A Teoria das Cores
27 Rosa III
ACOLHIMENTO
A mentira tem perna curta. Essa frase é tão conhecida, e tão pouco valorizada. Nada supera a sinceridade, mas ainda sim belas mentiras são menos dolorosas que verdades horrendas.
Por muito tempo, Ian mentiu. Mentiu para si e para o primo... Ou não? Não estaria ele apenas querendo filtrar esse sentimento a fim de não causar mais confusão no mais novo? De todos os primos, o único de quem realmente Ian tinha medo da reação era Dan e agora estavam ali, um de frente para o outro, com o jogo todo aberto.
— Já percebeu que toda vez que tu diz que não vai falar comigo, tu volta a falar comigo? – Ian brincou, para tentar desviar o assunto. Em vão.
— Não tenta sair pela tangente! O Alisson ouviu a conversa e principalmente quando o Gil falou sobre um sentimento que tu tem por mim – O primo mais novo foi direto.
— O que tu quer que eu diga Dan?
— Eu não quero que tu me diga nada. Quero que tu seja sincero comigo. Só isso.
— Eu sempre fui sincero contigo. Tu é que na primeira oportunidade me virou a cara, tá lembrado?
— Tu escondeu de mim que tinha namorado guris!
— E que diferença escandalosa isso fez na tua vida? Nenhuma! É isso que eu venho tentando te explicar desde aquele dia que a Ágata tava lá em casa. Mas tu gosta de fazer cosplay de jumento, eu não posso fazer nada!
— EI! Calem a boca vocês! – Al se intrometeu – Ian, responde logo o c*r*lho da pergunta?
O mais velho suspirou.
— Eu gosto de ti Dan.
— Como primos devem se gostar? – Dan pressionou.
Alguns segundos de silêncio.
— Eu... Eu não sei. Tipo, sim eu gosto de ti quase como um irmão. Mas... Definir o que eu sinto? Ai é demais.
Dan então fez algo inesperado: Tirou sua camiseta e sua calça.
— EI! Ficou louco é?! – Exclamou Al.
— Calma ai – Dan falou – Tira tua calça Ian.
— Oi? – O outro também se surpreendeu com a atitude.
— Tira.
Foi então que Ian sacou o que ele queria, e pelo que sabia de seu corpo, certamente o resultado seria o que Dan pensava.
— Vem aqui.
— Dan, por favor-
— Vem Ian!
Dava pra contar nos dedos às vezes em que Ian ficara nervoso. Na verdade, ele ficava assim nos momentos mais improváveis (Por exemplo: No provão do último ano Ian fez a prova tranquilamente, porém quando foi ao circo pela primeira vez soou como se estivesse no sol quente). E aquela situação com Dan estava-o deixando desnorteado.
— Alisson, pode me deixar sozinho com o meu primo? – Pediu Dan.
— Nem precisa pedir duas vezes – Al então foi até a porta da rua e saiu.
Na sala, se encontravam Dan só de cueca e Ian sem calça.
— Ian...
— Fala – O rapaz ficara nervoso.
— Tu lembra o que tu me disse naquele dia na cachoeira né?
— Que tu é o primo que eu mais quero.
— Pois então prova.
Ian arregalou os olhos.
— O-o quê?
— Prova então que eu sou o teu priminho favorito.
— Dan, para de palhaçada velho.
— Eu to na sala de um desconhecido de cueca Ian. Não to brincando.
— Para cara, é sério.
— Tá com medo do quê? – Dan mantinha seu olhar sério e frio – Não é o teu sonho?
— Daniel, eu to avisando-
— EU que to avisando Ian – O outro se impôs.
Ian nunca se sentiu tão impotente perto de alguém. O primo que ele tanto adorava, o primo que ele tanto queria estava ali naquele estado. Decidiu se deixar levar. Se era uma prova que o primo queria, uma prova ele teria. Chegou perto dele e o abraçou. Um abraço com força, como se fosse o último que dariam na vida.
Dan continuava estático, frio. Aquela situação era horrível para ele. Ser tocado por caricias maliciosas pelo próprio primo o fazia ter vergonha de si próprio. Porém deixou que Ian prosseguisse. Aliás, o rapaz beijara seu pescoço de leve e daria seguimento, se o mais novo já não tivesse conseguido a prova.
— Tu tá excitado – Disse frio, enquanto se afastava e vestia suas roupas.
Foi a vez de Ian lhe encarar.
— Então é isso? Tu veio aqui pra me ver excitado por tua causa? Não ouviu falar de nudes? – Ian sorriu fraco ao falar.
— Desde quando tu nutre isso por mim?
— Dan, espera – Ian pediu – Antes de tu disser que tem nojo de mim, nojo do que eu faço eu EXIJO que tu cale a boca e me escute.
O outro suspirou, concluindo de se vestir por completo.
— Tá Ian. Fala.
— Independente de tudo, de tudo mesmo, eu te considero um irmão cara. Eu sempre tive amor fraterno por ti e sempre terei. Isso que eu sinto aqui não é amor de querer viver uma vida juntos, é um amor de querer te dar prazer, de te fazer feliz entende?
— E como tu imagina que vai me fazer feliz sendo que eu sou HÉTERO?
— Fala sério Daniel! Deixa de ser um bode cabeçudo e entende que eu não to querendo que tu deixe de ser hétero! Só quero que a gente fique numa boa, como sempre estivemos.
— Isso não responde a pergunta que eu te fiz.
— Faz tempo que eu sinto isso. Mas isso nunca foi um incomodo pra mim Dan. Nunca foi um incomodo te ver com uma mina, porque eu te vejo como um irmão.
— Que tu quer pegar a todo custo?
— É... Basicamente – Ian riu – Vamos só passar uma borracha nisso Dan, por favor.
— Eu vou ir trabalhar.
— Sério isso? Vai se fazer de ofendido?
— Só disse que vou trabalhar.
— Então passa aqui amanhã.
— Ian eu-
— Passa aqui amanhã c*r*lho!
— Tá! Agora me deixa ir antes que eu me atrase.
E assim Dan saiu pela porta, deixando um Ian com um sorriso bobo no rosto.
— E assim começa a tua jornada primão... – Dizia para si – Boa sorte...
***
— Sério que foi só isso?! – Al perguntava curioso.
— E eu tenho cara de quem vai dar o c* pro meu primo, Alisson. Se f*der, cara! – Dan respondeu.
— Tô te achando tão tranquilo... Se fosse com um primo meu, certamente eu estaria em surto agora.
— Imagino. Surtando tanto que convida o ex do meu primo pra ir pra tua casa né?
— Isso não tem graça. E além do mais, ele foi à minha casa pelas próprias pernas. Não chamei ele pra ir.
— Escuta – Dan lembrou-se de algo e queria matar a dúvida — Tu disse que viu umas fotos no celular do tal Gil. Como elas eram?
— Fotos dos dois... Como um casal sabe? Tipo fotos que a gente tira com as minas, só que eles eram dois caras óbvio.
— Até meu primo tem fotos com o namorado e eu não – Dan ficou pensativo.
— Hã? Tu namora? – Al perguntou, mas logo lhe ocorreu a resposta – AH! A moça loira da festa dos namorados.
— Ela mesmo – Dan sorriu – E pensar que quase perdi ela. P*rra.
— Quem nunca cometeu uma idiotice né pateta? Relaxa ai.
— Quer parar de me chamar de pateta c*r*lho? – Solicitou Dan fazendo o outro rir – E depois foi uma idiotice que até hoje não entendo direito.
— É sempre assim pateta – Dan bufou, e Al continuou a se divertir com a situação – É bom ter uma namorada né?
— Tu não tem?
— Não... – O rapaz tinha um ar de decepcionado – Mas também sei lá, vai ver eu que não sirvo pra essa história de namoro.
— Ai coitadinho! Quer uma chupeta também neném? – Dan falou irônico.
— Vai se f*der pateta!
— Bebezão.
— Tá. Vamos voltar ao assunto que realmente interessa? – Al mudou de assunto rapidamente – O que tu sentiu quando teu primo se aproximou?
— Nada – Respondeu sincero.
— Um cara de cueca vem na tua direção e tu não sente nada?
— Se eu ficasse excitado, ai sim seria um problema não acha?
— Tá, mas sei lá, uma repulsa pelo menos.
— Foi estranho se é isso que quer saber.
— Imagino.
Andaram mais um pouco em silêncio. Quando deram por si, já estavam na frente da padaria dos tios de Dan.
— É aqui minha estação – Disse Dan – Até mais bebezão. E valeu pela força hoje.
— Precisar estamos ai pateta.
Al então seguiu reto em direção ao “Wunder Bar”. No fim, tinha se divertido um pouco. Ele não sabia, mas estava dando inicio a mais importante de suas amizades...
***
Dan olhava para os lados e corria desesperado. Não importava o quanto corria e nem para que lado corresse: Tudo o que lhe cercavam eram altas árvores grossas com copas vastas. O chão cheio de pedregulhos e folhas caídas do alto daqueles arranha céus naturais. Estava suado, assustado e com uma sensação terrível tomando conta de si.
Tentava se lembrar de como fora parar em tal situação tão precária, mas a memória lhe faltava naquele momento. A respiração era rápida. Sentia cada palpitada de seu coração. Os olhos e ouvidos bem abertos e atentos a qualquer ruído que fosse. Tratou de correr mais um pouco.
— Mãe! – Gritava com toda força de suas cordas vocais – Mãe! Pai!
O garoto gritava, porém o único som que obtinha de resposta era do vento gélido batendo no alto das árvores, fazendo-as estremecer.
— M*rda. Cadê todo mundo?! Mãe! – Tentava clamar.
Atirou-se no chão cansado. Correra por horas? Por minutos? Por dias? Não sabia mais distinguir. Só sentia aquela horrível sensação de que algo terrível estava prestes a ser cometido. Por isso sempre ficara de olho bem aberto e atento a todas as direções – Olhava inclusive para cima, para certificar-se de que tudo estava como deveria.
De repente, ouviu um barulho ao fundo, bem ao fundo, quase imperceptível. Todavia fora o que bastava para o garoto desesperado. Tentava desvendar de onde vieram os ecos, e deduziu vir do norte de onde estava. Levantou-se com ânimo, e começou a corrida de novo. Cada passo que dava, a aflição aumentava. O que estaria ocorrendo?
— Que p*rra é essa?! – Se questionava.
E quanto mais perto chegava, maior seu medo ficava. Correu por mais algum tempo, até que viu ambulâncias e carros de policia trancando o que parecia ser uma rodovia que contornava um enorme rochedo. Não se recordava daquele lugar, nem de porque estava ali.
Foi então que olhou para dentro das ambulâncias. Viu sua mãe, com vários hematomas e cortes no rosto. A mulher chorava desesperada. Dan correu até ela e a chamou.
— Mãe! O que houve mãe? O que a senhora tem?
Isabel não lhe respondeu, só seguia chorando inconsolável. Começou a ficar verdadeiramente assustado com aquilo. Na segunda ambulância, dois enfermeiros colocavam alguém que estava em uma maca dentro do veículo. Dan então correu até lá temendo que fosse quem pensava. Para sua infelicidade, era seu pai.
O homem estava com uma máscara de oxigênio, pois sua respiração estava fraca. O garoto sentiu ao lado do pai e segurou sua mão.
— Pai... – Tentava ser firme o quanto podia, mas seu coração estava partido demais para isso – Vai ficar tudo tranquilo.
— Eu sei filhão – O homem sorriu fraco e com dificuldade.
— Não faz esforço!
— Filho.
— Fala pai.
— E o Ian? Como está o Ian?
O filho sentiu seu estômago gelar.
— C-como assim?
— O Ian, teu primo... Como... Como ele tá?
— Como ele tem que tá pai? O que houve?
— O carro – O mais velho tossiu – O carro tava com a revisão atrasada, mas sua mãe queria tanto ir ao casamento de uma prima dela... Nunca tinha dado problema até então, mas hoje...
— Calma pai. Fica frio que vai dar tudo certo – Tentava manter as esperanças.
— Vai ver o seu primo, filho. Me de noticias dele por favor...
— Tudo bem... Tudo bem...
Dan mal saiu da ambulância e dois enfermeiros entraram, fecharam as portas e já foram rumo ao hospital. Notou que a da mãe continuava ali, provavelmente a do pai foi primeiro por ser um caso de emergência. Isso significa que Ian estava bem... Não estava?
Deu mais alguns passos para além da ambulância onde a mãe estava e pôde ver o carro da família capotado. Policiais circulavam o local em buscas de mais provas, como se fosse necessário. Foi então que viu alguém deitado ao chão, um pouco afastado do carro.
Naquele momento, conseguiu ouvir o coração bombeando o sangue por todo seu corpo com uma velocidade acima do normal. Sua pele, antes negra clara, agora se tornava mais esbranquiçada. Se o pai e a mãe estavam ali, só podia significar que...
— Ian – Sussurrou – Ian... Ian!!
Foi correndo desesperado até o corpo que de fato era o do primo. Aquilo foi fatal: Começou a chorar descontroladamente. Médicos foram até ele, que os expulsou alegando querer ficar a sós com o primo.
— Ian... Ian... Reage cara – Dizia entre os soluços – Reage velho! Que c*r*lho!
Tentava fazer os primeiros socorros, mesmo sabendo que não adiantaria. Caiu sobre o corpo do primo desesperado.
— Iaaaaaann!!!!!
De repente, um clarão com um barulho estrondoso o fez acordar. Sim, tudo não passara de um sonho. Acordou encharcado, com o barulho de um raio que apareceu no céu. Ao que tudo indicava, o tempo iria fechar durante o resto da noite.
— Mããe! – Gritou ele desesperado – Mããe! Mãe!!
De repente Isabel entrou no quarto do filho assustado.
— Que foi filho? O que houve?!
Dan nada disse, apenas se levantou e correu para abraçar a mãe.
— Eu te amo mãe. Eu te amo muito, muito mesmo! – Disse tentando não chorar.
— Ei, o que é isso filhote? O que houve? – Perguntou ela retribuindo ao abraço – Eu também te amo.
— A senhora tá bem?
— Tô sim. Claro um pouco cansada, confusa também, mas de resto tudo certo.
— E o pai?
— O que tem teu pai?
— Como ele tá?
Isabel não entendia muito bem o porquê daquelas perguntas, porém conseguia deduzir.
— Teve algum pesadelo?
O garoto não esperou a mãe responder sua pergunta e nem ele a dela, foi correndo até o quarto do pais e viu o pai dormindo. Foi até ele e o abraçou forte. O ato fez o homem acordar.
— EU JURO QUE NÃO COMO SANDUICHE DE ALHO! – Gritou ele — Hã? O que?
— Eu te amo pai! – Dan disse ainda abraçado ao pai.
— Campeão? O que houve?
— Só diz que me ama também.
— Eu... – Bruno olhou para a esposa, que também parecia confusa – Eu te amo filho. Algum problema?
— O Ian... Cadê o Ian?
— Ele tá dormindo na casa de um amigo, filho. Aliás, essa briga de vocês — Isabel nem concluiu a frase quando Dan começou a discar o número do celular do primo.
— Chama ele pra cá mãe. Diz pra ele voltar, por favor.
— É quase meia noite Dan! É perigoso!
— Busca ele então mãe! Por favor, só... Traz o Ian pra casa...
Isabel, ainda com o telefone na mão, foi indo em direção ao carro para buscar o sobrinho. Bruno ficou ali com o filho.
— Quer contar o que aconteceu campeão?
Enquanto a mãe voltava com Ian, Daniel contava com detalhes tudo que lhe ocorrera naquele que julgou ser o seu pior pesadelo. Ficou ali recebendo a atenção do pai por cerca de dez minutos, quando finalmente Isabel chegou.
Mal ouviu o carro estacionar na garagem, que já quis ir correndo até lá.
— Eu já volto pai – Disse animado.
Correu pela escada, porém escorregou no tapete que a mãe colocara no corredor e rolou pela escada.
— DANIEL! – Gritou a mãe, indo socorrer o primo.
— Que c* de tapete mãe! – Disse ele quando chegou ao fim.
— Fica quieto ai! Pode ter quebrado algum osso!
— Não quebrou nada mãe. Não vai ser uma escadinha dessas que vai me matar – Disse ele, se levantando com certa dor nas costas.
Foi só ai que Ian entrou.
— Dan? Tá tudo bem? – O garoto parecia sonolento, mas ficou preocupado ao ver a tia entrar correndo.
O garoto correu em direção ao primo mais velho e lhe abraçou com toda força.
— Nunca mais sai daqui. NUNCA MAIS! Ouviu? – Avisou Daniel contente.
— Mas e o-
— FODA-SE – Disse – Esquece o que eu disse, esquece o que eu fiz... Só... Fica aqui.
Ian sorriu e retribuiu o abraço do primo.
— Oh primão, o que aconteceu pra tu me ligar a essa hora?
— Tu pode dormir no meu quarto hoje? Eu te ajudo a por o colchão lá do meu lado.
Ian olhou para a tia, que sorriu ao ver os primos juntos de novo.
— T-tá. Vamos lá então.
Dan sorriu e puxou o mais velho pelo braço. Foram até o quarto dele, deixaram suas coisas e levaram o colchão até o quarto do mais novo. Assim que ajeitou a cama, finalmente se sentiu em paz.
— Satisfeito agora? – Isabel perguntou – Podemos dormir?
— Sim mãe. Boa noite – Dan deu um beijo na bochecha da mãe.
— Boa noite tia – Ian disse. O rapaz mal podia se conter de tanta felicidade.
— Boa noite guris.
Quando Isabel foi para o quarto, Dan então foi para sua cama se deitou encarando o primo.
— Tu não vai se deitar?
— Vou sim. Só to meio... Em êxtase sabe?
— Cala boca e deita ai – O menor brincou.
E foi o que Ian fez. Mal acreditava naquilo. Significava um tempo de mudanças?
CONTINUA
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