A Teoria das Cores
63 Malva I
MELANCÓLICO
A vida e os bons momentos costumam passar por nós mais rápidos do que trem bala. É como uma roda gigante: ora lá em cima, voando com o mundo a seus pés; ora embaixo, voltando a realidade e tendo de lidar com seu caos rotineiro. Por esses e outros tantos motivos é que Ian estava agradecendo a experiência gratificante que teve em casa, ao lado da maioria dos primos. Porém, já era hora de retornar, resgatar tudo aquilo que deixou para trás duas semanas antes.
E tinha coisas: Daniel, Gil, Ágata, Diógenes, aulas para as crianças… Sua cabeça dava um nó só de pensar. Tentava ser otimista, mesmo sabendo que não poderia agarrar o mundo com as pernas. Ficaria mais do que contente se todos saíssem o menos machucados possíveis de suas “encrencas”. O foco, lógico, era seu primo. Para os demais, daria seu jeito. Estavam para inventar problema que o destabilizasse. Sua fé na vida e a força para se reerguer o motivavam a seguir em frente, lutando por si e por quem mais precisasse.
Pouco menos de dez minutos o separavam de sua querida Nova Petrópolis, lugar que adotou como lar assim que o primo para ali se mudou. O clima, as pessoas, o ar… tudo tão pitoresco. Pensava estar em uma cidadezinha de novela, tamanho espanto quando se dava conta de como até os desconhecidos eram conhecidos — somente por atravessar seu caminho por mais de uma vez por dia! Queria bem da cidade, e estava feliz por construir uma vida ao lado daquele que mais queria bem.
Seus pensamentos logo se direcionaram a ele. Torcia para tudo ocorrer bem, já que optou por se desligar de tecnologias enquanto estava fora. Sabia o quão fácil era para Daniel se meter em alguma encrenca, e sem auxílio de ninguém, o risco triplicava. Ainda sim, só pela ideia de ver sua alegria ao desembarcar do ônibus, munido de um sorriso contagiante único dele, seu coração aquecia. Já valia a pena todos os dias de confusão que teria de arrumar.
Assim que o ônibus estacionou na rodoviária da cidade, o coração do jovem deu palpitadas fortes, como um anseio, não só de vê-lo, mas de poder abraçá-lo, tocá-lo, beijá-lo… Aliás, lembrou-se do beijo. Como estaria sua cabeça depois daquilo? Tudo foi feito com tanto impulso da parte dele que conseguia ver seu olhar de cão arrependido, suas palavras de desculpas e sua mente cada dia mais se mostrando confusa. Queria ser otimista, mas, tratando-se de Daniel, sabia que era mais fácil caminhões virarem árvore.
Resolveria isso depois. Não era hora nem lugar para se lavar roupa suja. O que importava era o hoje, agora, e só. Tudo que antecedeu ficara no passado. O presente deveria ser o foco. E o presente remetia ao carinho que esperava receber do primo. No entanto, algo inesperado: Desceu do ônibus, encarou pelas redondezas a fim de ver seu amado, mas nada. Teria ele esquecido? Talvez tinha feito errado em não mandar mensagens comunicando — ou relembrando — de sua volta. O grande problema é que isso nunca se fez necessário, afinal Dan contava os minutos para revê-lo. Qual motivo o levaria a simplesmente não aparecer?
— Ian! — Ouviu a voz da tia clamando seu nome. Empolgou-se como uma criança em uma loja de brinquedos, mas durou segundos — Querido! Como foi a viagem?
— Fala, tia! — Tentou não transparecer sua decepção, devolvendo com um sorriso que pendia para o falso. Não que o fosse, só reprimia seu verdadeiro sentimento — Foi tranquila. Nada demais.
— Ainda bem. Eu fico numa aflição quando vocês viajam de ônibus. Entro em avião e não em ônibus. Acredita?
— É bem mais comum do que a senhora pensa, tia — Deu mais uma vasculhada, na esperança de ainda ver Daniel. Quando percebeu que os tios foram caminhando até o carro, seguiu-os, perguntando: — Dan não veio junto?
Isabel e Bruno se encaram, constrangidos. Sabiam que aquilo fatalmente aconteceria, só torciam para, por um milagre, terem uma boa explicação para dar ao sobrinho.
— Hã… A gente conversa em casa, gurizão — Bruno desconversou, atraindo ainda mais a curiosidade do rapaz.
Durante o percurso, silêncio. Havia um clima tão desconfortável que Ian já temia pelo primo. O que de tão grave poderia ter acontecido para criar tamanha agonia e constrangimento? Pensou em ligar para Dan e tentar se comunicar, mas logo descartou a ideia — estavam quase chegando.
Ao entrar em casa, não soube identificar o que mais atraia sua desconfiança: O silêncio ou a expressão facial dos tios. Ambos sequer mencionaram chamar o filho, deixando-o ainda mais inquieto.
— Aconteceu algo com o Dan, tia? — Perguntou, sem rodeios.
— Nada de grave — Adiantou a mãe do garoto — É que ele acordou hoje com aquele gênio, foi desrespeitoso comigo, com o pai… Enfim, tá com a macaca, como dizem.
— Ué, justo hoje?
— Isso que nos deixou surpresos também — Bruno entrou na conversa — Daniel sempre foi muito mimado e—
— Bruno! — Contestou a esposa.
— Vamos admitir, Isa! Ele sempre foi muito protegido. Ele trabalha, mas mesmo assim continua com essa maneira infantil de agir.
— Eu conheço ele. Certeza que já tá arrependido — O primo garantiu.
— Será? — Duvidou Isabel.
— Só há um jeito de saber.
Ian subiu até o quarto de Daniel, batendo na porta mais de uma vez antes de entrar. Para sua infelicidade, não estava ali. Pela lógica, óbvio que havia algo errado. Se os pais tinham-o deixado em casa, como poderia ter saído, pior, sabendo que estava por chegar a qualquer momento?
Sentiu um pedaço de seu coração apertar com o feito, de forma que há muito não acontecia. O laço que os unia sempre foi forte, como feito a base de aço. Jamais se quebrou. Tinha arranhões, mas quebrar? Nunca. Se nem o fato do primo ter surtado devido a seus impulsos sexuais o fizeram ter menos amor por si, nada mais faria. Até aquele momento… Passou dias a espera de voltar para cá e reencontrar o mais adorado de seus primos, aquele que seu coração mais gostava de compartilhar esse sentimento tão puro que é o amor. Tudo desmoronando diante de si por causa de mais um surto dele… Por que ainda se surpreendia?
Correu novamente até o andar debaixo para buscar o celular, que estava dentro do bolso da mala. Tentou de imediato contato com o garoto e nada, deixando-o ainda mais frustrado. Isa e Bruno se entreolharam, não compreendendo o que ocorria.
— Ele não tá lá em cima? — A mãe do menino questionou, com olhar surpreso.
— Não — Respondeu o rapaz, atento a seu aplicativo de mensagens — E nem tá recebendo as mensagens.
— Esse guri… — O pai estava visivelmente decepcionado.
— Quer parar? Ele é só como todo guri da idade dele — A esposa defendeu.
— Na minha época, se o filho desobedecesse o castigo do pai, ia ser mil vezes pior.
— E tu desobedecia igual. Acha que eu não me lembro?
— Isa! — Exclamou, envergonhado pelo sobrinho.
— Sei… Baluarte da moral, sei… — Sorriu, de canto. Tinha vencido — Não esquenta, Ian. Logo o Daniel aparece e a gente conversa sobre esses pormenores.
— Pormenores?! — Bruno se intrometeu novamente.
— Deixa que EU me entendo com o nosso filho. Dá pra ser?
O cônjuge bem que revirou os olhos, mas de nada adiantava. Sabia que Isabel jamais abriria mão da causa, uma vez que sua cabeça germinasse a ideia. A única solução era aguardar, se é que o filho de fato retornaria naquele mesmo dia, o que, em sua opinião, dificilmente ocorreria.
Nada disso impedia que Ian continuasse a sentir seu coração apertando cada minuto mais de saudade. Todos os dias de alegria que passou ao lado dos demais primos pareciam sem importância diante da infeliz realidade que lhe aguardava. Talvez devesse ter usado seu celular para manter contato? Era uma opção. Porém, nunca passou pela sua cabeça que isso pudesse acontecer. O jeito, como bem orientou a tia, era esperar....
***
O valor de uma bela amizade é incalculável. Em toda existência humana, nos cercamos de pessoas que queriam, cada uma a seu modo, nos mostrar visões de mundo que poderiam se opor ou se igualar as nossas, mas que, mesmo assim, se fazem únicas. A amizade é como água que, muitas vezes, passa despercebida no dia-a-dia. O grande problema vêm a tona quando esta se escassa. Só então damos o devido valor. Assim é a amizade. Assim era Daniel e Alisson.
Com tão pouca convivência, ambos podiam jurar que se conheciam desde sempre — o que de fato era verdade, mas sem a presença constante. Suas maneiras de pensar e agir pouco diferiam. Eram mais semelhantes do que divergentes, o que parecia atrativo a cada um deles.
Tinham seus motivos para gostarem da companhia um do outro: Alisson gostava de Daniel por ser, antes mesmo de uma criança em forma de adulto, alguém que sente, que deixa seu coração transparecer exatamente o que suas feições — não raramente — fechadas queriam esconder. Invejava-o por isso, já que tão pouco de si era visível até para ele mesmo, quanto mais aos que o rodeavam. Já Daniel, os motivos eram outros: Via em Al a coragem que lhe faltava, a determinação e a garra, a recusa a se curvar diante dos medos que porventura tinha. Fibra fazia parte de seu DNA, enquanto dele mesmo… Mal conseguia dar dois passos sem sofrer turbulências.
Quiçá fosse esse o motivo maior que o destino quis que se unissem: por serem exatamente partes opostas dentro da mesma ideia. Os polos iguais se atraem sim, contrariando teorias, mas não pela igualdade como um todo, mas pelas diferenças individuais que tinham. Complexo e, ao mesmo tempo, belo. A natureza não erra. E, a cada momento, mesmo que em seus inconscientes, os rapazes sabiam disso.
A noite surgiu pela cidade, encobrindo o quarto de Al em um breu quase total, não fosse pela televisão ligada em um videogame moderno. Jogavam jogos de corrida, animados, ainda que Dan tivesse mais dificuldade em lidar com suas derrotas do que com suas vitórias. Ficava emburrado, ameaçando, inclusive, abandonar a partida. O amigo não permitia, claro, criando “n” razões para seguirem. Nunca amolecia, deixando o clima de competição ainda mais acirrado. Até que, exatamente às 19h22min, o rapaz conseguiu vencê-lo, pulando e berrando de alegria como um ganhador de apostas da loteria.
— VIU?! VIU?! CHUPA, BEBEZÃO! — Vibrava com seu feito, apontando o dedo em sua face — EU TE DISSE QUE IA GANHAR! DE LAVADA AINDA!
— O mínimo que se espera depois de mais de trinta partidas, né? — Provocou, com um sorriso cínico nos lábios. A resposta veio com um tapa em seu ombro.
— F*da-se. Ganhei — Deu de ombros — Isso que importa.
— A próxima só daqui vinte anos. Aposto.
— Cala boca!
Dan largou o controle sem fio de um console moderno em cima da cama de Al, indo até a escrivaninha do rapaz para buscar seu celular. Só então percebeu que o aparelho descarregou. Revirou os olhos de raiva. Queria saber notícias do primo, já que, ao que se contava, não voltaria para casa naquele dia. Seria arriscado ir e tomar uma bronca dos pais, Iria encarar as consequências de sua rebeldia, mas em outro momento. Estava se sentindo bem demais para estragar tudo com brigas e discussões. O único contra era a falta de contato com Ian…
— P*rra mesmo… — Pensou alto enquanto plugava o aparelho no carregador.
— Que tu já tá resmungando,
? — Brincou, sem saber do que se tratava, lógico.
— Queria falar com o Ian, mas o celular descarregou. Queria saber como ele tá, se chegou bem…
Al não aguentou dar uma risada fraca. Balançava a cabeça, um tanto debochado, arrumando novamente o videogame para uma possível nova partida. Dan não entendeu, encarando-o com uma expressão nítida de confusão.
— Tu e esse teu primo, hein… Vou te contar — Seus olhos permaneciam fixos na tela da televisão — Por que vocês não namoram mesmo?
— Ah, claro. Esqueci que se preocupar com a família é boiolice.
— Não é isso. É só que, pelo que eu vejo, vocês tem bem mais coisas a resolver que assuntos de primos — Comentou.
— Nada haver — Desconversou, torcendo para o celular já ter carregado algo e sair daquela conversa.
— Ah, pateta. Por favor, né? — Tal atitude parecia ridícula em seu ponto de vista — Aquela história lá na casa do Gil, essa proteção que ele tem contigo… É bem… Sei lá… Curioso talvez?
Claro que tinha consciência de seus atos, mas quando Alisson jogou aquilo na sua cara, foi tão estonteante quanto um porre. Como sair daquela encruzilhada? Não estava pronto para lidar com essa situação. Medo? Sim. Muito, Negar sabia que seria inútil. Tinha medo de sentir, de tocar, de Ian. Deu acaso de virar sua atenção um pouco mais para o lado e ver o notebook do amigo.
— Tem senha? — Deu graças por achar algo para mudar o foco.
— Óbvio — Levantou, indo em direção a Dan — ‘Pera aí.
Sem se dar contar, Al acabou colocando sua mão no encosto da cadeira, próximo ao pescoço do outro. Foi como se uma corrente elétrica atravessasse o corpo deste em poucos segundos. Cada micropartícula de seu ser pôde perceber o peso daquele simples gesto inocente, mas que, por alguma razão, fazia o coração bombar mais sangue em menos tempo para mantê-lo ativo, Porque daquilo? O que havia acontecido para, de repente, seu corpo começar a reagir de formas tão exageradas a ações provocadas por Alisson? Estranho era pouco para como se sentiu quando o garoto finalmente se afastou e voltou sua atenção ao videogame.
Respirou fundo na tentativa de se acalmar e recuperar a consciência. A sorte foi Al não perceber nada e sabia disso. Teria incomodações e provocações aos montes se ele tivesse prestado o mínimo mais de atenção. Cuidaria em dobro a partir daquele momento, mesmo que, pouco depois, de nada adiantasse sua tentativa desesperada de negação
Mexendo pelos arquivos do notebook, sentiu-se dentro da mente do dono dele. Qualquer arquivo, música ou foto parecia transparecer com exatidão quem era Alisson. Viu com carinho as fotos com a mãe e amigos, mas parentes… Pesou em coração saber daquela realidade tão triste e cruel. Saiu rapidamente da pasta, já prevendo um possível descontentamento por parte do outro. Antes ficasse onde estava — sem querer, entrou em uma pasta um pouco mais escondida. Lá foi onde sua pressão tornou-se um verdadeiro elevador desgovernado. Fotos íntimas estavam arquivadas, com direito a tantas posições quanto pudesse imaginar.
Quando Al viu a cena, sorriu, safado, quase como se tivesse adivinhado que Dan iria acabar caindo nas graças daquela pasta um pouco peculiar. Ergueu-se mais um pouco em direção ao videogame e a televisão, desligando-os, focando só no amigo e a cara de rato assustado que fazia.
— Nunca recebeu não? — Perguntou, provocativo.
— N-não… — Tentava se reconectar com a realidade — Quanta c*r*lhada de fotos tem aqui?
— Várias, pateta. Várias — Sentiu-se o pegador mór por alguns instantes, colocando as mãos atrás da cabeça e se esticando na cama — A maioria é da escola viu? Tá vendo
de um monte de mina lá e nunca vai saber de quem.
— Como não se tem nome? — Atento, o garoto percebeu o detalhe — Isabelle, segundo ano C. Eu conheço!
— Sério? Nossa, estou com vergonha agora! — A fim de debochar, afinou sua voz, arrancando risos do amigo — E daí? Conhecendo ou não, ela é gostosa.
— Ela é tão centrada e bacana. Não acredito que ela tenha mandando nudes.
— Santa inocência… — Sorriu com os lábios recheados de luxúria. Dan soube bem o porquê.
— Vocês… Vocês—
— Sim. Nós, sím — Risonho como uma hiena, Al confirmou as suspeitas — E foi tri gostoso se tu quer saber.
O menor voltou sua atenção de novo a tela do notebook. A tal Isabelle era deveras sedutora. Nas fotos, soube bem utilizar dos ângulos exatos para valorizar suas belas curvas, como dunas de areia, em uma delas; mordiscando seu dedo mindinho como um pedido de clemência em outra; e as pernas abertas sendo divididas por uma calcinha fio dental rosa chiclete que atiçou a mente pervertida do adolescente. Sentiu seu membro criar vida dentro da calça abrigo que vestia, ficando ofegante pelo nervosismo em questão: Estava vendo uma parte íntima de uma “amiga” e ficando excitado em frente ao amigo. Quanto mais avançava pela galeria, mais difícil ficava não fazer nada para resolver.
Seu esforço caiu por terra ao ver uma foto de outra menina que foi além: Usou de brinquedos artificiais para se satisfazer e fotografar. Sem resistência, tirou-o para fora, estimulando-o o mais depressa possível e com maior agilidade que conseguia. A cada nova tentativa, uma nova imagem se formava em sua cabeça. Imagens misturadas, homogêneas, imaginando como Alisson deve tê-la penetrado com força e vontade, típico de sua personalidade. Devia ser como um animal sob sua presa, atacando-a primeiro para depois pensar no demais. Cada vez que Al penetrava a menina na imaginação era uma nova reação.
Já o próprio, por sua vez, não ficara por menos. Seu corpo também começou a apresentar os sintomas de uma excitação descomunal vendo a cena a sua frente. Queria dizer que não, poder negar até o último momento, mas era inútil: Dan se masturbando estava tirando o sossego de seu pênis. Baixou sua calça até os pés e, aproveitando a distração dele, observou-o, para ajudar a satisfazer sua vontade. Olhava sedento para o membro dele, mordendo o lábio inferior só com a possibilidade de experimentar o gosto que deveria ter. Como seria ter um pênis em sua boca? Por tanto tempo nem cogitava essa pergunta, e agora queria, desesperado, ter aquele ali perto de si. Um misto de culpa e tesão tomava conta do seu cérebro, misturando-se ainda com a imagem sua fazendo sua primeira oral em alguém. Não fizera nada do gênero com Gil, ficaram no sexo anal e preliminares exploratórias por parte do rapaz. Foi passivo das vontades dele naquela noite. Porém, ali, queria muito provar cada parte daquele pedaço de carne deleitoso que o amigo poderia lhe oferecer. Disposto a realizar seu desejo, inibindo um pouco a parte racional de seu cérebro, chamou por ele.
— Dan… — Delirava pelo tesão e respiração ofegante que tinha consigo.
O rapaz nada respondeu, concentrado em suas próprias fantasias. Seguia calado, apenas imaginando a cena do amigo com a garota da foto. Então, de repente, trocou de lugar com a moça, vendo-se ali, na cama, nú, recebendo as agressivas investidas dele. Podia ouvir sua boca emitindo gemidos agudos e quase inaudíveis, quase que introspectivos, apenas para deixar claro o quão delirante era estar assim. Via Al com um sorriso predador, dando tudo de si para que o prazer fosse mútuo. Seu rosto já estava encharcado pelo suor devido ao esforço físico exigido. Afirmava sem muito pudor que deveria estar ali por horas e horas a fio.
— D-dan… — Al já se contorcia em cima da cama, também perdido em seus pensamentos. Mas precisava da resposta. Precisava do sim.
— Q-quê, c*r*lho… — O rapaz bem que tentava voltar para o plano terreno, mas era difícil.
Ouviu-se, do nada, um bater na porta, despertando ambos da ilusão perfeita criada por suas mentes fervendo por prazer e fome… de amor, sexo, toque. Assustados, os meninos tentaram se organizar o melhor que puderam, ajeitando suas respectivas calças e tratando de se controlar. Dan, óbvio, fechou correndo a galeria de fotos ousadas de Alisson, ao passo que o rapaz foi ver quem era.
— Fala, mãe — Ainda ofegante, o garoto atendeu a porta, não surpreso ao ver de quem se tratava.
— Ponho um prato a mais hoje, né? Só pra confirmar — Parecia animada com a ideia.
— Acho que sim… — Retomava o fôlego — Né, Dan?
— S-sim — Foi só o que o outro conseguir dizer.
— Tudo bem… — Desconfiada, Marisa observou bem o filho — E por aqui? Tudo bem também?
— Claro. Aham — Confirmou o filho, rápido — Quer ajuda em alguma coisa?
— Não… Era só isso mesmo… — Al sabia pelo olhar que algo intrigou a mãe — Desçam depois pra jantar.
— Tá ok. Beleza — E então fechou a porta, escorando-se nela após fazê-lo.
Os amigos mal conseguiam se encarar de vergonha pelo que aconteceu. Sabiam porquê. Não admitiriam, mas sabiam. Mesmo que por alguns minutos viram uma outra forma de ter prazer — um pouco além dos limites cruzados até então. Para Dan então foi uma verdadeira bomba em sua cabeça. Aquilo havia acontecido mesmo? Sua mente estava querendo mesmo realizar o que o sonho mandava? A adrenalina, em conjunto com a ocitocina, já haviam baixado com o susto. E quanto as lembranças não realizadas? O que fazer com elas?
De repente, Al começou a gargalhar da situação. Daniel, claro, encarou assim como o faria se um louco baixasse as calças no meio da rua — com estranheza. Claro que não conseguiu ficar apático por muito tempo — o riso começou a tentar seus lábios. Talvez fosse reação ao que houve — apenas mais um situação constrangedora que passavam juntos. Afinal de contas, o que era se masturbar em conjunto para quem deu de cabeça nos testículos dele?
***
A melhor maneira de se tratar de uma tristeza que nos aflige é buscando conforto em tudo que promova alegria e paz. Chamando Ágata para dar as boas vindas — ou melhor, nem precisou, a garota apareceu por lá — era justamente com essa intenção — curar o vazio que se instalou em seu peito por causa do acontecido com o primo. Ainda estava abalado, mesmo tentando disfarçar.
Estava abraçados e deitados na cama, com ela sob seu peito descamisado. O contraste entre o frio que fazia e a pele sempre aquecida de Ian davam o tom exato para, literalmente, dormir com o anjo. Um abrigo para as noites de solidão e um companheiro para as de desejo. Tinha os dois em um só, e, ainda sim, não conseguia ser o que ele mesmo precisava.
— Desculpa tá falando do Dan. Sei que tu queria curtir hoje, mas é que… Tá f*da, sabe? — Desabafava, enquantos seus olhos fixavam um ponto qualquer do teto.
— Capaz, tigrão — A moça sorria, compreensiva — Antes de tudo, somos amigos, né? Então.
Retribuiu o gesto, começando a acariciar os cabelos escuros dela.
— Eu tinha vários planos pra hoje. Tipo, pra quando chegasse. Pergunta se tive vontade de realizar algum.
— É estranho te ver tão triste e deprimido — Acariciava seu peito — Achei que isso nem fosse possível.
— Mas é — Riu, fraco — Talvez eu esteja fazendo muito drama também. Vai saber.
— Pra tu ficar que nem filhote de passarinho assustado, não acho que seja, não — Roubou um selinho do garoto, voltando a carícia anterior — É natural que tu pense assim. Vocês foram quase que criados juntos, e aí, de repente, ele some e não te deixa um recado… Qualquer um ficaria assim.
Pensativo, Ian começou a tentar buscar mais pistas de onde o primo teria se metido. Não era exatamente um rapaz de balada, tampouco de dormir fora. Sabia o quanto ele zelava por seu canto. Uma das ideias que teve era se comunicar com amigos dele, já que conhecia alguns, mas achou fora de propósito. Dan não estava desaparecido (ou assim esperava), afinal, Nova Petrópolis era minúscula. Como desaparecer em meio a tão poucas pessoas, que, era provável, conheciam-o? Descartou a teoria sem pensar muito. A mais lógica era ele ter ido para a casa de Vanessa.
— Será que a Van não sabe dele? — Assim que lhe ocorreu, compartilhou com a garota.
— Só se eles fizeram as pazes — Ajeitou uma mecha do cabelo.
— Outra vez? Pelo quê?
— Ah… A Van não entrou em muitos detalhes. Eu também não quis me meter — Omitiu. Sabia bem o motivo da discussão. Todavia, tinha medo disso deixá-lo ainda mais intrigado — Logo eles voltam. Tenho certeza.
— É o que eu espero. De verdade…
Na tentativa de amenizar um pouco a dor do outro, Ágata roubou mais um beijo. Desta vez demorado, para que conseguisse suportar tudo o que havia dado errado naquele dia tão pouco inspirador.
Jamais diria isso a ele, mas claro que achava um pouco dramático essa situação. O que tornava a questão séria era justamente o fato de Ian jamais reclamar ou se ver deprimido, desesperançoso. Tinha a vida como parte de seu DNA, e, de repente, um fato muda isso. Só isso que levou a garota a encarar com seriedade o que ocorria. Se fosse o mesmo com qualquer outra pessoa, sabia que não teria tanta paciência…
Terminado o beijo, ela se levantou, a fim de buscar o celular em meio ao breu instalado no quarto. Não tinham ligado a luz ao anoitecer, complicando a busca. Ian fez o mesmo, com seus próprios interesses. Torcia para Dan ter dado notícias. Infelizmente, o que encontrou foram algumas mensagens dos primos e pais, além de Gil. Frustrou-se mais, acabando por avisar Ágata que iria tomar banho. Precisava de um tempo para relaxar ou então ficaria louco. Entrou no banheiro e deixou a água quente levar consigo o peso que carregava desde que chegara.
Os quinze dias que passou fora de morada habitual não tinham tanto a lhe sugar como aquelas míseras horas. Andreas e suas crises em nada se comparavam a “indiferença” de Daniel. Com o primeiro se preocupava, tentava ajudar, conversar, e, em geral, tudo se resolvia. O segundo, apesar de ser muito parecido — em termos de comportamento — com o outro, era mais inconsequente, pavio curto. Quando algo saía de sua lógica, surtava como se o fim do mundo tivesse chegado. Talvez por isso ele lhe encantou tanto… Ian gostava de protegê-lo, confortá-lo, deixando-o viver em seu mundo feliz e alegre como sempre. Estava então confundindo as coisas? Era apenas amor de irmão que seu coração interpretou errado? Com certeza dúvidas que tiravam alguns dias de sono. Somado a sua falta, triplicava o problema.
Seus pensamentos foram interrompidos bruscamente com o barulho da porta do banheiro sendo aberta. Era Ágata, trazendo em mãos algumas peças de roupas dela mesma, indicando claramente suas intenções. Ficou nua em questão de segundos, abrindo o box e se juntando ao garoto. Atrevida, puxou-o para um beijo cheio de “más” intenções, levando as mãos dele a percorrerem seu próprio corpo.
— ‘Vamo brincar um pouco? — Sussurrou em seu ouvido.
— E os meus tios? Esqueceu? — Seu sorriso habitual havia retornado, para alegria da parceira.
— Foram dar um pulinho ali na casa do irmão da tua tia parece. Não entendi direito — Respondeu — Hora perfeita, né?
— Né — E assim foram os primeiros segundos de quase uma hora de prazer e paixão.
***
Era apenas mais uma noite que Vanessa olhava algum filme comédia romântica — recheados dos maiores clichês possíveis — abraçada a um urso de pelúcia. Curioso, visto que já não tinha mais seus seis anos de idade, muito embora quisesse tê-los. Na infância, não raramente, vivemos mais do que no restante da vida. E nosso coração se mantém limpo, sem a maldade e a crueldade do mundo. Do que adianta crescer e não ser aquela mesma protagonista de filme? Pergunta sempre recorrente a cada final de filme.
Cada dia mais a loira ficava certa de que não foi feita para ser uma princesa. As noites que passara em claro na adolescência, repetindo o mesmo ato daquela noite, foram somente um alento para seus sentimentos tão pouco aflorados e aproveitados na época. Daniel, nem de longe, era um príncipe. Já admitira isso para si há tempos. O rapaz até se esforçava, deixando seu lado romântico (sincero, não o forçado) tomar conta de seu ser por muitas ocasiões. Entretanto, bastava uma troca de olhares maior do que três segundos para o príncipe virar sapo. Explodia mais do que um barril cheio de pólvora, espraguejando e arruinando os planos de uma possível noite romântica. Tudo isso, por si só, já a desanimava. Os recentes acontecimentos então…
Mesmo que não estivesse tão surpresa, as lágrimas resistiam para não cair. Ela própria engolia o choro a cada frase romântica que os protagonistas diziam. Estava carente — e só, já que os pais tinham ido a um jantar de amigos. O único capaz de tirá-la da fossa era quem lhe jogara lá dentro: coisas que só o destino pode explicar. Assim que o acabou o filme minutos depois, sentiu o celular vibrando. Ansiosa, correu para de quem se tratava, frustrando-se ao notar que era apenas a mãe dando notícias sobre o jantar.
Na tela de bloqueio, porém, estava lá a foto que, antes mesmo de estar em seu celular, estava na mente e no coração. O primeiro passeio como casal em um parque de uma cidade próxima… Lembrava como se tivesse ocorrido há poucos minutos. Dan era outro rapaz, e ela, outra moça. Tão menos frustrados, com tanto a se conhecer, viver, experimentar… Uma vida baseada em conversas por telefone a altas horas da madrugada e juras de amor em forma de canções cafonas. A mais recente era a que ele mandou dias antes da grande briga a respeito de sua orientação de gênero: “Perfect”, do cantor Ed Sheeran. Amava-a mais do que tudo, e seu coração já batia mais rápido só de ouvir as primeiras palavras ecoando pela mente. Sensações incríveis que a faziam querer resolver tudo o mais depressa possível.
Desligou a tv e foi em direção a seu quarto para tentar distrair sua mente ociosa. Sentiu falta da faculdade — pelo menos atolada em trabalhos não teria tempo para pensar em nada que não envolvesse comportamento humano e suas complexidades. Se bem que até isso o remetia a Daniel — o garoto precisava ser estudado pela ciência para acharem uma explicação para a combustão ambulante que ele representava. Só viu uma maneira de ficar em paz consigo mesma: resolvendo o problema. Chegava a ter calafrios pensando na mais nova discussão. O jeito foi prometer se controlar e tentar resolver tudo civilizadamente.
Vestiu qualquer coisa socialmente aceitável e saiu feroz para defender seus princípios. Tinha certeza que a noite não seria de choro, mas sim, de alegria. Dan teria uma explicação, precisava ter. Como um hétero resolve, sem motivo algum, beijar outro rapaz? Podia ser um beijo roubado… não fosse ter visto-o tomando atitude. Nada fazia sentido, porém, iria fazer. Torcia por isso.
Ao sair da porta ouviu o barulho de conversa ecoando pelo elevador. Sabine, em conjunto de Jeferson e seus próprios pais, chegavam felizes e cheios de malas. Surpresa, Van não sabia sequer que a garota viajou, quanto mais que a moça morava em seu prédio. Sorriu, simpática, quando a viu em companhia dos demais.
— Guria de Deus, que vergonha! Acredita que não sabia que tu morava aqui? — Comentou, puxando assunto.
Sabine também pareceu muito surpresa, afinal de contas jamais cruzou com a namorada do amigo pelos corredores do prédio. Além disso, existia o pequeno fato mal superado a respeito do próprio Daniel. Ver Vanessa foi como encarar um trauma de infância que optou por não encarar quando devia, no entanto, a vida lhe pôs a prova de fogo. Tentando parecer confortável e extrovertida, respondeu no mesmo tom impessoal.
— Eu também tô bestificada! Mesmo assim é bom te ver — Comentou.
— Acho que eu sei porquê — Alicia, mãe de Sabine, desvendou parte do mistério — Andar errado.
— Quê?
— Estamos um andar abaixo do nosso, querida.
— Putz! Real! — Só então a ficha caiu — Tô confundindo com o andar do hotel.
— Bem… O jeito é voltarmos, né? — O pai se pronunciou.
— ‘Bora organizar as malas de novo no elevador.
— Capaz! Eu já vou levando algumas lá pra cima! — Prestativo, Jeff ofereceu sua ajuda, encantando ainda mais Alícia, que, durante a viagem, tinha visto no menino um genro de ouro.
Sem esperar respostas, tomou frente e já foi com duas malas (pesadas por sinal) pela escadaria. Já a amiga e seus pais foram organizando as demais e levando para lá também. Van acabou por se solidarizar com a confusão, dando força também. Por fim, após quilos de malas e pacotes de comprar, restou somente aguardar o elevador para que o pai de Bine conseguisse chegar até sua casa, o que não tardou a acontecer. No corredor do andar da namorada de Dan, permaneceram somente a própria em companhia dos amigos dele.
— ‘Brigadão pela força. Nem precisava ter esquentado a cabeça com isso — Sabine agradeceu.
— Imagina! Tava por aqui mesmo. Não ia me custar.
— Então tu que é a Vanessa? — Jeff parecia surpreso com a beleza da moça — Bah…
— Que foi, Jeferson? — O tom da amiga deixou claro seu desagrado ao se dirigir a namorada alheia.
— N-nada ué. Só não sabia que era tão ga… Simpática — Desconversou.
— É sim. Ela é super querida — Concordou, sabendo das intenções do garoto — Eu falando como se nos conhecemos a meses.
— A meses até não, mas aquela manhã no “Wunder Bar” foi muito agradável —Relembrou — Também te achei simpática.
Uma coisa era fato: Vanessa parecia o símbolo da calma e da cordialidade. Nem de longe parecia arrojada ou desagradável como outrora pensou, em silêncio. Tinha-a visto tão pouco e a imagem deformada sumira de sua mente. Dan tinha feito uma boa escolha, inegavelmente.
— Desculpa por já tá indo assim. Sabe como é… Voltar de viagem tem sempre mais trabalho do que ir viajar.
— Claro! Vão lá! Espero que tenham se divertido! — Torceu, também se despedindo e seguindo seu rumo.
— Até! — Os amigos falaram em conjunto.
Esperto, Jeff percebera o leve estranhamento inicial de Sabine ao encontrar a namorada do amigo. Durante a viagem, tivera grandes planos para se aventurar e conquistar a loira. Conseguiu, em vários momentos, envolvê-la em programas a dois, festas e até mesmo dança juntos. Tudo posto em cheque por causa de uma simples aparição imprevista.
— Tu ficou chateada — Deduziu, jogando na cara dela.
— Oi? Tá maluco? — Fingiu surpresa.
— Eu vi nos teus olhos, Bine. Tu não curtiu de ver a guria.
— Ai, criatura! Para de paranóia! Que coisa! — Irritada, a loira se fez de ofendida e foi subiu rápido as escadas. A dúvida do garoto permanecia, mas a certeza da resposta também.
Ao mesmo tempo, Vanessa seguia afoita até a casa de Daniel. A ânsia por respostas e a possibilidade de um entendimento saudável e — quem dera — duradouro, faziam sua mente voar o mais alto que o possível, dadas as circunstâncias. Provavelmente, pensava, Dan já estava arrependido e sofrendo muito por sua falta — algo que sempre acontecia. Tinha a ajuda do primo, o qual também nutria sentimentos um tanto confusos e que atravessavam a fraternidade, e também da atual ficante, que, por coincidência, era sua melhor amiga. O esquema estava todo armado. Mais um pouco de esforço e conseguia vê-los abraçados ao garoto no sofá, vendo um filme qualquer, tal como ela há pouco fazia.
Infelizmente a realidade foi cruel. Minutos depois e estava no portão de sua casa. Passavam das 21h40min daquele domingo. O vento gelado, agressivo, deixava tudo com a sensação de incerteza. Disposta a ir até o fim, sem ter medo das consequências, apertou a campainha. Isabel, já vestida com pijama, foi quem a atendeu, ficando sorrateiramente feliz por ver sua nora.
— Olha só quem apareceu! — Correu até o portão, pouco se importando com a opinião alheia sobre sua vestimenta — Entra, guria! Tá frio! — Abriu o portão ligeiro, dando passagem para a menina.
— Obrigada — Retribui a gentileza da sogra, indo direto para dentro da casa.
Seu coração batia forte na esperança de já encontrar Dan descendo a escadaria, desejando vê-la desesperadamente. No entanto, quando entrou, ouviu só o som da televisão ligada, além, é claro, de Bruno, pai do namorado, comendo pipoca no sofá.
— Fica a vontade, viu querida? — Cordial, Isabel quis manter a nora confortável em sua casa.
— Uma das primas do Daniel veio e tu nem me avisa, né mulher? — Repreendeu o homem.
— Que prima, senhor?! Não tá vendo que é a Vanessa, namorada ele? — Corrigiu.
— Ah! É verdade! É que são todos parecidos pro lado da Isa. Acabei confundindo! — Bruno levantou-se, apertando com a mão limpa a da garota — Que bom que veio.
— Desde quando eu sou loira? — A esposa confrontou.
— Tuas sobrinhas são. Eu vi as fotos.
— UMA delas é. As outras é tudo cabelo feito em salão de bairro que eu bem sei.
— E tem diferença?
— Tem diferença entre tu e um cavalo? Tem né?! Então — Retrucou.
— Simpática minha esposa, né Vanessa? — Envolveu a nora na conversa.
A garota riu dos comentários divertidos dos mais velhos.
— Ela quer saber do nosso filho atrevido — Isabel deduziu — Desculpa, querida. Ele não tá, mas por favor, fica com a gente! Tem janta pronta ali. Esquento num minutinho.
— Ah… Ele… Não tá? — A decepção no rosto da menina ficou clara como o dia.
— Não por nossa vontade. Mas não está — Bruno respondeu — Tu deve saber o que deu nele. Ou não?
— Não — Mentiu — Vim aqui justamente porque ele sumiu hoje.
— O Ian com certeza sabe. Conhece ele, né? — Isabel questionou.
— Sim, sim. Conheço.
— Dá uma subidinha lá. Ele e a namorada devem estar acordados ainda.
— Obrigada, dona Isabel.
— De nada, querida.
Após se despedir e dispensar a janta, foi ao encontro de Ian e Ágata no quarto do rapaz. Pouquíssimas vezes veio ali quando ele estava em casa, portanto não tinha ideia de como seria o ambiente por dentro. Arriscou-se, batendo na porta com cuidado, temendo estarem dormindo e acordar. Por sorte, o caso era diferente. Quando o garoto abriu a porta, deu largo sorriso e um abraço na “cunhada”. Seguia descamisado, ao passo que a amiga aparentava estar apenas de roupa íntima e enrolada a uma manta fina, simulando um edredom.
— Não sabia que tu ia vir — Comentou o rapaz.
— Nem eu sabia, pra ser bem sincera. Decidi há pouco — Respondeu ela — Tô… Atrapalhando alguma coisa?
— Capaz! De boas! Chega aí — Sempre sorridente, convidou-a para sentar na cadeira que, por milagre, estava livre de roupas e tudo o que pudesse suportar.
— A gente tava se arrumando pra ver filme. Nada muito animador… No começo, claro — Saliente, Ágata falou para a loira — E tu? Daniel te chamou?
— Não… Eu vim sem saber se ele ia estar. Arrisquei, né?
— Ô gurizinho requisitado, hein? — brincou — O mundo precisa saber como ele tá.
— Claro — Juntos Ian e Van se manifestaram.
— Dois baba ovos vocês dois — Riu da situação — Ele deve ter ido pra algum amigo… Sei lá.
— Foi o que eu pensei também — O garoto concordou.
— Não adianta se estressar com isso, gente. Aparecer ele vai, só relaxem e curtam o filme massa.
— Vou deixar vocês a vontade então — Levantando, a loira já fazia menção em sair quando a amiga retrucou.
— Mas a recém chegou! Fica aí! A gente promete se comportar! — Sempre espirituosa, brincou.
— Valeu — Riu — É que… Quero aproveitar para ficar a sós com as coisinhas do Dan. Pra matar a saudade…
— Entendo… — Via em seu olhar a tristeza e abatimento — Vai então. O quarto é ali na frente.
— Sim, sim. Eu sei. Valeu — Sorriu, fechando a porta.
Só então que ocorreu ao rapaz de olhos claros a hipótese.
— Tá rolando alguma coisa? — Estranhou.
— Ué, te contei hoje mais cedo — Lembrou — Eles brigaram. Pelo que eu não sei, mas brigaram.
— Bom… Faz sentido. Dan é sempre estourado quando o assunto é Vanessa.
— Espero que ele se manque logo. A Van é uma guria bacana demais pra ser tratada dessa forma.
— Também acho. Mas né…
O jovem casal se ajeitou no colchão da cama. Abraçados e cobertos pela fina manta, apagaram as luzes e colocaram o filme para rodar, torcendo para não passarem um terço do que Daniel e Van passavam.
A garota, por sua vez, entrou no quarto do namorado com certa nostalgia, lembrando dos dias quentes que passara ali. Claro que não só deles viviam as lembranças: Na tarde em que inventaram de fazer um bolo de cenoura, por pouco o tal não virou carvão. Riram demais da trapalhada, sabendo o porquê dela ter ocorrido: Trocavam beijos e carícias, enamorando sem ver o tempo passar… só que passou, e com ele o cozinhamento do bolo. Desastrosa, porém feliz. Assim definia aquele dia. E fora naquela mesma cama, onde ela estava por sentar, que provaram o que ficou comestível. Brincavam, davam pedaços um na boca do outro, se amava, se queriam, e o mundo não podia detê-los. Dias tão felizes que ofuscavam o vazio e a desolação que sentia dentro do coração. Queria aquilo de volta para ser completa, no entanto o que lhe restou foram as migalhas nostálgicas de um passado não tão distante. Deitou em seu travesseiro, sentindo o cheiro de seu perfume, e deixando que as lágrimas, outrora impedidas, caíssem pela noite.
CONTINUA
Fale com o autor