A Teoria das Cores
35 Preto II
MEDO
No dia em que Alisson conhecera Gil, imaginou que ambos seriam grandes parceiros de trabalho. Imaginou que talvez até tivesse encontrado alguém interessante para conversar e avaliar sua vida de um ponto de vista que não fosse o seu, que via de regra era perdido e confuso. Porém, veio à armação. Até hoje o rapaz se perguntava se Gil realmente só queria provocar o ex, ou deixá-lo a mercê para julgamentos. Dúvidas a parte, aquilo deixou Al desconfiado do rapaz e de seu caráter, ainda mais depois quando para ajudar veio a cena dele com Ian. Desavenças, brigas, discussões, ofensas e humilhações... Tudo isso parecia ter caído por terra naquele momento. Ali estava um Gil completamente exposto, frágil. O garoto já chorava sem parar há pelo menos dez minutos e Al já não tinha mais nem tino pra fazer o que quer que fosse.
— Ele foi o guri mais importante da minha vida – Em determinado momento quando o choro parou, foi que o garoto voltara a falar – Ele me deu tudo de mais lindo no que se trata de sentimentos. Ele me amou de um jeito que... Nossa, nem sei explicar. É como se ele tivesse me levado ao paraíso mesmo.
— Que gay – Al deixou escapar, notando em seguida a idiotice que dissera – Foi mal. Força do hábito.
— Tudo bem. Não to com cabeça pra militância. Só queria entender que p*rra eu tenho na minha cabeça que deixei escapar o melhor guri que tive na vida?
— Velho, de guri eu não entendo, mas sempre perdi minhas namoradas pelo mesmo motivo.
— Qual?
Al suspirou.
— Eu... Não me doava que chegue para dar certo. Eu agia como se fosse uma ficante fixa, não uma namorada. Acabei fazendo várias m*rdas e perdendo minas que além de gostosas eram legais pra c*r*lho.
— E acha que eu não me doei o suficiente também?
— Desculpa te perguntar, mas porque vocês terminaram?
Gil então foi se acalmando, regulando sua respiração até que respondera.
— Eu traí o Ian numa festa de aniversário de um amigo nosso – Relembrava – Ele insistiu muito pra eu ficar em casa com ele e assistir a um filme lá que nem sei qual era, mas eu disse pra ele que eu queria me divertir e que achava estranho ele não querer ir também. Ai ele me respondeu que tava com a sensação de que algo ruim aconteceria e como eu nunca acreditei nessas bobagens eu fui.
— E ai acabou pegando um carinha?
— Eu tava até meio bêbado sabe? Aí surgiu um boy lá que era primo do amigo meu que tava de aniversário e ficou puxando conversa. Ele inventou um papo de que tinha que ir no quarto dele buscar o celular, pois a namorada dele podia mandar mensagem a qualquer minuto dizendo que tava chegando, e que se eu quisesse podia ir junto. Eu fui porque tava bêbado já, se fosse em circunstâncias normais óbvio que eu desconfiaria.
— E ai ele te agarrou?
— Muito. Como não sou de ferro acabei cedendo, mas ficamos nos beijos só. Logo o celular dele vibrou em baixo da gente, ele desbloqueou a tela, deu um sorriso e disse que a mina dele já tinha chegado.
— Se ele era hétero, porque foi ficar contigo?
— Eu falei com meu amigo. Ele disse que esse guri é bi, e que a desculpa dele é que precisa alimentar os dois lados.
— Nossa. Que idiotice.
— É, mas a idiotice não foi só dele. Foi minha também – Gil falava cabisbaixo – Porque eu fui tão fraco? Eu amava o Ian, eu AMO o Ian... Porque eu fui me agarrar com um macho escroto daqueles?
— São coisas que acontecem cara. Sabe, talvez vocês ainda voltem. Aquele dia lá na casa do Daniel parecia que ele queria muito te ter.
Gil sorriu fraco ao lembrar.
— Eu também achei. Mas não. De mim ele só quer o corpo agora.
— Teria que falar com ele pra saber.
— Eu já tentei e não adiantou. Nossa história ficou perdida no tempo...
Naquele momento, o mais novo percebera o quanto um grande amor pode mexer na vida de alguém. Ver Gil tão debilitado e carente por causa de Ian o fez perceber que o mais velho falava a verdade: Seu coração ainda sangrava por seu amor e talvez permanecesse assim para sempre. Num ato inesperado, Al colocou sua mão em cima do ombro de Gil, que o encarou.
— Certamente outras virão cara. Tua história com esse guri pode ter sido bacana, porém a tua vida não acabou. Tu ainda tem muito o que viver e muita gente pra conhecer. Não se amarra a esse passado que não volta mais. Foca agora no futuro.
O mais velho não pôde deixar de sorrir com o ato.
— Valeu Alisson. Nunca esperaria ouvir isso de ti.
— Nem eu esperaria ouvir isso de mim – O garoto brincou.
— Gente, desculpa aí, mas as mesas estão com pedidos atrasando. Vamos logo! – De repente, Gina surgiu na porta alertando-os.
— Já estamos indo.
— Depressa então.
E assim a garota se foi.
— Vai lá lavar o rosto, enquanto eu vou ir adiantando alguma coisa lá. Fechou?
— Fechou.
Al então foi correndo até a cozinha pegar os pedidos e entregá-los o mais depressa que conseguia. No fundo, por mais que seu dia tivesse sido um completo caos, sentia-se feliz por ter sido útil e ajudado alguém que precisava. Acordar enfim tinha valido a pena.
***
— Vai gata! Qual é! – Adrian implorava – É só hoje.
Quarta feira, manhã de sol. Como de costume, era dia de mais um dos treinos de Adrian. O campeonato interescolar se aproximava e com isso os treinos se intensificavam. Amanda, sua namorada, por priorizar seus estudos, nunca pôde assistir aos treinos. Uma ou duas vezes que o garoto conseguia fazê-la ficar por pelo menos dez minutos nas arquibancadas vendo e torcendo por ele.
— Dri, como é que eu vou assistir o teu treino? Eu tenho prova na sexta e não tô afim de levar bomba logo no segundo trimestre – A garota se justificou.
— Falando assim até parece que tu sempre vai mal em tudo que é prova né?
— Não vou porque eu ESTUDO. Eu preciso desse tempo a mais de concentração Dri, eu sou meio lenta.
— Mas não tô te pedindo pra matar todas as aulas. Só hoje, só agora.
— Ai Dri.
— Vaaaai, por mim. Prometo que não vai se arrepender – O jogador fazia cara de criança com fome.
Sem muitas alternativas, Mandy revirou os olhos e respondeu.
— Tá. Só hoje.
O garoto comemorou abraçando e dando um beijo na namorada, deixando-a vermelha.
— Porque eu não te encontrei antes hein? – Perguntou encarando os olhos da menor.
— Talvez porque eu não sou alta, de cabelos loiros e que fica mascando chiclete com cara de nojo – A garota explicou debochada.
— Ah tá, até parece que só com essas que eu já saí.
— A Vivi, tua mina do ano passado, era assim que eu me lembro.
— Quer dizer que a senhorita tá me secando desde o ano passado sem eu saber? – O jogador cruzou os braços e sorriu.
Foi ai que Mandy notou a besteira que havia dito. Ficou tão vermelha que parecia que ia explodir a qualquer segundo, o que fez com que Adrian risse descontroladamente.
— V-vamos logo assistir e-esse treino – Ordenou a garota indo a passos ligeiros para o ginásio.
Adrian continuou rindo por mais alguns instantes na caminhada até o ginásio. O treino começara de fato as 07h00 em ponto. O treinador parecia apreensivo durante o mesmo, o que era compreensível levando em consideração o fato de que os campeonatos escolares se aproximavam e ele almejava muito a taça da vitória. Era um homem extremamente competitivo, então por mais que dissesse que era a diversão que importava, na hora do jogo parecia que iria ter um enfarte a qualquer segundo.
Assim ficaram até 07h30 quando deu o sinal e mesmo assim parecia ter durado uma eternidade para o jogador. Estava exausto devido aos exercícios e as táticas de jogo exigidas naquela manhã. Fora um dos primeiros a entrar nos vestiários e o último a permanecer por lá. Certificou-se de que nenhum de seus companheiros de time não estava lá e sorriu ao confirmar que de fato não estavam. Rapidamente foi até seu celular e enviou uma mensagem a Amanda para que a garota viesse ao seu encontro. Demorou alguns minutos, mas logo a garota chegou.
— Fala baixinha – Provocou Adrian roubando um beijo da namorada.
— Muito engraçado Dri. Tu que parece um poste e a culpa cai em mim né? – A outra rebateu.
— Claro. Os baixinhos são mais nervosos – O outro brincou – E ai? Curtindo a visão?
— Do vestiário? Mas não tem nada de interessante aqui.
— E eu?
— O tem tu?
— Tá falando sério? Não tá vendo como eu to?
— Como tu-
A garota nem concluiu a frase, pois se deu conta de que Adrian estava a sua frente só com uma toalha na cintura. Naquela situação, era possível perceber o porte atlético do rapaz: Seus ombros largos, pernas de coxas grossas e coberta por uma camada fina de pêlos, seus braços levemente tonificados e seu peitoral definido. Por mais que a visão fosse privilegiada, Amanda só conseguiu dizer uma coisa:
— AI QUE VERGONHA ADRIAN! TU TÁ PELADO! PÕE UMA ROUPA! – Exclamou avermelhada, fazendo o mais alto rir.
— Qual é gata eu sou teu boy! Tá com vergonha por quê?
— Tu ainda me pergunta?! Tu tá sem roupa?
— Mas de qualquer jeito algum dia tu ia me ver sem roupa – O garoto disse com um sorriso.
Foi só então que a ficha da menina começou a cair e ela encarou o namorado.
— Dri... Tu não tá pensando em-
— Desde que a gente começou a sair que eu te curto pra valer. Confesso que no início foi mais curiosidade porque tu é bem diferente das gurias que eu tava acostumado a pegar. Daí a gente ficou lá na festa dos namorados, dançamos e conversamos altos papos sobre insetos estranhos lembra?
A garota gargalhou fraco e sorriu.
— Sim. Lembro sim.
— Então. Foi tudo muito rápido entre a gente, mas tudo muito verdadeiro também. Nenhuma outra guria foi tão de boa, tão leve e espontânea comigo sabe? E é por isso que eu queria te... Satisfazer da mesma maneira que tu me satisfaz.
— Eu já estou satisfeita Dri. Tu é um guri maravilhoso. Não tenho o quê reclamar de ti.
— Valeu gata – Sorriu ao ouvir aquilo.
O rapaz mal concluiu a frase quando puxou a garota para perto de si e a beijou delicadamente. Ela por sua vez passou os braços em torno do pescoço do mais alto e assim ficaram por alguns minutos. Num gesto surpreendente, Adrian conduziu a moça até a parede e começou a beijar seu pescoço enquanto ela suspirava ofegante. O membro do rapaz já estava demonstrando seus primeiro sinais de vida.
— Te trouxe aqui pra gente poder brincar um pouquinho. O quê tu acha? – Perguntou ele ao pé do ouvido da moça.
Amanda ficara tão vermelha que a única atitude que conseguiu fazer foi desfazer-se do abraço de Adrian, pegar sua mochila e sair correndo como se não houvesse amanhã, deixando o outro a encarar sem entender nada.
***
Uma das coisas mais legais que a escola pode nos oferecer é amigos. Os laços de amizades formados neste lugar que nos acompanha boa parte de nossa juventude (Para não dizer de toda ela) em boa parte dos casos nos acompanha para toda vida — claro que isso irá depender da sua experiência escolar. E são esses amigos que nos são tão fiéis que Daniel adorava e se orgulhava de ter, por mais que nunca comentasse a respeito. Diante dos últimos acontecimentos, o garoto achava essencial a presença de todos aqueles que queria bem para que pudesse se reerguer e quem sabe assim crescer como pessoa.
— Eu quero só ver a prova f*dida que aquela louca da Elis vai fazer dessa vez – Comentou ele.
— Aposto que vai colar de novo né? – Sabine desconfiou.
— ÓBVIO. Não sei nem somar e diminuir, quanto mais logaritmos. E ela pra ajudar fica me encarando agora. Devo tá cada dia mais gostoso só pode.
— Ui, que convencido – A loira brincou – Ela tá é querendo te pegar em flagras de novo isso sim.
— Flagra do quê? Na outra vez ela não tinha provas. Só falatório.
— Mesmo assim a barra quase arrebentou né? Não só pra ti como pro Alisson também – Jeff recordava – Aliás, tu foi lá na casa dele? Disse que ia ir e tal.
— Não consegui. Meus tios precisaram que eu tomasse conta da padaria porque eles tiveram que ir ao banco. Tão querendo abrir uma filial da padaria lá em Porto Alegre.
— Olha aí, pensando alto né?
— Sim. Eu super apoiei a ideia né? Quero ver os meus primos trabalhando feito bicho igual eu.
— Sempre dramático, cruzes – Bine comentou – Para que tu nem faz tanta coisa assim lá que eu sei.
— Experimenta levar tapão no ombro e na nuca toda hora pra tu ver se vai gostar de trabalhar lá.
A garota riu.
— Bem feito. Quem mandou ser arteiro?
— Arteiro... Tá achando que eu tenho o quê? Sete anos de idade?
— Tem dias que parece mesmo mano, na moral – Jeff argumentou rindo também.
— De qualquer modo – Dan desviou do assunto – Meus primos vão ajudar nessa nova filial. Pelo menos, foi o que eu soube.
— E os pais deles?
— Vão cuidar da parte chata sabe? Contabilidade, gerencia... Essas coisas.
— Hum. E me diz uma coisa – A loira não se aguentou – E os outros primos? São como tu ou são gente?
— Muito engraçado. Tô me mijando de rir – O outro a encarou irônico – Sei lá ué. Eles são normais.
— Se normal for como aquele primo teu daquele dia – Jeff deixou escapar.
— O quê? – Sabine perguntou – Como assim?
— Jeff, o dia que tu morrer vamos comprar um caixão pra ti e outro pra tua língua – Dan comentou – Ele foi lá em casa e viu meu primo... Se pegando com um outro guri.
— Sério?!
— Parecia um vídeo pornô gay Bine. Precisava ver – Jeff falou debochado.
— E vocês na cama com as namoradas eram o quê então? Pornô hétero.
— Mas a gente agarrava gurias, o que é bem diferente de um ‘lek agarrar outro.
— Isso depende do ponto de vista né Jeferson? Pra mim é a mesma coisa.
— Sendo diferente ou igual, a cena foi essa – Dan concluiu – Não sei pra quê tu foi tocar nesse assunto agora Jeff. Ficou com saudade e resolveu experimentar?
— EI! Que isso velho?! Respeita minha heterossexualidade!
— Então cala boca e me ajuda a pensar se convido a Van ou não pro aniver do meu primo Micael.
Nesse momento Sabine fechou a cara. Por pouco Dan não percebeu a mudança brusca nas feições da garota.
— Eu vou beber água. Já volto – Disse ela, já se levantando rapidamente.
— Não pode esperar e me ajudar?
— Sabe o que é Daniel, é que eu to com sede. E se eu fosse parar a minha vida pra te ajudar toda vez, eu já tinha morrido igual uma lagartixa: Seca e esturricada. Dá licença.
Jeff foi quem não conseguiu conter a risada da cena, enquanto Dan encarava a garota surpreso.
— Eu acho que Bine precisa fazer terapia viu? Cada dia mais temperamental. Credo.
— Ela tem lá as razões dela.
— Ah claro, o crush. Esqueci. Bela razão.
— Quando tu briga com a Vanessa tu também faz teus dramas. Aliás, quando que não né?
— Voltando ao assunto que tu destoou de novo, o que eu faço hein cara?
— Ela é tua namorada parceiro. Devia convidar, mesmo que ela diga que não quer ir.
— Mas ela quer. Justamente esse o problema – Dan confessou – Desde que a gente começou a sair ela me cobra do porque eu não quero apresentar ela pra minha família. É só que eu não me sinto confortável pra isso entende? Minha mãe já vai fazer planos e ai vai inspirando a família toda a fazer também... Enfim, é um c*.
— Foi assim com outras gurias?
— Minha última namorada antes da Van eu levei lá em casa pra apresentar depois que estávamos juntos a quase meio ano. Daí minha mãe já fez um questionário investigativo completo e blá blá bla. Aí quando a guria foi embora, ela me disse que ela tinha cara de quem tem útero de coelho e que eu teria uns cinco piás.
Jeff não se aguentou e começou a rir novamente.
— Cara, que isso. Tua mãe é profetiza é?
— Terminei com a guria por precaução – Dan continuou, acompanhando o riso do amigo – Até quero filhos, mas cinco? ‘Deusolivre.
— Verdade. E quantos acha que ela vai dizer pra Vanessa?
— Nem imagino. Enfim, devo levar então?
— Já tá na hora né parceiro?
O sinal da escola ecoou pelos corredores.
— Engraçado – Jeff lembrou-se — Não vi a Mandy por ai.
— Quem é Mandy?
— A namorada do Adrian gênio.
— E eu lá olho namorado de parça? Eu hein.
— Estranho. Ela nunca se atrasa.
— Vai ver ela passou na casa do Alisson pra ver como ele tá. Aliás me lembra de fazer isso hoje também.
— Ok.
Adrian então entrou correndo dentro da sala do 3B sem dar nenhuma satisfação aos garotos, ao mesmo tempo em que o celular de Jeff então vibrou chamando a atenção do garoto. Quando o desbloqueou foi que notou a seguinte mensagem:
“Jeff, por favor me encontra na sala interditada agora. Por favor... É uma emergência.” – Enviado por Amanda.
Nem se deu ao trabalho de explicar para Dan o que ocorria, deixando o garoto plantado ali. Sabine, que chegou logo depois, foi ele.
— O que rolou? Jeff passou por mim que parecia um trem bala – Comentou ela.
— Sei lá. Gente louca.
— Vamos Daniel, ou quer ir para a direção pedir permissão para entrar? – Elis questionou com um sorriso cínico nos lábios.
— A senhora não cansa de me amar né?
— Já pra dentro!
O garoto deu de ombros e entrou, com Sabine logo atrás de si. Mas a pergunta ainda pairava no ar: O que rolou?
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