A Teoria das Cores
94 Ruivo IV
PICANTE
Nem toda a agitação do mundo é capaz de igualar a magia de uma surpresa bem construída. O elemento desconhecido, tal qual ocorre nos bons filmes de terror e suspense, ajuda a criar um clima desconfortável, deixando o cenário mais tenso e a adrenalina nas alturas. Isso, claro, se o indivíduo prestes a cair na peça esteja acordado. Não era o caso de Daniel, afinal o rapaz estava nas alturas quando Ian resolveu aprontar naquele matiturno de sábado.
O motivo, julgava, era nobre: Micael chegou cedo, então precisavam curtir um momento entre os primos, afinal, depois de crescidos, ficou complicado alinhar todas as agendas e ter um único dia. Já que ao menos um conseguiram chamar para passar o fim de semana, nada mais justo do que chegar em grande estilo e, de quebra, deixar Dan louco da vida. Ian não negava ser um guilty pleasure seu.
Quando chegou, o primo de topete loiro colocou sua mochila no quarto do garoto de olhos claros e juntos foram armar o plano. A estratégia era simples: apertar a coberta nas pernas de Dan e dar um grito. Era tiro e queda, afinal lembravam bem dos tempos de criança onde o menor caía nisso toda vez. Consideraram que pouco havia mudado daqueles tempos até a presente data, então tudo se encaminhava ao sucesso da ação maldosa.
Abriram a porta do quarto procurando não fazer o menor ruído. Caminharam até sua cama na ponta dos pés para se certificar de não acordá-lo. Como era a visita, Mica seria o responsável por fazer o ato, então aproximou-se a passos de formiga do primo adormecido e deixou o mais velho parado poucos metros depois da porta. Preparou bem suas mãos e foi a luta.
Quando estava alcançando o edredom, parou por alguns instantes apenas para dar uma última olhada na expressão de Dan. O menino parecia mergulhado no mais profundo oceano do mundo dos sonhos — também pudera, motivos tinha para isso. Ian contou mexendo a boca até três e, no terceiro, Micael fez o combinado e acrescentou um grito de “Eita!” que levantava até defunto.
O plano foi um sucesso. Daniel por pouco não caiu da cama com o estardalhaço. A parte boa era ter levantado em alerta e a tempo de se arrumar para aula de dança. O ruim foi ter novamente sonhado com alguém correndo em direção a si em um campo aberto e não ter decifrado de quem seria a tal silhueta. A diferença para as outras vezes, no entanto, se deu em um detalhe crucial: pela primeira vez, a figura não pareceu tão desfocada. Não fosse a brincadeira dos primos, Dan não tinha dúvidas de que o mistério acabaria ali. Resolveu deixar aquilo de lado, afinal ver seu primo era bem mais importante do que desvendar mistérios.
Depois de espragueja-los alegando não serem capazes sequer de respeitar seu sono, Daniel levantou e abraçou com vontade Micael. Desde o aniversário do rapaz que não trocavam uma palavra em virtude da correria cotidiana. Era bom revê-lo sempre com um alto astral invejável e seu ar de bon vivant. Com o tumulto dos últimos dias, uma nova figura fazia bem aos ares da casa.
Dan pegou suas roupas e foi tomar um banho rápido, descendo em seguida para tomar café. Tanto os primos quanto seus pais estavam a postos organizando a mesa com os potes de geléia, margarina, pão e complementos matinais básicos. Como Ian sentou-se ao lado de Mica, acabou ocupando o lugar vago do lado esqueredo da mesa, dividindo o espaço com a mãe. Era um momento singelo de reunião familiar, parte das histórias domésticas capazes de unir a todos com um laço bonito de amor e companheirismo.
Depois de questionarem algumas coisas a respeito da vida em Porto Alegre, de como estavam todos, Mica alertou para o fato de só poder ficar até a segunda-feira, pois dali partiria para Pelotas a fim de revezar com Andreas o cuidado do apartamento da família na região. Ian encarou-lhe com certo espanto, sem compreender o que havia acabado de ouvir.
— Engraçado… O Drê não comentou nada comigo que tá por lá — jogou no ar.
— É, o pessoal estava decidindo se iria contratar alguém pra tomar conta do apartamento. Até queriam conversar com os demais irmãos e ver se isso era possível, mas o Drê se ofereceu pra revezar com alguém a tarefa.
— Ele tá lá a muito tempo, Micael? — Isabel perguntou.
— Bah, tia! Que eu me lembre, ele foi pouco depois do meu aniversário pra lá.
— Contigo indo pra lá o Drê volta pra Porto então? — Ian tornou a falar.
— Isso aí.
Ainda que parecesse um gesto ingênuo ou puramente altruísta, o menino de olhos azuis sabia bem o porquê. Conhecia Andreas o suficiente para perceber quando se envolve em uma coisa fugindo de outra. Saber daquilo ao mesmo tempo que as promessas do mais velho de procurar ajuda psicológica se mostraram falsas criaram um buraco dentro de seu peito, o qual só fecharia quando o próprio tivesse a coragem de confessar a verdade. E, mesmo assim, não podia garantir se iria mesmo cicatrizar.
Notando o abalo repentino do primo, Dan tratou de mudar o foco do assunto para seus ensaios até que o café terminasse. Assim que o fez, saiu em disparada até seu quarto para pegar sua mochila, com Isabel indo a tiracolo alegando precisar trocar algumas palavras com o filho. Bruno foi levar o carro para a revisão e delegou a tarefa da louça aos rapazes que ali estavam. Mica até brincou, dizendo que visitas não deviam participar do serviço doméstico, mas acabou se voluntariando igual.
Aproveitando o momento a sós enquanto lavavam tudo, o rapaz de topete loiro não resistiu de perguntar.
— Drê vai ouvir sermão teu, né? Deu pra sacar — riu, enquanto secava uma xícara.
— Não gosto quando ele mente assim, na cara dura. Ele prometeu que ia procurar ajuda! Disse até que já tinha conseguido e tudo!
— Olha, longe de mim me meter no amor erótico-fraternal de vocês, mas será que é mesmo o caso dele fazer terapia? Tipo, tá, ele mentiu, mas o que isso interfere na nossa convivência com ele?
—Primeiro que todo mundo devia fazer terapia, Mica. Eu, inclusive. Segundo que isso interfere demais, já que ele resolveu criar um ódio absurdo do Dan por achar que só ele merece meu amor e o Dan não.
— Olha, primo, essa cama de gato de vocês é algo inexplicável, sabe? — confessou — O Drê sempre foi o mais egoísta de todos nós. Tu sabe bem disso. Então… Sei lá. Vai ver é o jeito dele.
— Se isso não interferisse na minha relação com ele, nem na relação dele com o Dan, eu concordaria — colocou — Essa o Andreas vai ter que explicar nos mínimos detalhes. Juro pra ti.
Micael sentiu na fala do rapaz que sairiam cobras e lagartos do tal acerto de contas, afinal poucas vezes na vida ouviu na voz de Ian o som de uma mágoa sair rasgando pelo ar, a tal ponto de quase cortar a pele quando em toque dela. Vendo ser inútil tentar conversar ou justificar as ações do mais velho dos primos, resolveu mudar de assunto. Um mais agradável a seus ouvidos.
Perguntou ao primo sobre Ágata e a quantas andava a relação entre eles. Ian contou com detalhes sobre as decisões tomadas, o incômodo da moça com as atitudes de Diógenes e os traumas por ela vividos. Deixou-lhe a par de tudo, pois, se estava disposto a encarar um relacionamento sério com ela, achou prudente alertá-lo de tudo para não fugir na primeira dificuldade. Conhecia Micael e seu jeito irresponsável com o qual levou grande parte de seus namoros ao longo da adolescência. Até por essa razão, lhe preveniu.
— Só tô comentando isso contigo pra tu saber que, além dela ter toda essa questão frágil de se envolver sério com alguém, ela não é uma dessas gurias que tu enrola. Vê se não vacila, ok?
— Capaz, primo! Respeito ela de verdade! Sei que vocês dois tinham um lance bacana e tudo. Fica frio que, caso ela queira, vou fazer valer teu investimento.
— Acho bom hein? — aproximou-se de seu ouvido — Do contrário tu vai ser obrigado a me dar essa bundinha malhada. Estamos combinados?
— P*tão — riu — Só pra provar que sou de fé, vou aceitar o desafio.
— Sério mesmo?! Olha lá, Micael! Não brinca com coisa séria!
—Tô te falando, meu guri! E mais! Como tenho certeza que tu vai perder, tenho uma contraproposta a fazer.
— Vai. Manda bala!
Foi a vez do menor chegar perto do ouvido deste.
— Tu vai ser obrigado a deixar por um dia fotos tua pelado no Xvideos.
Ian quase deitou de rir.
— Como se isso fosse a tarefa mais complicada do mundo…
— F*da-se. Podem roubar as fotos e vender por milhões e tu vai continuar aí, sendo proletariado.
— Tá certo, senhor capitalista. Acordo fechado.
Ian, de certa forma, se via espantado com a atitude do mais novo. Claro, sabia que tratava-se de uma simples brincadeira, mas a segurança do rapaz em entrar de cabeça só para provar que era capaz de amar a morena lhe trouxe uma certa satisfação e curiosidade. Se aquela era mesmo a moça com quem ele iria viver uma história de amor, seria a primeira da vida. Disto não tinha dúvidas. As anteriores, para seu imenso desgosto, podiam ter sido substituídas por brinquedos sexuais, assim não haveria brigas e discussões em prol do ego vaidoso de Micael.
Terminada a questão da louça do café, foram se arrumar para encontrar Ágata. Primeiro, o menino de olhos claros ligou a ex ficante questionando a disponibilidade e recebendo a confirmação tão logo acabou a pergunta. Depois, ao se arrumarem, partiram rumo a casa da moça. Até tentaram se despedir de Dan, contudo o menino já havia ido para a aula de dança.
Mica sentia seu coração querendo sair pela boca. Não era um primeiro encontro com uma moça, mas tudo parecia diferente. Sabia domar a situação, ser o leão em detrimento das presas ao seu redor e isso atraía o sexo feminino fácil para suas garras. Todavia, com Ágata sabia que a curva era mais fechada, não só em virtude de sua história de vida, como também da própria vontade de estar com ela. Era alguém tranquila, good vibes, sem os delírios nocivos da selva de pedra. Parecia alheia a qualquer problema sólido, tudo era fácil de ser resolvido. Tinha certeza que fora isso o que lhe enfeitiçou e a vontade de voltar atrás estava cada vez menor quanto mais se aproximavam de seu apartamento.
Ao chegar no prédio, pediram ao porteiro que anunciasse apenas Ian e assim foi feito. Subiram ao quarto andar sem que a morena nada desconfiasse. Logo estavam frente a porta do apartamento 402 apertando a campainha. Esperto, Ian tratou de ligar a câmera do celular enquanto fingia estar mexendo nele, assim, caso a moça verificasse no olho mágico, nada perceberia. O primo mais novo ficou escorado na parede esperando a chave girar e a porta abrir para dar a surpresa.
Assim que aconteceu, Mica deu um pulo para a porta fazendo a moça berrar de susto. O outro, filmando tudo, não conseguiu conter a gargalhada. Ficou orgulhoso de ter registrado a careta espantosa de Ágata com a situação e prometera a si mesmo que reveria mil vezes só para melhorar o astral. Mesmo com susto, a moça ficou estourando de felicidade por ver o aspirante a pretendente batendo à sua porta. Agradeceu com o olhar algumas vezes enquanto o mais novo lhe abraçava e erguia do chão.
A harmonia entre os três era evidente. Na realidade, sabiam da estranha teia que os interligava: Micael, que gostava de Ágata, que suspirava vez ou outra por Ian e, por sua vez, já havia tido relações carnais com Micael. Entretanto, tudo estando tão às claras soava insignificante, um mero detalhe de uma história bem maior do que aquilo. Tinha começo, encaminhava-se para o meio e o final deixavam a cargo da vida. O único adendo, porém, era o fato de Diógenes ter chego às escondidas, sem que percebessem, e flagrado a cena de alegria na qual era carta fora do baralho…
***
Dizer que as mães sabem quando um filho precisa de ajuda ou não passa longe de ser mera crendice popular. Dentro do complexo instinto maternal, estas pessoas tão marcantes na vida de todos nós são capazes de notar o mínimo arranhão na perna, ou uma lágrima indesejada escorrendo pelo rosto. São seres fantásticos, atentos a tudo. Isabel não fugia à regra: conhecia bem o filho que tinha.
Ainda que Daniel não aparentasse fisicamente sua tristeza em virtude do término de seu namoro de anos, a mãe temia que o estado emocional estivesse comprometido ou sendo oprimido ante a teimosia daquele que pôs no mundo. Sabia que Dan não hesitaria em digerir aquilo tudo sozinho e ferroar quem fosse ao longo do processo todos que se aproximasse. E isso não permitiria jamais. Ao resolver subir depois do café e conversar com o filho, estava disposta a encarar a situação de frente e deixar tudo muito bem resolvido.
Quando tomou coragem para entrar no quarto, encontrou-o terminando de colocar a camisa e aproximando-se da mochila. Deu três batidas na porta, mesmo estando entre aberta, pedindo licença. O filho atendeu de imediato, questionando-a se havia algum problema.
— Na verdade, filhote, queria saber como tu está. Temos conversado tão pouquinho, né?
— Olha, mãe. A princípio tá tudo meio confuso, mas dentro do que se considera normal, vamos dizer assim — respondeu — Mas por que a pergunta?
— Eu ando pensando tanto nessa história mal resolvida do namoro teu com a Vanessa. A gente mal conheceu a moça depois de anos de namoro e termina assim, do nada? Foi alguma coisa que fizemos ou tu se desentendeu com os pais dela…
— A senhora quer mesmo falar disso agora?! — lamentou — Tô atrasado pra aula e ainda por cima cansado. Não é uma hora bacana pra tocar nesse assunto, né?
— Por favor, filho. É importante pra mim…
Vendo que não teria jeito, e até para deixar tudo mais ou menos explicado à mãe, acabou sentando na cama e respondendo ao que ela estava interessada em saber.
— Quanto a isso, pode ficar tranquila. Acho que já aceitei isso melhor e tô conseguindo ir em frente com minha vida.
Era difícil saber o quanto daquilo era de fato verdade, uma vez que, apesar das palavras saírem de forma tão clara de sua boca, soavam secas de alguma forma, como se faltasse algo capaz de torná-las menos abstratas e mais verossímeis. Diante disso, Isabel se viu na obrigação de sorrir e dar um abraço no filho, ainda que seu coração não estivesse se dando por satisfeito. Torcia para o tempo trazer respostas mais diretas, sem rodeios.
— Estou aqui para o que precisar. Tu sabe disso, né?
— Sei, sim. Pode deixar — sorriu.
Ao deixar a mãe ir embora enquanto pegava sua mochila e seguia para a escola, não pôde deixar de pensar em como seria se contasse a verdade inteira. Estar vivendo algo novo com Alisson e esconder daquela que sempre lhe estendeu a mão quando precisou, ajudando e apoiando a crescer e progredir, parecia tão injusto. Entretanto, não era nenhum tolo. Conhecia os riscos, sabendo serem eles o maior problema depois de aceitar para si mesmo que amava um homem.
Acabou por lembrar dele e de seu questionamento sobre estarem juntos naquela luta. Sentia nele uma confiança plena de que tudo daria certo apenas por darem as mãos, ou trocarem olhares cúmplices sempre que possível. Entendia sua força e garra, não só nas palavras como em qualquer ação. Não se sentia no direito de botar todo o fardo em suas costas. Precisavam carregá-lo juntos, disso tinha certeza. O problema, para si, era como fazer aquilo.
Chegou à escola minutos depois enquanto o único som além das vozes de sua cabeça interagindo eram dos cantores ecoando nos fones. Não tardou a encontrar Ana e seus amigos, tentando encontrar Alisson no seu radar, mesmo porque ele havia sido quem insistiu em virem mesmo estando acabados. Por um momento, notou um cansaço no colega e acabou questionando. Ana sentiu o estômago gelar, uma vez que lhe fugia a informação de a quantas estavam as relações entre Dan e sua ex. Limitou-se a contar uma verdade mentirosa: falou da fome de Mia, também da ida a um food truck, só excluindo qualquer informação remetente ao encontro com Vanessa. Daniel, por sorte, não contestou, apenas achou hilário o fato de precisar acordar no meio da madrugada para atender pedidos da namorada.
Quase como num passe de mágica, ouviu a voz de Al brotar atrás de si. Com uma resposta ferina, a qual lhe fez estremecer todo.
— Namorar exige certos compromissos mesmo. Tu deveria saber melhor do que nós, pateta, já que namorou desde quando Moisés escreveu os dez mandamentos até pouco tempo atrás.
Independentemente da força com que aquilo chegou até si, Dan sabia que se manter calado era um erro. Então, num sopro de força, tentou revidar a altura.
— Se alguém dependesse de mim pra acordar às três da matina e comprar lanche… Meu Deus! Morria de fome!
— Ah é? Veremos…
A resposta foi tão assertiva que Ana não conseguiu segurar o riso. Paralelo a isso, ainda se impressionava com a forma descarada como o rapaz lidava com tudo, quase assumindo publicamente seu interesse no amigo. Dan segurou para manter a pose e não mandá-lo longe, pois tinha noção de que aquilo chamaria mais atenção ainda. Engoliria aquele sapo por hora.
Durante o ensaio, treinaram o repertório o qual seria usado por eles na competição. Os movimentos variavam muito, indo de alguns mais relaxados a complexos em questão de segundos. Cada suor no rosto dos presentes refletia a vontade de vencer e darem um belo espetáculo a quem lhes assistisse. Pareciam confiantes quanto à vitória, apesar das constantes lembranças de Gustavo daquilo ser apenas um exercício com intuitos avaliativos mais precisos, nada mais.
Já quase no fim, Gustavo chamou Al e Dan para conversarem antes de se retirarem e lhes propôs um desafio: ambos representassem o grupo na abertura do evento. Explicou que, a cada torneio, é feito um sorteio com as escolas e entidades participantes para escolherem uma música e realizarem, com uma dupla, uma performance a fim de dar início às atividades. Naquele específico, haviam sorteado a escola Presidente Lincoln e então o treinador estava lhes convidando a participarem da ação.
Num primeiro momento, os rapazes ficaram sem reação. Não esperavam estarem se saindo tão bem a ponto de serem postos a prova daquela maneira. Porém, o simples fato de estarem tendo a oportunidade acabava abrindo portas para coisas maiores. Al, talvez o maior interessado, comparou com os olheiros de futebol. Explicou a Dan seus pensamentos e, com a empolgação um pouco maior de sua parte, aceitaram e se comprometeram em dar seu melhor. Viram brotar no rosto do treinador um sorriso feliz, dizendo que já os confirmaria como representantes ainda naquele dia.
Foi inevitável. A conversa acabou rondando as expectativas da abertura o percurso todo, por parte de ambos. Se Alisson queria saber quais movimentos seriam mais interessantes de serem feitos e técnicas que poderiam aperfeiçoar, Dan focava no repertório e nos estilos possíveis que seriam legais, mesmo sabendo que uma música era o solicitado. Acabou sendo um pouco bagunçada, mas se entendiam como de costume. Pareciam carma um do outro e sabiam bem disso.
Chegando em frente a casa de Al, Dan já preparava a despedida quando ouviu a pergunta do que estava fazendo. Ao responder, Al replicou se não estaria interessado em ensaiar já que ganharam uma folga por conta do sucesso da noite anterior. O menor lhe lembrou de que ele não tinha ganho folga e, portanto, deveria se apresentar tão logo a aula terminasse na padaria dos tios. O maior deu de ombros, provocando ao dar a entender que apenas de seu interesse em dar show e fazer bonito. A estratégia, como previu, funcionou. Dan entrou dentro de seu pátio com a cara mais amarrada possível, atraindo risos involuntários seus.
O filho de Marisa agradeceu ao notar estarem sozinhos, já que a presença do namorado em sua casa ainda soava estranho demais para ficarem de formalidades. Questionado se queria ensaiar ali mesmo ou no quarto do anfitrião, o filho de Isabel optou pela primeira opção. O mais velho, então, ajeitou o notebook e começou a pesquisar várias músicas, divergindo na maioria delas por ‘n’ questões. Só quando Break Your Heart de Taio Cruz surgiu como em comum é que houve progresso. Acabaram por decidir enviá-la primeiro. Caso não curtissem, tentariam encontrar outra.
Assistindo a alguns vídeos na internet, além do próprio clipe da música misturados as ideias que iam tendo, foram incrementando elementos devagar e verificando todas as possibilidades. Quando conseguiram criar uma coreografia interessante começaram a fazer as primeiras tentativas. Demorou algum tempo até conseguirem acertarem em sincronia os movimentos, o que resultou num esforço descomunal de seus corpos e uma cachoeira evaporando deles. Ao sentar no chão e verificar a hora, Dan quase viu a luz lhe chamando ao céu. Chegaram às 10h30 e já havia passado das 15h45min quando se deu ao trabalho de lembrar da hora.
— C*r*lho! Minha tia deve tá fritando bife na testa de tão furiosa que deve estar! — exclamou, já fazendo menção em ir embora.
— Ei! E acha que vai resolver tudo indo lá agora?! Se liga, né pateta! Assume que errou e vai outro dia pra pagar. Simples.
— Pra quem?!
— Pra qualquer pessoa normal, ué — deu de ombros — Quer sossegar o facho? São teus tios, não policiais.
— Tá, mas—
— Pateta, segura o pagode — riu — Ninguém vai morrer por causa de um dia de trabalho. Além do mais, não estamos vegetando aqui. Estamos fazendo um trabalho de escola basicamente.
— É...Vendo por esse lado…
Al sorriu. Era bom ver Dan cedendo um pouco e se permitindo mais. Claro, haviam certas limitações, mas o progresso existia e valorizava isso. Ganhava um pouco mais de confiança, estreitando os laços a cada tentativa.
Com o treino intenso, Al acabou sentindo que iria derreter a qualquer instante, optando então por tirar a camisa e deixar seu torso à mostra enquanto ia para a cozinha beber um gole d’água. Ao retornar, os olhos águia de Dan fitaram seu corpo quase por atração, olhando rápido e tentando disfarçar em seguida. Para sua infelicidade, não fora tão rápido quanto a ágil percepção do mais velho.
— Acho que a essa altura ter vergonha de mim beira a insanidade, né? — provocou, sorrindo.
— Insanidade são essas asas que estão debaixo do teu braço e tu não deu jeito de resolvê-las — a resposta veio em navalha — Sou obrigado a sentir esse cheiro, não.
— Assim como não é obrigado a acordar de madrugada pra me dar lanche se eu quiser? — relembrou a frase dita por ele horas antes.
— Que bom que entendeu! — ironizou — Sinal de que teus dois neurônios assimilam bem o que a gente fala.
— Pateta… Não me provoca que tu sabe que não mando recado…
— Nem eu — pensando estar por cima da situação, seguiu no tom provocativo — Digo e repito que não sou obrigado a cheirar futum de macho.
Na mesma hora, Al tentou agarrar os braços do menor e forçá-lo a sentir o tal odor vindo de suas axilas. Dan começou a espernear na hora na tentativa de se livrar de morte por asfixia, enquanto o maior ria de seu “desespero”. Quanto mais o filho de Isabel insistia em resistir, mais o filho de Marisa teimava em forçar a barra.
A brincadeira maldosa, porém, tomou outros rumos quando Dan percebeu suas mãos coladas na barriga levemente definida do outro. Estremeceu inteiro com o que ocorreu, sentindo a pulsação do coração se desregular e rezando para não ter um infarto por conta de algo tão leviano. Para piorar, Alisson sentiu o mesmo e sequer moveu um músculo. Manteve-se onde estava aguardando a reação dele. Via em seus olhos uma pequena névoa se formar, como se ela fosse a responsável por tirar dele a razão, tornando o processo de aceitação ainda mais difícil.
Dan não sabia como reagir. Suas mãos não se atreviam nem a se retirar, tampouco se mover na ânsia de descobrir um pouco mais o que se escondia por entre o calção do rapaz a sua frente. Encarou-o de volta, buscando a resposta tão almejada para algo com o qual não sabia bem a forma correta de lidar. Ou, ao menos, não conseguia fazê-lo. Obedecendo ao impulso, o mais velho tentou confortá-lo da única forma que seu coração pedia: ceder-lhe um beijo.
Sem afoitos, foi levando o rosto em direção ao dele aguardando e captando todo e qualquer sinal capaz de impedi-lo de prosseguir. Enquanto não os viu, deu seguimento. Via nos olhos do outro a mesma vontade que palpitava dentro de si, contudo, o medo de se deixar levar ainda era forte. Tão forte a ponto de, quando estava próximo de sua boca, Dan virou devagar seu rosto para não selarem o ato. Al permaneceu onde estava esperando uma resposta. Esta não tardou a chegar.
— Não sei se consigo fazer isso…
— Dar um beijo? — sussurrou em seu ouvido, antes de beijar de leve sua nuca — Será que beijo tão mal assim ou meu hálito é podre?
— Não — riu sem força — É só que… algumas coisas ainda são muito surreais pra mim, entende? Eu sei que partiu de mim o beijo que demos e tal… Mas… Sei lá. Tô me sentindo num redemoinho.
— O que eu te disse tá de pé e vai continuar assim sempre — disse, convicto — Tu não precisa mais passar por tudo isso sem dividir comigo. Precisamos nos dar apoio, até porque é f*da levar tudo nas costas.
— Sei disso e não tiro sua razão. Só acho que preciso de um tempinho a mais pra relaxar. Dá pra ser?
Alisson sorriu, dando um beijo em sua testa.
— Claro que dá. Esperei dezoito anos para descobrir que curtia caras. O que é um tempinho, não é mesmo? — debochou, arrancando risos do menor — Agora me dá licença que vou tomar banho. Senti que a coisa tá feia mesmo.
Sem esperar a resposta, o mais velho correu para o quarto pegar suas coisas e entrar debaixo do chuveiro, deixando o mais novo sozinho com seus pensamentos. Seria tão incomum para si aceitar o quão intenso aquilo era e dar valor a momentos como o que tinha acabado de viver? O que poderia ser a felicidade senão a troca mútua de emoções em forma de carinho e afeto? Como conseguiria aguentar viver sem dar e receber algo tão precioso?
Tentava se justificar na crença de que ainda vivia com a pressão de ser um rapaz como outro qualquer de sua idade, amando qualquer moça e tendo uma relação minimamente aceita tanto por si quanto para o mundo. Todavia, após a vivência com Vanessa e a experiência trazida de sua história, era inútil acreditar naquilo. Amaria quem quer que fosse independentemente de fatores além amor. Doía mais a resistência do que se entregar. Foi a conclusão mais convincente que conseguiu elaborar.
Ouvindo o som da água caindo do chuveiro, ficou tentado a dar uma observada de leve, despretensiosa. Levantou-se do sofá, caminhou em direção às escadas e seguiu aquele barulho até encontrar onde era emitido. Nada se ouvia lá de dentro. Al parecia tão pensativo quanto ele próprio estava segundos antes. Ao tentar se encostar na porta, uma surpresa: não estava trancada. Dan ficou a milímetros de não se esborrachar. Sua sorte foi não ter se encostado demais, só um mindinho. Não impediu a porta de ser escancarada, mas ao menos foi pego no pulo com um pouco mais de dignidade.
— Confessa que fez de propósito — ordenou o menor, entrando no espaço de braços cruzados.
— Acha realmente que não teria feito caso soubesse que tu ia ficar lá ou até mesmo ir embora? Se orienta, pateta. Enquanto tu tá aqui em 2017, tô lá em 3000!
— Nossa, o legítimo p*ca das galáxias — revirou os olhos enquanto debochava.
— Me responde aqui rapidão — pediu, já emendando o questionamento — O que te faz pensar que tá muito diferente de mim?
— Quer dizer que eu tô fedendo, é isso mesmo?!
— Como um cemitério de ratos, se quer saber.
— Teu nariz deve ter entranhado o próprio cheiro. Ignore enquanto vai pra p*rra.
Al não segurou o riso, abrindo um pouco o vidro do box e colocando a cabeça pra fora. Começou a balançar a cabeça em sinal negativo, alegando com isso estar certo sobre sua dedução. O menor não acreditou, começando a se cheirar também para se certificar. O ato deixou Al feliz da vida.
— Insegurança bateu é?
— Se tá fazendo isso só pra me fazer entrar debaixo desse chuveiro—
— Ah, mas tu vai entrar! Querendo ou não!
— Tu não é nem louco de me obrigar a entrar aí! Tenho nem roupa pra trocar!
— Vou te dar três segundos pra tirar a roupa então. Um…
— Não inventa! — não levou a sério.
— Dois…
— Bebezão, não tô zoando!
— Dois e meio…
— Bebezão!
— TRÊS!
No mesmo instante, Al saiu do box e agarrou Dan pelas pernas enquanto o menino o xingava de todas as formas possíveis. Só terminou quando o colocou embaixo do chuveiro e deixou as roupas molhadas junto ao óculos. Caiu na gargalhada com a cara de patinho na lagoa feita pelo filho de Isabel, lamentando não ter uma câmera para registrá-la e depois mostrar. Só restou ao outro lançar um dedo médio para o mais velho entender o recado.
A sensação depois foi apenas uma: lei da atração. Alisson conseguiu penetrar de novo os olhos castanhos dele sem maiores esforços, como se um pouco do receio estivesse indo embora com a água percorrendo sobre seu corpo. A expressão confusa dava lugar, ainda que de maneira tímida, a uma convicção de estar indo no rumo certo: aquele traçado por seu coração e que o levou a tomar atitude na festa de Jeferson.
Aproximou-se de novo com cautela para não apavorá-lo, levando suas mãos ao encontro das dele enquanto seus olhos permaneciam vidrados um ao outro. Foi demais para se resistir, acabando por beijá-lo sem maiores pudores, liberando a vontade de tanto tempo de resistência em um ato simbólico. Seus lábios saborearam os dele de forma feroz, aproveitando cada partícula de sua boca carnuda tão bem desenhada.
Pouco depois, ajudou-lhe a tirar as roupas e colocá-las fora dali. Pela primeira vez desde quando trocaram risadas no vestiário da escola, puderam apreciar os corpos um do outro em paz, sem a pressão de estarem sendo observados. E como gostavam disso… Alisson analisava cada parte do corpo do menor, levando sua língua a saborear grande parte deles enquanto a ‘vítima’ fechava os olhos e se deixava levar. Tornou a lhe dar um novo beijo, desta vez pressionando contra parede e levando suas mãos aos cabelos morenos ondulados de Dan.
Saindo da boca, os lábios de Al foram de novo ao pescoço e ombros do rapaz, seguindo puxando sem dó seus cabelos e só parando quando suas mãos quiseram conhecer os glúteos do menor. Apalpou-lhes sem cerimônia, o que causou um pulo involuntário por parte dele e risos da sua. Voltou a atenção a boca dele enquanto seguia fazendo carícias tímidas e pesadas nos seus glúteos, adorando a sensação de estar livre para explorar tudo a vontade… ou assim pensava.
— Alisson! Cheguei!
CONIINUA
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