INFLUÊNCIAS DE HUMOR

Poucas pessoas no mundo são capazes de compreender a razão das coisas tomarem um curso oposto ao planejado ao longo da vida. Destino, acaso, escolhas… as opções são as mais variadas. O jeito de lidar com isso, no entanto, limitam-se a dois: aceitar ou surtar.

Fazer essa escolha passa longe de ser fácil. Existe um preparo físico e emocional a ser levado em conta antes de dar um passo adiante. Toda trajetória de vida, bem como as lições que cada um leva dentro do peito, são expoentes primordiais. Marisa sabia bem disso ao decidir fazer o anúncio naquela manhã de quinta feira, um dezessete de agosto de nuvens cobrindo o céu como um possível prelúdio.

Caminhou tanto de um lado para o outro da cozinha a ponto de torcer para o piso de cerâmica não ceder e aguentar mais vinte minutos. Deixou a mesa do café posta, arrumando tudo nos mínimos detalhes, enquanto o filho não dava as caras. Até panquecas americanas se esmerou em fazer, preparando a calda caseira com bastante amor para abrandar o impacto.

Ficou chocada quando, meses antes, seu filho trouxera do limbo a promessa de jamais trazer um homem para a vida deles de novo que não fosse seu pai. Desde então, dias e dias dormindo tarde tentando pensar que era uma moça sozinha, sem ninguém, em uma cidade que não sabia chegar na esquina sem se perder; com um bebê a tiracolo! Tinha esperanças daquilo tudo não ter passado de um equívoco e ser comprovada a inocência do sujeito… mas nada.

Diante disso, por que enterrar sua vida?

Anos dedicados a criar o rapaz que aprendia naquele momento a se tornar homem, um melhor do que aquele com quem compartilhava metade de seu DNA. O tempo foi passando, as feridas cicatrizando (ao menos para ela) e a vontade de ter alguém ao lado crescendo. Se Alisson realmente queria o bem da mãe, fizesse então um esforço para tal! Tinha isso como mantra. A grande questão era convencer seu psicológico a respeito…

O coração da mulher quase saltou para fora do peito ao ver seu menino descendo a escada com uma cara de poucos amigos. Seria uma hora ruim para atormentá-lo? Não queria dar a ele um fardo o qual nem de longe precisava carregar. Estava prestes a estranhar a indiferença total e absoluta até ouvir o questionamento de onde queria chegar com aquilo.

— Não posso mais alimentar meu filho? É sério?! — tentou disfarçar, só que não colou.

— A última vez que a senhora fez panquecas americanas foi pra me contar que tava saindo com aquele cara lá — referindo-se indiretamente a Edu — Trocou? Dessa vez é um médico, né? Bem rico e velho pra—

— Quer parar de palhaçada? O assunto é sério! — começou a se alterar, mais por conta do nervosismo que irritação propriamente dita.

— Conta aí — pediu, sem levar muita fé. Conhecia a mãe e seus trejeitos exagerados. Provavelmente diria que terminou mesmo e precisava do carinho dele.

Era difícil explicar o quão vulnerável se sentia ao decidir tomar um passo daqueles mesmo sem saber direito como tudo iria proceder. Claro, já conversaram a respeito, chegaram num consenso, mas a teoria nem sempre casava com a prática. Al reagia de formas imprevisíveis quando algo lhe atingia com força, tal qual no dia do tapa na cara. Jamais pensou ir às vias de fato, só foi pega de surpresa, como bem podia acontecer ali.

O olhar do menor já ficava apreensivo e sem paciência para aguardar. Tinha um dia cheio a enfrentar, assuntos a tratar com Dan após o episódio no “Wunder Bar” enquanto a mãe dedilhava as palavras. Faltou pouco para dizer a ela para ser curta e grossa de vez. Sua sorte é que não foi necessária: Marisa acabou confessando sobre a ida definitiva de Edu para a casa deles.

Seria mentira o garoto demonstrar total surpresa a respeito, afinal de contas tudo parecia estar se encaminhando para aquela culminância fazia já algum tempo. O problema de fato era seu coração aceitar isso com toda força e intensidade, compreendendo ser parte natural da vida de um casal e até mais do que isso — a oportunidade dada a alguém cuja dedicação ao filho lhe privou anos de alcançar um parceiro ideal. Até assimilava tudo isso, porém, certas feridas pareciam estar sendo abertas de novo com a revelação, fazendo esforço para não deixá-la dominar sua capacidade lógica de raciocínio.

Al penetrou fundo o olhar aflito de Marisa. Via nele a ânsia de uma resposta positiva, uma ação bem intencionada, qualquer coisa capaz de tirar dela toda angústia pela qual passava desde que abriu as portas de sua vida para o amor. Não era difícil imaginar seus pensamentos, afinal ele próprio vivia algo bem semelhante naquele momento, talvez até mais difícil de aceitar do que a presença de um estranho dentro de sua casa.

Ponderando tudo isso, após alguns minutos de análise calma e sem exageros, um ‘tudo bem’ escapou de sua boca enquanto mordiscava um pedaço de uma das panquecas. A mais velha quase saltou para trás — não de alegria, mas espanto. Esperava ao menos meia dúzia de gritos, xingamentos e julgamentos como da outra vez. Armou-se contra tudo. Ao que parecia, em vão. Al notou isso, começando então a explicar suas razões.

— Eu não… me sinto no direito de privar a senhora disso. E também isso não torna meu pai um santo, então… tudo bem. Beleza.

— Então… tranquilo o Edu vir pra cá? Preciso ouvir isso de ti.

— Desde que ele ajude a tirar o pó da casa — brincou o moreno.

Se a felicidade tivesse forma, sem sombra de dúvida teria a face Marisa ao ter a aprovação de seu menino. Tudo o que mais queria no mundo era ser amada e feliz, tendo o filho apoiando sempre. Vê-lo disposto a enterrar o passado de vez, seguindo em frente e enfrentando seus temores, trazia a tona um homem surgindo de dentro daquele rosto jovem e cheio de energia. O adolescente cabeça dura começava a dar sinais de ficar apenas na memória — verdade seja dita, não muito — saudosa.

Tomaram juntos o café da manhã. Al notava o quão radiante e orgulhosa sua mãe demonstrava estar. Apesar de algumas desavenças comuns da idade, nunca questionou seu amor e nem mesmo lhe negou afeto. Tinha muito orgulho dela, suas conquistas, acertos e derrotas. A peça faltante, o pai, surgia vez ou outra para assombrar seus sonhos, mas Marisa sempre estava lá para lhe afastar o medo. Por que não fazer o mesmo por ela agora?

Antes de ir para a escola, foi até ela e lhe deu um beijo na testa enquanto recebia um abraço. Seu coração sentia-se em paz, como poucas vezes naqueles tempos tumultuados pelos quais passara e ainda passava. Era bem verdade que seria um desafio e tanto, algumas atitudes precisavam ser trabalhadas, mas nada tão importante quanto ver o sorriso genuíno e agradecido de sua progenitora.

— E mãe…

— Diga — pediu, sorrindo.

— Sobre meu pai… Vamos fingir que um caminhão matou ele, ok?

— Ok — riu, apertando um pouco mais o filho — Te amo, viu? Nenhum homem jamais irá estar acima de ti. Jamais…

— Sou muito marcante, tô sabendo — debochou, levando um beliscão no traseiro — AI! Precisava disso?!

— Vai pra escola já! — ordenou, tirando uma com o rapaz que retribuía da mesma forma.

E lá se foi aquele rapaz que um dia pegou no colo. Por mais difícil, doloroso muitas vezes, ser mãe ainda conseguia trazer algumas dádivas únicas em sua vida como poucas coisas conseguiram. Tê-lo a seu lado agora significava, para si, o início de uma fase próspera, onde, torcia, a felicidade faria morada.

***

Existem várias formas de se conseguir fazer uma organização para um trabalho em grupo de escola. Geralmente, esta curiosa obrigação traz a tona alguns lados bem questionáveis do ser humano quanto a sua própria capacidade de conviver em harmonia, ser capaz de argumentar sem medo ou desrespeito, entre outros valores regentes de uma sociedade minimamente organizada. No caso de Sabine e seu colega, o lema ‘tiro, porrada e bomba’ era o mínimo perto do caos estabelecido na sala com a discussão de ambos sobre o trabalho de sociologia.

Quando entrou na sala e viu aquela algazarra, Daniel se questionou se não havia entrado em algum reality show. Pelo pouco que conseguiu compreender da situação, o rapaz, além de faltar a reunião promovida pela loira, ainda quis argumentar opostamente a tudo proposto por ela no desenvolvimento da dissertação acerca da liberdade sexual feminina na contemporaneidade. Alguns até se esmeravam em gravar a cena, mas o primo de Ian só deu de ombros e foi para seu lugar rotineiro enquanto aguardava a chegada de Alisson.

Sequer sabia direito como reagir ante a figura dele após a ligeira confusão cometida por si em seu trabalho. Até haviam, de certa forma, acertado os ponteiros um com o outro, todavia o fato de ter dito que “não queria ver algo” foi motivo de despertares repentinos ao longo das noites posteriores. Trocaram meia dúzia de palavras, é verdade, mas sem tanto ardor como outrora, muito por conta dessa sensação esquisita brotando em seu peito e suas tentativas desesperadas de matá-las a todo custo. O universo podia sentir o desespero emanando de sua mente atormentada.

Sua mente só conseguiu sair um pouco do turbilhão quando Sabine retornou a seu lugar após massacrar o tal sujeitinho com argumentos lógicos. Ainda sim, acalorada pela discussão, ela ainda estava em ritmo de combate, achando um absurdo ter levantado uma hipótese daquelas. Ao notar a indiferença de seu ex crush, ficou possuída, beliscando seu pescoço.

— Ei! Ficou louca?! — questionou, encarando a garota, sentada atrás de si.

— Se não isso, quase — desabafou Jeff, levando um tapa no ombro — Até pra mim?!

— Pra qualquer macho estúpido incapaz de pensar em um mundo onde sua estimada p*roca não seja o centro do universo — justificou ela — Me digam: Tem cabimento ele ter olhado no grão do meu olho e dizer que masturbação feminina é puro marketing pornográfico, além de “nojento”?

— E não é mesmo? — murmurou, porém não o suficiente para passar batido pelos ouvidos de raposa dela, culminando em outro tapa — EI! O que foi?!

— Se é pra falar asneira, melhor calar a boca! Concorda também, Dan? — ao notar a distração do amigo pela segunda vez, jogou a toalha, refestelando-se em sua cadeira, cansada — Quer saber? Vocês têm razão. Falar sobre assuntos femininos com homens é como falar de honestidade com ladrão…

A loira acomodou-se na cadeira com cara amarrada, frustrada por estar sem alguém ali capaz de dar algum suporte. Nem a possível curiosidade, típica sua, por Daniel estar nas nuvens a confortava, mesmo porque era quase um consenso que o clima esquisito entre os amigos iria melhorar em algum momento.

Quando Amanda, Adrian e Alisson adentraram a sala, foi a deixa para Sabine ter apoio feminino de alguma amiga sua. Amanda, inclusive, aproveitou a deixa para revelar sua transferência para o 3B, deixando a outra um pouco mais leve, afirmando aquela ter sido mais uma prova de que a força feminina prevalecerá. O rapaz não sentou a seu lado, preferindo a carteira atrás de Sabine e Jeferson. Com Amanda agora dividindo sala com eles, Adrian optou por ficar junto da namorada, deixando o pensativo Daniel sozinho com seus questionamentos.

Daniel nada estava entendendo daquele assunto e, no íntimo, pouco se importava. Com problemas vertendo mais do que infiltração em prédio velho, quase nada seria capaz de deixá-lo mais tranquilo além das respostas, mesmo quando se negava a enxergar. Em sua mente, havia um muro construído em base de areia, cujo primeiro vento parecia disposto a botar a baixo. E este vento, ao menos sabia, era Alisson.

A discussão no sábado deixou claro o quão fora de controle tudo parecia estar. Muito mais do que mera insinuação feita no calor do momento, a frase por ele dita soou como uma venda arremessada longe, todavia, esmagava seus olhos de tanto mantê-los fechados para não precisar arcar com as consequências posteriores. Sentia-se pouco preparado para tal, mesmo com todas as falas de Ian, a experiência com Van, e todas as atitudes bizarras as quais se envolveu desde que estreitou laços com Alisson. No fundo tudo era baseado no medo do novo, desconhecido.

Parte disso talvez se devesse a segurança do maior. Mesmo com as relações um pouco estremecidas, Al seguia tão confortável em si mesmo, sem fraquejar nas palavras nem ações, conseguia transitar por entre seus possíveis medos com o mínimo de arranhões. Considerava que, talvez, seu cérebro estivesse enfeitando um pouco, mas com qual propósito? Mais uma pergunta de óbvia respostas, contudo, impedida de vir à tona em virtude da covardia de Daniel em assumir uma posição.

Amanda, até então entretida com Sabine, acabou por comentar a estranheza do amigo naquela manhã. Afinal de contas, ele não havia dado uma palavra sequer, tampouco atenção a coisa alguma, parecia desligado do mundo e focado em qualquer lugar longe — e, ao mesmo tempo, perto dali.

As moças sabiam bem, principalmente a loira. Chamou-a para mais perto, cochichando em seu ouvido sobre a desconfiança a respeito das estranhas coincidências culminadas no término de Vanessa e o amigo. Houve pouco espanto por parte dela, afinal de contas Adrian mesmo já tinha cogitado tal hipótese. Fomentada pela curiosidade, perguntou-a a respeito de algum vestígio real capaz de comprovar isso. Sabine acabou por ser franca.

— Tô tentando não pensar mais nisso pra não enlouquecer. Mesmo porque isso não vai mudar em nada.

— Ah, mas seria interessante saber se foi mesmo ou não — indagou — Afinal, se foi mesmo, eles deveriam ao menos ter conversado com ela, respeitado os sentimentos… Será que fizeram?

— Sei lá, guria! Morro de vontade de saber também! — falou, atraindo a atenção de Adrian a respeito. Quando questionou, levou um fora bonito da amiga, levando a namorada aos risos.

— É como tu disse antes: Certa tá Taylor Swift que namora um pouquinho, depois larga, sofre, escreve um álbum e ganha dinheiro com isso.

— Não é? Acho que junto a profissão de jornalista vou acabar sendo escritora! — ambas acabam rindo do comentário, ao passo que Jeff e o jogador se entreolham tentando dar o mínimo sentido a ação.

Depois de algum tempo viajando nas nuvens, acabou que a voz da professora de Educação Física se infiltrou em sua mente avisando o fato de todos já estarem a caminho da quadra enquanto ele seguia ali. O garoto pediu desculpas e estava saindo pela porta quando deu de cara com Alisson de braços cruzados, parado, lhe esperando. A docente suplicou para virem logo enquanto ela própria o fazia, e Dan pretendia agir, não fosse o maior lhe impedir, afirmando estarem precisando trocar uma ou duas palavras.

— Já conversamos bastante sábado. Por mim, tá ótimo! — disse, passando pelo outro sem muita paciência. Como era de se esperar, ele veio atrás.

— Tu não ouviu o Gustavo avisando do torneio?

— Quando? — pareceu surpreso, ouvindo um suspiro dele a seu lado.

— Tu é uma pomba lesa, hein?! Vou te contar… — debochou — Agora. Pouco antes de virmos, mais especificamente.

— E o que tem esse tal torneio de especial?

— Será em setembro parece, ou outubro. Tava prestando atenção no celular e não ouvi — coçou a nuca rindo — Enfim, é importante nós dois enquanto membros intensificarmos os treinos fora da aula e não faltar mais de preferência.

— Só isso? Podia muito bem ter esperado a próxima aula pra ele mesmo me dizer, ou a…o… sei lá, Ana, me avisar — fez pouco.

Sentindo suas estribeiras irem todas para os ares, o filho de Marisa respirou fundo, olhou bem para o céu na súplica de receber o milagre da paz, e continou seu caminho até o amigo. Era difícil precisar depender tanto da boa vontade de alguém cuja maior qualidade era justamente seu pior defeito.

— Isso tudo é por causa da Vanessa? Ainda? Pelo amor de Deus, pateta. Chega a ser mais do que infantil… É a nata da cachorrice mesmo.

— Então tu acha mesmo que foi pela Van? Depois do que tu me disse? — rebateu — A Van era um problema, ATÉ tu mandar aquela gafe na lata!

Al foi obrigado a engolir seco. De fato, não mediu muito as consequências ao propôr algo cujos resultados ele mesmo não sabia se iriam durar, ou se seu coração e a vida estivessem apenas lhe aplicando um golpe sujo para trazer mais lamaçal e pagar por seus feitos cometidos não tinha muito tempo. Até porque, apesar dos indícios, nada era tão certo a ponto do destino não girar outra vez e lhe mostrar outras faces.

— Tudo bem. Eu vacilei. Foi mal — admitiu — Pelo menos tu se entendeu com ela, não foi?

— Sim…

— Então! Alguma coisa valeu a pena! — tentou ser otimista.

— É… Mas não tô muito satisfeito — confessou — Esse vulcão aqui dentro tá me deixando muito esquisito. Nem sei mais o que esperar.

— Tudo de bom, pode apostar — sorriu, deixando o garoto um tanto mais leve com seus pensamentos.

— Pode ser — deu de ombros, seguindo o trajeto.

De tudo algo positivo havia sido constatado: ao menos daquela vez os danos foram resumidos a meia dúzia de palavras venenosas. Tudo mais ameno, calmo, talvez até pelas circunstâncias. Ora, motivos para aquela pequena Guerra Fria eram tão sólidos quanto óleo. Seria ótimo ter todos os ponteiros acertados, todavia, ambos tinham suas dúvidas sobre até que ponto estavam preparados para enfrentar os desafios a frente.

O filho de Marisa passou, de sábado até ali, pensando de onde veio tamanha coragem, ou falta de vergonha (não soube identificar qual fora mais poderosa), para se deixar omitir uma fala tão comprometedora. Cada célula do seu corpo parecia procurar uma forma de encontrar um remédio capaz de lhes acalmar, só acontecendo de fato ali, botando os pratos limpos. Sentiu algo bem parecido de quando jogou verde para Dan na ocasião do restaurante — a da verdade lançada ao vento como arma poderosa para vencer o inimigo. Este, no caso, o medo do amanhã incerto.

Não raro, entretanto, o dia não esperava seu sucessor para passar a tocha dos desafios. Muitos deles acabavam por deixar a bomba estourar numa mesma ocasião, tal qual quando chegaram ao vestiário. Era a primeira vez desde a educação infantil onde ficar pelado frente a outros seria algo amedrontador para ambos. Sentia-se virgens entre os lobos famintos, ainda que estes pouco fizessem deles estarem nús ou vestidos com Versace. O problema era, de fato, entre eles. Chegavam a desviar o olhar, estando um ao lado do outro, para os lados a fim de fingir distração enquanto seu corpo inteiro tremia, mesmo com o ambiente abafado por conta dos chuveiros.

— Passando mal, Al? É p*roca demais pro teu caminhão? — um dos integrantes resolveu bancar o palhaço, e a platéia comprou a piada — Relaxa. Pega na minha aqui. Brotheragem pode, mas só aqui hein?!

Entre alguns risos e comentários maliciosos, o rapaz apenas encarou o colega bem no grão de seu olho antes de proferir sua fala. Seu olhar parecia querer dilacerar o corpo do idiota querendo bancar o espertinho às suas custas.

— Chama essa verruga aí de p*roca? Serião? Tá mais pra herpes genital, hemorróida, sei lá…

O dito cujo deixou a raiva subir a cabeça, já saindo do box e perguntando qual era a dele, sendo impedido por Adrian, que o segurou e, em seguida, empurrou para dentro do box e fechou, ordenando que ficasse na dele e todos terminassem seus banhos em paz.

Claro que ele não se deu por vencido, escolhendo a vítima seguinte de seu bote. A bola da vez acabou sendo Dan, o que dificultou ainda mais as coisas, afinal de contas Al precisava de apenas um mero motivo para voar no pescoço dele e arrancar sua cabeça e jogar para as larvas começarem a decomposição. Ao que parecia, o sujeito estava disposto a pagar para ver.

— Tu foi uma decepção também, hein Daniel… — começou — Sempre ouvi falar da tua mina, agora tá com macho peludo do lado…

Foi o suficiente para Alisson fazer sua tentativa de entrar lá e fazê-lo engolir suas palavras, todavia, surpreendeu-se ao ser impedido por Dan. De início, lógico, ficou furioso, quase colocando um ou dois socos extras em seu pacote de distribuição. Entretanto, encarando seu semblante envergonhado e decepcionado, nem se deu ao trabalho de perguntar nada. Engoliu aquilo bonitinho, por hora ao menos. Adrian e Jeff, já concluindo de se vestir para irem à quadra, seguiram na desconfiança de algo estranho no ar, estando dispostos a colocarem tudo em pratos limpos no momento certo.

Os filhos de Marisa e Isabel deram sorte por o ‘palhaço’ não ter tido adesão, apenas lançando um olhar mal encarado ao passar por eles. Queria revanche pelo momento, demonstrando total ânsia em tê-la a qualquer custo, em qualquer lugar. Como tinham coisas a se preocupar, acabaram dando de ombros, apenas entrando numa cabine e iniciando seu banho.

Não era exagero afirmar a total falta de pressa deles em sair dali, muito por conta da saída, onde inevitavelmente teriam de ficar despidos até mesmo da toalha, ao contrário de minutos antes, para conseguirem se vestir. No vestiário, ouvia-se apenas o barulho dos chuveiros deles e nada mais. Por conta disso, pela uniformidade sonora, ambos acreditaram estarem sozinhos sem se dar ao trabalho de falar em voz alta para comprovar. Deixaram a água quente relaxar seus músculos, mandar para o ralo a raiva e seguir com a vida. Ao menos, assim desejavam…

Por pura ironia, desligaram juntos. Secaram-se tranquilos da vida, como se estivessem no banheiro de sua própria casa, sem uma viva alma para incomodar. Quando saíram, porém, veio o susto — ambos não haviam colocado a toalha na cintura, expondo-se completamente um ao outro. Dan, num instinto básico de auto defesa, virou para o lado oposto, como se fosse capaz de vestir algo que o cobrisse só com a força do pensamento positivo. Sem conseguir se segurar, Al quebrou o gelo debochando do ato.

— Bunda redondinha, hein? — disse, em tom de deboche.

O rosto do menor ferveu com a colocação, pensando se não havia a menor possibilidade de se enfiar dentro da cabine outra vez e sair somente quando a vergonha saísse de seu corpo. Entretanto, sabia já ser tarde demais, o amigo pegou-lhe desprevenido. Nada podia ser feito além de tentar responder a altura.

— Quem sabe tu cuida da tua e deixa minha em paz — seguia virado do lado oposto.

— Relaxa aí, pateta. Tenho nada a esconder — escorou-se na parede, cruzando os braços — Tu tem?

Bufou. Estava nítido ser provocação, testando os limites, mas Dan não resistiu a tentação de olhar bem no grão do olho dele e negar o feito, ainda que estivesse tremendo — tanto pela brisa fria que tocava-lhe o corpo quanto da tensa circunstância a qual se envolveu involuntariamente.

— Depois não quer que os outros falem de ti, né? — alfinetou — Mas olha as idiotices que tu fala.

— Ah, pateta… Quando é que tu vai aprender que ninguém jamais irá meter o bedelho na minha vida sem levar um chute no saco pra aprender? — riu — Eu falar é uma coisa, me acusarem outra completamente diferente…

— Tu não é tão lesado pra não se tocar que a “acusação” e a “fala” são a mesma coisa — aproximou-se, com cara fechada, como se quisesse bater de frente — Afinal, tu parece bem disposto a me ver pelado. Ou vai dizer que não?

Alisson aproximou-se um pouco mais do rapaz, com este sentindo um choque elétrico subir da ponta do dedão até o último fio de cabelo. O mais velho mantinha um sorriso sínico nos lábios, demonstrando maior controle sobre suas ações. Sentia-se na pele de um domador de leões, e aquele em específico, tirava de letra.

— Não — respondeu, na maior cara de pau — Mas parece que tu tá bem disposto a me mostrar. Chegando tão perto assim… Onde tá o medo de eu avançar em ti só porque curto guris agora?

— Se tu se atrever a encostar a mão na minha bunda—

— Tu vai dar um chilique grau 10 na escala Richter. Já sei.

— Vai tomar no teu c*!

Virou-se, começando a dar passos largos em direção ao vestiário propriamente dito, deixando um Alisson risonho para trás. Adorava quando ele perdia a razão deste jeito tão neurótico. Quase sua diversão diária vê-lo tão indefeso perante os argumentos.

Não tardou para ir até lá também. Queria saber se Dan ainda teria alguma carta na manga para jogar, afinal de contas, apesar de volta e meia estarem se enfrentando por uma ou outra coisa, tinha estima por ele. Lembrava-se bem da promessa feita ao primo dele quando eles brigaram — mesmo tendo feito as pazes, daquele dia em diante, seu coração se sentiu na obrigação de acatar aquilo até o fim. Ao contrário do amigo, porém, sua razão já compreendia e enxergava com mais clareza os motivos… Restava saber por quanto tempo ainda seguraria isso sem explodir tal qual o próprio faz.

Entrando na área dos armários, foi direto até o seu, já com a toalha enrolada em sua cintura. Viu Daniel enrolando para tirar a muda de roupa de dentro do seu, como se quisesse que Al vestisse primeiro e seguisse sua vida, só para aí conseguir terminar logo. Lógico que não entregaria tudo assim de forma tão fácil. Sendo assim, tirou a toalha e entrou no mesmo jogo, atraindo a atenção quase imediata do outro.

Era explícito o quão curiosos ambos se mostravam estar naquela situação. Vez ou outra, seus olhos flagravam as tentativas de espionagem, como se analisassem cada parte de seus corpos e tentasse desvendar seus mistérios e desejos. O primo de Ian bem tentou fingir, ignorar, só que a vontade era maior, deixando seu estômago ainda mais enrolado encontrando respostas as quais não sabia se conseguiria lidar.

O corpo, de pele clara, beirando um pouco a palidez, cheio de músculos bem delineados — nada exagerado, só firme, tendo o semblante, deixando sua forma física mais atrativa aos olhos cobiçados de Daniel. Cada pedaço seu trazia uma sensação de necessidade, querer, acima até mesmo dos princípios racionais. Por alguma razão, queria analisá-lo bem de perto, tocando, sentindo todas as sensações que ele podia dar. Principalmente a boca… tão bem desenhada, fina, cujas palavras saíam sempre recheadas de astúcia, primazia, como as de um verdadeiro guerreiro.

Nada muito diferente da visão de Alisson sobre o amigo. Difícil controlar os instintos provocados pela natureza ao se deparar com a pele cor de areia molhada dele, seus traços igualmente firmes, mas rígidos, estáticos como ele próprio. Via o quão tensos eles estavam e queria relaxá-los de uma forma que sabia bem como fazer; ter aquela pequena fera indomável sobre seus caprichos começava a virar um fetiche. Ele tinha algo que poucas meninas na vida — para não dizer nenhuma — conseguiam instigar: a vontade de querer alguém por mais tempo do que uma ou duas noites de transa casual.

Começaram a rir depois de um tempo, quando já não disfarçavam mais tanto. Provavelmente, riso de nervoso, mas ajudou a deixá-los um pouco mais confortáveis. Até focaram em se vestir e não perder mais tempo, afinal estavam perdendo aula. Foi a vez de Dan se arriscar numa frase para quebrar clima.

— Pelo visto tua vida amorosa tá complicada. Precisando me olhar desse jeito… — alfinetou, sem encará-lo.

— É aí que tu se engana — retrucou o outro, gerando espanto — Pode até estar confusa, mas o desejo eu sei qual é…

O menino sequer conseguiu segurar o tremelique ao ouvir a conclusão. Mal conseguia crer na força e convicção na emissão delas, quase sentindo-as sendo recitadas ao pé de seu ouvido, só em um tom mais… sedutor. Foi o estopim para o velho e conhecido Daniel mostrar as garras em sua totalidade. Vestiu-se mais rápido do que carro de fórmula um em final de campeonato e deu um jeito de sair dali o mais depressa possível.

Para sua surpresa, encontrou Adrian e Jeferson, parados feito seguranças de shopping center, impedindo sua passagem. Visivelmente irritado, exigiu que ambos saíssem da sua frente, só que os garotos precisavam de algumas respostas antes. Fatos intrigantes, mal contados, capazes de criar mal estar mesmo a nível de boataria. Como amigos de ambos, sentiam-se na obrigação de ficar a par.

Não demorou muito, Alisson se juntou ao quarteto, entendo bulhufas. Via o filho de Isabel a ponto de bala, indicando que a coisa ia ficar bem feia se alguém se atrevesse a pisar em seu calo. Disposto a neutralizá-lo, questionou os amigos a razão da atitude. Ambos se entreolharam antes de finalmente dizer a que vieram.

— A gente só quer entender uma coisa, só isso — Jeff tentou amenizar.

— Entender por que existe Coréia do Norte e do Sul sendo que tudo podia ser Coréia? Pois é, que pena! Não sabemos! — ironizou — Agora saiam da frente, façam o favor!

Nada. Seguiram como estavam, começando a deixar os nervos do mais velho aflorados junto com os do amigo. Revirou os olhos, desejando que um raio caísse ali para não piorar as coisas ainda mais. Tinha uma intuição de uma ferida estar se criando, causando temor pelos próximos minutos.

— É sério, gurizada. Tem uns comentários bem sem noção sobre como vocês têm agido ultimamente — argumentou o eterno apaixonado de Sabine.

— O pior de tudo é que vocês dão corda, escondendo as coisas, tendo uns ‘pitis’... Aí complica pro nosso lado — Adrian complementou.

Os ouvidos do filho de Marisa mal acreditavam nas palavras obrigados a ouvirem.

— Como assim ‘nosso lado’? Desde quando a minha vida virou foco de língua comprida? — rebatia — O lado de vocês não tem nada a ver comigo ou o Dan! Panaquice isso aí!

— Tu não tá entendendo... — o ruivo coçava sua nuca, constrangido de precisar tocar num ponto tão delicado — Desde o dia da dança que o pessoal do time anda… comentando umas coisas por aí e—

— O quê?! — Daniel se revoltou — Eu quero ver quem é macho pra dizer isso na minha cara!

Como um touro cegado pela fúria, o garoto passou pelos amigos da porta sem medo de estar machucando. Queria é que tudo fosse aos ares, tal como as maldosas palavras sobre si. Tal qual Alisson imaginava, a bomba relógio acabara de explodir.

As circunstâncias pouco ajudaram. Rebecca estava reunindo a turma do 3B para um comunicado importante relativo a entrega de boletins do segundo trimestre, quando um Dan descontrolado saiu berrando atenção dos colegas. Todos o encararam sem entender o que acontecia. Al, Jeff e Adrian corriam atrás do menino na intenção de evitar a catástrofe eminente.

— Quem vai ser o primeiro filho da p*ta a vir na minha frente me chamar de ‘boiola’, ‘viado’ ou qualquer m*rda dessas?! Pode vir! — provocou — Arranquem essas máscaras, seus pau no c*! Anda! Não tenho o dia todo!

O mesmo rapaz do episódio dos chuveiros parecia ter acordado com espírito de porco. Se confusão queriam, estava disposto a dar. Aquela ainda tinha um sabor um tanto quanto especial, pois derrubaria a banca de gostosão dos rapazes numa tacada só.

— Nenhum de nós precisa dizer o óbvio, parceiro! — debochou — Quem manda ficar aí se esfregando com quem não devia?

— Ah, seu filho da— Alisson é quem ia partir para cima, sendo impedido por Jeff e Adrian. O atentado só ria, com cinismo, cantando vitória fácil.

— Cuidado, Al! Mais uma suspensão e tu tá fora! — alertou.

— Ele pode ter só mais uma — Dan se intrometeu — Mas eu tenho as três!

Sem nem pensar uma segunda vez, o sobrinho de Marcella e Ronaldo fechou o punho na cara do garoto sem noção. E não parou por aí! No chão, seguiu com chutes, socos na barriga e no rosto, pouco se lixando para os gritos para parar ditos pela professora e amigos. A raiva de semanas acumulada lhe fez perder completamente a razão e os sentidos.

O menino atentado conseguiu reverter o jogo, deitando Daniel no chão e tentando dar um soco nele mesmo com a face toda inchada e o corpo cheio de hematomas. Negava-se a ir embora tendo só apanhado. Foi só o tempo de erguer a mão para Jeff e Adrian segurá-lo e tirá-lo de cima do amigo, que teria ido para cima outra vez, sendo impedido por Al.

Rebecca ficou atônita diante tamanha violência, dando um grito de ‘Chega’ assim que conseguiu se estabilizar. Todos então voltaram sua atenção a mulher, dando espaço para ela passar e ver os estragos. Quase caiu para trás ao ver o rosto do escroto acabado.

— Os dois, na minha sala, agora! — ordenou.

Al ia levando Dan, mas o mesmo conseguiu se soltar, garantindo que iria com as próprias pernas e pedindo que alguma alma levasse o outro, pois ele sim estava ferrado. A moça negra ordenou silêncio outra vez, dizendo ao menino para ir até sua sala sem abrir a boca. Os namorados de Sabine e Amanda ajudaram o sujeitinho a ir até lá, com o mais velho atrás, pois queria saber se a coisa ficaria muito feia.

Minutos depois, Daniel saiu da sala, comunicando estar indo para casa devido a suspensão, e que, ao retornar, precisa ter o bilhete de autorização e ciência para entrar na instituição, caso contrário o conselho tutelar seria acionado imediatamente.

O filho de Marisa notava a feição triste, mas pouco arrependida, sem nada poder fazer para ajudar. Elogiou-o apenas pela atitude, pois jamais pensava que ele seria capaz de sair no soco com alguém. Ele riu, agradecendo, pedindo apenas que ninguém lhe procure, especialmente Al, pois ele precisava pensar. Nem contestou, imaginando o turbilhão de pensamentos circulando por entre sua mente já tão frágil. O jeito era esperar, e pedir aos céus para que tudo voltasse a ser o que era. Ou melhor — evoluísse para algo muito, mais muito melhor...

CONTINUA