A Teoria das Cores
83 Malva III
SENTIMENTAL
Sábado é aquele dia para pendurar as chuteiras em relação ao mundo, se dar uma folga para organizar a vida, curtir com a família, amigos e quem mais desejar. Aos estudantes, fechados em uma instituição de ensino por cinco dos sete dias na semana, se vêem sem as amarras e vão curtir a vida. É bem verdade que, caso fosse em qualquer outro lugar, Alisson se empolgaria ainda mais. Porém, tinha consciência de não ser possível, então só aceitava a vida.
O anúncio feito pelo treinador a respeito da competição mexeu com seus brios. Viu a oportunidade de mostrar ao mundo seu valor e as habilidades descobertas com as aulas. Tinha jeito pra coisa, e não era nem um pouco modesto. Lastimava o trabalho tomar tanto seu tempo, podendo exercitar alguns poucos minutos antes de entrar em coma na cama. Faria então o recomendado: procuraria não faltar mais e dedicar o máximo ali para não perder o foco. Sequer tomou café. Aproveitou o fato da mãe se dar ao luxo de umas horas de sono a mais e foi para a escola de estômago vazio. Era até bom para não enjoar com os rápidos movimentos.
Colocou os fones de ouvido só para se exonerar um pouco da órbita, até porque já estava um pouco assim desde ter tido um surto de contar a Gil sobre seus sentimentos. Além de, vira e mexe, deixar escapar uma tiradinha ou outra, seus instintos lhe afirmavam que Ian, se já não estava sabendo, iria saber logo. Pelo atração entre eles, segredo é uma palavra a qual não tinha significado. No fim das contas, sabia do desperdício de tempo tentando remendar o que foi dito.
Ainda que soubesse e contassem a Dan, por vontade própria ou deixassem escapar, era algo com o qual pouco se importava. O garoto já era atormentado o suficiente lutando contra os fatos, saber de sua boca ou não era mera formalidade. Tremia um pouco pensando no confronto entre eles sim, pois jamais pensou precisar passar por isso com um homem. Nada era só flores como tentava se convencer. Agora, Ian ou Gil abrirem a boca só lhe pouparia o trabalho, cuja execução estava evitando ao máximo, diga-se de passagem.
Preocupava-se também em como ele estaria lidando depois dos acontecimentos tão impulsivos. Dois dias sem dar notícias era quase um recorde, e, julgando pelo estranho modo com o qual os amigos lidaram com a notícia dos meninos que agrediu, sinal de tempestade se formando. Jeferson publicara no grupo dos amigos a respeito, então Dan já sabia do fato. A razão de não ter lhe procurado bem sabia, mas e resto do pessoal? Pensava se Sabine tinha as respostas, uma vez que seu faro para intrigas parecia um imã no qual as respostas eram atraídas sem fazer muito esforço.
Seus pensamentos foram enxotados ao chegar na frente do Presidente Lincoln. O coração pesou por não ter seu parceiro de todas as aulas. O único consolo eram os bons tapas que ele havia dado no engraçadinho e nos que si mesmo também fez questão de dar. Querendo ou não, seria o famoso me, myself and I.
Quase caiu o queixo ao ver o restante da turma em peso ali. Geralmente as faltas eram intercaladas, com um ou dois rostinhos (incluindo o dele e o do primo de Ian) não aparecendo. Ao que pôde concluir, não era o único com euforia nas veias Todos ansiavam por mostrar suas habilidades, diga-se de passagem o grupo conseguiu reunir quem dominava os passos e, mais do que isso, tinha a arte como uma doutrina filosófica. O potencial fazia jus a empolgação.
Assim que avistou Ana foi a seu encontro. Cumprimentaram-se, mesmo com o garoto estranhando um pouco a falta de Daniel. Alisson então se deu ao trabalho de explicar por cima o histórico dos últimos acontecimentos, atraindo o olhar apavorado do menor.
— C*r*lho… Foi feia a coisa então... — coçou a nuca, ainda impressionado.
— Se o pessoal dessa escola cuidasse do seu próprio c*, quem sabe não precisasse?
— É, pior que tu tá certo. Será que isso prejudicará a participação dele na competição?
— Não, porque é a primeira suspensão. Logo termina e ele volta. Vai ser f*da a aula sem ele…
— Por? — sua curiosidade falou mais alto.
— É aquela coisa… combinamos juntos de entrar nessa de dança. Fazer sem ele é estranho.
— Com certeza! Também não sei o que seria de mim aqui se não fosse a gurizada parceria me incentivando!
— Mas me conta aí! Como é ter o apoio dos amigos? Eu não sei muito disso, então…
O menor lhe encarou com cara de quem perdeu alguma parte do fio da meada e nem se ligou.
— Tu não acabou de dizer que — só então que a ficha caiu — Espera… É isso mesmo que tô pensando?
— O quê? — deu uma de joão sem braço.
— Isso só pode acontecer de uma forma…
Al sorriu, malicioso, vendo que a tiradinha tinha surtido efeito. Sem sombra de dúvida, dizer com exatidão as palavras necessárias soava esquisito demais, chocante como seria caso comprovassem que a teoria terraplanista. Nada o impedia, porém, de lançar tudo pelas beiradas, devagar, para as pessoas certas. Ana realmente não era um grande amigo de grandes aventuras, mas tinha tato. Havia mal nenhum dele descobrir.
— Antes que pergunte, não somos nada. Existe a possibilidade, só isso.
Explicou então sobre os últimos acontecimentos, as confusões nas quais se meteu, as desconfianças e tudo que tinha direito. A parte mais interessante ao rapaz, porém, se deu quando ouviu a respeito do término de Daniel e Vanessa. Conversou com a loira algumas vezes desde que saíram juntos com Mia, mas nunca sequer foi mencionado o fatídico evento. Se por um lado, alegrava-se, por outro o coração aceitava o título de grande Judas entre os homens. Seu cérebro não tinha coragem suficiente para pular a cerca, agradecia muito por isso, ainda sim seria hipocrisia afirmar que a garota mexia com seus brios desde quando pôs seus olhos nela. Na ânsia de contar tudo, passou batido para Alisson as caretas que tentava a todo custo esconder.
O monólogo só se concluiu com a chegada de Gustavo. O docente carregava um sorriso animado nos lábios, retomando então o assunto da competição. Explicou que seria em uma manhã reunida com várias escolas regulares com a dança implementada ao currículo. O prêmio seria, além da taça para escola e medalhas de campeões, um investimento de 20 mil reais para a instituição. O filho de Marisa não comentou em alto, mas achou um absurdo se matarem dedicando tempo naquilo para a escola ficar com a melhor fatia do bolo. O treinador seguiu para a conclusão, falando da importância de praticar fora do horário disponibilizado na aula, dedicação nestes treinos e nas músicas trabalhadas até então.
Encerrado o falatório, foi a hora de mostrar a que vieram. Começaram trabalhando o point, movimento de braços precisos e firmes combinadas com o groove corporal, passando pelo scoobot, que movimenta bastante o corpo e, principalmente, os membros superiores de forma rápida. Já conheciam aquilo, pois sempre que tinham tempo Gustavo puxava atenção para eles, afirmando serem o básico para soltar o corpo e deixá-lo tomar pela dança. O resto do tempo foram para o Hip Hop propriamente dito, com seu treinador repetindo várias partes da música tantas vezes quanto estrelas no céu. Fazia parte, claro, afinal se queriam mesmo vencer precisariam ter o foco bem claro e o ritmo afiado.
Quando finalmente acabou e alguns exagerados se atiraram no chão com o corpo mais mole que uma ameba, Gustavo pô-se a rir e deu a aula por encerrada. Entretanto, chamou Alisson para ter um particular rápido. Prontamente foi ele, perguntando se havia notado algum movimento ou timing equivocado. Para seu espanto, o rapaz de aparência pouco mais velha que Al comentou sobre ter visto acidentalmente a cena da briga com os três rapazes protagonizada por ele ao vir ali na quinta feira comentar do concurso. O garoto não sabia onde enfiar seu rosto, enquanto o outro novamente deu risada e prosseguiu.
— Sabe por que a arte é tão bela em todas as suas formas? — questionou, recebendo em sinal negativo com a cabeça de resposta — Ela nos provoca o caos e a admiração sem que movamos um único músculo. Por isso se sobressai a realidade em vários aspectos, usada como válvula de escapa àqueles cuja mente precisa encontrar o sol. Quero que tu volte pra casa hoje pensando onde está o teu sol. Tu vai ver como depois disso vai deixar força física para os filmes de ação…
Deu um cumprimento de mãos no rapaz e se dirigiu a quadra para juntar os cotonetes lá jogados deixando um Alisson pensador para trás. Não entendia muito a respeito de arte ou coisas assim, mas sabia sim onde seu sol se escondia: atrás de algumas nuvens escuras, tempestuosas, capazes de trazer consigo enormes catástrofes naturais. Só restava ele se dar conta disso. esse julgava, era o maior empecilho. Resolveu até passar por sua casa antes do trabalho para avaliar a condição caótica a qual devia estar…
***
Se há coisa pior no mundo que ter algum problema de saúde ou debilitação capaz de atrapalhar nossa vida, com certeza é a incomodação e o transtorno que ela traz consigo. Acordar naquele sábado não foi a decisão mais sábia de Daniel, sentindo os problemas lhe alcançando desde cedo. Começou às oito horas, quando Isabel entrou porta dentro berrando aos quatro cantos do mundo a respeito de uma mensagem da supervisora escolar questionando sobre sua ida lá para conversarem.
A mulher tinha sido tomada por um espírito de touro, batendo com um travesseiro mesmo enquanto os gritos seguiam sendo ouvido até mesmo da Etiópia. Tentou fingir inocência, mas a cada negativa, piorava mais. Ian e Bruno até acordaram, chegando com olhares de gato escaldado, mas só até encontrarem a cena digna do núcleo humorístico de novela das seis. Depois, os olhos saltados deram lugar as risadas debochadas.
Quando finalmente ela saiu do quarto esbravejando o mundo pela rebeldia do filho, o primo pacientemente sentou à beira da cama e questionou qual burrada astronômica tinha cometido. Emburrado, contou sobre ter surrado o tal garoto, atraindo o espanto do primo. Ao debochar que Dan não teria forças nem para erguer uma cadeira, foi a vez do menino de olhos claros receber a série de travesseiradas. Desta vez partindo do primo.
Perdendo o sono por conta do ocorrido, levantou e foi tomar seu banho. Lá começou a perceber dificuldade em enxergar o nome dos cremes. Concluiu ser culpa do vapor d'água, dando de ombros. Terminou, se vestiu e desceu para tomar o café, devagar para ver se a revolta da mãe havia acalmado um pouco. Sentou-se à mesa de boca fechada, apenas pegando o que precisava sem maiores alardes.
No entanto, a mesma incomodação com os olhos parecia estar lhe importunando, precisando espremer as pálpebra para entender o que dizia. Como olhar de mãe tudo capta, Isabel percebeu na hora o problema. Sem maiores delongas, afirmou:
— Tu vai ir no oftalmologista.
— O quê?! — exclamou, surpreso — Mas—
— Quieto! — replicou em tom mais elevado — Além de marginal quer ser cego também?
— Pega leve, Bel. Foi só uns tapinhas, nada demais — minimizou Bruno, com voz tranquila como água de poço.
— Quebrar uma cadeira na fuça de pai alienado também não tem nada demais! Quer levar?
— Ué, sobrou pra mim agora?!
— Vai sobrar até pras plantas se elas ensinarem idiotice pro meu filho. E o senhor — apontou para seu primogênito — Não discute comigo que eu sou capaz de torcer esse pescocinho!
— É hoje… — reclamou o marido, levando um tapa no ombro — EI! Tá louca?!
— Cala boca e me passa a margarina!
Ian observava tudo sem mover um cílio com medo de sua conta de travessuras da época de Gil viessem à tona, mesmo porque era bem mais divertido ver o primo ser obrigado a engolir sua rebeldia diante de um titã do que ele próprio. Por vezes, pensava até na possibilidade daquilo ser rotineiro para o garoto lembrar que o universo tem regras e as mães fibra.
Da mesa mesmo, pegou seu celular e foi a caça de um número específico. Tratava-se de um especialista na visão, pelo que Dan e os demais puderam ouvir. Tanto o universo conspirava contra si que o tal sujeito tinha horário vago naquela tarde. Só não torceu mais a boca de raiva por não ter como. Odiava deixar rabos soltos para puxarem, sempre acabava se estrepando. Tudo por conta de um sujeitinho que, em seu julgamento, precisava pedir desculpas ao médico que lhe trouxe ao mundo. Se soubesse do infortúnio, teria dado meia dúzia de tapas a mais.
Como parte de seu castigo embutido a força, foi obrigado a lavar e secar a louça do café da manhã em dez minutos se não quisesse ter seu celular confiscado até o Ano Novo Chinês de 2038. O menino foi até a pé resmungando coisas que soavam mais Hebraico à Português. A mãe deu de ombros. Tinha em mente estar educando da forma certa para não ficar replicando atitudes inconsequentes como quem vai ao banheiro. Sentindo uma leve dó do primo, Ian se dispôs a secar a louça, não sem antes questionar a tia a respeito. Ela aceitou, descontente, somente conhecer a boa índole do seu sobrinho, e, com ela, trazer sabedoria ao caos na terra que era seu filho.
Enquanto lavava louça, lembranças daquela manhã começaram a retornar em forma de flashback. Jamais pensou descer tantos degraus de idiotice advinda de um pulsar forte de seu coração por outro rapaz. Envolveu-se, sim, em algumas cenas estapafúrdias, como a do baile do dia dos namorados meses antes, mas achava aquilo parte do rito de compromisso e amor que sentia pela jovem à época. Tão pouco havia se passado desde então, mas parecia ter sido vivida uma vida antes. Toda segurança e conforto de ser um rapaz comum, como qualquer outro de sua idade, desceu ralo abaixo junto com sua sanidade e razão de ser. Encarava-se no espelho e não se reconhecia mais.
Ian, conhecendo-o melhor do que a palma da mão, tinha certeza que a história toda só podia estar com Alisson envolvido até a raiz dos cabelos. Era a única coisa capaz de balançar suas estruturas mais do que um abalo sísmico. De certa forma, sua curiosidade se aguçou ante a crescente evidência de sua atração por rapazes. A vida inteira sonhou com isso; suas mãos entrelaçadas as dele enfrentando tudo pelo caminho. Todavia, reconhecia e aceitava a verdade, ainda que, de certa forma, jamais conseguisse aceitá-la.
Sua quietude atraiu a atenção de Daniel. Sempre depois de agir por impulso, ouvia-o com os olhos pescando de sono dissertar discursos quase voltados a onda Hippie. Desta vez, nada. Ato, no mínimo, curioso. Vendo que se dependesse dele assim ficaria, resolveu acordar o leão.
— Diz logo que eu tenho que ter amor e paciência no coração e encerra essa situação. Que agonia!
— Se tu desse bola pro que eu falo, quem sabe, né? — alfinetou — Mas parece que só sirvo pra enfeite nessa tua cabeça torta.
— Não fala m*rda!
— E tu vê se não faz m*rda! — replicou, deixando incrédulo — Poxa, Dan! Eu juro que me esforço pra tirar o guri gente fina existente aí dentro e que vez ou outra dá as caras, mas assim força a amizade!
— Vai ficar contra mim ainda?! — ficou pasmo.
— Se contra ti quer dizer ser a favor da tua felicidade, que seja — deu de ombros — Eu já te falei o que precisa fazer, tua ex também. Quer que a Lady Gaga venha aqui te coroar pro vale?
— Shiu! Não fala alto! — sussurrou e tapou a boca do primo, mesmo com a mão cheia de espuma devido ao sabão de louça — Eu… preciso pensar. Só isso. Dá um tempo!
Enrolação. No fundo, Daniel tinha certeza de como tudo se daria dali para frente, sendo o grande obstáculo ele mesmo, com sua teimosia e cegueira forçada. Quase todos os muros a seu entorno foram criados para se sentar na confortável cadeira de conformista, pobre coitado. Não era ingênua, sabia bem disso e parecia precisar mais para manter a estrutura de areia em pé.
Terminaram a tal louça faltando exato um minuto do prazo estipulado, com o mais velho indo para a sala assistir televisão depois, enquanto o garoto problema subiu para seu quarto sem dizer um ‘ai’. Nenhum argumento por ele dito teria mais força para brigar com os fatos. Tinha nas mãos um problema com o qual tentava desviar, mas sempre acabava nele. Quanto tempo mais aguentaria? Quanto se dispunha a revidar as evidências? Levaria até às últimas consequências?
Refletiu tanto sobre as questões que nem viu o tempo passar. Só voltou a si quando Ian bateu na porta avisando da visita de Alisson. Gelou. Tudo o que menos precisava era a visita de seu probleminha particular, ainda mais depois da história de ter enfrentado os rapazes, provavelmente em defesa sua. Diria obrigado ou rebateria sobre ele ter sido a razão do descontrole?
Vendo que evitar seria perda de tempo, acabou por descer, encontrando Isabel desabafando angustiada sobre o comportamento vil do filho. Seus olhos deram a volta ao mundo. Considerava até ironia a mãe com suas lamúrias diante do causador delas. Iniciar uma discussão seria inútil. Aquela altura estava mais queimado que arroz passado. Ouviu tudo com vontade de surtar, mas quieto por fora.
Só para provocar, Alisson ainda entrou na onda de espanto pelo episódio, dando um abraço no rapaz enquanto proferia em voz melancólica estar ali para o que precisasse e seus braços estavam abertos para ajudá-lo a melhorar. Mesmo querendo apertar seu pescoço, apenas agradeceu, questionando a mãe se podiam trocar uma ideia em seu quarto. Isabel consentiu, pedindo para Al colocar um holofote sobre a cabeça do filho.
Tão logo chegaram ao quarto, sendo Dan o primeiro a entrar, pegou um travesseiro e jogou no mais velho, arrancando gargalhadas dele por mais um de seus chiliques.
— Isso é por alimentar o ódio da minha mãe, seu demente! — exclamou.
— Imagina, pateta! Vim aqui com toda consideração do mundo espalhar fraternidade no teu coração — afinou até a voz como deboche.
— Eu vi a fraternidade que teve quando surrou o MESMO guri no MESMO dia que eu…
Al, com o rosto mais sereno do mundo, sentou em sua cama e fitou seus olhos.
— Por ele, é verdade, não tive nenhuma. Por ti, pelo contrário… — a resposta foi simples, mas atingiu em cheio a vergonha do menor. Não conseguiu segurar o riso — Falando em fraternidade, tua mãe comentou sobre a ida no médico hoje pra ver teus olhos. Faz todo sentido, já que quando me conheceu tu não viu um balde e quase caiu de boca nos meus—
— NÃO TERMINA ESSA FRASE! — exclamou, da cor de um tomate — E graças a esse guri filho da p*ta agora eu tenho que ir! Maior idiotice que vi na vida!
— Ah, qual é! Tu já devia ter ido naquele dia! — rebateu — Além do mais, tu vai ter minha companhia maravilhosa. Já pensou?
— Como é isso?! Esqueceu que precisa ir trabalhar?
— Seu Antero não vai se importar se eu fizer o exame também. Então...
Aquilo sem dúvida parecia ser o ápice da falta de vergonha na cara. Além de entubar a ida à médico, coisa que detesta com toda força de seu coração, ainda aguentaria o mais velho tirando onda da sua cara? Sua mãe, quando queria ser ruim, conseguia se superar.
Pior ainda foi descobrir que ela não iria junto, com a explicação de: já que era tão homem para sentar o braço em alguém, conseguia ir ao médico sem morrer. E mais: Alisson só iria junto caso não se importasse, pois nem havia necessidade. Dan nem se iludiu: sabia o gosto por ele tido em vê-lo na coleira. Iria mesmo que um asteróide colidisse com a Terra.
Quando deu a hora, cerca de 14h07min, Isabel entregou os documentos e disse para vir de volta pra casa assim que a consulta terminasse, pois suas únicas saídas seriam de casa para o trabalho e olhe lá. Al garantiu a mulher que seu filho seria entregue em segurança e ela agradeceu pelo apoio, deixando o menor mais anojado ainda. Ela até perguntou se Ian queria ir junto para ajudar, mas o rapaz preferiu não se meter. Deduziu que um tempo juntos poderia fazer o primo mais calmo ou aceitar melhor a situação. Era uma possibilidade.
Enquanto caminhavam, ficaram em silêncio por algum tempo. O fato de poder estar em paz sem trocar farpas a cada dois minutos sempre tinha consigo uma ponta de medo, frio na barriga e estômago enrolado. Compreensível, uma vez que para simplesmente pegar no pé um do outro não tem sentimentos profundos no meio. Só birra, do tipo que irmãos têm entre si. A única diferença se dava na composição do afeto.
Melhorou um pouco quando Al trouxe à tona os bastidores da tal briga, aprimorando os fatos com os detalhes. O jeito “estrela de hollywood” do agredido; seus “cães fiéis” ameaçando abater até uma folha que cruzasse o caminho de sua majestade (ficando só na ameaça mesmo); a cara de poodle caído da mudança quando derrubou os três num strike melhor que boliche e afins. Dan, lógico, não conseguiu manter a birra, caindo na gargalhada que trazia uma certa ternura ao coração do mais velho. Um alívio não ser apenas sinônimo de confusão e gritaria.
O menor também não ficou pra trás na sessão de causos, relembrando o episódio de poucas horas antes com a mãe. Vendo de fora, parecia cena de sitcom, nem de longe a agrura de aparentava ter acordado já naquele pandemônio. Até isso devia a ele: ter-lhe tirado do marasmo mau humor e trazido uma pitada que fosse de tranquilidade e motivos para dar uma risada. Sua consciência se julgava em débito e não estava disposto a levar isso para casa. Encerraria a conta naquele mesmo dia.
Chegaram no prédio em contados vinte e dois minutos. A estrutura por fora era toda de branco com frente de vidro espelhado azul. Por dentro, não ficava para trás, lembrando mas um escritório chique à um centro clínico de visão. Tinha paredes decoradas com gesso branco e algumas luminárias de parede, além de um sofá cinza de veludo a poucos metros da mesa onde estavam as recepcionistas. Foram na recepção identificaram-se, pagaram a consulta com o cartão do convênio e, ao fim, a moça que os atendia indicou o elevador para o quinto andar. Al bem quis ir de escada, mas ante a birra do outro em subir os lances, obrigou-se a usar o tal elevador.
Mal a porta fechou, Dan tomou fôlego antes de começar a falar. Suas mãos soava frio e sua barriga se contorcia toda por dentro. Seria a primeira pessoa a ouvir aquelas palavras saírem de sua boca. Precisava ser bem preciso ou então daria para trás.
— Se tem medo de elevador por que fez a gente vir nele? — o mais velho sequer imaginava.
— Cala boca e ouve o que vou dizer sem dizer um piu. Beleza? — nem esperou resposta. Seguiu seu relato encarando a porta, sem olhar no rosto dele — E-eu… tenho passado por alguns perrengues ultimamente, como tu sabe, e—
— E põe perrengue nisso — tirou onda, mas sacou onde queria chegar. Fez aquilo para aliviar a tensão. Sem sucesso.
— Fica quieto, c*r*lho! Não me desconcentra! — exclamou — É bem provável… Não tô dizendo que é, tô dizendo provável, ouve bem… Talvez… eu… goste…
— De… guris? — arriscou, recebendo um sinal positivo como resposta.
— Não sei como, nem porquê, mas pode ser isso sim. Só que… a barra tá pesando pro meu lado e não sei se vou conseguir tomar atitude…
— Vai, sim — foi otimista — Na hora certa, vai.
Nem tiveram chance de fazer qualquer outro comentário pois a porta do elevador abriu, deixando-os transtornados, cada qual com suas razões. Alisson por não acreditar ter finalmente ouvido a confissão e Daniel por tê-la feito. Uma certa ironia do destino, já que ambos tinham plena consciência de por quem seus corações palpitavam mais forte. Talvez até essa tenha sido a causa de sentirem tão aliviados com a cena, pela certeza de qual seria a reação um do outro.
O oftalmologista pouco demorou para chamá-los, já que sua paciente saiu minutos depois apenas. Durante o exame, constatou o óbvio: Dan sofria de miopia, com 0.8 graus no olho direito e 0.7 no esquerdo. Quanto a Al, sua visão estava perfeita segundo o check up feito ali mesmo. Pegaram a receita, agradeceram a atenção e tomaram rumo.
No percurso de volta para casa, evitaram o assunto. O filho de Marisa contribuiu para tal, debochando do dito “pateta” sobre agora ter ganho mais dois olhos para ver se enxergaria o próximo balde passando por um. Daniel quis primeiro deixar o amigo em casa, considerando já tê-lo enlouquecido demais por um dia só. Até porque ele mesmo precisava ficar só com seus botões e analisar tudo com cautela.
Porém, chegando frente a casa, ele travou. Uma camionete com baú estava estacionada frente ao imóvel, com alguns trabalhadores tirando de lá caixas e levando para dentro. Depois de ficar estático por alguns segundos, voltou a si e começou a andar sem dar ouvido a voz do filho de Isabel atrás de si, preocupado com seu estado catatônico. Ele entrou sem dar ‘oi’ a ninguém, subiu para seu quarto e lá atirou-se na cama. Dan chegou logo atrás, depois de lançar o ‘boa tarde’ mais rápido já ouvido.
O menor ficou de boca calada, esperando que tomasse atitude e pusesse ele mesmo para fora a dor em seu peito. Não tardou a acontecer. Logo algumas lágrimas tímidas brotaram em seus olhos, apertando o coração de Dan.
— É f*da… — limpou uma das lágrimas — Pior que se me dessem um tiro…
— Não fala idiotice. É difícil, tudo bem, mas tô aqui pra te dar um apoio — não era exatamente o símbolo da sutileza, mas a intenção era genuína.
— Agora, mas e depois? Eu desço, tomo café e finjo que tenho a família feliz com um meu novo “pai”?
Dan suspirou, sentando ao lado do menino. Colocou a mão em seu ombro, abrindo um sorriso tímido nos lábios.
— Tu vai descer e encarar isso de cabeça erguida igualzinho os soldados voltando da guerra, entendeu?
Diante do comentário, foi impossível não sorrir de volta. Bem ou mal, seria sua realidade dali por diante, e tinha dado margem poucos dias antes para ela se instaurar. Precisava reunir as fibras que sabia que tinha e colocar as coisas em seu devido lugar, aceitar que o passado é imutável e a vida segue. Mesmo com mais erros a acertos, alguém estava lhe dando a mão. Talvez até um pouco além…
A proximidade era pífia se comparada ao imã que começou a querer puxá-los um ao outro. Seus rostos pareciam querer se encontrar, tímidos, mas ansiosos para mandar tudo às favas de vez. Davam passam discretos, encostando nariz com nariz, até Dan se tocar o que estava para acontecer e levantar depressa. O coração bombeava rápido pois o sangue parecia lhe faltar a qualquer momento.
Sequer ficou ali para ver o reflexo da loucura, apenas deu um breve ‘tchau’ e saiu mais depressa que piloto de corrida, deixando Al, mesmo com o óbvio problema para resolver, com a certeza de não ter se enganado. Interpretou os sinais com clareza, e agora sabia que o outro também. Este sumiu da casa sem olhar para trás indo direito a outro lugar, seu porto seguro de emergência. Apertou o interfone, se identificou e subiu pela escada mesmo, pois se ficasse no elevador perigava de infartar.
Chegou frente a porta esbaforido e aflito pela correria nas escadas, batendo na porta três vezes antes de Vanessa atender sem entender uma vírgula. Nem esperou ser convidado, foi logo entrando e despejando a bomba sem mais nem menos.
— Ele tá me dando coisas, Van! — exclamou — O Alisson tá me deixando… esquisito!
— E tu quer que eu responda o quê? — revidou — Que tu tá apaixonado por ele? Sério? Preciso ser mais clara?!
CONTINUA
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