A Teoria das Cores
62 Branco VI
ANGÚSTIA
O ser humano gosta de ressaltar o quanto é superior as demais forças da natureza, subjulgando seus dons que vão para além de nossa compreensão. Vendemos a imagem de sermos fortes, resistentes e capazes de enfrentar a tudo com bravura. No entanto, basta uma simples gripe para que tudo isso caia sob nossas cabeças. As doenças, viroses, infecções… Formas de punição encontradas para que nosso ego não fosse além do permitido, do crível. Elas, mesmo em seu tamanho mais microscópico, são capazes de nos enfraquecer e nos tornar submissos de remédios, chás, simpatias… E se tinha algo no mundo que tirava Alisson do sério era isso: A exposição a cuidados médicos devido a essas coisinhas malditas que atrapalham o bom andamento da rotina.
Quando se viu naquele ambiente que detestava mais do que uva passa, pensou seriamente em todos os seus pecados. O local bem higienizado, organizado, mas ao mesmo tempo um lar para tudo aquilo que o faria ficar pior do que já estava. Em seu braço, uma agulha pontiaguda enviando um líquido incolor para sua corrente sanguínea. Foram longas quatro horas com aquilo enfiado em sua veia, mesmo que o tempo fizesse parecer uma eternidade.
Logo em seguida, uma médica de cabelos loiros, um sorriso estonteante entrou na sala pouco espaçosa. Atrás dela, Marisa e Edu entravam com ares de alívio por vê-lo bem – principalmente sua mãe. Deu passinhos rápidos como os de um canário no chão até o filho, distribuindo beijos por todo seu rosto. Começava a curtir o paparico, quando, de repente, deu um tapa em seu ombro com raiva.
— Isso é pra tu aprender a me ouvir quando eu digo pra te alimentar direito! — Exclamou.
— E precisa tirar meu ombro do lugar pra falar isso?! — Replicou.
— Não discute que teus argumentos acabaram.
A médica e Edu riram de ambos. Mesmo com a discussão, era evidente o quanto ambos se importavam um com o outro. O carinho e até mesmos os gestos mais incógnitas não seriam os mesmos vindos de um desconhecido, pelo menos assim Al pensava. Queria saber o que “ele” (no caso Edu) fazia ali, porém decidiu que saber de sua situação era mais necessária naquele momento.
— Vejo que está se recuperando e reagindo — Parecia verdadeiramente contente com a melhora substancial do rapaz — Sou a doutora Priscila. Muito prazer, Alisson.
— O “prazer” é todo meu, doutora — Marisa sentiu a malícia do filho e seu enfoque no “prazer”. De imediato deu um beliscão discreto em seu braço — Ei! — Exclamou.
— A senhora pode pro meu filho o que ele teve? — A mãe ignorou por completo o resmungo.
— Tô aqui faz ‘mó tempão e nada de alguém me falar — O garoto tornou a contestar.
— Não seja por isso, garotão — Priscila seguia de bom humor — Tu tiveste uma crise de hipoglicemia.
—Hipogloss com chimia? — Não entendera a palavra.
— Hipoglicemia — A médica repetiu, rindo da confusão — Faz quanto tempo que não se alimenta?
— Olha — Coçou a nuca — Desde ontem. Devia ser umas 22, 23 horas...
— Juntando tudo ocorreu essa crise. A tua taxa de glicose baixou, resultando no desmaio e no mal estar — Explicou — Agora é só fazer o teste do nível da glicose e dos sinais vitais. Se der tudo bem, está liberado.
— Há quanto tempo eu tô aqui?
— Pelo menos umas seis horas...
— SEIS HORAS?! — Espantou-se com tal.
— Obrigado por tudo, doutora. Pode fazer os exames pra gente levar nosso Al pra casa — Marisa desviou o assunto. Queria tirar o rapaz dali o mais rápido possível.
— “Nosso” Al? — Alfinetou o menino. É claro que fora um afronte ao namorado da mãe.
Marisa nada respondeu, apenas deu passagem para que a gentil profissional pudesse realizar os exames. Tinha absoluta certeza que o filho reagiria daquela forma, mesmo já tendo esclarecido tudo por mais de uma oportunidade. Confessou seu passado “sombrio” a respeito do pai dele, tolerou os desaforos e as indiretas que dirigia aquele homem que tanto lhe queria bem; sempre na esperança de agradar a gregos e troianos. Afinal de contas, por mais bondoso e carinhoso que fosse, Edu também não estava feliz com o clima entre ele e seu suposto enteado. Colocou na cabeça que naquele dia resolveria aquele assunto de uma vez por todas.
Passados dez minutos, os testes foram devidamente concluídos e Alisson pôde, enfim, ir para casa. Estranhou o fato de Marisa ter lhe entregue uma muda de roupa, notando pouco depois que estava com um roupão de hospital.
— Por que eu tô com isso? — Questionou, curioso.
— Ué, tu desmaiou, aí ouvimos o barulhão no banheiro, te vimos no chão e te trouxemos pra cá. Não deu tempo de por uma roupa — Justificou a mãe.
— O QUÊ?! A SENHORA ME TROUXE PELADO PRA DENTRO DO HOSPITAL?!
— E DAÍ? NÃO TEM NADA AÍ QUE EU JÁ NÃO TENHA LIMPADO, SEU MAL AGRADECIDO! TEM MAIS QUE AGRADECER QUE ELES TINHAM AQUI ESSE ROUPÃO!
E foi assim que ambos seguiram até o carro (logicamente após Al se vestir): discutindo sobre o dilema de Marisa de expor o filho nú pela cidade ou de salvá-lo de uma possível tragédia. Trocaram farpas e questionamentos o tempo todo, com raras pausas para pensar em argumentos fortes (mesmo que não houvesse). Edu seguia calado, preferindo não se intrometer de novo e arriscando a tirar de vez a paciência de Alisson. Planejava sim se tornar uma figura presente e importante na vida dele, porém sabia que ele tinha suas razões para tamanha rispidez.
Ao chegar em casa, mesmo com a rejeição e repulsão do menino, Edu o auxiliou a chegar em seu quarto para descansar. Marisa também colaborou como pôde, tratando de ajudar a ajustar os travesseiros e cobertores para aquela fria tarde de domingo.
Ainda com dores por causa da queda (e até mesmo da própria injeção do soro), Al permaneceu praticamente inerte aos cuidados enquanto sua mente vagava sem rumo por tantos acontecimentos. Não bastava todos os calvários pelos quais havia passado, a vida não se mostrava piedosa em lhe dar mais um e outro. O da vez era aquela figura estranha e pouco conhecida para si. Era errôneo dizer que odiava o namorado da mãe, sua imaturidade tinha limites. O grande problema em si era uma figura masculina, cujo parentesco sanguíneo não existia, querendo conquistar seu espaço como “homem” da casa. O pai deveria fazê-lo, mas já conhecia a história dele o suficiente para deduzir o quanto sua falta se mostrava necessária. Ainda sim doía, por todas as lembranças que não viveu, pelas datas inexistentes, carinhos que nunca saíram do sonho. Como lidar com isso e ainda aceitar outra pessoa com a intenção de tomar aquele lugar tão importante?
Edu nada falou, apenas foi em direção a porta do quarto e desceu até a sala, deixando mãe e filho a sós para conversar. Ambos necessitavam daquele diálogo, já que certas decisões eram inevitáveis. A mulher sentou na cadeira presente ao lado da cama do garoto, passando a mão por seus cabelos castanhos. Impossível para ela observar nos olhos deste e não ver a tempestade que demonstrava, o misto de confusão com insegurança e tantas sensações mais que lhe eram desconhecidas.
— Como é que tu tá? — Perguntou, com a voz solene.
— Melhorando eu acho — Seu olhar era baixo e triste. Não conseguia sequer encarar os olhos da mãe sem sentir vergonha por não compactuar com sua felicidade.
Marisa então pegou na mão direita do filho, alisando como quando fazia tempos antes quando Al não passava de uma criança febril. A sensação daquilo foi tão intensa que pôde se ouvir cantando a cantiga de roda preferida dele, “Alecrim”, enquanto as pálpebras começavam a pesar e, só então, adormecia. Seu coração apertou de saudade daqueles dias em que a maior preocupação eram doenças que, vez ou outra, atormentavam a saúde de seu pequeno. Mas os filhos crescem, e com eles as responsabilidades.
— Filho — O nó na garganta quase lhe impedia de emitir algum som — Nós já conversamos sobre algumas coisas que são—
— Relaxa, mãe — Sorriu, mesmo que de canto e com ares notórios de tristeza — Isso é mais comigo do que com a senhora.
— O que me deixa mais preocupada ainda — Apertou de leve a mão — Se o problema fosse meu, eu daria um jeito. Mas não é...
— Eu também queria que esse sentimento passasse, sabe? — Confessava — Essa coisa sobre meu pai... Isso ainda é um saco pra eu lidar.
— Imagino — Foi a vez dela baixar o olhar — Eu fiz escolhas muito erradas na vida, Al. A única coisa de bom que aquele homem me deu foi tu. O resto eu apagaria com a maior facilidade da minha cabeça.
— Entendo — Coçou a nuca — Agora eu entendo.
— Por isso mesmo eu queria que tu conseguisse entender que eu quero seguir em frente — Pediu, soando quase como uma súplica — Foram anos da minha vida ligada a esse fantasma, porque eu queria acreditar que tudo ficaria bem, que talvez ele viesse atrás, buscasse se justificar e até mesmo esclarecer o que eu vi naquele dia... — Ajeitou uma mecha de cabelo que caiu sob seu rosto — Mas isso não aconteceu. Aquela promessa que eu fiz pra ti quando tu era pequeno... Cada dia mais ela se mostrou sem sentido, baseada em uma série de coisas que eu acreditava, por ser muito nova.
— Sim, mãe. É só que... É difícil pra mim lidar com esse misto de coisas, entende? E também — Engoliu seco antes de falar — E-eu sei que ele não presta e tudo, mas não quero ninguém se achando o pai de família daqui. Esse lugar existe, mesmo que não esteja sendo ocupado.
Claro que Marisa entendia o ponto de vista do filho. O julgamento, perante as atitudes daquele que ajudou a lhe conceder seu único resquício de família após a tragédia que sucedeu o evento, ainda definido, porém, o sentimento da falta de um pai permanecia como uma âncora que o impedia de criar qualquer laço com o namorado da mãe.
— O Edu não quer ser teu pai, filho — Explicava — Ele só quer que a gente possa ter uma convivência, sabe? Conversar, bater papo, se distrair...
— Só que eu não quero ser forçado a nada — Foi a vez do menino pedir — É a única coisa que eu vou te pedir. Se tu quer que eu me dê bem com ele, deixa que eu me aproximo. Beleza?
Sorriu tal qual uma criança ao ganhar um brinquedo. A hipótese estava, de fato, sendo levada em consideração. Talvez demorasse alguns longos meses até a adaptação, afinal Alisson tinha esse lado sensível enquanto a figura paterna. Estava disposta a aceitar o que ele lhe propôs, se essa era a única via para a sua felicidade – e quem sabe até mesma a do próprio Al. Consentiu com a cabeça, abraçando-o em seguida. Mostrava o conforto e o acolhimento jamais acabariam, com ou sem Edu.
— Eu te amo muito, viu? — Sussurrou em seu ouvido, dando um beijo em sua bochecha.
— Também te amo, mãe — Com dificuldade, Al tentava retribuir ao gesto carinhoso da mãe.
Marisa torcia para dias melhores, com menos turbulências e mais voos calmos e despretensiosos. O que nem passava por sua cabeça, é que a vida ainda tinha algumas surpresas reservadas para si e, principalmente, para seu filho amado.
***
Quem nunca falou alguma besteira sem querer para alguém? São coisas que acontecem para além de nosso controle. Mesmo a mais calma das criaturas tem aquele dia em que tudo que foi sufocado durante dias, semanas, meses ou anos vem a tona sem filtros ou censuras da nossa racionalidade. Isso por si só já era algo preocupante – afinal palavras ferem e cortam tanto quanto uma navalha – mas, no caso de Daniel, a situação parecia se agravar cada vez que o garoto abria a boca para se manifestar.
A tarde chegava e com ela o peso de suas atitudes desmedidas. Estava em seu quarto quando ouviu a discussão entre seu pai e sua mãe – ele tentava argumentar sobre o quão importante era a ida de Dan na rodoviária para buscar Ian, no entanto sua mãe era irredutível. Queria lhe dar uma lição, fazê-lo aprender a ter consciência sobre suas palavras. Mesmo contrariado, Bruno acabou por ceder e deixar o filho em casa. Saber que seu primo adorado estava chegando e nem conseguiria estar lá para vê-lo fora, de longe, o maior dos castigos. Precisava dele mais do que nunca, já que ele, com sua calma e serenidade, tinha a resposta certa para qualquer dúvida. Um abraço seu e grande parte de seus medos se acalentariam, disso tinha certeza. No entanto, por conta de uma bobagem, isso não seria possível, e se odiava ainda mais por isso.
Virava de um lado para o outro na cama na esperança enxuta de aquela sensação ir embora e conseguir ao menos descansar. Não conseguia, lógico, já que a todo momento pensava em tudo que havia feito nos últimos dias e que nada parecia ajudá-lo. Cada vez que seus olhos fechavam, sua mente lhe trazia alguma de suas mancadas à tona. Vanessa, Alisson, sua mãe... Podia escolher qualquer uma delas, já que todas surtiam o mesmo efeito de fracasso e solidão. A única vez a qual ainda se lembrava de ter ficado tão só fora em sua mudança para Nova Petrópolis. Lembrava bem da música que tocava no rádio no dia do acontecido. A letra, anos mais tarde, fez muito sentido,
“There are times when all the world's asleep (Há momentos quando todo o mundo dorme)
The questions run too deep (Em que os questionamentos são tão grandes)
For such a simple man (Para um homem tão simples)
Won't you, please, please, tell me what we've learned? (Você não vai, por favor, por favor, me dizer o que aprendemos?)
I know it sounds absurd (Eu sei que parece absurdo)
But, please, tell me who I am (Mas por favor diga-me quem eu sou)”
Mesmo que a música, por si só, não fosse exatamente o que ele era, aquele trecho representava bem o quão sua mente estava perdida. Remando contra ou a favor da maré, tudo parecia complicado ou inalcançável. Como se resolver com Vanessa? Como falar com Alisson? Como pedir desculpas a mãe? Coisas tão simples, mas que se tornavam maiores cada vez que pensava nelas.
Arriscando a levar alguns belos puxões de orelha, Dan saiu ligeiro da cama e foi em direção ao guarda roupa, vestindo qualquer coisa que a sociedade aceitasse, e saiu dali o mais depressa possível. Sentia-se horrível estando confinado naquele espaço e nada o faria mais feliz do que ver gente – ato curioso para alguém que odiava sair. Mesmo que fosse por meros minutos, surtaria se não o fizesse.
Tratou de andar pelas ruas atento a qualquer movimento. A rodoviária era a poucas quadras de sua casa, ou seja, podia cruzar com os pais e Ian a qualquer instante. Na mesma hora ligou para Adrian, rezando para que o rapaz estivesse em casa para recebê-lo. Infelizmente, ele, o time e Amanda já haviam retornado para a estrada, já que as últimas competições estavam para acontecer. Esbravejou mentalmente por isso. Precisava de alguém para lhe fazer companhia pelo menos, mas quem mais chamar? Jeff, a próxima opção, pareceu a salvação da pátria. Só então lembrou: o rapaz ainda estava viajando junto a Sabine. Começou a se perguntar por que o destino não lhe estendia a mão uma única vez.
A cena que viu em seguida só piorou tudo. Caminhando em direção a Praça da República enquanto fazia as tentativas de chamar alguém, acabou por encontrar Ágata, Vanessa e um possível amigo delas sentados em um dos bancos. Estavam, ou pelo menos aparentavam, felicidade e companheirismo. Foi como um punhal em seu coração. O mundo desabando sob sua cabeça enquanto a namorada estava curtindo a vida sem preocupações maiores. Sabia que era egoísmo, porém queria que ao menos a garota aparentasse a mesma tristeza que ele carregava em seu peito e, pouco a pouco, ia arranjando brecha para se instalar de forma permanente. Era demais.
Deu às costas a cena e seguiu na direção de um dos problemas: Alisson. Já que o mundo queria lhe fazer enfrentar seus medos e mancadas, que fosse pelo menos com alguém cuja ferida prejudicava uma amizade cada vez mais necessária em sua vida. Vanessa, a figura principal, teria de ser enfrentada com calma. Um leão por vez, pensou.
Pouco depois já estava frente a casa do amigo. Não sabia exatamente como se portar ou apresentar diante da mãe dele. Resolveu agir naturalmente. Engoliu seco, respirou fundo e bateu palmas. Marisa apareceu em questão de segundos, com um olhar um tanto surpreso. Tentou se lembrar da figura do rapaz, mas nada lhe veio a cabeça.
— Boa tarde — O menino tentou ser simpático — O Alisson tá aí?
— Boa tarde. Tá sim — Respondeu — Quem gostaria?
— Daniel. Sou amigo dele.
— Ah. Sim! — Mostrou-se um pouco mais animada — Já vou abrir pra ti. Só um minutinho.
E assim o fez. Logo a mulher estava de volta com a chave de seu portão. Parecia amistosa e feliz por ter alguém vindo visitar o filho, ainda mais quando estava enfermo. Certamente ficaria feliz por ver rostos de amigos e conhecidos.
— Foi ele quem te chamou? — Perguntou ela.
— Não. Tava passando por aqui aí resolvi arriscar — Explicava — Ele tá por aqui?
— Tá lá no quarto dele descansando. Passou mal agora de manhã, mas agora já tá melhor.
— Passou mal? — Estranhou — Como?
— Pelo que a médica explicou, ele teve queda de glicose. Aí já tava há algumas horas sem comer e acabou desmaiando.
— P*rr... Digo, poxa vida— Corrigiu — Mas... Agora ele tá de boa?
— Acho que sim. Quando sai do quarto uma meia hora atrás ele tava descansando.
—Ah bom...
Marisa deu passagem para que Dan conseguisse entrar, mal sabendo que o garoto já esteve outrora em sua casa. Este, por sua vez, se viu surpreso ao encontrar com um homem além do amigo. Era de seu conhecimento que Al não tinha um pai, então aquela figura devia ser algum parente, deduziu. O homem se aproximou com um sorriso amigável nos lábios, estendendo a mão para cumprimentar.
— Tudo bem, guri? — Perguntou. Dan prontamente respondeu com um aperto de mão.
— Fala aí. Tudo certo.
— Daniel, né? — Marisa questionou — Eu sou Marisa, mãe do Alisson. E esse aqui é o Edu—
— Namorado da minha mãe.
Antes mesmo que tivesse a chance de continuar, Al surgiu na ponta da escada, encarando o trio com certa estranheza. Tentou tirar da memória algum plano feito com Dan, mas nada lhe ocorria. Suspeitou de sua estadia ali, ainda mais depois das palavras que lhe dirigiu.
— Eu não te falei pra ficar deitado? — Marisa repreendeu.
— Ouvi a voz do pateta e vim ver o que tava rolando.
— Pateta? É assim que chama um amigo que vem te visitar? — Surpreendeu.
— Querida, deixa eles. Tá na cara que é apelido de amigos — Edu saiu em defesa do “enteado”, para o espanto deste.
— Ah é? Vou começar a te chamar de pateta também. Vamos ver se tu vai gostar — Foi a réplica — Pede desculpas pro amiguinho, Alisson.
— Como é?! — Ficou pasmo com tal atitude.
— Pede desculpas, anda. Não vai cair a língua.
Revirou os olhos, ao passo que o amigo se controlava para não dar a gargalhada mais alta já ouvida pela humanidade.
— Desculpas, Danielzinho — Decidiu entrar na onda infantil da mãe, aproveitando para alfinetá-lo.
Claro que Dan não deixaria por menos, daria um jeito de provocar uma situação constrangedora. Ainda sim se deu por satisfeito.
— Viu como não dói? — Marisa já tinha um tom ameno na voz — Afinal, é muito raro eu conhecer algum amigo do meu filho.
— A senhora conhece o Jeff, a Amanda, o Gil...
— Ah sim e só conhece eles por um acaso?
— Eu vou organizar uma reuniãozinha aqui em casa pra senhora conhecer todo mundo — Ironizou.
— Acho ótimo — Concordou, sentindo o deboche.
Daniel seguia se controlando para não rir. Preferiu deixar que eles se entendessem, indo junto a Edu para a cozinha da casa. Ambos sentaram em lados opostos, com o rapaz na ponta norte que dava acesso ao corredor até a sala, e o “padrasto” do amigo na ponta sul. Ficou em silêncio, observando-o se ajeitar na cadeira e tomar seu café.
— Sinta-se em casa, rapaz. Pode se servir se quiser — Foi cordial.
— Não. Valeu. Tô bem assim — Respondeu — Então... Tu é namorado da mãe do Al?
— Faz alguns meses — Comentava — Aposto como Alisson nunca falou de mim, né?
— É... — Coçou a nuca, envergonhado.
— Imaginei — Tomou um gole da xícara de café preto — Não dá pra botar a culpa nele. A gente mal se conhece mesmo.
— Sério?
— Sim. Poucas vezes a Marisa me trouxe aqui, e geralmente era quando ele não estava.
— Entendi.
— E vocês? Amigos de longa data?
— Na real, conheço ele há bem pouco tempo. É um carinha legal, só... pisa na bola.
— Pisa na bola em coisas tipo...?
— Ah... Sei lá — Óbvio que não falaria do episódio do beijo — Sabe... Coisas normais. Rateadas que a gente dá de vez em quando.
— Engraçado... Sempre tive a impressão que ele é meio esquentado, revoltado — Confessava — Mas tô vendo que é só um adolescente rebelde.
— Um bebezão, pra ser mais exato.
Ambos riram do comentário “venenoso” do menor. Este começou a se sentir mais confortável na presença do outro, procurando entender as razões pelas quais Alisson o ignorava.
— Nem pude me apresentar. Eduardo, ou Edu, como preferir — O homem, finalmente, conseguiu falar seu nome.
— Daniel — Retribuiu.
Pouco depois, Marisa e Al surgiram na cozinha, com o menino cutucando o ombro do amigo. Estava apressado. Recusava-se a dividir espaço com Edu, afinal de contas, ainda era um estranho que estava em sua casa. Nem de longe o considerava parte da família.
— ‘Bora lá pra cima? — Chamou, praticamente em tom ordenado.
— Mas— Tentou contestar. Al foi mais rápido e o puxou pela gola da camiseta.
Assim os meninos foram (a passos bem rápidos e largos) até o quarto do maior. Claro que o convidado se sentiu um pouco incomodado com a atitude infantil, no entanto, lembrou-se de que seu telhado (principalmente naquela circunstância) estava bem próximo de se partir por inteiro. Ficou quieto, apenas se deixando guiar pela figura impaciente a sua frente enquanto agarrava sua gola com firmeza e determinação. Chegaram no quarto, Al fez questão de fechar a porta, retornando até onde estava até pouco: deitado em sua cama. Dan se sentiu a vontade para sentar na cadeira, observando curioso a plantinha em sua de sua escrivaninha.
— Eu também tenho um — Comentou — Quer dizer, tinha. Não sei se ainda tá vivo.
— Se cuida da planta como cuida da tua vida, deve de tá seca — Debochou, com um sorriso malicioso nos lábios — O que é que tu veio fazer aqui, pateta?
— Pateta não. Tua mãe quem mandou. Lembra? — A revanche havia chegado mais rápido que o planejado — Vim porque...
— Vamos. Tô escutando.
— Vai pressionar teu c*. Espera aí — revidou — Pensei melhor sobre o que te disse no labirinto ontem.
— Não me diga? — O tom de ironia seguia — Percebeu a burrada sem sentido que tu falou?
— Sim — Foi rápido na resposta — Tipo... Realmente tu não tinha nada que ver com quem eu fico e tal. É só que fiquei irritado, saca? A Van não facilita nada, o Ian não tá aqui pra me ajudar... P*rra, tô tendo que lidar com tudo sozinho. Vê se dá um desconto aí.
— Esse teu primo vou te contar, hein? Só ele mesmo pra ter paciência de lidar contigo.
— Cala boca.
— Vem calar — Intimidou.
— Vai começar a viadagem?
— “Vai começar a viadagem”? — Fez uma voz fina só para irritar Dan, conseguindo. O garoto socou seu braço, ato que só o fez rir — Falando sério, eu mesmo não me arrependo.
Então a surpresa. Jamais, nem em seu pior sonho, achou que o rapaz tomaria tal posicionamento. Como poderia não se arrepender de algo feito entre dois amigos? Mais do que isso, dois homens? Lidar com esse sentimento dessa forma tão simples e impositiva o fez criar uma desconfiança no olhar sob ele. Claro que o outro percebeu, preferindo apenas deixar para ver no que ia dar.
— Eu posso saber por quê? — Dan pressionou — O que de tão interessante tu viu em me beijar?
— Tá se dando muito valor — Desdenhou — Foi uma experiência. Ex-pe-ri-ên-cia. Sabe o que é isso?
— Acontece que esse tipo de experiência não é pra macho.
— Teu c* então — Deu de ombros — Quero ver se tem a cara de pau de dizer que não sou macho.
— Olha que tu pode quebrar a cara, hein? — Provocou.
— Quebrar a tua cara só se for.
— Faz isso. Quero ver tu se explicar pra tua mãe e pro teu padrasto.
Foi como um choque de realidade. Realmente: Qualquer ser vivo que entrasse naquela casa e o visse ali daria dois parentescos ao namorado da mãe: Pai ou padrasto. Considerando sua aparência jovial, muito provável que padrasto ficasse em maior número. E Daniel seria o primeiro de muitos que entrariam ali e se viriam nessa situação. Seu rosto fechou como um dia de tempestade. Odiaria ter de passar por mais situações como aquela. Resolveu por fim que ele seria o primeiro a conhecer a história toda.
— Ele não é meu padrasto — Encarou fundo nos olhos do menor — Ele não é nada meu. É só mais um cara com quem minha mãe tá saindo. Qualquer dia ela troca e vida que segue.
— Ué — Estranhou — Beleza. Só achei que—
— Pateta, eu vou te contar um negócio pra tu entender de vez o que ocorre. Pode ser?
— Pode — Aquilo atiçou sua curiosidade.
De repente, os ombros de Alisson começaram a ficar pesados, como se carregasse aquele fardo por tanto tempo que já estava cansado. Em parte sim, era verdade. Todavia, vivera uma vida acreditando e criando situações a respeito de seu pai. Então, aquela cruz era e ao mesmo tempo não era sua. Precisava ir até o fim, encarar o fantasma que o assombrou desde o dia em que descobriu toda verdade. Confiava, por algum motivo que não conhecia, em Dan. O menor lhe passava uma sensação boa de cumplicidade, ainda que fosse um tanto quanto conturbada. Respirou fundo antes de começar, controlando seu emocional para não se deixar levar tão facilmente.
— É o seguinte — Começava — Eu... nunca conheci meu pai. Não fazia ideia, até pouco tempo, de como era a cara dele. Quando era bem piá, lembro de sonhar algumas vezes em ocasiões em que nos conhecíamos e tudo ficava como devia ser. Tu lembra quando nos encontramos na rua esses dias que tu ia pra tua mina?
— Sim. Lembro — Tratava-se do dia em que, pela primeira vez, fez sexo com alguém. Era uma data especial para si.
— Naquele dia briguei feio com minha mãe, essa que tu conheceu há pouco, por ela não querer me contar nada sobre ele. Ela falou que esse cara aí com quem sai viria ficar aqui e fiquei muito p*to. Acabei me excedendo, levei um tapão na fuça e fui pra casa do Jeff.
— C*r*lh*...
— Ficamos poucos dias com esse clima, até que nos acertamos e ela resolveu fazer uma faxina na casa de novo. Dessa vez, foi só uma desculpa para deixar uma caixa estranha embaixo da cama dela pra que eu abrisse e visse a foto... do meu pai.
— Bah! Que f*da! Tu deve ter ficado tri feliz! — Empolgou-se.
— É, na teoria sim — Coçou a nuca — O problema foi o que ela contou depois...
Al explicou, com riqueza de detalhes, absolutamente tudo o que sabia a respeito dos pais. Desde como foi concedido até a descoberta horrenda e as suspeitas de pedofilia contra ele. Contou sobre a infância sem primos, contato com avôs paternos e maternos, toda a história de vida que carregava nas costas com muita força e, como Edu mesmo citou, rebeldia. A cada palavra lhe viam flashbacks daquele tempo em que tudo era tão difícil para si... Apesar de nunca ter lhe faltado amizades, queria conhecer pessoas de sua própria família. Amigos chegavam com pai, mãe, ás vezes alguma avó, e ele próprio sem ninguém além da mãe para apresentar. Uma dor começou a incomodar seu coração, ficando a beira de chorar compulsivamente, atraindo a solidariedade de Daniel. Jamais pensou que a história do amigo fosse tão triste e amargurada. Aquilo fez qualquer problema que teve na vida se transformar em pó. Tinha muito o que aprender com Al. Por hora, só se sentiu no direito de ser o porto seguro daquele que seria, no futuro, a pessoa mais importante em seu coração.
CONTINUA
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