A Teoria das Cores
96 Verde V
TOLERÂNCIA
Muitas vezes precisamos ser ‘ajudantes’ das artimanhas do destino, agindo como mediadores para algo maior, uma ponte entre o possível e o concreto. E Ian não se importava de se classificar assim, afinal, se havia algo na Terra capaz de lhe trazer alegria era proporcionar alegria. Dar esse presente a Micael de rever Ágata, de certo modo, cumpria esse papel.
Com a sobra de elementos no apartamento, despediu-se de ambos e seguiu pelas ruas de Nova Petrópolis a procurar o endereço de Diógenes ao mesmo tempo em que pensava nas voltas dadas pelo mundo até chegarem ali. Não havia dúvidas quanto a capacidade da realidade em ser conduzida de maneira inesperada para rumos completamente opostos aos que gostaria. E mesmo sendo conhecedor da arte de viver, sempre se surpreendia com ela. Aceitava o título de aprendiz com humildade e alegria em sempre descobrir algo novo.
Nem toda vez, porém, era possível. Os planos que tivera em relação a Dan e sua descoberta ficariam para uma outra existência. Mesmo com seu coração batendo forte pelo primo e o desejo ardente de vê-lo a mercê da redenção ao aceitar o chamado que a natureza estava a lhe dar, não podia deixar de imaginar como seria se fosse ele o alvo daquele amor e em todas as formas possíveis e impossíveis que lutaria para fazê-lo dar certo. Na falta disso, cabia a si torcer para Alisson cumprir seu papel e, tinha certeza, cumpriria.
Andreas, Gil e, por último, mas não menos importante, Ágata, tinham também sua parcela de acontecimentos que não floresceram. Com exceção de Gil, que vivera um romance tempos antes, os demais tinham em seu coração um jardim regado a sonhos, momentos belos, e até mesmo amor de certa forma, já que nem só romances constroem a base de uma relação amiga e sincera. Andreas havia errado ao lhe mentir e teria de explicar bem a razão disso, entretanto, não anulava todo o carinho e cumplicidade que sempre teve dele. Já Ágata tornou-se ficante para acabar como melhor amiga. Via nela o toque singelo de um olhar fraterno, alguém que zela e se deixa ser zelado. Os três, juntos, eram rosas às quais preferiu manter plantadas a tornar um buquê.
Não tardou muito para chegar na rua onde Diógenes morava, pois, perdido em seus devaneios, sequer via o tempo passar. No prédio, identificou-se e foi liberado a subir ao apartamento. O próprio rapaz lhe atendeu, vestindo um short cinza e uma camiseta de banda. Em seu rosto, o reflexo semelhante a da ira de um Deus ferido, esperando a primeira deixa para liberá-la sobre a primeira alma que cruzasse seu caminho. Ian, sempre atento, soube na hora o fato de ser a vítima da revolta e começava a se preparar para enfrentá-la como podia.
De início, preferiu se abster de maiores questionamentos. Tocar em uma ferida como aquela, dada a recepção pouco convidativa, era pedir para um homicídio acontecer e talvez nem por sua culpa, como julgava ser o caso. Sentou no sofá, deu-lhe ‘bom dia’ e foi questionando alguns pontos onde Dio achava que estava fraco demais ou que não havia compreendido. Dadas as respostas, secas e objetivas, o menino de olhos claros partiu às explicações teóricas para, cerca de uma hora e meia depois, arriscarem às práticas.
Mesmo não sendo seu aluno no instituto, sempre chegou aos seus ouvidos o quão aplicado Dio se fazia tanto fora quanto dentro de cena. Foi estranho notar, logo nos primeiros acordes, a desatenção do rapaz. Precisou corrigir cada movimento por quase dez minutos, não saindo sequer da primeira estrofe da música escolhida. Já sentindo a chama em seu peito querendo se transformar em incêndio, o aprendiz jogou a partitura sobre a mesa e levantou-se esfregando suas mãos no rosto. Diante tal cenário, seria imprudência não questionar ao menos se estava bem. Como havia indícios fortes de que o dito cujo não estava, Ian optou por outra.
— Se tu quiser dar uma pausa, ou praticar outro dia, beleza por mim. Só avisa que marcamos outra hora.
— Não, não. A hora tá ótima. Hoje, aliás, tá perfeito. É que na verdade eu acho que me enganei — usava um tom debochado na fala — Não devia ter te pedido aulas de música. Devia ter pedido pra me ensinar sobre talaricagem. Afinal tu tem um verdadeiro diploma universitário no assunto.
Ian começou a encará-lo com um legítimo ponto de interrogação sobre sua face. Tentava entender de onde havia brotado aquela raiva toda sobre si, e na falta de justificativa, o jeito foi perguntar diretamente.
— Desculpa, mas dá pra explicar melhor isso?
— Posso até desenhar se ficar melhor pra ti. Se bem que vai ficar meio ousado demais, afinal orgias sexuais ainda são um tabu e tanto né?
— Quer parar de ironia e dizer o que tá rolando?! — começou a entrar na raiva também. A cada frase ficava mais absurdo.
— Eu tô falando, advogado do Diabo, daquele papinho mole da Ágata de não querer ninguém só pra me afastar de cena e continuar contigo! — exclamou — E ainda chamou um terceiro integrante pra pôr no meu lugar! Entendeu agora, seu filho da p*ta?!
Ao começar a lincar os fatos com as falas, a princípio, desconexas por parte do menino, deduziu que ele só podia tê-lo visto indo visitar Ágata com o primo e concluiu com seus pensamentos o que quis. Mesmo querendo revidar à altura do que os insultos pediam, resolveu respirar fundo e, só depois, começar a tentar articular com o esquentado à sua frente.
— Diógenes, por favor. Tenta ficar frio — pediu, retornando ao tom sereno — Esses absurdos que tu tá dizendo não fazem sentido nenhum. Se tu viu algo certamente não foi isso.
— Tem razão. Cheguei antes. Se tivesse chegado meia hora depois teria visto a pegação solta. Aliás, tu deve ter vindo direto de lá, né? Conta aí como foi! — seguia com as alfinetadas.
Revirou os olhos. Tinha percebido que chegar a um consenso seria trabalho difícil, mas não podia deixar de tentar.
— Se tivesse demorado tanto, o que não aconteceu, nem aqui estaria só pra começar a história — Dio até tentou começar o contra argumento, mas Ian foi mais ligeiro ao prosseguir sua fala — E mais! Eu tenho palavra se tu quer saber! Vergonha na cara também! Jamais insistiria pra ficar com alguém que claramente não me quer. Respeito o sentimento dos outros, tanto que tô tentando ajudar meu primo a chegar nela.
— Primo?! — sua cara quase caiu diante da informação — Era só o que faltava…
— Se tu quer a real, acho ele perfeito pra ela nesse momento. O Mica é um cara desapegado, sem neuras. Tudo que ela precisa.
— Ela precisa de um guri de verdade! Que valorize os sentimentos e ame ela demais!
— E quem seria? Tu? — revirou, atraindo um olhar espantado — Tu não consegue nem aguentar um fora sem ter um surto, agora quer vir com essa. Diógenes, que que há?! Não banca pose pra mim, não, e nem tenta fazer minha caveira baseada em idiotice tua! Não aceito isso!
Era a primeira vez com a qual Diógenes se deparava com um Ian disposto a comprar briga. Sempre amigo e atencioso, surpreendeu-se ao ser posto contra a parede por seu lado mais ‘prático’ e menos sentimental. Entretanto, nem por meio segundo a possibilidade de baixar a bola estava em cogitação. Se provocou a guerra, ficaria em combate até o fim.
— Tudo bem. Pode até ser que eu não esteja na lista de prioridades, mas então por quais razões do destino o primo do ex ficante dela estaria um passo à frente neste sentido?
— É muito simples. A Ágata mesmo já nos disse que quer curtição, pegação e deu. Micael só quer isso na vida dele. Entendeu? É um direito dela. Ela tem que escolher quem quer, não nos cabe interferir nessa decisão.
A cabeça de Diógenes começou a entrar em parafuso. Não podia assimilar o fato da moça a qual dedicava tanto esmero e carinho preferir meia dúzia de beijos trocados ao acaso a uma vida a dois compartilhada, pautada por um sentimento tão íntimo e profundo que era capaz de tocar a alma. Conhecia a trágica história amorosa dela, seus anseios e justificativas, estando disposto a enfrentar lado a lado cada uma das dificuldades impostas. Ora fosse pela vida ou por suas próprias decisões. Ter tudo isso ignorado era pior do que se a moça tivesse enfiado uma faca em suas costas e ainda sorrisse afirmando estar tudo bem.
Com um ar mais manso, caiu no sofá com as mãos passeando por seu rosto na tentativa desesperada de digerir aquilo o mais depressa possível. Ansiava para aquela dor cicatrizar como picada de agulha, cuja dor culminaria logo depois do fim do processo. Entretanto, sabia da dura realidade. Precisaria enfrentar um tempo a estranha sensação de vazio dentro de seu peito e ter coragem de passar por ela quando fosse possível.
Notando o abalo do rapaz, Ian também começou a se recompor, sentando ao lado dele e colocando a mão sobre seu ombro esquerdo. De certa forma, compreendia-o. Ver o amor de Dan lhe escapar pelas mãos sem poder fazer nada a respeito conseguia deixar seus brios completamente sem norte. Percebeu ser a hora de baixar a guarda e compreender, deixando para depois as possíveis desavenças.
— De onde tu tirou serenidade pra lidar com isso? — questionou o aprendiz.
— Do fato de que tratar o coração alheio como cofre, onde podemos arrombar e tirar de lá o que nos interessa, não pode ser bom pra ninguém. Amor é uma conquista diária, vista na simplicidade de ações, preocupações… tomar um café, ver filmes, enfim, o trivial, mas que é a base de qualquer relação.
— E tu acha que não sou capaz de fazer isso?
— Até pode ser, Dio, mas não com alguém que já deu provas mais do que suficientes de não estar interessado — explicou — Somos tão jovens pra querer decidir uma vida inteira no instante impensado. Tudo tem seu tempo e tu precisa começar sabendo qual o teu e, mais importante, respeitá-lo.
— E faço o quê enquanto isso?
Ian então começou a pensar em algumas atividades com as quais poderia se entreter. Pouco conhecia da vida íntima do rapaz, então seria inútil ficar chutando até acertar. Começou pelas opções clássicas tal como ler, escrever, cantar, passear, fazer cursos, ir ao cinema… Mas foi quando observou de novo a partitura da música a qual ensaiavam foi que a resposta lhe surgiu como um cometa.
— Investe na música — sorriu, empolgado — Tenta compôr músicas que exorcizem esse sentimento de dentro de ti, ou arranjos da mesma razão. A arte também tem um lado terapêutico, capaz de refletir nossas emoções mais profundas. Tenho certeza que acabará construindo alguma coisa interessante!
Ouvindo o rapaz comentando, uma pequena e singela luz no fim do túnel começou a querer dar as caras. A possibilidade era das mais tentadoras, de fato, além de ser um ótimo canalizador para suas angústias. Não tinha ainda clara certeza, mas deu credibilidade a opinião e tentativa do menino de olhos azuis em prestar solidariedade.
Todavia, nem tudo era arco íris. O peso na consciência pela atitude que havia acabado de tomar começara a dar os primeiros sintomas. Mesmo tendo certeza de estar em sua razão, sabia desde o início o fato do jogo entre os três estar aberto o tempo todo. Havia entrado no fogo e conhecia o risco de se queimar, só não esperava ser tão rápido e com tanta veemência. Diante disso, a única opção plausível e remediável era uma só.
— Desculpa… — tinha o olhar fitado ao chão — Vou tentar fazer isso e ver se, de algum modo, isso irá me ajudar.
— Vai sim. Tu vai ver — foi esperançoso — Música nunca me faltou quando mais precisei. Inclusive nos piores dias.
— Esse deve ser um deles, né — coçou a cabeça.
— Capaz! Conviver com uma certa pessoinha de nome Daniel te dá anticorpos pra quase tudo! — riu, acabando arrancando risos seus também.
— Deve ser um guri mais complexo que eu, então.
— Dan surtado dá de mil a zero nessa tua crise aí — comentava — Acredita que uma vez, uns meses atrás, fomos numa cachoeira e…
O mesmo brilho cuja força tinha preenchido o coração de Diógenes começava a alcançar o de Ian. Claro que o outro ex ficante de Ágata percebeu, porém, ficou em silêncio analisando a grande ironia. Não lembrava de conhecer o dito cujo mencionado por ele, mas sabia que se seu sentimento pela morena era semelhante a algo, sem dúvida era aquele. Ian tinha tanta vontade e força de expressão contando da confusão na cachoeira que acabava tornando o lamentável episódio em um conto de fadas onde, tal como ele, somente um dos lados parecia ter encontrado o ‘felizes para sempre’.
***
Por mais amor que fosse capaz de ter pelo primo mais velho, Micael não pôde deixar de agradecer a toda e qualquer divindade que tivesse lhe mostrado o caminho para longe do apartamento de Ágata, deixando-o sozinho com a moça. Bem ou mal, boa parte de sua vinda se devia a ela, então se achava no direito de ter seu momento a sós com quem estava a paquerar desde o primeiro instante no qual seus olhares se cruzaram em sua festa de aniversário.
Claro que, num primeiro momento, a preocupação quanto às relações por ela tidas com Ian foi uma dúvida intrigante sobre continuar ou não investindo. Com o passar do tempo e as devidas explicações dadas, tudo começou a se encaixar e soube que deveria partir de si a disponibilidade de correr atrás da moça. Não era como as demais que até então haviam ficado, quando muito, um mês em sua vida. Ágata era uma tigresa, hábil e independente, sendo sua presença apenas um bônus e não uma necessidade fisiológica.
Concentrou suas energias em conquistá-la de vários modos, os quais independem de relações físicas e momentos de ápice sexual. Trocou nudez por roupagem, gemidos por risos e orgasmos por carinho, mesmo sendo puxado para um lado mais fraterno. Não sabia ao certo se queria um namoro sério, sequer se cobrava a respeito, visto sua consciência do histórico emocional de Ágata. Permitia-se ser livre, mesmo estando ao seu lado. Sem amarras ou cobranças excessivas, apenas cumplicidade e empatia.
Passada meia hora desde a saída de Ian, ambos já tentavam retomar o fôlego perdido após tantas risadas e trocas de vídeos capazes de animar um velório em dois minutos. Sentavam lado a lado no sofá compartilhando as telas de seus respectivos celulares quando Mica largou o seu na mesinha de centro e passou a encarar a moça. Esta parou na hora o que fazia e questionou-lhe a razão daquela atitude. A resposta chegou rápido.
— Cansei de admirar coisas pelo vidro. Quis ver coisas ao vivo e a cores.
Ágata riu, fraco desta vez.
— Direto assim, é? — revidou, em tom provocativo.
— Nem tanto, vai. A única coisa que passa direto na vida é ônibus lotado. O resto é falatório! — a menina caiu na gargalhada. Sem perder o timing, acrescentou — Sabe que essa arcada dentária aí não parece que tem alguma obturação.
— Será que tem? — provocou, ainda rindo — Tu bem que quer descobrir! O pior é que vai acabar ganhando pelo riso!
— Opa! — exclamou, dando um pulo do sofá — Então quer dizer que temos alguma estimativa?! Amém, senhor!
A morena ficava pasma como, mesmo sendo tão próximos, os primos conseguiam divergir entre si. Não podia falar por Andreas, afinal, ainda que tivesse tido interesse em sua fisionomia peculiar, nada conhecia dele além disso. Daniel, conhecido de outras eras, lhe passava a impressão de ser o retrato do caos na terra. Em contraponto, Ian era um rapaz de brisas suaves, águas tranquilas, a verdadeira personificação do oceano pacífico. Micael representava a parte brincalhona daquele pitoresco laço familiar, com um bom humor invejável e uma fácil capacidade em prender a atenção.
O que parecia lhes unir, julgava, era a isca periclitante que seus seres representavam. Cada um a seu modo tinha seu charme, quase um veneno com capacidade de se misturar ao ar e sufocar suas vias aéreas tamanho fôlego que exigem. Eram verdadeiras plantas carnívoras, com sede de presas suculentas para satisfazerem sua fome de aventura e luxúria.
— Tô bestificada em como tu é fácil de arrancar risos de alguém. Devia fazer algum vídeo parecido com os do canal que me mostrou. Estaria com a conta bancária alguns dígitos maior a essa hora!
— Modéstia a parte, sou bom em várias coisas. Mas um certo alguém só vê só viu talento e beleza nos meus dois primos mais velhos.. fazer o quê? — imitou uma criança manhosa.
— Ai, coitadinho dele! — entrando no espírito de zoação, levantou-se e apertou suas bochechas — Pro teu governo, achei TU e teus primos bonitos, mas tu, a princípio, me soou o mais amigo deles.
— Obrigado! Meu lado amiga de colegial agradeceu muito! Quando vamos pintar as unhas, fazer cachinhos nos cabelos e falar dos nossos boys?!
Micael não conseguia resistir as tiradinhas, tampouco Ágata de rir delas. Sentia-se no jardim de infância, onde faziam piadinhas boas, mas capazes de jogar os problemas para bem longe, aos adultos tão cheios de aflições, para que eles, sim, resolvessem tudo preto no branco. Queriam mais é o colorido da vida, uma verdadeira explosão de cores, onde qualquer mínima coisa se tornava mágica.
— Pensa pelo lado positivo. No teu caso, tá virando uma amiga com benefícios que poucas tiveram na vida!
— Ah, foi mal, mas até esses benefícios chegarem, sou uma carmelita descalça contigo!
— Por enquanto… Só até me acostumar com a ideia — sorriu, de canto.
Dali a moça foi direto para a cozinha tomar um copo d’água enquanto deixava Mica refletindo sobre tudo aquilo. O esforço que fez indo até ali parecia tão surreal quando comparado a situações semelhantes às quais viveu no passado. Lembrava de certa vez quando rejeitou uma garota dois anos mais velha que si, morando há duas quadras de sua casa, por pura preguiça de ir até lá. No entanto, o mundo havia dado suas voltas e acabou viajando para outra cidade apenas para ver de perto o sorriso da menina que lhe encantou. Não caía na armadilha de afirmar ser amor, mas que tinha uma pitada forte dele, não podia negar.
Acabou acompanhando-a até a cozinha quando percebeu sua demora lá. Flagrou-a comendo uma fatia de bolo de laranja que, segundo explicações, fora feito de manhã por sua mãe. Sentou-se em uma das cadeiras depois de tirar da geladeira um copo de leite, além de uma lata de achocolatado do armário. Ágata riu, lembrando do hábito semelhante ao de Ian. Chegou, inclusive, a comentar com o rapaz a respeito. Ele alegou ser mal de família não crescer a tal ponto em que dispensam seu chocolate por café. Comparou com a velha expressão de trocar gato por lebre.
— E depois do nosso café? Algum plano para o longo dia que temos pela frente? — questionou o rapaz, enquanto bebia um pouco de seu achocolatado.
— Já que hoje temos essa visita de uma amiga do colegial, tava pensando em ver um filme qualquer aí, comer pipoca salgada coberta com manteiga… Acha uma boa?
— Se tiver direito a ficar de conchinha igual duas moças lésbicas. Topo.
A morena revirou os olhos, mantendo o sorriso. De alguma forma, a presença dele lhe preenchia, ocupava todo e qualquer ambiente no qual estivessem convivendo juntos. Tinha certeza, cada vez mais, que talvez fosse a oportunidade que queria de se desvincular de problemas e agarrar uma oportunidade de ter alguém legal para compartilhar momentos incríveis sem tanto compromisso. E, se essa era a missão de Micael ao entrar em sua vida, estava conseguindo cumprir bem o papel.
***
Manter-se escondido depois do flagra constrangedor foi, no mínimo, tarefa digna de filmes de ação dos anos 2000. Só saíram do banheiro quando se certificaram que Marisa estava entretida fazendo alguma outra atividade. Temoroso, Dan insistia mil vezes e recuou outras tantas na hora de passar do cômodo onde estava para o quarto do, agora, ficante, coisa que sequer cogitou em sua existência a possibilidade.
Com a mãe arrumando a casa e colocando Edu para ajudá-la, ir embora ficou fora dos planos do mais novo. O jeito foi cumprir a promessa e organizar seu quarto, fazendo uma limpeza geral das boas. Al desceu apenas para pegar um balde com água, panos limpos e acessórios de limpeza e retornou, obrigando Dan a ajudá-lo também sob o pretexto de estarem se relacionando, portanto tinham deveres quase matrimoniais. O rapaz, lógico, espraguejou até sua quinta geração e assim ficou até acabarem, enquanto o mais velho apenas ria de sua rabugice conveniente. As refeições também foram complicadas de fazer. Arrumou vários sanduíches e levou a garrafa de refrigerante para seu quarto alegando querer terminar de limpar logo.
Mesmo com Edu mal respirando em sua presença, não precisou de muito para Marisa ligar seu desconfiômetro, deixando bem claro que se estivesse recebendo alguma menina ali sem lhe avisar, ficaria de castigo até aprender que viviam em um espaço democrático no qual existiam regras a serem respeitadas. Revirou os olhos, dizendo que se fosse o caso a mãe já teria descoberto por ter faro de outro mundo para aquelas coisas. A mãe não engoliu, tampouco revidou. Acabaram conseguindo fazer tudo com calma, manobrando uma ou outra ação de esconderijo, pois volta e meia Marisa batia na porta, fosse com roupas ou para questionar outra coisa. Al sabia qual era o caso, mas deixou, uma vez que, ao pegarem a manha de fugir, foi fácil “enrolar”.
Já mais à noite, Alisson convenceu o outro a dormir ali e, no outro dia, acobertaria sua fuga para casa. Sem muitas opções e cansado pelo trabalho realizado ao longo do dia, acabou cedendo. Feliz como se tivesse ganho na loteria, tratou de deixá-lo confortável, emprestou roupas mais folgadas para que dormisse bem e um outro travesseiro ao lado do seu. Ainda que com um leve constrangimento, Dan não podia negar o sentimento de estar acolhido.
Juntos na cama, assistiram a Detona Ralph comendo pipoca, chocolate, tomando refrigerante quente e, volta e meia trocando uns beijos na bochecha. No início, Daniel mostrou-se acuado tal qual na hora do banho, mas depois começou a amolecer da mesma forma. Algo dentro de si já apontava o quão inútil seria resistir após ter dado o primeiro passo, o que ajudava a descomplicar pouco a pouco.
Alisson tinha grandes expectativas a respeito e, se isso acontecia, se devia ao beijo. Não tinha dúvidas. Quando o menor resolveu enfrentar seus medos ao convidá-lo à cabine de fotos e selar seus lábios, é porque seu coração já não aguentava mais viver soterrado ante a infelicidade de viver sem tentar. Diante de uma prova daquelas, como resistir? Para quê adiar ou tratar com melindres? Perguntas cujas respostas ficavam cada momento mais evidentes.
Já era tarde quando, poucos minutos depois do término do filme, três batidas na porta chamaram a atenção. Al preparava-se para correr a mãe quando ouviu a voz de Edu pedindo se poderiam conversar. Sabiam bem qual o tópico, e também a necessidade de tudo ficar em pratos limpos. Convencidos disso, ficou a cargo de Alisson abrir a porta. O menino levantou-se, ligou a luz e abriu a porta, encarando o namorado de sua mãe com uma expressão capaz de arrancar uma língua tamanha fúria.
Meio desorientado, Edu entrou de forma rápida, parando frente a cama.
— Bem… espero não estar incomodando — coçou a nuca. Não sabia bem quais palavras usar.
— Incomodando tu já está morando na minha casa, mas ainda reconheço quando sou vencido — Al não desmanchava a pose.
— Alisson, qual é! — repreendeu o ficante — Foi uma cena quase humilhante pra todo mundo. Dá um desconto.
— Vou lembrar disso na próxima vez que flagrarmos teu primo pelado na sala da tua casa com outro cara, ô Madre Teresa! — revidou o mais velho.
A cada novo elemento que a história ganhava, Edu se sentia mais perdido. Porém, tentou o máximo possível manter o foco e seguir ao que veio.
— Guris, por favor. Só vim aqui porque seria estranho passar uma borracha numa situação como aquela sem ao menos tentar encontrar uma explicação — ambos concordaram com a cabeça.
— Tudo bem, mas acontece que não tem nenhum detalhe a ser acrescentado. A cena foi aquilo ali que tu viu. Paciência — Al deu de ombros.
— O que ele quer dizer é que ninguém queria ter passado por isso. Só queríamos… ficar em paz — tentou minimizar Dan.
— Eu entendo. Muitas vezes na vida somos colocados diante de circunstâncias às quais não são as melhores e, por não conhecer a verdade ou saber lidar com ela, acabamos agindo sem pensar mesmo — comentava — Posso me sentar, Alisson?
— Pode, né? Fazer o quê? — desdenhou.
Dan revirou os olhos com a atitude. Pela primeira vez, pensou se agia da mesma forma ao estar descontente com alguma coisa. Julgou merecer um belo soco em caso positivo, por ser justamente a vontade que tinha vendo o mais velho se portando como se tivesse dez anos. Edu, por sua vez, nada fez ou respondeu. Limitou-se a realizar o que havia solicitado e tornou sua atenção aos rapazes.
— Na verdade, Alisson, gostaria que tu soubesse que o espanto veio mais por não ter conhecimento de que tu é homossexual do que por qualquer coisa.
— Ei! Que papo é esse de ‘homossexual’?! Curto mulher também, ouviu?! — exclamou, revoltado — O viado aqui é ele!
— Cala boca! — atirou o travesseiro no ficante, que se pôs a rir de sua cara — Não escuta o que ele diz. Gosto de gurias também!
— Guris! — exclamou Edu — Desculpem. Não quis ofender ninguém. Quis dizer apenas que não sabia da tua preferência por homens também. Só isso. A Marisa jamais mencionou qualquer coisa do tipo.
— Quem sabe é porque ela nem desconfia? — respondeu o filho da referida, cheio de sarcasmo — Descobri faz pouco também. Os únicos que sabem são alguns amigos próximos e o Daniel. O resto ainda acha que sou mac… digo, que sou hétero.
Só então tudo ficou mais claro na mente de Edu. O fato da namorada parecer tão bem conformada ou jamais ter citado nada entregava a afirmação, o que o levou a pensar em como estariam se sentindo os pobres rapazes a sua frente, pegos em uma situação comprometedora e de forma tão precoce. Ainda que não tenha surgido palavras capazes de magoá-los ou feri-los de morte, reconhecia a infelicidade e ansiedade gerada por ela.
— Como eu disse antes, a vida nem sempre nos prepara para algo no momento em que acontece. Nesse caso, me vi um piá da idade de vocês de novo, quando, pela primeira vez, conheci alguém que gostava de homens. Um colega de escola também, cheio de dengos, odiava futebol, andava com as gurias e tinha uma voz aguda que entregava na hora que algo ali não era como os demais. Infelizmente, não tinha a vivência que tenho hoje para falar com vocês sobre esse assunto de maneira tão aberta, então, no dia dos namorados, quando a escola inteira descobriu sobre a cartinha que ele mandou ao guri que gostava… Bem, vocês podem imaginar o fiasco, né?
— Vocês… bateram nele? — apavorado com o relato, Dan mostrou curiosidade em saber o resto.
— Eu acho que ele ia de preferir isso, sabe? Porque as palavras que eu e toda escola dirigimos a ele perfuraram mais do que se tivéssemos agredido fisicamente. Aquela cena dele correndo desesperado, só querendo encontrar a saída da escola e ir pra casa em paz, assombra meus sonhos até hoje. Nunca havia entendido a razão, já que cheguei a procurá-lo depois, mais maduro, e pedi perdão. Vendo vocês hoje, percebi que a vida queria que eu lembrasse daquilo todo dia pra não deixar repetir de novo. Então, meninos, só peço que sejam felizes. Lutem pelo amor de vocês e jamais deixem ninguém definir quem vocês devem ou não amar.
Ambos ficaram atônitos, em silêncio, encarando-o como se acabasse de ouvir um homicida confessar seus crimes. Daniel, um pouco mais ciente, sorriu e estendeu a mão, agradecendo pelo gesto de confiança e prometeu que assim faria. Alisson, no entanto, optou pelo silêncio, apenas o acompanhando até a porta quando o mesmo fez menção em sair.
Quando estava quase fechando, porém, uma surpresa, abriu a porta e chamou por ele. Foi até próximo de si ainda de rosto fechado, apenas para, quando chegou perto, deixar uma lágrima tímida rolar por seu rosto enquanto repetia o gesto feito pelo ficante.
— Valeu… pela força…
— Disponha — Edu não podia ter ficado mais feliz.
Feito isso, retornaram aos seus aposentos. Suas cabeças pareciam ter tirado uma tonelada de cima delas, e as expectativas de dias melhores começavam a crescer em seus peitos. Se de um lado havia dois jovens descobrindo o amor e tendo apoio surpreendente, do outro um jovem senhor, conhecedor da vida e da arte de amar, que gostaria muito de ver aquela semente que acabara de ajudar, germinasse.
CONTINUA
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