A Teoria das Cores
7 Laranja I
ENERGIA
— Eu ainda acho que tá faltando alguma coisa naquela parede ali — Comentou Laís, a professora de Educação Artística.
— ‘Sora, não leva a mal não, mas essa parede aí já está entupida de coisa! Olha só mano, a quantidade de coisa que tem! — exclamava Dan.
Ele, Sabine, Jeff e Adrian ajudavam a professora a achar pontos que não houvessem sido decorados. Contudo, o local já estava bem enfeitado, nem necessidade de mais.
— Desculpem, guris — dizia ela, com um brilho no olhar — É que é o primeiro ano em que convencemos a diretoria e o conselho a fazer uma festa de dias dos namorados. Então, tô bastante ansiosa.
— Relaxa, ‘sora — tranquilizava Sabine — Tenho certeza que essa festa vai bombar.
A mulher sorriu em retribuição.
— Bem, pessoal, acho que o ginásio já foi bem decorado. Os corredores, como estão?
— Achei que o pessoal do 3A tava cuidando disso, não? — perguntou Adrian.
— Sim, mas na verdade os dois terceiros anos são responsáveis pela decoração. Então passeiem pelos corredores e ajudem eles.
— Ah! Fala sério! A manhã toda vai ser isso? — lamentou Dan — Mas olha o tanto de coisas que já fizemos!
— Se tu acha por uma faixa no lugar e meia dúzia de enfeites numa parede muita coisa, imagina o que não é então, né? — rebateu Sabine.
O rapaz revirou os olhos.
— Vamos logo com isso — aceitou, por fim
— Cadê o Jeferson? — questionou a loira.
— Tá ali perto do roteador do ginásio — respondeu Adrian.
— ‘Pera que eu vou chamar ele — afirmou Dan indo em direção ao garoto.
Enquanto caminhava, se pegava observando a decoração que os alunos estavam concluindo, já que havia muito a ser feito em pouco tempo e todos queriam que a festa fosse proveitosa e memorável. Não pôde deixar de lembrar-se de Vanessa e de como queria que ela fosse consigo ao baile. Lembrava-se dos planos que tinha feito, de quantas vezes brincaram juntos como duas crianças no famoso labirinto verde, da tarde que passaram comendo brigadeiro de panela... Lembranças, que nem seu ódio pelos fatos que sucederam tudo isso conseguiriam esquecer.
— Vamos lá que temos coisas pra fazer ainda, Jeff — falou, dispersando de seus pensamentos.
— Ah tá. Deixa só enviar a mensagem aqui.
— Que mensagem?
— Acho que foi muita burrice brigar com o cara aquele que tu viu. Tô mandando mensagem pra ver se ele quer trocar uma ideia.
— Hum. Faz isso. Conhecendo ele, quais as chances dele aceitar conversar?
— Sinceramente, não sei — Jeff falou, sincero — Não sei o que deu em mim aquela tarde...
— Que tarde? — Dan começou a estranhar aquele comportamento.
— Hãn? Como assim? — Jeff tentou desconversar — Pronto. Enviou. ‘Bora?
Dan o segurou pelo braço.
— Jeff, não me enrola. Como assim “Não sei o que deu em mim aquela tarde”?
— Não sei do que tu tá falando, meu.
— Cara, se tu não me contar eu vou começar a achar que tu e ele—
— Credo, velho! Que nojo! — Jeff não gostou muito do comentário do outro.
— Tu quer que eu pense o quê?! Fica aí fazendo c* doce! Se não fosse algo desse tipo, tu não ia esconder!
— P*rra, nada haver! — Jeff mentia — Eu só tô achando que ele tá pegando a minha mina, só isso.
— Sei... — Dan ainda estava desconfiado — E ai tu quis tirar satisfações? É isso?
— É. Só que, tipo, eu tava meio esquentado no dia e acabei fazendo m*rda, como sempre.
— Bom... Tu vai resolver isso hoje, não vai?
— Vou...
— Então, cara! Para de drama e vamos logo ajeitar a p*rra dessa escola.
— Tá certo — Jeff sorriu.
O problema é que Dan não tinha acreditado tanto assim na versão do amigo. Ele demonstrou tanto nervosismo ao se referir aquela tarde...
***
A manhã e tarde passou como um foguete. Alisson estava sorridente, já que iria festa. Sem companhia, mas pelo menos por uma noite iria ter algo para se distrair.
— Tem certeza que não terão drogas nessa festa? — gritava a mãe, do próprio quarto. Estava passando a roupa de Al.
— É uma festa na escola, mãe! — respondeu no mesmo tom, para que a mulher ouvisse — Como terão drogas?
Al estava andando só de roupas intimas por seu quarto. Deitou-se em sua cama e ficou mexendo em seu celular. O horário marcava 19h30min. Estava relativamente cedo. Combinou se encontrar com Jeff as 20h00min em ponto.
— Vocês acham que nós, pais, nunca tivemos a idade de vocês, né? — disse, entrando no quarto do filho e colocando a roupa em cima de sua cama.
— Tiveram, mas na pré-história — brincou.
A mãe deu um tapa na perna do filho.
— Vai botar logo essa roupa que isso não é casa de show pra ficar de cueca — advertiu, sorrindo.
— Ué, mas tô no meu quarto — fingiu chateação.
— Verdade, com a porta aberta — Um ponto para Marisa (Mãe de Al) — Se veste logo pra eu te levar nesse baile.
— Não é baile, é uma festa.
— Ai, baile e festa é praticamente a mesma coisa! Rola a mesma pegação, só que num é todo romântico e no outro é mais descarado — dois pontos para Marisa — Tô te esperando lá em baixo — finalizou.
Alisson riu da mãe. Apesar de fazer mil e um questionamentos na volta pra casa quando o garoto vai a festas ou sai à noite, amava seu senso de humor. Terminou de se arrumar e desceu até a sala. Usava uma camisa polo branca por cima de um blusão de lã e um casaco grosso, calça jeans azul fraca e um tênis de marca. Passou um perfume que deixava com um certo êxtase quem lhe sentia.
— Como meu guri é bem cheiroso! —elogiou — Camisa polo branca? Sério?
— Qual o problema? — questionou, sem entender.
— Vai ficar marcada de suor e as gurias vão correr de ti, esse é o problema.
— Pra isso inventaram o desodorante, mãe.
— Que bom que tu lembra que ele existe pelo menos quando sai, né? Porque aquele seu quarto parece que fizeram uma chacina de gambás lá dentro. Tava quase chamando o IBAMA já pra averiguar.
O garoto riu.
— Prometo que vou arrumar o quarto amanhã.
— E vai chover porcos também? Alisson, Alisson! Olha as responsabilidades!
— Podemos ir? Já é tarde — desconversou.
A mãe suspirou e foram até o carro. Poderiam ir de a pé, mas como a mulher preferia não arriscar nem sua vida nem de seu único filho, achou mais seguro ir de automóvel.
— Sabe que é ridículo ir de carro sendo que a escola não é tão longe, né? — comentou.
— Se quer morrer, pula na frente de um trem. Agora não me envolva nisso — a mãe respondeu.
— Que drama...
— O que tu chama de drama, eu chamo de preocupação.
— Tá bom, tá bom — finalizou Al.
Não deu dez minutos já estavam na porta do colégio.
— É a primeira vez desde que comecei nessa p*rra que estou animado pra entrar ai. AI! — Al levou um tapa na nuca.
— Isso é pra aprender a não falar palavrão! — Marisa chamou a atenção — E olha aqui, experimenta chegar em casa drogado, pra tu ver se não quebro um tijolo em ti!
— Credo! Que violência! — reclamou o rapaz — Não sou drogado, fica tranquila. Mas beber já é outra conversa.
— É... Mas se vomitar tu é quem vai limpar!
— Nossa, tem como essa conversa ficar mais nojenta?!
— Só chega vivo em casa, ok? — pediu, passando a mão no cabelo do filho.
— Fica fria. Eu vou chegar.
E assim foi, animado com a noite. O prédio da escola estava sendo iluminado com luzes LED em diferentes cores. Havia também um tapete vermelho na entrada da escola e um garoto vestido de coração pegando os convites. Al congelou. Não se lembrava de nenhum convite.
— Se não sou eu, tu nem lembra — Al se virou e deu de cara com a mãe e o convite. Parecia que ela tinha lido sua mente.
— Valeu — deu um abraço rápido na mãe.
A mulher deu um beijo e de forma rápida foi correndo até seu carro, pois causou um verdadeiro congestionamento na avenida, já que seu carro estava na diagonal e ela saiu correndo para entregar o convite ao filho.
Enquanto isso Al continuou indo em direção a porta.
— Denis? — questionou — Tu é o coração dos convites?
— Uma risadinha e eu chuto teu saco, tô avisando — alertou, sério — Isso é o resultado de tirar nota baixa em Educação Artística e não ter companhia pra essa b*sta.
— Como é?! Essa cena patética é pra recuperar nota?! P*ta merda — zoou, segurando riso.
— Tenho que ficar aqui até o final da festa, e se tu quer ter filhos acho bom tu me entregar esse convite e entrar.
— Tá bom, tá bom — Al não conseguiu segurar por muito tempo e acabou rindo. Denis apenas revirou os olhos e atendeu os colegas que estavam atrás dele.
O garoto foi passando pelos corredores e admirando o trabalho que sua turma e o 3B tinham feito. Realmente tinham jeito para a coisa. Muitas fotos de casais do colégio, dos companheiros dos professores e até ex-alunos recheavam as paredes do local, além de emojis românticos e cartazes de felicitações pela aquela data. Passou pelo pátio interno da escola e viu que alguns adolescentes já estavam a se agarrar descaradamente no lugar. Em dias normais, seria proibido, mas como era uma ocasião especial não havia ninguém para reprendê-los. Nessas horas é que sentia falta de uma namorada. Seria bom ter alguém com pontos em comum para compartilhar momentos como aquele...
— Olha, se não é o gostoso que vi hoje cedo — A garota que falou com Al quando ele foi a sala do 3B apareceu, aparentando estar bem animada.
— Tu é aquela gata do 3B? — questionou, com um sorriso malicioso.
— Amora — respondeu, mordendo o canto dos lábios — Me chamo Amora.
— Amora... Hum... — Al foi se aproximando e colocando sua mão na cintura da garota — Amo comer amora sabia?
— Jura? — a outra foi chegando perto do ouvido dele e sussurrou — Pois eu amo comer bananas. E eu vou a-do-rar se tu me der uma hoje.
— Vamos fazer um coquetel de frutas, o que acha? — Al também sussurrou no ouvido dela sorrindo — Tu leva a amora e eu levo banana. O que acha?
— Perfeito — A garota riu, maliciosa — Não vai me convidar pra ser teu par?
— Veio sozinha?
— Vim livre, gatão — Amora foi se aproximando do rosto do rapaz — Vim livre.
Amora colocou os braços por cima dos ombros de Al e o puxou para um beijo. Um beijo ardente que durou alguns segundos. Al sentiu algo entre suas pernas dar sinal de vida e sorriu com isso. Achou engraçado: Nunca tinha trocado uma palavra com a garota e agora lá estava ele a agarrando.
— Vamos? — perguntou ela, no término do beijo.
—'Bora — Al sorria.
Foi chegando à porta do ginásio viu Jeff o esperando. Tinha esquecido totalmente do compromisso, então olhou o relógio e agradeceu: Eram 19h50min. Não tinha atrasado, Jeff que chegou cedo. O rapaz estava mexendo no celular. Por que nenhuma noite em sua vida conseguia ser plenamente perfeita? Só se perguntava isso.
— Tu pode ir pegando alguma coisa pra gente beber? Tenho uns assuntos pra resolver com meu parceiro ali.
— O Jeff? — Amora olhou na direção que os olhos de Al foram — Ah tá. Vou pegar sim. Só não demora, hein.
— Pode deixar. Pretendo ser rápido.
Sorriu e entrou no ginásio. Al então foi se aproximando de Jeff, assustando-o com sua chegada.
— P*rra — reclamou — Custa dar um sinal que tá chegando? Quer me matar?!
— Foi mal — respondeu o menor, debochado.
— Veio com alguém?
— Não, mas já arranjei sem nem precisar fazer muito além de usar meu charme.
— Quem?
— Amora. É tua colega.
— Hum... Sei quem é. Ela é gostosa, mano. Parabéns.
— Valeu — Al não queria ficar enrolando mais naquela conversa — Tu disse que queria falar comigo sobre aquela tarde.
— É, mano — parecia constrangido. Coçava a nuca e procurava escolher as palavras — Não devia ter te forçado a pagar a aposta. Foi mal mesmo.
— De boa — Disse, sério — Mas, me responde um coisa: Tu realmente queria que eu... Bem... Ah! F*da-se! Tu queria que eu batesse p*nheta pra ti mesmo?
Jeferson ficou vermelho como um pimentão.
— S-sim — respondeu, desconfortável. Sua sorte que não havia ninguém notado — Mas não são pelos motivos que tu tá pensando.
— E quais motivos levam um cara que gosta de mulher a querer que um macho pegue no pau dele e o estimule? — pressionou. Jeff não sabia mais onde se enfiar.
— N-não, velho. Eu até queria, mas não é porque tu é homem. Cara, eu to desesperado, entende? Não consigo marcar com a minha garota pra gente fazer saca? Ai, num ato de desespero, me apeguei na primeira oportunidade de toque que encontrei. E como fizemos aquela aposta...
— Hum...
— Tu acredita em mim?
— Eu não sei cara. Tipo, sério mesmo. Não sei.
— Como não sabe? Quando tu me viu em algum canto me escondendo com algum dos caras ou com algum outro guri que fosse?
— Nunca, mas sei lá velho. Não sei como cabeça de viado funciona.
— Eu não sou viado, p*rra! Que c*r*lho! Quer que eu grave um vídeo pornô com minha namorada pra te provar o quanto sou macho?!
— Calma aí, Jeff — notou que realmente o outro estava ficando alterado — Foi mal. Não queria te ofender. É só que eu fui pego de surpresa...
Jeff suspirou e passou as mãos pelo rosto.
— Desculpa aí... De novo — lamentava — Só não duvida da minha masculinidade de novo, não do jeito que tu fez agora pelo menos. E nem espalha esse acidente meu pra ninguém.
— A Mandy sabe — Al confessou.
— O QUÊ? TU CONTOU PRA ELA?! — O outro voltou a ficar desesperado.
— EI! Se aquieta que ela não espalhou pra ninguém não! — tapou a boca do maior — Então, se tu ficar quieto e não agir como uma garota menstruada, talvez ninguém mais saiba.
— Ai, cara... Tá, que seja — concluía — Estamos acertados?
— Sim — Al sorriu e apertou a mão do amigo — Agora vou entrar que a Ameixa tá me esperando.
— Amora, Al — Jeff alertou o amigo —É Amora.
— Ah... É — Disse, rindo — Tu não vai entrar?
— Vou depois. Isso nem começou direito.
— Tudo bem.
E lá se foi Al feliz. Agora com os assuntos pendentes encerrados poderia curtir a noite sem maiores preocupações.
***
Daniel não estava com animação para nada naquele dia. O trabalho tinha sido exaustivo, ouviu xingão da tia por qualquer ‘ai’ já que ela estava naqueles dias enquanto o tio tentava acalmá-la, o primo que resolveu lhe ignorar por algum motivo desconhecido, a namorada perfeita que deixou pra trás por culpa do preconceito... Tudo isso contribuía para sua imensa vontade de ficar deitado comendo pizza e olhando filmes na internet. Sentiu o seu celular vibrar enquanto estava deitado em sua cama olhando para o teto.
“Tu vai vir pra festa? Tá todo mundo esperando, trata de aparecer!” – Enviado por Sabine.
Não sabia e nem queria responder nada para a garota naquele momento. Olhou o relógio: 19h30min. Achava cedo. Queria no momento ir conversar com o primo e resolver essa situação. Levantou-se e foi em direção ao quarto dele. Ficava a poucos metros do seu. Bateu na porta do quarto, e não obteve resposta. Aguardou uns segundos e bateu novamente. Assim que se abriu a porta, Dan notou a aparência desleixada do primo: Estava com a barba por fazer, cabelos muito bagunçados e olheiras profundas. Isso deixou o mais novo preocupado.
— O que tu quer? — Ian perguntou, seco. Seus lindos olhos cor do mar pareciam ter sido invadidos por uma nuvem tempestuosa.
— Queria conversar contigo — Dan foi direto.
— Sobre?
— Dá pra eu entrar?
O mais velho suspirou.
— Tá... Entra — disse, voltando para a cama.
Daniel entrou no quarto que no momento era iluminado apenas pela luz que vinha do corredor. O lugar estava uma zona: Livros, cadernos, roupas limpas misturadas com sujas... Um caos enfim. O menor retirou a montanha de roupas que havia em cima da única cadeira do quarto e colocou em cima da cama do mais velho. Ficaram em silêncio por alguns instantes, porém não se encaravam. Dan notou que o primo estava usando seu pijama: Uma camiseta regata azul marinho com um calção que dava um certo charme a suas pernas pouco musculosas.
— Seja rápido — Ian ordenou, impaciente.
— Quero saber porque tretou comigo.
— Como assim? Do que tu ta falando?
— De tu ficar me olhando com essa cara de bunda sendo que não te fiz nada.
— Ah, quando era tu comigo podia, né?!
— Esquece isso e fala. Tô preocupado contigo. Tu é meu primo.
— Não, não vou esquecer, Daniel. Tu é tri ignorante com os outros, e quando é contigo tu quer que te tratem bem.
— Fala logo, seu trouxa! — também começou a perder a paciência.
— Não quero, c*r*lho! — respondeu o maior no mesmo tom.
— Beleza, então.
O menor foi até a porta quando ouviu:
— Meus pais não vão mais conseguir pagar meu curso — Ian revelou, com voz chorosa.
— O quê?! — virou e encarou o primo — Que história é essa?
— De uma maneira bem simples de explicar: Meus pais estão fazendo contenção de despesas. O curso tá caro pra eles bancar sem eu arranjar um emprego.
— Eu te falei isso quando tu veio pra cá: “Arranja um emprego pra folgar um pouco teus pais” e tu não me ouviu — Lembrava Dan — Por que não tenta arranjar um trampo?
— Cara, eu não tenho experiência em quase nada — reclamava — É difícil conseguir emprego bom sem diploma e experiência...
— Sim, porque tu quer começar como acionista do Google direto ao invés de começar pequeno e ir conquistando teu espaço.
— Não é por isso. É difícil pra c*r*lho.
— Então aceita que vai sair da faculdade que dói menos.
— Ai, velho — Ian passava as mãos pelo rosto. Estava realmente aflito, como em poucas vezes na vida — Digamos que eu arranje um trampo. Quem disse que vai cobrir as despesas da faculdade?
— Racha com o teus pais né, bocó. Isso já vai ajudar um monte.
Ian ficou pensativo por alguns minutos. De fato a solução para tudo seria um emprego.
— Tem ideia de onde eu possa trabalhar? — ficou um pouco mais animado.
— Cara, pior que não. Não tô procurando emprego. Tô bem lá na padaria com meus tios.
— Será que não rola eu trabalhar lá?
— Podia ser, mas é pequeno o salário. Tu precisa de... Tipo... Uns mil reais pra se equilibrar, eu acho.
— Onde eu vou arranjar um trampo que me pague essa quantia?
— Já conheceu uma invenção chamada internet? — Perguntou, debochado — Pesquisa aí alguma coisa, ou sai entregando currículo. Emprego ainda não cai do céu.
— É. Tu tem razão — Ian levantou e estendeu a mão — Tava precisando de um choque de realidade mesmo — sorriu.
— De nada — Dan apertou a mão do primo, que o puxou para um abraço.
Ian, malicioso, foi descendo suas mãos até o traseiro do primo.
— Que firme tua comissão traseira hein, Dan — disse, rindo — Dá vontade de apalpar o resto da vida. Melhor que de muita mina por ai.
— Já vi que tá melhor né, seu bundão?! — respondeu Dan, se afastando.
— Valeu por ter vindo aqui e se preocupado. Significa muito.
— De nada, mas p*ta que p*riu! Vai tomar um banho cara que a coisa tá feia.
Novamente o mais velho riu.
— Isso é cheiro de macho — justificou.
— Sei... A Expointer cheira melhor que isso aqui.
— Sai daqui, mãe.
Dan riu. Os olhos do primo já não estavam mais aquele céu nublado. Torcia para que tudo começasse a melhorar. Foi até seu quarto e pegou seu celular. O visor mostrava uma mensagem de Jeff, avisara que mudou de ideia e foi até a tal festa. Começou a pensar se não seria interessante ir ao local. Precisava esquecer Vanessa, não? E não havia oportunidade melhor. Correu apressado até sua mochila e viu os dois convites, já que em seus planos, levaria a namorada. Encarou aquele par de convites com pesar.
“Será?” Se perguntava “Meu, f*da-se. Vou ir nessa m*rda e curtir. Aquela idiota não merece que eu sofra por ela”
— MÃE! — gritou ele.
— O QUE, GURI? — A mulher perguntou.
— EU VOU NA FESTA DOS NAMORADOS DA ESCOLA COM O IAN!
— COMO É QUE É?! — o primo ficou pasmo — QUE HISTÓRIA É ESSA?!
— DEIXA EU IR OU NÃO? — Dan ignorou a pergunta do primo.
— VAI, NÉ?! QUERO SÓ VER. SE ME ARRANJAR NETOS VAI ME PAGAR! SOU MUITO NOVA PRA SER AVÓ! — A mulher dizia.
— BELEZA!
— NINGUÉM PERGUNTA SE EU QUERO IR? — Ian estava indignado.
Dan nem ligou. Foi até o guarda roupa e tirou de lá uma camiseta vermelha, dois blusões de lã, um casaco, uma calça jeans preta, cueca Box vermelha e meias. O tênis seria o primeiro que encontrasse. Levou tudo para o banheiro e se lavou o mais rápido que pode. Ficou cerca de três minutos no banho, um verdadeiro recorde pessoal. Vestiu-se e encarou o espelho. Pensou em dar pentear os cabelos, mas achou que o estilo mais despojado fazia mais seu tipo.
— Tu quer mesmo que eu ver nesse troço? — questionou o primo, assim que o mais novo saiu do banheiro.
— Sim, oras. Não quer sair um pouco? — rebateu.
— Do que adianta se as minas de lá são tudo menores de idade? Além do mais, tem que tomar banho e eu tô com preguiça...
— Muito que elas se importam se tu é maior de idade ou não. Pras minas isso é até excitante, se tu quer saber.
— Por isso que elas não ficam contigo — riu.
— Vai tomar banho, anda — retrucou o mais novo mostrando o dedo médio.
Quando Ian terminou de se arrumar eram 20h20min. O garoto realmente gostava de se exibir e não economizava na vaidade quando ia para algum lugar. O pai de Daniel, Bruno, levou os dois de carro até a escola com medo da violência. Assim que chegaram na porta lá estava Denis e sua fantasia de coração.
— Denis? — Dan ficou surpreso — Tu é o coração dos convites?
— Cara, tu deve ser a milésima pessoa que me diz isso hoje — estava com cara de poucos amigos — Bem curiosa tua namorada né? Quem vê diz que é um homem.
— É meu primo, seu retardado.
— Eu sei trouxa. Fala, Ian.
— E aí, coração — o referido fez sinal positivo.
— Muitas gatinhas hoje? — Dan perguntou animado.
— Sim, mas a maioria veio acompanhada. Se bem que tem umas solteiras que... — Denis mostrou um sorriso malicioso.
— Opa — Ian começou a se animar — Já é!
— Olha a pedofilia, hein?!
Os rapazes riram e seguiram até o ginásio. Queriam que aquela noite fosse a noite...
***
23h15min. A festa no colégio Presidente Lincoln estava animada. Canhões de luzes foram colocados dando um ar de danceteria ao local. Maquinas de fumaça ajudaram a criar o clima de festa. Os alunos curtiam cada minuto ali, afinal não era um baile tedioso de namorados, onde se passa a maior parte do tempo agarrado à outra pessoa enquanto. Ali era uma festa onde jovens se divertiam e dançavam muito.
Alisson já tinha beijado a tal Amora tantas vezes que ele nem podia contar. Ficara se agarrando com ela, falando coisas obscenas em seu ouvido enquanto a outra fingia gemer, deixando o clima ainda mais quente. Estavam em um dos sofás para festa alugados pela escola para o evento. Beijavam-se como se não houvesse amanhã.
— Sabe — começou ela, durante a folga de um dos beijos — Tu tá batendo o recorde de tempo como meu ficante em festas sabia?
— Tu também — Al ria, enquanto comentava — Com essa animação toda que tu tem, fica difícil não gamar.
— Então, aqui vai uma dica — a garota do cabelo ruivo escuro chegou perto de seu ouvido e sussurrou — Não gama não. Tu é a única coisa na minha cabeça agora. Amanhã já não será mais.
O garoto sorriu e voltou a beijar a garota linda a sua frente. Era esse tipo de garota que ele gostava: Uma desapegada de sentimentos e bobagens românticas, uma que o quisesse no momento. Não era um rapaz ruim, por algumas vezes ficou chateado de ficar com garotas que juravam ter sentimentos puros por ele para no outro dia não querer mais nada. Sempre fora honesto com elas, afirmando com convicção que seria só uma vez e que depois seguissem suas vidas. Elas sempre aceitavam. E sempre insistiam depois.
— Tu vai ficar só me provocando ou vai começar em prática as coisas que ficou me dizendo? — questionou a garota, após mais um beijo ardente.
— Eu posso botar em prática, sim. Mas tu tem certeza que não vai ficar me chateando depois? Eu só quero me divertir. Se tu quiser algo sério, paramos por-
— Gato — A outra o interrompeu colocando o dedo indicador em seus lábios — Vê se eu tenho cara de protagonista de novela das nove pra ficar chorando por amor?! Tu quer diversão? Eu quero em dobro.
— Vamos, então, conheço um lugar perfeito para—
Do nada, o “casal” viu um garoto cair bem à frente deles.
— NÃO MEXE COM A MINHA MINA, FALOU?! — gritou um rapaz, a frente deste. Tudo indicava que ele tinha o empurrado o que estava no chão.
— ELA DISSE QUE ERA SOLTEIRA! — um garoto, que estava no chão, se levantou e começou a se justificar.
— EU SOU SOLTEIRA! — a garota pivô da discussão apareceu — ESSE IDIOTA AQUI ME DISPENSOU!
— DISPENSEI?! — o suposto namorado parecia realmente indignado — TU QUE VEIO COM AQUELE PAPO DE-
—EI! — De repente veio o vice-diretor para intervir — Estão pensando que isso aqui é a casa da sogra? Mais um “ai” e suspendo vocês!
O suposto namorado bufou. Al se recordava de já tê-lo visto, provavelmente a escola.
— Vem, Vanessa — ele disse, pegando-a pelo braço — Vamos conversar lá fora.
— Me solta que eu não sou NADA tua para ficar me dando ordens! — a outra rebateu.
— VEM! AGORA! — soltou o braço da garota, mas ainda sim foi autoritário.
A tal Vanessa bufou, porém foi com o garoto para o lado de fora. O garoto empurrado só levantou e foi para o lado oposto do tal casal, com os olhares de alguns colegas. Amora e Alisson se olharam e começaram a rir.
— Tá vendo por que eu não namoro? — dizia ela, entre os risos — Olha que ceninha patética.
— Nossa, velho, nem fala — o outro também tentava se controlar.
— Bem, onde estávamos?
— Eu ia te levar pra te mostrar meus truques — respondeu, malicioso.
— Humm. E o que está esperando? Outro casal vir aqui querer holofote?
— Vamos.
Alisson pegou a garota ruiva pela mão e foi indo com ela em direção à saída. Iria ir para sua casa com ela, torcendo para mãe já ter dormido. De qualquer forma, esperariam ela dormir e fariam o que tinha que ser feito. O que importava era que a noite prometia...
***
Quando chegou ao local, horas antes, Daniel tinha até se arrependido um pouco de ter vindo. Sentia que talvez ainda não fosse hora perfeita para começar a farrear de novo. Conforme as batidas das músicas foram invadindo sua mente e o primo também foi o incentivando a se soltar, começou enfim a apreciar o êxtase que aquele momento estava a lhe proporcionar. Sabine até ficou surpresa de ver o rapaz ali, já que o mesmo não respondeu sua mensagem dizendo se iria ou não vir.
Porém agora, as vinte e três horas, a situação era outra: Dan dançava com animação e descontração. Por algumas vez se sentou um pouco, sempre com a loira ao seu lado. O rosto de Ian, seu primo, sumiu na multidão. Era quase certo que estava agarrando uma das colegiais que lhe interessava.
— Quem será que foi a vítima do teu primo? — A garota perguntou a Dan.
— Sei lá — deu de ombros — Qualquer uma que queira pegar um cara da faculdade, talvez...
— Quem não quer isso? — Sabine sorria.
— Tu, senão teria ido atrás dele.
— Ian é legal, mas não faz meu estilo.
— E quem faz teu estilo?
— Ai, nem sei — ajeitou o cabelo — Não sei nem o que eu quero fazer quando ser adulta, quanto mais que tipo de guri eu gosto.
— Devo entender isso como...
— Como o que, louco?
— Se nenhum guri te atrai, só pode significar que...
— Como tu é otário, Daniel — reprendeu-o, sorrindo — Se eu fosse lésbica, certamente teria arranjado uma garota pra mim, já que teve algumas que me pediram.
— E como tu reagiu? — roto ficou curioso.
— Reagi normal, ué. Disse que fiquei agradecida, mas que não gosto de garotas. Só.
— Nada mais?
— Nada. Por quê? Tu queria que eu gritasse e fizesse um escândalo? Por favor, cara! século XXI! Ninguém mais devia se importar.
O garoto ficou vermelho. Certamente se Sabine soubesse como tratou Vanessa, ela lhe tiraria o couro. Um silêncio entre os dois se criou, até que a garota o quebrou:
— E a namorada?
Parece que ela adivinhara seus pensamentos.
— A gente meio que terminou — limitou-se a responder.
— Como uma pessoa “meio que termina”?
— Estamos brigados e não sei se vai ter volta.
— Por quê?
— Porque ela... Ela me sacaneou legal. Por isso — falou.
Sabine levou sua mão até a de Dan e a segurou.
— Precisar conversar, estamos aí — tinha um sorriso tímido acompanhando seus lábios.
Daniel ficou branco como uma folha de papel. Era impressão ou estava sendo cantado?
— Bine — A chamou pelo apelido — E-eu a recém briguei com a Vanessa. Gostava muito dela. Então...
— Eu sei. Por isso disse que tô aqui pra te apoiar.
— S-sim, eu entendi, mas...
— Mas o quê? — chegou um pouco mais perto.
Daniel desviou seu olhar para outra direção tentando focar em outra coisa, porém antes não tivesse o feito. Num canto mais afastado de onde estava, viu perfeitamente Vanessa agarrada com um garoto que desconhecia. Sentiu seus punhos arderem de raiva. Como ela estava fazendo aquilo, enquanto ele ainda sofria por ter tomado um decisão tão drástica? Levantou, deixando Sabine para trás, e foi indo empurrando quem quer que fosse para sair de seu caminho em direção a ex namorada. Assim que chegou perto, pegou o garoto pelo casaco e o jogou com força no chão perto de um sofá onde estavam um rapaz e uma garota ruiva trocando carícias.
— NÃO MEXE COM A MINHA MINA, FALOU?! — gritou Dan.
— ELA DISSE QUE ERA SOLTEIRA! — O garoto que estava no chão se levantou e começou a se justificar.
— EU SOU SOLTEIRA! — Vanessa se intrometeu — ESSE IDIOTA AQUI ME DISPENSOU!
— DISPENSEI?! — Daniel ficou indignado — TU QUE VEIO COM AQUELE PAPO DE-
—EI! — de repente, veio o vice-diretor para intervir — Estão pensando que isso aqui é a casa da sogra? Mais um ai e suspendo vocês!
Dan bufou. Olhou na direção do casal rapidamente e reconheceu Amora, o rapaz devia ser alguém do colégio já que tinha o visto antes.
— Vem, Vanessa — disse, pegando-a pelo braço — Vamos conversar lá fora.
— Me solta que eu não sou NADA tua pra ficar me dando ordens! — a outra rebateu.
— VEM! AGORA! — soltou o braço da garota, mas ainda sim foi autoritário.
Vanessa bufou, mas foi com o garoto para o lado de fora. O garoto empurrado só levantou e foi para o lado oposto do tal casal, com os olhares de alguns colegas.
— Quer me explicar o que era aquilo? — perguntou, sem cerimônias.
— Tu é quem tem me explicar! Qual é a tua hein?! — a garota rebateu.
— Terminamos tem DOIS DIAS e tu já tá se esfregando com macho por ai!
— Exatamente, Daniel. TER-MI-NA-MOS! Não tenho mais nada contigo.
— Aposto que ele nem sabe do seu segredinho né?
— É claro que sabe — disse, verdadeiramente — O único que não sabia ainda era tu, seu idiota, porque eu queria ter certeza que me aceitaria primeiro. Mas cometi um erro.
O garoto bufou.
— E por que ele aceitou ficar contigo então?
— Porque ele só quer diversão Daniel, só isso. E eu também só quero isso, pra ver se eu esqueço a infelicidade de ter tido um namoro com um cara machista e preconceituoso como tu!
— Tu tá falando como se eu também não tivesse sofrendo né? Caramba Van, eu tinha sonhos, eu tinha planos e tudo foi tirado de mim—
— Porque tu quis — Ela o interrompeu — Não te forcei a terminar. Pelo contrário, queria que a gente tivesse salvação. Mas não temos.
O garoto sentiu como se seu coração tivesse sido esmagado por um martelo.
— Só... Só me dá um tempo pra pensar, c*r*lho — pediu.
A garota pensou um pouco antes de responder.
— Tá — disse, seca — Eu não vou esperar pra sempre. Tem até sexta pra me dizer a resposta.
— Sexta? É pouco tempo pra—
— Até sexta! — Frisou, indo em direção a saída.
Daniel tinha a faca e o queijo em suas mãos. O que faria com eles?
CONTINUA
Fale com o autor