A Teoria das Cores
29 Roxo II
VIOLÊNCIA
O dia podia estar lindo do lado de fora, mas para Alisson parecia que todo o mundo tinha perdido a cor. Era a primeira vez em dezoito anos de existência que a mãe tinha lhe dado um tapa no rosto. Nunca tinha a irritado para que ela chegasse a esse extremo. Marisa, aliás, não foi ao quarto do filho em nenhum momento naquele sábado. Não o chamou para o almoço, tampouco para alguma outra coisa que necessitasse de sua presença. Estava mesmo chateada.
Foram raras às vezes em que ambos falavam sobre o pai de Al. Era quase como um tabu fazer menção a pessoa dele. Talvez ele tivesse ido longe demais à discussão? Provavelmente, mas queria que a mãe pudesse ver o quanto ele sentia falta de um pai, mesmo que não falassem tanto a respeito.
Naquele sábado, procurou ficar em seu quarto encarando o teto. Vez que outra olhava também para seu trevo, como se quisesse que o mesmo criasse vida e resolvesse tudo em sua vida tal como sua simbologia prega. Mandou a seguinte mensagem para Jeff:
“Hey cara. Tá por casa? Queria saber se rola eu dormir ai hoje...” – Enviado para Jeff.
Acabou por dormir depois de enviá-la, acordando era perto das 17h15min e já com a resposta do amigo na tela do celular:
“Fala Al! Tô sim, pode vir.” – Enviado por Jeff.
Espreguiçou-se e se levantou. O quarto já estava um breu, já que o sol já baixara. Pegou sua mochila de escola, retirou de dentro seus materiais escolares e pôs apenas um conjunto de roupas para trocar e uma roupa de dormir. Foi indo até o andar de baixo, onde encontrou Marisa e seu namorado assistindo televisão na sala.
Como se nada houvesse acontecido mais cedo, Marisa levantou mostrando um sorriso e foi até o filho que a encarava sério.
— Edu, esse aqui é o Alisson, meu fi-
A mulher nem concluiu a frase, Al simplesmente tirou a mão de sua mãe do ombro e foi quieto até a saída. A atitude deixou Marisa um pouco constrangida, porém ela nada fez, só tornou a sentar abraçada ao tal Edu.
O garoto saiu o mais depressa que conseguiu de sua casa e foi andando a passos largos em direção à casa de Jeff, que morava algumas quadras para trás de sua casa. Andava cabisbaixo, triste. Aquela situação insuportável que se criara de uma hora para outra não tinha o menor fundamento, mas Al não percebia isso. Só queria que a mãe entendesse o seu ponto de vista.
— EI! Alisson!
Só quando o rapaz percebeu alguém a sua frente, é que notou a presença de Dan ali.
— Ah... Fala ai pateta – Disse sem empolgação.
— Nossa, que clima de missa de sétimo dia. Tá tudo em paz?
— Na verdade não. Mas há de melhorar, se pá – Deu de ombros – Tá fazendo o que na rua a essa hora com uma mochila nas costas?
— Vou ir dormir na casa da minha mina hoje – Disse orgulhoso.
— Olha ai, pateta tomando atitude. Parabéns brother.
— Valeu – Agradecera – Tem certeza que não precisa de ajuda?
— Não... Tá tudo ok. Tô indo dormir fora também, só que na casa do Jeff.
— Uhh, cuidado para ele não te molestar também.
Al riu.
— Como tu é trouxa. O Jeff não é viado.
— Nunca se sabe. Hoje em dia tá tudo tão louco – Comentou – Enfim, vou indo nessa senão chego lá pro Natal.
— Tá certo. Até Pateta.
— Tchau bebezão.
Deram um último cumprimento de mãos e seguiram seus rumos. Demorou mais alguns minutos, mas Al chegou a casa de Jeff. Chamou pelo nome do rapaz, que observou quem era pela janela da sala antes de atender. Fora correndo abrir o portão, cumprimentou Al e ambos caminharam até dentro da casa.
— Mi casa és su casa brother— Recebeu Jeff.
— Valeu – Agradeceu o outro – Onde eu posso deixar minha mochila?
— Deixa ali em cima do sofá mesmo.
Assim o outro o fez.
— Meus pais acabaram de sair pro cinema – Jeff comentou – Acho que vão chegar tarde.
Al ergueu a sobrancelha direita.
— E daí? – Perguntou desconfiado – Vai me pedir um boquete de novo?
O mais alto ficou vermelho.
— Tu nunca vai esquecer essa minha fraqueza né?
— É impossível esquecer Jeff.
— Vamos falar do que realmente importa? – Jeff desconversou – O que houve pra tu precisar dormir aqui hoje?
— Briguei com a minha mãe.
— E?
— Levei um tapão na cara.
— O quê?! – O mais alto se surpreendeu – Tia Marisa te bateu? Tem certeza?
— A não ser que os cinco dedos que me acertaram sejam de um poltergeist, sim era ela.
— Cara, ela nunca bateu nem numa mosca!
— Eu ratiei também – Confessou Al – Falei demais, como sempre.
— Boca grande do jeito que tu é, não duvido – O amigo disse sincero – Mas como vocês chegaram nesse nível cara?
Então, Al contou tudo o que aconteceu naquela tarde enquanto Jeff ouvia atentamente.
— P*rra – Falava Jeff – Foi usar justamente o teu pai Al? Sacanagem hein.
— Eu sei! – Al exclamou – Mas o que tu queria que eu fizesse? Olha, não tenho nada contra minha mãe namorar, agora colocar macho dentro de casa?!
— Ela namora esse cara há quanto tempo?
— Sei lá... Uns seis meses parece.
— Então já é tempo suficiente para eles terem se conhecido cara.
Al bufou.
— Nunca tivemos problemas por causa desse namoro, agora ela me faz isso.
— Tua mãe também tem vida mano.
— Eu sei. É só que-
— Tu não quer que ninguém ocupe o lugar do teu pai.
Al ficou em silêncio por alguns minutos. Aquele assunto era horrível pra ele.
— Terminei com a Cris – Jeff falou quando percebeu que o amigo estava perdido em seus pensamentos.
— Hã? O quê?
— Eu terminei com a Cris.
— Ué, o que deu velho?
— Não aguentava mais esse treco dela nunca tá disponível pra nada. Achei melhor deixar ela livre.
— Que m*rda velho. Sinto muito.
— Relaxa. Não sei se tava curtindo ela tanto quanto ela merecia...
— Por que tu diz isso?
Jeff suspirou.
— Acho que comecei a curtir uma mina sem querer velho...
— Eu conheço?
— Sim – Disse – Lembra da Sabine?
— Ah... A loira esquentada?
— Ela mesmo – Jeff coçou a nuca – Sei lá. É ‘mó estranho isso.
— Nem tanto assim. Vai que ela te curte também.
— Ela curte o Dan...
— O PATETA? – Al perguntou pasmo – Jura que aquela gata tá gamada no pateta?
— Qual o problema disso? – Jeff perguntou confuso – Ela tem o direito ué.
— Ele é comprometido!
— E tu acha que isso impede o coração de sentir algo?
— Que papo mais de viado esse...
— Mas é a pura realidade Alisson. Aposto que se tu amasse a Amora, tu entenderia.
— E tem como se apaixonar por ela? Ela é tri louca! Só que não no bom sentido.
Jeff riu.
— E tem planos de ficar com outra mina? – Perguntou.
— Si pá sim. Faz tempo que não pego uma – Al falou lembrando.
— E que tal ir curtir a noite dos solteiros hein?
— O que tu tá pensando?
— Podemos ir na “Doce Pecado”. Todo sábado rola uma baladinha esperta lá. Partiu?
— Partiu – O outro respondeu já se animando – Vou tomar uma ducha então.
— Eu vou depois!
E então, ambos ficaram por uma hora se arrumando para irem a tal “Doce Pecado”. Tratava-se de uma danceteria destinada ao público jovem em geral, que em geral promovia festas aos sábados com convites antecipados ou na hora. Como chegariam cedo, era certo que conseguiriam entrar sem maiores problemas. O que de fato aconteceu.
Assim que chegaram ás 18h50min compraram os ingressos (Jeff pagou o de Al, já que o rapaz estava desprevenido) e seguiram pelo corredor escuro que finalizava em uma cortina de pequenas pedras coloridas. Ao passarem por era, os rapazes encontraram o lugar vazio, com uma movimentação mínima.
— Quem olha nem diz que isso aqui ferve – Comentou Jeff.
— A gente veio muito cedo. Eu disse pra virmos mais tarde.
— Pra quê? Pra não ter mais lugar? Isso aqui enche c*r*lho!
— E daí Jeff?
— Como e daí? Não é a noite dos solteiros?
— Sim. Mas já fiquei com muita mina nas filas das baladinhas.
— P*rra, tava necessitado hein.
— Eu sempre to necessitado.
Jeff riu do amigo.
— Bem... O jeito é esperar.
E foi o que fizeram. O local realmente começou a ficar interessante eram 22h45min. Nesse meio tempo, Al e Jeff obtiveram alguns sucessos com garotas, mas também houveram duas gêmeas que não foram exatamente com a cara deles.
A pista de dança fervia ao som de “Cheap Thrills” da cantora Sia. Todos com uma alegria contagiante que fazia todos que estavam no ambiente esquecer-se de quaisquer problemas que tivessem no mundo lá fora. Os meninos dançavam agarrados com duas garotas que estavam a paquerar momentos antes. Al ficava com uma moça de cabelos negros, olhos verdes, estatura mediana e um corpo curvilíneo; enquanto Jeff ficava com uma garota negra de cabelos cacheados, olhos cor de mel e corpo igualmente curvilíneo. O quarteto dançou praticamente meia hora juntos, até que a acompanhante de Al chegou perto de seu ouvido e disse:
— Que tal a gente dar um rolê lá fora hein? Aqui tá meio tumultuado né? – Perguntou ela.
Al sorriu de canto malicioso com a iniciativa da garota.
— ‘Bora lá gata. Jeff, eu vou-
Assim que se virou, notou que só a garota negra estava dançando e que Jeff não estava presente. Aproximou-se dela e perguntou:
— Desculpa moça, mas o meu amigo tava dançando contigo. Sabe se ele foi no banheiro ou algo assim?
— Olha, ele agradeceu a dança e foi pra perto dos banheiros mesmo – A garota informou.
— Tá ok. ‘Brigadão.
Al foi então até sua acompanhante e avisou:
— Se tu quiser indo lá pra fora... Só vou avisar meu amigo que eu to indo nessa pra ele não atrapalhar nossa ‘conversa’.
A garota riu.
— Ok. Tô te esperando hein?
Al retribuiu com um sorriso e foi atrás de Jeff. Passar entre aquela multidão animada era difícil e desgastante. Se perguntava como o amigo consigo chegar ao banheiro com aquela multidão.
Quando chegou a porta, viu tanta gente trocando carícias que chegou a ficar zonzo. Viu meninos com meninas, meninos com meninos, casais com casais... Sentiu-se como num vídeo pornô ao vivo.
— Jeff? – Perguntou ao adentrar o local.
De repente viu dois rapazes: Um segurando e outro batendo em Jeff.
— Isso é pra tu aprender a não se meter com mina comprometida, seu palhaço! – Gritava o que socava o garoto.
Al nem abriu brecha para esclarecimentos, apenas chegou perto do garoto e chutou suas partes íntimas. O tal caiu ao chão e o que segurava Jeff o soltou e foi para cima de Alisson, que fez o mesmo além de socá-lo forte no rosto.
— Vem Jeff – Al segurou o amigo que caminhava ainda atordoado com o que houvera.
Ambos foram caminhando até a saída, até que a garota que estava com Jeff os alcançou.
— Desculpem guris. Sério mesmo. Não sabia que meu ex ia vir aqui fazer isso – Disse desesperada.
— Só um conselho colega: Esse teu ex ai tem um punho que se ele inventa de te bater, tu morre – Disse Jeff com dificuldade.
— E-eu vou te levar pra casa – Afirmou ela.
— Não precisa. Eu levo – Avisou Al.
— Eu insisto. Eu que causei essa m*rda então eu que conserte. Vem aqui... Qual é mesmo teu nome?
— Jeferson...
— Pois então vem aqui Jeferson.
A garota delicadamente pegou Jeff, colocou o braço dele atrás de si e foi o carregando até a saída. Antes de ir, virou e mexeu a boca falando:
— Me dei bem.
Al riu e foi logo atrás, pois ia naquela mesma direção encontrar a garota morena.
— E-eu vi teu amigo saindo aqui. Rolou alguma coisa? – Perguntou ela.
— Sim. Mas acho que ele tá bem – Al afirmou – E ai? ‘Bora conversar?
— Se tá tudo bem... Não vejo porque não – A garota sorriu.
Como não podia ir para sua casa, Al resolveu ir até um motel que geralmente ia em uma situação como aquela. Sentiu-se a pessoa mais sortuda da Terra por ainda ter dinheiro que pagasse o tal local. E foi assim que Al conseguiu se esquecer, por ao menos algumas horas a tormenta que lhe rondava.
***
A manhã de domingo estava mais quente que o normal, pelo menos na casa de Vanessa onde Dan e a garota passaram a noite. Dan fora o primeiro a acordar, olhou para os lados e levantou surpreso. Então não fora um sonho, ele realmente tinha perdido sua virgindade.
Sorriu com o feito. Achava que nunca conseguiria superar seu medo de dormir com a garota que tanto amava. Vagou por sua mente em busca de lembranças da noite que tivera. E sorrira mais ainda quando estas surgiram. A imagem de si penetrando Vanessa com ardor não parava de passar com um filme em sua cabeça. Via também a expressão de prazer que causara na parceira, e do quanto ela gemeu seu nome e de como ele era “o macho dela”.
Levantou-se e percebeu que estava nú e começou a procurar sua cueca. Olhou para os lados e não a achava? Como pode uma cueca sumir daquele jeito?
— Se não achar, tem as minhas antigas dentro do guarda roupa – De repente, ouviu a voz de Van.
— E ai princesa – Foi até a garota e lhe deu um selinho – Não sei o que rolou com a minha cueca. Tinha certeza que ela devia tá por aqui.
— Esquece isso e vem aqui Daniel – A loira o puxou com violência e o beijou ardentemente.
Depois de alguns minutos, o garoto cessou o beijo por falta de fôlego.
— P*ta m*rda! Que fogo é esse?! – Exclamou rindo.
— Fogo de anos te querendo e te desejando delícia – Ela foi ao seu encontro e mordiscou seu pescoço, fazendo o outro arrepiar-se.
— Van... Teus pais podem tá acordados. Vamos descer pro café e depois a gente resolve isso – Deu um último beijo na namorada.
— Ai! Tá bom!
Dan vestiu sua calça, uma cueca de Adam/ Vanessa e sua camiseta. Pegou também um par de chinelos que encontrou do “falecido” e foi indo em direção à mesa de jantar. Foi só ai que Vanessa tirou de seu esconderijo a cueca de Dan. A apertou em sua mão e riu.
— Mereço uma lembrança dessa noite, né?
CONTINUA
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