado, o garoto apenas sorriu e foi abraçá-la para dar um certo conforto.
— Relaxa. Tá tudo bem – Garantiu.
— Mesmo?
— Mesmo – Repetiu – Eu imagino que pra tu ter feito isso, deva ter tido uma razão forte.
— Como eu te disse, ela tava querendo isso faz tempo. Só que... Eu tava negando. Agora que resolvi atender.
— É... Eu... Também atendi ao desejo do Ian – Revelou.
— Sério?! – Van sorriu, animada – Aí, Dan! Que tudo! E o que tu achou de ficar com um guri?!
— Foi normal, apesar de estranho – Comentou – Se era só isso, devia ter me dito.
— Não sabia qual seria tua reação. Tu é tão imprevisível.
Riu do comentário.
— Tem razão. Mas isso me torna exclusivo – Gabou-se, recebendo um leve selinho da garota.
— É convencido hein?
— Problemas resolvidos. Então será que dá pra irmos no “Wunder Bar” ou tá difícil?
— Mas eu nem me arrumei!
— Ué, vai lá. Só não demora muito que não quero criar raízes aqui.
E lá foi a loira se aprontar enquanto o namorado a aguardava. Mal sabiam eles que a noite no “Wunder Bar” estava só começando...
CONTINUA
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