A Teoria das Cores
78 Dourado II
PROSPERIDADE
Nem sempre tudo aquilo que decidimos para nossas vidas é, no sentido pleno, o melhor. Tal como venenos capazes de curar certas doenças, o sofrimento e a certeza de estar enfrentando um período difícil é também um sinal de mudança, quebra de rotina, para um momento, quem sabe, mais sossegado, limpo das feridas da vida e do tempo.
Ágata sentia dentro de seu peito a ânsia por momentos de alegria e sossego consigo mesma e com o mundo, quase como se, sem isso, fosse acabar sufocada por uma onda de conflitos e sentimentos, os quais sequer tinha o poder de domar ou deixar para depois. A inquietação desregulava toda sua filosofia de vida, então por que estendê-la só por mero capricho?
Ao marcar um encontro com Ian e Diógenes em sua casa aquela tarde, tivera certeza da posição que passara alguns dias analisando. Pesou prós, contras, possíveis sucessos e fracasso e chegou a um consenso. O primeiro, garoto dos olhos azuis arrematadores de corações rebeldes, sequer se preocupava, pois, mesmo sendo humano como todo mundo, tinha problemas maiores e mais conflituosos em sua vida para se deixar abater. Já o segundo, talentoso rapaz de música, mas com péssimo jeito para todo o resto, fazia seu coração palpitar a ponto de acreditar ser ameaça de infarto. Não era de se estranhar a raiva que a garota tinha de si mesma por ter caído na mesma cilada duas vezes.
Ajeitou toda a casa a fim de ser um pouco mais receptiva. Já tinha tido conversas daquela natureza, mas era a primeira vez que fazia com dois rapazes ao mesmo tempo. Não sabia como iriam reagir de fato, apesar das suspeitas quase evidentes. Era esperta, sabendo que só conhece uma fera ao tentar domá-la. Pelo sim e pelo não, até um pote de bolachas recheadas colocou na mesinha de centro, junto a garrafa térmica com café e uma caixa de leite, caso os corações partidos quisessem fazer uma boquinha.
Mais irônico foi quando, ao ouvir a campainha tocar, viu Diógenes e Ian, juntos! Mesmo sendo o encontro entre os três, sequer passou pela cabeça que seriam tão pontuais a ponto de aparecerem ao mesmo tempo. Ajeitou seus cabelos, respirou fundo e abriu a porta com um largo sorriso no rosto. Os garotos a olharam de cima a baixo. Justificou a aparência levemente caótica pelo fato de ter limpado a casa, trocando logo de assunto e convidando-os para entrar.
Quando todos sentaram, Ágata não pôde deixar de achar engraçada a cena que seus olhos presenciavam — Ian e Diógenes conseguiam ser completamente opostos. Dio sentou em uma extremidade do sofá e Ian em outra; o primeiro, parecia acuado como um cãozinho recém adotado chegando ao novo lar, analisando o território milimetricamente; o segundo, já habituado a ir ali, viu o pote de bolachas e não conseguiu se conter, pegando-o para si e devorando uma a uma, vez ou outra lembrando-se de oferecer aos demais.
O clima deixou de ser “descontraído” quando, de repente, já dedilhando os dedos rapidamente, Diógenes questionou o que Ágata tinha a falar de tão importante e que necessitava da presença deles. Compreendendo a aflição, e também disposta a resolver tudo, a garota, apesar de temerosa, jogou a verdade sem maiores rodeios.
— Não quero mais — foi pontual.
Enquanto os olhos do aprendiz de música quase saltaram para fora do corpo, o garoto de olhos claros se engasgou com farelos recém engolidos de uma bolacha. Ambos a encararam buscando detalhes sobre aquela súbita tomada de decisão sem precedentes indicadores (para eles, claro). Vendo não ter outra saída, a garota confessou seus anseios e questionamentos há muito refletidos e que somente agora estava tendo a coragem de confessar. Falou também sobre Dio, ainda que fosse difícil para ele encarar as coisas daquela forma. Ela procurou dosar as palavras,falar num tom ameno e tranquilo, para mostrar apenas que precisava cortar aqueles laços mais profundos antes deles se tornarem venenosos e nocivos para eles. Não necessitadamente iria se afastar ou cortar relações amigáveis, só não mais amorosas.
Os garotos pareciam não olhar para ela, e sim através dela, como se todas as palavras ouvidas fossem apenas delírios de uma embriaguez das brabas. O rival de Ian era de longe o mais atordoado e perdido por entre seus próprios pensamentos em contraponto com a realidade. Quando encontrou o outro ali, pensou ser uma infeliz coincidência, afinal ele e Ágata tinham uma relação. Contudo, ouvir da própria boca da menina o fim sendo decretado — para ambos — foi o decreto oficial de um Apocalipse. Soava surreal em sua mente, e, por conta disso, acabou por perguntar a garota:
— Por quê?
Não entendendo a finalidade, arqueou as sobrancelhas enquanto seu olhar permanecia fixo nos do outro.
— Não entendeu nada do que eu disse? — estava incrédula com tal atitude.
— Na real, só queria saber por que tu não te permite…
A pergunta soou tão profunda que até mesmo Ian, já tendo aceitado a opinião da garota e disposto a respeitá-la — como era de seu feitio — parou para observar bem qual seria a reação diante daquilo. De fato, no íntimo, tinha a mesma dúvida. Conhecia bem o passado da amiga de Van, seus temores, receios e tudo mais. Contudo, sentia também nela uma certa resistência alimentada não só por esses fatores, mas o que julgava ser da própria personalidade dela. Olhando-a naquele momento, pode ver algo até então despercebido, pois a expressão de criança assustada dela não podia ser a toa.
Ágata suspirou fundo antes de dizer o que quer que fosse. Se antes as palavras já tinham sido lâminas as quais pegou pelas laterais e entrou com cuidado — tanto para não se cortar quanto para não o fazer nos outros — ali elas se tornaram balas banhadas no líquido viscoso e ardido da verdade e da realidade. Mas, sendo este o preço a pagar por sua liberdade, estava disposto a pagá-lo.
— Eu gosto de viver a minha vida sem me preocupar demais, Dio. Eu sei que parece imaturo ou infantil da minha parte, mas sou só eu querendo ter o máximo de felicidade que a vida pode dar. E relacionamentos… Bem, ele fazem feliz, claro, mas quem gosta disso. E eu, nesse momento, simplesmente não tô a fim. Deu pra entender?
— É… Um pouco — o menino não parecia lá muito satisfeito, fazendo uma nítida expressão abatida, como se o peso do mundo tivesse caído sobre suas costas.
Ágata, solidária, foi até ele e pegou em suas mãos. Num reflexo, ele acabou por observá-la e não pôde deixar de admirar o sorriso dela enquanto os dedos acariciavam suas mãos.
— Gosto muito de vocês dois. Demais! Vivemos coisas as quais vou me lembrar pra sempre. Mas, agora, nesse momento, eu quero de vocês o companheirismo e amizade. O resto a gente vê depois. Pode ser?
Apesar de ainda insatisfeito e chateado, Dio foi o primeiro a concordar — e também a ir embora. Levantou-se, deu um beijo na bochecha da (agora) amiga e foi embora.
Ian, ao contrário, continuou no sofá, observando o estado transtornado do outro. Tinha planos de conversar com ele a respeito, se ele assim quisesse, afinal não queria mal dele. No fim, suas intenções até eram boas, mas distorcidas, o que acabava interferindo no relacionamento com aquela a quem tanto amava. Esperava lançar essa luz sobre ele…
E enquanto não o fazia, comeu mais duas bolachas ao passo que Ágata sentava no sofá, bem a seu lado. Observava-lhe, atenta a seus movimentos. Queria poder prever o que se passava por detrás de seus olhos de perito criminal, só que ela, geralmente, escondia isso bem. Não era o caso naquele momento; o motivo era óbvio demais para gerar qualquer suspense.
— As bolachas estavam assim tão boas que não sentiu vontade de falar nada? — ela brincou com a atitude do menino, recebendo em retribuição uma gargalhada gostosa enquanto engolia a última.
— Sabe, eu já passei por isso uma vez e sei exatamente como esse sentimento pode incomodar dentro do peito — confessava, lembrando de outros momentos em que a solidão se fazia necessária, principalmente após o término com Gil — Não tenho que decidir isso por ti. Tenho que acatar e deu. Simples assim.
— Até porque teu coração tem problemas maiores né? — passou a mão por seus cabelos. Ele riu de novo, só que dessa vez não foi tão de engraçado, e sim um misto de triste com confusão e vergonha.
— Estaria mentindo se negasse — passou a mão na nuca.
Ambos então se levantaram e encararam um ao outro. Lembrava as cenas de pré beijo dos filmes de comédia, inclusive, seguindo a risca a pauta de um. A menina puxou a nuca do maior para mais perto de si, a fim de aproximar seus lábios uma última vez que fosse. Desta vez, foi um selinho, quase tímido, aqueles de demonstrar mais carinho e amor do que tesão. Desejou ao rapaz, e não o deixou ir embora sem dizer o quão se sentia valorizada por tê-lo em sua vida. Ian agradeceu, evidenciando a mutualidade do sentimento e da compreensão que a garota tivera com tudo o que já soube dele. Compartilharam de um último sorriso antes dele largar o pote em cima da mesa (quase vazio, diga-se de passagem) e ir embora tentar salvar seu rival do naufrágio que provavelmente estava vivendo.
Curioso foi o garoto fechar a porta e o celular da morena vibrar. Achou na hora que Diógenes estava mandando um texto enorme falando sobre como se sentiu exposto, traído e todo o resto. Para sua surpresa, tratava-se de Micael, primo de Daniel e Ian, mandando-lhe:
“Podia tá matando, roubando, mas só tô te pedindo um “Bom dia, delícia!””.
Inviável conter o riso. Mal podia acreditar que existia algum parente de seu (agora) ex ficante que fosse tão metido, mas, ao mesmo tempo, inofensivo e divertido. Uma faísca então se acendeu em sua mente: Seria um problema dela com um mundo ou simplesmente erro essencial de pessoa?
Enquanto refletia a respeito disso, o primo de Dan descia as escadas do prédio tão rápido quanto um foguete indo ao espaço, na esperança de ainda encontrar Diógenes por perto e tentar, mesmo que de forma falha, convencê-lo de como aquilo foi bom para todos. Tarefa difícil, sabia disso muito bem. Ainda assim, pensava ser um risco válido de se correr.
Encontrou-o pouco metros longe do prédio onde a morena vivia, bem na esquina com uma avenida. Chamou a atenção de Diógenes. Este apenas olhou para trás, revirou os olhos e seguiu o caminho, desta vez a passos pouco mais apressados. Tudo o que menos queria naquele momento era ter de encarar os olhos daquele que tivera o coração de Ágata nas mãos, só que não moveu uma palha para fazer jus à responsabilidade.
Em vão. O destino estava afim de brincar um pouco, independentemente de seus desejos. Seus tênis desamarraram, forçando-o a parar. Logo, Ian acabou alcançando. Quando levantou de novo e deu de cara com ele, bufou quase como um búfalo bravo.
— Não tá satisfeito? Sou peça fora do tabuleiro! Volta lá que tu consegue — ironizou, fazendo menção em seguir. O outro, porém, impediu-o.
— Eu também sou. Tu sabe disso. Só que tu precisa arranjar um culpado.
— De que?! Dela ter me chutado?!
— Que bom que tu sabe — respondeu, sarcástico — Eu sei que isso pra ti era muito importante, mas, cara, pensa que ela estava ficando infeliz! Quem ama é capaz de entender e respeitar o outro independente de estar a seu lado ou não.
— Isso não impediu de vocês transarem ou se beijarem até hoje, impediu? — revidou, com a voz em tom menos amigável — A última vez em que isso rolou faz mais de um mês. Ela se esquivou de mim como se… sei lá, tivesse passado herpes pra ela!
— Não, mas tu fez muita idiotice que eu mesmo falei pra ti não fazer — jogou a real — Diógenes, escuta. Tu sabe o que ela passou com o Bryan, toda história por trás, e mesmo assim quis seguir passos quase iguais aos dele achando que ia dar bom?! Sério mesmo?!
O garoto, pela primeira vez naquele dia, viu-se forçado a baixar a crina. Infelizmente, o rival tinha razão. Quando confessou a ele sobre seu esforço desnecessário e quase suicida de tentar ser um guitarrista mais habilidoso do que já era, cavou ali sua cova. Não era cego, enxergava bem os pontos específico onde errou com aquela a quem dizia amar. Só era difícil aceitar isso para si mesmo, como sempre é difícil acreditar que podemos ferir aqueles a quem juramos amor. E, ao chegar nesse ponto, o correto ele sabia o que era.
— O… que faço agora então? — questionou, sem encarar o outro.
— Deixa ela respirar. Não força a barra agora. Nesse momento, pode fazer mais bem como amigo do que como ficante ou namorado.
Ian sorriu ao rapaz e estendeu a mão, numa tentativa de, quem sabe, deixar claro seu tratado de paz. Não via Diógenes como inimigo, apenas como alguém cujo barco velejava batendo em cada rocha existente no caminho. Nem de longe se achava melhor ou pior do que ele, só queria mesmo fazer uma boa ação — mostrar que poderiam sim se dar bem caso ele baixasse a guarda e o visse sem o filtro de amor cego existente dentro dele. Apesar de recuante num primeiro momento, Dio acabou aceitando o cumprimento. De nada adiantaria agora se lamentar ou criar um clima desgastante. O estrago, em seu ponto de vista, já estava feito. Sorriu fraco, o mínimo aceitável para demonstrar amistosidade.
De repente, viu o outro virar em direção a um terceiro com os olhos cheios de alegria. Conhecia o tal sujeito de algum lugar, pois seu rosto lhe parecia bem familiar. Ficou chocado quando, ao passar por eles, Ian deu um leve tapa na região traseira do rapaz, que virou-se com um sorriso travesso nos lábios.
— Que indecência é essa? — o menino perguntou.
— Bom te ver também, Gil — Ian respondeu, arrancando risos do garoto.
O tal Gil mostrou-lhe o dedo do meio e seguiu seu caminho. Parecia atarefado com algo — de fato estava, tinha de ir ao mercado comprar algumas coisas para o “Wunder Bar” a pedido de Seu Antero. Pouco se importou, afinal nem lembrava de ver o garoto de olhos azuis se agarrando com meninos.
— Que foi? — ao notar que estava sendo observado por um Dio com cara de tacho, perguntou, rindo — Quer saber quem ele é?
— Não é da minha conta — o outro tentava se recompor e seguir seu caminho. Ian achou graça, mas tratou de responder ainda que ele estivesse se negando a admitir a curiosidade.
— Ele é meu ex namorado.
— Pareceu bem feliz em te ver…
— É… — coçou a nuca — Tem dias que sim. Outros ele se agarra em mim e só quer chorar. Ele me lembra tu, na real.
— Nossa… Obrigado pela comparação — foi sarcástico.
— Não por isso — riu.
Deram mais alguns passos juntos em silêncio, até Diógenes comentar que jamais suspeitaria da sexualidade fluida do rapaz caso não tivesse visto com seus próprios olhos aquela cena. Foi a deixa do rapaz para explicar sua orientação sexual, a mesma inclusive da garota pela qual seu coração estava dilacerado, a importância de não se criar esteriótipos… Uma verdadeira aula de como ser um cara legal, na visão de Ian, claro.
Sem outra alternativa, acabara por ouvir aquilo tudo enquanto tentava assimilar alguma coisa. Bem ou mal, além de informativo, era uma distração. Ian, no fim das contas, não parecia uma ameaça tão grande agora que teve a chance de encará-lo mais de perto. O que questionava é: quanto tempo seu cérebro iria aceitar isso?
***
Toda vez que Alisson tinha de enfrentar alguma coisa, fazia-o com a força que tinha em momentos desesperadores. Naquele caso, ter de falar sobre a sexualidade humana justamente junto ao cara com quem seus brios estavam claramente mexidos, exigiu dele muito mais do que o habitual — exigiu quase um mantra antes de sair do trabalho e ir até lá. Nem mesmo o dia corrido servindo mesas foi capaz de lhe neutralizar o pensamento de como tornar aquilo mais fácil e rápido.
Foi o último a sair do “Wunder Bar” aquela noite. Seu Antero, lógico, estranhou tal atitude, afinal de contas o rapaz era um apreciador da pontualidade, nunca (ou quase nunca) se atrasando ou enrolando para entrar e sair. Não conseguiu inventar desculpa maior do que a exaustão, mesmo nítido o quão mentira aquilo era. O senhor não quis maiores detalhes, afinal não tinha nada além de curiosidade, fazendo Al dar graças para poder ir logo até a casa do amigo.
Pensava que era apenas um trabalho de escola como qualquer outro, só que sabia que as coisas estavam longe de ser simples. E parecia ter ficado pior desde o dia em que se tocaram juntos frente um ao outro — terem dançado colados também não tinha ajudado nada.
Agora, estaria dentro do território do garoto de pele cor de areia molhada e não sabia o que esperar dele. O término com Vanessa havia o suavizado um pouco, sim, mas até quando o efeito duraria? Seria ele outra pessoa em casa? Talvez estivesse recluso em seu quarto, quieto… Como poderia saber? A verdade é que sua mente estava tão inquieta que nem parou um minuto para pensar por que raios estava se preocupando com aquilo, como faria em outros tempos…
Caminhava ouvindo música em seus fones de ouvido no volume máximo, enquando dava seus passos frenéticos até a casa do garoto — mesmo porque o avançado da hora não permitia que ficasse a admirar a paisagem. Cantarolava um verso ou outro de I Feel It Coming, “The Weeknd’, para passar o tempo. Era melhor dançando-a do que cantando, sem sombra de dúvida. Quando deu por si, estava frente ao portão de grades pretas encarando a porta da frente com olhar de gato assustado. Tinha mesmo de fazer aquilo?
Chamou por Daniel uma única vez, sendo atendido pela mãe do garoto. Isabel abriu o portão mostrando-se receptiva, comentando o fato do filho ter avisado de sua vinda. Al sentiu-se um pouco menos “tenso” quando ela falou da pouca quantidade de vezes em que Dan recebera um amigo ali e como aquilo era surpreendente vindo dele. O garoto riu, dizendo que sua mãe comentava o mesmo toda vez que um rosto novo aparecia por lá.
Sequer pôde sentar no sofá, pois a voz do amigo ecoou do andar de cima pedindo para que ele subisse. Al agradeceu a recepção e pediu desculpas pelo inconveniente de ter vindo tão tarde, mas Isabel e Bruno — entretido com um filme passando na tv — garantiram não haver problemas. Chegando no quarto de Dan, observou a mesa posta com o notebook já ligado e aberto em uma página sobre o assunto.
Ele mandou entrar rápido e fechar a porta a chave, pois a última coisa que queria era seus pais lhe vendo elaborar um texto sobre aquilo. Al riu, como criança boba, questionando se o amigo estava na quinta série para não ser capaz de lidar com esse. Como réplica, teve de ouvir que até pouco tempo atrás até ele vivia na quinta série também e que era bom começar a lembrar disso. O maior mostrou-lhe o dedo do meio antes de sentar na cadeira. Então, veio o resmungo.
— Achei que eu ia fazer a pesquisa.
— De onde tirou isso? — questionou o filho de Marisa.
— Se tu veio na minha casa e este é meu quarto e aquele é meu notebook, fica meio óbvio, né?
— Manda aí o primeiro tópico — ordenou, já se acomodando frente ao aparelho eletrônico.
— Mas—
— Manda logo, c*r*lho!
— Ah, p*rra mesmo!
Novamente, o mais velho riu, mesmo porque Daniel ficou com uma cara de chihuahua bravo que ficou impossível para ele segurar aquilo. Percebera, então, a bobagem que cometeu tendo medo de ir ali. Se as coisas estavam estranhas entre eles, ao menos aquele bendito trabalho tinha ajudado em algo.
Trabalharam por mais de quarenta minutos, e quem ajudou também foi o próprio temor seu, com colocações e algumas explicações de conceitos que iam surgindo à medida em que o assunto ia progredindo. Óbvio, nada sabia muito sobre a evolução das teorias ao longo do tempo, porém contribuiu muito para moldar os ideais da sexualidade no trabalho de forma clara e objetiva.
Ao elogiar seu desempenho, Al foi surpreendido com o comentário de Ian é quem havia lhe dito uma ou duas coisas a respeito. Não que fosse novidade ao ex ficante de Amora que o primo mais velho do outro tinha uma sexualidade aberta — em vários âmbitos, aliás — só criou uma dúvida sobre o quanto ele tinha ensinado e como o fez. Como bancava o avestruz apenas quando bem lhe convinha, perguntou sem enrolação se tinha aprendido só de boca ou com ela.
Mesmo com a resposta inssossa, porém negativa, ficou descarado a mentira. O olhos do menor chegavam a fugir do encontro dos do outro só para não sentir a invasão dele consumir seu cérebro pedaço por pedaço até arrancar a verdade. Para desviar o foco, perguntou se Alisson tinha fome, mas já indo em direção a porta antes mesmo do garoto confirmar. Ele abriu a porta e se foi, deixando-a escancarada e um Al bem intrigado para trás.
Refletindo sobre o que acabara de descobrir, tinha absoluta certeza de que as mudanças não partiam só dele. Algo dentro daquele furacão de nome Daniel também estava começando a ceder, só que para o lado de seu primo mais velho. No fim das contas, estavam mais parecidos, e Sabine começando a ter mérito em ser a primeira a notar isso. Tinha medo da garota de atrapalhar ainda mais o momento já delicado, só que não podia agora, por conta de desconfianças e suspeitas, agir de forma imprudente e medrosa. Colocaria muito mais do que sua reputação em risco — deixaria seu amigo ainda mais atordoado do que era naturalmente. Se ele já se negou a confessar ali, naquele momento, seu envolvimento com seu primo, não queria nem pensar em sua reação caso um boato maldoso começasse a se criar…
Seus pensamentos foram deixados de lado quando Ian, chegando da faculdade, passou pelo quarto e encontrou-lhe ali sentado e viajando sozinho por sua mente. O garoto sorriu, indo cumprimentá-lo, questionando qual a honra de tamanha visita, brincando também não ser o fato de querer lhe ver concluir a cena com Gil na sala como da última vez. Al então explicou sobre o trabalho e ressaltando o comentário que o primo havia feito sobre seus conhecimentos prévios acerca dele. Ian mostrou-se realizado com aquilo, quase como se tivesse ouvido a mais pura e singela declaração de amor vinda dele. Entretanto, não era idiota — já tinha sacado que o titubear do coração do seu querido primo mais novo não era por sua causa.
— Ensinei uma ou duas coisas mesmo. Só nunca pensei que ele tivesse escutado — o mais velho coçou a nuca.
— Ele custa a tomar jeito, mas, devagarinho, vai se domando a fera — Al complementou.
— É… Ele anda mais suavizado, tranquilo e… aberto também…
O comentário chamou a atenção de Al.
— Aberto quanto?
— Bem, ele—
Nem teve tempo de expôr seu ponto de vista, já que Daniel voltara com o prato de comida e um copo de suco para Alisson. Quando viu seu primo e o amigo juntos, algo estranho invadiu seu peito. Ficou notavelmente inconformado.
— Que bom que aqui virou a sede nacional da associação dos desocupados — debochou, entrando no quarto a passos pesados e rápidos — Tu não tava fazendo o trabalho?
— Culpa minha, Dan. Eu que entrei e— o primo mais velho, de novo, foi interrompido.
— Isso eu já notei. Agora vaza que precisamos de nota pra passar!
— Mas, pateta, ele pode— Alisson também tentou argumentar. Em vão.
— Não pode nada! Ele tá quebrado da faculdade! — foi empurrando o primo até a saída — Tchau! E boa noite! — fechou a porta na cara dele.
Alisson encarou incrédulo enquanto Dan se sentava e pegava o celular para se distrair. Por um momento, pensou em relevar e seguir em frente, só que deixar uma oportunidade daquelas passar batido seria a maior burrice de sua vida. Se Dan emburrado lembrava um chihuahua, atiçá-lo era como pegar osso de um e sair correndo com aquele ser minúsculo atrás. Era divertido a beça.
— Pode-se saber por que a madame deu show? — debochou já na pergunta, para deixá-lo ainda mais irritado.
— Te chamei aqui para fazer essa m*rda aí, não pra ficar de agarração com meu primo — justificou, ainda com olhar bem vidrado no celular.
— Oin, pateta — pegou na bochecha do menino e apertou — Não seja egoísta! Teu primo é tãão mente aberta, a gente podia se dar—
— NEM PENSA NISSO! — o grito foi tão alto que Al chegou a suspeitar se a Etiópia tinha ouvido e preparava a resposta — Nem vem! O Ian fica lá no canto dele e tu aqui! Fim de papo!
— Ui! Calma, Rex! Amigo! Amigo! — quanto mais Al provocava, mais o menor se enchia de raiva — Não vou pegar ele não. Relaxa.
— Acho bom mesmo…
Al ri da colocação, voltando sua atenção a comida. Quando Dan reclamou a respeito, mandou-o parar de agir feito uma tia velha esclerosada e dar seguimento ao trabalho enquanto ele se alimentava depois de um dia inteiro fora. Meio a contragosto, o menor acabou aceitando, para o deboche do maior.
Assim que acabou, fez menção em levantar e ir lavar suas coisas, mas não sem antes ouvir que se demorasse demais iria tirar seu nome do trabalho por ficar concentrado em papear e não em trabalhar. Fingiu que nem era consigo e foi até o andar de baixo. Notou quando, pouco depois, Ian foi até lá também, pegando um prato para se servir. Já havia trocado de roupa, estando só com seu pijama de dormir e uma camiseta velha do Led Zeppelin.
— Notou né? — questionou o de olhos azuis claros como água.
— O descontrole emotivo do teu primo? Mas isso desde que eu conheço a peça! — brincou.
— Não — riu, fraco — O modo como ele agiu. Não é uma coisa qualquer. Soou mais como… proteção — Encarou-o, sem compreender bem. Tudo bem que Daniel não era exatamente o símbolo em ser calmo e atencioso, mas daí a chamar aquele gesto de proteção? Vendo o claro desentendimento, prosseguiu — Anos vivendo ao lado dele já me deram algumas manhas de como ele funciona. Aquilo ali? Proteção. E posso garantir que não era pra mim…
As palavras começaram a entrar em sua mente e a fazer seu cérebro repensar a atitude do rapaz. Faria bastante sentido sim, afinal de contas, ele era um rapaz explosivo, tendendo bastante a agir de cabeça quente e sem medir as palavras. Mas fazer aquilo… por ele? Começou a sentir a palpitada do coração só de pensar na hipótese.
— Tá dizendo o que eu acho que tá? — questionou, querendo ouvir objetivamente a resposta.
— Dan tem uma maneira meio torta de amar, é verdade. Mas é o jeito dele. E por isso eu acabei… Gostando demais dele… Então sei reconhecer isso. A vida inteira ele foi o caos e não vai ser agora que vai mudar. Então, eu ficaria esperto…
Depois da falar, Ian simplesmente disse boa noite e subiu para seu quarto, deixando para trás um Alisson pensativo e ligeiramente intrigado. Sempre desconfiou de que havia algo entre Dan e o primo, e ter aquela verdade exposta era como um quebra cabeças que ganhava mais uma peça encaixada. Todavia, não estava de todo completo — haviam coisas a serem respondidas. A principal, em seu ponto de vista, era compreender se realmente o coração de Dan estava querendo lhe dizer alguma coisa. Não deixaria isso para outro dia ou momento. Faria-o naquele mesmo instante.
Terminada a louça, subiu de volta até o quarto, desta vez com um objetivo bem claro. Ao entrar, pôde ouvir o garoto reclamar se ele teve de lavar a louça inteira para demorar uma vida. Riu, fraco, mas estava sem tempo para entrar no mérito da coisa. Precisava de uma resposta. Chamou pelo amigo assim que sentou em sua cama, pedindo também que ele lhe observasse olho no olho.
Como a imensidão daquela íris escura lhe trazia um espírito aventureiro, uma vontade de se jogar ao mar sem ao menos saber nadar, só pelo prazer de viver intensamente sem riscos, receios. Havia algo neles que Alisson pouco ou nada conseguia descrever, pois só dentro de si, em seus pensamentos, eles faziam sentido.
E, de tanto admirá-los, Daniel acabou por se constranger, exigindo que fosse rápido para voltar sua atenção ao trabalho. Al respirou fundo e questionou objetivamente se vê-lo com outro rapaz lhe causava estranheza. O garoto não entendeu a questão, porém, nada gostou de ouvir aquela hipótese, deixando seu coração inquieto demais.
— Tá pegando algum e não me contou? — apesar de não se dar conta, não soou como uma mera pergunta qualquer. De fato, pareceu mais uma intimação, e o outro percebeu isso.
— Não, é só que — coçou a nuca — Sei lá. Agora pouco tu não gostou de pensar que eu pudesse me interessar pelo teu primo e—
— E tu acha justo o meu primo ficar contigo? — Dan questionou, olhando bem ao fundo dos olhos — Tu é meu melhor amigo. Preciso ao menos que tu respeite isso.
— Melhor amigo? — Al repetiu, encarando Dan com um sorriso que o deixou assustado — Sou teu melhor amigo? Tem absoluta certeza?
Dan viu a vida passar diante dos olhos naquele momento. Suas mãos ficaram tão gélidas e suadas que nem passando-as freneticamente no calção as deixavam secas e quentes. Tratou de mudar de assunto, dizendo que se ele queria dormir ali, podia, voltando sua atenção ao trabalho e começando a digitar o mais depressa possível.
Só então o outro pôde perceber o óbvio: Não só o coração do rebelde estava balançado, o seu também não estava muito atrás. Só queria saber quando é que poderia ter a certeza do que sentia, e de que seria correspondido a tempo disso...
CONTINUA
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