TOLERÂNCIA

O primeiro sábado do mês de Julho foi marcado por um dia de sol fraco e de rigoroso frio, mas nem isso tirou a animação de Dan. Depois daquele terrível pesadelo que tivera, resolveu manter a família em casa reunida a qualquer custo. Proibira literalmente os pais de fazer menção a usar o carro, e que se necessitassem de algo, era só lhe informar que ele mesmo buscaria de bicicleta.

Acordou a todos com um “Bom Dia” contagiante. Como por milagre, resolveu arriscar-se na cozinha e na preparação do café da manhã. As únicas coisas comestíveis que conseguira fazer foram omeletes, calabresa frita na frigideira, pães fresquinhos que buscara na padaria e café, além é claro de outras misturas para o café.

— Quero que comam hein? – Avisou ele, contente.

— Com um banquete desses na minha frente, fica difícil manter a dieta – Bruno comentou.

— E desde quando tu faz dieta homem? – Isabel mexeu.

— EI! Eu posso fazer dieta se eu quiser!

— Tá na hora de querer então, ou daqui um pouco quando acabar o gás te coloco ali no lugar.

O comentário fez os meninos rirem.

— Muito engraçadinha Isabel.

— Sou mesmo. Me ame.

— É claro que eu amo.

O casal deu um rápido selinho na frente dos mais novos, que fizeram expressões de nojo.

— Até parecem que nunca beijaram! – Isabel contestou rindo das caretas do filho e do sobrinho.

— Não na frente de vocês para traumatizarem – Dan brincou.

— Eu acho estranho, mas amor é assim mesmo – Ian falou sorrindo.

— Então campeão, melhorou de ontem? – Bruno perguntou interrompendo o assunto.

— Tô melhorando sim – Respondeu o rapaz – Só não façam nada do que eu disse. Só hoje.

— Tudo bem. Nada de carro – Isabel disse – Eu não to a fim de sair mesmo.

— Eu queria ir a casa de uns amigos assistir ao Inter jogar, mas posso marcar com a rapaziada de ser aqui em casa.

— Isso pai – Dan agradeceu por aquilo.

— Ihh... Vou ter que ver time ruim jogar na minha casa? – Isabel mexeu.

— Tu não tem cultura mulher. Vê se pode chamar um timaço daqueles de time ruim.

— E foi pra série B por quê? Solidariedade com os times menores?

Isabel e Bruno ficaram discutindo sobre futebol enquanto os dois rapazes se divertiam com a situação. Logo que terminaram seu café da manhã, Dan e Ian retornaram para o quarto do mais novo para ajeitar a bagunça. Quando ambos entraram, Dan fechou a porta.

— Então... – Ian puxou conversa – Valeu pela atitude de ontem. Me surpreendeu... Muito.

— A vida é curta pra ficar com bobagens menores, não acha? – Dan falou.

A fala fez o mais velho sorrir também.

— Sim. Concordo plenamente – Respondeu – Pelo que eu entendi, foi um pesadelo que te fez mudar de ideia?

— Aham. Mas de qualquer modo eu não ia conseguir ficar muito tempo sem tu aqui.

— Meu corpo não estaria aqui, mas certamente meu coração sim.

Dan sorriu.

— O Gil já sabe que tu veio pra casa?

— Quem tu acha que abriu a porta pra mim ontem? – Ian riu.

— Ele deve tá p*to comigo...

— Tá sim. Mas f*da-se o que ele pensa. Não viva pelo que terceiros acham da tua vida Dan. Curta ela do jeito que tu achar que deve.

— Sei que eu já te pedi isso... Mas tenta entender que eu não entendo nada dessas coisas...

— Relaxa ai – O mais velho botou a mão no ombro do primo – Tem todo o tempo do mundo pra isso.

Os dois continuaram a arrumação do quarto por mais meia hora. Colocaram as coisas de volta no quarto de Ian, e ficaram ali conversando bobagens cotidianas.

— A Ágata vai vir passar o fim de semana aqui. Tudo certo né? – Ian pediu.

— Aqui é tua casa também. Pode receber quem quiser.

— Valeu – Ian sorriu – Finalmente vamos poder trepar de novo. Faz um tempinho já que estamos tentando marcar, mas os trabalhos não ajudam.

— É muito louco isso – Dan comentava – Tipo, tu tava se agarrando com um guri dois dias atrás e agora vai ficar com uma mina. Não se sente estranho ou diferença?

— Na verdade não – O mais velho respondeu sinceramente – O prazer pra mim não tem gênero Dan. Se eu curto, eu pego. Sem remorso, sem culpa...

— É, eu me lembro de ti explicando pra mim aquele dia o negócio do panamerisexual.

Ian gargalhou.

— Pansexual Dan – Corrigiu.

— Isso! – O mais novo também riu fraco – Enfim, fica tranquilo que hoje eu vou ir visitar a Van. Tu vai poder trepar em paz.

— Vai resolver o teu problema com ela?

O outro suspirou.

— N-não sei se ainda to pronto.

— Tu gosta dela?

— Sim.

— Tanto que voltou com ela depois de saber que ela é trans correto?

— Sim.

— Então Dan! Tenho certeza que tu vai conseguir.

— É... Tomara.

***

A sexta feira havia sido um caos. Como na quinta feira seu Antero tinha solicitado a presença de Alisson no “Wunder Bar” na sexta feira (Seu dia de folga), assim que saiu da casa de Gil foi direto para lá. Aliás, ele e o garoto não se estranharam mais, porém não tornavam a ficar conversando o tempo todo.

O lugar estava reservado pela prefeitura para a realização de alguma confraternização entre os políticos da cidade, daí a presença de todos trabalhando. Como recompensa, seu Antero fechou o estabelecimento no sábado, dando folga para todos os funcionários. Isso fora música para os ouvidos de Al. Adorava trabalhar no local, mas era deveras cansativo.

Sábado. 09h23min quando ele acordou. Passou a mão por seu rosto e espreguiçou-se, antes de ouvir uma música ecoando do andar debaixo. Não pode lembrar que a última experiência que teve com músicas não fora nada interessante para si. Resolveu ir até o banheiro e passar uma água no rosto para melhorar sua expressão facial, e só então foi rumo ao andar inferior.

Quando desceu as escadas, ficou aliviado ao saber que a mãe estava realmente escutando musica alta. Marisa a ouvia enquanto fazia a faxina na casa.

— COMO UMA DEUSAAAAAAAAAAA – Cantarolava – VOCÊ ME MANTÉÉÉÉÉMM! E AS COISAS QUE... OI FILHOTE! – Gritou ela.

Al riu da situação da mãe. Foi até o rádio e baixou o volume da música para poderem conversar.

— Bom dia mãe.

— Pega a vassoura pra me ajudar.

— Mas eu mal acordei!

— Ótimo! Vai ajudar a acordar. Vamos!

O garoto bufou.

— Posso saber o porquê de a senhora tá limpando a casa?

— Alisson, tá me chamando de porca relaxada é isso?

— NÃO! – Exclamou o rapaz – É só que geralmente fazemos esse faxinão só uma vez por mês.

— Essa é a primeira vez no mês.

— A gente limpou a casa sábado passado lembra?

— Sim, mas ainda era Junho!

— Mããe... – Pressionou ele.

— AI TÁ GURI! – Exclamou ela brava – Meu boy vai passar a noite aqui hoje.

— O QUÊ?!

— Tem que estar tudo bonitinho né?

— A senhora só pode tá de sacanagem comigo.

— Ué por quê? Quando tu traz aquelas meninas sem vergonha aqui pra casa, tu não se acha prejudicado né?

— Por que a senhora não vai lá pra casa dele como sempre mãe?!

— Porque graças a Deus eu tenho casa e dignidade Alisson. Não devo nada pra ninguém, portanto eu posso ou não posso trazer aqui pra casa quem eu quiser!

— Aff... Isso só pode ser brincadeira – Al não estava nada contente.

— Vai me dizer que não posso ter namorados agora? Me poupe, se poupe, nos poupe!

— Pra quê trazer ele aqui?

— Porque sim Alisson! Que coisa! Eu tenho direito de trazer um cara com quem estou mantendo relações pra minha casa!

— Será que a senhora não vê que isso me fere de morte?

Marisa revirou os olhos.

— Não vem com esse drama de novela pra cima de mim, seu Alisson!

— Mas é a verdade!

— A única verdade aqui é que tu é muito do dramático meu filho.

— A senhora me prometeu que o único homem que entraria nessa casa além de mim era o meu pai... Lembra?

Nessa hora, Marisa deixou cair o vaso de planta que segurava em suas mãos e encarou o filho.

— C-como tu lembra disso? Eu falei isso tu devia ter uns seis meses – Perguntou incrédula.

— Acontece que eu me lembro mãe – O garoto estava visivelmente desapontado – Era o meu pai que era pra vir pra casa, e não um macho qualquer.

A mulher deu alguns passos em direção ao filho e olhou fundo em seus olhos.

— Quem tu pensa que eu sou hein Alisson? – Perguntou ao filho – Uma mulher que encontra homens na rua e traz pra dentro de casa, sem sequer saber o nome?

— Não é isso mãe. É que a senhor-

— Presta bem atenção no que eu vou te falar – Marisa estava séria – Eu não vou cumprir aquilo que eu disse, porque o teu pai não merece.

— E porque a senhora não me diz onde ele tá então pra eu descobrir por mim mesmo hein? – Al enfrenta a mãe.

— O assunto tá encerrado pra mim.

— Pois pra mim não! – O garoto grita com lágrimas se formando nos olhos – A senhora me prometeu mãe! Nunca nem sequer me mostrou uma foto do meu pai! Nunca deixou eu ter contato com ele!

— Para de gritar que eu não sou surda! – A outra revidou.

— Se ele é tão ruim, porque a senhora não diz logo pra mim a verdade?!

— Para com isso Alisson, eu to avisando!

— Aposto como tem vergonha de ter dormido com um cara sem ter compromisso com el-

Al nem teve tempo de terminar a frase, quando Marisa deu um tapa em seu rosto que o fez cair no chão. O gesto o fez encarar a mãe com o olhar surpreso.

— Mãe...

— Nunca mais fala comigo desse jeito. Escutou?

Ele levantou e passou a mão em seu rosto.

— Vai pro teu quarto, vai dar uma volta... Sei lá. Só me deixa em paz – Alertou ela.

O rapaz foi indo lentamente até seu quarto. Quando entrou, atirou-se em sua cama e fez algo que há muito tempo não fazia: Chorou.

***

Dan não podia estar mais feliz por estar com a família toda reunida. Aliás, o garoto estava bem prestativo naquele sábado: Lavou a louça, arrumou a casa, ficou com os pais e o primo o dia inteiro. É claro que Isabel e Bruno estranharam um pouco essa mudança repentina do filho, porém estavam felizes por ele e torciam para que a mudança prevalece-se.

Quando eram aproximadamente 17h20min, recebeu uma mensagem com a confirmação de Van, o que o fez dar um sorriso largo.

— Bom gente, eu vou indo. Marquei com a Van de ir dormir na casa dela hoje. Se vocês não se importarem...

— Juízo campeão! – Bruno disse.

— Ainda to muito nova para ser avó! – Isabel brincou.

— Pode deixar – Dan riu fraco – Tchau Ian. Tchau Ágata.

— Tchau – Ambos responderam.

O mais novo pegou sua mochila e saiu em direção a casa da namorada. Pelo caminho, foi refletindo sobre como sua vida mudara de uma hora para outra. Num dia, estava brigado com Van e no outro já estavam juntos; Num dia, brigou com Ian e no outro se reconciliaram. Achava irônico a maneira como a vida funciona. Podia ter ficado meses sem ter contato com duas pessoas que tanto ama por pura bobagem. Não pode deixar de agradecer ao destino por ir contra seus pensamentos e ideologias.

Durante o caminho, percebeu que Al vinha vindo cabisbaixo com seus fones de ouvido.

— Fala ai bebezão – Mexeu ele, mas o rapaz não o escutara – EI! Alisson!

Só quando o rapaz percebeu alguém a sua frente, que notou a presença de Dan ali.

— Ah... Fala ai pateta – Disse sem empolgação.

— Nossa, que clima de missa de sétimo dia. Tá tudo em paz?

— Na verdade não. Mas há de melhorar, se pá – Deu de ombros – Tá fazendo o que na rua a essa hora com uma mochila nas costas?

— Vou ir dormir na casa da minha mina hoje – Disse orgulhoso.

— Olha ai, pateta tomando atitude. Parabéns brother.

— Valeu – Agradecera – Tem certeza que não precisa de ajuda?

— Não... Tá tudo ok. Tô indo dormir fora também, só que na casa do Jeff.

— Uhh, cuidado para ele não te molestar também.

Al riu.

— Como tu é trouxa. O Jeff não é viado.

— Nunca se sabe. Hoje em dia tá tudo tão louco – Comentou – Enfim, vou indo nessa senão chego lá pro Natal.

— Tá certo. Até Pateta.

— Tchau bebezão.

Deram um último cumprimento de mãos e seguiram seus rumos. Não demorou dez minutos, quando Dan chegou ao prédio de Vanessa. Já estivera algumas vezes na casa da moça, porém nunca passara da sala ou da cozinha. Os quartos pareciam ser uma zona proibida, e talvez agora entendesse o porquê. Tocou o interfone e quem atendeu era o pai de Van.

—Alô?

— Sou eu, seu Ralf.

— Ah! Daniel! Que bom que veio! Já abro pra ti!

Mal o homem terminou a fala, quando um barulho ecoou pelo portão indicando que estava aberto. O garoto entrou e não tardou a subir até o apartamento da amada. Ficava no segundo andar.

Tocou a campainha, e então Vanessa abriu a porta com um sorriso sincero. Foi ao encontro do namorado e o abraçou forte.

— Que bom que veio Dan – Disse animada – Achava que ia acabar desistindo da ideia...

— Claro que não – Deu um selinho na namorada.

— Vamos entrando então? – Vitória, a mãe de Van, os chamou para dentro.

O casal mais jovem fora de mãos dadas até o encontro dos pais da moça. O pai, Ralf, era um alemão rústico com barba por fazer, o que lhe dava uma idade superior à verdadeira. Possuía olhos verdes (Que a filha não herdou infelizmente), tronco largo e uma estatura de 1,90. De fato, parecia um armário. Já Vitória, era uma mulher com um porte de rainha. Seus cabelos eram pretos estilo Chanel, olhos castanhos e 1,70 de altura. Em suas bochechas, tinham as famosas “covinhas”. Enquanto a esposa vestia um vestido cor de creme com saltos combinando, Ralf estava literalmente de roupão e pantufas.

— Juro que tentei convencer o Ralf a se vestir como gente, até porque temos nossa filha em casa e isso é constrangedor até mesmo para ela – Vitória comentou antes de dar um beijo na bochecha do genro – É uma alegria te ter conosco Daniel.

— Obrigado – O rapaz agradeceu sorridente.

— Vitória, Daniel é de casa! Não vai se importar em ver o sogrão assim né? – Ralf brincou dando um aperto de mãos em Dan. O garoto sentiu a força do homem no aperto devido a mão grossa e grande.

— A casa é sua, senhor. Pode faz o que quiser – Respondeu Dan.

— Viu? – Ralf mostrou a língua para a mulher, que revidou na mesma moeda.

— Ás vezes, tenho a impressão de que eu sou a filha e eles os pais – Van comentou.

— É que tu é mais recatada filhota. Aliás Dan, sugiro que dê um jeito nisso porque ô menina que parece ter oitenta anos! – Ralf disse.

— Pai! – A loira ficou constrangida.

— Ué, é a verdade!

Dan riu.

— Pode deixar senhor – Confirmou.

— Por favor, deixamos as formalidades hein? Ralf tá ótimo pra mim.

— Desculpa se... Quer dizer, Ralf. É força do hábito.

— Tudo bem meu rapaz.

— E as vendas? Como estão? – Dan perguntou querendo puxar assunto. Ralf era corretor imobiliário.

— Ai pronto! Agora ele vai contar a vida desde que nasceu – Vitória colocou a mão direita na testa.

— Sabe que estão indo bem? Essa semana, por exemplo... – E o homem começou a tagarelar infinitamente sobre o emprego. Vitória revirava os olhos em desaprovação enquanto Van ria da situação.

A reunião estava muito agradável. Ralf e Vitória eram bons anfitriões, não se podia negar. Eram brincalhões, faziam piadas e conversavam assuntos interessantes. E assim fizeram até a hora do jantar, quando todos sentaram a mesa. Na sala de jantar, havia um lindo lustre que iluminava o ambiente por completo. Uma mesa com doze lugares e um formato de uma elipse coberta com uma toalha branca com sobretoalha dourada ocupava a sala, acompanhada de suas cadeiras estofadas brancas com detalhes em dourado. Tudo dava um ar de luxo ao local, mas na verdade eram uma família classe média com um pouco mais de aquisições.

— Espero que a comida esteja de seu agrado filho – Vitória mostrou-se gentil com o rapaz.

— Eu como basicamente tudo. Não se preocupe Vitória – Dan afirmou.

A mulher então tirou a tampa da bandeja e mostrou o prato: Rocambole. Como complemento, havia massa, molho branco e também algumas geleias doces. Alemão raiz, Ralf sempre gostou de misturar o doce com salgado.

— Não sei como meu marido consegue comer chimia de uva com rocambole – Vitória falou.

— Me deixa mulher! – Ralf se manifestou – Tô comendo feliz da vida ó – O homem mastigou com a boca aberta.

— Ai pai! Que nojo! – Disse Van rindo com a cabeça virada para o lado.

— Meus tios também tem essa mania – Dan comentou – Fazem no mesmo pão uma mistura de doce com salgado.

— Cruzes! Definitivamente, não tenho genes alemães! – Vitória disse.

— Não sabe o que tá perdendo – Ralf tentou convencer a mulher.

— Eu sei o que eu NÃO estou perdendo: Minha noite de sono correndo pra correr pro banheiro.

O comentário fez todos a mesa rirem, incluindo Ralf. E assim se deu o jantar: De maneira leve e divertida. Dan gostara de estar ali com eles. Quando terminaram o jantar, Dan e Vanessa decidiram irem para o quarto ficar um pouco a sós.

— Juízo crianças! – Advertiu a mãe de Van.

— Pode deixar mãe! – Gritou a filha enquanto já iam para o quarto.

Ambos estavam indo de mãos dadas pelo corredor, até que Dan reparou dentro de um dos quartos que estava com a porta aberta. Ele parou e observou aquele quarto: Com paredes em azul forte, pôsters de banda, uma escrivaninha marrom mais ao fundo e na parede do corredor um guarda roupa da cor da escrivaninha.

— O que foi Dan? – Vanessa percebeu que o namorado observava um quarto, só quando chegou perto que reparou que era aquele quarto – Ah não...

O garoto entrou e observou o lugar. Achou curioso.

— Eu não sabia que tu tinha algum primo morando aqui – Comentou ele.

— Dan... Vamos lá pro meu quarto por favor?

— Qual o problema?

— Eu só... Não gosto de entrar nesse quarto – A garota parecia nervosa. De fato, ela estava parada na frente da porta do quarto.

— Por que? – Dan não entendia muito bem – E-era de alguém que morreu?

Van suspirou. A hora havia chegado mais uma vez.

— Sim – Disse ela de cabeça baixa – Era do Adam...

— Quem era?

Mais um suspiro.

— Meu antigo eu...

Foi só então que Dan ligou os pontos. Então aquele era o lugar onde Vanessa ficara um dia.

— D-desculpa. Eu... Não sabia.

— Tudo bem – A garota levantou os olhos e sorriu – Agora tu já sabe de tudo mesmo... Isso aqui é só um detalhe.

— Vamos pro teu quarto então.

— Espera! – Pediu ela – Eu... Eu acho que... Tu precisa ver uma coisa.

A garota respirou fundo, e pela primeira vez em anos entrou naquele que um dia fora seu quarto. Foi dando alguns passos até a escrivaninha, abriu uma gaveta e de lá de dentro tirou um álbum de fotos. Entregou-o com cuidado para o namorado. Dan sentou-se na cama para olhar o álbum. Surpreendeu-se com o que vira: Havia uma foto de um garoto loiro sem camisa com piercing nos mamilos e na língua, vestindo apenas um calção azul com branco. O rapaz mostrava a língua e levantava os braços com uma cachoeira de fundo.

— Isso ai foi alguns meses antes de eu começar todo o processo de readequação de gênero – Van explicou.

— E-esse guri foi tu? – Dan comentou surpreso.

— Ai é que tá Dan. Esse ai da foto não sou eu. Não era eu. É só... Um corpo vazio e infeliz.

O garoto olhou nos olhos da namorada.

— Tu se sentia infeliz como homem?

— Muito – A outra confessou – Tu nem faz ideia de como é difícil olhar no espelho e a pessoa que te olha de volta não ser tu. É horrível Dan, eu me culpei durante muito tempo por sentir... Coisas que um guri não deveria sentir.

— Tipo... A atração por eles?

— Não só isso. Tudo que eu mais queria era poder usar um vestido, uma saia, sair com meu namorado sem ninguém me julgando e criticando...

De repente, Dan sentiu um nó na garganta. Sentia no olhar da loira o quanto ela sofria ao relembrar aquilo.

— E-eu não devia ter vindo aqui. Foi mal – Disse já se levantando, quando Van o segurou.

— Calma – Falou ela sorrindo fraco – Já passou. É só que... Foi um tempo muito difícil pra mim, e esse quarto representa tudo aquilo.

— Eu... Posso imaginar.

— Quando eu iniciei o processo, meus pais foram super compreensíveis comigo. Mas a única coisa que me pediram foi para manter esse quarto e essas coisas. Eu aceitei, com a condição dessa porta ficar sempre fechada pra eu não precisar olhar pra essa história toda vez. Minha mãe deve ter esquecido de fechar quando limpou hoje...

O garoto foi ao encontro da namorada, a abraçou e a deu um beijo carinhoso.

— Eu to aqui contigo. Essas lembranças não vão te assombrar mais.

— A sensação que eu tenho é que eu tinha um irmão que morreu, e que morreu justamente pra eu nascer.

— Tu mesma disse que esse não era tu. Não precisa se culpar por isso.

— Obrigada Dan. Obrigada por ficar do meu lado. Quando a gente terminou, eu jurei que nunca mais íamos conseguir de novo.

— Ainda bem que se enganou – O rapaz sorriu – Eu não entendo esse mundo da transsexualidade, mas se for pra ficar do teu lado vou me esforçar ao máximo pra isso.

Vanessa sorriu e beijou o namorado com vontade.

— Vamos continuar a olhar o álbum? – Perguntou ela.

— Se tu não se importar – Dan coçou a nuca.

— Acho que já to pronta pra rever isso ai.

Van então fechou a porta e voltou ao encontro do namorado. Ambos sentaram na cama, e ele folhava as páginas. Cada vez que virava uma delas, Dan parecia se surpreender mais. A namorada achava engraçado as caretas de espanto que ele fazia.

— Com quantos anos tu fez a readequação aquela? – Ele perguntou.

— 15 – Respondeu a garota.

— E... – Dan ficou constrangido, porém a curiosidade lhe atiçava – Posso te perguntar uma coisa?

— O que quiser.

— Sobre o teu pau... – Dan ficara vermelho. Iria mesmo perguntar aquilo? – Sabe se ele era... Maior o menor que o meu?

Vanessa não aguentou e caiu na gargalhada. Dan também não ficou atrás.

— É sério! – Exclamou ele, ainda rindo.

— Ai Dan! Socorro! – A garota tentava se recompor – De tudo que tu poderia me perguntar, essa foi a melhor pergunta ever!

— Ahh vai, responde!! Qual é!

A garota foi se recompondo aos poucos antes de responder.

— Sendo bem sincera, até era um pouquinho – Respondeu sincera – Mas eu não tenho mais Dan! Não tem com o que se preocupar.

— Bah, até o da minha mina era maior que o meu! – Dan fez cara de cachorro pidão.

— Owwnn, que gracinha! – Van apertou as bochechas do namorado – Já tá fazendo piada com isso é? Que amor.

— Mas é verdade!

— Não precisa se sentir pra baixo. O teu vai me satisfazer bem. Tenho certeza.

Dan sorriu e começou a beijar a namorada, que retribuía. Porém, os beijos começaram a durar alguns minutos e suas mãos já percorriam um o corpo do outro. Dan puxava a loira para si, enquanto ela passava a mão pelas costas dele e indo até a calça.

Van deitou por cima do rapaz e empurrou o álbum para o chão. Deitada em cima dele, continuou a beijá-lo, seguindo para seu pescoço e dando leves mordidas que faziam o menor gemer baixo. Foi então que tirou a camiseta do mesmo e a sua própria, enquanto ele também tirava a própria calça e a da namorada. Dan sentia que seu membro estava rígido com a garota sentada em seu colo, rebolando em cima de si. Resolveu inverter o jogo, pegou Vanessa e a deixou deitada na cama e ele por cima.

Ela estava de calcinha e sutiã, e ele só de cueca. O desejo contido nos dois os faziam esquecer o mundo lá fora. Se amavam e se queriam, não importava o que outros dissessem.

— ‘Bora matar dois traumas de uma vez só? – Dan disse enquanto simulava penetração na garota, que gemia.

— S-sim... – Disse entre os gemidos.

— Vai me aguentar princesa?

— Cala boca e enfia bem fundo – Ordenou ela.

Dan sorriu com a fala. Tornou a beijar seu pescoço, seus seios e o que mais conseguisse beijar. Ligou o “f*da-se” para a transsexualidade da namorada. E ali então, dentro do antigo mundo de Adam/Vanessa, Daniel teve a sua primeira vez ...

CONTINUA