DELICADO

Medo é um sentimento natural do ser humano. Ao nascermos, o primeiro sentimento com o qual nos deparamos é este. Os mistérios do mundo, conhecer um ambiente desconhecido e sem a certeza do que nos aguarda nos traz uma inquietude que perdura até que tudo se torne natural, a rotina vá sendo construída. Este fato, porém, não o torna algo previsível. A vida, neste sentido, tem um papel fundamental: o de desacomodar, trazer situações novas capazes de exorcizar a zona de conforto e trazer alguma reflexão por trás. De todas as formas que Alisson gostaria que a dita cuja tivesse feito, aquela nem de longe era a ideal.

Com ambos nús agarrados no chuveiro e a porta do banheiro aberta, a voz de Marisa ecoar pela casa não podia representar boa coisa. Encararam-se em choque, tentando pensar em qual decisão poderiam tomar. Dan, mais agitado, quase falou em alto e bom som um ‘f*deu!’, mas foi impedido. Marisa chegou a questionar se estava tudo bem, e Al concordou sem muita convicção. O mais velho tentava pôr seus neurônios para compor uma solução rápida e simples ao problema pesado e complicado. A única que veio à cabeça, num lapso de questão de segundos, foi o de fechar a porta e, a partir daí tentar achar uma solução.

Deixou Dan parado embaixo da água corrente e ordenou que mantivesse sua boca bem fechada enquanto fazia o que deveria ser feito. O menor concordou, ainda sem reação. Nem nos piores pesadelos imaginava uma cena daquelas, onde se agarrava com um garoto no banho e poderia ser flagrado a qualquer momento. Não teve dúvidas de que o fetiche de ser pego no ato só podia ser agradável nas telinhas, pois na vida real, cada músculo de seu corpo se contraia de pânico. Viu o maior sair do box em direção a saída foi um suspiro de esperança do episódio passar em brancas nuvens.

Para o imenso desgosto, porém, não foi o que se deu. Quando Al pôs a mão na porta, Edu, seu padrasto, passou pela porta e deu dois passos para trás ao se dar conta do que seus olhos viam. Os meninos perderam a cor, sequer sabiam o que fazer diante de algo tão improvável. O namorado de Marisa, além de piscar inúmeras vezes, engolia seco cada vez que tinha mais certeza. Temendo que a mãe também lhe visse, ordenou que o homem mantivesse segredo até poderem se explicar com mais calma. Sem outras opções, o outro apenas balançou a cabeça em sinal positivo e aguardou a porta se fechar por completo, mesmo que sua mente tivesse explodido neurônio por neurônio.

Marisa apareceu quase de forma simultânea na subida da escada, e, ao ver Edu estagnado em frente a porta do banheiro, não dormiu com a dúvida.

— Precisava usar o banheiro? Mas tem o do quarto — disse enquanto se aproximava.

— Não, não! Só tava lembrando que esqueci a carteira no carro — inventou uma desculpa qualquer apenas para sair pela tangente, já tomando rumo e indo em direção ao andar de baixo para tomar um gole d’água.

Ainda que estranhasse a expressão de quem presenciou um assassinato em seu rosto, a mulher deixou que fosse. Pensou que fosse apenas algum mal estar, afinal de contas o namorado estava bem minutos antes.

Ao passar pelo banheiro, e notando o chuveiro ligado, aproveitou para dar um alerta ao filho.

— Que bom que tu notou a necessidade de um banho, porque a coisa tá feia, hein?! Outra coisa, tu trata de limpar esse teu quarto ou senão o caminhão de lixo amanhã vai se entreter com as tuas coisas, tá ouvindo?!

Tanto Al quanto Dan não resistiram à risada. Fizeram-lhe baixo, afinal o mínimo ruído poderia pôr tudo a perder. Ao afirmar à mãe que daria um jeito assim que terminasse o banho, tranquilizando o coração materno. O outro, claro, não segurou a ironia, reafirmando a razão que tinha ao mandá-lo tomar banho. A única reação de Alisson no momento, além de rir, foi mandá-lo de novo fechar o bico enquanto retornava ao box.

Pô-se de novo a acariciar o rosto do menor, o qual ainda mantinha vivo o sorriso de deboche por conta do episódio recém vivido. Aproveitando a deixa, o mais velho alfinetou afirmando que ria de nervoso por quase ser pego fazendo coisas maledicentes.

— Culpa de quem, aliás? — foi sarcástico.

— Nossa. Nem vem que eu não inventei teu fogo no r*bo — replicou, sussurrando.

— Sei — revirou os olhos — Quero ver te explicar pro teu padrasto. Isso sim que vai ser tarefa ‘nossa’.

De fato, não era total surpresa que a conversa seria das mais delicadas. Seria necessário um certo tato na fala, no jeito no qual os fatos seriam expostos. Ainda que Alisson não se sentisse na obrigação de dar qualquer satisfação ao namorado da mãe a maior parte do tempo, nesse ponto, dados os acontecimentos, seria o mais justo a ser feito.

— Não há o que se explicar. Ele viu tudo. É somar 1+1 e pronto.

— Quer mesmo deixar assim? A gente podia inventar… Sei lá! Eu tava entrando no banho e tu saindo…

— E precisava entrar no banho enquanto eu tava aqui? Não podia esperar? — levantou uma possível contra resposta — Olha, Dan, honestamente não me sinto na obrigação de inventar uma mentira. Aconteceu. Ponto. A verdade vai calar a boca dele, disso não tenho dúvidas.

Dan passou a mão por seu rosto. Parecia tão surreal o fato de alguém tê-lo visto em uma situação embaraçosa como aquela que quase achou ser um pesadelo vivo demais. Lembrou-se da velha história do segredo sabido por mais de uma pessoa, então era certo que, em algum momento, alguém daria o tiro de misericórdia.

— E se não?

Al então passou a mão sobre seu rosto e abriu um sorriso de canto de boca.

— É melhor minha mãe arranjar outro namorado.

Caiu na risada de novo, recebendo um novo beijo de lambuja. O gosto que vinha de sua boca trazia um novo frescor a vida, quase como a primeira vez que se descobre o gosto de algo delicioso e quer provar dele para sempre, durante cada segundo, só para garantir que existir trará a mesma sensação eternamente.

— Valeu pela tarde de hoje. Matei o trabalho, mas tá sendo divertido — confessou Dan.

— Sei como é. Vou ter que dar mil e uma explicações também — coçou a nuca, atraindo a atenção do, agora, ficante.

— Ué! Não falou que tava de folga hoje? Mentiu foi?

— Acreditou porque quis — deu de ombros, rindo — Falei ontem na festa que tinha que ir pro trabalho a tarde.

— Guri p*u no c*! Mentiroso! Me enganou!

— Faz parte do meu charme!

E logo trataram de dar mais alguns amassos. Já que o pior tinha acontecido, ao menos queriam aproveitar os minutinhos de paz para recuperar, de certa forma, o tempo até chegarem aquele momento. Tarefa árdua, mas feita com sucesso. Juntos, estavam convictos de terem escolhido o correto e a felicidade os aguardava de braços abertos, bastava apenas querer.

***

Se acordar recebendo mensagens amorosas daquela pessoa especial já é capaz de dar fôlego para enfrentar as adversidades da vida, acordar ao lado dela é uma injeção de adrenalina. Amanda ver o rosto de Adrian sábado de manhã dava a moça um ar diferente de um dia regular. Era uma aventura aguardando para ser desvendada.

A realidade, na prática, era previsível. O ruivo acordou, deu-lhe um beijo, foi tomar seu banho e, ao terminar, correu para a cozinha tentar tomar alguma coisa de café improvisado, uma vez que seus pais não haviam levantado em virtude do horário, então sentar para apreciar o café seria complicado demais. Ainda sim, com os afazeres de uma rotina tão modesta, para a garota era um sonho deles, íntimo, compartilhado graças à vontade de ambos estarem sempre um ao lado do outro.

Acompanhou na rápida alimentação e também em seguida ao irem direto para a escola. Em virtude de alguns afazeres pessoais, não poderia fazer torcida como de costume ao artilheiro, mas contentava-se na companhia até a escola. Poderiam conversar e tentar entender a quantas Alisson e Daniel deveriam estar depois do fatídico beijo. Afinal de contas, aquilo mexia com a estrutura de todos, uma vez que os rapazes, sempre tido como dois imãs femininos, tinham atração tão poderosa que não resistiram ao benefício da dúvida e se entregaram à vontade e curiosidade.

Amanda não se sentia no direito de julgar ou criar suposições fantasiosas demais. Tinha para si a situação mais clara até do que a forma como Daniel lidava, a julgar por suas dúbias atitudes. O fato era que ambos conheciam o amor de formas distintas: Al sequer o compreendia e Dan não sabia lidar. Complementando suas dúvidas e anseios, a resposta foi se formando dentro de seus corações tal qual acontecera entre ela e Adrian quando o rapaz resolveu dar uma chance ao sentimento. O mistério se encontrava não em como se deu, mas sim, como se dariam os próximos passos.

Adrian sofria de algumas fervuras no estômago cada vez que seus pensamentos se voltavam aos dois amigos. A absoluta falta de domínio do assunto e a consciência de pouco saber para ajudá-los o deixava inquieto. Queria o bem de ambos e jamais permitiria algo lhes acontecer sem que pudesse impedir. Tanto que já havia os alertado sobre os comentários maldosos (que, no final da história, tinham lá seu fundo de verdade), só tentava imaginar como ambos lidariam com isso agora, com todo o jogo praticamente na cara de todos.

— Na real, eu penso ser mais fácil eles manterem na surdina até se estabilizar. Não vale a pena comprar briga agora.

— Mas é isso que eles tão fazendo, Dri! Em que mundo tu tá? — zoou o namorado — Eu só acho que isso não vai ficar sendo segredo por muito tempo. Os dois são muito óbvios e dão um dedo por uma encrenca. Juntou a fome com a vontade de comer.

— Isso também me deixa abismado — indagou — Parece tão estranho ter toque de homem no corpo de outro. Como foram de héteros a bi de forma tão repentina?

— O relógio da vida tem outro tempo. Essa é a resposta — comentou — E nem vem que no dia da festinha do Al meses atrás tu ficou com o Jeff numa boa. Na minha e na frente da Cris ainda, até então namorada dele!

A fisionomia do jogador mudou para uma cor tão pálida quanto papel. Sequer se lembrava do ocorrido direito, já que nem havia considerado a hipótese de beijar outro homem até aquele momento. De fato, aquilo lhe deixava vulnerável e só não tornava vítima de seus próprios pensamentos por ter se apaixonado por uma moça. Caso contrário, se aquela tivesse sido a iniciativa que mudaria tal qual Al e Dan, estaria pagando com a língua. Ao se dar conta disso, agradeceu mil vezes mentalmente. Não por ter algo contra um relacionamento daquela natureza, apenas tinha dúvidas quanto a sua coragem de assumir isso pra si como os amigos fizeram.

— Só que ali era um jogo e não tinha um compromisso, né? Foi momentâneo — tentou se justificar.

— Se isso faz tua consciência ficar tranquila, por mim tudo bem! — riu.

Seria difícil para Mandy tentar convencer o namorado de qualquer outra coisa, até porque era algo tanto enraizado dentro de si, que apenas vivendo na pele conseguiria ter algum progresso sólido. Esperava, ao menos, que o namoro de Al e Dan conseguisse penetrar fundo dentro de seu coração. Se não pudesse mudá-lo por completo, ao menos que o fizesse perceber a importância de praticar empatia e proteger os amigos independente da circunstância. Adrian não era um rapaz ruim, amargo, algo capaz de facilitar muito o processo.

— Sabe, acho eles um casal bem interessante — comentava com o outro — Parece que se conhecem bem, tem manias parecidas e até meio rebeldes. Aposto num namoro tranquilo.

— Entre eles tudo bem, mas e o mundo? Infelizmente, eles não vivem numa redoma — ponderava o jogador — Aquele dia já deu B.O. com o Dan, isso sendo só teoria da conspiração, imagina agora sendo real oficial!

A garota não pôde negar. Infelizmente, as barreiras sociais criadas ao longo do tempo não seriam desfeitas num passe de mágica apenas por dois rapazes como Al e Dan, outrora tão firmes quanto a gostar do gênero oposto, viverem com igual intensidade um amor entre eles. Não sabia dizer quanto ao filho de Isabel, mas o de Marisa, sem dúvida, jogaria o bom senso para o espaço na primeira oportunidade que lhe desse. Começou então a sentir um certo incômodo na barriga imaginando coisas horríveis acontecendo, tentando de imediato mandar a sensação para bem longe.

— Ai, Dri… A gente não pode deixar que eles metam os pés pelas mãos. São nossos amigos e, mais do que isso, são pessoas. Merecem o direito de amar em paz.

O menino, vendo a aflição, não tardou a colocar a namorada colada em si, entregando-a o melhor sorriso que já deu apenas para ter certeza de vê-la feliz e segura. Se era paz que necessitava, lhe daria sem pensar duas vezes.

— Relaxa, gata. Eles vão ter sempre o meu apoio, o teu, da Sabine e do Jeff. Tão bem assessorados.

Quando o ouvia falar daquele jeito, parecia ganhar uma dose cavalar de calmantes com a qual nada mais seria capaz de tirá-la do êxtase de estar envolvida no seu amor. Conseguia acreditar piamente nas palavras sem que precisasse fazer um esforço descomunal para tal.

Poucos minutos depois, entre conversas sobre os amigos e os próprios planos, acabaram por chegar à escola. O ruivo questionou se a namorada ficaria, acabando por receber uma resposta negativa, mas lhe acompanharia até os colegas de time. No percurso, enquanto vagava livre sobre seus pensamentos, um em especial lhe tocou e acabou compartilhando com a moça: perguntou a ele se, no caso de resolver investir pesado na carreira de jogador, teria seu apoio. Amanda o encarou, rindo fraco e devolvendo por qual razão ela não o faria.

— Ah, sei lá… Tu tem teus sonhos e planos, não? Com certeza deve querer investir neles e tal…

— Desculpa, mas não entendi. Onde uma coisa influencia na outra?

— É que um jogador sério, competidor de campeonatos e coisas assim, acaba sempre viajando, mudando de país o tempo todo. Então me surgiu agora essa dúvida.

— Sim, é verdade. Mas sigo sem entender onde os meus sonhos entram nessa história — começou a refletir, até que ligou os pontos. Ao invés de retrucar com uma pergunta, resolveu frisar de modo que fosse mais eficiente e fizesse o garoto entender o recado — De mim, tu terá apoio indo viajar ou não. Ninguém morre por se separar uns dias ou meses se for o caso. Amor resiste a esses pequenos detalhes, sabia.

— Claro que sim, minha gata! Imagina! —coçou a nuca.

— Espero mesmo, viu? Até porque amor também precisa de limites. E o meu são os meus sonhos e desejos.

— Tu tá certíssima! Não se discute mais! — desculpou-se, rindo — Vou indo nessa. Nos encontramos mais tarde?

— Só vai precisar ser lá em casa. Ando voltada demais pra ti que vou acabar fazendo o trabalho de Alemão em cima do laço. Me ajuda.

— Ya! — brincou — E, Mandy…

— Oi!

— Valeu pela moral — sorriu — Não sei bem se irei mesmo seguir o rumo do esporte, mas só de ter teu apoio já me ajuda muito a querer tentar.

A garota sentiu seu coração aquecer com a declaração. Quando queria, o ruivo sabia ser o mais doce e gentil dos namorado, inventando cenas de filmes e tudo mais que tinham direito. Foi ao encontro dele e lhe deu um abraço, a fim de selar o momento bonito que viviam.

— Vou te apoiar sempre. Independente do que quiser ser. Só faz o que teu coração manda ok?

— Pode deixar!

E assim ele foi para o vestiário se trocar e começar o aquecimento de mais um treino. Cada dia que passava, Amanda ganhava firmeza em sua escolha. Aquela simples ajuda de Al em uni-la com o jogador tinha dado frutos bons, maduros, em uma relação pautada pela honestidade de propósitos e razões para acreditar. Não tinha a pretensão de que fosse tudo um arco íris, porém, se fosse um leve chuvisqueiro apenas com o intuito de regar seu jardim e torná-lo mais fértil se dava por satisfeita.

***

As linhas do destino sempre são traçadas a partir das escolhas que fazemos ao longo da vida. Naturalmente, esta definição varia de cultura para cultura, mas o fato incontestável de que ele é escrito de alguma forma é unânime. Cada parte de nós, a construção do que somos e quem somos, vai se revelando com o tempo, tornando-o um elemento crucial para uma reflexão significativa e verdadeira.

Sabine tinha conhecimento disso. Só naquele ano um turbilhão de sentimentos haviam se emaranhado, criando, assim, uma bola gigantesca de fios com os quais precisou de muito tato para desilhar. Começou com a paquera e crush com Dan, passando pela viagem com Jeff, a descoberta dele a seu respeito, o término de Dan, o investimento de Jeff, suas desconfianças e medos se misturando com parte de inveja e ciúme…

O apaixonado não tinha total incoerência ao afirmar aquilo. De fato, a suspeita de Alisson ter investido em Daniel foi um golpe estranho, surpreendente até, uma vez que nunca sonhou com uma hipótese daquelas. Saber que um rapaz tivera a chance que sempre esperou foi um baque, o qual agradecia por estar superando dia após dia. O mais irônico: Jeferson tinha sua parcela de crédito naquilo tudo.

Ante todos os desafios e as duras verdades ditas a ele, sempre foi paciente e soube qual era o seu lugar. Deu investidas, tentou a sorte, tudo sem ofendê-la, denegri-la ou agredi-la. Talvez até isso tenha ajudado a ir levando seu sentimento a sério, abrindo um pouco mais o estreito caminho que tinha relativo a gostar de alguém. Com sua visão unilateral, incapaz de perceber certos movimentos no que tange a sentimentalismo e demonstração de afeto, seria impossível ver Jeff não só como alguém que ama provocá-la, mas sim, como homem que era. Se não isso, ao menos como jovem adulto interessante.

Encarava o céu pela janela de seu quarto enquanto pensava no dia que estava por vir. Ainda que a festa tivesse perdurado e a feito deitar tarde, não conseguiu passar das nove horas da manhã. Tinha uma série de coisas a fazer junto ao pai, mesmo que o pedido de Jeff ficasse martelando na sua cabeça. Já não garantia mais se conseguiria dividir o mesmo espaço com ele durante muito tempo sem acabar cedendo aos impulsos da carne. Era humana, afinal. Sentia a necessidade de se doar um pouco a vida para, quem sabe, ela lhe doar coisas boas em troca.

Seus pensamentos e devaneios só cessaram ao ouvir batidas na porta e a voz do rapaz ecoando atrás dela. Espantou-se, pensando até estar febril ou cega de amor sem se dar conta. Voltou a si ao perceber pela segunda vez que o menino estava ali mesmo, indo então abrir a porta do quarto. Este entrou um pouco agitado, parecendo ter encontrado a cura para uma doença terminal. Sorria feito criança, sequer dando tempo para ela pensar ou questionar. Apenas estendeu a mão e mostrou-lhe um pacote, pedindo que a loira desse uma olhada naquelas fotos.

Ao abrir, seus olhos quase saltaram para fora com o que vira. Um beijo de cinema fotografado de Alisson e Daniel ali, na sua frente. Precisou encontrar sua cama para se sentar e observar as fotos de novo para ter certeza de não estar fora de si de vez. Não conseguia crer que algo como aquilo pudesse mesmo ser real e que tinha ocorrido sem que se desse conta. Cada foto mudava um pouco o ângulo, mas não tornava menos impactante para alguém que tinha desistido praticamente de acreditar na hipótese de estarem juntos.

— E agora? O que fazemos? — Jeff perguntou, esfregando as mãos.

— Como assim? Não é óbvio? Entregamos as fotos aos guris, ora essa! — deu de ombros — Devolvemos e seja o que o destino desejar. Ao menos que queira dar uma de vilã mexicana e chantageá-los.

— Que isso? Tá maluca? Perguntei porque… Bem, não tenho certeza se vão querer ver isso.

— Por que não? Já não fizeram na frente da câmera justamente para gravar o momento? Então.

— E se não? Caso tenham sido só… sei lá, inconsequentes. São capazes de jogar essas fotos na nossa cara.

Sabine não segurou o riso.

— Não vou negar que existe mesmo a possibilidade. O Dan é muito de lua… Só que, na minha opinião, se tiveram coragem de tirar tem que ter para tê-las de volta, gostando ou não do fato que ela eternizou.

Jeff acabou concordando, ainda que suas feições estivessem, ao mesmo tempo, animadas pela coragem dos amigos, preocupadas com tudo o que enfrentariam dali para frente. Sentou-se na cama da loira e passou a mão por seu rosto e cabelos pensando em tudo, analisando cada pedaço para tentar chegar a uma conclusão plausível, falhando no gesto. Sabine o acompanhou, colocando a mão sob seu ombro. Notou que era um momento dos mais fáceis para o menino.

— Se eu me sinto um alien vendo tudo isso acontecer de fora, imagino a cabeça deles como deve tá…

—São guris inteligentes. Sabem quando o calo aperta demais. Além disso, o destino tem seus próprios interesses. Ele trama suas próprias vontades à medida em que se dá conta de como duas pessoas podem ser felizes juntas.

Jeff então encarou o rosto delicado dela. Viu em seu olhar uma centelha brilhando, querendo existir para o mundo e mostrar que poderia ser forte suficiente para isso. Foi então que virou por completo em sua direção.

— Isso seria uma indireta? — questionou, baixinho.

A loira levou sua mão ao rosto de pele cor de areia do rapaz, que fechou os olhos para aproveitar o toque de brisa do mar que as mãos de sua amada tinham sobre si.

— Sabe muito bem que não sou guria de meias palavras, Jeferson — riu, fraco — Se há algo nessa história do Alisson com o Daniel que carrego de lição é que a vida sempre nos leva ao caminho da felicidade, independente de sua forma. Não existe receita pronta, e sim a vontade e a perseverança de querer fazer aquele sentimento crescer e prosperar, sabe?

Tornou a abrir o olhos e encará-la.

— Então… tu tá dizendo que—

— Que quero que tu fique pra me ajudar com os negócios do meu pai. Ele vai gostar de te ver aqui — sorriu. Aproveitando a deixa, tentou se aproximar para selar um, contudo ela colocou o dedo em seus lábios — Só isso. Por enquanto, pelo menos.

Não podia ter ficado mais feliz. Jeferson sentia que algo dentro de Sabine já começava a mudar e querer dar a trégua que precisava para entrar em seu coração e fazer morada. Contava os minutos, pois, quando acontecesse, tinha certeza: Não abandonaria jamais. Lutaria contra o tempo e as interferências de tudo e todos, mas faria dar certo.

CONTINUA