A Teoria das Cores
77 Malva II
PENSATIVO
Fugir do que é inevitável, geralmente, passa longe de ser uma decisão inteligente. Por maiores que sejam os obstáculos, a cada passo dado para longe deles, eles ficam parecendo maiores, tornando-se um elefante preso por uma corda em uma cadeira. Daniel, ao querer simplesmente ignorar tudo o que lhe aconteceu, foi fazendo com que uma montanha de medos e temores fossem se formando e, pior, deixando-os a vista de quem quisesse ver.
A pergunta de Sabine deixou-o sem chão, sem saber o que fazer para desviar do olhar incisivo com o qual ela lhe encarava. Havia mais certeza do que dúvidas em sua fala, ficando clara sua descaração quanto às atitudes tomadas quando estava com Al. O “amigo” era, naquele momento, seu telhado de vidro, onde a mínima pedra jogada em cima transformava tudo em estilhaços pontiagudos. Sua mente tentava, em vão, ser ágil e prática na formulação de uma resposta, e cada segundo a mais na demora a responder tornava tudo ainda mais evidente.
— E então? Não vai nem tentar se defender?! — a loira pressionou, seguindo firme.
— Não tenho que me defender de uma idiotice que tu tirou da cabeça — revidou o mais confiante possível, ainda que, por dentro, o benefício da dúvida lhe incomodasse.
— Ah, claro. Tirei do éter mesmo os olhares e comportamentos bipolares de vocês dois — ironizou — Até ontem vocês nem se conheciam, agora não se desgrudam. Ontem estavam com sangue nos olhos um pro outro, hoje todo amiguinhos. Preciso dizer mais?
Dan não sabia a quais argumentos recorrer. As mãos, a testa e cada dobra restante de seu corpo a água escorria enquanto as palavras tentavam encurralá-lo dentro de sua mente, fazendo-lhe ter peso em sua culpa. Depois do que aconteceu com Ian logo cedo, aquele tipo de pressão era tudo o que não precisava.
Foi então que seu olhar desesperado pairou sobre a figura de Jeferson, alguns metros atrás da amiga olho de águia, dançando frenético ao som de uma música qualquer que não soube identificar. Lembrou-se das confidências dele, das atitudes que tomou e dos rumos pelos quais tudo parecia se encaminhar. Foi o timing perfeito para sair pela tangente.
— Engraçado como as coisas funcionam, né? — cruzou os braços e revidou o olhar soberano e vitorioso com qual era encarado — Quer falar de tempo de convivência, de atitude comigo, ao mesmo tempo em que o Jeff chutou a namorada, aí tu e ele viajam sei lá pra onde, depois de sempre se alfinetarem, aí também estão agora os legítimos c* e bunda — a loira trocou de cor com a réplica — Preciso dizer mais alguma coisa? — revidou a pergunta, deixando-a sem ação.
Al, de olho no sumiço de Dan, acabou por notar a estranheza de suas feições enquanto conversava com Sabine. Sem maiores cerimônias, aproximou-se mesmo sem ser convidado. Pouco se importava com reações exageradas, fosse por parte do amigo ou da loira. Algo dentro de si fazia-o acreditar na formação de uma intriga e, no meio da alegria do momento, achava desnecessário.
— Tudo tranquilo por aqui? — quando chegou perto, lançou a pergunta no ar, sendo respondido por Sabine.
— Estávamos só… conversando sobre o término do Daniel com a Vanessa e de como isso acabou com ela. Só isso — ao lançar a resposta irônica, a menina virou as costas e voltou para perto de Jeff, sendo seguida pelo olhar furioso de Dan.
Alisson não captou bem a mensagem das entrelinhas, todavia, pôde ver no olhar arisco do menor o quão sensível a ferida ainda se mostrava. Era impossível julgá-lo ou condená-lo, afinal de contas, até onde sabia, ambos foram muito felizes juntos. O coração levaria mesmo algum tempo até que o sangue parasse de escorrer e as lágrimas da alma parassem de cair. O único porém era o porquê do assunto ser trazido em pauta justamente naquele momento.
Mesmo na dúvida de presenciar mais um surto, Al se deixou levar pela curiosidade, questionando o ato da loira a Dan. Num primeiro momento, teve como resposta uma revirada de olhos seguida de um gesto para se afastarem dali. Sem entender qual a razão do circo todo, o mais velho pacientemente obedeceu, saindo da vista de Sabine e indo quase para fora da quadra esportiva.
Daniel sentia sua mente analisando cada passo seu dado desde quando Vanessa decidiu pôr o ponto final na história deles e, para seu desespero, todos estavam direta ou indiretamente ligados a Alisson. As primeiras sensações, conversas, estranhas coincidências e outros fatos dos quais nem se dava conta pareciam envolvidos em uma teia gigantesca, regidas e tecidas pelo irônico destino — o mesmo que outrora havia lhe trazido felicidade, naquele momento, ao seu parecer, tinha mudado de ideia.
— Aquela demente ficou supondo coisas absurdas — contava, ainda em dúvida se deveria envolvê-lo nisso.
— Tipo? — o maior insistiu, demonstrando interesse.
Um suspiro pesado veio pelos pulmões do menor. Chegou a conclusão de, por mais que aquelas palavras rasgassem o ar assim que acabadas de serem proferidas, não via razão específica para omitir as deduções. Julgou até mais honesto fazê-lo, uma vez que seu nome havia sido citado.
— Tu ter me… separado da Van — coçou a nuca.
Não era como se fosse uma grande surpresa. Quando cogitou acertar as coisas com o amigo, acabou por piorá-las ainda mais. A fala da garota passava longe de ser em vão.
— Quem é que pode dizer o contrário, né? — procurou brincar com a situação. Dan, contudo, não pegou o espírito da coisa.
— A própria Van, ué — falou como se fosse óbvio — ela mesma disse isso.
— P*rra, pateta, mas tu é lerdo, hein?! Se eu —
Um estalo de segundos foi o suficiente para o mais velho ouvir o som da ficha caindo. Duas palavras a mais e toda sua vida estaria condenada a pagar pela energia jogada ao universo. Após os desentendimentos com Gil e a luta para entender que o mundo não era apenas o preto no branco, aquilo seria a culminância mais desastrosa possível. Daniel não escondia o “medo” de suas descobertas, e uma fala daquelas poderia ser o fim de uma amizade que estava gostando de cultivar — mesmo que, dentro dela, outro sentimento brotasse cada dia um pouco mais.
A saída mais estratégica que sua cabeça pôde elaborar foi puxá-lo de volta arrastado para o meio da quadra quando Macarena dominou o espaço escolar e contagiou cada um dos estudantes. Alisson, claro, tinha seus pensamentos focados bem longe dali — a hipótese de tentar uma nova conversa com Vanessa martelava na mesma velocidade que os passos dançados. Talvez assim consiga aquietar um pouco as coisas e, enfim, deixar Daniel seguir sua vida, mesmo que aquilo lhe deixasse estranhamente incomodado.
Enquanto isso, poucos metros dali, Jeferson parecia ter sido acertado com uma bola de basquete e tentava se encontrar de novo. Furiosa pela maneira pouco cerimoniosa de Dan e Al em não esconder a verdade (ainda que fosse ligeiramente condenável), compartilhou suas dúvidas e questionamentos, bem como a revelação de dias antes quando descobriu que Vanessa era trans. Tanta informação deixou Jeff sem saber muito como proceder, e Sabine sabia disso. No entanto, não achava mais necessário esconder coisas com as quais nem os próprio envolvidos estavam dispostos a isso.
— E… Acha que devemos falar com o pessoal sobre? — perguntou o rapaz, ainda se situando.
— Aí se tornaria fofoca e perderia a credibilidade, ainda que a minha vontade fosse fazer isso mesmo — confessou a loira.
— Por? — Jeff não compreendia aquelas razões tão insólitas.
— Porque não é justo quando a felicidade de alguém é construída em cima da ruína de outra — explicou, séria — Tu mesmo viu a Vanessa e o estado dela. Vai me dizer que eu tô exagerando?
Foi impossível achar justificativas para tal. Entretanto, sem se tocar, Sabine acabou fazendo o chapéu servir nele também. Entendia bem seu ponto de vista e não curtia nada a sensação que isso lhe dava.
A loira acabou por pedir a Jeff silêncio sobre até que eles pudesse confrontá-los com mais propriedade, para, quem sabe, conseguirem chegar num consenso.
***
Talvez a melhor forma de conseguir ajuda seja indo atrás daquelas pessoas que tanto amamos. Elas são nosso impulso para seguir em frente e enfrentar as tempestades da vida com foco e determinação, sempre rumo à felicidade e a certeza de termos força suficiente para conquistar o mundo. Ágata se sentia assim toda vez que corria desesperada para a casa de Vanessa a fim de desabafar — com o bônus da menina ser formada em psicologia então, tornava tudo ainda mais correto em sua mente.
Permanecia deitada na cama da loira passando de foto em foto de sua galeria do celular. Sua mente buscava mais distração do que qualquer outro sentimento. Queria poder fugir para outra galáxia e esquecer dos problemas e conflitos tão complicados de serem resolvidos. Quando o assunto era coração, a morena dava dois passos para trás e, dependendo, até mais. As fotos observadas eram só pretexto para não ficar tão óbvio o quão perdida sua mente estavam, pois sequer as reconhecia.
No entanto, uma em particular lhe fez voltar sua atenção. Ela mostrava um sorriso radiante enquanto o sol atrapalhava o rosto do parceiro a seu lado de ficar mais nítido. Mesmo assim, ela sabia quem se tratava — Diógenes. Foi tirada no dia em que Ian, Dan e Vanessa a viram com o rapaz a praça da República sentada e dando gargalhadas, sem sequer prever o tanto de incomodações vindas a seguir. Tinha certo luto em estar no meio de um furacão novamente e ter de tomar decisões horríveis. Por isso a ajuda da amiga se fazia fundamental.
Van era racional e passional na medida certa. Prática e coesa em todos os movimentos que dava para fazer um jogo limpo, sem coisas escusas ou segredos não revelados. Sabia, quando se beijaram na festa de Micael, o quão penoso seria para a moça carregar o peso em suas costas. Ela tinha uma transparência incomum e uma vontade imensa de ser livre de tudo. Era perfeita para profissão que escolheu — e para lhe ajudar em seus apertos emocionais.
Se havia algo do qual a loira tinha se arrependido de ter feito foi perguntar como Ágata estava. A morena desatou a falar de um jeito que, por vezes, tinha de voltar seu raciocínio para lembrar o ponto de origem. Não se importava em ajudar a amiga, muito pelo contrário, mas o fato era o quão óbvia as respostas desejadas por ela eram e, pior, já haviam discutido mil vezes a respeito. Na realidade, sabia o quão importante seria se a amiga procurasse superar o ocorrido com Bryan, o ex namorado suicida, e fosse atrás do amor que ambos rapazes (Ian e Diógenes) poderiam e estavam dispostos a lhe dar — sem contar Micael, o novato entusiasta.
Diógenes tinha a parcela de culpa maior na história, era verdade. O garoto, outrora tão interessante e aberto, agora se mostrava mais desconfiado, inseguro, com falhas, claro, como todo ser humano; todavia, falhas perigosas, espinhosas, capazes de largar seu veneno dentro das camadas mais profundas da mente humana e talvez até além. Quantas vezes a loira pensou em conversar com ele, porém, a pedido da amiga, deixou que ela tomasse as rédeas e fosse atrás de uma solução amigável, a qual agradasse minimamente ambas partes… No fim das contas, teria sido melhor se tivesse seguido seu instinto — quem sabe assim Ágata estaria agora feliz com Ian e sem Diógenes mordendo seu calcanhar?
Ao falar com a menina a respeito, foi sujeita a ouvir as mesmas desculpas de sempre — para sua infelicidade, de fato aconteceu.
— Se eu tivesse afim de namorar, eu já tinha conseguido — a morena revirou os olhos enquanto jogava o celular em cima da cama e sentava nela para encarar a amiga.
— E o Bryan já foi completamente superado né? — Van cruzou os braços, a contragosto da outra — Eu não sou nenhuma idiota de achar que a gente precisa de homem pra ser feliz, mas pelo amor de Deus, né?! Tu sabe o quanto seria legal tu se entregar um pouco mais e não ficar amarrada nessas traves.
— O Bryan não tem nada a ver com o Diógenes. Nem se compara.
— Ainda sim, tá criando um empecilho que não existe, amiga! É isso que tu não tá se dando conta e nem ele — a loira explicava pacientemente — Se ele não tá entendendo que acabou, beleza. Manda ele longe e diz que vai levar um soco na fuça caso não suma por boa vontade.
— Pra uma psicóloga, hein?! — Ágata ria de deboche.
— Só verdades, minha cara — Van ajeitou a mecha no cabelo, também rindo de seu próprio comentário — Sério, precisa pôr um ponto final nisso antes que a coisa triplique de tamanho.
A morena sabia disso. A situação podia piorar e muito, pois apesar de Ian sempre buscar uma forma amigável de tudo se resolver, era tão humano quanto qualquer outro. Um pisão em alguma ferida a qual ela não podia prever e sabe se lá o que Dio despertaria. Jamais se perdoaria vendo o garoto de olhos claros se envolvendo em uma maré de desgosto, raiva e insegurança por sua culpa.
O que ainda impedia isso, pensava, era Daniel. O amor platônico dele pelo primo tinha tudo para ser o contendor para, de fato, não levar a sério todo o esforço que Diógenes fazia para ascender em contraponto a sua suposta derrocada. Ainda sim, não podia arriscar segurar a fera baseada apenas nisso. Faria o possível para nenhum dos dois se magoar com a decisão que havia tomado naquele instante, decidindo, enfim, o que almejava traçar em seu destino. Van ficou alguns segundos sem entender o sorriso de satisfação se formando no rosto da amiga. Todavia, tratou de deduzir que algo bom estava a caminho e só poderia torcer para ser verdade.
Logo Ágata tratou de desviar o assunto perguntando o que tanto a loira mexia em seu notebook, com esta dizendo estar só dando uma checada quanto a sua formatura. Desconfiou, claro, pois a menina passava longe de ser uma das melhores mentirosas que conhecia. Talvez até pela própria verdade a qual sua escolhida profissão exigia. Isso a tornava quase um cristal transparente, com leves camadas de pó formadas toda vez que ela tentava passar a perna ou omitir algo. Esperou-a sair do quarto para ir ao banheiro e foi direto saciar sua curiosidade. Em primeiro momento, pensou ter surgido algum imprevisto ou até mesmo correção de alguma nota da defesa em seu trabalho de conclusão. No entanto, ao abrir a aba de e-mail da garota, notou que seu último aberto se tratava de um fotógrafo. Verificando mais, descobriu ser o mesmo de suas fotos de formatura, propondo-lhe ser modelo de um novo trabalho artístico seu sobre os variados tipos de pessoas e suas modelagens.
Quando Vanessa viu aquilo, deu um grito tão agudo que fez a amiga pular da cadeira de susto. Pressionada a contar o que raios fazia ali, Ágata limitou-se a verdade — não se aguentou de curiosidade. A menina então explicou do que se tratava, todo o processo o qual o fotógrafo narrava que seria feito e toda a parte burocrática nisso envolvida. Mesmo com o encorajamento quase instantâneo da amiga e seu olhar de artista sobre o trabalho, Van negava sem dó nem piedade, irredutível quanto a sua decisão.
— Tu já pensou que o cara pode me ver pelada?! — exclamou ela, um tanto envergonhada.
— Não seria o primeiro — mordiscou o lábio, recebendo um travesseiro na cara como resposta — Sério! Precisa pelo menos pensar a respeito! É tão legal contribuir pra arte, ainda mais quando é pra quebra de estereótipos.
— Ágata, desde quando eu sou quebra de estereótipo? — cruzou os braços de novo — Sou loira e magra. Não quebro padrões. Sou um deles. Fazer o quê? É meu biotipo. Não tenho culpa se—
— Ser loira e magra também é um tipo. Pelo que tu falou, não é um ensaio sobre não padrão, e sim, amar-se como é. E ele notou que tu se ama assim.
— Se eu não fizer, quem o fará, né?
— Então! — deu um pulinho na cadeira — Promete ao menos pensar!
Sem intenção nenhuma de cumprir, Vanessa aceitou. Sua resposta já havia sido tomada e a decisão mais do que sacramentada. Seria feliz ajudando as pessoas, mesmo a proposta de remuneração sendo tentadora. Consideraria uma mancha em sua carreira ter participado de algo fora da área de saúde mental. E também, só estava esperando se formar para dar um jeito nisso, mesmo sem saber que o destino já havia amarrado tudo a ela…
***
A hora do intervalo é como aquela brisa gélida tocando a pele após uma caminhada de cem quilômetros pelo deserto. Revigorante, reconfortante e necessária. O momento o qual estudantes se reúnem para, enfim, colocar em dia os assuntos tão significativos em suas vidas. Ainda sim, a reunião de todas as tribos pareciam um confronto interessante de estilos, ideologias e a própria noção, que, muitas vezes, passava longe.
Os olhares para Dan e Al, principalmente, passavam qualquer limite de curiosidade crescente dentro das mentes juvenis e maledicentes dos presentes no pátio interno da instituição.Os garotos tentavam ignorar, vez ou outra revidar com encaradas mais fortes e agressivas… tudo em vão. Quanto mais davam corda, mais se enforcavam com ela.
Vendo o quão o amigo se controlava para não sair do sério, Al acabou por ir tomar água, na esperança de, assim, cessar um pouco do assédio. A ideia da dança lhe pareceu tão ingênua em primeiro momento que não lhe ocorreu a probabilidade da atitude ser distorcida pelos demais… ou nem tão distorcida assim. O subconsciente bem lhe alertava a todo instante o quão aquilo lhe fez bem, causou uma paz a tanto almejada por si e o despertar definitivo de outras sensações mais profundas, intensas, os quais ele ainda se surpreendia ao se dar conta.
Caminhava pelos corredores analisando um por um dos rostos e buscando neles o julgamento sob suas ações, talvez pelo pretexto de, assim, poder surtar sem ser considerado louco. Achava gozado quando Daniel tinha ataques fora de série por razões que a própria razão desconfiava, no entanto, sentir sua moral e seu orgulho sendo alfinetados por um bando de cabeças vazias lhe fazia ter ódio mortal de tudo aquilo que sempre ajudou a fomentar — o dogma do certo; a existência estilística comportamental; o que é parte do todo e quem é produto descartável. Tudo aquilo pelo qual subjugou Gil outrora agora se voltava contra si próprio, ainda que sua mente negasse admitir.
Chegou no bebedouro com pressa e ânsia, como se os meros goles d’água fossem capazes de acalmá-lo e trazê-lo dos pensamentos sócio-filosóficos nos quais estava ousando entrar. Assustou-se ao acabar e notar a presença de Ana a seu lado, dando um pulo pra trás. O garoto riu, desculpando-se em seguida, e alertando sobre o motivo de estar a sua procura. Qual não foi a surpresa ao saber sobre burburinhos sendo espalhados como vírus da gripe pela escola inteira. Revirou os olhos. Era o máximo de atitude civilizada que se permitiu fazer — além, claro, de pedir a Ana que fizesse a gentileza de desmentir o máximo de boatos possíveis. Mesmo com a missão aceita, o menor não pôde deixar de comentar a química que sentiu ao ver os rapazes juntos desde a primeira aula de dança, deixando Al roxo de vergonha e saindo sem dar maiores explicações.
Depois da colocação, Alisson inventou mil e uma desculpas para enrolar e não retornar para junto dos amigos. Ainda que sua cabeça pensasse se Daniel havia percebido tudo aquilo, não queria arriscar por tudo a perder devido a um erro mal esquematizado. Era para ser só uma dança! O que raios o mundo viu de tão entusiasta? Tinha certeza de ver outros rapazes do mesmo jeito ali… Mas, claro, com um tom mais debochado, descontraído, sentimentos os quais sentiu apenas nos dois primeiros segundos depois de tocar a pele bronzeada do amigo. Depois, foi tomado por um misto de cegueira, com imantação e desejo, todos em perfeita harmonia, cujo resultado fora o que todos viram. Isso, em sua concepção, poderia ter sido seu maior erro.
Diante disso, como voltar e agir como se nada estivesse acontecendo?
O eco do sino pela escola lhe fez voltar a realidade pela segunda vez em um espaço curto de tempo. Mesmo sem a resposta para sua pergunta, o jeito foi entubar e arranjar algo para distrair a mente e o foco.
Chegou na sala antes dos demais colegas, para a surpresa da professora, a única a lhe fazer companhia. A mulher até questionou seu estado e ele garantiu estar tudo nos conformes, recebendo um olhar desconfiado como réplica. Os amigos não tardaram a chegar, com Sabine visivelmente fingindo que Daniel não existia, como forma de revidar a maneira pouco sincera a qual o garoto se dirigiu a ela. Até isso irritava, pois achava uma atitude completamente desnecessária, já que não era Vanessa para tomar suas dores e tampouco sua advogada para agir em seu nome. Era só uma loira metida que deduziu uma uma duas coisas e se sentiu ofendida por não receber aplausos. Amanda foi a única a perceber a notável expressão de estômago embrulhado que Alisson fazia para a cena, questionando-se se havia algo errado.
A docente começou então a explicar qualquer coisa a qual Al não estava com a menor predisposição a escutar. Queria voltar a sua cama e começar o dia de novo, desta vez buscando escapar das peças infelizes que faziam tudo parecer telhado de cristal. Encarou com cautela algumas vezes Daniel, tentando ver algo semelhante a expressão mais exata do profundo desespero humano, todavia, o garoto parecia realmente focado em seu caderno a rabiscar uma folha. Sabia que ele percebera tudo, não era tão tolo a ponto de ignorar. Ainda sim, sua reação era a mais natural possível dentro de tantas possibilidades. Por um momento, até pensou se não teriam trocado de almas e por isso se sentia uma bomba relógio.
Estranhou quando, de repente, ele parou, olhou para a professora e lhe encarou de volta. Parecia um tanto quanto surpreso, como se tivesse perdido toda uma fortuna em menos de cinco segundos. Foi até onde o olhar dele pareceu confrontado e viu sua professora lhe encarando também e mexendo a boca, onde saiam palavras que ele tentava decifrar.
— Responde logo, criatura! — Sabine cochichou, cutucando o rapaz.
— Que foi? — perguntou, para desgosto da mulher.
— O mundo da lua não vai fazer as avaliações pelo senhor, Alisson — reclamou ela — Questionei se tudo bem fazer o trabalho com Daniel, já que ele foi a tua dupla sorteada para isso.
— Quando foi feito isso?!
— Agora — a professora não entendia — Tá tudo bem mesmo, Alisson?
— Tá. Só… Não prestei atenção — coçou a nuca — Beleza. Faço com ele. Tanto faz.
Um colega, querendo ver o circo pegar fogo, fez o infeliz comentário afirmando que Al faz bem mais que um trabalho com Dan, então realmente não se importaria. Quase como no reflexo, Dan segurou-o assim que o garoto fez menção em ir para cima dele com tudo. Afinal, tinha-o visto em ação uma vez e, apesar de tentadora, quebrar um colega na frente de uma classe inteira poderia render problemas aos dois que ultrapassam a escola. Foi isso que ficou sussurrando a Al no intuito de lhe fazer acalmar um pouco o espírito de touro. O tema do trabalho deles: Sexualidade no século XXI. O pior deles naquelas circunstâncias, para o desespero de ambos. Dan até tentou uma troca, porém a professora já havia batido o martelo. Sem muitas opções, restou aceitar e marcar para fazer o dito cujo (o qual fecharia de vez a nota do trimestre em Sociologia). O menor, meio impaciente também com o que julgou conchavo do destino com a vida e suas trapaças, perguntou se haveria problemas de se reunirem em sua casa para resolver aquilo. Al, sem muito entusiasmo, respondeu que não, atraindo os olhares de Jeff e Sabine, loucos para verem o primeiro escorregão dos rapazes para vê-los admitindo o óbvio de uma vez por todas…
CONTINUA
Fale com o autor