A Teoria das Cores
55 Branco V
INGÊNUO
Querendo ou não, a vida sempre irá nos surpreender. Seja no amor, na fama, no dinheiro... Há sempre uma nova face que pode ser nos revelada de uma hora para outra, nos tirando da comodidade e nos guiando para um novo “óculos” de conhecimento e experiência. Nem todas são boas ou nos dão a alegria que gostaríamos, mas ao fim tudo vale como aprendizado. E era nisso que Daniel buscava focar desde que sua mente resolveu desfazer o mistério acerca da tão fatídica sexta-feira. Conforme os três dias sucedidos a noite no “Wunder Bar” foram passando, tinha cada vez mais certeza de seus pecados cometidos em vidas passadas e suas penitências no seu presente. O universo realmente lhe via com maus olhos, não via explicação mais lógica.
Quinta feira a noite foi quando a coisa pareceu piorar um pouco mais. Dan guardara para si que finalmente havia descoberto sobre a noite na Praça da República, já que Ian não estava ali para lhe ouvir e ajudar a encontrar uma solução. Acabou por aceitar o convite da namorada para passar a noite em sua casa a fim de espairecer e, quem sabe, poder superar isso de uma forma mais atrativa. Torcia para na próxima vez que encontrasse com Alisson pudesse por em pratos limpos com a cabeça menos entortada. Pela a que julgou ser a primeira vez na vida, decidiu não explodir logo de cara. Achou que agir mais friamente poderia trazer menos alarde.
Chegou à casa da loira em torno das 20h38min, ficando por mais de meia hora conversando com seus pais e com a própria na sala de estar. Jantaram ainda animados, mesmo com Dan estando com a cabeça ainda atordoada. Contaria a Vanessa naquela noite sobre o ocorrido, aceitando até mesmo a possibilidade da menina querer um tempo afastados para compreender tudo. Pudera, ele próprio o queria. Tantas coisa acontecera que nem teve tempo de assimilar. Talvez fosse bom partir dele a ideia do “tempo”? Manter o segredo guardado por mais tempo? O que fazer diante de uma situação tão confusa para sua jovem cabeça.
— Eu tava pensando em convidar o Ian e a Ágata pra outra noite no camping? O que tu acha, Dan? – Perguntou a garota, quando já estavam no quarto sozinhos.
— É uma boa – Concordou – Aquele dia, apesar de tudo, foi bem f*da.
— Só não vai brigar com teu primo de novo, como da outra vez.
— ‘Pera, tu vai convidar ele agora?
— Sim. Por quê?
— Esqueceu que ele foi pra Porto Alegre?
— Tá, mas quando ele volta?
— Só pro fim das férias.
— Ah – Lamentou – Bom... Acho que vamos nos programar pro verão então.
— Isso – Agradeceu mentalmente. Não havia esquecido o episódio na cachoeira, que agora fazia mais sentido que na época.
— Ele sabe o que houve contigo? No Wunder Bar?
— Não. Tentei falar com ele, mas ele não respondeu. Nem recebeu as mensagens.
— Estranho. O que será que houve?
— Veremos quando ele responder.
Mais algum tempo em silêncio. Estava encarando seu aplicativo de mensagens, com foco em uma conversa. Ficou surpreso ao receber a seguinte mensagem do tal contato.
“Hey, pateta. Tá melhor? Topa vir aqui em casa jogar FIFA? O Adrian e a Mandy vêm também. Voltaram mais cedo de uma das competições”
Era Alisson. Sentiu um nó formando em seu estômago devido ao nervosismo. Nem mesmo ele sabia do retorno de sua memória da fatídica noite.
“Eai. Cara, tô com a Van hj. Fica pra próxima”
Limitou-se a responder. Tinha ciência de que estava por tardar a solução, todavia o que mais poderia fazer? Estava com medo, acuadado, órfão de ideias e pensamentos práticos.
“Ué, só traz ela junto. Tô te esperando! Flw”
Foi então que a namorada percebeu o incomodo do outro. O encarou buscando respostas.
— Tudo bem? – Questionou.
— Sim – Tentou soar convincente.
— Dan...– Falou em um tom como se o pressionasse.
— Nada ué. Só o Alisson me convidando pra jogar Fifa na casa dele. Era isso que queria saber?
— E por causa disso tu tá com essa cara de quem viu a avó pelada?
Riu fraco.
— Bobagem tua. Tô de boa.
— Fala sério! Eu te conheço há quase três anos! Eu sei quando tem algo te incomodando, o que, diga-se de passagem, acontece com BASTANTE frequência.
— É a falta do Ian – Tentava arrumar desculpas – Só isso.
A loira suspirou, foi até o namorado sentado em sua cama e acomodou-se ao seu lado. Segurando sua mão, o encarou com um olhar cúmplice para que o mesmo sentisse que estava seguro.
— Se não quer falar tudo bem. Só não acho que estar guardando, seja lá o que for, esteja te fazendo bem.
— Valeu – Sorriu.
Deu um beijo rápido no namorado antes de levantar e ir em direção ao seu guarda roupas. De lá, abriu uma gaveta e tirou de dentro um DVD. Colocou-o no seu notebook e aguardou.
— Pode vir aqui? – Pediu ela. O rapaz consentiu. Levantou-se e se aproximou da namorada, encarando a tela do aparelho — Eu... Quero te mostrar um vídeo.
— Vídeo?
— É um... Mais especial – Explicou, sem jeito – Andei pensando muito sobre o que estávamos conversando aquela noite que jantamos fora, e decidi te mostrar.
— O que isso tem haver com o que conversamos?
— Muito – Sorriu novamente – Aguarde e verá.
Ficou observando a tela abrir o reprodutor de mídias segundos depois. Mostrava um garoto, criança ainda, loiro com vários cachos, olhos verdes e pele clara. Aparentemente, brincava em algum jardim que Dan não reconhecia.
“- Gostou daqui, filho?- Era a voz de Vitória.
— Sim, mãe – Respondia o menino, alegremente – Eu adoro a casa da tia Ângela. É bem grandona!
— Né? E da pra ti brincar bastante! Olha lá teus primos! – Apontou a câmera então para dois garotos, de aparência um pouco mais velha, que jogavam passe de bola – Não quer pedir pra ir brincar com eles?
— Não. Futebol é chato.
— Como assim, filhão? – Ralf indagou – Não tá vendo como os teus primos tão se divertindo?
— Tô sim. Mas eu não gosto. Queria ir lá pra dentro continuar brincando com a boneca da Emilia! É muito mais legal!
Alguns segundos de silêncio no vídeo, até o próprio menino questionar os pais, intrigado com suas faces questionadoras.
— O que foi, mãe?
— Nada, filho. Só... Queremos saber... Tu gosta mesmo de brincar com a boneca da Emilia.
— Sim. Muito – Respondia sorridente.
— E... Por que tu gosta tanto? – Ralf novamente se intrometeu.
— Eu acho ela divertida! Ela brinca comigo, fica para o nosso chá, conta piadas que eu gosto e me ajuda a escolher roupas legais pra eu vestir.
— Como assim?
— Ela me disse que eu fico linda de vestido rosa! – Contava, animado – Ela me chama de Vanessa toda vez que eu entro no vestidinho.
— Vanessa? – Vitória comentou, com a voz um pouco chorosa – Mas filho... O teu nome não é esse. Tu sabe qual é, né?
— Mas eu não gosto! – Reclamou – Eu gosto de Vanessa. Mãe, porque eu não posso usar esse nome?
— Porque... – Engoliu seco – Porque é um nome pra meninas, meu amor.
— Então eu quero ser um menina!”
Alguns minutos de silêncio e então acabou o vídeo. Dan ficou em silêncio, analisando em sua cabeça as imagens que assistiu. Uma criança, um menino como ele próprio foi outrora, assumindo com convicção que não gostava de ser quem era e tampouco das imposições as quais queriam lhe fazer engolir.
— Meu pai conta que, no dia que gravou esse vídeo, tinha a intenção de mostrar uma partida entre o Adam e seus primos — Contava Van – Mas... O que aconteceu foi que... O Adam queria brincar com uma boneca antiga que tinha no baú de brinquedos da casa da tia...
— Tu... Praticamente se assumiu na frente deles – Estava pasmo – Tipo, um guri que não queria ser um guri.
— Não fui eu quem me assumi. Foi o Adam.
— Por que tu não gosta de ser associada a ele? Afinal, vocês dois são a mesma pessoa, não?
A loira surpirou.
— Não somos a mesma pessoa, Dan. Eu sou eu, ele é ele. Sei que é meio confuso, mas eu só me senti eu mesma quando finalmente a terapia hormonal foi concluída. Esse guri que tu viu no vídeo faz parte de um passado que não é meu entende?
— Mais ou menos – Coçou a cabeça – Por que tu me mostrou isso então?
— Pra te mostrar que não existe esse negócio de “ser gay/bi/trans é modinha”. Muitos como eu Dan, MUITOS, são assim desde criança. Na infância já deixam claro que caminhos querem seguir, sendo mais definidos que muitos adultos.
— Tô percebendo... – Disse – Mas... Existe a chance de alguém se descobrir muito depois?
— Sim. Ás vezes, a pessoa certa faz com que enxerguemos o mundo de uma nova forma. Tem gente implicante que diz que isso é “pessoismo”, que seria quando uma pessoa vira “bi” por uma única pessoa. Mas, pra mim, isso é idiotice. No fundo, mesmo que seja uma pessoa específica que te encante, tu já vai olhar para outras e sentir mais confortável a elogiar, a comentar...
— Tipo um guri transformar outro guri em gay e aí eles passarem a fazer viadagens juntos?
A garota riu.
— Mais ou menos isso. Mas a palavra não é transformar e sim florescer. Conheço vários guris bissexuais que se descobriram depois de ANOS ficando só com gurias.
— Sim – Falou pensativo – Van...
— O quê?
— Eu tenho... Algo pra te dizer.
— Agora?
— Sim. Meio que é sobre isso então... Queria esclarecer uma dúvida contigo.
— Diga.
Pensou um pouco. Será que deveria falar com a namorada a respeito do problema com Alisson? Queria muito desabafar com alguém, aquilo estava lhe sufocando. Encarou o olhar da outra na esperança de criar coragem, todavia o que ocorreu foi o contrário.
— Tu tá me mostrando isso por causa do que rolou entre tu e a Ágata? – Mudou o foco da pergunta.
— Não, é claro que não – Sorriu – Não senti nada demais em beijar uma guria. Só... Aconteceu e pronto. Ficou com medo?
— Pra tu vir falando desses assuntos comigo sem motivo algum...
— Fica calmo – Deu um selinho no rapaz – Te mostrei pra ver se te abre a mente um pouco. Espero que surta efeito.
— Eu também – Sorriu – ‘Bora jogar alguma coisa?
— Se eu perder no Mario Kart de novo, eu entro em greve – Reclamou, brincando.
— Aprende a jogar direito, ué – Deu de ombros enquanto ria.
— Grosso – Atirou um travesseiro em seu rosto.
— Café com leite – Devolveu na mesma moeda.
Enquanto ligava o console com o jogo do encanador mais querido do planeta, Dan viajava. Precisava falar com Alisson e faria isso naquela madrugada.
***
Receber os amigos em casa é uma das melhores experiências que alguém pode ter na vida. Poder brincar, rir, zoar, jogar conversa fora... Coisas essenciais para nossa existência. Aqueles que gostamos estarem perto de nós, nos dá a sensação de conforto, carinho, tal como os pais nos dão durante boa parte de nossas vidas. Alisson não podia jogar fora a oportunidade de fazer aquilo em um dia que a mãe resolvera dormir na casa de Edu, seu namorado, ainda mais quando soube que Adrian e Amanda estavam disponíveis para ficar ali.
Pensou em convidar Gil novamente, mas não queria reviver outro episódio como de sua primeira estadia em sua casa. Pensou também em Daniel, porém depois do que havia ocorrido entre eles, seria bom arriscar? Mandou a seguinte mensagem:
“Hey, pateta. Tá melhor? Topa vir aqui em casa jogar FIFA? O Adrian e a Mandy vêm também. Voltaram mais cedo de uma das competições”
Minutos depois o rapaz respondeu:
“Eai. Cara, tô com a Van hj. Fica pra próxima”
Não se deu por vencido e ordenou:
“Ué, só traz ela junto. Tô te esperando! Flw”
Eram meados das 21 horas quando o ruivo e sua namorada deram as caras. O primeiro vestido com calça moletom cinza, um tênis preto e um blusão azul de mangas de igual cor a sua calça. Já Mandy usava botas de couro marrons cano longo, calça jeans azul forte e um casaco também de couro que tampava os dois blusões preto que usava por frio.
— Entrem aí! – Exclamou – A casa é de vocês, portanto sujarem vocês que limpem.
— Sempre com um humor ferino, né Alisson? – Debochou a garota, puxando o rapaz para um abraço – Tava com saudades de ti já, seu mangolão.
— Eu sei. Sou inesquecível – Zoou – E aí, Adrian? Firmeza? – Fez um toque de mãos.
— Tranquilo – O jogador respondeu – C*r*lho, que cheiro de perfume tá por aqui.
— Minha mãe me escravizou o dia inteiro achando que o namorado dela ia vir pra cá. No fim, ela foi pra lá. Resolvi me vingar e como eu sabia que vocês tavam voltando dos jogos...
— Saquei – Sorriu malicioso – Boa, velho.
— Como foi lá? O treinador te encheu muito, Mandy?
— Não. Até que não – Comentou a garota – Mas aqueles guris são nojentos. Credo!
— Eu era o mais adulto de lá, tá ligado? – Mentiu Adrian.
— MENTIRA! Tu era o pior de todos!
Alisson riu.
— ‘Bora ali pra sala, gente. Vou pedir a pizza depois de vocês perderem algumas partidas.
— Beleza – Falou o ruivo – E... Tem uma bebidinha aí?
— Só refri. Não tinha nada de bom pra comprar no mercado.
— P*rra... Bom, não é o fim do mundo.
Então os três se divertiram durante algumas horas. O mais velho estava finalmente conseguindo deixar um pouco de seus problemas de lado e poder relaxar. Sua vida tão tumultuada agora tinha lhe dado folga (Seu trabalho também, já que Seu Antero precisou visitar novamente sua parenta enferma. Ao que parecia a tal pessoa estava nas últimas).
Quando a hora se aproximava das 22h30min, o trio conversava enquanto comiam a pizza solicitada por Al. Falaram das partidas, dos jogos, das discussões entre os jogadores... O mais velho também tentava inteirá-los das principais coisas que aconteceram na semana de sua ausência.
— Então o “Wunder Bar” pode fechar? – Mandy parecia estar decepcionada – Caramba... Aquele lugar faz parte da minha vida.
— Não é nada certo. São só boatos – Al tranquilizou – Depois que a Gina me contou já ouvi mais alguns comentando sobre isso.
— Tá, mas boatos não nascem do nada – Adrian interferiu.
— Geralmente boatos são muito sensacionalistas. Não acho que vá fechar, no máximo ficar algo período sem abrir.
— Isso não é o mesmo que fechar?
— Não se é só durante algum tempo.
— Igual será uma m*rda.
— ‘Pera – Uma ideia brotou na cabeça de Al – E se tu e o time comemorarem a vitória lá, Adrian? Seria uma boa forma de ajudar.
— Mas o campeonato não terminou, cabeção. Ainda tem algum tempo.
— F*da-se. É um tipo de evento que atrairia gente. Se convidarem a família e os amigos então, rende mais.
— Eu concordo com o Al. Acho uma ótima ideia, Dri! – Mandy se mostrou empolgada.
— Dri – Alisson riu – Que gay.
— Cala boca – O jogador socou de leve o braço do outro – Tá beleza. Comemoração da vitória do time no “Wunder Bar”. É isso? Mas e se o time não ganhar?
— Se o time ganhar convenço o Seu Antero a fazer a tua mesa por conta da casa.
— O time já ganhou.
O Trio caiu na gargalhada. Ficaram mais um tempo jogando e se divertindo, até que resolveram se recolher. Adrian e Amanda ficaram no quarto de hóspedes, e Alisson dormiu no próprio. O último se acordou as 03h16min da manhã com seu celular vibrando ao lado da cama. Mesmo um tanto sonolento, abriu o aplicativo de mensagens e se surpreendeu com o que recebera:
“Hey. Me encontra no Labirinto Verde, agora. Tô te esperando” – Enviado por Pateta.
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