IMATURIDADE

Nada melhor do que laços de amizades nas horas de necessidade. Poder contar com um ombro amigo, alguém para dividir as tristezas e multiplicar a felicidade, é algo que passamos a vida buscando. Com um pouco de sorte, conseguimos completar uma mão com pessoas nas quais realmente confiamos — em casos comuns, duas ou três pessoas no máximo. O restante se resumem a conhecidos ou aliados de pouco papo. As lembranças que vivemos ao lado dessas pessoas são as que carregamos conosco não só na memória, mas como no coração.

Ágata e Van se conheciam desde que a última ainda era um garotinho loiro, lindo e chamativo. Cresceram, os corpos foram mudando, Adam (Nome antigo de Van) foi se tornando um pré adolescente inseguro, cheio de medos e temores, rejeitando por completo se olhar no espelho e ver que aquele rapaz não era quem queria ser. Como boa amiga leal, a morena permaneceu a seu lado durante todas as suas crises de ansiedade, choros, ameaças de suicídio, bem como as outras crises durante o tratamento, algumas alterações de humor e situações que só quem conviveu a vida inteira com o peso de ser “homem másculo” irá entender. Aguentou tudo ao lado do amigo e, meses depois, da amiga, sempre com calma e compreensão. Não seria diferente naquela madrugada: Lá estavam em sua casa alisando os cabelos da loira para acalmá-la durante mais de duas crises de choro. O motivo tinha nome e sobrenome: Daniel dos Anjos, namorado de Vanessa, talvez o mais complicado da categoria (em sua opinião). Podia considerar o fato de ter sido só mais um desentendimento entre ambos, mesmo que as circunstâncias indicassem algo mais grave.

Eram 4h30min da manhã. Estava escutando a loira chorar e soluçar fazia um bom tempo, suas pupilas mal se aguentavam em pé. Sua boca pronunciava, vez que outra, “calma, tá tudo bem”, trazendo a impressão de ser uma vitrola quebrada. Por sorte, a amiga não se conta — o choro ocupava seu tempo. Quando finalmente deu uma pausa para descansar, Ágata aproveitou a deixa para ajudá-la a se deitar e a ela própria se ajeitar em sua cama. A morena tinha uma cama de casal em seu quarto, bastante útil em situações como aquela.

— Deixa ver se eu entendi — Não aguentou o bocejo — Tu brigou com o Daniel porque ele te traiu?

— Não — A voz chorosa permanecia, junto da ânsia de retomar o gesto de impulso — Não houve uma briga. Eu saí correndo e deixei ele lá.

— Mas foi por causa de traição ou não? Tu falou quando chegou, só que entre o choro, daí entender ficou difícil…

— Daniel beijou outro guri. Foi isso.

— O QUÊ?! — Como em um filme, Ágata eu um pulo da cama, surpresa com a revelação — Tu disse o quê, Van?!

— Eu sei. É surreal, mas verídico — Limpou seu rosto após mais uma lágrima que caía — Nunca na vida que eu ia esperar isso dele, miga.

— Amada, nem tu nem ninguém. Esperar isso do Daniel, até agora pouco, era como esperar por neve no Saara.

— É… Mas assim como já nevou no Saara, Dan já beijou um guri…

Van parecia estar tão abatida que observá-la remetia a velório, a viúva debruçada sobre o caixão do finado marido aos prantos, pedindo mais uma vez aos céus que seja uma brincadeira de péssimo gosto. Longe de ser a sua situação, mas talvez tão dolorosa quanto. O coração de um jovem apaixonado, quando ferido, fica despedaçado, inquieto, pois a vida parece tão curta para novos amores surgirem, que há necessidade do imediato lhe oferecer tudo. A loira já não tinha mais lágrimas para chorar, sendo a última tendo caído segundos antes. A dor permanecia, o peso da infidelidade por parte daquele que tanto amava… Pensou ter exagerado, mas se perguntava qual a necessidade dele ter feito aquilo. O que teria movido o coração de Dan a beijar um semelhante?

— Ele não tá satisfeito comigo — Pensou alto. Ficou abismada com quão óbvio era sua conclusão — Claro. Só pode ser isso.

— Ei, ei, ei! Que papo é esse agora? — Ágata sentou na cama, olhando na iris da loira — Tu não começa a surtar — Ordenou.

— Claro, Ágata! Tu não vê? — Imitou o gesto da amiga — Qual outra razão pro Dan beijar um guri que tu tem em mente? Me diz?

— A cabeça do teu boy é uma confusão, miga. Acorda. Nem o primo dele, que é a virtude em pessoa, não consegue decifrar — Pegou na mão dela com sutileza — Eu realmente não sei porque ele fez isso, se tava com tesão, se foi impulso… O que eu sei é que tu não pode se culpar se ele não se entende.

— Mas—

— Não tem nada de “mas” — Impôs sua vontade — E olha aqui, ai de ti que rasteje por macho. Eu pego a tua cara e esfrego na b*sta da vaca. Aí tu vai ver o que é sofrimento — Pela primeira vez na noite, conseguiu arrancar uma risada tímida da menina — Isso aí! Te quero rindo, pra cima! Deixa o Daniel pra lá. Amanhã, ou mais tarde, vocês se resolvem.

Por essas e tantas outras é que a companhia e a amizade de Ágata valiam a pena. Nem mesmo o selinho que ambas deram na festa de Micael foi capaz de ruir com um companheirismo que vinha de anos. Ela a compreendia, entrava em seus pensamentos e os filtrava para manter sua cabeça no lugar. Era a sua razão externa e interna. Abraçou-a, por mais que quisesse concordar e se sentir emponderada diante de sua fala, sabia que não seria possível. Não era o que carregava em seu peito. Uma sensação muito similar a que sentiu um mês antes — quando Dan descobriu sua transsexualidade — porém, com uma força maior, como se o destino já quisesse lhe avisar algo que evitou por todos os anos em que esteve junto ao garoto.

— Eu sinto, miga… — Comentou, encarando um ponto qualquer.

— O quê? — Perguntou enquanto alisava os cabelos lisos de Van.

— O fim do meu namoro… — Tinha um peso da dor na voz — Eu não quero isso, Ágata… Juro que não quero…

— Não pensa nisso agora, Van. Tu nem sabe se isso vai mesmo acontecer. Da última vez tu achou que ele nunca mais ia olhar na tua cara e ele veio de rabinho entre as pernas…

Talvez Ágata tivesse razão? Como saber? Era tudo tão improvável. Qualquer palavra que alguém lhe disse, não teria outro desfecho. Seu coração não estava preparado para aquilo, mas era uma hipótese que começava a lhe assombrar, e duraria por mais alguns dias…

***

E lá estava Alisson, nú, a observar as estrelas que haviam no céu naquela madrugada fria de sábado. Seu corpo tão bem esculturado, tal como as belas estátuas gregas (com poucos músculos, mas não menos belo), gozava do deleite dos ventos gélidos e convidados, arrepiando todos os pêlos possíveis. O céu lhe parecia tão familiar e capaz de entender como sua mente parecia estar: Uma vasta imensidão, preenchida por várias formas celestes, cada uma com sua própria razão de ser, assim como seu cérebro com os pensamentos profundos, repressões, medos… Sua esperança era de alguma delas iluminar seu caminho e clarear todo a escuridão que lhe tomava a capacidade de enxergar.

A festa havia acabado tinha algum tempo — por sorte, Kevin conseguiu dar conta de encerrá-la, já que Gil e Al tiveram sua noite inesquecível, tanto no bom quanto no mal sentido para esse último. Foram os minutos mais estranhos que tivera na vida, e ao mesmo tempo tão prazerosos, cuja impressão passava que tudo estava bem, quando aquele mesmo cérebro confuso teimava em dizer que não. Os toques e gestos feitos por Gil o fizeram delirar e se se submeter a tudo que o rapaz queria. Começaram o ato no chuveiro, mas mais velho queria Al lhe possuindo em sua cama, e assim ele fez. Tocou e explorou seu corpo seguindo instintos que jamais pensou ter, uma fera faminta ao encontrar carne. Penetrou-o sem dó nem piedade, levando Gil a gemer alto e de maneira intensa. Gostava disso, da gratificante sensação de ter a parceira (no caso, o parceiro) entregue a todos os seus gostos. Era egoísta. Seu bel prazer vinha primeiro, o resto depois. As garotas sempre se sentiam usadas, mas não foi o caso naquela ocasião. Duas combustões que buscavam manter acesas sua chama, fosse com a curiosidade e adrenalina de sentir sensações novo ou o próprio sexo a base de álcool e tesão — certamente se alguém tivesse os vistos definiria assim. No entanto, por mais que a reação fizesse seu membro querer criar vida, não conseguia, pois o peso de seu ato sobre sua sexualidade era maior do que o prazer e a vontade de sentir. A quem pedir ajuda numa situação dessas? Ninguém podia sequer sonhar que aquela noite existiu, quem dirá ajuda para compreender tudo. Só não entrou no desespero por se conhecer bem — Nunca fez nada de bom quando seus nervos ficavam à flor da pele. Por isso, depois que Gil dormiu, foi olhar o céu, buscando a calmaria e a serenidade da natureza para lhe guiar numa noite em que pregar o olho, aparentemente, estava fora de cogitação.

Assustou-se ao ver que o parceiro se movimentou na cama e abriu os olhos com calma e sutileza. Não aparentava estar confuso, só com sonolência comum de quem a recém despertou. Pelo gesto que fez em seguida sobre sua cabeça, deduziu que o rapaz estava com uma dor de cabeça infernal — Sabia que isso iria acontecer, afinal tinha bebido muito. Pensou em pegar algum remédio que aliviasse a terrível sensação, mas desconhecia a casa, portanto achou inútil tentar ajudar. Ficou a observar Gil esticando seu corpo magro e esguio até o criado mudo do lado esquerdo da cama. Estava nú, tal como Alisson, e o menor percebia seu interesse em provar de novo daquele prazer. Não foi tão diferente quanto imaginava que seria, mesmo assim criar comparações fazia sua culpa pesar ainda mais sobre seus ombros cansados. Tanta coisa já tinha lhe acontecido e agora tinha de lidar com o tesão ao olhar para o bumbum de outro rapaz.

Sensações novas, um mundo a ser descoberto… Por um momento quis voltar a ser criança, em seu primeiro dia de aula mais especificamente, quando todas aquelas pessoas e o que falavam parecia tão suspeito e aterrorizador. Lembrou-se das lágrimas que rolaram por seu rosto juvenil. Havia medo nelas, sentimento tão profundo que fez míseras quatro horas virar anos de sofrimento. Era tudo o que vivia no presente: Coisas novas com pessoas novas, com a desvantagem de já controlar suas lágrimas e saber quando usá-las. A expressão “Homem não chora” nunca lhe fez se sentir tão mal como naquele momento. Chorar seria tão bom, berrar e gritar para que tudo aquilo que estava se acumulando fosse embora para não mais voltar. Infelizmente, não conseguia. Seu corpo e sua mente não lhe obedeciam. Forçavam-o a encarar a realidade e lutar, talvez pela primeira vez na vida, como um homem.

Gil permaneceu deitado por mais alguns minutos depois de tomar um comprimido que achou na gaveta, enquanto Al voltou sua atenção ao céu e seu fenômeno natural. Quando conseguiu ter disposição para levantar, o maior foi até o outro e lhe abraçou por trás, beijando-lhe a nuca e dando algumas mordidas de leve em sua orelha. Pensou na hipótese de ocorrer uma rejeição — mínima que fosse — porém nada ocorreu. Alisson aceitou seus carinhos com naturalidade. Sorriu com isso.

— Tu tá muito Ian com essa atitude — Comentou, com uma voz suave e rouca de que acaba de despertar de um sono gostoso (Que de fato ocorreu).

— Ele tem mania de ficar pelado no meio da madrugada? — Debochou, arrancando mais risadas.

— Também. Mas falo de observar as estrelas. Ele adora.

— Bem que ele faz. É lindo.

— Verdade.

Seguiu com os corpos grudados por seu abraço. A pele fria de Al em contraste com a sua causava uma sensação agradável. Não de paixão, mas conforto. Sua mente também parecia embaralhada com a estranheza da cena. Procurou espantar seus medos. Estava acontecendo, era real, nem que fosse por uma única noite. Poderia morrer naquele momento que iria em paz e com a certeza de que sua missão foi cumprida.

— O que eu faço agora, Gil? — Precisava de ajuda, um conselho que fosse, para ter algo pelo qual lutar — Eu tô perdido. Não sei o que fazer…

— O primeiro passo é aceitar que aconteceu — Seguia com sua voz tranquila — Achou que foi bom? Prazeroso?

— Sim — De que adiantava mentir aquela altura?

— Tá indo bem — Mais alguns beijos no pescoço do menor.

— É sério, Gil. Eu tô apavorado com isso — Virou-se frente ao garoto, encarando fundo em seus olhos — Tudo que eu acreditava ruiu na minha frente e eu não pude fazer nada pra impedir.

— Olha, Al, o mais importante agora é tu não entrar em negação. Isso é horrível e pode trazer consequencias bem graves. Tive vários conhecidos que tentaram até suicídio por causa disso, sabia?

— Ei, não é pra tanto! Não é o fim do mundo, mas também não é o céu, né?

— Olha só — Surpreendeu-se — Que diferença dessa atitude pra vez em que fingi que tu me comeu....

Al revirou os olhos, mas não deixando de sorrir ao lembrar da maldade cometida pelo parceiro.

— Ainda acho aquilo uma filha da p*tagem, mas hoje foi diferente — Seu tom era entristecido — Eu… Fiz porque quis. Tá certo que tu ficou provocando, mas eu senti vontade de fazer, sabe? Ver como é a coisa, se o c* é melhor ou pior que a b*c*ta, essas coisas…

— Logo se vê que tu não do vale, né Alisson? Que palavreado! — Riu por alguns instantes — Eu te entendo. Desculpa. É que desde que botei o olho em ti imaginei que tu tinha pegada, daí…

— E eu tenho? — Ergueu a cabeça, se animando ao receber um “sim” em aceno como resposta — Acho bom mesmo — Roubou um selinho do maior — É… Eu também gostei.

— Sério?!

— Aham.

— E achou o c* melhor ou pior que a b*c*ta?

— Melhor — Levou suas duas mãos ao bumbum do rapaz, dando um tapa com cada mão nas duas partes — É mais apertadinho… Dá até tesão de falar.

Gil maliciou, puxando Al de novo para a cama. Como adorava a sensação de conquistar o impossível. Ver Al era como enfrentar uma batalha interna todo dia para não arrastá-lo para sua cama. Tesão inexplicável, inconsequente por muitas vezes, capaz de levar a atos incalculados e até impróprios. Tudo tornou-se tão palpável devido a uma única noite — na qual nem tinha pensado chamar o rapaz e, independente disso, o universo fez questão de atrair sua presa a armadilha improvisada — no caso, a festa. Tinha naquele momento o toque a pele fria de Alisson como jamais pensou que ocorreria, seus braços o agarrando e suas mãos a percorrer seu corpo de forma habilidosa. Namoraram por mais alguns minutos — tempo suficiente para acabar com o fogo de palha — até que o rapaz começou a tatear pelo chão em busca de sua vestimenta íntima.

— Onde tá minha cueca? — Pensou alto.

— Aquela lá? — Apontou para a cadeira ali presente.

— Sim. Valeu.

— Cueca vermelha.... Veio pedindo maldade, né? — Provocou.

— Claro — Deu de ombros, enquanto se vestia — Precisava de uma noite legal pra distrair. Só não imaginava que acabaria assim.

— Outras virão?

O olhar de Gil parecia avaliar seus gestos a fim de decifrar a incógnita estampada em seu rosto. Mesmo o prazer não ofuscava a confusão. O certo, na cabeça do menor, era dizer que ‘não’. Se isso era tão óbvio porque seu coração insistia em um ‘talvez’?

— Ah, cara… Não sei ainda… — Coçou a nuca — Tá difícil nesse momento responder com certeza.

— Pra mim tá tudo bem claro — Até então deitado, o maior sentou-se na cama, ainda com o olhar fixo no amigo/ficante — Mas sei que tu precisa do teu tempo pra digerir tudo isso, assim como encontrar a solução mais sensata.

— Dizer que eu sou bissexual? — Confrontou, para a surpresa do outro — Eu achei que isso ficou óbvio.

— Ué, mas então qual o problema, Al?

— O problema é que… — Suspirou — Sei lá. Talvez seja coisa da minha cabeça. O que eu sei é que não dá pra eu te afirmar que iremos transar de novo.

— Então o problema é comigo?

— Claro que não — Sorriu — Tu mandou muito bem. Deixa eu me sentir confortável em ser bi que daí te respondo. Pode ser?

— Pode — Retribuiu o sorriso, levantado de novo para roubar outro beijo de Al.

E assim ajudou o menino a se vestir, não se ficar lhe provocando como podia. Por fim, ele decidiu ir embora, queria descansar e pôr em ordem os acontecimentos daquela noite tão confusa e agitada. Gil queria insistir — até fez uma manha básica — mas acabou compreendendo a necessidade do outro de paz e tranquilidade. Atravessar o difícil percurso de aceitação e assimilação de sentimentos nunca foi algo fácil. Vendo pelo ângulo de alguém que foi boa parte de sua vida (até então) heterossexual, fica mais delicado ainda. O máximo que conseguiu fazer foi acompanhá-lo até a saída da casa e deixar que os ventos o guiassem até seu lar.

Alisson seguiu pelas ruas serenas de Nova Petrópolis procurando se situar no tempo e espaço. Tanta coisa havia mudado sem que ele pudesse fazer nada para impedir. A última era o telhado de vidro que se tornou sua sexualidade. Lhe veio a cabeça o primeiro “namorico” de infância que teve com uma de suas colegas da (na época) terceira série. Ganhou visibilidade por aquele ato honroso de ter conquistado uma menina, vendo inclusive pais de amigos da escola incentivarem o mesmo, como se meninas fossem troféus a serem exibidos. Não foi nada sério, compromissado, mesmo porque Marisa, como mãe consciente que sempre foi, jamais incentivou a ideia e tampouco achou bonitinho o filho contar sobre a tal namorada. Fez o que pôde para afastar os dois, proibindo-o de ir na festa de aniversário da menina, andar de mãos dadas ou qualquer gesto que delimitasse o fim da infantilidade do filho. Claro que Al a desafiou, muito, mas foi uma época tão mais fácil de se lidar. Hoje entendia o lado da mãe — Só não queria que o filho crescesse fora do tempo. Estava certa, crescer não era fácil. Como almejava que seu maior problema fosse a proibição da mãe sobre seu namorico… Agora, outro sentimento estava sobre posse de seu coração. Algo novo, capaz de causar turbulências grandes em sua vida, contudo precisava arranjar um meio de lidar com aquilo. Algo era certo: Heterossexualidade? Nunca mais.

Quando deu por si, o labirinto verde estava a poucos metros de si. Vagar pelas ruas com a cabeça nas nuvens sempre lhe fazia perder os sentidos. Decidiu ir até lá. Sempre fora seu lugar favorito na cidade — aquele porto seguro pela revolta e turbilhão que passam pela vida da gente. Caminhou a passos largos em direção ao centro do lugar, sentando-se e encarando de novo o céu. Ansiava por uma resposta para seu atordoado coração. Não aguentava mais a culpa e o remorso corrompendo tudo de bom que existia dentro de si. Em seu olhar reinava a busca pela compreensão e pela paz interior, como sempre em sua vida, mas que, a cada dia que passava, mostrava-se mais difícil e mais longe de ser alcançada.

De repente, um choro com soluço começou a ecoar pelo local. A suspeita de haver alguém além de Al ali era evidente. Seu sexto sentido insistia para ir ver de quem se tratava. Considerou o risco de ser um golpe, afinal, não é porque a cidade era minúscula que latrocínio não existia. Porém, poderia ser realmente uma pessoa desamparada. O que faria? A resposta não tardou a acontecer.

Como nunca teve maiores medos, acabou indo em ritmo bem lento e com os dois punhos bem fechados, para garantir que, na pior das hipóteses, morreria lutando. Ficou curioso ao ver de quem se tratava.

— Pateta? — Tinha um tom intrigado e, ao mesmo tempo, preocupado — O que tu faz aqui?

Daniel, na mesma hora, parou de chorar. Engoliu seu choro como se aquilo fosse a coisa mais vexaminosa que já aconteceu na face da terra. Procurou disfarçar como podia, mesmo com Alisson conhecendo bem algumas manias suas. Até demais, em sua opinião…

— Quis arejar um pouco a cabeça, ué — Sua voz ainda saia trêmula e inquieta — Qual o problema nisso?

— As quatro e meia da manhã?

— Vai me dizer que tu veio pescar aqui, bebezão? Não né. Aposto que veio fazer o mesmo, então não me amola — Fez uma expressão de mula emburrada, arrancando risadas do mais velho.

— Como é que uma pessoa consegue ser tão infantil?

— E como alguém consegue ser metido?

— Eu? metido? Qual é, pateta!

— Exatamente — Levantou do banco com uma expressão de poucos amigos no rosto — Posso saber o que te interessa eu tá aqui.

— Sinceramente? Nada — Deu de ombros — Só achei estranho, assim como tu também deve achar estranho eu tá aqui.

— Não acho nada. Tenho os meus problemas pra me preocupar. Não tenho interesse na vida dos outros.

— Quem olha até acredita…

— Cala boca — Mostrou o dedo médio, arrancando risadas do maior.

Al sabia que era uma batalha perdida argumentar com Daniel. O rapaz tinha espírito de mula quando queria, sendo difícil fazê-lo recuar ou se abrir com facilidade. Acabou por se sentar e checar suas redes sociais. Podia simplesmente seguir para o seu canto e deixar Dan e seus desatinos de lado, porém sua mente não iria descansar sabendo que não fez nada para ajudá-lo. Importava-se com o garoto, mesmo que isso fosse estranho. Tinham se conhecido há tão pouco tempo e, no entanto, já sabiam tanto um do outro. Viveram situações que nem mesmo melhores amigos de longa data não tiveram a chance. O mais novo tinha um lugar só dele em seu coração. Nunca admitiria isso em voz alta, o que não impedia de ter ciência disso.

— Eu… Briguei com a Van… — Confessou o garoto depois de alguns minutos. Brincava com os polegares para distrair sua aflição.

— Por?

— Por uma coisa idiota.

— Ciúmes, pateta? Sério? P*rra, quando tu vai aprender a ser mais segu-

— Não foi isso — Encarou o olhar de Al — Traí a Van… De novo.

— O quê?!

— E a culpa é toda tua.

— Minha?! — Ficou pasmo com a acusação — Tu pirou é?

— Quem mandou tu me beijar, hein? Quem foi que pediu?

— Que c*! Será que vou ter que repetir cem vezes que eu tava bêbado nesse c*r*lho pra tu acreditar em mim?!

— F*da-se.

— E o que isso tem haver com teu namoro?

— Não fosse tua brincadeira de mal gosto, talvez não desse mais brechas pra outra traição.

— Perai — Só então que Al se deu conta de algo — Tu tá dizendo que traiu a tua mina com um—

— UMA guria, espertinho — Atento, Dan acreditou ter dado a volta em sua colocação — Mas não interessa. Agora meu namoro tá por um fio.

— Continuo sem entender qual minha culpa nisso tudo — Cruzou os braços — Eu me responsabilizo pelo meu beijo, ok? Se tu resolveu beijar outra mina, problema é teu e da tua consciência.

A coisa que Daniel mais queria naquele momento era poder estrangular o amigo como se faz com galinhas em abate. Odiava quando perdia o controle da situação. Se Alisson estava assim aceitando a hipótese de ter beijado uma garota, como reagiria se contasse a verdade? Nunca lhe daria o gosto de saber. Por não ter mais argumentos, apenas levantou e seguiu a passos fortes para sua casa. Precisava de um tempo a sós. Com certeza aquilo se resolveria. Já Al, que continuava desnorteado com as falas sem nexo de Daniel, apenas voltou ao centro do labirinto verde. Porém, seus pensamentos eram diferentes do princípio. Resumia-se em três: Bissexualidade, Transa com Gil e Daniel. Acabou por adormecer enquanto buscava as respostas para suas perguntas.

Acordou quando, em dado momento, um grupo de crianças começou a cutucá-lo. Devido a sonolência, não pôde entender com clareza o que falavam, só que acreditavam ter encontrado um cadáver. Ao despertar, as crianças — não sabia quantas ao todo — saíram correndo, gritando e rindo. Achou, no mínimo, hilária a situação. Conseguia ver as pessoas acreditando que era um bêbado varrido. Tentou se levantar, sentindo sua cabeça tontear de imediato. Estranhou, afinal estava bem horas antes. Quando finalmente conseguiu se equilibrar checou seus bolsos, agradecendo por nenhum marginal ter tomado nada seu. Foi caminhando pelas ruas, ainda com aparência de sono e com aquela sensação lhe enchendo a paciência. Doente? Era uma possibilidade. Passara a noite ao relento. Resolveu que daria um jeito assim que chegasse em casa, tomasse seu banho e descansasse um pouco mais na manhã ensolarada daquele domingo.

Mal entrou em casa seus ouvidos já captaram risadas vindas da cozinha. Risadas duplas, um péssimo sinal. Com muito cuidado, aproximou-se às escondidas para notar o que ocorria: Marisa e Edu, como dois adolescentes apaixonados, tomando café. Ele com uma cueca samba canção e ela com seu roupão de banho rosa chiclete. Quis evitar, mas seus olhos reviraram quase que instintivamente. Demoraria a se acostumar com a ideia daquele homem frequentando sua casa. A desconfiança era sua única certeza com relação a ele. Não comprimentou, preferindo subir as escusas a ter de dar qualquer satisfação sobre sua vida. Entrou em seu quarto, abriu seu guarda roupa e tirou de lá qualquer coisa que pudesse vestir. Seguiu até o banheiro, ligando a água em seu tradicional banho quente. Despiu-se, entrou embaixo d’água e deixou que ela levasse embora tudo que pesava sobre seu corpo. E a única coisa que percebeu, foi quando a escuridão lhe cegou por completo — Acabou por desmaiar.

***

Noite e dia tornaram-se coisas tão banais quanto dormir para Daniel. Desde que saiu da praça da república após a discussão com Alisson que não pregou o olho um minuto. Estava inquieto, preocupado, esperando alguma reação por parte de Vanessa. Nada, Já era em torno das 10 da manhã e não havia sequer lhe bloqueado — como fez questão de checar várias e várias vezes, quase que a cada hora, para ter certeza de poder se explicar. Mensagens mandou tantas quanto sua mente criativa lhe ajudava, não obtendo nada além do silêncio. Conhecia Van. A loira acordava cedo, portanto, já deveria ter lido — o aplicativo indicava que as mensagens haviam chegado. A única solução seria ir até sua casa, mas ela o receberia? Deixar o tempo curar as feridas? Até quando aquilo iria durar? Perguntas que não sabia responder, deixando pior a cada instante.

O que lhe fez se alegrar foi a mensagem de Ian avisando de seu retorno mais a tarde. Como aquilo aqueceu seu coração. Tê-lo por perto era a certeza de uma visão mais calma das coisas, como um filtro do sonhos, capaz de espantar até o pior dos pesadelos. Talvez se estivesse ali, muitas das coisas que ocorreram não tivessem sido sequer cogitadas. O primo era seu porto seguro, jamais duvidou disso. Ficou anos com pouco contato com ele, sofrendo muito por isso. Amava todos os seus familiares, mas o jeito com que via Ian era quase como um herói. Brigavam, se xingavam, às vezes até partiram para as vias de fato, mas sempre se uniam, mais fortes e mais cientes do amor mútuo presente em sua relação. Começou a contar as horas para ver aqueles lindos olhos e o sorriso estonteante para lhe fazer sorrir de novo. O mundo sem Ian era um grande breu, e as férias o fizeram perceber isso. Decidiu jamais deixar o primo retornar sozinho a Porto Alegre — Ou iriam juntos ou ele não iria. Detestaria passar outras duas semanas como aquelas.

Dan levantou, foi até o banheiro e fez sua higiene matinal como de costume. Um pouco mais alegre, diga-se de passagem, mas não tanto a ponto de afugentar a tudo que a mente insistia em lembrar. Vestiu-se com um calção cinza de tecido bem leve — pijama — e uma camiseta preta, indo direto ao andar de baixo, onde Bruno e Isabel tomavam seu café. Encararam o filho com vestes tão a vontade e estranharam.

— Ainda bem que o verão começou cedo esse ano, né filhote? Senão tu era bem capaz de pegar uma pneumonia — Isabel ironizou.

— Bom dia pra senhora também, mãe — Respondeu no mesmo tom — É só o tempo de eu tomar café. Já subo e coloco uma roupa Ué, mais quente.

— Já soube que o Ian tá voltando, filhão? Clara ligou avisando — Foi a vez do pai entrar na conversa.

— Sim. Até que enfim, né? Fica uma eternidade lá. Não sei que tanta coisa tem pra resolver por lá.

— Não sei se tu sabe, Dan — Isa interferiu — Mas o Ian também tem mãe e pai. E ele sente saudade dos primos.

— Ué, que ligue então. Telefone existe pra isso. Aliás, existe até aplicativo de mensagem! Mais moderno ainda!

— Eu fico abismada — Encarava o filho — De onde esse guri herdou tanta rabugice? É de ti, Bruno?

— Minha? — O homem respondeu — Mas o que eu fiz?

— Nada, né benzinho? Se tivesse feito, quem sabe nosso filho não seria mais empático com os outros…

— Já vi que hoje é meu dia — Reclamou o garoto.

— Por falar em dia…Quando é que a Vanessa vai vir jantar aqui em casa? Achei ela um encanto de guria, mas não pudemos conversar muito na festa do Micael…

No mesmo instante, Dan largou seu pão e encarou a mãe. Tinha um olhar sério, até um tanto sombrio, mas quem em nada a abalava.

— Não vamos falar dela, tá? Outro dia a gente vê isso — Pediu, ainda com a voz calma.

— Tudo bem. Como tu quiser — Isabel apoiou os braços em cima da mesa e cruzou as mãos — Só não entendo essa insistência em manter a menina longe da gente. O que tu pensa, Daniel? Que vamos fazer ensopado dela? Pelo amor de Deus, né?

O rapaz não aguentou. Bateu com os ponhos em cima da mesa devido a raiva.

— Dá pra parar de falar dela, c*r*lho?! — Aumentou o tom de voz.

Bruno, na mesma hora, pegou Dan pelo braço apertando forte.

— Tua mãe não é tua irmã pra tu falar com ela assim. Pede desculpas agora! — Exclamou, em tom autoritário.

— Não vou pedir nada! Já falei que não quero falar dela!

— Pois então tu não vai falar dela e de mais ninguém. Tu vai agora pro teu quarto, de castigo. Deixa a porta aberta, escancarada, porque se eu te pegar mexendo no celular ou vadiando até tu pedir desculpas, tu vai apanhar. Entendeu? — Bruno olhou firme nos olhos do filho.

Largou seu braço e deixou que o menino fosse a passos largos até seu quarto. Socou seu travesseiro de ódio. Por que não conseguia ser mais ponderado e equilibrado? Agora tinha mais uma conta para acertar, e das grandes…

CONTINUA