A Teoria das Cores
54 Pêssego II
CONFORTO FÍSICO
Quantos desafios a vida é capaz de nos propor? Existe alguma exatidão nessa conta? Talvez sim, ou não... Quando se trata do destino, nada é tão previsível. O mais superfulo dos atos se torna o mais hediondo em questão de segundos, como uma grande corrente de efeito borboleta, criada unicamente para tornar a nossa existência mais... Divertida, por assim dizer. Todavia, nem todos esses desafios são divertidos ou garantem uma emoção sadia. Alguns podem ser tristes, nos fazendo levantar duvidas até então desconhecidas ou até mesmo nos tirando a vontade de vencê-los. E naquela tarde de segunda feira, Ian tinha mais uma lição a aprender.
Ver aquele rapaz, Jonathan, tão diferente daquele que conhecera anos atrás e que guardava com tanto carinho em seu coração, certamente lhe trouxe uma sensação de nostalgia. Pensou que o mesmo pararia para conversar, no entanto, apenas acenou sorrindo e seguiu seu trajeto. Estranhou. Tanto tempo sem vê-lo e age daquela maneira? Talvez fosse a pressa... Quem sabe?
— Não quis nem parar pra me dar um abraço. Ô ingratidão – Brincou o rapaz.
Mica fez uma expressão suspeita, aguçando ainda mais a curiosidade do primo.
— Jonathan tá sempre correndo por aí. O guri parece que nasceu filho do asfalto – Comentou.
— Ah, mas depois de meses sem ver a minha fuça... Imaginei pelo menos um pouco de saudade.
— Ihhh! Tu tá todo sentimental hoje hein? – Mexeu o outro – Relaxa, mano. Tu vai ficar aqui duas semanas. Vocês vão se ver.
O mais velho tornou a passar o olho pelas ruas a fim de encontrar o rapaz, porém já tinha sumido no horizonte. Vinham-lhe a cabeça mil e uma lembranças de sua puberdade, quando conhecer o corpo alheio era prioridade maior do que naquele presente momento. Longas tardes jogadas fora com “brincadeiras” ou “toques” em lugares indevidos... Jonathan esteve presente em todos eles, e recordar de tempos como aquele faziam seu membro querer dar seus sinais de vida.
— Quer dar mais uma volta? Já que o John não parou pra trocar uma ideia...
— John?
— É como apelidamos ele.
— Super original – Debochou.
— Vai pra p*rra, Ian.
O mais velho caiu na gargalhada.
— ‘Bora andar então, sedentário.
— Sedentário o c*r*lho! Tô fazendo academia duas vezes na semana.
— Não sei pra quê. Tu já tá tão gostosinho.
— Começou a piranha da família.
— Eu sou mesmo – Colocou as mãos atrás da cabeça, sorrindo – Dei uns pegas bem delícia com todos vocês. Não vem negar.
— Espalha isso pra tu ver se não digo por aí que tu tem verruga no pau – Ameaçou Mica, em tom de brincadeira.
— TU CORRE! SENÃO VOU TE PEGAR!
Ambos então iniciaram a corrida, para a confusão dos primos mais novos que estavam logo atrás, mas não demorando a entrar na brincadeira também. Percorreram a Redenção toda, se divertindo como crianças inocentes aprontando das suas. Alguns minutos mais tarde, pararam para comer novamente. A fuzarca tinha atiçado o estômago.
— Como tu consegue comer acarajé? – Questionou Luan a Ian – Isso aí é ardido pra p*rra!
— Quando fui pra Bahia, comi feito louco – Respondeu – Gosto de coisas mais picantes.
Os primos se entreolharam, maliciosos.
— A gente sabe – Mica comentou – E põe picante nisso.
— Foi vocês que maliciaram. Eu tô de boas aqui – Defendeu-se enquanto mordiscava a especialidade gastronômica.
— O Jonathan deve saber mais que nós – Levi deduziu – Afinal, vocês tiveram um lance bem profundo né?
— Uma relação picante? Bom... – Recordava-se – Tivemos bons momentos, se é isso que quis dizer.
— Quais? – Interessou-se Luan.
— Chupei o pau dele as 3 da matina no meio das árvores daqui – Sorria malicioso.
— Que nojo – Mica comentou, fazendo uma expressão desgostosa acompanhado de Levi.
— Tu fala porque não foi tu. Mas calma, primo! Tem Ian pra todo mundo – Mexeu o rapaz, atiçando o riso dos demais.
— Tu não presta, velho – Bateu fraco no ombro do outro – É bom te ter de novo.
— É bom tá de volta também. Pena o Drê ficar de c* doce e não vir junto.
— Deixa ele. Acredite, trazer ele junto ia parecer um velório.
— Que jeito de falar, Mica. Até parece que o guri é um antro de tristeza.
— Eu amo ele, mas não vou ficar tapando sol com a peneira. Ultimamente ele anda insuportável, ainda mais quando o assunto é tu e o Dan.
— Eu vou resolver isso. Prometo.
— Mas por hora – Desconversou – ‘Bora comer algo lá no sushi?
— Eu acabei de comer acarajé. Vou vomitar se comer outra coisa.
— Então toma no teu c*. Eu e os guris vamos. Pilha, Levi?
— Pilho! – Disse animado.
***
Trabalhar ainda é um exercício difícil de ser digerido, não importando o quanto seja divertido ou interessante. Porém, Alisson achava um balsame não precisar ficar sozinho com seus pensamentos. O fato de tantos acontecimentos inesperados terem acontecido em sua vida nos últimos tempos o deixaria louco. Estar no “Wunder Bar” ajudava muito na distração de sua mente, mas e quando os problemas vinham até ele pelas próprias pernas?
Noite de segunda feira, fria na Serra Gaúcha, de céu claro e estrelado, porém tão frio quanto no Ártico. O local estava às moscas — quase que literalmente, uma equipe inteira a disposição de apenas uma pessoa.
— Isso aqui tá deprimente – Comentou Al com Gina – Certeza que não tem reserva pra hoje?
— Absoluta – Confirmou a garota – Essa concorrência nova e esse frio não contribuíram muito também. Tô com medo.
— De quê?
— Do seu Antero fechar as portas de vez, claro! – Sussurrou – Essa doença que deu aí numa parente dele, somado aos dias que andamos fechando mais cedo ou não abrindo, isso tudo pesa quando botado na ponta do lápis.
— P*rra – Coçou a cabeça – Será que rola mesmo?
— Não sei. Acho que-
— Boa noite! – A voz de Vanessa trouxe os funcionários de volta a realidade – Poderia nos dizer se tem mesa pra dois?
— Eu vou ver aqui no sistema.
— Ué, mas tu não acabou de dizer que- Al estava prestes a falar, quando a garota o interrompeu.
— Eu vou ver aqui no sistema – Deixou a entonação mais forte, para demonstrar que não queria ninguém interferindo – Temos reservas para hoje, então...
— Ah... Sim. Tudo bem – Respondeu à loira.
Foi então que duas coisas ocorreram na mente do rapaz: Gina estava aplicando uma tática para não desmoralizar o estabelecimento, e que a loira em questão era a namorada de Daniel. Portanto, se a mesma estava ali, significava que...
— Essa p*rra de casaco enganchou no corrimão da escada! – O próprio entrou, atraindo tanto a sua atenção quanto da namorada.
— Custa tomar um pouquinho mais de cuidado quando sobre as escadas? – Reclamou ela – Ainda bem que não caiu e se machucou.
— Tá escrito na minha testa adivinha agora?
— Hã... Senhores – Gina chamou a atenção dos presentes – Temos mesa para dois sim. Alisson, por favor, acompanhe o casal até a mesa três.
— Gente! Eu não tinha notado que era tu! – Van pareceu surpresa ao reparar no rapaz – Como vai? Tá melhor?
— Melhor? – Al não compreendeu.
— Sim. Da última vez que estive aqui, tu me pareceu mal. Melhorou?
Fora então que se lembrou da ocasião: No dia em que Gil lhe beijara. Seu corpo arrepiou por inteiro, mas para não ser indelicado, acabou por responder.
— Tô bem sim. Valeu pela preocupação.
— O bebezão tá sempre com cara de pinguço. Não liga não, Van – Dan provocou.
— Melhor que ter essa cara feia de capivara, não concorda pateta? — O menor fechou a cara, ao passo que Gina e Van se controlavam para não rir – Por aqui, donzela e namorada da donzela.
— Vai tomar no teu-
— DANIEL! – Exclamou, dando um beliscão no braço do outro.
— EI! Doeu sabia?!
— Não me faz passar vergonha na frente dos outros.
— Ele disse que tenho cara de capivara! Tu devia ser a PRIMEIRA a me apoiar.
— Para de ser infantil e acompanha o moço.
— P*rra...- O garoto acompanhou.
Al sorria vitorioso. Pelo menos a provocação havia aliviado sua apreensão em ver o rapaz ali. Era tudo que não precisava, mas como o acaso não lhe deu opções tinha de lidar com a situação e revertê-la a seu favor.
— Vão querer o de sempre? – Questionou ao casal.
— Pra mim sim. E pra ti, Dan?
— É Dan... E pra ti? – Debochou o rapaz, tirando novos risos da namorada.
— Isso aqui é um café colonial ou um restaurante? – O namorado da loira revidou.
— Perguntei porquê... Né... Vai que a madame queira algo?
— Mas a Van já disse que não quer nada. Tá com cera no ouvido, bebezão?
— Não tô falando dela.
Fez um gesto obsceno ao atendente, que sorriu debochado.
— Já trago o rango de vocês.
— Traz logo, corpo mole – Exigiu.
— Fala assim comigo de novo, pateta, que te faço ir na cozinha buscar as coisas pra tu comer.
O outro bufou e cruzou os braços, só então Al seguiu para a cozinha entregar o pedido. Ficara parado a olhar os dois, como se os examinasse. Teria Dan se recordado daquela fatídica noite? E se não se lembrasse, pelo menos algum resquício estava sentindo? Estava pasmo consigo por ainda estar tão focado nas consequências daquilo, afinal nem o beijo de Gil o surpreendera tanto.
— Viajando na maionese aí, Al? – Falando nele...
— Quem dera... – Respondeu, pensativo – Problemas meus. Só isso.
— Tá a fim daquela loira?
Encarou o colega, perplexo.
— Não! – Exclamou – Tá maluco?!
— Ué, tá aí encarando ela. Só pode ser isso.
— Não fala o que tu não sabe, velho.
— Tudo bem. Não tá mais aqui quem falou – Levantar as mãos de leve – O que te incomoda então?
— Por que tu quer tanto saber hein? – Estava se irritando com tantas perguntas.
— Só tô puxando assunto. Mas se te incomoda...
Ficaram então em silêncio, com Al ainda a observar o casal. O pedido deles logo foi feito e ele próprio o entregou., retornando ao lado de Gil poucos minutos depois. Não aguentava mais ficar com aquilo engasgado, sem ter com quem dividir (Já que os amigos, aparentemente, tinham aplicativos de mensagem pra enfeites no celular). Cutucou o ex de Ian no braço e fez um gesto para que o acompanhasse ao depósito. Talvez não fosse a melhor escolha para o primeiro, mas era o que lhe ocorreu e o único disposto a ouvi-lo.
Assim que entraram, o mais novo fechou a porta e pediu ao mais velho que sentasse. Suspirou fundo, era difícil e constrangedor falar sobre aquilo para terceiros.
— Vou ser bem direto. Tranquilo? – Perguntou.
— Tu que sabe.
— Beleza – Suspirou fundo – Eu fiz uma m*rda e agora tô com peso na consciência.
— Grande novidade, Al – Zombou.
— É sério c*r*lho! Foi das grandes dessa vez.
— Pra tu estar desse jeito deve ter sido mesmo.
— Eu... Meio que... Beijei aquele guri que tu viu.
— O DANIEL?! – Exclamou, pasmo – Como assim tu beijou o Daniel?
— Ué, beijando. Quase como tu fez comigo – Não pôde deixar de alfinetar – Só que estávamos bêbados e-
— Espera; me explica isso direito – O outro estava com um nó formado em seu cérebro – Não é possível que ele tenha feito isso. Tu tá viajando mesmo.
— Por que tu acha que não pode ter ocorrido?
— Ele sempre foi mega “Eu sou o heterotop, gostosão e apreciador de b*c*tas” e agora vem com essa?!
— Eu tô te falando. Tu acha que eu ia largar um caô dessa proporção? A troco do quê?
Gil então encarou o teto, pensativo.
— Como isso ocorreu? De verdade.
— Eu já falei: A gente bebeu e eu acabei... Me passando.
— Então foi TU quem beijou ele?
— E ele retribuiu! – Acrescentou – Não vem jogando a viadagem toda pra cima de mim! Ele RETRIBUIU!
— Como assim? Isso tá me dando um nó na cabeça – O rapaz parecia mais confuso que cego em tiroteio.
— Tu tem demência? Não escutou nada do que te falei, não?!
— Mas é difícil de acreditar. Tá, quando eu te beijei foi uma coisa, agora daí a tu ir beijar outro guri?
— Olha, eu não sei o que deu beleza? Não sei. O que eu sei é que aconteceu e o pateta não lembra de nada.
— Então é por isso que tu tava olhando os dois. Achava que era a moça, mas agora – Sorriu malicioso.
— Cala boca e me ajuda a pensar em algo.
— Pensar em quê? Tu não falou que o guri não lembra de nada?
— Sim.
— ENTÃO! – Exclamou – Se ele não, pronto. Fim do assunto.
Al refletiu. O colega tinha razão, afinal não tinha como Daniel se intimidar com algo que sua própria mente fez questão de esconder.
— É... Talvez o melhor seja agir naturalmente mesmo.
— Agora, me responde só uma coisinha.
— Fala.
— Por que tu tá te importando tanto com isso hein? – Seguia com um sorriso cheio de segundas intenções no rosto – Será que esse fato mexeu mais do que devia contigo, Al?
O outro sentiu seu rosto começar a arder de vergonha. Contudo, decidiu que não deixaria aquilo transparecer para o mais velho.
— Vamos voltar. Já deve tá cheio de mesas pra atender – Saiu rapidamente, deixando um Gil bastante curioso para trás.
***
Há certas inconveniências que a vida nos obriga a passar, simplesmente pelo prazer de nos meter em encrencas e mal estares. Vanessa, por exemplo, quando brigou com Daniel, sentiu-se horrível ao cruzar com ele a primeira segunda feira após ele ter descoberto sua transsexualidade. Viu, naquela manhã, o olhar de ódio que o namorado lhe lançara, nascendo em si um imenso medo de que tudo o que viveram fosse descartado por algo que está muito além de seu corpo físico. No entanto, estavam ali, em uma segunda feira às 20h a esperar pelo que seria seu jantar, em uma noite propícia para um casal como eles. Só que a loira não esperava o que iria lhe acontecer.
— Espero que tu tenha gostado de vir aqui. O café novo é uma facada no rim e três no coração – Comentava Dan, arrancando risos dela.
— Fica frio. Adoro o Wunder Bar – Garantiu – E os atendentes daqui são muito queridos.
— Muito metidos isso sim.
— Ah, para de implicância com ele! Acho ele divertido.
— É um bebê chorão, isso sim. Fica me arrastando pra fazer compras com ele. Dá pra acreditar nisso?
— Vou pedir a receita pra ele, porque quando eu quero te fazer ir comprar roupas tu se nega até a morte.
— Aquele dia ele me pegou desprevenido. Ele vai ver só.
A loira riu.
— Eu acho incrível essa tua capacidade me querer se mostrar de mal pro mundo.
— Ué, o que eu fiz?
— Fica aí, querendo se fingir de ofendido só porque saiu com um cara.
— EI! Sair o c*r*lho! No máximo dei um rolê com ele, e já acho exagerado chamar assim.
— É disso que tô falando – Cruzou os braços e encarou-o – Dan, quando é que tu vai deixar o mundo te invadir e mostrar a pessoa maravilhosa que tu é?
Revirou os olhos, encarou o teto e em seguida a namorada. Suspirou.
— Eu falei com o Ian hoje sobre isso – Lembrou – Eu tô tentando sabe? Eu tô me adaptando no meu tempo a tudo isso. Só que... C*r*lho, vocês querem que tudo ocorra do dia pra noite.
A loira então sorriu, pegou na mão do namorado e o encarou sorrindo.
— Respeito, Dan – Falava – Tu não precisa entender para respeitar. É só tu seguir a tua vida, e tu já tá fazendo isso – Baixou o tom da voz – Beijar teu primo hoje já é uma grande prova.
O rapaz ficou roxo de vergonha.
— F-foi só pra acabar com isso de uma vez – Justificou.
— E como foi? Tu não me contou direito sobre a experiência.
— Ah... Foi normal, mas estranho ao mesmo tempo saca?
— Mais ou menos – Coçou a nuca – Esqueceu que eu beijei minha ami-
A garota não chegou a concluir a frase, quando viu Ágata entrar junto de um garoto que tinha visto-a trocando beijos na praça certa vez. Ficou gélida, ato que fez Dan encarar na direção em que olhava, muda.
— Tu... Quer ir embora? – Questionou.
— Não – Respondeu, firme – Acho que já tá na hora de enfrentar essa situação. Tô desde o aniversário do teu primo evitando isso.
— Certeza?
— Absoluta – Disse já se levantando e indo em direção onde a garota estava.
Cada passo que dava em direção a ela, era uma aflição. Era difícil ter de encarar algo que não queria que tivesse acontecido. Improrrogável a conversa sobre.
— Miga? – Chamou ainda temerosa.
— Mas guria! – Exclamou a outra, dando um abraço – E aí? Como é que tá?
— Bem – Respondeu tímida.
— Deixa eu te apresentar. Esse é o Diógenes, já te falei dele?
— Sim – A garota sorriu ao menino – Sou Vanessa.
— E aí – Cumprimentou o referido, ainda sem jeito.
— Tá sozinha? Pode vir com a gente! Acho que o- Ágata falava, quando foi interrompida pela loira.
— Não. Eu vim com o Dan.
— Ah, sim! – A morena procurou o rapaz. Assim que o enxergou, acenou – Manda um abraço pra tua mulinha.
— Antes... Eu queria trocar uma ideia contigo. Pode ser?
— Se importa, Dio?
— Vai lá – Garantiu o rapaz.
Gil fora o encarregado de levar Diógenes até a mesa, que curiosamente era à frente de onde Vanessa e Daniel estavam. Enquanto isso, as meninas se dirigiram a parte externa do lugar.
— Não precisa nem dizer sobre o que tu quer falar – A morena já disparou – Já sei.
— Então tu também sabe que eu tô me sentido péssima com isso – A outra respondeu a altura.
— Ai, Van! Que coisa! Por que tu tá com essa neura toda?
— Porque eu namoro, mulher! Eu tô com um p*to remorso.
— Eu acho que tu tá se culpando por pouca coisa.
— Pouca coisa? Como assim?
— Miga – Pegou nas mãos da loira – Eu nunca escondi que tive interesse em ti, mesmo quando tu ainda era Adam. Tu sempre foi uma delícia, seja com corpo de homem ou de mulher.
A outra riu fraco.
— Não justifica termos feito o que fizemos.
— Se o Dan não fosse tão cabecinha de vento, também teria dado uns pegas no gostoso do primo dele – A loira então engoliu seco. Não era um bom momento ela descobrir que aquilo de fato ocorreu – É normal termos curiosidade, miga. Até héteros têm! Se não fosse isso, eles não queriam tanto ver o corpo das meninas ou dos meninos.
— E como isso entra no nosso problema?
— Em tudo. Sentia curiosidade de te pegar, fui lá e peguei. Pronto. Fim do dilema. E não foi traição, foi só um beijo. Não é como se tivéssemos excedido muito os limites.
Van ficou pensando. Teria o pensamento dela alguma lógica?
— Certeza?
— Tanto quanto tenho do meu nome – Sorriu – Relaxa, menina. Não tô brava do quase vácuo que tu me deu essa semana.
Ficou vermelha de vergonha.
— D-desculpa. Precisava de um tempo pra pensar e por às ideias na cabeça.
— Tranquilo – Garantiu a menina – Me diz uma coisa: O Daniel soube?
— Sim – Confessou – Não tinha porquê ficar mantendo esse segredo sozinha.
— Pois então. Mais um motivo pra deixar isso pra lá.
— Amiga então? – Sorriu.
— Amigas – A outra retribuiu, dando um novo abraço.
***
21h35min. O Wunder Bar, como previsto por Gina, não deu muito movimento para um início de semana. Além da dupla de casais, havia apenas mais um idoso que logo foi embora. Resolveram usar uma mesa única para os dois casais, se divertindo contando piadas e histórias hilariantes.
— Sério que tu fez uma loucura dessas, mulher?! – Van questionava a amiga enquanto ria.
— Sem uma aventura, a vida fica sem graça – Justificou.
— Mas atiçar um galinheiro pra correr atrás de ti?! – Foi a ver de Dan perguntar.
— Eu era uma pirralha. Mas aquele dia foi louco.
— Conseguiu superar o dia que o Ian jogou uma rã dentro da minha cueca.
— AHHH! Ele me contou desse dia! Morri rindo, mas com respeito.
— Quem nunca levou uma trapaceada do primo, né mano? – Dio se intrometeu.
— O Ian era uma peste quando era guri! P*ta que p*riu! – Exclamou Dan – Além dessa vez, teve outra que-
Começara a contar, enquanto Al ia renovando a mesa com os comes e bebes. Fora então que o problema ocorreu: Em dado momento, o namorado de Vanessa estava para comer um dos salgados dispostos na mesa quando o colocou mergulhado em molho de alho. Pois bastou dar algumas mordidas para começar a sentir algo estranho em sua respiração. Suas vias aéreas começaram a trancar, e seu rosto a ficar roxo devido a falta do ar. Estava tendo uma reação alérgica.
— Dan? – Van começou, preocupada – Daniel? Tu tá bem?
— Ar... – Fora a única coisa que conseguira falar – E-eu preciso de... Ar.
A alegria então começou a dar lugar ao pânico. Os demais tentaram dar água a ele, porém de nada adiantou; abaná-lo também não se mostrou muito eficiente.
— Meninos! – Gritou Ágata a Gil e Al – Liguem pra uma ambulância. Meu amigo tá passando mal!
— Pateta? – Só então que Alisson se deu conta de quem se tratava- Pateta! Daniel!
O rapaz correra com toda sua força até onde o grupo estavam. Assustou-se com a situação crítica do amigo.
— Daniel! Olha pra me mim e me escuta – Tentou parecer calmo – Fica frio, cara. Não fica mais nervoso.
O outro então passou a obedecer.
— Aqui! – Gil então chegou com uma seringa com agulha – Eu tenho isso pro caso de eu passar mal também. Eu tenho problema de crise alérgica também. Acho que vai ajudar.
Dio e Van seguraram o braço do rapaz, para que Gil pudesse aplicar o remédio.
— Tenta fazer respiração boca boca – Sugeriu Ágata a Al.
— O quê? Pra quê? – Indagou.
— Se o ar volta fluir, acho que pode ajudar. Sei lá! Mal não há de fazer né?!
Al então olhou Daniel, encarando seu estado. Não tinha opção, afinal como bem disse a morena, mal não ia fazer. Aproximou-se perto de seu rosto, já sentindo sua testa soar frio, e aproximou seus lábios dos dele. Forçou rapidamente a entrada de ar, encarando o menor no olho. Este o encarava curioso, assustado, mas nada fazia. Al afastou-se, tomou ar e retornou, seguindo o mesmo processo anterior. Ambos se encaravam, com Dan tentando saber porquê aquela sensação lhe era tão familiar. O maior certamente sabia, e isso também lhe trazia a mesma coisa, sem que tivessem conhecimento.
Aos poucos a situação foi normalizando e a respiração boca a boca já não se fez mais necessária. Aquela altura, até mesmo seu Antero com os demais funcionários estavam ali (Em sua maioria pela curiosidade, como em geral acontece nessas situações). O enfermo deu um último suspiro, aliviado, fazendo com que Al sorrisse.
— Viu a Hebe te chamando, pateta? – Não pôde deixar de fazer graça. O menor riu fraco.
— Quase – Retomava fôlego para falar – Valeu, bebezão. Tu também... É Gil né?
— Isso – O garoto respondeu.
— Valeu.
— Alisson, quer levá-lo até a minha sala para repousar um pouco?
— Não precisa. Obrigado – Agradeceu Dan.
— Pelo menos um ar tu precisa tomar então – Disse Al – Vem que eu te levo.
— Obrigado viu, Al? – A namorada também se sentia grata.
— De nada – O outro respondeu, auxiliando o garoto a levantar e seguir até a rua onde outrora estava Ágata e Vanessa.
Ajudou Dan a se apoiar no corrimão que havia ali. Ficaram em silêncio enquanto este respirava fundo, como se mostrasse que estava grato por não ter ocorrido nada pior.
— Bom tomar um ar? – Al puxou conversa.
— Aham –Respondeu – C*r*lho, e pensar que há alguns segundos eu tava parecendo um peixe morrendo.
O maior riu.
— Acontece, pateta. Acontece.
— Fazia milênios que comia pasta de alho e nunca deu nada. O que será que rolou?
— Talvez algum outro ingrediente novo que tenham colocado e tu seja alérgico, não sei – Não tinha certeza do que poderia ter causado aquilo – Pelo menos tu me escutou quando eu disse pra tu ficar quieto.
— E eu tinha outra opção?
— Tinha. Inchar igual um balão e explodir no meio do Wunder Bar. Já pensou? Ia ficar famoso na capa do jornal.
Ambos riram. Mais alguns segundos em silêncio.
— Bebe- Dan ia falar, porém, decidiu variar – Al...
Isso causou espanto até para o referido.
— Diga – Estava com um rosto pasmo.
— Tem algo de estranho entre a gente?
Soou frio novamente.
— Como assim estranho?
— Não sei – Tentava explicar – Só sinto que... Algo não tá certo entre a gente. Tu não sente isso?
— Paranóia da tua cabeça, pate- Al então resolveu entrar na onda – Dan.
— É... Talvez. Nos divertimos da última vez que saímos juntos.
— A das compras? E ainda me chamou de Barbie né? – Fez-se de esquecido.
— Não, velho. Aquela sexta depois do último dia de aula. Foi f*da aquele dia.
Encarou novamente o garoto, surpreso com tais comentários.
— Finalmente lembrou? – Ousou.
— Não. Isso que acho estranho – O maior suspirou, aliviado – Mas acho que me diverti. Ian pelo menos não me desmentiu nesse sentido.
— Acho que sim – Deu de ombros – Gostei daquela noite. Foi... Bacana.
— O que rolou lá?
Al então engoliu a seco a pergunta.
— Melhoras aí – Colocou a mão esquerda no ombro do amigo enquanto sorria. Dirigiu-se para dentro estabelecimento, deixando-o ali sozinho.
“- E... Tu achou o quê?
— Do beijo?
— Não, do vômito que tu fez depois.
Al revirou os olhos.
— Só pela resposta eu devia te deixar no vácuo. Mas como sou uma pessoa boa, vou te dizer que achei... Bem... Mediano.
— Como assim mediano?
— Sei lá p*rra! Nem deu pra sentir direito! Fiz com tanta má vontade que até me deu pena do Gil só de lembrar!
Dan riu.
— E em condições normais seria como?
Al o encarou.
— Essa pergunta foi maliciosa – Sorriu cínico.
— Eu só fiz uma pergunta. Não disse “Vem cá e me mostra”.
Al, num impulso certeiro, beijou Dan. Beijou-o exatamente como, na teoria, devia ter beijado Gil. O ato não durou muito, mas o suficiente para Dan o encará-lo surpreso.
— E quem é a bichinha agora, pateta? – Riu ao dizer.”
O flashback então tomou conta da cabeça de Daniel, que ficou pálido. Finalmente havia lembrado.
CONTINUA
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