A Teoria das Cores
25 Lilás III
INTUIÇÃO
Apesar de o sol estar mostrando sua força naquela manhã de sexta feira, para Dan é como se o dia estivesse nublado e chuvoso. Vestiu-se sem ânimo após fazer a higiene matinal. Sua cabeça estava longe da escola e de qualquer compromisso que viesse a ter naquele lugar que tanto odiava.
Saiu do quarto e olhou pela última vez a porta do quarto do primo mais velho em busca de algum sinal que o mais velho tivesse mudado de ideia. Nada. Tudo no silêncio absoluto. Deu um suspiro e seguiu seu trajeto até a cozinha e ai veio à surpresa: Lá estava Ian sentado a mesa concluindo seu café. Ao seu lado, uma mochila usada em camping. Ali estavam os itens que Ian iria levar para a casa do amigo.
Era a primeira vez desde que nasceu que Dan se sentiu desconfortável ao lado do primo. Este comia seu lanche matinal sossegado e carregando um sorriso no rosto.
— Bom dia! – Disse ele.
Dan não respondeu, apenas sentou-se do lado oposto ao do mais velho e começou a fazer seu lanche também.
— Sabe – Ian dizia enquanto comia – Ainda dá tempo.
— Do que? – O mais novo disse seco.
— De a gente passar uma borracha em tudo e seguir em frente. A gente é primo, Dan. Primos não deviam ficar assim, nesse clima.
— Por um acaso eu sou teu único primo?
— Eu já te expliquei que tu é um caso diferente dos outros.
— “Tu é o que eu mais quero”, aham. Eu lembro lá na cachoeira – O outro disse irônico.
— Então... Se tu sabe pra que isso? É ciúmes porque eu tava com o Gil e não contigo?
Dan olhou para ele pasmo.
— É muita cara de pau tu dizer isso na minha cara sabia?! Eu sou hétero velho! Que p*rra que ninguém mais pode ser hétero nesse c*r*lho de vida!
— Eu não vou discutir isso agora. Aliás não vou discutir isso nunca – Ian avisou – Não quer passar a borracha então?
— Não! Eu não fiz nada pra tu se ofender.
Ian se levantou e colocou na pia os utensílios que usara durante seu café.
— Ok. Eu to na casa de um amigo que mora nesse endereço. Tu também tem meu telefone. É só me ligar.
— Vai ficar quanto tempo lá? – Dan deixou escapar a pergunta.
— Sei lá. Si pá até me mudo pra lá de vez. Lá eu posso pegar alguém na sala sem ser incomodado.
— Hum. Boa sorte lá.
— Valeu.
E assim Ian se foi até a casa do tal amigo. Por que mesmo sentindo que estava certo, seu coração pesava tanto em ver o primo mais velho sair assim?
— Que m*rda de vida velho... Que m*rda – Reclamou para si.
Terminado o café, subiu de novo, regou seu trevo, pegou sua mochila e lá se foi para a escola.
Quando lá chegou, surpreendeu-se ao ver que Sabine e Adrian já estavam lá.
— Caíram da cama é? – Perguntou ele.
— Fala Dan! – Sabine deu um abraço curto no amigo – Eu vim mais cedo pra ver se conseguia ver uns papéis na secretaria, mas tá fechada.
— E tu Adrian?
— Tenho treino hoje. O treinador tá ralando a gente demais velho! Mal tenho tempo de curtir minha mina!
— Aliás, bem ligeiro engataram esse namoro hein? Parece aquelas histórias mal roteirizadas – Bine mexeu.
— Vai a m*rda vai Bine – O rapaz entrou na onda – Bom galera, to indo que o treino hoje vai ser f*da.
— Boa sorte quase artilheiro! – Gritou Dan.
— Vai pra p*rra Dan! – O outro respondeu ainda correndo em direção à quadra.
Dan e Sabine riram. A loira de repente passou a se sentir desconfortável perto de Dan, então resolveu quebrar o clima.
— Soube que tu anda meio brigado com teu primo. É verdade?
Dan revirou os olhos.
— Foi a Van que te falou né?
— Aham – A garota sentiu seu estômago gelar.
— Eu tô meio brigado com ele sim. Enfim, talvez daqui a alguns dias a gente volte a se falar de boas sei lá.
— Por isso to te achando meio estranho...
— Como foi falar com a Van? – Dan quis mudar de assunto o mais depressa possível. Claro que a loira ficou um tanto constrangida.
— Ah... Foi legal. Não sabia que ela era tão bonita...
— É sim... – Dan sorriu – É uma das mais gatas que já vi.
A outra revirou os olhos.
— Se ela fosse tão boa, não tinha terminado outro dia – A loira deixou escapar, e Dan escutou e a encarou.
— Como é?
A outra suspirou.
— Nada Dan. Só acho estranho tu tá ai suspirando de amores por ela, sendo que mês passado tu tava querendo ver o diabo na frente, mas não queria ver ela por nada.
— Tem certeza que eu que to estranho? Bine, a gente tinha brigado. Namorados brigam.
— Ah é? E pelo que vocês brigaram?
Dan não respondeu. Não sabia se era certo falar assim do segredo da namorada, que aliás nem era tão segredo assim, pois a mesma já havia afirmado que muitos já sabiam.
— Tá vendo ? – A loira disse – Tu tá te fazendo. Isso diz muita coisa.
— É um assunto particular. E o que te deu hein? Que diferença isso faz pra ti?
A loira bufou.
— Nenhuma Daniel. Nenhuma – Respondeu brava – Eu vou pra sala. Por favor, não vem atrás.
Daniel ficou parado no corredor da escola com cara de tacho.
— Que p*rra foi essa? – Perguntou para si.
***
Muito dos erros que cometemos é porque não nos damos conta da dimensão deles. Ás vezes, num gesto impensado, podemos ferir alguém com palavras e gestos que a magoam pra sempre. E, por incrível que pareça, Al tentava ao máximo não precisar chegar nesse extremo.
É incontestável que o rapaz tinha um temperamento forte, difícil. Marisa, que é mãe do rapaz, tinha dificuldades em lidar com o filho em muitas situações. Porém, algumas vezes, almas boas se salvavam no céu e ele conseguia perceber o erro que cometeu e corrigi-lo, antes de virar uma tragédia grega. E assim tinha feito com seu problema com Gil. Ainda estava analisando os pós e contras de voltar a conversar com o garoto, mas já se sentia menos pesado desde a conversa com o outro na noite anterior.
Concluiu seu café ás pressas. Odiava ir para a escola, e odiava mais ainda ter de encarar a supervisora da escola para pedir permissão de entrada. Colocou a louça na pia, e estava saindo quando ouviu duas vozes no portão de sua casa.
— Nós precisamos conversar Gil – Disse a primeira. A voz lhe parecia familiar.
Curioso, resolveu espiar pela janela de casa e ficar de ouvidos antenados. Quem seria àquela hora da manhã?
— O que tu tá fazendo aqui Ian? – Gil perguntou incrédulo. Al custou a lembrar da figura do tal Ian, só depois de pensar um pouco ligou o nome à pessoa.
— Eu falei com a tua mãe e ela disse que tu foi dormir na casa de um “amiguinho” – O garoto riu – Achei meigo da parte dela omitir que tu tá de namorado novo.
— Eu não tô de namorado novo. Eu só dormi aqui porque precisava resolver um assunto com o guri que mora aqui. Só isso.
— Calma. Não to sendo vigia da tua vida, não sou mais teu namorado esqueceu? Só perguntei por curiosidade.
— E veio até aqui por quê?
— Já te disse: A gente precisa conversar.
— Sobre?
— Sobre o que aconteceu lá na sala da casa do meu primo.
Gil riu, porém observou que o outro estava com uma mochila nas costas.
— Essa mochila... Aquele idiota te expulsou da casa dele? – Perguntou sério.
— Não – O outro respondeu dando de ombros – Saí pra o deixar respirar um pouco. É muita coisa pra ele raciocinar.
— Tu te preocupa demais com esse guri não acha?
— Ele é meu primo. Eu tenho que me preocupar.
— Será Ian? Será mesmo que tu só vê ele como teu primo?
Al ficou estático ouvindo aqui. Era real? Gil estava mesmo levantando aquela hipótese absurda?
— Tá com ciúmes é? – Ian disse malicioso.
— Nunca gostei de te ver com ele. Achava que mais dia menos dia, tu ia me chutar e conseguir o que tu queria.
Ian riu do comentário.
— Ele é hétero velho.
— E quantos primos “héteros” teu tu já converteu mesmo? – Gil fez aspas na palavra hétero.
— A maioria – Disse o rapaz rindo – Sabe Gil, tu disse que teu maior medo era que eu te chutasse pra ficar com o Dan, e foi exatamente o que tu me fez.
— E não tem um dia da minha vida que eu não me arrependa daquilo...
Ian sorriu e colocou a mão no ombro do rapaz.
— Esquece Gil. Bola pra frente. Eu já superei o que aconteceu.
— Mas eu não, Ian – O outro tinha algumas lágrimas já se formando – Tu já pensou em quão único tu é?
O coração do garoto de olhos claro apertou ao ver aquela cena.
— N-não fala isso. Eu sou só mais um guri, como tantos que existem por ai.
— Ah mas não é mesmo – Gil riu fraco, ainda limpando lágrimas – Tu não tem nem noção de quem tu é Ian. Do efeito que tu causa nas pessoas.
Ian riu fraco e, delicadamente, passou a mão pelo rosto do ex.
— Foi por esse Gil que eu gamei dois anos atrás. Lembra?
— Cassino... Nossa praia...
— Aham – O outro deu um largo sorriso – Tivemos bons momentos lá.
— E foi pra isso que tu veio aqui? Pra me fazer chorar às sete da manhã?
— Não. Foi pra te dizer que... – Ian procurava escolher as palavras.
— Me dizer que... – O coração de Gil palpitava forte. Estaria mesmo a um passo da volta com o ex?
— Que eu to disposto a ter uma amizade contigo, se tu quiser claro.
Gil, que montava um sorriso, o desfez na mesma hora.
— Amizade? Tu veio até aqui me prepor amizade?!
— Eu não ia vir agora. Ia passar na casa do meu amigo primeiro pra largar minhas coisas e depois-
Ian mal consegui concluir a frase quando Gil avançou e o beijou. Al, que ainda estava ali assistindo tapou os olhos e se abaixou.
— Que nojo velho! Não adianta! Nunca vou conseguir me acostumar com isso! – Declarou.
Voltando aos meninos, Ian retribuiu ao beijo do ex. Fora um beijo rápido, mas o suficiente para acalmar o coração de Gil.
— Isso tá ficando frequente demais pra ex namorados né? – Ian perguntou rindo.
— Tu vai lá pra casa – Disse o outro por fim.
— Oi?
— Tu vai lá pra casa. – Repetiu.
— Mas eu já te-
— Não foi um pedido. Foi uma ordem.
— Gil eu-
— Fui eu quem te colocou nessa roubada, não foi? Se eu não tivesse ficado com tesão nunca que teu primo e aquele monte de gente ia ver aquilo. Então é minha obrigação te abrigar.
Ian abraçou o outro.
— Valeu Gil. Sério mesmo! Tu não sabe a força que tu tá me dando! – Agradeceu.
— Tô fazendo de coração, Ian. Não queria te prejudicar.
— Não é isso – O outro riu antes de confessar algo – Eu ia ficar num hostel que tem mais pro fim do centro.
— O quê? E o amigo da faculdade?
— Aquele monte de gente que come frango e arrota peru? Nunca! Odeio gente esnobe.
— Quase que ia passar trabalho por minha causa – O coração do outro pesou.
— Ei! Não fica assim – Ian o consolava – Ia acontecer algum dia. Sabe Deus quando vou ficar com a Ágata, então podia rolar outros guris nesse meio tempo.
— Ágata? – Gil encarou os olhos azuis do ex – Quem é Ágata?
Ian sentiu que havia falado demais, então decidiu adiar aquela conversa.
— Mais tarde a gente conversa sobre isso. ‘Bora pra tua casa então?
— ‘Bora – Gil não entendeu, mas tinha uma vaga ideia do que a garota podia representar a Ian.
Assim que os dois saíram da frente de seu portão, Al abriu a porta e finalmente pode sair. De tudo aquilo que escutara, o que mais lhe deixou apreensivo fora a hipótese que Gil levantara. O que ele disse tinha algum fundamento?
Por mais que não tivesse nada haver com o assunto, já que tinha se metido nessa história involuntariamente, podia arrancar algumas informações a respeito. Que mal tinha nisso?
Não tardou a correr até a escola. Aliás nunca teve tanta vontade em chegar aquele lugar como naquela manhã. Correu até a sala do 3B onde Dan estudava, e só encontrou Sabine com uma cara de poucos amigos colocando a mochila na mesa com força.
— Ei! Sabine né?
— Quem quer saber?! – A garota respondeu rude. Virou-se e viu Al – Ah... Foi mau Alisson.
— Não foi nada – O garoto estranhou o comportamento da colega – Aconteceu alguma coisa?
— Só um demente que não enxerga um palmo a frente do nariz... Mas enfim, tá precisando de algo?
— Sim... Hã – O garoto ainda estava desconfiado – Tu sabe onde eu acho o Daniel?
A garota revirou os olhos.
— Ele tá perto da secretaria. Pelo menos tava quando eu sai.
— Não que seja da minha conta, mas-
— Já respondi o que tu queria?
— Sim... Valeu.
— Não por isso.
E lá foi Al atrás do mais novo. Estranhou o comportamento rude de Sabine, visto que na tarde anterior ela parecia tão amigável. Algo estava errado com ela.
— Gurias – Falou para si – Tão bipolares quanto os últimos invernos que tivemos.
Deus mais alguns passos acelerados, até que finalmente encontrou quem procurava.
— E ai Daniel.
— Fala Alisson. Tudo na paz?
— Comigo sim. Mas pelo visto com a loirinha que anda com vocês...
— É... Ela tá meio estranha hoje. Deixa ela quieta.
— Eu podia trocar uma ideia contigo?
— Beleza.
— Pode ser num lugar mais reservado?
Dan estranhou aquele mistério do outro.
— Por quê? É alguma coisa séria?
— Talvez. Pode ser ou não?
O que Al queria com ele?
— Tá... Acho que pode ser.
— Me segue então.
Al olhou para os lados e começou a ir na direita de onde estavam, seguindo para um corredor. Dan vinha logo atrás, pois estava meio constrangido de estar ali com um garoto que mal conhecia. Al havia se mostrado de confiança até então, mas confiar desconfiando era um lema que Dan levava consigo sempre.
Seguiram pelo corredor, que começara a se tornar mais precário enquanto andavam. Quando viraram a direita novamente ao fim do corredor, encontraram uma sala desativada. O pequeno corredor que levava até ela conseguia ser tão ou mais precário que o caminho que levava até ali.
Al forçou um pouco a porta, até que a mesma se abriu e Dan pode ver o que era: Uma sala de aula desativada. As classes não pareciam estar depredadas, mas as paredes eram uma mistura de novo com musgo. Era um lugar extremamente estranho.
— Isso aqui era uma sala usada até seis anos atrás – Al explicava – Deu um toró bravo por aqui, e ai essa pequena parte da infraestrutura do prédio acabou sendo interditada por riscos de desabar. O que é engraçado porque tivemos queda de granizo aqui que f*deu tudo e o troço ficou mais inteiro que minha casa.
Dan riu do comentário.
— E porque tu me trouxe aqui?
— Queria te fazer umas perguntas.
— E não podia ser em outra sala?
— Ahh, é que essa aqui até os ratos não invadem. Então ninguém fica entrando e saindo, se metendo.
— Aham... Sei... – Dan disse desconfiado – Pra mim ficou parecendo que tu queria-
— Nem termina essa frase! – Ordenou Al – Não vem me acusar de bicha!
— Tu conhecia a bicha que meu primo queria comer, não conhecia? Então.
— Foi muito bom tu falar nele, porque é dele mesmo que quero falar!
Dan o encarou confuso.
— Me chamou aqui pra falar do Ian?
— Isso.
O mais novo começou a rir.
— Eu falei alguma piada por um acaso? – Al perguntou sarcástico.
— E depois não quer que eu ache que tu é viado né ? – Dan provocou – O que tu quer com meu primo? Quer dar uns pegas nele também?
— Não. Pelo que eu to sabendo, tu é quem ele quer dar uns pegas.
Dan parou de rir e sentiu como se tivessem lhe socado o estômago.
— Como é que é? Como tu soube disso? – Perguntou sério.
— Que foi? Perdeu a graça?
— Responde c*r*lho!
— Ei! Não precisa ficar com raiva, só to aqui por que eu fiquei meio... Surpreso quando soube disso.
— Soube do que?
— Que o teu primo... Pode ser... Apaixonado por ti.
CONTINUA
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