A Teoria das Cores
100 Azul V
IMPRESSIONANTE
Aquela segunda-feira, 17 de setembro, chegou com um ar de final de semana. Um momento de se libertar um pouco das terríveis amarras do cotidiano corrido e se darem ao luxo de viver, dar um ‘olá’ para a vida durante um dia da semana ao menos. Ideia de Edu, a quem, com muita insistência, conseguiu convencer Marisa de ser o melhor a se fazer. Não havia como sair perdendo, sendo ele um dos sócios, além de que por mais de uma vez ela cedeu seu horário de descanso em prol de alguma pendência da agência que necessitava ser agilizada. Deu-lhe esse desconto.
Dormiram até às nove da manhã, sequer ouvindo Alisson levantar e partir rumo à escola. Aproveitaram do direito que se deram, conseguindo assim descansar um pouco da árdua rotina. De certa forma, Marisa estava com a alma lavada. Com tão pouco tempo para se dedicar a sua vida mesmo, sem pensar nos problemas domésticos ou do filho, era quase como uma terapia poder respirar sem medo de preconceitos ou mal juízos. Seria si mesma por algumas horas.
Desceu primeiro para fazer o café da manhã. Não tão caprichado quanto do dia da visita às escondidas de Edu e Alisson a família deles, mas enchia os olhos. Pão de mel comprado, um bolo de banana e pães fresquinhos elaboravam o cardápio, junto aos frios e misturas para o pão, além de leite e café. Edu levantou da cama logo depois, chegando ainda com rosto amassado do travesseiro, com seu dorso definido nú, e as pernas cobertas por uma calça moletom cinza. Deu ‘Bom Dia’ à namorada, dando-lhe um beijo por trás, na nuca, arrepiando-a inteira. Só para atazanar, brincou que estava com leite fervendo ali e podia acontecer um acidente se ficasse se molestando. O homem riu, saindo e sentando à mesa.
Marisa o fez alguns minutos depois, mais precisamente quando o leite ferveu. Colocou-lhe sobre um descansa panela e começou a servir. Seu coração, por dois segundos, perguntou-se se Al havia se alimentado bem, comido qualquer coisinha para não ficar de estômago vazio a manhã inteira… preocupações maternas, enfim. Só conseguiu desviar o pensamento quando tentou enfiar na cabeça que já era um homem feito, com barba na cara, não mais um garotinho arteiro o qual batia os punhos na mesa incansavelmente quando estava com uma fome absurda. Podia bem se virar sem a mãe, ou, ao menos, assim gostava de pensar para não enlouquecer de remorso.
Enquanto pensava nas questões de mãe e filho, Edu aproveitava para refletir um jeito de entrar no assunto a visita à casa àquela manhã sem dar muita bandeira. Gostaria muito de vê-la emocionada reencontrando a família após dezoito anos, e perder isso só por não saber inventar argumentos soava, no mínimo, patético e sem graça. Uma coisa tinha como certo: Marisa tinha um raciocínio longe, sabia quando era enrolada ou estava para ser. Se tentasse criar falsos argumentos além do necessário, seria pego no pulo. O jeito, então, foi introduzir o assunto através da atitude anterior.
— Ainda tô surpreso com a atitude positiva do Alisson em relação a nossa saída, sabe? Acho que ele compreendeu bem que cheguei para somar e multiplicar, não dividir e diminuir.
— Oi? — um pouco aérea, Marisa demorou uns segundos a processar o que o amado havia dito — Ah, sim. Verdade. Ele é assim mesmo, uma grande incógnita.
— Eu disse que o tempo ia tratar de abrir a brecha necessária entre a gente, não disse? — rebateu, sorrindo malicioso.
— Abrir brecha o caramba! Tu que jogou a isca e ele caiu! Só isso! — foi a réplica.
— Ah, é mesmo?! Quer dizer que tu acha que, se tivesse feito isso logo nas primeiras vezes que o vi, teria dado certo?
— Claro que não. Conheço meu eleitorado…
— Não falei? — desdenhou, levando um tapa fraco no ombro.
— Abobado!
Ambos riram da atitude antes de dar um selinho. Era incrível a forma como ela se sentia entregue aquele homem, tornando sua companhia uma peça de fundamental importância na sua vida e na construção de uma felicidade conjugal tão cheia de encantos e suspiros que a fazia ter quinze anos de novo. Não negava o fato do tempo ter levado consigo alguns de seus sonhos mais íntimos por conta da chegada de um filho não planejado e, para piorar, sem alguém a seu lado para lhe assessorar e dar segurança. Ver isso acontecer depois de tudo era como fazer as pazes com a adolescente romântica que um dia foi.
E isso só melhorava quando o quesito era Alisson. Logo nas primeiras vezes as quais as intenções de um relacionamento foram ficando evidentes, tratou de falar sobre o filho e explicar a péssima reação dele quanto ao fato da mãe ter um companheiro, principalmente a menção de viverem juntos na mesma casa. Edu comprou os argumentos sem pedir qualquer tipo de condição ou tornado o fato um empecilho. Ao contrário, esmerou-se em criar uma relação, no mínimo, saudável com seu rebelde filho adolescente sem forçar uma situação ou entrar nas tentativas de discussão propostas pelo mais novo. Não considerava o mais magnífico dos homens por isso, afinal respeitar sua história era fundamental, mas não tirava o significado disso.
Aproveitando já ter embalado no assunto, perguntou se agora poderia ser a vez deles fugirem um pouco e dar uma espairecida. Riu, retrucando se ele havia esquecido o fato dela ser funcionária, não sócia, além do fato de ficar em casa já não ser suficientemente provocativo. Edu deu de ombros, alegando que já haviam discutido aquilo e nada o faria voltar atrás na decisão. Suspirando para fingir total descontentamento, acatou com um aceno de cabeça, para a alegria do parceiro. Poderia pôr o plano em ação sem maiores enrolações. Claro, havia o risco dela lembrar o caminho da cidade, mas pensou poder inventar que era só passagem ou coisa assim.
Querendo gozar do tempo o máximo possível, tão logo terminaram o café, se arrumaram e partiram de carro em direção ao destino conhecido apenas por ele. Podia imaginar as mil e uma reações as quais a amada poderia ter diante da oportunidade de encarar frente a frente toda a história que ficou parada em sua alma tanto tempo. Algumas delas, mais brutas, chegavam a escurraçá-lo de sua vida para sempre. Valeria a pena o risco, e as consequências, afinal muitas vezes precisamos de um empurrão para dar o primeiro passo em direção à mudança. Se, mesmo surtindo efeito, isso causasse outra mágoa, não se importava. O fato é que poderia rever seus pais e irmã, algo que ele, se pudesse, gostaria de ter a chance de abrir as portas do paraíso e fazê-lo.
Em contrapartida, Marisa imaginava como tudo parecia estar finalmente se encaixando. O fato de existir um abismo de gelo entre o namorado e o filho nunca a deixou em paz, fazendo-a passar dias e noites reconstituindo passo a passo, pensando de forma minuciosa a fim de construir uma relação caprichada, sólida e inatingível nas fortes marés da vida. Mesmo com Edu, com quem tinha seus anseios discutidos de forma mais aberta, preocupava-se com ele e seus sentimentos. Sentindo aquela dor de cabeça passar era fôlego a um pulmão fraco.
Chegaram cerca de quarenta minutos depois, com a mulher intrigada com relação ao percurso. Pensou, por um momento, estarem indo em direção à Flores da Cunha, uma vez que a família do namorado (ou parte dela) morava por aquelas bandas. Nem lhe ocorreu, na mais remota ideia, o que estava por vir. Contara sobre o dia no qual pegou suas coisas a toque de caixa e saiu correndo da cidade onde estavam por passar. Ficar ali, por meia hora que fosse, torturava sua mente já tão sensível em virtude daquela ferida incapaz de cicatrizar. Respirou um pouco mais fundo, pesado, atraindo a atenção de Edu. Soube ali que ela começava a perceber a cama de gato.
Para infelicidade dela, nada poderia fazer. Ao entrarem no mesmo caminho percorrido dias antes junto a Alisson, Marisa quase viu a luz do Altíssimo lhe chamando. Achou coincidência demais. Questionando o namorado a respeito, ele, com voz doce e serena, pediu que ela tentasse manter a calma, uma vez que o trajeto estava por findar. Cinco minutos depois e pararam frente ao mesmo portão da casa de esquina da vez anterior. Marisa sentiu um calafrio na espinha enquanto suas mãos tremiam tal qual criança assustada. Mal podia acreditar no que seus olhos viam, tampouco no engodo no qual caía sem suspeitar.
Um leque de memórias começou a aparecer um por, com cada passo dado antes de chegar no fatídico dia em que sua gravidez se tornou fato ciente a todos da família. Todo o trajeto cheio de alegrias, mágoas, felicidade e tristeza. Uma vida doída, marcada por tantos acontecimentos sucessivos com os quais não conseguia mais lidar. Estar cara a cara com seu passado e as histórias mal concluídas fizeram-lhe ter a sensação de que os anos não passaram, sendo ainda a mesma jovem de sonhos destruídos por simplesmente ter se permitido amar, mesmo sendo a pessoa amada sendo a mais equivocada das criaturas.
— Chegou a hora de enfrentar teus medos, não acha? — o rapaz sorriu.
— Como…— sequer conseguiu terminar a frase.
— Não foi tão complicado quanto tu deve tá achando — sorriu — Encontrei em um documento antigo teu.
— Tu vasculhou minhas coisas pra isso?! Mas é uma imoralidade!
— Querida, por favor. Só me escuta, ok? — suplicou — O tempo até é um mestre habilidoso, arma direitinho as situações para uma interligar na outra. Mas quando algo fica pendente, como a gente pode querer seguir com a vida? Sempre vai ter uma amarra capaz de nos deixar presos ao passado. Enquanto não encararmos isso, vamos sempre viver à margem disso.
— E quer que eu faça o quê? Entre lá, abrace todo mundo e problema resolvido?! — ironizou — Edu, falando sério, Não dá. Tem muita coisa engasgada ainda aqui, feridas que não dá pra ficar mexendo toda hora!
— Mas quem é que tá falando em mexer toda hora? Uma vez basta pra tudo se encaixar — sorriu — Por favor. Dá uma chance disso se resolver. Se teus pais e tua irmã não quiserem te receber, beleza. Me responsabilizo integralmente pela culpa. Podemos até terminar se tu quiser, mas vai ter que tentar.
Marisa tornou a encarar a casa temerosa do que a aguardava. Claro que, àquela altura, no mínimo desconfiava deles já saberem de sua visita. O problema eram as verdades não ditas que o tempo não conseguiu fazê-la digerir, tampouco aceitar. Era uma linha tênue entre a vontade de abraçá-los e jamais soltar e gritar até ficarem surdos e, quem sabe, sentirem um terço do que sentiu anos antes.
Desceu do carro ainda na sensação de um cão prestes a ser abandonado. Não sabia bem como reagir, nem como prosseguir, dizer, escutar, observar… os cinco sentidos viraram pó em menos de dois segundos, fazendo-a se sentir inválida, incapaz de tomar suas próprias escolhas e enfrentá-las com a bravura de uma Amazona. Suava frio, dando passos sobre a grama tão tímidos que mal davam impressão de estar saindo do lugar. Os minutos sequer se davam o trabalho de passar. Marisa parecia segurar o infinito com a palma da mão, e a eternidade em uma única hora.
A primeira surpresa foi reencontrar Tupã, cão vira-lata da família de cor caramelinho, já um senhor. Ficou surpresa, afinal lembrava-se do dia em que chegou a casa após ser resgatado no meio da estrada pela irmã. O tempo havia passado para ele, mas os pulos e lambidas continuavam os mesmos. Latiu o mais alto que seus pulmões já fracos permitiram, atraindo então a atenção dos moradores da casa.
A primeira a dar as caras foi justamente Letícia, a irmã. Vendo-a acariciar o cachorro, correu ao seu encontro com o máximo de pressa possível. Tinha em seu rosto, apesar de um sorriso genuíno de um coração prestes a saciar suas vontades, lágrimas de culpa deste mesmo órgão, o qual não aceitava o passado e lamentava o presente. A única coisa que conseguiu fazer foi aguardar para levantá-la e, em seguida, abraçá-la com toda força. Foi natural que ambas acabassem se dando ao direito do choro, caindo em prantos pelo tempo não vivido, as palavras que não foram escritas nem ditas,dita, as memórias falsas que tentaram criar ao longo dos anos pensando de forma subjuntiva.
Os pais vieram logo atrás, vendo a agitação e mal acreditando estarem vendo sua filha de novo. Sequer perderam tempo, foram imediatamente ao encontro dela com o peito apertado de tanta saudade. Deixaram Letícia terminar seu abraço primeiro para, em seguida, encararem-se. Nem todas as palavras do mundo eram capazes de descrever a dor e a saudade presentes em cada uma das lágrimas que insistiam em deslizar pelo rosto dos três, tornando-os vítimas das circunstâncias e de escolhas terríveis, as quais, via-se, arrependiam-se profundamente. O rio de tristezas, o qual foi responsável por separá-las, tratava de os unir da forma mais pura, lembrando-os que, apesar dos erros e angústias, eram humanos. Todos ali sentiam, amavam, choravam e tinham seus próprios destinos já bem delimitados.
Eva e Natanael abraçaram juntos a filha a quem tanto já haviam tirado os dias para debruçar sobre lágrimas de um tempo não vivido, do anseio de revê-la e não o fazer por puro medo e orgulho. Sabiam ser um luxo ridículo perder mais tempo com aquelas bobagens, principalmente depois de conhecerem o neto. De tudo, Alisson havia sido o maior e melhor presente que circunstâncias tão trágicas poderiam fornecer.
Logo o casal de senhorzinhos e a outra filha fizeram as honras da casa convidando para o café. Como haviam se programado devido ao aviso prévio de Edu, tal qual a última visita, os comes e bebes variaram. Bolo, torta de maçã, chocolate, pão quentinho, leite, suco, frios e derivados… a mesa estava bem farta. Um item em especial foi o qual chamou mais a atenção da mulher: pudim de abóbora, receita de família que sempre teve paixão, mas jamais conseguiu replicar. Eva notou o entusiasmo da filha e ficou emocionada quando esta contou de suas tentativas em aprender em sites na internet ou receitas que lembrava, mas jamais conseguia. Animou-se por ainda conquistar o paladar dela.
Natanael e Letícia também tinham suas lembranças vagas da filha e irmã, querendo aproveitar de sua companhia ao máximo. O velho senhor fez questão de colocar o CD com as músicas gaúchas que costumavam dançar na sala quando ela era jovem; já a moça de cabelos castanhos escuros e com corte na altura do ombro passou o café a gosto da irmã, ou seja, forte. Todos tinham seus interiores preenchidos pelo afeto e amor que tanto lhes faltou, mas resgataram graças ao parceiro de Marisa. Não poupavam elogios ao homem, acabando por contar, sem querer, da visita de Alisson. Marisa não ficou tão surpresa quanto se esperava, mas entusiasmou-se em saber como os avós e a tia lidaram com seu filho.
— Tu criou o nosso gurizinho tão bem, minha filha… — elogiava a avó — A gente via a vida e a compaixão no olhar dele. Foi emocionante, sem dúvida!
— Ele se mostrou tão atencioso com a gente, querendo saber mais da história dele. O que é normal, né? — complementou Letícia.
— É… Eu confesso que faço o que posso — disse, de forma humilde — Ele é um filho muito amoroso e preocupado comigo, mas o gênio saiu igualzinho. Tem dias que olho nele as minhas estripolias de guria e penso como vocês sofreram — brincou com os pais, aos risos.
— Quem puxa aos seus, não degenera, filha — Natanael entrou no espírito — No dia em que o vi, percebi mesmo que só podia ter nascido de ti.
— E tu, minha irmã? Não achou o cara ideal pra ti?
— Depois daquela história toda, me foquei completamente em ajudar nossos pais, a casa, os bichos. Filhos eu quero deixar pra próxima vida. Não me lamento não, tive uma vida boa sem eles.
— Ai, que maravilha ouvir isso! — dizia, orgulhosa — Eu sempre me perguntei muito como esse coração ficou com aquilo tudo. Me doeu tanto… Dói, na verdade, até hoje não ter a certeza se seguiu a vida que tu sempre quis…
— Bem… É claro que houve uma mudança de curso, né? — coçou a nuca — Mas sobrevivemos. Isso que importa no fim!
Todos acenaram concordando. Apesar de todas as feridas abertas, sabiam que nascia ali um recomeço por entre as cinzas de um amor já não existente mais. Agora, teriam a pureza de uma aproximação limpa, verdadeira, onde a vida havia ensinado a lição e todos fizeram questão de aprender, estando prontos para dar o próximo passo. Marisa sequer tinha dúvidas em mantê-los por perto a partir dali, afinal, vendo que voltara a ser parte da família, achou sem sentido ficar remoendo as histórias. Não tinha mais tempo a perder, pois já bastara os anos anteriores.
Depois, quando todos terminaram o café, Natanael pediu para conversar em particular com sua filha, pois, tal qual o neto sugeriu, pediria a ela desculpas pessoalmente. O rabugento e fechado senhor de dezoito anos antes, incapaz de uma palavra amiga ou qualquer gesto que julgasse quebrar seu valor perante os outros tivera os dias contados quando a viu sair de casa chorando desesperada. Nada mais havia de importar enquanto não implorasse a ela que o perdoasse pelas duras palavras ditas e as ações impensadas.
Escolheu fazê-lo no quarto que era seu, praticamente intocado desde sua partida. A cama continuava bagunçada, alguns livros e cadernos antigos em cima da escrivaninha feita a mão pelo tio marceneiro, assim como o guarda roupas contendo as poucas peças deixadas para trás no calor do momento. Marisa encarava aquele universo e se via menina, escrevendo em diários seus sentimentos, recortando fotos dos belos moços das revistas de fofoca compradas pela mãe, sintonizando o rádio democrático com sua estação preferida e ouvindo reclamações dos demais pelo alto volume… tudo parecia ter sido vivido em outra vida, soando uma regressão à algo com o qual não se enxergava mais parte. Ao menos, até aquela manhã. Não pôde deixar de sorrir encarando suas coisas e o cuidado tipo para não empoeirar. Um colírio não só aos olhos, como também à alma.
— Tua mãe fez desse quarto um santuário teu. Eu sempre fui um tanto contra, porque graças à Deus tu tá bem viva. Não tínhamos notícias tuas, é verdade, mas esse velho coração de pai sabia que minha filha não iria embora assim.
Marisa sorriu.
— Teimosa como meu pai, como havia de ir, não é mesmo? — brincou, rindo — Ah, pai… Tanta história essas paredes rosas e desbotadas já presenciaram, tantas confissões ouviram e nada falaram nunca…
— Contigo somos a sexta geração a morar nessa casa, sabe? Foi um pouco antes da guerra e—
— O senhor já me contou essa história — revirou os olhos, rindo — É linda, eu bem sei. Nunca me esqueci dela. Nenhum momento essas lembranças morreram dentro de mim.
— Esse velho pai aqui com certeza tu deve ter esquecido, né? E com razão! Não tiro tua razão, não!
— Que isso, pai! — a moça pegou então nas mãos tão ressecadas do velho senhor — Já passou. O senhor fez o que achava ser o certo. É isso. Quem sabe se não fosse eu com o Alisson não teria feito o mesmo?
— Eu te conheço. Tu não faria, não — garantiu, sorrindo — Tá certo que sempre foi teimosa como eu. Tu tá certa dizendo isso. Só que tu, desde sempre, deixou o amor falar mais alto ainda que teimasse em ficar de birra. Eu me lembro de uma vez que te compramos uma cama nova pra tua irmã e tu ficou furiosa por querer uma. Não deu uma semana a tal cama quebrou enquanto tua irmã dormia. Mesmo tendo ficado brava com ela, quem dormiu no colchão no chão foi tu, cedendo a tua cama pra tua irmã.
Marisa sorriu, lembrando do ocorrido como se tivesse acontecido há segundos.
— Acho que faz parte do meu jeito de ser. Sei lá — não soube explicar direito — Mas mesmo que não fizesse, eu te perdôo. Hoje eu sei que o tempo foi mostrando ao senhor a verdade, o caminho para o coração. Não tenho como não perdoar diante disso.
— Me perdoa mesmo, filha? De coração?
Sorriu de novo, abraçando-o com força.
— Do fundo dele.
Natanael sentiu uma paz enorme percorrer por entre seu interior, como se aquele gesto tivesse um poder de reestruturar seu interior e trazer com ele a compreensão de plenitude, a alegria de ver a vida e retomar as cores dela há muito tiradas. Teve certeza que os bons ventos começariam a soprar de novo, e agora teria sua adorada filha perto de si para acompanhá-lo.
Quem atrapalhou o encontro foi Letícia, alegando ser sua vez de falar com a irmã. A moça tinha em mãos uma caixa de madeira lembrando um baú, só que em proporção menor. Garantiu a mais velha que seria de seu interesse abrir e ver o que guardava lá. Natanael chegou a questionar se deveria sair, mas Letícia tranquilizou-o. Marisa pegou o objeto e colocou na antiga mesa, girando a chave no buraco e abrindo para contemplar o que se escondia lá. Ficou encantada.
Alguns pingentes e colares muito importantes e de grande estima os quais julgava ter perdido no caminho para a nova vida estavam lá, bem como alguns rolos com as fotos as quais tiravam juntos. Pode ver nos minúsculos negativos e reconhecer alguns momentos como seus quinze anos, primeira vez que tentou dirigir a antiga caminhonete do pai, o penúltimo natal em família… momentos que o retrato congelava, mas o coração mantinha aquecido na memória sempre.
Embaixo disso, ainda pôde verificar uma série de envelopes endereçados com seu nome, só não recordava de tê-los visto. Letícia então explicou sobre, alegando jamais terem sido enviados por não saber onde estava morando. Falou também de que escrevia aquelas cartas toda vez que tinha saudades dela, contando tudo de novo que acontecia. Achou importante e singelo mostrar-lhe aquilo para deixar a par de tudo quando tornassem a se ver. Emocionada, Marisa levantou da cama e abraçou a irmã, prometendo olhar uma por uma das cartas. Guardou-a dentro da bolsa para não esquecer, enquanto retornava para a sala.
Querendo aproveitar um pouco da cidade, Edu questionou se seria muita ousadia pedir que lhes acompanhassem em uma espécie de tour, uma vez que pouco conhecia da pitoresca cidade. A família se empolgou na hora, preparando-se às pressas para saírem junto e demonstrar como a cidade havia mudado. Foram todos no carro de Edu, mesmo que Natanael tenha tentado até o último segundo convencê-los de ir de caminhonete, pois os carros modernos eram muito cheios de frescura para seu gosto. Letícia, envergonhada, pediu perdão pelo pai e lembrou Marisa de que o velho Natanael nada havia mudado em dezoito anos. A mulher riu, afirmando, apesar do tempo afastados, ter calejado daquele estilo. Edu e Eva só riam da caretice do sogro e marido.
Marisa impressionou-se com o crescimento e desenvolvimento. Lembrava-se de, quando pequena, ver no centro um passeio divertido, com um comércio mais simples, sem grandes atrativos além de cinema e campo de futebol. Via os grandes prédios estampando o progresso diante de seus olhos, tornando-se um elemento fundamental para os novos tempos. Caminhava por entre as ruas relembrando como era nos tempos de mocidade, explicando com detalhes até alguns passeios realizados.
Só pararam mesmo quando, já próximo ao meio dia, a fome chamou. Sem alternativa, se viram na obrigação de parar e almoçar em algum lugar. Eva quis voltar para casa e fazer algo por lá mesmo, mas o casal insistiu em não dar trabalho. Escolheram um restaurante simples, tradicional na cidade, com uma comida deliciosa e com um tempero fabuloso, nas palavras de Eva e Letícia.
Estavam já sentando à mesa quando o celular tocou de Marisa tocou. Ao atender, informaram ser da escola Presidente Lincoln, instituição onde Alisson estudava e questionando se falavam com a mãe do dito cujo. Confirmado o fato, a secretária comentou que aconteceram alguns problemas e perguntou se havia possibilidade de ir à escola conversar com a supervisora. Marisa revidou, questionando se não poderia adiantar o assunto e a moça negou. Revirando os olhos, mentiu estar em horário de almoço do trabalho e pediu para a tal reunião ser no dia seguinte, terça, logo no primeiro horário. Assim que a moça concordou, desejou-lhe bom trabalho e desligou.
— Viu? Basta elogiar que já acontece alguma coisa! — reclamou.
— Algum problema, filha? — indagou Eva.
— Meu filhote aprontou alguma nova pra eu ter que ir na escola passar vergonha — revirou os olhos — Olha, mãe, quando eu digo que entendo o que a senhora passou comigo, entendo MESMO! Alisson saiu igualzinho a mim!
Os pais riram do comentário.
— Ele me pareceu um bom guri. Imagino que esses episódios não devam acontecer toda semana, né?
— Capaz! A senhora que pensa! Eu tenho certeza que só não acontece mais, porque ele é esperto e me enrola por conta do meu trabalho. Mas amanhã ele me paga!
— É, a vida é isso. Os filhos crescem e nossa responsabilidade só aumenta. É a lei da natureza, mais forte que a dos homens! — Natanael complementou.
— Ah, verdade. Quando penso que, apesar de todo trabalho e sacrifício que fiz, queria tanto ter meu bebê de novo é que percebo isso.
— De minha parte, eu já disse que ela precisava ir viajar uns dias que fosse pra dar uma espairecida. Me desculpem, mas vocês sabem o gênio da filha de vocês… — Edu aproveitou para jogar no ar, levando um tapa fraco no ombro.
— Palhaço! — fez expressão de fingir estar irritada — Mas, tá, ele vive falando que preciso desligar um pouco esse lado mãe e funcionária e tem razão. Praticamente vivo pra ser essas duas coisas. Mais nada.
— Eu até falaria pra deixar o Alisson com a gente qualquer coisa, mas ele é um homem feito já. Consegue se virar sozinho — Letícia comentou.
— E meu coração de mãe aguenta isso?! — a irmã tentou justificar.
— Sozinho em casa eu acho meio difícil ele ficar, né? Mas… — Edu acabou deixando escapar, atraindo a atenção de Marisa.
Claro que a mulher pediu uma explicação, esta enrolada por ele. Quando Natanael demonstrou interesse em saber mais, Marisa deduziu que fossem alguma das moças com quem ele se aventurava vez ou outra na vida, deixando Edu um tanto quanto constrangido da cena. Tentou disfarçar o máximo possível, dando graças por o assunto ter tomado outros rumos.
Terminado o almoço, largaram os pais de Marisa e a irmã em casa, agradecendo pela hospitalidade e pela oportunidade de se reverem. Era nítido nos olhos deles a alegria de poder viver aquele momento outra vez, com uma postura mais madura, sem tantos achaques e birras. Uma visão pura, enfim. Despedidas feitas, foi hora de retornarem à Nova Petrópolis.
No caminho, pô-se a ler as cartas dadas pela irmã. Optou por começar pela última, escrita quase sete anos após sua partida.
“Minha querida irmã,
Escrevo esta carta com o pensamento na manhã de hoje, 06 de Março de 2006, onde pude sentir um pouco do que deves estar passando com teu pequeno. Minha afilhada, Emília, teve hoje seu primeiro dia na escola após uma vida dentro de casa, cercada de todo o amor de seus pais, avós, tios e eu, sua zelosa madrinha. Não pude evitar conter as lágrimas, mesmo porque elas me vinham sem que pudesse ter qualquer reação a respeito. Enquanto via aquela menina linda de cachos cor de chocolate, imaginei se não estaria passando a mesma com meu sobrinho.
Como estará sendo este passo? Teria a vida misericórdia de nós a ponto de, um dia, sentarmos e conversarmos longamente como sempre fizemos desde pequenas? Perguntas que hoje me farão ter um horrível episódio de insônia, sei disso. E deves saber também. Sempre sabia quando eu estava para ficar doente. Parecia ter uma espécie de termômetro meu, coisa de irmãs que se conhecem de outras vidas, outras experiências. Sei que se os tempos fossem outros, teria te ajudado no almoço para se dedicar exclusivamente ao dia em que estava por levar teu pequeno a escola.
Este escrito, tão diferente das primeiras cartas, não é? Lembro do lixo emocional que despejei nelas nas primeiras vezes em que tentei te escrever. Hoje, em nada aquelas palavras me representam. Parecem até terem sido escritas por algum ser doentio, longe de ser esta ingrata irmã que te escreve. Rezo para Deus todos os dias cruzar nossas vidas, para que, enfim, conheça meu sobrinho e te veja de novo, minha irmã. E sei que ele me atenderá! Não tenho dúvidas!
Abraços saudosos de Letícia, Eva e Natanael, ainda que estes sequer tenham coragem de admitir…”
As palavras arrancaram de Marisa um choro incontrolável que quase fez Edu parar o carro e questionar se estava bem, mas, percebendo do que se tratava, deixou que chorasse. Bem sabia a função do choro naquelas horas: lavar o que a alma não quer mais.
***
Na terça feira foi dia de acordar cedo. Já recuperada após um dia lendo e chorando por conta das cartas, Marisa estava confiante de que poderia vencer o mundo, preparada para enfrentar qualquer batalha que viesse à sua frente. O que quer que tivesse acontecido na escola, resolveria, puniria o filho e partiria para outra. Explicou a Edu que fosse na frente com seu carro e que relevasse seu atraso por conta do problema com Al. Edu aceitou sem hesitar, dando um beijo na namorada e partindo para seu trabalho.
Quando Al acordou, Marisa estava tomando café. Surpreso em ver a mãe, questionou se ela não iria trabalhar e ela respondeu que sim, mas que primeiro iria lhe acompanhar na escola por ter uma reunião. O rapaz revirou os olhos, alegando não ter feito nada e que já estava virando palhaçada. Marisa, com tranquilidade, disse apenas que se seria palhaçada ou não ela decidira, e que seu trabalho era tomar seu café e ir para aula sem piscar um cílio. Mesmo achando a maior injustiça, se viu na obrigação de aceitar, afinal as opções além dessas eram mínimas, quase inexistentes.
Pegaram o carro e saírem minutos mais tarde, com Al insistindo inocência. Marisa, já perdendo a paciência, jurou que se o filho falasse aquilo de novo tiraria seu celular antes mesmo de descobrir qual porcalhada havia feito. O menino entrou no carro emburrado. Para ajudar, a mãe pegou no seu pé pedindo que botasse o cinto e melhorasse a cara, pois não era dia de enterro. Estava determinada a pôr o filho nos eixos nem que fosse debaixo de troca de farpas. Tinha horror de ser chamada na escola do filho para resolver pendengas, então, quando tinha de ir, acordava um leão dentro do seu peito.
Chegando lá, assim que Marisa estacionou o carro, Alisson desceu e começou a dar passos largos em direção ao colégio. Indignada, ela pegou a bolsa, desceu do carro e foi caminhando até o portão do colégio. Parando frente a entrada, onde vários alunos já aguardavam ou entravam para a instituição, gritou com toda força que pode.
— TU NÃO TEM MÃE, ALISSON?! VOLTA AQUI AGORA!
O menino então parou, virando para a mãe de novo, a qual sorria por sua vitória. Viu o filho se aproximar a passos curtos e pesados, indicando que não estava mesmo para amizades. Deu de ombros, afinal não era uma colega ou amiga, e sim sua mãe. Achava que o mínimo de respeito ainda lhe devia.
— Dá um abraço e um beijo na mãe antes de entrar na escola — ordenou, para a raiva dele.
Contrariado, ele o fez, mas assim que terminaram, fez questão de pedir que não falasse com ele. Ironizando, Marisa lembrou que também o amava e deixou-lhe ir, indo um pouco atrás, mas procurando a secretaria. Quando a encontrou, identificou-se e a moça pediu que aguardasse, pois Rebecca iria chamá-la. Preparava-se para ficar de olho no celular quando, de repente, uma outra mulher sentada do lado oposto chamou sua atenção.
— Filhos sempre dando trabalho, né?
— Nem me fala, guria. Socorro! — reclamou — Só mudam de endereço esses pestinhas.
— O pior é faltar serviço pra vir resolver coisinha deles, né dona…
— Marisa — apresentou-se.
— Pois então, dona Marisa, é um prejuízo sem tamanho!
— Mas temos que vir, né? Filhos são pra vida toda, alunos não — conformou-se — E pode tirar o ‘dona’. Dona pra mim só aquela música do Roupa Nova!
A outra riu.
— O meu é Isabel. E concordo plenamente. Vamos deixar a Regina Duarte lá pra ser dona — riu — Sou mãe do Daniel do 3B.
— Eu do Alisson do 3A. Curioso… Já ouvi esse nome de um coleguinha do meu filho…— lembrava.
— Sabe que eu também? Seriam os mesmos?
— Pode ser. Não são tão comuns assim esse tipo de coincidência.
As mulheres até seguiriam pensando a respeito, não fosse Rebecca ter-lhes chamado em conjunto. Ambas estranharam, afinal de contas nem das mesmas turmas os meninos eram. Marisa chegou a questionar se não seria mais prudente entrar uma de cada vez, contudo a secretária confirmou serem ambas. Mesmo sem entender, trataram de ir, não se antes cruzar com um homem de altura considerável saindo do mesmo lugar onde estavam a ir.
Chegando lá, Rebecca deu-lhes ‘bom dia’ e pediu para que sentassem. Ainda em dúvida, Marisa perguntou de novo à moça se era necessário ser em dupla a conversa e ela afirmou que sim, em virtude de um acontecido terrível estar sob consciência da escola e, diante disso, seus filhos corriam a um perigo muito grande. Sentindo o coração sair pela boca, pediram maiores detalhes da tal ação que seus filhos tinham praticado. Rebecca respirou fundo antes de começar.
— Já faz algum tempo que a escola vem percebendo certas atitudes pouco prováveis de partidas tanto de Alisson quanto de Daniel. Enquanto escola, vale ressaltar que sempre tentamos resolver tudo com diálogo, conversa, sem que precisássemos chegar ao extremo de chamá-las aqui. Todavia, um novo fato chegou ao nosso conhecimento através do pai de um aluno que está realmente indignado, e isso nos deixou preocupadas. Por isso pedi urgência para virem.
— E o que foi de tão grave, santo Deus?! — Isabel começou a ficar aflita.
— Bom, para sermos justos, é importante frisar que a culminância ocorreu bem longe das dependências da escola, por isso nenhuma atitude mais drástica foi tomada. Acontece que esse ato, como disse, foi a cereja de um bolo que vem sendo montado pouco a pouco cada dia mais. Posso citar de exemplo a suspensão do Daniel por ter agredido um colega, os testemunhos de que esse mesmo rapaz foi agredido por Alisson depois. Só que agora a coisa foi violenta em níveis que nos preocupam bastante mesmo. Não só a nós, mas aos próprios pais do aluno envolvido.
— E o que esse cara alega? Que nossos filhos bateram no filho dele pela terceira vez?! — chutou a mãe de Al — Minha senhora, não ocorreu a hipótese de que tem dois meninos com um ser em comum e que se viram obrigados a sentar o sarrafo por alguma razão?! Não tô dizendo que meu filho fez certo, mas será esse agredido um “santinho” mesmo?!
— Faço a mesma pergunta — Isabel comprou a fala.
— Bem, ainda que fosse só isso, já seria um delito grave. Graves complicações poderiam surgir, mas nada comparada às alegações de que Alisson e Daniel teriam armado para esse aluno e feito barbaridades com ele.
— Que tipo de barbaridades ele alega que foram feitas?! — Marisa perdeu a cor — Não me diga que o Alisson—
— Agressões físicas e verbais, pelo que entendi. Chutes, empurrões, coisas assim. Mas o agravante foi o relato do menino ter chegado em casa completamente urinado. O corpo todo. Isso foi o choque dos pais.
As informações começavam a chegar nos cérebros das mães ali presentes, mas pareciam entrar e não conseguirem ser processadas. Tentavam inúmeras vezes construir um pensamento, por mínimo que fosse, lógico ante a situação absurda a qual se viam deparadas.
— Não, minha senhora, choque tô tendo eu de ouvir isso! — exclamou Isabel, irritada — A senhora tá me dizendo que meu filho usou um guri de mictório, é isso? Meu Daniel, que mal sabe dar um tapa numa mosca! A senhora tem noção do que tá dizendo?!
— Eu confesso que isso não posso dizer do Alisson, afinal conheço meu filho e sei que ele sabe se defender. Mas urinar, moça?! É um pouquinho demais, não acha? Esse homem aí tem provas do que tá alegando? — Marisa perguntou.
— Justamente. Tem — Rebeca engolia seco — Senhoras,a situação é bastante delicada em vários sentidos. Ele ameaçou processar seus filhos e a escola por negligência e outras questões da vara jurídica caso não façamos algo já.
— E que provas ele tem? Pegou DNA da urina e mandou a CIA investigar? — Isabel ironizou.
— Eu… presumo que seja melhor verem com seus próprios olhos…
A moça então preparou seu notebook e virou a tela para que Isabel e Marisa assistissem. Na realidade, ambas acreditavam aquilo ser a maior bobagem já inventada, uma vez que a confusão não fazia o menor sentido, ainda que não soubesse da história de verdade pela omissão de seus filhos.
Porém, quando o vídeo começou suas faces mudaram de cor quinze vezes, Foi como se um desastre natural tivesse se abatido sobre suas cabeças e nada pudessem fazer a respeito. Na tal gravação, podiam notar claramente os dois rapazes próximos em meio a um matagal de árvores altas quando, de repente, começaram a se beijar. E, conhecendo o visual dos filhos, não tiveram dúvidas.
Acabavam de flagrar ali o beijo de Alisson e Daniel.
CONTINUA
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