A Teoria das Cores
33 Roxo III
IDEALISMO
Infelizmente, ainda não aprendemos a controlar nosso coração e nem por quem ele se interessa. Quando menos esperamos, lá estamos nós pensando em alguém que nem esperávamos gostar. E ninguém melhor do que Jeff sabia disso naquele momento. Aquela tarde no “Wunder Bar” com Sabine fora especial para ele. Pôde conversar com a garota e entender seu ponto de vista. Porém, isso não diminuía o sentimento que crescia em seu peito. Na verdade, só o fazia aumentar.
Terça feira, manhã de chuva. Um verdadeiro apocalipse parecia ocorrer no Jardim da Serra Gaúcha. Jeff acordara com a mãe o chacoalhando e falando para ele se aprontar pois ela e o marido o levariam para a escola. Com uma cara de zumbi recém saído da cova, Jeff fez sua higiene matinal de forma rápida, praticamente engoliu seu café num só gesto e logo fora para a escola. Tentava manter seus olhos os mais abertos possíveis, mas eles insistiam em querer fechar. Alguns minutos depois e já estava em frente a escola. Despediu-se dos pais, abriu o guarda chuva, saiu do carro fechando a porta e correu até a porta principal.
— Credo. Parece até que São Pedro está nos castigando.
Uma voz assustou Jeff, fazendo o garoto de pele negra e clara dê-se um pulo para frente. Assim que virou para ver quem era, se surpreendeu.
— P*TA QUE PARIU DANIEL VAI ASSUSTAR A VÓ! – Xingou.
Dan riu.
— Meu pai me trouxe mais cedo hoje por causa da chuva. Tô aqui tem meia vida já esperando tu ou alguém conhecido aparecer.
— E precisava chegar igual uma assombração?
— Se tu não devesse pros mortos né, quem sabe não fosse se c*gar todo?
— Vai pra p*rra Dan.
— ‘Bora largar as coisas lá na sala?
— ‘Bora.
Os garotos então seguiram os corredores vazios até sua sala de aula. Foram os primeiros da manhã a entrarem no local. Largaram suas mochilas nos respectivos lugares e em seguida sentaram lado a lado para conversar.
— Tu me mandou uma mensagem ontem dizendo que queria me contar um troço que tinha esquecido de contar ontem. O quê era? – Jeff perguntou.
— AH! Verdade! – Dan recordava-se – Eu consegui.
— Conseguiu o quê?
— Eu... Tive minha primeira vez.
Jeff o encarou perplexo.
— Sério?
— Aham.
— Mas olha ai, mano véio— Fez um cumprimento com o outro – Parabéns cara!
— Valeu.
— E ai? Foi bom, foi ruim?
— Eu acho que foi bom né? Acredito que a Van também.
— Ela gemeu muito?
— Preciso mesmo responder isso?
— É uma pergunta. Vai dizer que tá com vergonha?
— N-não, é só que-
— Nem vem com desculpinhas que tu adorava saber dos meus lances com a Cris. Pensa que eu não lembro?
Dan revirou os olhos.
— Gemeu muito sim.
— Uhh, o p*ca das galáxias foi solto minha gente! As gurias que se cuidem.
— Nossa, como tu é mangolão Jeff.
— Pelo menos foi com uma guria que tu curte né?
— Sim. E foi tri também. Acredito que-
— E ai gente! – Sabine chegou, interrompendo a fala de Dan – O que foi tri?
— Fala Bine – Dan cumprimentou-a com um rápido abraço – Tava falando de uns assuntos ai.
— Uhh e que assuntos são esses? – A loira então olhou para Jeff e ficou corada – Fala Jeff.
—Hey – O garoto também ficou desconfortável. Dan é quem não compreendeu muito bem o porque daquela atitude, mas prosseguiu com a conversa.
— Eu tive minha primeira vez.
— Wow! Com a Van?
— Sim.
— Finalmente né Dan?! Já tava na hora, já que... Se gostam tanto e pá – A garota tentava manter a dignidade frente ao amigo.
— É que tudo é meio complicado sabe? Um dia eu explico tudo pra vocês. Prometo.
— Vou cobrar hein? – A loira afirmou – Eu... Vou lá tomar uma água e já volto.
— Ok. A gente vai ficar por aqui mesmo. Né Jeff?
O garoto não respondeu de imediato.
— JEFERSON!
— Hã? Oi?
— A Bine vai beber água. Vai com ela ou fica por aqui?
— Vou... Ficar.
— Tudo bem – A moça foi-se dirigindo a saída – Já volto.
Mal a loira deu ás costas, Dan resolveu tirar aquilo a limpo.
— Que p*rra de climão foi aquilo Jeff?
— Que mané climão? – O outro se fez de desentendido.
— Pra cima de mim não.
— Não teve climão nenhum! Tu que tá paranoico!
— Ah é? Então vou contar pra Sabine que tu usa uma cueca da liga da justiça.
Jeff encarou o amigo pasmo.
— Tu jurou pela tua mãe que NUNCA ia contar.
— Não disse nunca. Disse apenas que não ia contar – Dan se defendeu.
— É minha cueca da sorte!
— Que tu tem desde os dez anos de idade! Aposto que tuas bolas viraram omelete já por tu ainda usar aquilo!
— Que nojo! Tá mesmo falando disso há essa hora?
— Então confessa o que tá rolando.
Sem conseguir enxergar uma solução mais plausível que não fosse esganar Daniel, Jeff se viu obrigado a contar para não o fazê-lo.
— Eu meio que posso tá... Gostando da Sabine.
— OI? Desde quando isso?
— Sei lá velho. Só sei que quando vi já tava prestando mais atenção nela que na minha mina.
— Putz. E agora? E o teu lance com a Cris?
— A gente terminou. Não tava dando mais sabe?
Formaram-se alguns minutos de silêncio, e foi Dan quem tratou de quebrá-los.
— Pensa positivo: Que eu me lembre a Bine é livre e desimpedida. Tu pode tentar a sorte.
— O coração dela já tem dono, Dan – O outro deixou escapar – Não posso competir com isso.
— Espera, como assim o coração dela tem dono?
— Voltei! – A loira com seu tradicional chapéu retornaram – E ai, qual o drama?
Dan e Jeff se olharam, não sabendo o que falar.
— Estávamos falando da prova de sexta. P*rra, tão colado nas férias! Pra quê isso? – Mentiu o primeiro.
— Nossa, como são chorões! – A garota debochou – Biologia é ‘mó fácil e vocês ficam ai reclamando.
E então a conversa seguiu sem que os rapazes tocassem no assunto. Mas, por quanto tempo conseguiriam evitá-lo?
***
— NÃO ACREDITO QUE TU FEZ ISSO! – Ágata falou incrédula.
Após passar o dia ajudando Ian (e ter matado aula devido a isso), a morena recebera uma mensagem de Van pedindo que dormisse em sua casa aquela noite, para contar-lhe as boas novas. Ela infelizmente não conseguiu comparecer, todavia prometeu que pela manhã bem cedinho lá estaria. E assim o fez.
Naquela manhã de terça feira chuvosa, ela ouvia atentamente o relato da loira.
— F-foi num impulso! Eu juro que em condições normais eu não faria! – Van afundava um travesseiro em seu rosto por vergonha. Era constrangedor para si relatar o que ocorrera na madrugada de sábado, mas precisava dividir com a melhor amiga aquela felicidade.
— Aham sei. Safada – A morena deu um leve tapa no ombro da amiga – E o Dan? Falou alguma coisa sobre teu desempenho sobre isso?
Definitivamente, a loira estava da cor de um pimentão.
— Ele disse que mandei bem, e que vai querer outras.
— AR-RA-SOU!
Ambas riram.
— Para uma virgem, até que tu foi bem safadinha hein? Imagina tentar uma coisa dessas já de cara assim. Fora que o Dan podia tá desprevenido e... Sabe... Ter umas bordas recheadas no-
— AI QUE NOJO ÁGATA! – Van atirou o travesseiro que tinha nas mãos na outra, que ria – Pra tu informação, tava tudo nos conformes.
— A tua sorte né gata – Falava – Agora me diz, quando ele gozou...
— Sim?
— Tu... Bebeu da fonte?
— AI MULHER TU QUER ME MATAR DE VERGONHA?!
— BEBEU NÉ SAFADA? SABIAA QUE ESSA CARINHA DE ANJO ERA SÓ CARA MESMO!
— AI QUE HORROR! NUNCA MAIS TE CONTO NADA!
— A TERNEIRINHA TAVA COM SEDE NA HORA, TAVA?
— CALA A BOCA!
Ambas riram da situação. Como era bom ter uma amiga para conversar abertamente sobre assuntos que, hipoteticamente, são tabus.
— Ai miga, mas sério, parabéns. Agora tu experimentou o lado bom da vida. E o Daniel também me surpreendeu! Fez aquela novela mexicana toda pra no fim acabar assim.
— Ele precisava de um tempo pra processar a informação miga, é normal.
— Talvez, mas podia não ter usado o lado cavalo dele né?
— É... Nisso eu concordo. Também isso não interessa mais. O que importa é que, de uma maneira torta, ele compreendeu tudo.
— Oremos pra isso – A garota dizia – Posso te perguntar uma coisa?
Van sentiu seu estômago gelar. Quando aquela pergunta era dita, geralmente não vinha coisa boa em seguida. Porém a curiosidade lhe atiçava, então fez em sinal positivo com a cabeça, dando a deixa que a morena queria para fazer a seguinte pergunta:
— Agora que tu já sentiu como é ter um boy na cama, já pensou em fazer alguma coisa com uma mina?
Van arregalou os olhos e encarou a amiga.
— Tu sabe que eu sou trans por um motivo né?
— Sim, porque tu se identifica como mulher. Não se faz de louca que tu sabe bem que identidade de gênero e sexualidade são duas coisas diferentes.
— Ai miga, não sei. Tipo, eu nunca senti vontade de experimentar nada com uma menina sabe? Nem quando Adam ainda existia.
— Devia começar a cogitar essa hipótese... – Ágata sorriu maliciosa – Sabe né, somos jovens e temos todo o tempo do mundo pra experimentar.
— É impressão minha ou tu tá me cantando? – Van riu fraca.
— Talvez... – A outra se aproximou – Eu te conheço desde antes da readequação de gênero. Fui quase a tua primeira namorada lembra?
— Lembro sim, mas-
— Então... Seria um segredo entre amigas.
— Desculpa miga, mas além de eu não querer, eu namoro o Dan. Então...
— É. Tem razão – Ágata se afastou – Mas que fique claro que se ele te chutar, é pro meu colo que tu vai vir.
— Tu tá andando demais com o primo do Daniel viu? – Van riu – Ele me conta que o Ian olha pros limites e ri.
Ágata não pôde deixar de rir.
— Ian é um espírito livre Van. Se todos fossem como ele, certamente o mundo seria bem melhor frequentado.
— Já que falamos nele, e o lance de vocês? Como está?
— Tá bacana. Olha, se tu tiver oportunidade com ele não joga fora por que guria... Ah, meu deus, minha Neusa Brisola chega a chorar lembrando do que aquele guri é capaz.
Diante do comentário da amiga, Van não conseguiu conter a gargalhada.
— Meu Deus! Olha o comentário que tu faz! – Disse ela aos risos.
— É a mais pura verdade – A outra não ficava por menos.
— Gente, ele deve ser um deus do olimpo. Por que não ata um real oficial com ele?
Ágata foi se acalmando e suspirou.
— Tu sabe bem porque...
— Não me diz que é por causa do Bryan?
— Óbvio que é por causa dele – A morena explicava – É difícil Van. O que ele fez-
— Não foi culpa tua. Ele era emocionalmente instável, todo mundo sabe disso.
— Mas se matar Van?
— Ele fez a escolha dele. Ele tava sofrendo e quis aliviar a dor. Pronto, fim da história.
— Mas foi porque nós terminamos... Se eu tivesse insistido mais um pouco...
— Tu ia sofrer e não ia fazer ele feliz do mesmo jeito. Olha pra mim – Van ergueu o rosto cabisbaixo da amiga – O que rolou, ficou no passado. Foi horrível aquilo, mas passou. O Bryan tá em paz agora.
Ambas ficaram em silêncio, até que Ágata abraçou a loira.
— Ai miga, só nós pra rirmos num minuto e estarmos na bad no outro né?
— Coisas da vida – A loira disse sorrindo fraco.
— Tenho tanto medo de magoar alguém de novo. Além do mais, eu to ficando com o Diógenes. Lembra dele?
— O que foi nosso colega no último ano?
— Isso! – A morena confirmou – Eu sinto que ele é exatamente como o Bryan era. E não quero reviver aquilo tudo.
— E não vai. Te garanto isso.
— Te amo miga. Obrigado por me apoiar sempre.
— Sempre vou estar aqui pra te apoiar. Nunca duvide disso.
As duas ficaram mais alguns minutos naquele abraço reconfortante. Será que os temores que seus jovens corações tem ainda demorarão a cessar?
***
Dias de chuva. Quais as finalidades deles? Era a única coisa que a mente de Al se perguntava naquela terça. Não que detestasse chuva, todavia isso era quando podia ficar em casa com todo o tempo disponível para apreciá-la deitado em sua cama, não quando tinha que ir à escola.
Levantou irritado com as condições climáticas e encarou seu trevo. Pegou-o e desceu até o andar debaixo, deixando num ponto estratégico onde pegasse água para se manter. Retornou ao andar superior, fez sua higiene completa, depois tomou seu café e seguiu para a escola com seus tradicionais fones de ouvido que escutavam alguma música de “Ed Sheeran”. O dia anterior fora pouco movimentado no “Wunder Bar”, aumentando a hipótese que a inauguração de um novo café colonial na cidade tinha movimentado a clientela para lá. Seu Antero, visivelmente chateado, resolvera fechar mais cedo e não abrir até quarta feira. Isso deixou Al entristecido pelo pobre senhor, a contra peso de que ele poderia descansar melhor. E foi exatamente o que fez.
Demorou alguns minutos para chegar a escola. Checou em seu celular e viu que o relógio marcava 07h28min. Tinha saído atrasado de casa e não reparara? Deu de ombros, pelo menos chegara antes de ouvir alguma bronca do diretor. Foi até a sala do 3A e notou Mandy sentada no tradicional local onde a dupla costumava ficar: No canto direito da sala.
— E ai – Cumprimentou-a quando se aproximou.
— Oi Al! – A outra respondeu animada – Estudando pra prova de Biologia?
— E por um acaso tu me viu estudar alguma vez?
— Não, mas vai que é por isso que tá chovendo né?
Al riu.
— Abobada.
— Adrian queria que eu matasse aula hoje pra ver o treino.
— E por que tu não foi?
— É revisão de Matemática! Eu não posso perder isso.
— Nossa, até parece que tu não sabe a matéria de cor.
— Nunca se sabe.
— Aham sei – Al disse desconfiado.
Foi então que percebera que alguns colegas olhavam para si e riam. Na primeira vez deu de ombros, porém, no decorrer do primeiro tempo, os mesmo colegas tornaram a fazer aquilo deixando-o irritado.
— Eu tô vestido de palhaço por um acaso? – Falou durante a aula, chamando a atenção da classe para si.
— De palhaço não, agora de viado... – Provocou um deles.
— COMO É QUE MEU IRMÃO?!
Al levantou-se e foi em direção ao rapaz. Mandy tentou contê-lo.
— Al, não cai na provocação deles.
— Ele me chamou de viado a troco de nada!
— E daí? Tu é por um acaso?
— Não! Justamente por isso!
— Algum problema ai no fundo? – Elis questionou perguntou.
— Aquele otário com cabelo de emo me chamou de viado gratuitamente, isso que é o problema!
— Ué, pra mim macho que agarra macho é viado. Ou eu to errado?
— De onde tu tirou isso seu imbecil?
— Dessa foto aqui – O garoto mostrou em seu celular uma foto do dia em que ele e Gil discutindo em frente ao portão da casa de Dan – Dá pra te ver claramente sendo acariciando por essa outra bicha aqui. Ou eu to errado Alisson?
Al nem se dignou a responder, logo dá um soco no rosto do outro rapaz.
— Bicha é tu, seu escroto! – Exclamou.
— EI! Alisson e Wesley! Comigo agora pra coordenação!
— Eu até vou, mas não antes de dar o troco – O tal sujeito Wesley afirmou, dando um soco de revanche no colega.
Ambos começaram a trocar socos e chutes enquanto a classe vibrava. Elis, por a situação estar fugindo do controle, chamou dois dos seguranças da escola que pegaram os dois e levaram direto a sala da coordenadora de turno, visto que o diretor milagrosamente não se encontrava.
— Brigando então? Vocês dois estão achando que a escola virou um ring de Box?! – A mulher gritava.
— Foi esse imbecil ai que começou me chamando de viado! – Al defendeu-se.
— E precisava partir pra agressão desse jeito?!
— Se eu chamasse a senhora de sapatão, a senhora ia gostar?
A mulher suspirou.
— Não tem nada de errado em pessoas do mesmo sexo se gostarem Alisson. E isso serve pra ti também Wesley, que pelo visto tá plantando sementes de preconceito dentro da escola né? E as notas, como estão? Péssimas aposto!
O garoto ficou quieto.
— Alisson, eu só não chamo algum responsável teu aqui porque tu é maior de idade. Portanto responde pelos teus atos. Já os teus Wesley eu vou chamar AGORA pra conversar e tirarmos essa história todinha a limpo.
— O QUÊ? SÓ EU QUE VOU PAGAR O PATO?! — O garoto revoltou-se.
— Não senhor – A mulher de cabelos longos e castanhos afirmou – Alisson e Wesley, os dois estão suspensos até segunda.
CONTINUA
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