A Teoria das Cores
46 Roxo Azulado I
INTUITIVO
— Vocês dois? Na Dança?!
Foi só o que Sabine conseguiu perguntar, tamanha surpresa. Alisson e Daniel passaram alguns minutos na direção da escola explicando que não se tratava de um trote ou brincadeira — Queriam de fato serem membros da atividade extracurricular que estavam oferecendo. Rebecca ficou abismada com a decisão de ambos, porém decidiu dar uma chance.
— É dança de rua, não balé – Explicou Dan, de cara amarrada – C*r*lho... Parece que não sabem ouvir.
— Tanto faz – A loira deu de ombros – O Al eu não conheço muito bem, nos falamos pouco, mas tu me surpreendeu.
— Pelo que ele me mostrou vindo pra cá – Alisson segurou o riso – Vai ter que amputar os dois pés e tentar de novo.
— Cala boca! – Exclamou Daniel enquanto socava o braço do outro.
— EI! Doeu sabia?
— Desculpa. Não tinha notado que tu é de porcelana.
— Fica quieto, ô pé de Valsa.
— Ai gente! Como discutem! – Bine se intrometeu – Vocês se merecem viu?
— Nem fala – Jeff concordou – Se soubesse que iam se amar tanto, tinha apresentado vocês há tempos.
— Muito engraçado, Jeferson – Debochou Dan – Devia tentar a vida como comediante.
— E será que eu posso saber de onde surgiu essa ideia da dança?
— Voou um papel na minha cara mostrando isso – Explicava Al – Nunca viu aqueles vídeos dos caras fazendo uns movimentos tri f*das?
— Algumas vezes.
— Basicamente é aquilo lá que vamos fazer.
— Que show mano! E vão ter apresentações na escola?
— Provavelmente sim. Vai ser f*da aturar as minas dando em cima de mim o tempo todo.
Os amigos riram do comentário.
— Tá se achando demais não acha não, bebezão? – Provocou Dan.
— Só tô ressaltando a real, galo véio.
— Até hoje devo ter te visto com uma ou duas minas por aí. Só.
— Ihh, Al, pelo visto alguém anda te stalkeando— Adrian, até então fora da sala por conta da namorada (Que por sua vez ainda não conseguira a transferência para a turma onde todos estavam), chegou contente e alfinetando o rapaz.
— Deixa ele, Adrian. O pateta vai ter tempo de sobra pra trocar uma ideia comigo.
Os demais maliciaram.
— Que papo é esse, Al?
— É, donzela, que papo é esse? – Dan revidou – Tá achando que eu sou o quê?
— Eu não acho nada – O outro se defendeu – Só acho que pra tu saber com quantas gurias eu saio... Tu tem que concordar que é no mínimo estranho.
— Claro que é. Se as gurias te amam tanto, porque não vejo muitas te dando mole?
— E quantas te deram mole na vida, posso saber?
Nesse instante, Jeff olhou discretamente para Sabine e ela estava exatamente como pensou: Vermelha de vergonha e concentrada em fazer qualquer coisa no caderno.
— Não foram tantas, mas o suficiente.
— Com essa cara de pedreiro... Fica difícil, pateta. Aliás, muito me admira aquela loira ter gamado na tua.
— Inveja é um c*, né?
— Ser feio também, né?
— Sério que vai ser todo dia isso, até o fim do ano? – Debochou Jeff – Se conheceram ontem, mas a impressão é que passaram a vida juntos.
— Amizade o nome, Jeff – Al rebateu sorrindo – Posso não conhecer o pateta há tanto tempo quanto vocês, mas isso não me impede de zoar com a cara dele.
— Coitado – O garoto defendeu-se.
— Fica na tua, pateta.
— Alisson e Daniel – Elis então adentrou a sala com uma expressão nada agradável, indo direto na direção dos garotos – Pelo visto realmente estão se dando bem.
— Não sabia que ia ter aula com a senhora no primeiro tempo. Teria preparado umas frases legais pra senhora – Al falou irônico.
— Espero que comecem a trabalhar para melhorar o comportamento... Inadequado que vocês têm aqui na escola. Lembrem-se das notas razoáveis do primeiro trimestre.
— Por que a senhora não vai dar sua aula e para de nos amar um pouco, hein? – Dan se intrometeu.
A mulher nada respondeu. Apenas virou-se e foi em direção à sua mesa. Os garotos se deleitavam da reação da professora, tinham isso em comum.
— Já que estão tão caricatos hoje, porque não vão pegar os livros pra os na biblioteca?
— A porta da biblioteca tá aberta? – Al questionou.
— Eu tenho cara de adivinha, senhor Alisson?
Um eco de “Bah” foi recitado pela turma. O garoto só se fez rir. Ponto para Elis.
— Dei essa de barbada pra senhora, hein? Aproveita que não é todo dia – Debochou.
— Vão logo que nosso tempo é curto. E nada de enrolações!
— Sim, senhora – Ambos responderam antes de seguir seu caminho.
Os rapazes riam compulsivamente da situação criada pela professora de Matemática, contudo abafavam seus risos para não chamar a atenção das turmas.
— Tu viu a cara que ela fez quando tu respondeu ela? – Al comentou com o amigo.
— Elas no ama. Só pode – Respondeu, ainda rindo.
— Pega pra ti! Deus me livre aquele pêssego mofado perto de mim!
— Eu tô bem de mina. Valeu.
Seguiram rindo por mais alguns instantes, até que parou naturalmente. Foi o tempo necessário para chegarem a porta da biblioteca. Estava fechada.
— Vou lá buscar a chave na direção – Disse Al.
— Vai ligeiro então.
— Tu não manda em mim, pateta.
— Se f*der.
Al colocou as mãos atrás da cabeça e seguiu pelos corredores da escola. Retornou pouco tempo depois, abrindo então o espaço. O ambiente era ligeiramente grande, com prateleiras não muito altas (A contraposto das janelas nas paredes, que pareciam ir do chão ao teto), com piso de parquê de cor amarelo queimado que parecia estar se soltando devido ao tempo de uso. Havia também uma área mais afastada com duas mesas cumpridas de madeira, completadas por várias cadeiras ao redor.
— Que cheiro de asilo tem esse lugar – Comentou Al.
— Tu já foi em um?
— Uma vez. Pra visitar minha falecida bisavó.
Ficaram em silêncio mais um tempo procurando onde ficava a prateleira de livros do terceiro ano do ensino médio, Al procurando pelo canto esquerdo e Dan pelo direito. Quando achou, Dan chamou pelo colega, porém foi adiantando o serviço tentando puxá-lo da última prateleira localizada no extremo lado direito do lugar, num canto isolado. Para tanto teve de subir em uma cadeira, já que não era muito alto.
O rapaz esticou seu braço para alcançar a pilha de livros, quando puxou um deles que derrubou outros cinco por cima de si. O ato fez com que perdesse o equilíbrio, indo em direção ao chão. Porém teve sua queda estancada: Caiu nos braços de Al.
— Tinha que ser tu, né pateta? – Reclamou o rapaz – C*r*lho, tu pesa hein? Vai emagrecer!
— Cala boca e me põe no chão seu otário! Imagina se alguém me vê assim contigo – Envergonhou-se.
— Isso é jeito de agradecer? Podia ter quebrado o cóccix sabia? Aí ia andar parecendo que foi arrombado.
— DÁ PRA ME LARGAR NO CHÃO, P*RRA?!
— Pede direito.
— De novo essa viadagem?
— Pede.
— Não.
— Pede.
— Não. Já disse.
— Se tu não disser, eu vou espalhar pra todo mundo que a Vanessa é homem.
Dan nada respondeu, apenas virou o rosto e encarou o chão. O outro se mostrou em choque com a reação.
— E-ela é? – Questionou.
O menor bufou de raiva.
— Ela é trans. Satisfeito? Agora me põe no chão, c*r*lho.
— Como assim trans? Aquela loirona gostosa?
— OLHA COMO FALA DELA!
— Então ela é... Um homem que se veste de mulher? – Al ficou pasmo – C*r*lho...
— Quer me por no chão de uma vez inferno?!
O garoto fez o solicitado e colocou as mãos na boca.
— Eu não sabia que tu curtia... Esse tipo de cara...
— Ela não é um cara, beleza? – Respondeu irritado – Ela é ELA. Uma mulher, uma mina, como tantas que tem por aí.
— Mas tu disse que-
— Ela fez cirurgia. Ela não tem mais... Bom... O que nós temos.
— AÍ! C*R*LHO! – Al colocou as mãos nas partes – Imagina a dor pra tirar fora... Que agonia!
— Não é que nem em “Jogos Mortais”, seu demente. Provavelmente... Botaram anestesia.
— E como ela mija então?
Dan encarou o garoto com olhar de surpresa.
— É sério isso? – Perguntou pasmo.
— Ué, ela tinha um pau não tinha? Então se tiraram fora, como ela mija? Como ela goza?
— Tu quer mesmo saber disso?
— Tu já transou com ela, então conta aí.
— Não vou falar da intimidade da minha mina pra ti! Fumou um é?
— Ah! Qual é, pateta! Eu te conto o que tu quiser sobre a minha vida sexual. Pode perguntar, sou um livro aberto.
— Pra que eu ia querer saber da tua vida?
— Pra tu aprender como é que se faz. Óbvio – Respondeu o outro sorrindo malicioso – Escuta, por que tu fez aquele reboliço com o teu primo aquele dia sendo que namora uma guria que já foi um guri?
O garoto revirou os olhos.
— Dá pra pegarmos os livros e voltar, ou é muito complicado pra ti?
O outro deu de ombros. Subiu em cima da cadeira e alcançou uma pilha gigantesca de livros para Daniel segurar. Alisson pegou os que caíram no chão minutos antes, mais o restante para completar o número de livros necessário para utilização.
— Quem diria que tu era fortão, hein pateta? – Tirou sarro – Cuidado pra não rolar escada baixo.
— Vai tomar no teu r*bo, Alisson.
O garoto riu. Trancaram a porta da biblioteca, entregaram a chave na direção e seguiam para a sala quando Dan pediu:
— Não... Fala nada pra ninguém. Só por enquanto.
— Sobre a Vanessa? – Questionou.
— Não. Sobre a Nanny People.
— Tá beleza. Então vamos falar da Vanessa de boa.
— NÃO! – Exclamou – É claro que é dela. Te liga!
— Então fala direito da próxima vez animal.
— Idiota.
Alguns minutos em silêncio, quando Al respondeu.
— Fica frio. Não vou falar pra ninguém não – Sorriu – Sou de fé.
— Valeu mesmo, Alisson. Valeu por entender.
— Tranquilo, meu.
E seguiram até a sua aula normalmente.
***
A parte boa de trabalhar para os tios é que em certos momentos haviam mordomias que dificilmente teria em um emprego convencional. Marcella e Ronaldo ficaram mais um dia na chácara da família junto de Luan e Levi até que o pai dos meninos viesse levá-los, o que fez com que Daniel tivesse uma folga mais do que desejada.
Chegou em casa no início da tarde, deu uma breve arrumada no ambiente, colocou uma roupa qualquer para andar em casa e passou a tarde a jogar, ver filmes e qualquer passatempo que tivesse para realizar. Estranhou Ian não estar em casa, mas também não enviou mensagem para incomodá-lo. Quem resolveu fazer isso foi Al, que de um aplicativo de redes sociais lhe perturbou a tarde toda sobre Vanessa. Não sabia direito o que sentir a respeito daquilo. Sabia que teria de contar algum dia a verdade, mas porque para Al? Porque para um rapaz que, por mais que já tivesse trocado algumas palavras, ainda era um tanto estranho? Talvez ele não fosse tão estranho quanto Dan pensava... Ou será que sim? Dúvidas e mais dúvidas. Era a única coisa que sua mente produzia.
Passada a tarde, a noite chegou e com ela os pais do garoto – E Ian, que mais uma vez ficara em casa ao invés de ir a faculdade.
— Essa tua faculdade é uma maravilha, né primo? Dá pra faltar quando quiser – Ironizou.
— Pro teu governo, essa é a última vez que posso faltar nessa disciplina. Já gastei as outras quatro.
— Nossa... Só pode faltar cinco vezes?!
— Pra tu ver como não falto tanto quanto tu imagina – Respondeu o garoto de olhos azuis.
— Aham sei – Desconfiou – Que p*rra de filme é esse?
— OLHA ESSA BOCA SUJA, DANIEL! TE PASSO PIMENTA NA BOCA! – Gritou Isabel da cozinha.
— DESCULPA, MÃE!
— “Hoje eu quero voltar sozinho”. É muito f*da – Ian respondeu animado.
— Fala sobre o quê?
— Um guri que tem deficiência visual e acaba se apaixonando pelo melhor amigo. É bala porque mostra uma relação bonita, tá ligado? Tudo bem sutil, nada forçado. Eu gosto.
— Claro que tu gosta – Ironizou novamente – Até tu assistindo isso, pai?
— Até agora não vi nada demais – Justificou-se – Não vi nenhum homem se agarrando por enquanto.
— Ainda acho que macho com macho é estranho. Fala sério.
De repente ouviu-se um barulho de algo quebrando no chão da cozinha. Ian, Dan e Bruno olharam atentamente para o local esperando alguma reação.
— Bel? – Questionou o marido – Tudo ok aí?
Mal concluiu a frase quando uma Isabel furiosa chegou a sala parando de braços cruzados frente ao filho.
— Que idiotice é essa que tu acabou de dizer, Daniel? – Perguntou enquanto este a encarava confuso – Não escutou o que eu perguntei?
— O que foi que eu disse, mãe? – Levou um pescotapa – AI! C*R*LHO! DOEU SABIA?!
Outro pescotapa.
— OLHA O PALAVRÃO!
— Mas o que eu fiz agora?!
— Onde tu tá com a cabeça, hein guri? Em que planeta tu tá? Tu nem percebeu que disse um absurdo como aqueles dos GLS.
— É LGBT, tia – Ian corrigiu enquanto comia pipoca e se controlava para não rir.
— Isso. Obrigada, querido.
— Ué, só disse que macho com macho é- Novamente – AI! Que isso?! Vai quebrar meu pescoço!
— Eu não acredito que passei QUATRO HORAS em trabalho de parto pra parir um guri com uma cabeça tão antiquada.
— Não é antiquada é só que-
— OLHA QUE VAI LEVAR OUTRO HEIN?!
— Tá, mãe! Desculpa! Eu falei sem pensar! – O garoto defendeu-se com os braços tapando o rosto.
— Olha lá, hein Daniel? Onde já se viu isso, guri?! Eu, que vim de uma geração problemática, entendo que amor é amor, e tu que é jovem vivendo disso, meu filho? E TU, BRUNO?! ONDE TU TÁ QUE NÃO ENSINA NADA PRO TEU FILHO?!
— EU? – Bruno espantou-se – Que eu fiz?
— NADA! ESSE É O PROBLEMA! – Exclamou a mulher – Tem que ensinar essa mula que chamamos de filho o que é certo.
— Mas eu digo! Eu juro!
— Tô vendo. Tanto que ele tá falando uma idiotice dessas do lado do primo dele.
— BEL! Não é hora do Dan saber que-
— Que o Ian pega macho? Nossa, isso já é notícia velha – Dan respondeu.
— Ah é, lindinho? E porque tu continua falando assim, hein? – A mãe pressionou.
— Mãe, fala sério né? Eu cresci vendo homem pegar mulher e mulher pegar homem. Isso é... Muito novo pra mim.
Isabel se preparava para dizer algo porém sorriu irônica e encarou o filho.
— Nem vou falar nada pra ti, porque já deu pra perceber que tua cabecinha precisa de um processador novo pra entender como as coisas funcionam – Explicava ela – Mas uma coisa eu te digo, filho: A vida vai tratar de te ensinar a respeitar a diversidade. Tu ainda vai levar uma rasteira bonita de se ver por conta do teu preconceito. Pode escrever.
Dito aquilo, a mãe simplesmente retornou a cozinha e seguiu com seus afazeres. Ian chegava a chorar se controlando para não rir da cara de paisagem do primo.
— Viram isso? Ela me rogou uma praga! – Exclamou Dan – Minha própria mãe...
— Eu cansei de te avisar por bem. Agora engole essa, papudo – Debochou o primo.
Bruno também parecia pasmo com o que ouvira, mas voltou sua atenção para a TV. Mal sabiam eles que a profecia ia se concretizar mais cedo do que imaginavam...
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