INFLUÊNCIAS DE HUMOR

Manhã de quarta feira. O colégio estava eufórico. A festa do dia dos namorados, que aconteceria mais tarde, animava a todos. Quer dizer, todos, menos Al. Dois dias que não falava com Jeff, quando o mesmo ficou bravo por conta da aposta que não cumpriu. Não lhe entrava na cabeça o porquê do rapaz ter ficado tão bravo.

Depois daquela breve discussão, Al e Jeff não trocaram muitas palavras. O garoto sentou a lado de Jeff e jogou mais algumas partidas, com ambos em silêncio e o maior de cara amarrada. Quando deu seis e meia da tarde foi para sua casa, se despedindo apenas dos pais de seus pais, já que o próprio subiu para o quarto e se trancou lá.

Procurava dispersar seus pensamentos sobre o ocorrido. O foco – ainda que contra sua vontade – eram os preparativos da ridícula festa (Sua opinião) de dias dos namorados.

— É tão brochante arrumar esses penduricalhos aqui. Me sinto um mané gay — reclamou.

— Pois eu tô achando um máximo! — Mandy estava feliz a colar corações nas paredes do ginásio, onde ocorreria a festa.

— Tu tá assim porque eu falei com o Adrian e ele aceitou ficar contigo, né?

— Cala boca! — a garota ficou vermelha como um tomate.

— Ui... Olha ela toda apaixonadinha — mexeu o outro.

— Calado! — Mandy socou o braço dele levemente.

— Ai! Acho que tu quebrou meu braço com essa força toda! — Foi sarcástico.

— Experimenta ficar me aporrinhando para ver se não bato mais forte.

— Olha! Que agressiva.

Ambos riram.

— Tá, seu manezão, tu vai vir? — perguntou, indo em direção à outra parede com Al, lhe seguindo com a caixa de enfeites feitos pelo 3A e 3B.

— Precisa de alguém pra ser tua vela?

— Ué, pensei que fosse convidar uma das gurias do 3B. Sempre diz que elas são “gostosas” — fez aspas ao pronunciar a última palavra.

— E são mesmo. Mas não tô no clima. Te ver assim animada já tá ótimo pra mim.

— Ai, gente, ele não é uma graça?

— Sou mesmo. Me ame.

Novamente riram.

— Guris — a professora de Educação Artística chamou a atenção — Vocês podem pegar as outras caixas de enfeites que estão na sala do 3B?

— Claro, professora — concordou Mandy.

— Já não tinham vindo todas? — Al questionou.

— Ainda não — A moça loira respondeu — Esse ano, temos muito material e vamos utilizar o máximo que conseguirmos.

— Ah bom.

— Jeferson e Daniel do 3B, venham cá.

Al sentiu seu estomago embrulhar. Com tantos disponíveis, por que a professora chamou justo Jeff?

— Continuem o que o Alisson e a Amanda estão fazendo aqui, por favor — ordenou.

Al entregou a caixa para Jeff, que virou o rosto que continuava com a cara fechada. Deu de ombros. Se era esse o jogo que Jeff queria jogar, por ele tudo bem.

***

Daniel literalmente excluiu Vanessa de sua vida. Assim que chegou em casa, bloqueou a garota até em redes sociais que não tinha, só para não ter o desprazer de vê-la de novo. Dois dias tinham se passado da briga, e ele não estava mais disposto a voltar atrás. Tudo o que tinha dito não podia ser retirado — Ao invés de continuar se lamentando, preferiu tocar a vida do jeito que desse.

Saiu de casa cedo naquela quarta feira. Ian milagrosamente não perguntou nada tampouco aprontou das suas. Aliás, fazia dois dias que o primo não lhe dirigia muito a palavra, começando a incomodá-lo. Decidiu que colocariam um ponto final assim que em casa estivesse, conversando com o mais velho.

Infelizmente, contudo, um dia cheio lhe aguardava. Começando pelas tarefas escolares. O baile do dias dos namorados seria naquela noite e os alunos foram dispensados das atividades de rotina, e recolocados a organizar toda a escola para o evento.

Como só haveria aula pela manhã, o turno da tarde havia vindo para o lugar também para auxiliar. Parecia um pandemônio. Demorou até encontrar Jeff, sentado em uma carteira qualquer na sala do 3B.

— C*r*lho... Brotou gente da terra nesse lugar? — questionou Dan para o amigo, que não lhe respondeu — Ei! Jeff! Jeferson! Acorda, viadão!

— Hã? — Jeff dispersara do seu “transe”.

— Ah, tu atende por viadão?!

— Vai — A professora de Educação Artistica passara por ali, fitou-o com seu olhar reprovativo — Vai ajudar na decoração, vai! — Desconversou.

— Ajudar na decoração? Como assim?

— Lembra daqueles enfeites que fizemos com aquela variedade de materiais ? Serão usados hoje e nós e o 3A estamos responsáveis por usá-los na decoração.

— Nossa, que animador — foi sarcástico ao falar — Se soubesse nem teria vindo.

— Eu também. Não tava a fim de ver ninguém do 3A.

— Que cara tu já ajudou a chifrar, hein?

— Cala boca! Não me meto nesses rolos, não!

— Ui, que homão da p*rra ele é, né? — riu — Tá, que treta tu se meteu?

— Nada, mano, só briguei com um camarada meu por uma coisa estúpida.

— Que coisa estúpida? — a curiosidade fala alto.

— Outro dia eu te conto — desconversou novamente — O fato é que não queria dar de cara com ele.

— Talvez não. Olha a quantidade de gente que tá nessa escola hoje? Viu a quantidade de minas da tarde que são gostosas pra c*r*lho?

— Ué, teu negócio não era a tal Vanessa não?

O menor fechou a cara.

— Não me fala mais nessa p*ta.

— Mas—

— Só não fala mais, c*r*lho! Tu tem demência? — começou a se alterar.

— Tá bom. Relaxa.

— Que lindo os dois não fazendo nada, né? — Laís, a professora de Educação Artística chamou a atenção dos dois — Mas a nota vão querer. Aposto.

— Foi mau, professora — desculpou-se Jeff.

— Tudo bem. Vão lá pro ginásio decorar, afinal lá será onde a mágica acontece e não está nem um terço do planejado pra decoração.

— Pode deixar — foi a vez de Dan se manifestar.

— Quero ver produtividade ouviu, senhor Daniel? — a moça advertiu, sorrindo.

— Nossa ‘sora, valeu, pela parte que me toca — Foi sarcástico ao se dirigir a professora.

— Dê o teu melhor, hein? Tu é bem capaz que eu sei!

O garoto fez sinal positivo com a mão para a professora e seguiu seu caminho junto a Jeff rumo ao ginásio. O local não era exageradamente grande, mas certamente o suficiente para comportar os alunos que o colégio tinha. De fato, como Laís alertou, o local estava empobrecido de enfeites.

— O que a gente tem que fazer especificamente? — Dan questionou ao amigo.

— Bom... Colocar os enfeites? Ela não fez a gente fazer aquelas coisas todas pra dançar rumba com elas, né? — Jeff respondeu.

Ambos riram.

— Ei, guris! — chamou um garoto alto, cabelos ruivos, sardas no rosto e corpo definido. Adrian era seu nome — Me ajudem aqui um pouco!

— O que tu quer, Adrian? — Jeff questionou. Ele e Dan já iam em direção ao garoto.

— Preciso que um de vocês me ajudem a coloca essa p*rra de faixa em cima da porta do ginásio.

— Par ou ímpar? — Jeff sorriu.

— Tá me zoando, né?

— Par ou ímpar, c*r*lho?!

— Ímpar, c*c*te!

— Um... Dois... Três... E...

O resultado deu par.

— Sempre me f*do nessa merda mesmo — reclamou Dan, dando de ombros.

Adrian e Jeff riram. Ele subiu na escada, segurando a ponta esquerda da faixa que dizia “QUE O AMOR SE MULTIPLIQUE! FELIZ DIA DOS NAMORADOS!” bem em cima da porta. A faixa era rosa e tinha alguns emojis de beijos, corações, etc.

— Linda essa faixa, né? Pode me agradecer — uma garota alta apareceu falando.

— Sabine! — Jeff a abraçou pela cintura, assim que se aproximou — Tu tá uma gata hoje, hein?

De fato a garota estava linda. Vestia um casaco de couro marrom por cima de uma blusa preta e manta, calça legging de mesma cor da blusa e bota de cano alto. Ah sim, e seu indispensável chapéu. Sim, chapéu.

— E tu tá bem mão boba, né? Pode tirar essa mão pesada da minha cintura — revidou ela.

— Poxa... A gente tenta agradar e é assim que retribuem — Jeff fingiu tristeza.

— Tente agradar tendo mais cérebro na cabeça de cima do que na de baixo, gato.

Jeff bufou enquanto os amigos riram de sua expressão de raiva.

— Jeferson e Daniel do 3B, venham cá.

Quando ouviu seu nome, Jeff imediatamente virou na direção da voz e a vida novamente lhe deu mais motivos para ficar de cara emburrada: Viu Amanda e Alisson bem ao lado da professora. Não queria falar com o último.

— P*ta que p*riu! Por que justo hoje ela me chama lá? — questionou-se, irado.

— Qual a surpresa, queridinho dos profes? — Sabine não deixou passar — Sempre lambendo o saco de todo mundo. Claro que eles iam te amar né?

O garoto revirou os olhos.

— Vamos logo lá, seu chorão — ordenou Dan.

Os garotos deram alguns passos na direção da professora e dos alunos junto a ela.

— Continuem o que o Alisson e a Amanda estão fazendo aqui, por favor — solicitou a moça.

Dan não conhecia nenhum dos dois, mas pelo clima que sentiu ao ver Jeferson virando o rosto ainda de cara feia para o garoto que estava a sua frente lhe entregando a caixa com enfeites. Estava na cara que eles sim se conheciam. A garota de cabelos com mechas roxas pareceu notar o clima também. Lembrava-se de tê-la visto só não se lembrava de onde. Assim que o garoto entregou a caixa para Jeff, foi com a menina em direção à saída. A professora foi verificar alguns alunos que estavam agitando ao invés de trabalhar.

— Que tromba foi aquela com aquele cara ali? — o menor não pode evitar a pergunta.

— Deu uma treta ai... Mas foi burrada minha também. Outro dia eu te conto — Desconversou o outro.

— Ok — respeitou a vontade do maior, apesar de achar suspeito — Escuta, com quem tu vai vir nessa p*rra de noite?

— Quem disse que eu vou vir?

— Ué, mas eu pensei que tu e a tua mina iam—

— Isso é outra treta por culpa minha — confessava — Ela tem essa m*rda de estágio para fazer do curso dela e aí eu fico passando trabalho!

— Por isso tá tão agitado? — Dan maliciou enquanto ajeitava os demais enfeites — Geralmente tu nem fala nesses assuntos. Tava até te achando mesmo necessitado.

— A gente namora há dois anos e é a primeira vez que ela me apronta isso, mano! Que droga! Ela acha que meus hormônios se controlam?

— Já ouviu falar em masturbação? — Perguntou, sussurrando, enquanto ria.

— Isso é pra pré-adolescente que nem criou pelo ainda! Eu sou homem, c*r*lho! E também, ela vai voltar. E quando isso acontecer...

— Saquei. Entendi tudo — deduziu, zoando — A gatinha do Jeff tá no cio, tá?

— Cala boca, seu viado.

Jeff socou de leve o braço do amigo.

— Ué, tô mentindo? Fica aí dizendo pros quatro cantos que vai fazer e acontecer. Aposto que vai chegar na hora e acaba brochando.

— Ihhh, tá me estranhando rapaz?

— Ui, ela quer que eu pegue no pau dela, quer? Ai, que safada! — Dan fez uma voz mais afeminada.

Jeff revirou os olhos e jogou um pouco de confete no rosto do amigo.

— Como tu é trouxa, velho.

— Eu ser trouxa não muda o fato de você ser amigo da broderagem.

— Hilário. Presta vestibular pro circo, palhaço.

***

— Nem deu pra perceber que tu e o Jeff estão de mal, né? — alfinetou Mandy.

— Estamos mesmo. Isso é porque aquele idiota fica trapaceando e depois quer que a gente pague apostas ridículas — Al falava, sério, enquanto andava.

— Apostas? Tu parece que conheceu o Jeff ontem! Não sabe que as apostas dele são estranhas!

— Duvido que tenha alguma mais estranha que a que ele me pediu pra pagar.

— Qual foi?

Al olhou para os lados. Viu alguns alunos mais adiante. Esperou eles passarem e sussurrou para a garota.

— O Jeferson queria que eu batesse uma pra ele.

— ELE O QUÊ?!

Al de forma rápida tapou a boca da garota. Quando o grupo olhou, Al destampou a boca da menina e sorriu falso. O grupo riu e voltou a caminhar.

— Tu tá com problema de audição pra gritar desse jeito? — perguntou, bravo.

— Tu me conta uma coisa dessas com essa tranquilidade e quer o quê?!

— Amanda, foco!

— Ai tá! Desculpa!

— Continuando — disse, retornando a andar com a garota a seu lado —Ele me pediu para fazer isso. Eu neguei, porque não sou homem de batei p*nheta pra macho nenhum, e ele ficou todo raivoso.

— Gente — dizia, com o olhar de quem viu uma alma penada — Tô chocada.

— Mas, tipo... Eu estaria de boa, se ele tivesse seguido a vida. Não feito àquela cena de viado enciumado dele.

— Ele não tem namorada? Por que não pediu isso a ela?

— Eu pensei a mesma coisa, mas né. O Jeferson tem cara de gostar mesmo.

— E o que tu faria se ele gostasse?

Alisson parou de andar e fitou a amiga.

— Mas ele não gosta — frisou.

— Não foi isso que eu perguntei. Eu disse “SE” ele gostasse, como tu ia reagir?

— Mas ele NÃO gosta, caramba!

— Isso não responde a pergunta — a garota cruzou os braços, aguardando resposta.

O rapaz tinha sido pego de surpresa. Nunca lhe veio à cabeça se Jeff realmente podia ser, na pior das hipóteses, bissexual, quanto mais homossexual. Decido a não responder a pergunta, continuou indo em direção à sala do 3B deixando uma Amanda indignada para trás. Chegou lá, viu algumas garotas que olharam para ele e sorriram.

— Eu vim aqui com minha amiga buscar as outras caixas de enfeites pra levar pra professora Laís — disse, mostrando seu sorriso branco.

— São aquelas duas em cima da mesa do professor, gostoso — Uma delas falou.

Al entrou se achando a última coca cola no deserto. Amanda entrou logo em seguida atraindo olhares das mesmas garotas, que fizeram questão de criticá-la com os olhos. Não ligou, tinha coisas melhores a fazer do que ligar para a opinião de garotas escrotas como elas.

— Pega logo essas m*rdas de caixas, antes que eu avance em cima daquelas v*dias — Ordenou ela.

— Mas elas foram tão legais. Tu que tá de recalque.

— Legais contigo, né imbecil? Tu é carne nova pra elas. Tu tem aí no meio das tuas pernas o brinquedo que elas amam.

— E podem brincar a hora que elas quiserem. Ligo não — maliciou o rapaz.

— Ai, como tu é nojento!

— Ué! O Adrian tem a mesma coisa que eu, só que menor, aposto.

— Não fala dele — a garota ficou vermelha de vergonha. As garotas estavam olhando para ambos e rindo — Eu devia era cortar teu pau fora pra tu aprender a falar de maneira educada.

— Tá bom, Cris Polly. Eu vou ir pro cantinho da disciplina. Mas só se aquelas tias lá do fundo da sala me botarem nele — debochou, rindo.

A garota bufou, mas sorriu. Pegou uma das caixas e foram de volta até o ginásio. Quando estavam no meio do caminho, veio à surpresa.

— Eu não ia aceitar — respondeu.

— O quê?

— O Jeferson ser... Bom... Tu sabe...

— Gay?

— É. Isso.

— Tá certo que o Jeff exagerou um pouco, mas condenar ele por sentir desejos diferentes dos seus?

— Dá pra deixar eu terminar de falar? — pediu — Obrigado. Eu não ia aceitar. Não consigo visualizar dois caras fazendo sem me embrulhar o estômago. Mas, contanto que ele não desse em cima de mim, acho que dava pra convivermos de boa.

A garota sorriu.

— Já é alguma coisa.

Alisson sentiu seu celular vibrar, porém só conseguiu visualizar a mensagem enviada quando chegou ao ginásio. Colocou a caixa no chão e pegou rapidamente o celular. Surpreendeu-se ao ver de quem era:

“Hey, carinha! Olha só, fecha eu falar contigo hoje antes da festa da escola? Se tu aparecer, vou tá aqui na porta do ginásio mesmo. Sim, é sobre aquela tarde... Até” – Enviada por Jeferson.

Sorriu. Olhou para os lados e viu que ele não estava. Então era o por isso do envio da mensagem.

“Me espera na entrada então, seu viado do c*r*lho”

CONTINUA