A Teoria das Cores
34 Lilás IV
INFLUÊNCIAS DE HUMOR
— Cada dia mais eu percebo que eu dei o c* pro demônio e Deus tá me castigando, porque P*TA QUE P*RIU! – Fora a única coisa que Al pôde dizer quando se viu naquela situação.
— Alisson, por favor, controle sua língua – A supervisora solicitou – Isso não vai mudar a minha decisão.
— Mas o que eu fiz?!
— Partiu para a violência física. Quando o fez, perdeu a razão.
— Como eu disse, se eu chamasse à senhora de sapatão aposto como ia ficar bravinha.
— ALISSON!
Al revirou os olhos, ao passo que a mulher suspirou.
— Além do Wesley ter te ofendido gratuitamente, teve mais alguma coisa? – Perguntou ao rapaz.
— Ele tem uma foto minha aí no celular dele com um guri que é meu colega de trabalho. A foto é meio estranha, mas eu juro que não rolou nada.
— Aham. Sei – Wesley revidou.
— Tu quer levar outra dose de porrada mano?! – Al também se alterou.
— Basta! Os dois! – A supervisora exclamou – Wesley, a foto por gentileza.
O garoto então entregou o celular para a mulher, que observou a foto atentamente.
— Tu tirou essa foto? – Questionou.
— Sim.
— E por que fez isso?
— Ué, o Alisson gosta tanto de se esfregar com as minas por ai, mas nunca conseguiu namorar uma. Agora sei o motivo.
— E o que o senhor tem haver com a vida do teu colega?
Wesley bufou.
— Nada – Respondeu entre os dentes.
— Enviou essa foto pra alguém?
— Não.
— Deixa eu ver.
— Mas a senho-
— Eu disse que quero ver! – Exclamou a mulher.
Contrariado, o rapaz obedeceu e permitiu que ela examinasse seu aparelho a fim de afirmar o que ele dizia. Porém, como desconfiara, o rapaz mentiu: Havia mandado em um grupo de colegas da turma de Al. Rebeca (Nome da supervisora) suspirou.
— Eu vou chamar todos os seus colegas desse grupo onde enviou essa foto pra prestar esclarecimentos.
— TU ENVIOU AQUILO NUM GRUPO SEU- Al se exaltou, mas Rebeca o interrompeu.
— Mandou, mas nós vamos consertar isso imediatamente – Ponderou ela – E se algum deles fez a besteira de repassar essa foto, serão imediatamente suspensos. Sem hesitações. E quanto ao senhor Wesley, o senhor vai ficar aqui me fazendo companhia até que teus pais venham e fiquem cientes da gravidade do teu ato.
— E por que eu to pagando junto? – Al questionou.
— Não posso ignorar o fato da agressão Alisson. Se o senhor tivesse me procurado antes, sem dúvidas as circunstâncias seriam outras.
— Tá. Que seja – O rapaz deu de ombros.
— Antes de ir, eu quero que assine essa ata aqui, para evitar que isso se repita.
— Ok.
Com uma cara amarrada, Al assinou o documento junto de Wesley. Antes de ir buscar seus pertences e ir embora, olhou bem fundo nos olhos do outro que lhe prejudicara e alertou:
— Não pensa não que isso acabou aqui. Tu vai me pagar dessa cachorrice. Pode escrever.
— Já chega, Alisson – Rebeca advertiu – Ele já vai ser penalizado. Pode ir embora e só volte aqui na semana que vem.
— E as provas? Tenho uma prova de Matemática e de Biologia parece...
— Farão as provas assim que voltarem da suspensão.
— Beleza. Fui.
O garoto caminhou até sua sala, onde todos ouviam as explicações de Elis. Contudo, mal colocou os pés dentro da sala, para ser o centro das atenções e dos cochichos.
— Quê foi? Virei quadro de museu pra ser admirado?! – Ironizou ele – Babacas.
— Alisson só pegue tuas coisas em silêncio e- Elis advertia, quando o rapaz se estressou e a retrucou.
— Não me enche o saco à senhora também.
— ALISSON!
— Ué, que foi? Vai me suspender? Entra na fila então.
Al seguiu recolhendo seu material escolar sob os olhares curiosos dos colegas, tanto que Elis parou a aula, pois se criou um burburinho insuportável para qualquer professor em sã consciência. O garoto deu de ombros.
— E o quê tu pretende fazer Al? – Mandy questionou.
— Como assim?
— Tu disse que foi suspenso, vai fazer o quê?
— Ir pra casa, jogar videogame e ver uns filmezinhos impróprios até a hora de ir trabalhar.
— Quer parar de irônia? O negócio é sério!
— Eu não acho. Ganhei uma amostra de férias grátis.
Mandy balançou a cabeça em sinal negativo. Quando finalmente Al concluiu o recolhimento, foi em direção à saída. Antes de ir de forma definitiva, encarou todos os colegas, um por um, para que entendessem a raiva que sentia deles naquele momento. E assim foi pelo corredor da escola, passando em frente a sala o 3B, onde a figura de Dan o encarou sem entender o quê havia. Retribuiu com um sorriso fraco e seguiu seu caminho.
Cada passo que dava enquanto percorria o caminho que levava até sua casa pensava em tudo que ocorrera em sua vida nos últimos tempos. Como podia tudo que eram certezas um dia, agora serem dúvidas? Quando que alguém ia levantar uma hipótese daquelas a seu respeito? Conseguiu concordar que dera brecha para aquele comentário, afinal uma foto é uma imagem congelada no tempo: Não importa o antes e o depois, importa o que ela está mostrando. Em determinado momento do caminho, Al olhou para cima, já com o céu dado trégua da chuva, e falou baixo:
— Me dá uma trégua... Por favor.
E seguiu até sua casa. Estava desanimado, triste. Se pudesse permanecer em sua casa até a maldita suspensão acabar, o faria sem pestanejar. Assim que entrou em casa, uma surpresa: Lá estava Marisa tomando seu café tranquila. Vestia um roupão rosa e estava despenteada.
— Não foi trabalhar? – Al questionou.
— Não devia estar na escola?
Ponto pra Marisa.
— É que não tinha nada de importante hoje. Chegue lá e era só perda de tempo – Mentiu o garoto.
— Tudo bem. Tu sabe o que faz da tua vida.
— Valeu.
Al foi andando devagar até sentar-se ao lado da mãe na mesa. Devagar, ele foi fazendo seu pão enquanto a mãe seguia tomando seu café forte com duas colheres de açúcar.
— O que deu no trabalho pra senhora estar em casa? – Al questionou enfim.
Marisa então largou a xícara com o café e encarou os olhos castanhos do filho.
— Eu pedi uma folga hoje. A gente precisa conversar não acha?
— Talvez...
A mulher então levou suas mãos as do filho e as segurou carinhosamente.
— Filho, eu sei que eu vacilei. Eu nunca imaginei que um dia a gente fosse chegar nesse nível de briga, ainda mais por alguém que... Bom, não vem ao caso agora. O que importa é que desde sábado eu não consigo dormir direito, não consigo comer direito, enfim nada que eu faço, eu faço com empolgação entende? É como se uma parte de mim tivesse morrido.
— Eu... Eu te entendo mãe. Eu também falei umas coisas que-
— Não, na verdade tu estava certo. Tu... Merece saber da tua história. Mas é uma história que – Marisa fez uma pausa e respirou fundo – Não me faz bem. Não é nada bonita de se ouvir e não foi nada bonita de se viver. E sempre que eu te neguei isso, foi pra te proteger desse sofrimento filho, nunca que foi pensando em te ferir e te privar de ter um pai.
— Mas é a minha história mãe. Só eu posso decidir o que eu faço com ela.
— Eu sei, meu garotinho. Eu prometo que um dia eu vou te contar tudo, desde o começo. Só... Deixa eu me acostumar com a ideia tá?
Al pensou um pouco antes de responder.
— Tudo bem – Sorriu fraco – Mas me conta mesmo ok?
Marisa sorriu e foi abraçar o filho.
— Meu gurizinho – Disse entre o abraço – Tu é a melhor coisa que surgiu daquela história toda.
— Obrigado, eu acho – Deu um sorriso.
A mãe então encarou o filho novamente.
— Eu tenho muito orgulho de ti, filhote. Nunca duvide disso. Nem disso nem do meu amor por ti.
— Eu também te amo mãe. Obrigado por ser sempre a melhor – Num gesto inesperado, Al abraçou a mãe novamente.
Ambos ficaram se abraçando por algum tempo.
— Agora chega senão vamos ficar entrevados aqui – Brincou a mulher, fazendo Al rir.
— Tá bom.
— Tem certeza que não rolou nada na escola que eu precise saber?
— Tenho. Fica tranquila.
— To confiando hein?
Alisson então se levantou e foi indo para seu quarto, quando parou ao pé da escada.
— Mãe! – Gritou ele.
— Fala! – Exclamou Marisa.
O garoto suspirou fundo e finalmente falou:
— Pode trazer o Edu aqui em casa.
Marisa cuspiu o café em cima da mesa e correu até onde o filho estava.
— Sério? E-eu posso mesmo?
— É como tu mesma disse: Se eu posso, porque a senhora não né?
A mulher sorriu com o gesto.
— Nossa. Obrigado filho. Obrigado por essa chance.
— De nada.
E retornou a sua ida ao quarto. Quando lá chegou, percebeu que chegara uma mensagem de Amanda.
“Falei pro pessoal o que rolou. Não tá certo ainda, mas estávamos pensando em dar uma passada ai na tua casa depois da escola. Ok?” – Enviada por Amanda.
Revirou os olhos. Esse era o mal da tecnologia, dar voz a tudo e a todos.
“Quem precisa de pombo correio quando se tem tu né Mandy? P*rra. A pessoa não pode nem mais ir no banheiro c*gar que até um Chinês fica sabendo!” – Enviado para Amanda
Depois de alguns segundos encarando o teto e viajando em seus pensamentos, percebeu que talvez tivesse sido grosseiro com a menina, e resolveu enviar outra mensagem:
“Podem vir, tá tranquilo. Só não chega falando em suspensão pq minha mãe tá em casa e não tá sabendo” – Enviado para Amanda.
Enviada a mensagem, colocara o celular em cima da mesa e tornou a encarar o teto. Qual desculpa que daria para ficar em casa a semana toda? E o que faria durante esse tempo?
***
Naquela manhã, Dan não tinha outro pensamento senão que não tinha dia pior do que aquele. Estava achando a aula um completo tédio. Aliás, achava isso todo dia, mas vez que outra conseguia não gostar ainda mais de estar ali.
— DANIEL! ACORDA! – Exclamou Sabine.
— Hã? Que foi? – Perguntou retornando a órbita.
— P*rra velho, tu vegetou legal hein?! – Mexeu Adrian.
— Não se pode mais fazer nada nesse c*r*lho que todo mundo acha ruim.
— A Bine tava falando do trabalho em grupo pra semana que vem. O ‘sor de física vai ser tri criterioso naquela b*sta.
— Vão lavar essa boca com sabão – Falou a loira – Enfim, tava pensando em fazer uma maquete sobre a Física num parque de diversões. O que acha?
— E tem Física num parque de diversões? – Dan questionou, fazendo a garota o encarar incrédula.
— Essa pergunta foi séria? Tipo, real oficial?
— Não Sabine, eu perguntei só pra tu me tachar de burro – Respondeu sarcástico – O que têm de Física num parque?
— TUDO nele é Física cara! Como tu não sabe disso?!
— Talvez seja porque eu detesto números.
— Mano, verdade seja dita, tu não gosta de nada – Jeff comentou.
Os amigos riram com exceção de Dan, que revirou os olhos.
— Tá. O que querem que eu faça nessa m*rda?
— Que ótimo que perguntou isso! – Respondeu Sabine animada – Então, eu tava pensando em...-
Mal a garota começou a falar para Dan retornar a viajar. Não pensava em outra coisa senão na noite com Van. Aquela certamente tinha sido a melhor noite de sua vida. Pensara que transar com uma garota trans seria uma experiência um tanto estranha, visto que Vanessa um dia fora Adam. Porém, depois do que vivera, depois de tudo que aconteceu naquela fatídica noite de sábado, era inquestionável que não importava quem Van foi, e sim o que a garota era no presente: A garota dos sonhos.
Alguns minutos em seus devaneios, Dan foi trazido de volta a realidade quando vira a figura de Alisson indo embora. Achava estranho, pois os portões já estavam fechados, ou seja, não tendo condições dele sair por livre e espontânea vontade. Pensou na hipótese de ter havido algum problema em casa que ele precise resolver, mas por que então vir a aula?
Al também percebera que o amigo lhe encarava confuso e retribuiu com um sorriso fraco. Fraco e que carregava uma tristeza imensa. Por um momento, Dan pôde até sentir a dor que o amigo carregava no peito só de olhar para ele. Por que se sentia assim?
— DE NOVO DANIEL! QUE INFERNO! – Exclamou Sabine, quando esta percebeu que o outro não a escutara novamente – Não vou repetir. Se tu quiser, pede explicação pros guris e f*da-se.
— Ué, não é tu que vive dizendo pra gente não falar palavrão? – Confrontou Jeff.
— Cala boca tu também Jeferson!
— Dan, tá tudo bem cara? Tá mais vegetativo que o normal? – Adrian mostrou-se solidário.
— Vocês não viram que o Alisson acabou de passar? – O garoto em questão respondeu.
— Não. E sabe por quê? POR QUE EU TAVA EXPLICANDO UM TRABALHO! – Bine estava de fato revoltada – Dá licença aí Jeferson, que vou lá tomar uma água.
Assim que a loira se foi indignada, Jeff tornou a questionar o amigo.
— O Al passou aqui? Tem certeza?
— Sim. Eu acabei de ver. Achei ele meio deprê, sei lá.
— E com razão – Adrian falava enquanto encarava o celular – Vocês nem sabem o que rolou com o Al na sala do 3A.
— Manhã agitada pra eles? – Jeff questionou.
— Muito. O Wesley sabe, aquele todo metido a valentão mas que é um baita de um filhinho da mamãe, teve a cara de pau de chamar o guri de viado. Dá pra acreditar nesse cara?
— E por que ele fez isso? – Dan perguntou incrédulo.
— Não sei, parece que ele tirou uma foto do Al com um carinha, sei lá.
— Montagem na certa.
— É o que parece né? A Mandy me disse que ele tá p*to com todo mundo na sala. Diz que o Wesley postou no grupo da turma a foto.
— Bah, que guri filho da p*ta velho! – Exclamou Jeff – E alguém vai tomar alguma providência nessa p*rra de escola?
— Como o Alisson partiu pra cima do guri, ambos foram suspensos. É só o que a Mandy conseguiu ouvir da conversa da Elis com a supervisora.
— P*rra, o coitado do guri é difamado e ainda é suspenso. Eu no lugar dele estaria p*to da vida também – Dan comentou – Tava pensando em ir lá na casa dele depois. Topam?
— Foi mau cara, mas trabalhar na loja daquele chinês maluco me impede disso – Jeff falou.
— E eu tenho treino hoje. Mesmo com chuva, tem o ginásio, então... – Adrian coçava a cabeça – Mas podíamos ir de noite lá.
— De noite ele trabalha no “Wunder Bar” esqueceu? – Dan recordou-se – Bom, se vocês não vão comigo, vou sozinho mesmo.
— Sozinho aonde? – Bine perguntou retornando a mesa.
— Desculpa Bine, mas eu não vou repetir. Se quiser saber, pergunta pros guris – Revidou Dan.
A garota bufou e virou-se para frente e continuou a fazer os exercícios, fazendo o trio de meninos rirem.
***
À noite, a chuva pareceu querer dar uma trégua. O céu, outrora cheio de nuvens carregadas, agora já era possível ver um céu estrelado. Ian, como bom apreciador das artes da natureza, observava o espetáculo atento a cada uma das constelações já vistas. Dan, quando chegou do trabalho, perguntara o que o garoto fazia ali e quando ouvira a resposta disse que só faltava o primo vender miçangas para ser um “guri de humanas” completo. Ian riu do comentário e mandou o primo longe.
— Ian? – Uma voz feminina lhe trouxe de volta – Tá ai parado viajando... Fumou drogas é?
Quando reconheceu a dona da voz sorriu. Era Ágata.
— Como vocês não param pra ver isso velho? Não entendo isso. É uma das coisas mais belas que o mundo nos oferece.
— De uma maneira ou de outra, a gente repara sim tigrão – Ágata deu um rápido selinho no ficante – É que tá ali todo dia, então a gente se acostuma.
— E se acontecer um big bang de novo? Vou ser o único a ter visto isso. Só lamento por vocês – Ian brincou.
— Como é palhaço, Meu Deus.
Outro beijo, desta vez mais longo que o primeiro.
— Não foi pra faculdade? – A garota perguntou.
— Não. Semana de provas foi semana passada. Foi adiantada por conta de um erro no sistema.
— Ah bom. Daí agora está livre?
— Aham – Ian respondeu sorridente – Vai passar a noite aqui de novo?
— Na verdade, tava pensando em outra coisa – A morena explicava enquanto se abraçava com o rapaz – Que tal a gente jantar fora?
Ian a encarou com surpresa.
— Quer jantar fora comigo?
— Se eu to perguntando pra ti, é porque sim né? – A garota riu da pergunta.
— Mas isso não são coisas que... Casais fazem?
A outra desfez o abraço e suspirou.
— Se prefere ficar em casa, por mim -
— NÃO! Jantar fora pra mim tá beleza. Só achei curioso, só isso.
— Beleza. Vai se arrumar então tigrão – A garota voltou a sorrir.
Ian então correu para seu quarto caçar alguma roupa para vestir e logo em seguida foi para o banho. Lá ficou por volta de dez minutos, quando finalmente retornou já a caráter.
— Vai vestido assim para um encontro Ian? – Isabel perguntou curiosa.
O rapaz vestia-se com uma calça jeans preta, camisa de banda e o tradicional all star. Havia colocado gel no cabelo e um perfume com aroma encantador.
— Não é bem um encontro tia. Mas sinto como se fosse – O garoto explicou.
— Ah, mas ia ficar tão gato vestido de terno e gravata. Ia levar a guria na hora.
Ian não pode deixar de rir do comentário.
— Valeu tia, mas ela meio que já tá na minha.
— Que bom querido. Fico muito feliz – Isabel falou verdadeiramente – Agora, e aquele gurizinho tão simpático que tu me mostrou uma vez?
— A senhora tá falando do Gil?
— Gil? Esse era o garoto? – A mulher perguntou.
— Era sim. Por quê?
— Que nome bonitinho.
— Né? – Ian concordou – É bem diferente mesmo.
— O que aconteceu entre vocês?
O rapaz então suspirou.
— É uma longa história tia. Mas em resumo é que infelizmente não deu certo. Paciência né?
— Ah, que pena. Achava vocês um casal tão bonito!
— Pra senhora ver... Mas já passou. Como tudo na vida.
— Isso. Pra frente sempre – Isabel encorajou.
— Valeu tia, mas vou indo senão a Ágata vai me matar.
— Vai sim querido.
Ian sorriu e foi ao encontro da garota.
— ‘Bora então? – Perguntou agarrando-a pela cintura e dando um rápido beijo.
— ‘Bora – A outra respondeu animada.
Foram então caminhando pelas ruas de Nova Petrópolis e ficando espantados com a quantidade de turistas que a cidade recebera. Mal tinham espaço para caminhar, mas ainda sim valia a pena. Para Ian, era um prato cheio: O garoto não tinha problema nenhum com multidões e agitação. Pelo contrário, adorava. Ágata também não pareceu muito desconfortável na situação, e procurava manter-se reta em direção aonde queria ir.
Demoraram alguns minutos, contudo quando finalmente chegaram, Ian sentiu seu estômago gelar.
— Wunder Bar – Falou baixo.
— Quer lugar melhor que esse? Não existe. Aquele novo até tem uma ou duas coisinhas legais, mas o povo gosta mesmo daqui que é raiz – Ágata falava animada – Vamos?
— Espera – Ian pediu – T-tem certeza que quer jantar aqui? Quer dizer, tem tanto lugar bacana também por aqui...
— É que aqui eu fiz reserva. Por isso vim pra cá.
— Mas sei lá... Podíamos ir ver algum outro lugar né?
— Tá com algum problema?
Sim, tinham todos os problemas. Seu ex estava ali. Não sabia qual seria sua reação caso o visse com alguma outra pessoa. No dia em que retornara para casa de Dan, Gil ficara furioso com o rapaz e o chamou de “cãozinho” que o dono xinga, bate, mas que se traz um biscoito vai com o rabo abanando. Aquilo havia sim deixado Ian bravo, porém tratou de esquecer. Não havia porque guardar aquele sentimento ruim para si. E agora? Será que Gil encarara da mesma forma?
Foi ai que se lembrou de que ele estudava a noite como ele, portanto não tinha com o que se preocupar. Deu um suspiro aliviado, sorriu e respondeu a garota que o encarava sem entender o que se passava.
— ‘Bora entrar.
Ágata tornou a sorrir e seguiram para dentro do ambiente, onde Gina, surpresa, os indicou a mesa em que jantariam. Foi Al quem os atendeu, igualmente espantado.
— Fala ai Alisson – Ian cumprimentou sorrindo.
— Tu é o primo do Daniel certo? – O garoto perguntou.
— Isso. Me chamo Ian, a propósito.
— Ah tá. E vocês são...
— Ficantes. Basicamente é isso.
O garoto não entendera bem o que ocorria.
— Mas tu não... Bom, deixa pra lá. Querem alguma coisa em especial?
— Pra mim nada – Respondeu o rapaz colocando as mãos por trás da cabeça – E tu gata?
— Também não. Mas obrigada.
— Já trago o pedido.
E assim Al fora atender as demais mesas ainda sem compreender bem.
— Conhecia aquele guri? – Ágata perguntou.
— Ele foi lá em casa esses dias. É amigo do Dan – O rapaz explicou.
— É... Acho que já vi ele na escola mesmo. Ele pareceu bem surpreso em te ver né?
— Sim. É que esses dias ele me viu com meu ex e ai agora tá me vendo contigo. Deve tá um nó na cabeça do coitado.
Ágata riu.
— Na pior das hipóteses, ele te acha Bi.
— É provável mesmo – Ian riu.
Ficaram conversando mais algum tempo até Al trazer os comes e bebes comuns em cafés coloniais. O lugar estava cheio, mal se tinha espaço para os garçons passarem. Não que Ian e Ágata se importassem muito com isso, pois estavam apreciando mais a companhia um do outro do que qualquer outra coisa. Quando deram por si, já estavam ali há uma hora.
— Ai socorro! – Ágata exclamou enquanto ria – Sério que tu correu uma ladeira pelado?
— Tinha que pagar a aposta né? – Ian também se divertia lembrando do fato – Mas o Andreas roubou. Eu tenho certeza que ele fez alguma manha naquele jogo de videogame dele que me fez perder.
— Juro que consigo te imaginar fazendo isso!
— Foi louco aquele dia. Uma velha até gritou espantada e disse que eu era um tarado.
— E era mesmo. Imagina sair correndo sem roupa na frente de uma velha? Quer matar a coitada do coração? – Mexeu Ágata.
— Eu sei que sou lindo pra se ver mas- Ian falava contente quando sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Aquilo era mesmo real? Gil estava mesmo lhe encarando perplexo e com os olhos inundados de lágrimas?
Nem se deu ao trabalho de dar explicações a Ágata, apenas saiu atrás do garoto quando o mesmo foi em direção ao vestiário do local em passos largos e rápidos. Mesmo que fosse uma área restrita a funcionários, como não havia ninguém fazendo uma verificação, entrou sem maiores problemas.
— Gil eu – Ian tentou explicar, quando o outro o interrompeu.
— Tu não tem nada o que me explicar Ian. Somos ex-namorados por alguma razão né?
— Mas eu sinto que tu merece saber que-
— Eu não quero saber nada! – O garoto gritou – Volta pra tua mesa e me deixa em paz.
— Velho, por favor, só me escuta.
— O que tu vai me dizer hein? Que nós estamos separados, que tu tem o direito de sair com quem quiser e que eu também? Poupa o teu latim.
— Eu não queria vir aqui pra não te magoar. Só vim porque achei que tu tava em aula.
— E eu tava, mas Seu Antero me ligou apavorado dizendo que o movimento tava intenso e que só o Alisson e os outros dois guris não iam dar conta. Ai eu cheguei e te vi lá com aquela menina. Pronto. Foi só isso.
— Dá pra ver no teu olho que pra ti não foi só isso.
Gil então encarou o garoto de olhos azuis.
— Isso não é mais um problema teu.
— Eu não quero que fique esse clima chato entre nós velho! Poxa, eu ainda quero o teu bem.
— E eu ainda te amo. E mesmo assim isso não vale de nada, por que eu cometi a maior burrada da minha vida.
Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos, até que Ian colocou a mão no ombro do outro.
— Tenta seguir em frente Gil. Tu merece ser feliz.
— Me deixa sozinho Ian, por favor...
O outro não insistiu. Deixou que o rapaz fizesse o que bem entendia. Logo saiu e retornou a mesa, com um semblante levemente triste.
— Tu saiu correndo lá pra dentro. Algum problema? Eu fiquei assustada – Ágata disse.
— Nada. É só... Problemas com o passado. Só isso.
— Como assim?
— Já terminou de comer? – Mudou de assunto.
— Já sim – Respondeu desconfiada.
— ‘Bora lá pra casa ver “Os vingadores”?
— Tá. Pode ser.
— Beleza – Ian respondeu sorrindo fraco e dando um beijo enamorado na garota. Levantaram-se então e seguiram ao caixa, pagaram e foram para casa.
Enquanto isso, Gil permanecia sentado, encarando os armários. Sabia que um dia aquela cena aconteceria, e sofria toda vez que pensava nela. E agora, ela era real. Tinha acontecido. Seu jovem coração pesava com aquilo.
— Gil, desculpa aí te apressar, mas é que – Al entrou e atraiu a atenção do outro – Tá tudo bem ai?
O garoto nem respondera, só correu em direção a Al, o abraçou e começou a chorar desesperadamente.
— Eu perdi o Ian, Alisson – Dizia entre o choro – Eu perdi ele pra sempre.
CONTINUA
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