A Teoria das Cores
38 Verde Amarelado I
SURPREENDENTE
Quem somos nós para julgarmos o sentimento alheio? Ninguém consegue medir o quanto de alegrias, tristezas, aflições ou o que quer que seja relacionado ao “eu”. Somos “Eu líricos” de nossas próprias poesias, e nela fazemos e sentimos o que nos couber e enquanto for possível.
O fato de Sabine estar por vezes mais irritadiça, outrora com o olhar vago e triste estava deixando seus amigos e colegas no mínimo curiosos. Era conhecida por sua postura firme e sua presença natural nos ambientes pelos quais passeava ou frequentava. Não compreendiam uma mudança tão radical e pareciam querer alguma explicação que justificasse tais atitudes. Porém, como dito no início, somos “eu líricos” de nossas próprias poesias, somos protagonistas de nossas próprias vidas. Ela não se achava a vontade de contar, de expressar o que quer que estivesse sentindo. Principalmente na frente de Daniel – Deste então quanto mais longe ficava, mais perto queria estar. Tinha sã consciência de que seu ciúme estava tornando-se notório, contudo não podia evitar senti-lo. Quando conheceu a famosa Vanessa então tudo piorou. Seu coração sangrava sem que ela pudesse ter uma chance de escolha entre o sofrimento e a liberdade. Não queria mal a garota, mas saber que era com uma moça tão bonita que estava competindo lhe causou medo. Suplicava toda noite para que esse sentimento se esvaísse, junto com as lágrimas que derramava. Em vão. Toda manhã acordava sentindo, mesmo que quisesse não sentir.
Naquela noite de quarta feira, jantou com os pais em silêncio. As poucas palavras que dissera eram respostas monossilábicas para responder aos questionamentos dos pais, do contrário teria ficado quieta com o semblante triste o jantar todo. Recolheu-se cedo. Por muitas noites como aquela passara acordada na internet, ora vendo vídeos, ora filmes, ora fazendo chamadas de vídeo com Daniel... Não. Negativo. Preferia não pensar naquilo. Queria que sua cabeça parasse de sentir e de pensar sobre. Apertou sua cabeça contra o travesseiro na tentativa de livrar-se daqueles pensamentos.
— Filha? – Alicia bateu três vezes à porta com a voz questinadora.
— Oi – Respondeu a filha sem ânimo.
— Posso entrar?
— Pode. Espera que vou abrir.
A garota então se livrou dos cobertores de sua cama quentinha deixando aquele ar gelado tocar-lhe a pele lhe arrepiando por inteira. Vestia apenas uma blusa fina de dormir branca com estampa de urso amarelo segurando um coração e bordas rosadas, acompanhada é claro de suas roupas íntimas. Abrir a porta ainda no escuro. A mãe entrou com certa estranheza ao quarto da filha e sentou na sua cadeira giratória ali presente, enquanto a mesma sentou-se de pernas cruzadas em cima da cama.
— Anda trancando muito essa porta né? – Questionou a mulher, séria.
— Não queria ninguém me incomodando só isso – Respondeu Sabine em voz baixa.
— Hum, então seus pais estão te incomodando?
— Claro que não mãe. É só que – A garota suspirou – Eu quero um pouquinho só de privacidade. Não é nada demais.
— E alguém nessa casa já entrou aqui sem bater por acaso?
— Não.
— Sem pedir licença pra ti?
— Não mãe.
— Então eu não estou entendo minha filha.
Outro suspiro. Dessa vez, a menina passou as mãos por seu rosto.
— Mãe, olha só: Eu ando um pouco estressada e preciso de um pouquinho só de paz compreende? Não é nada com vocês. É comigo o problema.
— Eu sei que tu anda estressada. Mal fala com a gente, come de cara emburrada – Lembrava Alicia – Eu e teu pai temos contas pra pagar, impostos pra deixar em dia, casa pra manter e outras mil coisas e não estamos assim.
— Não se pode mais se estressar então nessa casa? É proibido?
— Filha eu não vim aqui pra te criticar, muito menos pra te aborrecer. Eu vim aqui porque eu quero o teu bem, quero te ver sorrindo e brincando como sempre foi. O teu pai tá sofrendo muito te vendo assim, porque justamente depois que ele voltou de viagem que tu começou a agir desse jeito.
Ouvindo o relato da mãe, Bine não conseguiu segurar algumas lágrimas que se formaram.
— Desculpa mãe. Juro que não queria que isso afetasse vocês – Disse enquanto secava às lágrimas – Meu coração tá uma loucura mãe. A coisa que eu mais queria nesse momento é arrancar ele fora.
Alicia levantou-se e sentou ao lado da filha na cama, dando-lhe um abraço apertado.
— Oh filha... Imaginei que tivesse acontecendo algo assim. Ainda é sobre aquele guri que tu falou?
— Sim – Respondeu francamente – Mas não é só isso. Lembra do Jeff?
— Um que veio aqui fazer um trabalho de Biologia um tempo atrás?
— Ele mesmo. Ele me disse que... Tá me curtindo mãe.
— Te curtindo?
— É, gostando de mim entende? E o pior é que não quero estragar nossa amizade por causa disso. Ele sabe que eu gosto do Dan e-
— Dan? É aquele menino que eu vi a foto?
— Sim. Ele mesmo. Então, ele sabe que eu gosto do Dan e eu não quero que ele fique sofrendo por minha causa.
— Tu me disse que esse Daniel tinha namorada. Ainda tem?
— Sim.
— Então filha, não sei por que tu ainda tá de olho nele!
— Foi a senhora mesma quem me disse que era pra eu me permitir sentir isso por ele lembra?
— Lembrou sim – Alicia passou a mão no rosto da filha, limpando uma lágrima que escorria sem que a mesma percebesse – Mas filha, se esse guri não está disponível e tem um coração gritando por ti porque tu vai ficar sofrendo?
— Porque eu não me vejo namorada do Jeff mãe. Simplesmente por isso.
— Tua tia Lídia era a mesma coisa com teu tio – Contava – Ela era toda cheia de não me toques com ele porque eles eram melhores amigos. Ele gostava dela e já tinha me confessado isso e pediu que eu ajudasse. Quando eu falei pra ela, ela falou a mesma coisa que tu: Que ia estragar a amizade se não desse certo e que não sei mais o quê lá.
— E que conselho que a senhora deu pra ela?
— O mesmo que vou dar pra ti: Se permita filha. Eu sei que isso parece estar usando outro pra esquecer o tal Daniel. Porém tu também gosta do Jeferson e ele é um bom rapaz! Se não der certo tudo bem, vocês terminam e seguem suas vidas. O que não pode filha, é tu ficar aqui sofrendo por um coração que tu sabe que já tem dona.
Sabine suspirou.
— E o que eu faço com esse sentimento pelo Dan? Jogo fora?
— Ele some com o tempo. Te garanto isso.
— E se não sumir? Significa que eu amo ele?
— Pode ser – A mulher concordou – Mas se fosse amor teria nascido há muito tempo esse sentimento Bine. Pelo que eu percebi tu começou a gostar desse rapaz há pouco tempo.
— E isso impede que eu ame ele de verdade?
— Claro que não né filha? Mas lembra que tu disse a mesma coisa lá no Rio? Que queria ficar com aquele surfista e coisa tal?
A garota envergonhou-se.
— L-lembro sim.
— Então filha. Calma. Agora vem as férias e tu não vai ver o Daniel por um bom tempo. Quando voltar às aulas já vai ter superado isso eu garanto – Alicia foi otimista.
A garota encarou os olhos da mãe.
— Como assim “Não vou ver o Daniel por um bom tempo”? Só falta a senhora me proibir de ver ele!
— Claro que não filha, que bobagem – Tranquilizou a mãe – É que teu pai vai ir lá pro Mato Grosso e conseguiu que fossemos também.
— Sério mãe?! – Os olhos da garota brilharam – Nossa que máximo! Vai ser incrível!
— Não é? – Brincou – Até já esqueceu dos problemas aposto.
Bine riu.
— Um pouco sim.
— Ah! E tem mais uma coisa.
— O quê?
— Pode levar alguém contigo.
— Jura mãe?
— Aham – Concordou – E já que tu falou, porque não levar o Jeferson?
— Ai mãe! Vai bancar o cupido agora?
— Eu? Imagina! – A mulher fingiu-se de sonsa – Só acho que é uma boa oportunidade, não é não?
— Até é. Mas e se não rolar nada mãe? E se isso melar minha amizade com ele?
— Eu duvido que vocês não consigam lidar com essa situação. O problema é que vocês jovens querem terminar um namoro com um drama incrível! Sendo sincero e transparente tudo flui melhor.
A garota pensou um pouco. Será que a mãe estava certa de fato?
— Tudo bem. Eu vou pensar. PENSAR.
Alicia riu.
— Já é alguma coisa – Falou – Bom eu vou me deitar que tu deve estar cansada e eu também tô por um fio pra não deitar aqui e dormir.
— O pai... Já dormiu?
— Acredito que sim.
— Queria ir lá dar um beijo de boa noite.
— Então vem comigo ora essa. Depois tu volta.
Ambas levantaram da cama e foram em direção ao quarto dos pais da moça. Entraram sem fazer barulho e enquanto a mãe foi para sua cama, a filha fora em direção ao pai e lhe deu um carinhoso beijo na testa.
— Boa noite – Sussurrou ela.
— Boa noite – A mãe respondeu no mesmo tom.
Logo em seguida a garota retirou-se voltou aos seus aposentos. Deitou em sua cama e cobriu-se novamente. As palavras da mãe ecoavam por sua cabeça fazendo-a pensar sobre a situação.
“Se permita filha. Eu sei que isso parece estar usando outro pra esquecer o tal Daniel. Porém tu também gosta do Jeferson e ele é um bom rapaz! Se não der certo tudo bem, vocês terminam e seguem suas vidas. O que não pode filha, é tu ficar aqui sofrendo por um coração que tu sabe que já tem dona.”
Estaria Alicia certa? Era hora de deixar Daniel para trás e tentar novos rumos?
***
Sexta feira. O dia mais aguardado da semana. É talvez o dia mais querido até. O fim de semana próximo, poder sair e farrear com os amigos ou se programar para o aniversário de 20 anos do primo. O último caso era o Daniel, um rapaz que nunca gostou de acordar cedo, mas a ansiedade pelo dia seguinte o fazia ficar nervoso à beça. Acordara e ficara pronto antes mesmo de Ian (Que em geral não via problemas em levantar nesse horário), o que estranhou o mais velho.
— Acordou mijado e teve que levar as roupas escondidas pra máquina que tá acordado tão cedo? – Perguntou brincando, fazendo o outro rir.
— Não palhaço. Só que tô ansioso sei lá.
— Com o quê? Tem prova?
— Acho que até tem, mas não é por isso não.
— E então?
— Amanhã eu vou apresentar a Van pra todo mundo cara.
— Ahh! Só por isso?! P*rra, no teu lugar eu estaria c*g*do de medo da prova.
— É sério velho! – O outro dizia aparentando inquietação – Imagina se eles começarem a perguntar coisas sobre ela e tals...
Ian parou de fazer seu tradicional achocolatado e o encarou.
— É impressão minha ou tu tá com vergonha de apresentar tua mina pro teus pais?
— Claro que não! É só que sei lá, eles podem deixar ela constrangida né?
— Só se eles perguntarem se faz cocô colorido como minha mãe mentia pra mim sobre as mulheres.
Dan riu.
— E tu trouxa acreditava né?
— Olha quem falando! O carinha que até os seis anos queria usar calcinha!
— EI! – O mais novo ficou constrangido – E-eu não sabia que eram roupas só pra meninas.
— Ia ficar um tesão de calcinha sabia? – Ian disse malicioso.
— Tu acorda nessa safadeza diariamente ou o problema é comigo mesmo?
— Contigo acontece há mais tempo – O outro riu.
— Vai sonhando via-
— OPA! – Exclamou.
— Foi mal. Ser gay não é ofensa correto?
— Olha aí. Não é que o cérebro do meu homem das cavernas de estimação tá criando neurônios? Que orgulho.
— Vai tomar nesse teu c* vai.
— Já tomei e achei bem gostoso se tu quer saber.
— Credo. É agonizante pensar nisso.
— Em quê?
— Dar o c* ué. Não é disso que estamos falando?
Ian riu malicioso.
— Pergunta pro Andreas amanhã.
— O quê tem o Andreas?
— Eu já comi ele.
— O QUÊ?!
— Aham.
— Como assim velho?! Lembra daquela gata que tava com ele no aniversário da mãe dele?
— Naquele dia foi ele quem me comeu.
— Ai velho! Que nojo! Estamos mesmo falando disso há essa hora?
— Tu quem perguntou se era agonizante dar o c* — O mais velho justificou-se.
— E tu não me respondeu. Só fez um joguinho de palavras.
— Dan, se fosse agonizante não existiram gays passivos e versáteis no mundo.
— Passivos? Versáteis? Que p*rra é essa?
— Passivo é o cara que dá o c*. Versátil é o que gosta tanto de comer quanto de dar e ativo é o que come.
— Tipo o homem e mulher da relação?
— É, mas não chama de homem e mulher não porque entre dois homens transando só existem dois homens transando.
— Ok senhor modernidade – Dan concordou – E o Micael hein?
— O quê tem ele?
— Se tu já pegou todos os nossos primos, tu pegou ele também.
— Sim senhor.
— E como foi?
Ian encarou perplexo o primo.
— O quê deu em ti que quer saber tanto da minha vida sexual?
— Responde o que eu perguntei c*r*lho! – Dan impôs.
— Bom, o Micael nunca tinha tomado um porre na vida. Aí quando eu dormi lá na casa dele eu disse que a gente ia sair de madrugada escondido e ele ia tomar todas. Tu sabe como é o Micael né? Todo c*g*do, bem teu parente.
— Cala boca! – Exclamou o menor, fazendo o maior rir.
— Continuando, ele foi meio com medo dos pais descobrirem no início, mas depois começou a cantar umas gatas que vieram pro lado dele e tal. Beleza, só que ele não pegou nenhuma delas porque ele é muito narcisista. Não consegue ficar dois minutos sem falar algo sobre ele mesmo. Aí ele ficou tri frustrado num canto, EU tive que parar de me agarrar com uma mina lá e ir acudir o coitado. Convidei ele pra beber, o clima foi esquentando e aí nos beijamos.
— E foi a única vez?
— Aham.
— Um dos nossos primos tem cérebro na cabeça pelo menos.
— E tu hein Dan? – Ian perguntou fitando os olhos do outro – Quando que vai rolar eu e tu?
— Foi mal Ian, mas por mim nunca velho. Eu não curto caras, tu sabe disso.
— Tu também não curtiu a Van ser trans e tu até transou com ela – O mais velho rebateu.
— Mas porque eu AMO ela.
— E tu não me ama?
— Como um irmão.
— Então Dan – Ian foi se aproximando, e o primo mais novo sentiu a ansiedade voltando – Só um beijo. Se tu não quiser de novo tudo bem, eu vou respeitar a tua vontade. Assim como eu respeitei a do Micael de não querer de novo.
— Ian por favor-
— Só um beijo Dan – O mais velho foi se aproximando, colocando as mãos no rosto do mais novo – Só um beijo – Sua voz estava rouca.
— E-eu tenho que ir pra escola. Até depois – Dan mal concluiu a frase e já saiu em disparado para o quarto, deixando um Ian frustrado para trás.
O mesmo então retornou ao seu lugar, mexeu seu achocolatado e encarou-o sorrindo.
— Eu sei que tu tá cedendo primo – Dizia para si – Pode mentir pra ti mesmo, não pra mim.
Enquanto isso, Daniel terminava de arrumar suas coisas e partir para a aula. Quando terminou, socou a mochila com raiva.
— Que p*rra é essa agora?! – Xingou alto – Aparentemente vocês aí de cima me odeiam né?
De repente, ele olhou para seu vasinho com o trevo. Notou que o mesmo estava ali, íntegro, mas com a terra seca. Encarou a planta com certa curiosidade já que não se lembrava de tê-la colocado ali.
— Quanto foi a última vez que te reguei mesmo? – Tentava se lembrar.
Deu de ombros ao não achar a resposta, simplesmente foi até o banheiro rapidamente, preencheu o copo que havia ali para fazer gargarejo com água e levou até a minúscula plantinha e o despejou.
— Vai ver é isso né? Vai ver não ando regando minha sorte e ela se voltou contra mim – Comentou – Vou te deixar em cima da minha escrivaninha porque senão eu vou esquecer de te regar de novo.
E de fato o fez. Sorriu, pegou sua mochila e correu até o andar de baixo.
— Até! – Gritou para o primo, que respondeu do mesmo modo.
Foi caminhando pelas ruas tão distraído que nem percebeu quando trombou com alguém.
— Foi mal aí ca- Nem terminou quando percebeu quem era – Bebezão? O que tu tá fazendo aqui?
— Esperando o primeiro pateta passar, perguntar isso e me dar um encontrão – Al sorriu cumprimentado o mais novo com um toque de mão.
— Tu não tá suspenso até segunda? – Perguntou já caminhando. O amigo o seguiu.
— Aham. Mas ontem a Rebeca ligou lá pra casa e disse que era pra eu ir no colégio hoje. Reunião com ela.
— Será que vão te expulsar?
— Deus te ouça! – Disse vibrante – Não aguento mais aquela p*rra de escola. Mais fácil aturar minha mãe me dando um sermão por isso do que engolir aquele pêssego mal chupado da Elis.
Dan riu do comentário.
— Sei não viu cara?! Se fosse comigo eu aguentaria no osso. Falta tri pouco pra tu te formar.
— É, mas sei lá sabe. Não tenho mais motivação de ir pra escola. Te contaram porque fui suspenso né?
— Tu bateu num guri da tua sala porque ele fez uma montagem tua com um carinha.
— Na verdade não era bem montagem – Al explicava – Lembra aquele dia que a gente pegou teu primo e o Gil... – Gesticulou com as mãos um sinal de penetração.
— Sim. Lembro.
— Então. Esse otário tirou uma foto bem na hora em que eu tava conversando no portão com o Gil e ele... Bem... Curto e grosso, que ele tentou me beijar.
— C*R*LHO!
— Shiuuu! Cala boca gralha! – Exclamou o outro.
— Sério isso?!
— Não, eu menti pra te chamar de trouxa.
— Para de brincadeira Alisson.
— Claro que é sério.
— E o quê tu fez na hora?
— Saí correndo né? Essa parte o corno não prestou atenção.
— Tá certo mano. Se tu tivesse ficado ia ser meio estranho.
— Ihhh que moral é essa que tu acha que tem pateta? – Al provocou – Pensa que eu esqueci que tu ficou peladinho pro teu primo?
Dan ficou vermelho com a lembrança.
— A-aquilo foi pra provar que ele gostava de mim.
— Humm e sentiu o pau dele sarrando no teu safada?
— Vai pra p*rra Alisson.
— Vai dar o c* Daniel.
Por mais que Dan tenha ficado zangado no início, teve de rir depois acompanhado do amigo.
— Sei lá, não me imagino naquela situação – Al puxou assunto.
— Eu também não. Até acontecer.
— Tu há de convir comigo que aquilo ficou ‘mó estranho.
— Sendo bem sincero, nem achei tanto.
— Por quê? – Desconfiou.
— Eu cresci fazendo zoeira com o Ian. Já vi ele pelado algumas vezes e ele já me viu também. O que foi estranho foi ele nutrir sentimentos por mim entende?
— Mais ou menos. Sei lá, não sei como teu primo consegue curtir caras.
— Eu também não. E não sei de onde ele quer tanto me pegar.
— Mas tu é homem! De onde ele tirou isso?
— Talvez seja porque ele curte caras? – Enfatizou o óbvio.
— Tu é primo dele.
— E tu nunca pegou uma prima tua? Eu já.
Ponto pra Dan.
— Tá certo pateta. Facilitei pra ti essa.
Andaram mais um pouco em silêncio.
— Tu sente vontade de experimentar? – De novo Al que puxou assunto meio sem jeito.
— Não. Nenhuma. Por quê?
— Curiosidade ué. É contra lei?
— Eita! Nem falei nada.
— Mas pensou – Justificava – Só perguntei por quê... Sei lá, tu já deve ter sido tentando pelo teu primo várias vezes e...
— Sim. Ele me provocou hoje mesmo.
— E o quê tu sentiu?
— Nervoso.
— Nervoso?
— É. Tá surdo?
— Por que tu ficou nervoso?
— Se um cara tá a menos de um palmo da tua boca tu ficaria como?
Dois pontos pra Dan.
— Tem razão.
— Essa suspensão adormeceu teu cérebro né bebezão?
— Vai a m*rda.
Não demoraram muito até chegar a escola. Ambos se despediram com um novo toque de mãos e Al foi em direção a sala da supervisora. Ao chegar lá, teve de aguardar meia hora até que a mulher chegasse.
— Pontual então senhor Alisson? – Questionou Rebeca – Bom dia.
— Eu sou um encanto, pode dizer – Debochou Al – Bom dia Rebeca.
— Muito bem, professora Elis pode entrar.
Al se virou e encarou a professora.
— A senhora vai ser minha advogada de defesa? Desculpa, mas prefiro ser sentenciado a morte.
— Sem brincadeiras Alisson. Eu te chamei aqui pra resolvermos o seu problema – Rebeca lembrou.
— E ela veio fazer o quê? Calcular quantos segundos tem durante meus dias de suspensão?
— Eu sou a professora orientadora da sua turma, senhor Alisson – Elis lembrou – O que ficar decidido a seu respeito aqui, será passado com muita propriedade aos demais professores que compõem a sua grade curricular.
— Ah bom. Então quer dizer que a Rebeca vai me esquartejar e a senhora vai distribuir minhas tripas para os urubus é isso?
— Alisson! – Novamente a supervisora advertiu.
— Eu quero deixar bem claro que meu fígado eu deixo pra minha amada professora de Matemática tá? Se ele tá em bom estado ou não, só Deus que sabe.
— Mais uma tirada e eu aumento mais cinco dias da tua suspensão.
— Ai! Tá bom! Que falta de senso de humor.
Elis revirou os olhos discretamente.
— Vamos ao que interessa. Eu andei verificando com os demais professores que tu não tens um relacionamento saudável com teus colegas. É verdade?
— Bando de paus no-
— ALISSON!
— Orifício anal. Melhor?
Rebeca suspirou.
— Tem ou não tem?
— Não tenho. Não gosto deles.
— E por que não gosta?
— Tu é supervisora ou psicóloga?
— Estou tentando entender essa sua rebeldia Alisson – Explicava – É muito comum os adolescentes se voltarem contra o mundo. E é por isso que nós, enquanto educadores, temos a obrigação de mediar determinados comportamentos e estimular um ambiente agradável a vocês.
— Falharam miseravelmente então.
— Justamente por isso que te chamei aqui. Quero te propor uma recolocação na turma do 3B.
— O QUÊ? – Tanto Al quanto Elis exclamaram.
— Rebeca, é bom lembrar que nessa turma também temos o Daniel dos Anjos lembra?
— E qual o problema com ele Elis?
— Talvez o dois juntos fosse um tanto... Complicado, não concorda?
— Complicado nada professora. Dan agora é meu parça – Al explicou sorrindo.
— Seu o quê?
— Parça. Na idade da pedra chamavam de amigo querido.
— Ah. Que motivador.
— Para de disfarçar que me ama.
— Já está decidido – Rebeca interrompeu a discussão – Alisson vai ser colocado no 3B como experimento. Novos colegas pode ser uma boa experiência. E se tu e Daniel estão se dando tão bem, talvez aprendam muito melhor juntos.
— Viu professora amada? Vou aprender junto do meu amiguinho.
— Só acredito vendo senhor Alisson. Só acredito vendo.
— Quando eu voltar da suspensão eu já vou pra turma nova?
— Não. Só depois da volta das férias.
— Beleza. Era só isso?
— Sim. Está dispensado.
Al levantou-se, mas antes de ir embora olhou para Elis que o fuzilava.
— Terça eu tô de volta professorinha. Me aguarde.
E seguiu seu caminho rindo. Era a primeira vez que ir a escola lhe divertia tanto. Mandou a seguinte mensagem no grupo dos amigos:
“3B Lá vou eu cambada! Me aguardem p*rraaaaaa!” – Enviado por Al para grupo “Lado negro da força”
***
Acordar cedo tinha vantagens e desvantagens. A principal delas era como tudo parecia ficar incrivelmente entediante. Ian gostava de ver gente, conversar, discutir de maneira saudável e claro dar uns amassos quando possível. Olhara todos os filmes de um serviço de streaming do gênero famoso, já sabia de cor a fala de certos filmes. Decidiu que era hora de sair. Levantou-se rápido, colocou uma calça de moletom cinza (Pois estava só de cueca em seu quarto), um tênis sneakers e uma camiseta branca com um blusão preto. Pegou seu celular, plugou seus fones de ouvido, trancou a casa e foi a andar pelas ruas simpáticas e movimentadas de Nova Petrópolis. Pensou em passar na casa de Ágata ou até mesmo chamá-la para a caminhada, porém queria curtir um pouco da própria companhia. Queria poder fazer as coisas no seu tempo e sem pressa.
Caminhou até a Praça da República, pela rua coberta... Sempre observando a tudo e a todos com muita proporção. Seu passatempo preferido era imaginar como as pessoas eram de acordo com as roupas que usavam. Criava mil e uma teorias sobre vários ali. Acho engraçado quando passou por um casal japonês que parecia estar se xingando, ou quando do nada duas amigas pediram para ele tirar foto com elas. Contudo, foi no famoso Labirinto Verde que lhe surgiu uma surpresa. Fora até o local andar por entre as “altas paredes” de cerca viva que ali tinham. Gostava de se perder ali, pois parecia se achar internamente. Era uma sensação curiosa.
Porém, no centro do local, encontrou Gil sentado no chão com duas garrafas de vodka em seu lado.
— Mas que p*rra é essa?! Gil. Gil acorda! – Exclamou.
— Eu tô acordado. Só tava descansando os olhos – Sua voz estava alterada e seu hálito denunciava a bebida.
— Que m*rda tu fez cara?
O garoto riu.
— M*rda eu não fiz. Comprei cachaça mesmo.
— Pra quê?
— PRA BEBER C*C*TE! VAI ME PRENDER?!
— Fala baixo Gil!
— Falo se eu quiser! Nenhum de vocês é meu pai e minha mãe.
— Vocês quem?
— Vocês aí que tão me julgando, se achando melhor do que eu. Pois eu quero dizer uma coisa pra vocês seus babacas: EU TENHO VERGONHA DE QUEM NÃO BEBE!
— Shiiu! – Exclamou Ian – Vamos lá pra casa vem.
— Tá tá. Não precisa gritar!
— Eu não gritei. Tu que tá viajado na bebida.
— F*da-se.
Vendo que o rapaz não iria conseguir nem se erguer pelas próprias pernas, Ian pegou-o no colo e o carregou até a casa de Dan, onde o colocou direto embaixo do chuveiro.
— Me ajuda a tirar tua roupa Gil.
— Vai me estrupar é? – O garoto perguntou malicioso.
— É estuprar Gil. E só quero ver se passa esse teu quase coma alcoólico aí.
— Virou professora de português é? Eu já passei da escola.
Ian nem se deu ao trabalho de responder. Só seguiu tirando a roupa deixando-o só de cueca vermelha.
— Entra aí debaixo da água.
— TU NÃO MANDA EM MIM! – Gil cruzou os braços e fez beiço de criança.
— Se eu tiver que te por a força vai ser pior. Entra.
— Aff.
O garoto entrou.
— AI! QU P*RRA! TÁ GELADA!
— Fica quietinho aí! – Exclamou Ian.
Lógico que o garoto teve de tirar sua roupa e entrar do mesmo modo dentro do Box para auxiliar Gil, que mal conseguia manter-se de pé. Pegou a esponja e passou pelo corpo do rapaz a fim dele se acalmar. O que de fato aconteceu.
— Que delícia sentir alguém tocando meu corpo de novo – Comentou Gil sorridente – Toca aqui vai.
Levou sua mão até a cueca agarrando seu membro.
— Tu sabe aonde e com quem tu tá? – O outro perguntou.
— Eu sei que essa voz eu me lembro. Eu gosto dessa voz, mas meu olho tá cansadinho agora pra abrir.
Ian sorriu.
— Tudo bem. Quando tu melhorar tu vai poder entender tudo.
— Só vou melhorar quando eu tiver ele pra mim de novo.
— Quem?
— Ian – Respondeu com voz chorosa – É só ele que eu quero. Eu sou capaz de gritar pro mundo que eu amo ele quer ver? EU AMO O I-
— Não precisa! Não precisa! – Ian tapou a boca do ex namorado, tirando logo em seguida.
— Ele não me quer, mas eu quero ele.
— Por isso tu bebeu desse jeito?
— Uma pena que eu não morri viu? Seria bom. Eu pararia de me sentir um b*sta toda vez que lembro o que eu fiz com ele...
O outro rapaz não deu mais nenhuma palavra depois da seguinte frase.
— Vem Gil. Chega de banho. Vou te vestir e te levar em casa.
***
Depois que saiu da escola com aquela notícia, Al ficou olhando as mensagens no grupo. Mandy era a mais inconformada, prometendo falar com a mãe para que a trocasse de turma também, o que alegrou Adrian (A princípio, nenhum dos dois comentara sobre a primeira noite que tiveram juntos. Estavam envergonhados demais pra isso). Durante o percurso, viu o primo de Dan andando contente pelas ruas da cidade. O viu de longe e deu graças por não precisar falar com ele.
Chegou ao “Wunder Bar” para trabalhar, já que a suspensão não fora revogada como esperava.
— Bom dia! – Disse alegre a Gina.
— Bom dia Al – A outra respondeu – Que milagre.
— O quê?
— Tu chegando antes do Gil. Ele costuma ser bem pontual.
— Gil ainda não chegou?
— Não. Por quê?
— Curioso. Só isso.
— Aham sei – Disse Gina desconfiada – Não sabe nada dele?
— Eu não. Deveria?
— Não Al. Só perguntei.
— Tudo bem. Vou trabalhar então.
— Ok.
A única coisa que incomodava Gina além do mistério entre Gil e Al, era aonde o primeiro teria se enfiado?
CONTINUA
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