VIOLÊNCIA

Não era de total espanto que um contratempo daqueles pudesse acontecer depois de tanto tempo sob suspeitas de Alisson e Daniel terem um relacionamento amoroso. Na realidade, contavam com isso, principalmente o mais velho, sempre visto com belas moças a seu lado, e agora dava a chance a um rapaz com gênio tão difícil quanto Dan. O problema se dava justamente em não aceitar aquilo por nada no mundo.

De certo modo, entendia ser um recado da vida por todas as vezes nas quais apontou o dedo a Gil, pelo constrangimento feito a ele e Ian no flagra, e tantas outras as quais sequer lembrava (e nem queria!). Porém, não tinha vocação para mocinho indefeso e submisso. O sangue percorria suas veias de forma voraz, pulsando cada centímetro de seu corpo semi atlético. Tinha humildade, sim, em reconhecer seus erros e tentar consertá-los da melhor forma. Isso não significava que aguentaria uma provocação daquelas por complexo de culpa.

Dan não encarava de forma tão diferente. Sabia que seus atos quanto a sexualidade alheia jamais foram os melhores, principalmente com relação a Ian, até mesmo com Alisson antes de si mesmo aceitar que o amava. Distinguiam, entretanto, na forma como digeriam. Não era fácil virar a chacota da escola por conta de algo o qual sequer entendia como aconteceu. Ver sua intimidade na boca de colegas e não se achar nem no direito de revidar foi pior do que se lhe dessem um soco aleatório no meio da rua. Nada falava, apenas escutando como os envolvidos na briga seriam punidos.

Rebecca chamou-lhes tão logo conseguiu organizar alguns assuntos da escola que necessitavam urgência. Questionados por qual razão estava ali, Al e Dan justificaram terem o direito de ouvir da boca do encrenqueiro o que tinham dito pelas suas costas. A moça, no primeiro momento, nada entendeu, até que Adrian explicou sobre ter ido beber água e ouviu o menino sentado ao lado debochando e fazendo troça de seus amigos, tentando resolver tudo na boa, com diálogo e explicações. Porém, o tal sujeitinho, nas palavras dele, quis dar uma de espertalhão e acabou começando a briga.

— Acho que não preciso dizer o quão infantil essa atitude foi, não é mesmo? Mas, se quiserem, posso até desenhar se ficar mais fácil. É inadmissível alunos dos terceiros anos do médio agirem pior do que os que estão no primeiro ano do fundamental! Nem nossas crianças fazem esse tipo de coisa e vocês, meninos bonitos e sadios, começam a fazer arruaça dentro da escola!

— Quem manda esses dois boiolinhas ficaram todos cheios de frufrus pra cá e pra lá?! — o incitante da briga tentava argumentar — A escola inteira percebeu os dois pombinhos dançando juntos nos trotes do terceirão. Não inventei nada!

— Ah, seu— Al fez menção em ir para cima, porém foi impedido por Mandy e Dan, além de uma exclamação de Rebecca.

— E por causa disso tu se achou no direito de aumentar um ponto, como bom fofoqueiro?

— Não sou fofoqueiro! — de novo, o agressor se alterou.

— E como chama alguém que fala da vida alheia? — revidou a supervisora.

— Mas—

— Ouçam aqui, todos vocês — interrompeu o menino enquanto ia tentar de novo se defender — Ainda vivemos em uma sociedade civilizada e organizada. Não há um só assunto no mundo que não possa ser discutido de forma saudável, através de conversas e explanações. Portanto, atitudes assim não podem nem devem ser toleradas, mas, considerando o bom histórico do jovem Adrian, jogador do time da escola e aluno impecável, vou considerar isto como um… digamos… erro de cálculo. Até para não te prejudicar justamente na reta final dos torneios da escola. Mas não se enganem! A próxima suspendo sem dó nem piedade!

— E eu?! — o menino não entendia.

— Não quero mais ouvir um só comentário vindo do senhor relativo a qualquer pessoa desta escola. Estamos entendidos? Podem voltar para suas salas, exceto Alisson e Daniel. Vocês fiquem. Precisamos conversar.

Souberam, a julgar pelo tom da moça, que a coisa não ia ficar nada boa. Concordavam, ainda que em pensamento, a injustiça de precisar passar por aquilo sem nem ao menos participar de forma direta do tumulto. Conhecendo a supervisora como conheciam, não era difícil imaginar que a coisa tomaria proporções estratosféricas. Sentaram nas cadeiras onde Adrian e o provocador estavam até segundos antes, enquanto Rebecca respirou fundo antes de começar a falar.

— Gostaria que vocês me explicassem a origem do cochicho que culminou nisso — foi direta — Essa situação não é das mais agradáveis para nenhuma das partes, mas acho que se faz necessária uma compreensão, um olhar maior sobre a origem do problema.

— Com isso, tu quer dizer nos punir sem que tenhamos feito nada? — Al retrucou.

— Aquele imbecil que é um covarde e a gente que paga o pato?! — Dan ajudou na defesa.

— Absolutamente. Ninguém aqui irá puni-los por nada. A minha intenção é apenas dar luz à isso. Por que estão comentando isso de vocês?

— Porque a louça da casa deles deve tá limpa e guardada. Respondido? — o filho de Isabel ironizou.

Tirar alguma informação dos rapazes naquele estado seria pura perda de tempo, e talvez até de paciência a todos ali presentes. Rebecca percebeu que, apesar de querer o melhor método de resolver a encrenca, tratava-se de um esforço unilateral. Apenas ela estava aberta ao diálogo franco.

Tendo esta consciência e conhecendo Al e Dan tão bem, limitou-se apenas a relembrar que Alisson tinha apenas mais uma oportunidade de se meter em problemas, e, portanto, tentassem não criar caso em cima de boataria e falatório para não resultar em um convite a se retirar da escola. Dan, revoltado na tentativa de defender o ficante, lembrou que quem deveria receber o tal “convite” era quem tinha a língua venenosa, não alguém que foi vítima das circunstâncias. Ainda sim, a postura permaneceu.

Assim que foram liberados a retornar a sala de aula, mal tiveram tempo de entrar na sala quando a professora ordenou que se retirasse. A medida era devido ao fato de não terem lhe obedecido e saído sem maiores explicações. Sem querer entrar no mérito da coisa, nem se deram o trabalho de argumentar ou pedir que ficassem. Pegaram suas coisas e saíram, indo direto para a sala vazia curtir os minutos finais de aula.

Cada qual tinha os pensamentos mais focados no fato de estarem virando alvo fácil aos predadores maldosos de onde estudavam. Al tentava apenas pensar quem na face da terra teria a desfaçatez de tocar em seu nome sem que arcasse com as consequências disso. Conhecia o sujeitinho brigão, e sabia de sua limitada capacidade em descobrir aquele tipo de coisa. Cogitou até mesmo que Amora, com seu espírito de raposa, tivesse farejado e lançado a isca apenas por diversão, ou despeito por não ter tido outra chance e ido contra todos os princípios que ela mesma afirmara ter.

Daniel não ia por vertentes tão diferentes, Na realidade, a diferença se dava na possibilidade de alguém não ter inventado, e sim, visto. Lembrou-se por um momento da moça com quem Al falava antes de pedir para irem à cabine de fotos. Teria ela ficado de olho e contado a alguém? Não conseguia recordar de seu rosto andando pelos corredores da escola, mas julgou ser uma possibilidade válida, uma vez que ela não pareceu ver com bons olhos sua intromissão no ‘esquema’ dela. Podia muito bem ter feito de vingança. Era uma opção bem relevante em sua opinião.

Chegaram a sala vazia com a cabeça ainda em órbita, sentando lado a lado pouco depois. Encararam e não aguentaram segurar o riso, ainda que não soubessem bem a razão dele. Dan, inclusive, questionou o motivo.

— Sei lá! Vai ver é a velha história do rir pra não chorar — chutou o mais velho — Mais uma vez a gente metido em roubada. E sem ter movido uma unha pra acontecer.

— Eu fico p*to com isso. Sério, não dá pra se ter sossego um dia na vida?!

— Bah, se por sossego tu quer dizer um dia sem problemas, sinto muito — riu, fraco — Mas esse guri foi só um alerta pra algo maior.

— Vai dizer que a corporação Illuminati tá atrás da gente agora? — ironizou.

— Acorda, né pateta! Não viaja! Eles podem até não, mas que tem alguém no colégio falando o que não deve, isso te garanto. Seja quem for, vai se arrepender de abrir a boca pra falar dos nossos nomes.

— Então vai puxar briga mesmo? Bebezão… Tu ouviu o que a Rebecca disse…

— O que a Rebecca disse eu c*guei no vaso e dei descarga — deu de ombros — Minha vida não é maçaneta que todo mundo pega. Dúvido que tu pense diferente disso.

— Eu não! — exclamou — Quero mais é que o filho da p*ta se exploda. Só… não queria te ver sendo expulso — seu rosto começou a esquentar na hora.

Al sorriu. Pela primeira vez, sentia um afago no coração por ter alguém além de sua mãe capaz de ter uma preocupação tão fraternal e, ao mesmo tempo, amá-lo com toda força. Via diante de si um Dan desarmado, sem tantas amarras e disposto a encarar as coisas como só havia visto no dia em que se beijaram, também no dia do banho em sua casa. Dava graças por não estar sozinho naquela situação, mais ainda por quem seu coração escolheu estar a seu lado para lhe dar apoio.

Levou sua mão a dele e entrelaçou com a sua. Dan encarou fundo o olhar do mais velho, que, por sua vez, assegurou.

— Não vai rolar nada. Fica frio. Ela pode até não ficar sabendo, mas não será aqui dentro da escola, então não tem o que se intrometer.

Dan abriu um sorriso tímido, ao mesmo tempo em que seu olhar parecia esmaecido, quase triste.

— Não é à toa o time da escola falar da gente, né? Tô me sentindo um boiola sentimental demais esses últimos dias. Tu não?

Al não aguentou rir do comentário.

— Verdade. Ultrapassamos os limites de sentimentalismo exagerado — concordou — Ainda sim, não dá o direito de ninguém meter o nariz no que a gente faz.

— Isso é uma confusão. Tô me sentindo numa mistura de barco viking e kami kase. Quando isso vai acabar pra eu não parecer um alien todo dia que acordo?

O filho de Marisa levou então seu rosto ao encontro do menor, dando um sublime beijo em sua bochecha.

— Tô aqui agora. Lembra disso. E mais: tem muita gente querendo te ajudar. Só… permite que a gente se aproxime e tente fazer algo. Só isso já vai ser de grande ajuda.

Era incrível como as simples palavras faziam tanta diferença na vida de Daniel. Não que jamais as estivesse escutado naquele mesmo contexto, apenas tinha uma certa singularidade vinda de Alisson. Acreditava que muito disso se dava ao fato de estarem vivendo a mesma coisa, partindo do mesmo ponto. Ainda que Ian e Vanessa já tivessem tentado explicar à exaustão, ouvir da boca de quem viu se tornar um novo homem em tão pouco tempo, era motivador. Tinha seu quinhão de valor.

— Tu já imaginou se alguém entra e te vê falando isso e ainda todo meloso comigo? — mexeu, sorrindo.

— É tudo que eu quero. Não tá custando pra sair no soco que alguém. Me dando motivo então…

Dan não pôde ficar inerte. Caiu na gargalhada sem que se desse conta. Por mais séria que fossem as circunstâncias, sabia que Alisson tinha tutano suficiente para lidar com as coisas. Não temia o perigo, tampouco as armadilhas da vida. De alguma forma, confortava seu coração saber disso, pois, ainda que tivesse arrepios pensando no caos que estava por vir, tinha um forte guerreiro a seu lado para lhe ajudar.

***

O tempo pela manhã pareceu caminhar a passos de tartaruga. Com tantos querendo saber o que havia rolado entre a estrela do time e o rapaz do outro terceiro ano tornou a aula a verdadeira sucursal do Inferno. Os agitados hormônios não viam a hora do circo pegar fogo, sabendo que, tratando-se de Dan e principalmente Alisson um boato como aqueles não passaria em brancas nuvens.

O rapaz provocador e Adrian trocaram olhares afiados ao longo do tempo que retornaram às suas respectivas salas, querendo concluir o que começaram sem maiores rodeios. O jogador passava longe de ser alguém com a ira nos punhos, porém detestava quando subjugavam sua inteligência e força de vontade. Havia um terremoto acontecendo dentro de si, que acabava, sem que se desse conta, interferindo no externo também. Por vezes, já em sala, a professora precisou chamar seu nome para se concentrar, mesmo sendo como ir à Lua de a pé.

O sino da escola tocou meio dia em ponto e as turmas em peso saíam na velocidade da luz. Jeff, Adrian e Mandy seguiram para achar Daniel e Alisson para conversar e resolver o que ser feito, ao passo que Sabine precisou se ausentar devido a um chamado da natureza. O trio restante encontrou os amigos escorados no muro da escola a observar e cochichar sobre um grupo de alunos mais afastados, quase onde ficava o bicicletário, do lado oposto ao estacionamento dos professores. Ao se aproximarem, Al foi direto.

— Adrian, me confirma se aquela galinha despencada ali é o guri de antes. Só pra ter certeza que não tô fazendo confusão.

O ruivo assim o fez, vendo o tal sujeitinho e analisando bem suas características, ainda que não fosse preciso.

— É ele sim.

— Então tá na cara o que rolou! — exclamou Dan — Olha lá se não é o guri que soquei outro dia, do lado do mongol de hoje!

— Eu sabia que só podia ser alguém sem noção pra aprontar uma dessas — Al revirou os olhos — Mas deixem. Se ele não aprendeu no soco, vai aprender no susto a nos deixar em paz.

— O que tu tem em mente? — Mandy perguntou.

Alisson sorriu daquela forma que só quem está prestes a aprontar sabe fazer. Confidenciou aos amigos então toda a estratégia bolada por sua cabeça travessa, contando tudo nos mínimos detalhes a fim de deixá-los a par e, assim, ver o que achavam. Ao terminar, viu os olhos de Jeferson e Adrian brilharem de entusiasmo, ao passo que Mandy quase desfaleceu diante deles.

— Pelo visto acharam tri, né? — Al indagou, animado.

— Tri insano só se for! — exclamou a menina — Al, por favor, vocês são dois e eles quatro! Acorda!

— Ué, e o que o c* tem haver com as calças? — não compreendia — Já fiz um strike neles uma vez. Faço duas numa boa.

— E eu vou tá junto também, Amanda. Vai dar bom — garantiu Dan.

— Vai ser quase de igual pra igual. Serão três contra quatro. Tô dentro — Adrian disse, convicto.

— Vai ser de igual pra igual. Quatro contra quatro — Jeff complementou — Eles tão loucos se pensam que vão sair ilesos.

Apesar do medo culminar na maior burrada de sua vida, uma parte de Mandy queria ajudar os rapazes, mesmo porque sentia-se, de certa forma, em débito com eles. Havia prometido a Al fazer o que fosse possível para o amor deles se concretizar, e, naquele momento, sua ajuda seria necessária. Quase por voto vencido, acabou aceitando para não abandonar o barco. Não suportaria saber que algo daqueles estava acontecendo enquanto estava pleníssima indo ao trabalho. Precisava tomar partido.

Começaram então a dar início a ação mesmo sem Sabine retornar, uma vez que Al até pediu por isso por ter gente demais envolvida. O primeiro passo já começava complicado: Al e Dan precisavam dar às mãos. Engolindo seco, o fizeram com elas úmidas tamanho nervosismo. Era a primeira vez que realizavam um ato daqueles e sob circunstâncias terríveis, as quais em nada ajudavam a torná-lo romântico ou fraterno como deveria ser. Pareciam estar calçando um sapato três números menor.

Apesar dos pesares, a estratégia deu certo. O casal passou pelo tal grupo sem sequer lançar olhares tortos, mas foi o suficiente para atraí-los atrás deles poucos tempo depois, tentando disfarçar e sem se dar conta de que Amanda, Jeff e Adrian estavam de olho neles. Uma verdadeira tríplice da encrenca, onde um cuidava outro que era cuidado por outro. Os grupos caminhavam pelas ruas de Nova Petrópolis tentando serem o mais discretos possível, a fim de não atrair chamariz. Fingindo estar mexendo no celular, um dos membros do grupo que seguiam os rapazes gravava-os, a fim de ter provas das alegações feitas.

Cada minuto que passava era uma falha no coração de Dan. O rapaz só queria um lugar para se enfiar embaixo e sair de lá jamais. Era tão forte que sentia seu intestino em peso dar um nó apertado. Suas mãos não paravam quietas e seu olhar parecia de uma caça frente ao caçador. Al, claro, captou a mensagem, tratando de segurar firme apenas para lembrá-lo de que estaria ali independente do julgamento alheio ou dos olhares tortos. Não serviu para acalmar completamente, mas ao menos deu ao menor a certeza de que a batalha teria um guerreiro de primeira a frente de tudo, o que lhes dava uma chance considerável de saírem vitoriosos.

Quando já estavam no morro de Nova Petrópolis, passando bem a entrada e longe de tudo, começou a emoção. Os rapazes perseguidores começaram a acelerar o passo em direção aos meninos, porém acabaram sendo surpreendidos pela ação dos amigos deles. Jeff, Amanda e Adrian pegaram um por um dos rapazes, segurando-os, deixando apenas o que trocou socos com Dan e depois com Al livre para os mesmos. Em virtude do susto todos pararam, inclusive o rapaz livre, encarando os amigos e depois o casal de mãos dadas. Estes viraram para fazer o mesmo, com Alisson expressando um sorriso debochado nos lábios.

— Vocês não conhecem privacidade? Queria um pouco de paz com meu “amigo” aqui — provocou.

— Tava se preparando pra dar o c*, é? Que nojo! — ainda que estivesse em desvantagem, o garoto não perdeu a pose — Eu tinha certeza que não tava falando mentira, mas os viadinhos se sentiram no direito de ficarem bravos…

Na hora, Dan quis partir para cima dele, sendo impedido pelo ficante, o qual segurou seu braço e pediu que ele resolvesse a situação. Tentou contestar, mas foi voto vencido. Acabou ficando onde estava enquanto Al, depois de respirar fundo, aproximou-se bem do outro e, olhando nos seus olhos, disparou um cuspe sob sua face. Os amigos não aguentaram o riso fraco de deboche da cena.

— Repete se tu é macho. Repete — sussurrou — Tem outro desses sendo fabricado agora mesmo.

— Viado, bicha, mulherzinha, arromba—

Sequer terminou as palavras que berrava apenas por diversão quando Al cumpriu o que falou. Passou a encarar então os amigos deles, questionando se alguém mais estava disposto a encarar. Jurando que receberiam apenas um cuspidão, os amigos passaram a repetir os insultos. Para sua surpresa, os amigos ficaram responsáveis pelos castigos: Adrian torceu o braço de um mais ainda; Amanda deu uma joelhada na dobra do joelho de outro; e Jeferson o chute nos países baixos do último.

Percebendo que a coisa ia esquentar, o líder da “gangue” resolveu usar de artifícios para mostrar a prevalência de seu poder, tirando do bolso um canivete e apontando na direção de Alisson. Apesar de Dan regatear, seu ficante permaneceu imóvel, ainda riu do ato.

— Vocês tão vendo, né? Honra tanto as cuecas que veste que nem no soco se garante! Que belo galo de rinha tu tá me saindo!

— Pode ter certeza que o estrago desse brinquedinho vai ser tão forte quanto se saísse no soco contigo, seu p*to do c*r*lho!

Ignorando qualquer possível sentimento de perder, o rapaz correu até Alisson na certeza de que iria, no mínimo, deixar seu braço marcado para o resto da vida para aprender a ser homem de verdade. Não contava apenas que, poucos metros antes de chegar nele, Alisson ergueu sua perna em um movimento de chute ao braço o qual a mão segurava o canivete, torcendo-o para o lado oposto. Não chegou a quebrar, mas a dor foi de tamanha profundidade que não resistiu e jogou o objeto bem longe.

Ainda por conta do impacto, acabou caindo no chão gemendo, mas Alisson se negava a dar por encerrado. Para evitar outra gracinha, ergueu-lhe do chão e jogou contra o tronco de uma espessa árvore próxima deles, o que fez cada vértebra sua sentir o impacto e impedi-lo de reagir. Não conseguiu evitar gemer ainda mais alto, dando assim a vitória a qual o filho de Marisa garantiu ao ficante que teria. Aproximou-se dele de novo e deixou o alerta.

— Isso aqui foi só uma brincadeira de assustar. Na próxima eu te deixo todo urinado, entendeu? Então lava essa boca com b*sta de vaca antes de sair feito velha fofoqueira falando de mim e do Dan.

O tal sujeitinho espumou pela boca. Não podia acreditar que acabaria daquele jeito, humilhado frente aos amigos sem ter qualquer poder de reação. Então, pensando apenas ser blefe, tornou a provocar sem piedade.

— Muito fácil pros dois viadinhos se sentirem machos na presença dos parças. Sozinhos aqui teriam levado a coça que mereciam pra aprender a comer b*ceta e não c*!

Aquilo foi o ápice da perda de paciência de Alisson. Já estava indo em direção a Dan quando ouviu a infeliz frase, dando meia volta e parando frente a ele uma terceira vez.

— Pensando bem… Pra que deixar pra outro dia o que posso fazer agora?

O menino arregalou os olhos, tentando se levantar, mas impedindo pelo chute de Al em sua barriga. Somadas as dores já tidas, ficou impossível se reerguer. O mais velho, sorridente, abriu o zíper da calça, baixou sua cueca e começou a uriná-lo tal qual alegou que faria, arrancando expressões de gato escaldado de todos os demais, incrédulos com tal atitude. Só guardou seu pênis de volta ao terminar o serviço. O rapaz urinado sequer se movia direito tamanho espanto, mas notava-se seu olhar de cão raivoso para ambos.

A pedido do mais velho, Dan passou a recolher os celulares um por um, a fim de apagar qualquer registro de sua vinda ali. Desbloqueados todos e as devidas provas ocultadas, a batalha havia sido vencida. A última coisa feita pelo filho de Marisa antes de retornarem foi pedir para os amigos soltarem o grupo inimigo e, na frente deles, agarrar Dan pela cintura e beijá-lo. Claro que o gesto deixou-lhes desnorteados, inclusive Daniel, o qual sequer imaginava aquilo acontecendo de forma tão pública. Sentiu um misto de encontrar uma relíquia escondida com afrontar um ladrão em pleno assalto.

Ao cessar o beijo, Alisson encarou cada uma das figuras despeitadas e deu o último aviso.

— Se qualquer um de vocês se achar homem suficiente pra me dizer um ‘ai’ sobre isso aqui, acho bom se preparar para dar boas desculpas em casa do porque chegou mijado. ‘Bora, gente. Vamos deixar o grupinho de carneirinhos acudindo o pastor deles.

Tão logo a frase foi dita, os rapazes e seus amigos tomaram rumo de volta ao centro com a alma lavada e o cérebro em parafuso, mas com a garantia de que o esforço valeria a pena. Tinham armado uma confusão das boas, daquelas que poderiam contar aos filhos e netos no futuro, recordando os bons tempos e as merecidas vitórias. Ao menos, assim pensavam…

CONTINUA