NOSTÁLGICO

— Bêbado? No meio do Labirinto?! – Dan questionou.

— Aham. Foi bem estranho ver ele daquele jeito – O primo mais velho comentou.

Sábado, manhã nublada. Finalmente o tão aguardado aniversário do primo Micael havia chegado. Devido à faculdade, Ian não pôde comentar com Dan sobre a manhã que tivera com Gil antes de ir trabalhar e em seguida estudar. Levou-o para a casa dele, o trocou de roupa colocando vestimentas do próprio e deixou-o descansar. Não perguntara e nem queria saber como o garoto ficou naquele estado.

Naquela manhã, colocavam as últimas coisas no carro de Isabel e Bruno, e estavam aguardando a chegada das moças que os acompanhariam na viagem.

— Pra alguém que quase trepou em cima do sofá da minha casa o que é ficar bêbado e dar pt, né? – Dan sussurrou para o primo mais velho que socou-lhe o braço – EI!

— Pra tu ficar esperto – Ian comentou, sorrindo – Falando sério, nunca imaginei o Gil assim.

— Ele não costuma beber?

— Nunca.

— Pra tudo tem uma primeira vez, né?

— Sei lá, velho, confesso que fiquei meio deprê com essa história na hora sabe? Tudo leva a crer que ele tomou um porre por minha causa.

— Lá vem o senhor “A vida de todo mundo gira em torno do meu umbigo”.

— Mas foi ele quem falou isso.

— Com essas palavras?

— Não – admitiu – Mas ficou falando que me queria e tals... Então só pode ser isso.

— Olha, cara, no teu lugar eu estaria c*g*ndo pra isso.

— Aham – disse, sarcástico – Eu lembro de quando a Van e tu ficaram de c* doce um com o outro. Bem resolvido emocionalmente tu né?

— Eu e a Van tínhamos brigado, não terminado.

— Ah, sim. Claro. Eu lembro que tu tava bem a fim de continuar, né? Como é que era mesmo? “Eu não sei, ela já foi um guri e tinha um pênis blablabla”?

Dan ficou vermelho.

— Vamos voltar ao ponto da questão? – ordenou – Tu já terminou com esse guri. Não tem mais nada com ele. Se ele quiser se matar, problema é dele.

— Que isso, Dan? – Ian se surpreendeu com a fala do primo – Tu é demente é? Não ia deixar que o Gil fizesse uma idiotice dessas! Eu quero muito bem ele.

— Cara, se tu não tem mais nada com ele pra quê tu gasta neurônios com ele? É isso que eu não entendo.

— Porque tu é uma mula, Daniel. Sentimentos não são bem a tua praia, e olha que tu sente até demais às vezes.

— Tu tirou o dia pra me revidar, né?

— Não. Só tô dizendo que não é porque a gente não tem mais um lance que tenho que querer que o guri se mate.

— Eu falei no sentido figurado. C*r*lho, pra alguém tão canção de Armandinho, tu tá bem quadrado!

— Mas olha quem falando! Mais um pouco e vão te chamar de forma geométrica também.

— Meninos! Por favor! Não vamos brigar hoje, né? – Isabel interveio, indo com uma caixa em direção ao porta malas do carro onde os garotos estavam parados.

— É o Ian que acordou azedo, mãe – Dan mexeu.

— É o meu primo que acordou fazendo cosplay de “It, a coisa”, tia –foi a réplica.

— Tá bem, mas agora chegou os dois! Acabou. É um dia feliz e não quero ninguém aqui tendo chilique.

— Que caixa é essa que a senhora trouxe, mãe? – Dan questionou.

— Presente do Micael. Liguei pra Drica e ela me disse que o teu primo queria muito um quadro dos Vingadores.

— Nossa, o Micael só falta usar fraldas.

— Olha quem falando – Ian revidou.

— Mas tu tá com a macaca hoje! P*rra.

— Eu não! Tô felizão que vou reencontrar nossos primos queridos – Ian sorriu, malicioso.

— Imagino – Dan revirou os olhos.

— Bom, gurizada, já fecharam os quartos de vocês? Tá tudo certo? – Bruno perguntou – Daqui um pouco a Marcella e o Ronaldo estão aí e a gente vai meter o pé.

— Tudo certo sim, pai.

— Cadê a Vanessa hein? Tô me roendo de curiosidade pra saber quem é essa guria – Isabel comentou.

— AHHH! Foi bom a senhora falar, tia. Me lembrei que preciso fazer uma coisa muito importante! — Ian exclamou, tirando o seu celular do bolso colocando na câmera.

— Lá vem o metido a Marina Joyce.

— Vai pra p*rra, Daniel – Ian falou – Hey gurizada! Hoje é sábado, o dia tá meio insosso-

— E ELE É A MARINA JOYCE! – Gritou Daniel atrás – HELPE HIM PLEASE!

Ian o encarou e virou a câmera do celular.

— Essa é minha prima, Daniela. Ela não é um tesão gente?

— Vai tomar no teu c*.

— Tu que vai tomar no teu antes, ô palhaço. Continuando, minha prima – Dan revirou os olhos – a família dela e eu vamos todos para o aniversário do nosso primo Micael. Ele é f*da pra c*r*lho.

— Um bebezão de fraldas isso sim.

— Pelo menos ele não é berrão como certas pessoas, né Daniela?

— Daniela meu ovo!

— Desculpem a minha prima. Ela vai apresentar o boy magia dela pros pais e ai tá toda liquidificador hoje. Aliás, ali está à dita cuja! Uma salva de palmas para Vanessa, o boy magia!

Os tios entraram na onda da brincadeira, e de fato aplaudiram Vanessa. A loira, que chegava junto a Ágata, ficou vermelha de vergonha.

— Então essa é a famosa Vanessa?! – Isabel se aproximava da moça, contente — Sou Isabel, querida.Prazer em te conhecer viu?

— Ela já conhece todo mundo, mãe. Eu mostrei foto pra ela – Dan explicou emburrado.

— Não estraga esse momento lindo, seu babaca – impôs Ian.

— Eu sou Bruno, pai do babaca... Digo, do Daniel.

— PAI!

— Ué?! Foi teu primo quem deu ideia.

Os demais riram.

— Eu também estou contente em conhecer vocês. Esperei por isso há muito tempo – Confessou Van, ainda vermelha.

— Meu filho é o rei do drama, Vanessa. Uma moça tão bonita e radiante como tu e ele escondendo da gente – Isabel não pôde deixar de falar.

— Eu não escondi. Só não apresentei. É diferente – O garoto se defendeu.

— Como viram, foi um lindo momento em família – Ian concluía sua gravação – E é o primeiro de muitos que terão nesse fim de semana, eu tenho certeza. Até depois.

— Não sabia que tu gravava vídeos, Ian – Comentou Van.

— É um velho costume. Faço pra registrar momentos legais.

— Interessante.

— Ele é que nem bom brill, tá ligada Van? – Ágata comparou abraçada ao ficante – Mil e uma utilidades.

— Percebi.

— Não vai dar um beijinho na namorada, campeão? – Bruno perguntou empolgado.

Na mesma hora Marcella e Ronaldo estacionaram seu carro, e não demoraram a se aproximar e cumprimentar a todos. Dan sentiu-se aliviado por aquilo. Acharia vergonhoso beijar na frente dos pais, assim como achava vergonhoso ver os pais se beijarem.

— Mas que guria linda tchê! – Marcella falou contente – Um baita partidão sobrinho querido.

— Concordo – Ronaldo se manifestou.

— Que isso, gente. Vocês que são muito gentis – A loira falou.

— Eu soube que vão no carro com a gente. Vai ser ótimo! Vamos poder nos conhecer melhor já que o teu namorado não apresenta ninguém, não manda foto... – Marcella alfinetou.

— Ihh! já vi que a bomba vai estourar no meu, né? Nunca no dos outros – Dan ficou indignado.

— Mas é lógico! Eu sou uma vítima aqui!

— Aham sei.

— Já que chegaram todos, vamos então? – Bruno questionou.

— FINALMENTE ALGUÉM FALOU ALGO ÚTIL AQUI! – Dan agradecia.

— Mas como é rabugento! Parece um velho né?! – Isabel retrucou.

— Vamos logo, gente. O trânsito já vai estar um caos há essa hora. Teremos sorte se não chegarmos tarde lá – o pai de Dan reforçou.

— Deixa de ser dramático igual teu filho, Bruno – Isabel ordenou.

O homem revirou os olhos e entrou dentro do carro, assim com os demais. Ian e Ágata foram com eles, enquanto Dan e Van foram com os tios do rapaz. E assim foram para a tão falada festa do primo Micael.

***

Um dos amores que a maioria julga inquestionável é o amor materno. Um amor que engloba vários outros conceitos e sentimentos como zelo, proteção, amizade, carinho... São esses e tantos outros que fazem com que as mães sejam as pessoas que sempre estarão ali em nosso lado, torcendo por nós.

Al podia dizer com orgulho que sua mãe era assim. Marisa sempre fez tudo pelo filho. Percorreria o Monte Everest todo se preciso fosse, tudo por amor. Quando houvera aquela briga, Al sentiu-se sem chão, sem ter a quem recorrer. Porém as coisas mudaram e estava tudo retornando a normalidade.

— Eu acho um abuso tu não ter folga sábado e domingo – Marisa reclamava. Era sábado de manhã, ambos estavam sentados a mesa tomando café.

— Pelo menos folgo um dia na semana. No melhor deles ainda: Sexta – Al argumentava.

— É, mas aí eu tenho que passar o dia todo sozinha em casa porque meu filho tá sendo escravo.

— Qual é, mãe! Nem é tudo isso.

— É tudo isso, sim! Queria meu bebê aqui comigo.

— Eu tô aqui agora, não tô?

— Sim, mas daqui um pouco já vai se arrumar. Aliás se arrumar pra que, hein? Tá querendo impressionar alguma ariranha?

— Talve... AI! – Al nem concluiu a frase quando a mãe lhe deu um tapa na mão – Doeu sabia?

— Aí de ti se tu me aparecer aqui com um filho antes de eu chegar nos cinquenta. Aí de ti!

— Mas eu não tenho pegado nem gripe e a senhora já pensa em netos?!

— É óbvio que penso! O meu filho já tá com barba na cara, não precisa mais de mim. Agora, os meus netos precisam da vovó.

— A senhora tá viajando.

— AI DE TI SE TU NÃO ME DER NETOS ALISSON! EXPERIMENTA GASTAR TUDO NO RALO DO BANHEIRO PRA VER SE NÃO TE CASTRO DE UMA VEZ!

O garoto cuspiu o café em cima da mesa. Ficou desnorteado com tal colocação.

— Q-QUE ISSO, MÃE?!

— Tu acha que eu não sei o que tu faz no banheiro enquanto toma banho?

— A gente tá falando mesmo de p*nheta no café da manhã... AI! – Outro tapa, desta vez na orelha – Que foi?!

— Isso é jeito de falar com a mamãe?! – Exclamou Marisa – Não é p*nheta, meu filho, é masturbação.

— Mas é a mesma coisa!

— Eu não te criei pra tu ser grosso, Alisson. Aprende a usar as palavras bonitas.

— Que coisa mais de viado isso...

— Viado educado, é bom enfatizar. Mais até do que certos héteros que são uns protozoários sem cérebro, né filhinho?

Al nem conseguiu responder, pois ouviu alguém batendo em seu portão e chamando seu nome.

— Vai lá atender – Marisa ordenou.

O garoto revirou os olhos, porém fez o solicitado. Surpreendeu-se quando viu quem estava em seu portão.

— É só falar em viado que já brota um da Terra – Comentou para si, enquanto ia até o portão.

— E aí, Al.

— Fala, Gil. Até que enfim apareceu – Falou quando chegou ao mesmo.

— É... Tive uns probleminhas ontem.

— Não devia estar trabalhando?

— Sim... Mas... Não tô cabeça pra trabalhar sabe?

Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes.

— Tu quer entrar? – Al questionou depois de um tempo.

— Se tu não se importar...

— Entra aí.

Ambos então entraram em casa, quando Marisa veio recepcioná-los.

— Mas olha quem voltou! – Disse animada – Que bom te ver, Gil! Aliás, cada vez que te vejo tu parece que fica mais bonito, não acha Alisson?

— Eu?! Não reparo em macho, mãe!

— Ora essa, devia sabia? Ia servir pra tu ver exemplos que tu pode seguir.

— E desde quando olhar homem vai me fazer ter ideia de como eu devo ser?

— Olha o porte deles, como se cuidam. Aí Alisson, tu às vezes nem parece meu filho. Eu tenho minhas dúvidas se eu pari um bebezinho ou uma potranca!

O comentário fez Gil rir, porém o atingido não gostou do comentário.

— Valeu, mãe.

— Gil, já que tu tá aqui, ensina meu filho a ser delicado como tu. Aquele nosso último encontro eu fiquei fascinada com a tua sensibilidade com as coisas, teus assuntos e conversas.

— Obrigado, Marisa – O rapaz agradeceu.

— Quer tomar café? Estávamos aqui agora pouco.

— Não, obrigado. Eu tomei em casa.

— Fica pro almoço então?

— É Gil, fica. Quem sabe aproveita e pega o meu quarto pra ti – Al comentou emburrado.

— Ownn ficou com ciúmes da mamãe com outro? Bem feito. Ninguém manda ser cabeça dura.

— Tá, mãe. Eu já entendi que sou escroto e que o resto dos homens são uns amores.

— Que bom. Então trata de mudar. A mamãe não quer passar vergonha contigo ouviu?

— Sim, senhora – Consentiu – ‘Bora lá pro meu quarto, Gil?

— Por mim, beleza.

— Juízo, hein? – Marisa advertiu.

Os rapazes foram então em direção ao cômodo do andar de cima. Assim que entraram, Al fechou a porta. Gil se sentou numa cadeira que havia ali, e o outro em sua própria cama.

— Legal esse teu trevo – Gil comentou – De quatro folhas ainda? Que sortudo.

— É. Aliás, tenho que regar ele hoje – Al lembrou – Mas enfim, o que rolou pra tu vir aqui?

O outro suspirou.

— Desculpa vir te incomodar, mas contigo eu tenho mais confiança de falar sobre isso, sabe? Os meus amigos já tem um discurso pré fabricado pra falar do Ian então...

— Imagino. Tu deve falar muito dele, né?

— Aham. E foi justamente por ele que eu não fui trabalhar ontem.

— Não entendi.

— Eu... – Outro suspiro – Eu saí anteontem para me distrair sabe? Ver se esquecia um pouco essa situação toda, mas...

— Só piorou – Al completou.

— Isso.

— Ficou com algum... Cara?

— Não. Saí pra beber mesmo.

— Bah! Ligou pro Ian daí?

— Quem dera tivesse feito isso – O outro lamentava – Ele me encontrou ontem de manhã podre de bêbado no Labirinto verde. Me levou pra casa do Daniel, me arrumou e me levou pra casa. Passou a manhã toda comigo.

— Tu lembra disso?

— Um pouco só. Foi minha mãe quem contou depois de me dar um sermão.

— A barra pesou né?

— Muito. Minha mãe já tem o meu pai pra dar vexame pra ela por causa da bebida. Agora o filho...

— Nada haver, velho. Todo mundo dá pt alguma vez na vida. Não é como se tu fosse o único.

— Mas eu me sinto um lixo por causa disso, sabe? – O mais velho confessava – Eu não segurei o Ian, fiz minha mãe passar vergonha... Que p*rra eu ainda faço nesse mundo?

— Ei! Ei! Ei! Não vem com esses papos, não! Eu posso ter todos os defeitos do planeta, agora concordar com isso, não! – Exclamou Al.

— Eu não me encontro mais. Me sinto uma assombração que fica aí. Maldito seja o dia que o Ian foi lá em casa me procurar! Eu achava que ia ter forças contra ele, mas tava enganado.

— É porque tu amou demais esse guri, Então é normal que tu se sinta assim.

— Será?

— Claro. Pensa que uma hora tu vai encontrar outra pessoa pra ti. O primo do Daniel pode até ter sido um guri importante na tua vida, mas outros virão.

Gil sorriu.

— Depois da tua mãe fazendo graça, tu é bem prestativo, Al.

— É, eu tento né? – O outro coçou a nuca.

— Mesmo assim agradeço o que tu fez por mim. Ando te enchendo muito ultimamente...

— Depois de ter te visto quase transando em cima de um sofá, nada mais me espanta.

Gil riu.

— Desculpa por aquilo. Foi traumático imagino.

— Um pouco. Nem me lembro tanto assim daquilo.

Ambos ficaram em silêncio, até que Gil encarou os lábios do outro e devagar levou seu dedo indicador direito a eles.

— Tua boca é bem desenhada como a do Ian... – Comentou pensativo.

Al, por sua vez, ficara envergonhado com aquilo e se afastou um pouco.

— É... Valeu.

— Mas é sério – Gil levantou-se e sentou do lado dele – A boca dele é muito boa pra beijar.

— Então tá...

— Do quê tu tem medo, Alisson?

— Como assim?

— Em ficar com um guri. Do quê tu tem medo nisso?

— Medo? – Al riu fraco – Não tenho medo. Só não sinto vontade. É proibido agora?

— Não. Claro que não.

— E então?

— Eu já beijei gurias sabia?

— Jura?

— Aham. Não gostei muito.

— Não sei como consegue não gostar.

— Pois é, e eu não sei como tu consegue – Gil riu – Mas foi só uma ou duas vezes. Depois vi que não era minha praia mesmo.

— Hum... Que interessante.

— Podia ser assim contigo também – Se aproximou do garoto – Podíamos ficar. Ninguém ia saber, só nós dois.

— Gil, para com isso. Tu tá falando isso porque tá fraco de espírito velho. Tu ama o tal do Ian! Lembra disso?

— O Ian não me quer mais, Al – Mais aproximação – Quando ele põe um ponto final ele jamais volta atrás. Jamais.

— Pode ser que tu esteja enganado e ele volte atrás por te amar também – sentiu seu estômago gelar quando suas costas alcançaram a parede e ele ficou sem ter para onde correr e Gil se aproximava mais em silêncio,

— Tua boca... É tão parecida com dele... Tão gostosa e tão provocante – sua voz já saía rouca.

Não demorou para que seus lábios se encontrassem tímidos. Al estava branco como neve, seus olhos abertos e arregalados pareciam não acreditar no que estava acontecendo. Gil continuava a dar selinhos cada vez mais demorados, porém ele não retribuía. Seu coração parecia um trio elétrico dentro do peito. Como aquilo podia estar acontecendo?

O ápice foi quando o rapaz tentou iniciar um beijo mais longo e sua língua começou a pedir passagem. A boca como por impulso se abriu e consentiu a passagem, não fazendo o mesmo com o outro. Gil ficou assim por alguns instantes até que parou sorridente.

— Tu deixou que eu te beijasse, Al – Falou sorridente – Tu conseguiu. Beijou um guri.

Al não disse nada. Continuava estático e pálido, começando a preocupar Gil.

— Alisson? T-tá tudo bem?

Não deu tempo do garoto responder, saiu correndo em direção ao banheiro, ajoelhou-se diante da privada e colocou tudo que havia comido para fora. Ficara ali por uns dois minutos, até cair ao lado da mesma e ficar ali com as mãos na barriga.

— Alisson! – Exclamou Gil – Al! Desculpa! E-eu não sabia que ia te fazer tanto mal ficar com um garoto e-

— Me dá um chá – Pediu gemendo – Pede pra minha mãe... Me trazer um chá.

O outro se surpreendeu.

— Não vai falar nada com relação ao-

— Pede pra minha mãe a PORRA DO CHÁ, GIL! – Gil então percebera que o rapaz não estava nada contente, porém foi fazer o que lhe foi solicitado.

***

Taquari. A “cidade-mãe” do Vale de mesmo nome. Uma cidade de campo tão tranquila e afastada das loucuras da cidade grande. Um mundo completamente a parte daquele vivido por Dan e sua namorada. Não que Nova Petrópolis fosse uma cidade tumultuada, porém ainda sim por ser uma cidade turística tinha de conviver com uma grande massa de pessoas. Já ali não. Era só paz e quietude.

Foram os bisavós da família do garoto quem compraram o imenso sítio que era mantido pela família, assim como a casa em Rio Grande. Tratava-se de uma casa enorme, de arquitetura espanhola, cercada de muita mata e um vasto patrimônio que certamente seria deles um dia (De Dan e seus primos, no caso). Manter a propriedade era outro dos desejos deixados pela avó antes de falecer. Também pudera: Aquele patrimônio era a materialização física do amor de um jovem espanhol por uma brasileira. Ramón e Cecília criaram todos os nove filhos ali, com muito amor e muita luta também. A segunda guerra não fora nem um pouco convidativa e deixara os imigrantes como seres malignos e rejeitados. Cecília muito defendeu seu marido de humilhações e constrangimentos, ficando ao seu lado até mesmo quando sua morte se deu anos atrás. Uma história bonita, poucas vezes passadas para a geração dos bisnetos.

— Que casa bonita, né Dan? – Van estava deslumbrada com a casa de amarelo mostarda.

— É sim. Os ratos que têm nela também são uma graça. Quer ver? – o namorado perguntou.

— Trata de desamarrar essa tromba ou senão eu juro que te jogo no chiqueiro com os teus semelhantes.

— Affs.

— Pra quê esse mau humor, posso saber?

— Eu conheço meus primos, Van. Eles são um bando de otários e vão ficar te cantando toda hora.

Van riu.

— Esse é teu medo? Que um deles me encante?

— O Micael principalmente – Dan confessou – Ele é um baita de um galinha. Fica esperta.

— Pode deixar – Falou sorrindo – Agora, desamarra essa cara vai? Senão vou começar a achar que sou eu o problema.

— Claro que não. Pelo contrário, tu é a solução – O outro retribuiu.

— Que bom saber – Deram um beijo.

— Mas olha aí! O gurizão cresceu, hein? Quem diria? Daniel com uma mina dessas? – Falando em Micael...

— Fala aí, primo – O garoto deu um toque de mãos.

— E a senhorita? Tem nome? – Micael falou com a voz aveludada.

Um dos maiores atributos desse primo era o quão rápido ele conquistava as garotas que queria. Seu porte ajudava bastante: Os olhos verdes, a pele bronzeada, alto e forte pela dedicação a malhação (Não era um monstro de academia, mantinha um padrão normal de músculos), cabelos morenos com um topete loiro, a barba por fazer e seu charme extra – A pinta do lado esquerdo do pescoço. Tinha dom com o flerte,e encantamento... Porém seu repertório acabava aqui. Seus relacionamentos nunca foram exemplo pra ninguém.

— Tem sim. Chinelo 40 na tua cara – Dan se intrometeu.

— Que isso, cara? Pra quê essa violência?

— Nada, ué. Só tô brincando.

— Aham, sei. Te conheço, Daniel, e não é de hoje.

— Eu sou Vanessa – A loira interrompeu o climão provocado pelo namorado – Parabéns pelo teu aniversário. Escolher fazê-lo aqui foi uma excelente ideia. Tudo parece tão calmo.

— Não é querer puxar brasa, mas aqui é tipo o paraíso na Terra – Ian comentou sorridente – Grande Mica! Como é que tá? Se sentindo velho?

— Só depois de assoprar as velas. Até lá, continuo com dezenove.

— Com essa barba parece o mais velho de nós sabia?

— Eu fico gostoso com essa barba. Pergunta pras minas lá de Porto Alegre – O primo falou malicioso – Aliás, quando tu vai voltar pra lá cara? Saudades da gente reunir a primarada e farrear.

— Acho que o Ian só volta pra Poa quando o Daniel fizer isso também – De dentro da casa, surgiu Andreas. O garoto, mais velho entre os primos, mantinha aquelas características que chamavam a atenção: Suas sardas marrons em contraste com sua pele negra clara.

O rapaz chamou a atenção de Ágata.

— WOW! – Exclamou ela – Quem é esse, tigrão?

— Esse é o Andreas, gata, mas a gente chama ele de Drê – Ian notou o olhar safado da garota sobre o primo e sorriu – Ele é bi.

— Interessante... –Falou, sorrindo maliciosamente, sem ter a atenção do mesmo.

— Respondendo ao teu comentário, Drê, eu acharia f*da se o Dan realmente fosse morar com a gente lá. Ele também é nosso primo.

— Eu sei. Por isso que eu disse – Andreas falou dando um abraço no primo – Tava com saudades de ti. Muitas saudades.

Ian sorriu, não fazendo cerimônia em apalpar o traseiro do garoto na frente dos presentes.

— Eu também.

Van encarou a cena perplexa e cochicho nos ouvidos de Dan.

— É impressão ou esses dois já...

— Digamos que meus primos tem uma relação bem forte.

— Então eles...

— Aham.

— Gente. Que babado.

— Eu sei. Descobri isso há pouco tempo também – Dan foi cumprimentar o primo que chegara – Fala, Andreas. Beleza?

— Tudo certo sim. E essas moças? Quem são?

— A loira é minha mina Vanessa e essa do lado do Ian é a Ágata, ficante fixa dele.

— Ah! Ficante fixa é? Bacana – Respondeu o outro sem muito entusiasmo – E tu é a famigerada Vanessa? Olha, que mulherão hein.

— É, mas ela tá bem de namorado.

— Ihh, já vi que vai ser esse ciúme o fim de semana inteiro! – Lamentava Van.

— Força, miga— Ágata disse.

Os demais riram. Logo Isabel, Marcella, Ronaldo e Bruno chegaram. Vieram a passos mais curtos, admirando a paisagem e tudo que ela lhes oferecia. Cumprimentaram os sobrinhos, conversaram um pouco com Vanessa e Ágata e seguiram para dentro da casa.

— E Luan e Levi? Onde estão? – Ian perguntou – Tô com ‘mó saudade deles, cara!

— Lá na cachoeira tomando banho. Se quiser eu te levo lá – Drê se ofereceu.

— Beleza! Deixa só eu largar minha mochila num dos quartos e a gente vai.

— Escuta, a gente se organizou para os primos dormirem nos quartos e as garotas em outro. Afinal, tem as nossas primas né?

— A Giulia vem? – Perguntou Dan animado, levando um tapa na nuca da namorada – EI!

— Se ela vier, tu vai dar “Oi” e “Tchau” pra ela ouviu?

— E depois sou eu o ciumento né?

— Essa festa vai ser um babado só. Já tô até vendo — Ágata fez um comentário. E não podia estar mais certa.

***

A noite não tardou a chegar. O céu, que durante o dia mostrou uma aparência fúnebre, ficara sem nuvens mostrando a beleza do local. Havia um espaço arrumado especialmente para que a festa ali acontecesse. Em outros tempos, fora de madeira velha e que por pouco não caíram em cima de alguém. Agora era diferente, era uma construção de concreto firme e bem sólida. Fizeram dali um espaço para festas (Inclusive em toda sua volta havia uma área coberta), e o galpão que tinha ali foi recolocado mais para os fundos do pátio. Era um prédio com as paredes todas de vidro e uma entrada nas três paredes principais, cujo telhado era feito com telhas de barro de cor azul forte. Tudo fora perfeitamente decorado para os 20 anos de Micael.

— Como a família deles é grande, né? – Van comentara com Ágata.

Na ocasião, a loira vestia calça legging preta, botas e jaqueta de couro marrom cano e manga longos, uma camiseta estampada preta, além de brincos de argola.

— Não viu a minha família. Socorro – a outra falara – O Carandiru não suportaria tanta gente.

A garota usava tênis all star, calças do mesmo tipo da amiga, uma blusa ombro a ombro roxa com detalhes decorativos. Suavizou os tons de preto na maquiagem, dando um realce a seus olhos castanhos. Usava brincos pequenos que tinham formato de caveira.

Vanessa riu do comentário.

— Imagino a cena.

— O que eu reparei é que as primas deles são ‘mó gostosas guria! Sabe a tal da Giulia, que o cavalo manco do teu namorado falou?

— Essa ridícula veio, é? – Van revirou os olhos.

— Aham – Ágata sorriu provocativa – Acho que não vai precisar ficar de olho. Ela tá dando mais atenção para uns guris ali do que pro teu macho.

— Acho ÓTIMO isso mesmo. Safada.

Foi a vez de Ágata rir.

— Vou tentar ficar com ela.

— O QUÊ? E o Ian, mulher?

— O Ian aprovou. Disse até que queria ver.

— Meu Deus – Van ria – Vocês dois são pervertidos, hein?!

— Hey, gata – Um rapaz falou ao pé do ouvido de Vanessa fazendo a mesma se assustar.

— Que isso, guri?! Quer me matar do coração?!

— Foi mau. Só estávamos lá com os nossos parças e vimos que vocês estão aqui sozinhas.

— Antes só do que mal acompanhada, né queridinho? – Ágata rebateu.

— Fiquem tranquilas – Um outro garoto que usava boné e era um pouco mais baixo do que Ágata dizia – Somos de fé.

— Que bom pra vocês.

— Não estavam a fim de... Ir lá pra fora? Aqui tá um calor...

— E lá deve estar frio. Estamos no Inverno e aqui consegue ser mais congelante que a nossa cidade. Portanto obrigada, mas não – Van se intrometeu.

— Tem certeza? – O menino que cantara Van passou a mão pela própria calça – Tenho a impressão que as gurias iam gostar dos nossos amigos.

Van e Ágata se encararam. Nem pensaram muito, apenas jogaram refrigerante nas calças de ambos.

— Pra “acalmar os amigos” – Ágata sorria maliciosa – ‘Bora lá com nossos boys, Van?

— Vamos, sim – A loira ria, deixando os rapazes envergonhados.

Não demoraram a achar Dan e Ian, que estavam em um canto junto dos demais primos a conversar. Ficaram com eles até quando, às 22h30min, se deu a abertura da pista de dança ao som de “One” de Swedish House Mafia.

Convidar Dan para dançar foi uma tortura. O garoto era relutante quanto a dança no começo, porém ia se soltando e mandando bem em seus passos para a alegria da namorada, que curtia o momento mágico que estava vivendo. Ian e Ágata já alternavam a dança enérgica das músicas com carícias mais picantes que deixavam Andreas muito, mas muito incomodado. Desde quando assumira que gostava também de garotos, não fazia mais questão de esconder que desejava Ian só pra ele. Isso fez com que desenvolvesse um ciúmes até nocivo para si, pois não conseguia mais trocar palavras com o primo sem querer tocá-lo e abraçá-lo para sempre.

— Tu vai ficar aí com cara de babuíno ou vai curtir a festa? – Micael se aproximou dele, que estava sentando no mesmo sofá de quando os demais primos estavam ali.

— Não tô muito a fim de dançar. Se pá mais tarde.

— Pô, Drê, qual é cara! É minha festa de aniversário e tu vai dar pt?

— Eu só disse que não quero dançar. Qual o problema?

— ELE é o problema – Apontou para Ian, fazendo o primo abaixar a cabeça – Ainda naquele dilema, primo?

Suspirou.

— Eu amo o Ian, Mica.

— Super te entendo, mas amar também é respeitar, sabia?

— Eu respeito.

— Não, respeita nada. O Ian não é trouxa Drê, ele percebe que tu fica estranho com ele.

— Até parece que ele não sabe o porquê.

— Ele sabe, aposto como sabe. E tu quer que ele faça o quê? Chegue pra ti e diga que não te quer do mesmo jeito que tu?

— Ele me quer do mesmo jeito que eu sim!

— Ele quer transar, diversão. É isso que tu quer ou algo mais sério?

Outro suspiro.

— Algo... Mais sério.

O primo se solidarizou com a situação do outro, tendo uma ideia. Saiu dali em disparada e fora até o DJ, pedindo para que colocasse uma música lenta. Ligara o microfone para falar.

— Fala aí, gurizada! – Um enorme eco de alegria se deu no ambiente – Então, hoje é meu aniversário mas vou dar um presente pra vocês! Chegou a hora de vocês dançarem coladinhos com aquela pessoa especial num climinha tão bom e gostoso. Quem sabe até não rola uma pegação básica né? – Todos riram – Solta a baladinha aí DJ!

Começou a tocar “Crazy For You” da cantora norte americana Madonna, fazendo com que a maioria dos casais presentes iniciasse a dançar juntos. Mica correu até Andreas, pegou-o pelo braço e praticamente arrastou-o até Ian e Ágata.

— Primão, que tal eu trocar minha bela dama pela tua? – Perguntou sorridente a Ian.

O rapaz deu uma risada.

— O quê acha, gata?

— Por mim tudo bem – Respondeu a garota – ‘Bora ver do que é feito senhor, Micael.

— Cuidado pra não se encantar demais viu? – Falou brincando – Vai ali, Drê. Dança com o teu cavalheiro.

O primo em questão ficara vermelho de vergonha, enquanto Micael e Ágata iam para um canto mais afastado.

— E aí, Drê? ‘Bora dançar? – Esticou sua mão para que o outro a alcançasse. O gesto fez o mais velho sorrir.

— ‘Bora.

CONTINUA