HARMONIA

(Protagonista Secundário: Micael)

Aquele momento em que você acorda e não sabe se deveria ter acordado. Assim se sentia Micael. O rapaz, às vésperas do seu vigésimo aniversário, já não sabia mais o que queria de sua vida. Se queria viver, curtir, badalar... Ou apenas pegar um bom livro, sentar-se na varanda e lê-lo em um dia de chuva. Era como se a expectativa por essa data tivesse caído toda por terra, restando só dúvidas e mais dúvidas. Crise dos vinte anos? Possivelmente. Sua mãe, Adriana, vivia dizendo que ele já era um jovem adulto e que deveria assumir tal responsabilidade. O problema é que o garoto mal sabia o que era ser um jovem adulto, quanto mais saber assumir essa responsabilidade.

Encarava o teto pensativo. Vinte anos... Quais expectativas ele deveria ter agora que entrou no caminho da casa do dois? Tentava formular respostas que fugiam do óbvio, mas sua cabeça insistia nas respostas pré-fabricadas que ouvira desde o início daquela semana. A última vez que ele recordava de ter ficado tão confuso foi quando o primo Ian lhe deu um beijo. Sorria ao lembrar do desespero que tomou a sua mente nas horas que sucederam o acontecido. Passara a noite inteira acordado virando de um lado para o outro na cama tentando esquecer ou fugir daquilo. Mesmo completamente alcoolizado, ele lembrava cada passo que deu naquela noite e isso na época lhe custou noites mal dormidas. Sempre foi hétero, nunca teve dúvidas disso, mas receber o beijo do primo o deixou completamente desnorteado. Talvez até por se culpar por ter achado o beijo bom (Pelo menos o de Ian, o dele tinha até vergonha de lembrar de tão ruim que foi), porém agora tudo aquilo havia sido superado. Ele pegava meninas e não tinha sequer curiosidade em experimentar outra boca masculina (Nem mesmo a única que lhe beijou).

Resolveu que não ficaria mais ali deitado na cama pensando em coisas que não faziam sentido. Era seu aniversário, tinha o direito de curtir e relaxar.

Desceu as escadarias da velha casa da chácara correndo, fazendo as madeiras do estreito corredor da escada estralasse todo.

— Tá na hora de trocar essas madeira né? – Apontou quando chegou na cozinha – Qualquer dia um vai acabar caindo ali e quebrando tudo.

— Bom dia filho adorado – Adriana comentou irônica – Coisa boa te ver animado assim de manhã cedo.

— Bom dia mãe – O garoto foi em direção da mãe e lhe deu um beijo na bochecha – Só fiz um comentário ué.

— Sei... Bom, o Luan e o Levi daqui um pouco chegam. Foi bom tu ter acordado pra brincar com eles.

— Brincar com... Ô mãe! Qual é! Ninguém tem mais cinco anos não.

— Eu sei guri, mas pra uma mãe um filho nunca cresce.

Mica sorriu.

— Então a senhora ainda me acha um bebê ainda?

— Claro que sim – Adriana virou-se e apertou as bochechas do filho – Meu bebezinho pequenininho.

— Tô ligado mãe. Enfim, brincar com eles eu não vou né? Mas dar uma volta por aí seria top.

— Então faz isso. Vê se não fica enfornado naquele quarto lá! – Advertiu a mãe.

— Sim senhora. E meus primos vão dormir aonde?

— Vocês todos vão dividir o meus quarto. Aliás termina teu café e vai caçar o teu pai pra te ajudar a arrumar lá pra receber os meninos.

— E as primas?

— Por primas tu diz A Giulia, a Raquel e a Brenda?

— Elas são nossas únicas primas.

— Ah tá. Na minha terra se chamavam garotas como elas de outro nome – Drica mandou a indireta – Mas elas vão ter o quarto delas sim. É aquele quase na frente do de vocês.

— Que implicância a senhora tem com elas mãe. Que coisa, elas são filhas de uma das tuas irmãs sabia?

— Não é implicância. É que... – Suspirou – É que elas são... Sei lá. Muito levianas sabe? Não sei.

— Se elas são solteiras, não entendo qual pode ser a treta.

— Isso não dá boa fama pra uma mulher Micael. Se eu pegasse a metade dos guris e talvez até gurias que elas pegam, tu acha que eu teria me casado?

— Eram outros tempos mãezinha. Hoje em dia é BEM diferente. E ainda bem que é assim também.

— Sei lá viu? Essa geração de vocês é um mistério pra mim. Aposto que elas já deram em cima de ti e dos teus primos né?

— Já. Não vou mentir – Nem terminou a frase direito, quando levou um pano de prato no ombro – EI! Doeu sabia?

— Aí de ti se eu te pegar dando trela pra elas, ouviu Micael? – Advertiu a mulher – Já não basta aquele entra e sai de gurias lá em casa.

Mica riu.

— Preferia que fosse homem é?

— Preferia sim. Pergunta se o Ian ou o Andreas tem esses problemas.

O garoto encarou a mãe, surpreso com o que ela falara.

— C-como a senhora sabe do Ian e do Drê?

— O Ian porque...Bom, é o Ian né? E o Andreas eu descobri quando a Nita contou que ele tava pegando um gurizinho lá do nosso bairro. Tu não sabia?

— Eu convivo com ele mãe, é lógico que sabia. Só não sabia que ele tinha contado pra vocês.

— Pois contou. E olha, diz que eram a coisa mais fofa juntos. Pena que terminaram – Lamentava a tia – Aposto como o namorado dele não ficava andando de cueca pela casa como certas meninas né meu filho?

O rapaz revirou os olhos, riu e encarou a mãe.

— A senhora tá de implicância com as gurias. Só porque-

Não conseguiu concluir a fala, quando ouviram buzinas de carro ecoando pelo pátio do lugar.

— CHEGARAM P*RRA! – Exclamou animado.

— OLHA O PALAVRÃO MICAEL! – Advertiu a mãe.

Nem deu ouvidos, foi logo ver quem havia chegado. Eram dois carros, para a surpresa do aniversariante: Um deles era uma Eco Sport marrom de rodas cromadas e o outro um Renault Sandero vermelho. O primeiro pertencente aos pais de Andreas, o primo mais velho. O segundo ao pai de Luan e Levi, os “caçulas” entre os primos.

— Drê! Fala aí cara! Desde ontem de manhã que não te vejo guri! – Ironizou conforme ia encontrando os primos.

— Vinte anos na cara e parece que tem quatro. Que feio Mica – O outro fez um toque de mãos – Como é que estão as coisas aqui cara?

— Um tédio. Ótimo que vocês chegaram cedo, vai dar pra gente curtir antes da festa.

— O Ian... Já chegou?

— Ainda não – Olhou com um olhar penoso ao mais velho – Mas estamos todos aqui. Isso não basta?

— Claro que basta velho. Que isso.

— Que ótimo – Respondeu sorridente – E a tia Clara e o tio Sérgio?

— Estão vindo logo atrás. Pararam pra abastecer num posto BEM lá pra trás.

— Ah bom. Vamos entrando gente!

O primo mais velho subiu enquanto Micael recepcionava os tios e os demais primos. Quando o fez, todos os primos presentes foram até o quarto que dividiriam mais tarde.

— Tá bem limpinho isso aqui né? Pra uma casa que vive fechada – Levi, o caçula de 16 anos, comentou.

— Porque EU banquei a Escrava Isaura e limpei essa m*rda. Parecia terreno de obras de tanto pó – Mica explicou.

— Não tinha um caseiro pra cuidar da casa? – Andreas comentou, tirando a camisa. Era uma camiseta um tanto apertada que ele se arrependera de usar. O olhar de Luan acompanhava o corpo do primo.

— O pessoal costuma pagar um povo pra arrumar o pátio e os bichos. A casa acho que não.

— Ô Drê, tu não tá com frio não? – Luan perguntou, mudando o foco do assunto.

— Põe uma camiseta logo antes que o meu irmãozinho babe mais, primo – Levi mexeu, levando um soco no braço.

— Toma no teu c* seu otário.

— Toma tu!

— Tomem os dois e calem a boca – Ordenou Micael, ao passo que o primo mais velho só ria.

— Vocês são umas figuras – Comentou ele, já abrindo a mochila e pegando outra camiseta – O que vai ter de bom nessa festa Micael?

— Além de mim tu quer dizer? – Gabou-se o outro – Umas minas que são minhas ex-colegas da escola, nossas primas, uma gurizada conhecida da faculdade...

— Humm, nossas primas – Levi passava a mão pela calça skinny preta – Só de lembrar...

— O que é a adolescência né gurizada? Não se pode falar nada que tu fica excitado e precisa descabelar o palhaço.

Os demais não aguentaram e começaram a rir. A vítima é que ficou de cara feia.

— Pro teu governo, eu tenho umas gurias na minha. Tu sabe disso.

— Se tu tem, pra quê precisa das nossas primas?

— E a tua namorada? Como está hein? – Provocou o garoto – AH! Esqueci.

Andreas riu e encarou o garoto.

— Tu pediu por isso Mica. Desculpa a franqueza.

— ‘Bora deixar de idiotice e ir lá pro lago nadar – Mudou de assunto.

— NADAR? Nesse frio?! Tu quer ter uma hipotermia é?

— Deixa de ser fresco que hoje tá até calorzinho. Andem logo seus trouxas!

— Ninguém aqui veio preparado pra isso Mica! – Exclamou Luan.

— Ah coitadinho! Não pode nadar de cueca não?

— Não vou entrar na água gelada. Nem f*dendo!

— Ah tu vai sim. Senão te atiro lá dentro.

— Tu não é nem louco de fazer isso senão enfio meu pau pela tua garganta, ô macho alpha.

Um eco de “Bah!” se ouviu no quarto. Era um cômodo ligeiramente grande, tanto que cabia duas camas de casal.

— Começou as viadagens é Lu? – Provocou Mical.

— Eu sou viado mesmo. Algum problema?

— Eu? Nenhum. Com tantos primos vivendo a diversidade, porque eu iria ser preconceituoso?

— Vocês não querem discutir isso hoje né? – Drê interrompeu – É dia de festa c*r*lho! Vamos nos divertir um pouco.

— Tu tá coberto de razão mano – Mica levantou da cama – ‘Bora lá na lagoa.

— ‘Bora – Levi concordou, já indo com o primo.

Andreas ia seguindo os dois, quando Luan lhe pegou pelo braço.

— Quer alguma coisa? – Questionou o mais velho.

— Sim – O menor se aproximou – Repetir aquela tarde que a gente passou lá em casa. Só nós dois, nos beijando bem gostoso.

— Luan... – O tom de Drê era provocativo.

— Qual é cara? Ninguém tá aqui – Foi em direção à cama –Nós podíamos ficar aqui numa boa. Eu tirava minha roupa e tu me f*dia. Que tu acha?

O maior riu fraco e sorriu malicioso.

— Oferta tentadora. Mas só vamos ficar nos beijos mesmo.

— Por quê?

— Tu é menor de idade.

— Eu sou teu primo. Não vou te denunciar por abuso – O menor mordeu o lábio inferior.

— E também... O único homem com quem eu quero transar é o-

— Ian. Eu sei – O outro revirou os olhos – Dá pra rolar uns amassos pelo menos?

— E quem sabe uma ou duas coisas a mais – Drê foi em direção à porta, a trancou e depois foi até o primo na cama – Basta tu se comportar...

***

— C*R*LHO! ESSA ÁGUA TÁ PARECENDO O ÁRTICO! – Exclamou Luan, assim que entrou na água.

Depois que ficaram cerca de dez minutos no quarto, Drê e o primo mais novo se juntaram a Levi e Micael na lagoa que ficava mais afastada da fazenda. Era um local com muita mata, árvores não muito altas e folhagem seca no chão. A lagoa ficava bem ao centro, rodeada pelas árvores.

— Deixa de ser manhoso e entra! Tá uma delícia – Mica comentou – Tu também Drê! ‘Bora entrar!

— Valeu, mas não tô muito afim agora. Talvez se mais tarde esquentar se é que isso é possível né? – O mais velho disse.

— E tu Luan? Vai arregar também?

— Tô pensando seriamente.

— Vão tomar no c* vocês. Depois que tu se acostuma, a água fica uma delícia.

— Deixa eles Mica. São de açúcar as donzelas – Levi provocou.

— Donzela teu pau! – Luan retrucou o irmão.

— Entra então se é macho.

O ponto fraco de Luan, sem sombra de dúvidas, era ser duvidado por alguém. Detestava que pensassem que ele era um incapaz, sem capacidade de enfrentar os percalços da vida. Não demorou para ele ficar de cueca e entrar na água gélida. De ínicio, tremeu. Porém começou a zoar com os primos e até se esqueceu do dito cujo.

Andreas é quem os observava de longe, recordando tudo que já vivera ali no passado com seu adorado primo Ian. Quantos banhos de lago tomaram juntos? Quantas vezes não brincaram juntos ali? Quantas vezes não ficaram ali? As lembranças eram muitas, e ele queria as tornar reais de novo. A esperança era essa festa. Conseguir finalmente ficar com Ian pra si era mais do que prioridade, era necessidade. Necessidade do outro, necessidade de amá-lo e dá-lo todo o amor que o rapaz merece. Tinha certeza que um dia conseguiria.

Ficou cerca de vinte minutos ali, entre pensamentos e algumas conversas com os primos quando avisou.

— Eu vou lá pra dentro. Depois eu volto – Disse ele antes de se levantar.

— Opa, eu vou contigo primo! – Mica falou – Eu vou comer alguma coisa que me bateu uma fome de novo.

— Tu parece um boi guri. Vive comendo – Luan mexeu.

— Ihh essa frase ficou estranha hein? – Maliciou o irmão.

— Verdade. Vivo comendo mesmo – Respondeu no mesmo tom. Andreas e os primos só souberam rir.

— Te veste aí pegador e vamos lá – Mandou o mais velho.

— Tá. Espera aí.

Alguns segundos depois, Micael já havia entrado na roupa a molhando toda.

— Se tu ficar doente, lembra que foi mosquice tua querer entrar na água em pleno inverno.

— Cala boca! Nem tá tão frio assim.

— Tá bom Elsa.

— Vamos logo que quero me secar direito e trocar de roupa.

Drê riu e ambos começaram a caminhada de volta para casa. Era um caminho de terra e um pouco demorado de percorrer.

— Se o Levi não fosse hétero, será que eles teriam coragem de se pegar? – Mica questionou.

— Dois irmãos? Se pegando?

— Sim né seu bocó. Foi eles que deixamos lá pra trás.

— Não sei. Acho que não. Isso seria ‘mó estranho.

— O incesto é o mesmo primo. Só muda o parentesco – Mica alfinetou, colocando as mãos atrás da cabeça enquanto sorria.

— Irmão é uma coisa. Primos são outra.

— Ah sim, metade do DNA dos primos não é o mesmo que o teu. Nossa, grandes b*stas.

— Tá dizendo que eles deveriam se pegar?

— Tô dizendo que a lógica é a mesma que tu tem com o Ian por exemplo.

Drê baixou a cabeça.

— É... Talvez.

— Não sei sabe? Acho que nossa família merecia ser estudada.

— Por quê? Só porque não são todos os primos que são héteros?

— Claro que não. É só que... Tu já percebeu que o laço que une todos nós é o Ian?

— Só porque ele passou o rodo em nós todos?

— EI! Passou o rodo não! Ele só me beijou e porque eu tava bêbado!

— Tanto faz. Ficou com ele.

— Tu fez mais do que isso?

Silêncio.

— Fez né? Te conheço – Mica riu – E... Foi ele quem te comeu ou o contrário?

— Ambos. Eu... Já dei pra ele e ele já deu pra mim – Drê ficara envergonhado.

— Ian dando pra alguém. Nunca ia imaginar velho. Sei lá, ele tem aquela pose toda.

— Tá dizendo que eu tenho cara de quem dá o c* é? – Drê fingiu estar ofendido.

— Tem sim. Muita.

— Seu trouxa! – Socou de leve o braço do primo, que riu – Até parece que tu não conhece as loucuras dele.

— O que eu sei é que vocês ficam de vez em quando. Não sabia que já tinham ido pra cama.

— Pra cama só fomos uma vez. No resto foi em outros lugares – Maliciou.

— Uhh que poder hein? – Falou sarcástico.

Ambos riram. Assim continuaram com a conversa até chegarem na casa e Micael correr para o quarto antes de ouvir um sermão da mãe. O mais velho preferiu ficar na sala esperando que o outro retornasse. Mica trocou de roupa, e quando concluiu percebeu a mensagem de Ian.

“ Os guris já estão aí aniversariante?” – Enviado por Ian.

Sorriu.

“Estão sim. E estão loucos de saudades de ti seu pnc.” – Enviado para Ian.

Demorou alguns segundos, quando já indo pelo corredor para descer, ouviu o barulho dos carros. Como viu pela janela o carro de Clara e Sérgio, deduziu que Daniel e Ian haviam chegado e correu para cumprimentá-los.

— Mas olha aí! O gurizão cresceu hein? Quem diria né? Daniel com uma mina dessas? – Mexeu.

— Fala aí primo – O garoto deu um toque de mãos.

— E a senhorita? Tem nome? – Micael falou com a voz aveludada.

— Tem sim. Chinelo 40 na tua cara – Dan se intrometeu.

— Que isso cara? Pra quê essa violência?

— Nada ué. Só tô brincando.

— Aham sei. Te conheço Daniel e não é de hoje.

— Eu sou Vanessa – A loira interrompeu o climão provocado pelo namorado – Parabéns pelo teu aniversário. Escolher fazê-lo aqui foi uma excelente ideia. Tudo parece tão calmo.

— Não é querer puxar brasa, mas aqui é tipo o paraíso na Terra – Ian comentou sorridente – Grande Mica! Como é que tá? Se sentindo velho?

— Só depois de assoprar as velas. Até lá, continuo com dezenove.

— Com essa barba parece o mais velho de nós sabia?

— Eu fico gostoso com essa barba. Pergunta pras minas lá de Porto Alegre – O primo falou malicioso – Aliás quando tu vai voltar pra lá cara? Saudades da gente reunir a primarada e farrear.

— Acho que o Ian só volta pra Poa quando o Daniel fizer isso também – De dentro da casa, surgiu Andreas.

O rapaz chamou a atenção de Ágata.

— WOW! – Exclamou ela – Quem é esse, tigrão?

— Esse é o Andreas gata, mas a gente chama ele de Drê – Ian notou o olhar safado da garota sobre o primo e sorriu – Ele é bi.

— Interessante... –Falou sorrindo maliciosamente, sem ter a atenção do mesmo.

— Respondendo ao teu comentário Drê eu acharia f*da se o Dan realmente fosse morar com a gente lá. Ele também é nosso primo.

— Eu sei. Por isso que eu disse – Andreas falou dando um abraço no primo – Tava com saudades de ti. Muitas saudades.

Ian sorriu, não fazendo cerimônia em apalpar o traseiro do garoto na frente dos presentes.

— Eu também.

— Fala Andreas. Beleza? – Dan cumprimentou conforme se aproximou.

— Tudo certo sim. E essas moças? Quem são?

— A loira é minha mina Vanessa e essa do lado do Ian é a Ágata, ficante fixa dele.

— Ah! Ficante fixa é? Bacana – Respondeu o outro sem muito entusiasmo – E tu é a famigerada Vanessa? Olha, que mulherão hein.

— É, mas ela tá bem de namorado.

— Ihh já vi que vai ser esse ciúme o fim de semana inteiro! – Lamentava Van.

— Força miga – Ágata disse.

Os demais riram. Logo Isabel, Marcella, Ronaldo e Bruno chegaram. Vieram a passos mais curtos, admirando a paisagem e tudo que ela lhes oferecia. Cumprimentaram os sobrinhos, conversaram um pouco com Vanessa e Ágata e seguiram para dentro da casa.

— E Luan e Levi? Onde estão? – Ian perguntou – Tô com ‘mó saudade deles cara!

— Lá na cachoeira tomando banho. Se quiser eu te levo lá – Drê se ofereceu.

— Beleza! Deixa só eu largar minha mochila num dos quartos e a gente vai.

— Escuta, a gente se organizou para os primos dormirem nos quartos e as garotas em outro. Afinal, tem as nossas primas né?

— A Giulia vem? – Perguntou Dan animado, levando um tapa na nuca da namorada – EI!

— Se ela vier, tu vai dar “Oi” e “Tchau” pra ela ouviu?

— E depois sou eu o ciumento né?

— Essa festa vai ser um babado só. Já tô até vendo — Ágata fez um comentário.

***

Micael não podia sonhar com festa melhor. Família, amigos, conhecidos... Todos reunidos num único lugar para celebrar seu vigésimo aniversário de vida. Como terceiro mais velho, sentia aquela responsabilidade subir-lhe os ombros e deixá-lo sem força pra nada, como pela manhã. Passara um dia incrível ao lado dos primos e isso o fez desligar-se do mundo por um tempo, mas agora tinha voltado. Ele estava do lado de fora da festa, observando pelo vidro e sorrindo pelo que seus olhos viam, mesmo com o pensamento distante.

— Vai ficar aí muito tempo garotão? – A voz de Ian lhe trouxe de volta – Tua mãe já tava te procurando.

— Foi mau. Vim aqui só pra vegetar em paz um pouquinho – Comentou com o primo que se aproximava.

— Imaginei que sim. Completar vinte anos é f*da né?

— Aham – Mica concordou – Eu pareço ter perdido meu lugar no mundo sabe? Tipo, o que todo mundo espera que eu seja agora? Que eu vista terno e gravata, abandone minhas sociais e vire um cara brega?

— Esse é o problema de todos os meus primos: Viverem em torno do que os OUTROS querem, do que os OUTROS acham que é melhor pra ti... Velho, só tu conhece a tua vida. Teus pais te amam e querem o melhor pra ti sim, mas tu é quem tem que saber o que tu quer.

— E se eu não souber o que eu quero?

— Experimente Mica. O segredo é experimentar. Vê o meu caso por exemplo. Tu acha que eu queria tá fazendo Logística? Pra p*rra! Queria música. Mas meus pais também não queriam que eu fizesse. Sabe o que eu fiz? Experimentei essa área e vi que não é minha praia.

— Vai fazer o quê agora?

— Vou esperar encerrar o semestre pra mudar o curso. Agora que tô trabalhando, vai ser mais fácil sustentar a faculdade e ajudar eles.

— Eles sabem disso?

— Vão saber na hora certa, quando eles entenderem que eu tô seguindo o meu sonho.

Mica sorriu.

— Tu tem uma coragem admirável cara.

— Não é coragem Mica, é querer e correr atrás. Deixa os outros pra lá.

— Valeu pelas palavras mano. Me ajudou muito, sério.

— Vamos voltar então? Tua mãe vai surtar se não te ver de uma vez.

O garoto gargalhou.

— ‘Bora.

Assim que retornou e falou com a mãe, dois amigos seus apareceram com as calças molhadas na parte da frente.

— Que p*rra vocês dois fizeram?! – Questionou.

— Duas mina ‘mó violentas jogaram na gente cara! Dá pra acreditar? – O garoto de boné reclamava enquanto o aniversariante ria.

— Não ri cara! Olha só a m*rda que a gente tá! – O amigo falou emburrado.

— Quem foram as garotas? – Foi quando ambos apontaram que Micael continuou a rir compulsivamente – Seus idiotas. Elas tem namorados.

— E daí? Um chifrudo a mais, um a menos. Quem vai notar? Precisava elas fazerem isso?

— Vai saber né? – Se acalmava aos poucos – Pelo menos viram que com elas não vai rolar.

— Uma pena. Aquela loira... Nossa velho, meu pau chega a babar só de olhar pra ela.

— Nossa mano! Que nojo! Vai falar isso com teus viados vai?! Não pra mim – O cara de boné reclamou.

— Tá bom. Desculpa.

— Vão caçar de novo? – Mica perguntou.

— Não. Pelo menos até secar a calça e não parecer que estamos mijados.

— Isso. Vão lá acalmar os nervos vão.

Assim que ambos se despediram. Na mesma hora em que abriram a pista de dança, o aniversariante acabou dançando com várias meninas que se atiravam para cima dele. Como bom pegador que era, aceitava e se deleitava com a situação. Só parou quando, meia hora depois, notou Drê sentado em um canto solitário. Odiava ver os primos deslocados, e fazia de um tudo para que estes se sentissem bem. Foi até ele na mesma hora.

— Tu vai ficar aí com cara de babuíno ou vai curtir a festa?

— Não tô muito a fim de dançar. Se pá mais tarde.

— Pô Drê, qual é cara! É minha festa de aniversário e tu vai dar pt?

— Eu só disse que não quero dançar. Qual o problema?

— ELE é o problema – Apontou para Ian, fazendo o primo abaixar a cabeça – Ainda naquele dilema primo?

Suspirou.

— Eu amo o Ian, Mica.

— Super te entendo, mas amar também é respeitar sabia?

— Eu respeito.

— Não, respeita nada. O Ian não é trouxa Drê, ele percebe que tu fica estranho com ele.

— Até parece que ele não sabe o porquê.

— Ele sabe, aposto como sabe. E tu quer que ele faça o quê? Chegue pra ti e diga que não te quer do mesmo jeito que tu?

— Ele me quer do mesmo jeito que eu sim!

— Ele quer transar, diversão. É isso que tu quer ou algo mais sério?

Outro suspiro.

— Algo... Mais sério.

O primo se solidarizou com a situação do outro, tendo uma ideia. Saiu dali em disparada e fora até o DJ, pedindo para que colocasse uma música lenta. Ligara o microfone para falar.

— Fala aí gurizada! – Um enorme eco de alegria se deu no ambiente – Então, hoje é meu aniversário mas vou dar um presente pra vocês! Chegou a hora de vocês dançarem coladinhos com aquela pessoa especial num climinha tão bom e gostoso. Quem sabe até não rola uma pegação básica né? – Todos riram – Solta a baladinha aí DJ!

Começou a tocar “Crazy For You” da cantora norte americana Madonna, fazendo com que a maioria dos casais presentes iniciasse a dançar juntos. Mica correu até Andreas, pegou-o pelo braço e praticamente arrastou-o até Ian e Ágata.

— Primão, que tal eu trocar minha bela dama pela tua? – Perguntou sorridente a Ian.

O rapaz deu uma risada.

— O quê acha gata?

— Por mim tudo bem – Respondeu a garota – ‘Bora ver do que é feito senhor Micael.

— Cuidado pra não se encantar demais viu? – Falou brincando – Vai ali Drê. Dança com o teu cavalheiro.

O primo em questão ficara vermelho de vergonha, enquanto Micael e Ágata iam para um canto mais afastado.

— E aí Drê? ‘Bora dançar? – Esticou sua mão para que o outro a alcançasse. O gesto fez o mais velho sorrir.

— ‘Bora.

CONTINUA