MEDO

Certas coisas acontecem na vida da gente para provarmos de que somos feitos. Os instintos que nos colocam lado a lado dos seres selvagens vêm a tona com toda força capazes de concentrar, encarando qualquer perigo iminente sem temer perder a batalha. Quantas mães leoas passam por nós todos os dias, de mãos entrelaçadas com suas crias, dispostas a tudo por seu zelo e bem estar; ou até mesmo pessoas de nossa estima que defendem com unhas e dentes aqueles que amam.

Alisson era um desses sem sombra de dúvida. Nunca permitiu que qualquer ser vivo fizesse troça de si ou algum morador de seu coração. Naquele momento, sentia ter contas a acertar com quem ousou desafiá-lo e, mais ainda, provocar aquele cuja presença abalava as estruturas de seu coração. Passou o restante da aula preocupado com o estado ferrado da cabeça dele, que já não era o símbolo da clareza. Quanto mais pensava, maiores eram seus temores, afinal de contas o menino estava perdido em meio a tanta coisa acontecendo ao seu redor.

Adrian e Jeferson também foram alvos de alguns questionamentos os quais se permitia fazer. Via em suas expressões de cães em feira de adoção a culpa lhes consumir. Pouco mediram as consequências antes de tomar qualquer atitude. Colocou em cheque até onde podia confiar neles, uma vez que ambos deveriam conhecer Daniel a ponto de imaginar um terremoto vindo dele em circunstâncias assim. Oras, se nem seus sentimentos foram levados em conta, quem dirá sua saúde emocional! Tinha claro em sua mente a pisada de bola que eles tinham dado e ainda arrumaria tempo para tirar a limpo tudo nos mínimos detalhes. Coisas mais urgentes apareciam primeiro na pauta de problemas.

O pior de tudo era o engraçadinho provocador ter continuado na aula como se tudo estivesse na maior plenitude espiritual com a qual uma pessoa é capaz de conviver. Como, apesar da tiradinha de péssimo gosto, não havia sido quem partiu para ignorância, foi advertido e teria de vir no turno inverso realizar alguns trabalhos voluntários. Pena pífia, ridícula, na opinião do amigo de Dan. Por muito menos ele próprio já teria sido “convidado a se retirar” da escola, então por que deixar um garoto metidinho de ego inflado, virando o centro das atenções e cuidados por parte das meninas da turma?

Via suas lamúrias falsas, raiva cínica e camada rasa de choramingos, tendo vontade de vomitar em cada um deles. O sangue parecia cozinhar dentro de suas veias, praticamente turvando boa parte de seus sentidos. Não todos, apenas aqueles capazes de controlar o leão feroz residentes dentro do seu peito, o que não melhorava em nada, ao contrário, agravava ainda mais sua sede de fazê-lo engolir as palavras esdrúxulas proferidas por aquela boca imunda. Foi inevitável — tanto sua mente quanto seu coração clamavam incessantes por uma dose cavalar de justiça. Soube direitinho o que fazer.

Esperou se aproximar da hora de saída e pediu a professora para tomar água. A mulher contestou, dizendo faltar tão pouco para a aula acabar e solicitando que aguardasse um pouco mais. Depois de meio minuto de birra, ela acabou por deixar, pedindo que já levasse então sua mochila para não precisar voltar. Foi como música para os ouvidos de Al. Caminhou sorrateiramente até o portão, estando a poucos metros quando o sino anunciou o fim das aulas daquela manhã.

Saiu e aguardou poucos metros depois da escola, justamente pelo caminho onde via o tal moleque passar todos os dias, sempre com um ou dois amigos a tiracolo. Quando ele lhe viu, ficou tão branco quanto o muro do terreno onde Al estava escorado, ao passo que seus amigos se posicionaram de maneira tão absurda que simulava seguranças protegendo um astro do rock. Não pôde deixar de rir e ironizar.

— Não consegue mais sair sozinha na rua, Paris Hilton? — seus lábios formavam um sorriso largo e debochado.

— Tô sem tempo pra ouvir declarações de amor, Alisson, principalmente vinda de macho — ele revidou, no mesmo tom — Saiam da frente, c*r*lho! Sei me defender!

Os amigos então o fizeram, deixando-o frente a frente com o mais velho.

— Na patente de onde tu saiu tu pode até ser a b*sta mais cheirosa, mas continua sendo b*sta, sabia? Então vê se fecha essa boca antes de falar de mim ou do Daniel de novo, falou?!

— Pra se ofender, é porque não é boataria, concorda? — o menino se aproximou — Vamos combinar o seguinte: A partir de agora tu e o Daniel frequentam o banheiro feminino e deixam os homens no banheiro deles. Dou a maior força, inclusi—

Nem terminou a frase. Num impulso de raiva fechou os dois punhos e revezou-os na distribuição de bolachas. Deu apenas três, duas no lado esquerdo e uma no direito, mas o suficiente para seu rosto, já machucado pela situação de antes, ficar ainda mais roxo e inchado. Os amigos tentaram intervir para ajudar, acabando por cair por terra. De forma rápida, Al chutou um deles para longe e o outro pegou pelo braço e jogou contra o muro, deixando os três gemendo no chão enquanto ria da cena patética.

— Tenho outra proposta. A partir de hoje, tu e esses dois girinos de praia aí frequentam o pronto socorro para trocar os curativos. Tá feio isso, hein? Trata antes que piore!

Dito isso, foi alegremente em direção ao “Wunde Bar” com a alma acalentada por ter posto um ponto final naquilo tudo — a seu modo, o que tornava bem mais interessante. Queria muito poder contar a Dan seu feito travesso, tendo certeza que isso o deixaria um pouco mais alegre. No entanto, respeitaria seu desejo de ficar a sós com seus pensamentos. Até ele, depois daquilo, gostaria muito de ir para casa e ficar revivendo a lembrança até perder a graça, se é que era possível. Por hora, só podia rir em pensamento mesmo.

De certa forma, via como improvável tudo aquela confusão ter sido gerada através de algo que, no fundo, era verdade. Isso se dava pelas constantes lembranças de jamais ter se sentido tão obrigado a se defender de algo assim como naquele momento. Seus pecados pareciam ter se voltado contra si e, pior, sido expostos ao mundo como forma de desabar seu telhado de vidro.

Como podia ter se metido nisso sem que sequer se desse conta? Teria um beijo, dado em uma circunstância tão pouco convidativa, tamanha força para despertar dentro de si o benefício da dúvida? Como isso era possível e viveu anos sem que desse o menor sinal de existir? Todas essas respostas, no fundo, tinha na ponta da língua. Ao contrário de Daniel, pelo menos, tomava consciência delas a cada dia que passava e ia tentando lidar como podia. Não sabia, porém, por quanto tempo iria lutar por dois, pois mesmo não tendo nenhum caso amoroso, jamais permitiria que algum intrometido acabasse com ele, o que lhe deixava cansado em vários momentos. Torcia para Dan se entender no mundo depressa, para assim não se sentir carregando o universo nas costas.

Chegando no trabalho, deu um rápido ‘olá’ para Gina e foi para o vestiário, chamando Gil para que lhe acompanhasse. O ex de Ian revirou os olhos imaginando em qual canoa furada ele havia se metido. Ficava pasmo com a capacidade dele de se envolver em um caos e não conseguir sair depois. Sentou no banco do vestiário enquanto Al trocava de roupa um tanto afoito, atraindo sua atenção.

— Não quer que eu vire pro outro lado pra não avançar em ti? —ironizou, rindo.

— Já não me assediou que chegue na vida? — foi a réplica, deixando Gil como um temporal se armando, o que fez com Al se sentisse vitorioso e desse seguimento a fala — Ok, sem enrolação… Presta atenção que não sei se vou ter coragem de repetir isso até o próximo século.

— Tem toda minha atenção, Miss Simpatia! — cruzou as pernas, seguindo observando Al pôr o uniforme do trabalho.

O menino encarou por um instante o celular de Gil em seu bolso, lembrando de todos os vídeos e coisas incríveis que aprendeu em alguns segundos bisbilhotando o aparelho. Ao mesmo tempo, sentia frio na espinha só de pensar em isso dar tanto certo quanto errado. Ambos pareciam punhais sendo cravados em seu coração e não aguentava ficar assim, sem compartilhar com ninguém o que pensava a respeito. De longe o rapaz, responsável por lhe proporcionar, ainda que por vias tortas, a primeira experiência com alguém do mesmo gênero, parecia o mais sensato. Já que tinha lhe envolvido nesse mundo, nada mais justo que dividir o fardo também.

Encheu seus pulmões de ar e nem pensou muito antes de proferir as palavras. Apenas deixou que seu coração falasse o que achava necessário ser dito. Seria a primeira vez, então precisava ser verdadeiro, transparente consigo e com aquele que lhe escutava.

— Existe… uma vaga possibilidade… de… sabe… — suas mãos começavam a transpirar e a voz parecia querer falhar — Eu… e o… Dan—

— NÃO CREIO! — o maior deu um berro responsável até por causar um terremoto no oriente médio, tendo a boca tapada por Alisson num ato de desespero.

— Não vai cantando vitória, entendeu?! Não aconteceu nada!

— Mas a intenção existe! — disse, por entre o som abafado da mão do menino. Este não tardou a tirá-la — Eu sabia que qualquer hora dessas a ficha ia cair.

— Deve tá rindo por dentro, né seu pa* no c*?

— Só porque dois guris resolveram se pegar? Não é como se fosse novidade pra mim — deu de ombros — Agora, pra ti deve tá sendo uma loucura…

Al então tirou a calça e colocou a de trabalho, suspirando fundo enquanto procurava raciocinar para não dizer mais do que precisava.

— Parece que… preciso sempre interceder por ele, sabe? Desde que o primo dele me pediu quando eles brigaram a minha responsabilidade com ele foi crescendo e.. tô aqui agora… depois de surrar um guri que tirou troça da cara dele.

— Métodos anárquicos de demonstrar amor. Tua cara! — debochou.

— Quer calar a boca e me ajudar a pensar antes que eu me arrependa de te contar uma m*rda dessas?! — exigiu, fazendo o outro bufar — Eu disse que existe a POSSIBILIDADE! Só isso!

— Claro… sei — Gil revirou os olhos — Não tem outro jeito de encarar as coisas, sabia? É como comer aspargo: a gente engole antes do gosto ruim ficar na boca.

No fundo, sabia que era verdade. Negar para si mesmo algo que já se perguntava se realmente conseguiria suportar parecia ainda pior do que simplesmente admitir tudo e se deixar levar pela aventura de viver um novo mundo, fora de sua zona de conforto e abrindo uma nova janela em sua mente.

Sentou no banco poucos metros distantes de Gil, passando as mãos sobre seu rosto enquanto tentava raciocinar de forma clara e direta. Muitos eram seus questionamentos. Soava frio com algumas delas. Tinha certeza, no entanto, de que para o outro era pior do que enfrentar mil bois com uma cadeira em mãos. Isso conseguia lhe preocupar até demais, pois sequer sabia direito o que estava fazendo e pouco podia intervir no andar da carruagem.

Gil também ficou um tanto quanto mexido vendo Alisson naquele estado. Jamais passou pela sua cabeça lhe ver tão apavorado com algo como aquilo. Quando o beijou e conseguiu dele uma transa no chuveiro, podia jurar como não passaria de mero alívio de tesão acumulada e que logo estaria na ativa arranjando alguma garota para se divertir com o que de fato gostava. Mal podia acreditar estar passando por uma situação daquelas e, pior, ajudando-o a tentar enxergar a luz.

— F*da-se — depois de um silêncio constrangedor, Al finalmente se pronunciou — Daniel precisa mais disso do que eu.

— Ei! Calminho aí, cara pálida! Não é assim! — o ex de Ian advertiu — Tá achando que vai ajudar estando tão perdido quanto ele?

— É, isso mesmo — revidou — Porque a grande diferença é que eu sei me defender. Ele não. Simples assim.

O garoto abriu a porta e foi logo arrumando as coisas para seu trabalho enquanto os ouvidos de Gil processavam mesmo se ele tinha ouvido ou estava louco. Conhecia bem aquela postura forte e destemida, como se o mundo fosse pequeno e os desafios fúteis demais para impedir algo de acontecer. Lembrava muito Ian e seu jeito único de tentar tirá-lo da fossa. Ao que pôde notar, porém, não era tão único assim. Havia mais um forte candidato a vaga de superprotetor, desta vez não seu — talvez até com mais garra do que o próprio garoto que tanto amou.

***

Como relutar contra todas as evidências possíveis e ainda continuar sobrevivendo para contar a história? Nada parecia justificar a tormenta que Daniel sentia estar pululando a sua volta. Problemas vertiam da terra, sentimentos cuja existência desconhecia o nome assombravam seus dias. Para tornar tudo ainda mais difícil, viu seu nome cair na boca venenosa dos colegas e amigos. Estes últimos ainda pior por serem pessoas com as quais sempre pensou poder confiar.

Durante muito tempo, conseguiu viver uma vida como qualquer outro garoto de sua idade. Com alguns percalços, é verdade, incluindo o próprio fato de ter evitar o contato de sua ex namorada com sua família por si só comprovava isso. De repente, esses pequenos probleminhas foram acarretando em coisas maiores do que jamais pensou, passando do tradicional preto no branco a uma explosão de cores ocorrendo de todos os lados. Já não podia mais dizer que era o mesmo e nem pensava em como seria dali para frente. Seus olhos já não tentavam mais segurar as lágrimas escorridas por seu rosto cor de areia molhada. Sabia que iria se expor partindo as vias de fato com o tal garoto, talvez até jogasse fora todo o resto de sanidade que respirava por aparelhos em sua mente, só que não voltaria atrás. Difícil se reerguer quando nada ajudava.

Tudo havia começado com o fatídico dia do episódio do balde. Dali em diante, a roda da vida foi girando, pessoas entrando e saindo, coisas esquisitas tidas quase como a nata da normalidade. No meio disso, um menino que mal conseguia controlar sua vida tendo que ver aquele rebelde metido a valentão conquistando mais espaço do que deveria. Parecia ter ocorrido há uma eternidade, mas apenas dois meses o separava dele.

Memórias começaram a aparecer como vultos lhe assombrando. Via nelas a primeira conversa com Al; a primeira aula de dança; o dia em que foram às compras; até finalmente o momento em que seus lábios se encostaram pela primeira vez. Na hora pareceu tão idiota, provocativo, que nem em sonho podia contar que acenderia uma porção de velas para iluminar seu coração. Ouvia o pulsar de seu coração cada vez que a cena aparecia diante de seus olhos. Uma, duas, três, quatro vezes… perdeu-se contando.

Não aguentando mais aquele surto, pegou o celular e, com as mãos trêmulas, discou um número o qual tinha certeza que iria lhe acudir, apesar dos pesares. Suplicou para que a pessoa chegasse ali mais depressa do que o furacão Katrina. Seria horrível ter de ficar ali por horas pensando naquilo sem ter alguém para lhe trazer à realidade — ou, ao menos, dissipá-la aos olhos. Queria só descansar, esquecer que o mundo ao entorno existe. Até faltar ao trabalho já tinha decidido. O que mais importava? Não conseguiria fugir do faro da tia em descobrir uma trapaça.

Encostou sua cabeça no travesseiro de novo e encarou o teto, deixando os pensamentos se espalharem por ele numa tentativa de observá-los de outra forma. Gostaria de poder projetar tudo o que se escondia por sua cabeça e deletar aquilo considerado sem cabimento. Via os pontos onde havia errado serem exibidos, mas sabia que não podia mais voltar atrás. Suas escolhas culminaram onde deveriam, ainda que fosse doloroso admitir. Mais ainda da chance de poder escolher, a vida tratava de lhe achar alguém capaz de fazê-lo amar outra vez, desta vez sem o compromisso de entender tudo. Já sabia disso, só não queria aceitar.

Não demorou para ouvir uma voz ecoando no portão, saindo correndo como se a casa estivesse prendendo fogo. Aquela, acreditava, seria a última e definitiva conversa a respeito. Depois, iria guardar e tratar de achar algo melhor para fazer. Inclusive, ir morar com os tios e primos em Porto Alegre começava a lhe soar interessante. Se a menina ali não pudesse lhe ajudar, ninguém mais poderia.

Vanessa mal podia acreditar no estado de Dan quando ele se aproximou. Parecia ter acabado de perder um ente querido e desidratou de tanto chorar. Ao contrário do que seus pensamentos a convenceram, o caso parecia mesmo sério. Pior de tudo era ter suspeita da razão. Não falou nada de início, apenas entrou e seguiu para dentro da casa que muito frequentou no passado as escondidas. Se antes as boas memórias sustentavam os pilares do lugar, ao que tudo indicava, o peso imenso da realidade começava a ficar difícil para seu ex segurar sozinho.

Sentaram-se um em cada sofá, ele no maior e ela no menor, seguindo sem uma palavra no ar. A loira gostaria que ele mesmo colocasse as cartas na mesa, sem pressão ou insistência, quase como um desabafo. Como sua intuição, com raras ocasiões, era certeira, se ousasse proferir uma só sílaba a respeito, seria pior do que desarmar uma bomba nuclear. Quem lhe chamou foi ele, pois então que assumisse a responsabilidade. Estava ali como ouvinte no primeiro momento.

Dan tentava articular bem de que forma a informação sairia de sua boca sem parecer tão agressivo a seus ouvidos. Nada muito útil, afinal de contas a constatação era quase certa. Brincava com seus polegares, sem encará-la face a face, como se uma bigorna de vergonha estivesse em cima de seu pescoço. Sabendo ser necessário tomar atitude, suspirou fundo antes de finalmente confessar, ainda que por um viés menos direto.

— Eu acho que tô fora da casa, Van — coçou a nuca — Não posso tá normal.

— E o que te levou a concluir isso? — arriscou, com olhar fixo nele.

Novamente, respirou fundo.

— Desde que a gente terminou tá tudo tão confuso… Minha cabeça parece que deu um nó e não tô sabendo desatar…

— Isso não responde a pergunta — foi direta — O que te levou a pensar que está mentalmente instável e que precisa de ajuda?

— Quer parar de falar como se eu fosse um paciente? — o menor se irritou, mas a outra não se deixou intimidar — Pode estar se formando, mas não estamos em sessão.

— Quer ajuda ou não? Se não, levanto e vou embora. Não tenho mais obrigações contigo esqueceu?

Dan revirou os olhos, ainda que soubesse que era verdade. Odiava como aquilo tudo soava invasivo, até humilhante em sua percepção. Ninguém além de Ian tinha total clareza dos fatos sobre si e convivia muito bem assim. Começava a se arrepender de ter chamado a ex para resolver seus problemas, mas já que estava ali e disposta, chutou o balde. Nada mais podia perder.

— O que me levou a isso foram essas bizarrices que andam acontecendo comigo. Primeiro, meu primo diz que sente tesão em mim, depois a história do beijo com o Alisson e aí agora…

— Teve outro contato?

— Óbvio que não! — contestou, indignado — Aí sim já podiam dizer que tô louco mesmo!

— Quer dizer que isso tudo é por algo que aconteceu há tempos atrás? — pôs em cheque — Mentir pra mim ou pra ti mesmo é só uma tentativa de fuga, Dan. Se é do teu interesse resolver isso logo, precisa começar a admitir que certos impulsos acontecem.

— Tu fala como se eu tivesse admitindo que quebrei um brinquedo, daí levo umas chineladas e vida que segue — sua cara só não estava mais amarrada por falta de espaço — Nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo… Justo comigo…

— Muito bem — cruzou as pernas, seguindo observando-o com olhar de águia — Tu tá vivendo um período complicado de compreensão e admissão dos sentimentos. É importante apenas que tenha em mente que isso não é culpa de ninguém, nem tua. Gostar de alguém do mesmo gênero com o qual a gente se identifica vem do mesmo instinto que gostar do gênero oposto. Nascem da mesma vertente: o desejo, atração. Entende? Portanto, não se sinta azarado ou condenado. São só instintos que estão despertando. Uns desperta quando criança, outros depois de muito tempo… Varia de pessoa para pessoa.

— Mas eu sempre gostei de gurias! Como pode isso?!

— Ué, acabei de explicar! — exclamou — O teu cérebro foi despertado por algum fator e gostou do que sentiu subconscientemente, ainda que tua parte consciente não aceite isso de jeito nenhum. Aí criou esse dilema todo.

Daniel refletia sobre as palavras proferidas por Vanessa. Era tudo verdade, sabia disso. Quando o coração pulsou forte dançando colado com Alisson no trote da troca de roupas, sentiu a ficha caindo lá no fundo que, a partir dali, a vida seria outra. Coçou a cabeça enquanto mordiscava o lábio inferior. Tremia com o restante da conversa, mas tentou seguir como pôde.

— Se eu aceitar, isso tudo passa? É isso que tá dizendo? — questionou, visivelmente abalado.

— Não é algo do dia pra noite. Isso leva tempo, preparo. Conforme as barreiras vão sendo vencidas as lembranças são aceitas de forma menos traumática — sorriu — Sabe me dizer quantas têm de contato com outros guris?

— Três ou… quatro, eu acho. Não sei mais…

— Todas com o mesmo rapaz? — foi difícil admitir que esta pergunta tinha muito mais cunho pessoal do que “profissional”. Sabia das histórias, mas ouví-las da boca de Dan era tentador.

O rapaz, no entanto, em nada gostava de falar em voz alta. Não era expressivo, nem tão assustador, mas tinha tanta precisão nos realizadores do feito que chegou a ter um calafrio. Negou de forma quase imóvel com a cabeça, deixando a ex intrigada.

Não foi difícil para ela imaginar quem seriam os tais sujeitos. Dava graças aos céus por estar tentando superar tudo a seu modo, tranquila, consciente. Claro, nem tudo era simples. Dias de carência e saudade eram até mais frequentes do que gostaria. Ao mesmo tempo, quando se reerguia se sentia poderosa, pronta para o combate. Daniel foi salvo pelo gongo.

— Foram duas coisas bem diferentes… — o primo de Ian comentava — Quando aconteceu com o Ian, parecia que estava chapado. A gente se beijou e pronto, o efeito cortava logo no fim.

— A outra foi a com o Alisson, correto? — chutou, recebendo a confirmação com a cabeça — E como foi o beijo com ele?

Tentou fazer sua mente trabalhar e relembrar o marcante momento em que seus lábios cruzaram os dele. O grande problema era o álcool consumido naquela bendita noite, atrapalhando suas memórias e confundindo seus pensamentos. No entanto, toda vez que se encontraram depois, uma faísca acendia em seu coração. Uma força inata, incontrolável e avassaladora, tal qual o próprio Al parecia ser sobre seus olhos.

— Não lembro bem… — começava — Depois daquilo a m*rda toda só piorou…

A loira engoliu seco, levantando do sofá onde estava e foi ao encontro dele. Sentou, pegou de leve suas mãos e ergueu seu rosto para que visse e prestasse atenção em cada palavra dita.

— Dan… — começou — Já pensou em repetir?

Mal conseguiu acreditar no que seus ouvidos tinham ouvido. Seus olhos por pouco não saltaram para fora do rosto.

— Tá bêbada? Não né?! — falou como se fosse a coisa mais óbvia do planeta.

— Por quê?

— Porque não!

— Isso não diz nada pra mim.

— Eu não vou gostar de macho! Pronto! Me recuso a cair nessa modinha tosca!

Para seu infortúnio, outro grande apoiador da causa entrou em casa. Estava de fones de ouvido que tocavam uma música em volume alto, surpreendendo-se vendo o primo e sua ex na sala. Cumprimentou a menina e questionou Daniel a razão de não estar no trabalho. Sabendo que não teria escapatória, explicou o motivo — em sua opinião — estapafúrdio pelo qual estavam ali discutindo. O mais velho revirou os olhos, sem acreditar que debatiam isso ainda.

— É impressionante o quanto tu gosta de andar em círculos, né carinha? — provocou — Vai esperar comer o r*bo do Alisson pra aceitar?

Van se segurou para não rir da colocação. Era tragicômico, admitia, afinal falavam de um garoto que amou (e, a bem da verdade, ainda amava). Mas só a expressão de cão apavorado já valia todo o estresse em torno disso. Dan, por sua vez, não sabia se tinha um ataque de raiva ou pânico.

— De onde surgiu essa ideia tosca de que vou comer aquele bebê chorão, posso saber? — questionou, com rosto de poucos amigos.

— Pode dar pra ele também, não importa — deu de ombros — Tu passa longe de ser um guri burro, Dan. Chega de ficar fingindo que não sabe ou querendo não saber. Isso vai acabar com a tua vida e fazer um monte de gente infeliz. Vanessa, o próprio Alisson, tu, eu—

— Tu?! Por que tu?! Não foi o que sempre quis? Que eu gostasse de homem?!

— Eu queria que tu gostasse de mim, é diferente — ponderou, deixando o primo desnorteado e constrangido por sua fala — Tá tudo bem, eu sobrevivo. Só assume isso, tá? Ou daqui um pouco vai ser difícil continuar do teu lado…

Ian então sorriu, antes de subir para seu quarto, deu um beijo na bochecha do primo e outro em Vanessa, que permanecia quieta observando seu ex namorado sentar no sofá colocando as mãos no rosto desesperadamente como se quisesse arrancar sua pele. Era nítida a barra pesada que ele estava passando, mas nada podia fazer além de prestar apoio.

Quanto a ele, recebia aquelas palavras como um tiro à queima roupa. No fim, nada mais poderia ser feito ao que podia perceber. Morria de medo de perder aqueles que amam, mas também de engatar de cabeça em um mundo que não conhecia. Pedia ao universo que lhe desse uma mão, pois ele mesmo já perdera a esperança de ser como qualquer garoto “normal” de sua idade.

***

É natural quando se tem amigos que nossas preocupações se tornem as deles também, afinal amizade é empatia pura e simples. Sem isso, as relações são construídas a partir de falsos simbolismos e ilusões sombrias, capazes de nos torturar ao longo de uma vida. Talvez por isso Sabine se considerava tão inconformada com tudo — Daniel e Alisson havia tratado a todos eles como idiotas completos e cegos, sem lhes dar oportunidade de ajudar.

Disposta a resolver a situação, combinou com Jeferson de se reunirem em sua casa mesmo. Porém, o garoto comentou sobre estar de bobeira em casa sozinho a noitinha, tendo mais privacidade para falar sem medo da conversa vazar. Foi tiro e queda. Logo criaram um grupo, combinaram alguns comes e bebes e, no horário marcado, lá estavam todos — exceto os envolvidos na trama toda.

Todos sentaram no sofá preto que fazia volta na parede da casa do rapaz. Comiam alguns sanduíches caseiros, um pudim e até pizza com refrigerante. Falavam de besteiras até chegar no ponto de interesse comum. A loira, inclusive, foi a primeira a comentar sobre o acontecido com um rapaz na saída da escola, bem como a incerteza de todos perante quem o fez. Nem mesmo os amigos do sujeitinho agredido sabiam dizer, o que tornava tudo ainda mais esquisito.

— Acha então que o Dan surrou o cara e os amigos? — Jeff arriscava, enquanto comia um pedaço da tal pizza de calabresa com queijo.

— Daí é forçar a amizade, Bine. Convenhamos — Adrian complementou — Dan não dá conta de correr meio metro na aula de educação física e vai conseguir sentar o sarrafo em três de uma vez?

— Se ele teve ajuda, por que não? — foi a réplica — Quem é que não estava com a gente além dele?

Todos acabaram por concordar que a hipótese tinha certo fundamento. O problema foram as caras e bocas feitas por Jeferson, chamando a atenção de Amanda. A menina perguntou o que ocorria e o menino foi pontual na resposta.

— Sei lá, mano, é muito bizarro isso. É como se Darth Vader e Han Solo assumissem namoro. Credo!

— Se bem que o Dan tá mais pra Chewbacca! — o ruivinho namorado de Mandy comentou, rindo.

— Até parece que tu tem moral pra falar deles, né Jeff? — a própria perguntou.

— Ei! Qual é! Que papo é esse agora?! — o rapaz não entendeu. Sabine e Adrian então menos ainda.

— Tu sabe muito bem que apostar certas coisas por motivos idiotas é infantil, né? — tremeu na espinha ao se tocar do que a garota falava. Sabine até questionou sobre. sendo cortada na mesma hora.

— Tá, beleza. Eu não palpito mais — rendeu-se — O que fazemos então? Deixamos rolar ou fazemos que nem essa loira maravilhosa que chega metendo o pé na porta? — alfinetou sua crush, que não curtiu em nada o comentário.

— Pra tua informação, eu só detesto injustiça. Acha justo uma namorada ser traída e aceitar isso calada enquanto o namorado desfila por aí com um guri?

— Mas eles não terminaram? — Mandy tentou argumentar.

— Sim, só não sei porque ainda… Enfim, não faz diferença — deu de ombros enquanto esticava o braço e pegava uma fatia de pizza — Ao que parece, esses dois ficarão juntos mesmo.

— É uma questão de tempo. Só que vai ser f*da pra eles aguentarem as tiradinhas dos guris. Ninguém ali tá poupando esforços pra botar Al e Dan no c* do cachorro — explicou Adrian.

— Por isso eu acho que é melhor que a gente seja a mão que ajuda, não a que dá o tapa! Vocês conhecem Al e Dan e sabem que dali dá pra esperar qualquer coisa!

— De acordo! — Mandy falou, dando pulinhos no sofá.

O namorado ruivo também foi o segundo a concordar com os termos. Jeff pareceu ainda desconfiado, temeroso com os rumos que tudo iria tomar. Gostava dos amigos, só não sabia ao certo se iriam conseguir vencer essa batalha. No entanto, bastou a mão da loira atrelar-se a sua com um sorriso nos lábios para ter certeza de, apesar de completamente louca, tinha bom coração. Acabou entrando no acordo também, para alegria geral da nação.

Continuaram então com sua reunião até 21h45min quando todos foram embora, por exceção de Sabine, que quis falar ainda as últimas palavras antes do motorista de aplicativo chegar. Pediu, quase em súplica, que o affair compreendesse a importância do que estavam fazendo e entrasse de verdade na causa. Jeff revirou os olhos, pouco entendendo o que podia ganhar com isso, uma vez que jurava de pés juntos estar superando Daniel.

— Só fiz isso pra ficar em paz com minha consciência — explicava ela — Quando eu vi a Vanessa aquele dia e depois ele com o Alisson… Nada me pareceu correto, mas não por seres dois guris, mas pelo contexto todo entende?

— Que contexto se a gente nem sabe direito o que rolou? Tu deduziu, só. Aliás, quero só ver quando ele descobrir que andou metendo bedelho demais onde não foi chamada. Até que a Vanessa foi homem tu descobriu.

— Isso foi sem querer. Nem ia imaginar isso! E também não acho que ela esconda isso. Parece resolvida quanto a essa questão.

— Ela sim, já o mundo— mal terminou de falar quando levou um tapa no ombro — EI! Qual é?!

— Tchau, Jeferson! — mostrou-lhe o dedo do meio antes de sair para entrar no carro, deixando o menino rindo para trás.

Mal fechou a porta quando os pais chegaram também. Como não queria puxar muito assunto e toda louça havia sido lavada, apenas foi para seu quarto refletir, pois, dali por diante, precisaria ser mais do que alguém a quem pedir socorro na hora das provas — seria um ombro amigo em potencial para dois rapazes que precisavam muito!

CONTINUA

Notas finais
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