A Teoria das Cores
90 Laranja VII
CORAGEM
(Protagonista secundária: Amanda)
A espera do aniversário de Jeferson havia, finalmente, encontrado sua conclusão. Depois de semanas e dezenas de mensagens falando sobre, o grande dia chegara e com o adendo de outras cem milhões de providências a serem tomadas. Amanda sequer sabia para qual lado correr primeiro ao sair da escola: se para seu trabalho de menor aprendiz ou ao shopping dar uma repaginada no visual, a fim de chegar deslumbrante ao ‘Wunder Bar’ mais tarde. Para não passar por irresponsável, optou pelo primeiro, marcando então ao fim da tarde a arrumação.
Surpresa foi notar a mensagem de Sabine enquanto caminhava a loja onde trabalhava, justamente inteirando sobre a possibilidade de irem juntas ao shopping. Confirmou na hora, já que estava mesmo dentro de seus planos, além de que a loira ditava tendências como ninguém. Poderiam se ajudar e ter diversão ao mesmo tempo, facilitando muito as coisas. Entusiasmava-se com a festa, não com seus preparos. Fazia-os por cordialidade, ossos do ofício. Até porque havia feito um suspense digno de receber Oscar ao namorado sobre sua produção. Alguma coisa precisava fazer para não pagar mico.
Quando deu 17h10min, fim de seu expediente, correu na velocidade da luz até a praça de alimentação ao encontro da amiga. Sabia que ela a estrangulava caso precisasse esperar além do necessário. Viu-a frente a um quiosque de sorvete, sentindo um arrepio na espinha com a cena. Questionada, a loira justificou que era mais gostoso comer no inverno do que no verão, justamente pelo estranho ar da ação. Riu-se. Tinha suas manias suspeitas, afinal, não podia condená-la.
Reviraram, em seguida, o shopping, na esperança de encontrarem algo legal e em conta. Nada, no entanto, chamou-lhes atenção, ao menos não ao ponto de quererem usar por uma noite inteira. Saíram de lá partindo direto até o centro de Nova Petrópolis, observando até as vitrines mais escondidas em meio a grandes grifes. Conseguiram achar algumas blusinhas interessantes em algumas.
O preço, para seu desgosto, eram o preço de um rim no mercado de contrabando internacional de órgãos. A loira, revirando os olhos do tempo gasto, queria levar de lá mesmo, sendo impedida por Amanda e sua garantia de terem preços mais em conta.
Ao chegarem próximas a rua principal do centro de Nova Petrópolis, uma surpresa: os olhos de Sabine encontraram Vanessa em uma das lojas, para ao caixa, aguardando enquanto suas compras passando ao caixa. Por cortesia, a affair de Jeferson se dignou a ir em sua direção enquanto chamava seu nome. Van, claro, espantou-se alegremente em vê-la.
Amanda se aproximou em seguida, sendo apresentada de maneira formal depois de meses no suspense imaginando como seria a ex de Daniel. Seu rosto quase caiu no chão, afinal de contas era uma moça de beleza ímpar. Seu olhar tranquilo e generosos atraía muito, entendendo porque Dan deveria ter amado-a por tanto tempo. Não pôde deixar de se sentir contente pela feliz coincidência.
— Curtindo a tarde para aquela repaginada? — perguntou Vanessa, enquanto a moça do caixa lhe entregava as compras e encerrava o pagamento.
— Sim, mas por razões mais específicas — Mandy redarguiu — Temos aniversário hoje.
— Gente! Que máximo! Quem tá completando mais uma primavera?!
— Jeferson. Não sei se lembra dele — Sabine comentou.
— Nos encontramos algumas vezes, sim. Poxa, que bacana! Mandem lembranças a ele.
— Quem sabe tu mesma não manda? — Mandy sugeria — Fica muito ruim tu dar uma passada no aniver hoje? Acho que a galera vai gostar de te ver e tudo mais.
— Olha, até posso dar uma passadinha, sim. Mas acho que pode ser inconveniente…
— Capaz! Inconveniência é o sobrenome do Jeff!
As três não seguraram a gargalhada. Na realidade, Amanda considerava uma ocasião peculiar, uma vez que Vanessa sempre foi um ponto cego em sua vida. Nada interferia na vida dela se Dan continuava ou não sendo seu namorado, mesmo assim, estava feliz por ter a oportunidade de trocar algumas palavras com a jovem.
Começaram a vasculhar a lojinha atrás de roupas que agradassem ao tato de Sabine, pois Amanda, logo na primeira passada de olho pelas vestimentas, sentiu coceira só de cogitar usar estampas tão chamativas que mais pareciam retrato de carnaval na orla do Guaíba. A amiga foi quem teve maior interesse em bisbilhotar achar, em meio ao arco íris das roupas, algo básico, mas que lhe coubesse como feito sob medida.
Van, vendo as garotas quebrando a cabeça, acabou indo auxiliá-las. Vasculhou por entre os espaços onde poderia haver peça tão sinuosa a ponto de agradar os olhos da outra. Conseguiu três conjuntos nos moldes: primeiro uma blusa azul escuro com uma calça jeans bege; depois uma blusa vermelho escuro com detalhes brilhosos e uma calça preta; por fim, uma blusa verde escuro com saia jeans preta. A loira encarou-lhes alguns segundos, analisando cada linha delas até decidir prová-las.
O primeiro conjunto detestou antes mesmo de pôr a calça. A blusa não lhe valorizou e a calça, antes mesmo de abotoar, achou suas coxas muito estranhas, achando um pernil de porco mais bonito naquilo. O segundo até lhe deixou mais bem disposta, já que o tom de vermelho deu um charme em sua esguia silhueta. O problema foi a calça, de novo lhe deixando com coxas avantajadas; O último, ao provar, visualizou na hora como iria ao aniversário. Foi tiro e queda. Tão logo tirou tudo, vestiu-se e caminhou ao caixa para pagar, afirmando as meninas que acrescentaria apenas uma meia calça preta para dar o último toque.
Faltava Mandy escolher, mas avisara de que nada ali havia batido com seu, portanto, a busca não cessara. Saindo dali, questionaram se Vanessa não estaria interessada em seguir o rolê com elas. A moça concordou, mas confirmando se não causaria mal estar. As amigas negaram, alegando que, mesmo com tão pouco contato, motivos para lhe quererem longe faltavam muitos. Van riu, contente pelas boas intenções.
Enquanto caminhavam a procura de outros lugares capazes de fornecer a namorada de Adrian o estilo que lhe coubesse bem, conversavam sobre o andar da vida, a recém formatura da ex de Dan, bem como sua reação a toda aquela confusão acontecida de forma tão brusca e rápida.
— Na verdade, não sei se foi tão de repente assim — Van contestou — É engraçado isso. Quando olhamos de fora, vemos os pontos onde cada um errou. Eu, que me achava imune a esse tipo de coisa por ser psicóloga, vivi no meio do furacão achando que tava arrasando.
— Sempre pecamos pelo excesso ou falta de confiança — Bine complementou — Mas é aquilo: quando o assunto é término, cada um fica com a parte que lhe cabe. O melhor é fazer como tu fez. Penso eu que tu pulou pra fora do barco no tempo limite, antes de se afogar.
— Tento me convencer disso todos os dias. É uma luta diária, aos pouquinhos. Não se deleta anos de um namoro assim, num passe de mágica.
— Claro! Isso é inegável!
— Tô me saindo bem agora, modéstia à parte. Os primeiros dias...Nossa. Foi como tu perder um investimento de milhões sabe?
— E de certa forma é isso mesmo — Mandy opinou — A gente põe muita coisa em jogo quando resolve se arriscar a amar alguém. Se não der certo, o jeito é levar como experiência e redescobrir a vida de solteira.
— É o que tô fazendo. Não dá pra parar tudo. Tô seguindo, arranjando umas coisas legais pra fazer. Até um ensaio fotográfico me propuseram! — revelou.
— Mentira?! — Sabine quase caiu para trás — Não é aqueles sensuais, né?!
— Não! — a moça riu — Um normal mesmo. Tipo daqueles de modelo, sabe?
— Ah bom! — suspirou, tirando um elefante das costas — Eu interessante. A gente fica com a auto estima lá em cima.
— Ainda tô pensando a respeito. Talvez aceite, mas nada certo…
Enquanto trocavam um dedo de prosa, continuavam seu passeio na busca do look perfeito para a namorada de Adrian, àquela altura com a curadoria de Vanessa. Apesar de detestar as filas quilométricas de provadores de loja, a companhias das meninas ajudava a entrar no espírito da coisa. Riam, se divertiam, observavam vitrines quase a jato, sempre indo nas próximas cada vez que os cifrões atacavam o bolso de maneira violenta.
Em meio a isso, porém, uma atitude a fez parar de prestar atenção no mundo real e dar uma bisbilhotada no virtual. Abriu suas redes sociais e deu de cara com uma postagem feita pelo namorado em uma delas. Tratava-se de uma foto num almoço em família tirada não sabia onde, tampouco em qual data, com todos em torno da mesa com largos sorrisos e Adrian, em específico, abraçado a uma prima a qual conhecia bem os enroscos dele.
Revirou os olhos, pondo o aparelho no bolso empurrado à força. Odiava fazer cena por pouco, procurando sempre ponderar toda e qualquer atitude passível de ser digerida, sem que isso atingisse seu ego em proporções maiores às quais se esperava. No entanto, a maneira como deu-se o namoro dela com o ruivo, praticamente nascido do dia para a noite, sempre deixava tudo parecendo ter sido construído sob solo pantanoso, o qual afundaria mais cedo o mais tarde. Tinha horror dessa sensação, pois não se entregava a uma paixão como àquela de graça e cada dia que passava mostrava que tampouco Adrian assim fazia. Entretanto, sabia da insistência da menina da foto, suas atitudes recheadas de segundas intenções, mensagens um tanto subliminares e troca de olhares esquisitas.
Saiu de seus devaneios ao ouvir a voz de Sabine chamando por si para ver um par de sapatos que achou a sua cara. A loira, lógico, sacou na hora a estranha feição de quem acabou de acordar e ainda não sintonizou na Terra para saber das novidades. Viu-se na obrigação de explicar o que ocorria, mostrando a referida foto e desabafando sobre.
— Eu não acredito que ele retribua, claro que não. Até porque, se ela já deu em cima dele na minha cara sem cerimônia e não rolou nada, pelas costas não deve ir muito longe.
— Então?! Qual é o angú?
— Ai, sei lá — coçou a cabeça — No fundo, acho que o problema é mais meu do que dela. Ela é segura do que faz, do potencial que tem com guris, já eu—
— Ah não! Nem termina essa frase! — exclamou — Alguém obrigou o Adrian a ficar contigo? Ele foi ameaçado de morte? Então! E outra: conheço ele desde que chorava pra entrar na sala quando estávamos na pré escola! Ele respeita demais as gurias com quem se relaciona.
— Sim, mas essa guria—
— É a prima dele que joga charme porque não ganhou um consolo de Natal — brincou, arrancando risos da amiga — Deus que me perdoe, mas é a real. Ela sempre investiu sem muito sucesso. Adrian é do tipo que acha bizarro essa coisa de ‘amor de primo’. Pra ele, primos são irmãos de outras mães.
— Eu sei de tudo isso. É só… sei lá. Medo que a cabeça debaixo dele fale mais que a de cima.
— Pois se falar, fica sabendo que eu serei a primeira a dar um chute na cabeça debaixo dele se ela ousar falar o que não presta!
Não conseguiu segurar o riso ante o comentário. Poucas vezes na vida teve a oportunidade de ter companhias femininas, já que grande parte queriam o sol raiando a seu gosto, ou ter o cabelo igual o de alguma famosa. Enquanto Amanda queria apenas ouvir suas músicas em paz, sem ser questionada sobre a vida e obra dos Beatles pelos meninos desconfiados de seu gosto. Não jogava sua vaidade no lixo, só não fazia dela seu foco principal, deixando outras coisas que julgava mais pertinentes preencherem os espaços maiores.
Inevitável a lembrança de quando eram só ela, Alisson e Jeferson curtindo momentos de farra. Ficava bestificada com a diferença de tratamento de informações entre as duas situações. Al, se o conhecia bem, alegaria que suas neuroses eram bobagens sentimentais cujo principal motivo de existir não se sustentava. Jeff, mais brando, já desconfiaria das coincidências, procuraria saber mais e talvez até lhe dissesse para partir rumo uma nova aventura, porém, sempre com um jeito muito descompensado. Meninos. Sem muita prática do universo feminino quando este perpassava os limites sexuais.
Ao passarem em frente a uma das filiais da Forever 21, fez questão de parar para dar uma olhada, comentando sempre ter tido vontade de ter uma blusinha que fosse daquela marca. Sabine não poupou a alfinetada, questionando se aquele era o gênero barato com o qual ela se referia. Van, mais tranquila, salientou que nada as impedia de, caso não pudessem comprar pelos preços, poderiam ao menos dar uma olhada nos cabideiros.
Entraram sem mais cerimônias, vasculhando cada canto. Entre artigos masculinos e femininos, várias peças atraíram sua curiosidade, olho clínico e dúvidas se cairia bem. Viu-se deslumbrada com várias, todavia, os preços faziam seu dinheiro criar pernas e fugir. Arrepiavam adultos e crianças de todas as etnias e gêneros Sabine arriscou questionar se iriam enfrentar o provador só para, no fim, não levar um brinco sequer, ao passo no qual Van justificou que, caso ficasse muito pesado, ao menos teriam de base para irem em outro lugar achar uma peça parecida. Temendo trocar gato por lebre, Mandy acabou cedendo, indo em direção ao provador.
No meio do caminho deu um esbarrão na única pessoa que desejaria jamais encontrar, pouco importando em quais circunstâncias. Amora encarou-lhe com olhar de tigresa ameaçada, nem esperando nem dando desculpas pelo ocorrido. Tão logo virou-se e seguiu ao mesmo lugar onde a outra iria. Respirou fundo, perguntando-se por qual razão absurda havia de ter acontecido tal encontro. Sabine e Vanessa entreolharam-se, indo ver se tinha acontecido algo. Mandy negou, continuando o percurso sem entrar de novo em detalhes. A ex ficante de Alisson parara a sua frente, sem ousar virar para trás e dar de cara consigo. As contas entre elas ainda estavam pendentes, tinha isso como certo.
No provador, mais um caroço. Ficaram lado a lado, vizinhas de campo. Havia muito tempo que não passava mais de dois minutos sem trocar farpas com a moça, tempos que antecederam até mesmo o dia do tapa que deu nela quando houve a insinuação de que estaria pegando Jeferson ao mesmo tempo que Adrian. Ia aos dias de sufoco dividindo o mesmo apartamento, olhando-se todo da sem chance de escapar em virtude da relação entre seus pais. Quando seus pais anunciaram estarem juntos, era a última vez na qual podia se lembrar que conseguiram manter a civilidade. Desconfiava ter sido mais em razão do susto da novidade à propriamente respeito.
— Como vai tua mãe? — surpreendeu-se ao ouvir a pergunta. Experimentava uma das blusas enquanto lutava para não torcer o pescoço dela.
— Não que tu te importe, mas ela tá bem — limitou-se a responder.
— Amanda, se fosse o caso, nem teria me dado o trabalho de perguntar — respondeu no mesmo tom, seco.
— Só perguntou porque detesta tua nova madrasta e se arrependeu das vezes que agiu feito uma cabra com minha mãe.
— O que posso dizer? Acho o gosto do meu pai pra mulheres muito questionável… — alfinetou — Além do mais, arrependimento do quê? Só disse verdades.
— As tuas verdades — corrigiu.
— Que seja — a ruiva deu de ombros, amarrando o cabelo em rabo de cavalo frente ao espelho — Se infiltrar na vida de alguém da maneira como tua mãe fez foi nojento.
Já explodindo de vontade de transformar o lugar num ringue de box, saiu de sua cabine e foi na do lado direito, abrindo a cortina e fazendo Amora quase infartar. Esta encarou-lhe com sangue nos olhos. Suas auras arranhavam uma a outra, na tentativa de manterem firme suas respectivas dignidades.
— Ouve bem — Amanda ordenou — Nunca mais abre esse esgoto que tu chama de boca pra falar da minha mãe, entendeu?
— Já te falei que só disse a verdade — a menina não baixou o topete, seguindo firme em suas convicções.
— E quando tu vai aceitar que tu mãe já tava morta quando tudo aconteceu, hein? Essa sim é uma verdade que tu precisa enfiar nessa cabeça torta.
Pela primeira vez na vida, a menina viu Amora esmaecer. Era nítida a perda de sentidos ante o comentário, fazendo então com que o subconsciente da namorada de Adrian começasse a ficar mais pesado. Tinha rasgado uma ferida com a qual jamais teria coragem de abrir caso não estivesse em um momento de fúria. Não precisou de muito para se dar conta de seu malfeito.
Irritada e transtornada, Amora empurrou-a para longe e fechou a cortina, trocando de roupa e saindo dali mais depressa que um furacão sem pestanejar. Notando alguns olhares das vendedoras em cima de si, Mandy não tardou a fazer o mesmo, acabando por levar a blusa preta com a saia cor de vinho. Nunca, porém, havia se sentido tão amarga ao fazê-lo. As meninas, suas acompanhantes, nada entendiam. Nem souberam da ocasião e, quando perguntada se tinham saído mais faíscas, seguiu no silêncio. Respondeu apenas o breve: que iria para casa se arrumar e depois partir à festa no horário combinado entre elas.
Era difícil até para si mesma acreditar nas palavras emitidas pela sua boca, uma vez que tinha veneno além da conta em torno delas. Por um momento, sentiu-se no mesmo patamar que Amora, disposta a afrontar quem fosse, mexer com as estruturas de qualquer coração só para seu bel prazer. A única diferença era a situação, pois, não mentia a si mesma, gostou de ver a empáfia da ruiva ruindo nem que fosse por meros segundos. Só preferiria não ter sido pior do que ela. Se a vingança era um prato a se comer frio, comia o seu congelado.
Deram de cara com ela minutos depois, sentada em um banco sem suas sacolas de roupas e mãos e cabelos auxiliando a esconder o rosto. Ao notá-la, nem precisou deduzir a razão. Sem querer carregar aquela culpa em um dia que estava tão agradável e, mais a noite, com festa e celebração, engoliu sua alegria de ter saído vitoriosa enquanto caminhava até onde estava. Amora viu a silhueta parada frente a si e ergueu a cabeça, revirando seus olhos lacrimosos vendo a responsável com a cara mais deslavada do mundo ali. Mandy nada disse de imediato, apenas sentou, respirando fundo antes de começar a falar.
— Não vim pedir desculpas por ter revidado a tua provocação, mas sim, por ter usado algo que não é da minha conta pra isso.
— E pode ter certeza que foi a última vez que cometeu essa asneira. Na próxima, eu é que te dou um tapa que nunca mais vai esquecer — ameaçou, limpando as lágrimas de seu rosto.
— Vou te agradecer muito se tu não me der essa oportunidade de bandeja de novo — sorriu, com o canto da boca — Não trouxe nada do que experimentou?
— Perdi o clima pra comprar até uma casquinha de sorvete — resmungou.
— Vamos lá comprar. Não deixa um comentário infeliz meu estragar teu dia.
— Não quero! Já falei! — exclamou, atraindo olhares do entorno.
Novamente, Mandy respirou fundo antes de pedir.
— Tô aqui na maior boa vontade querendo me redimir. Anda logo antes que eu me arrependa e te deixei chorando aí sentada até o shopping fechar.
A ruiva bufou, levantando e voltando a loja passos a frente sem aguardá-la. Amanda aproveitou para pedir a Van e Sabine que aguardassem enquanto resolviam a pendenga. Conseguiu ter um suspiro no coração vendo-a reagir, mesmo contrariada. Não a queria mal, tampouco bem. Na verdade, gostaria muito de poder evitá-la, sem precisar entrar em atritos cada vez que se encontravam. Àquela, entretanto, via a necessidade de não deixar as pontas soltas. Resolveria o assunto para, somente aí, seguir tranquila.
Foram direto ao caixa pois Amora havia deixado a sacola lá antes de agir como um trem desgovernado. Pagaram pelas compras e retornaram ao encontro das moças. Num primeiro momento, ficaram em silêncio, mas depois, por iniciativa de Amora, uma conversa iniciou. Desta vez de tom amistoso, sem ameaças ou troca de farpas.
— Comprou o quê?
— Uma blusinha preta meio ombro manga longa com cordinhas e uma saia colegial cor vinho. Meio salgadinho, mas uma vez na vida só...
— Preto e vinho? Tu vai sumir no meio da festa. Não pensou em usar branco?
— Aí vai ficar carnaval. Branco, vinho e preto das meias e da bota. Aquela que ganhei do teu pai de aniversário lembra?
— Ainda tem aquilo? — ficou surpresa.
— Alguma coisa de bom aquele um ano e meio tinha que ter né?
A ruiva gargalhou alguns poucos segundos.
— É, Amanda… Não conseguimos ser nem irmãs por um tempo tão pífio, amiguinhas agora tá fora de cogitação. Nossos santos não batem — afirmou, convicta — Se conseguirmos coexistir sem nos matar, já estaremos no lucro.
Foi a vez da namorada de Adrian rir. De fato, pouco conseguiria fazer num possível caso de aproximação. Nem queria isso, estava bem como eram. Só de ter feito um gesto simpático já considerava quite por pelo menos seis anos. A partir dali, pôs como meta evitar ao máximo qualquer situação de convívio, fosse na escola ou qualquer outro ambiente. Sabia que, numa próxima, Amora até poderia cumprir sua promessa de lhe dar uma bifa, todavia, não tinha dúvidas que o revidar seria na hora: Bateu, levou.
Amora, ao despedir-se do trio e seguir seu rumo, deixou com elas um ponto de interrogação enorme na testa da ficante de Jeff e da ex de Dan. A primeira ainda mais por lembrar da história da agressão. Vendo a curiosidade matando as gatas, Amanda abriu o jogo explicando todos os detalhes de sua conturbada relação com a moça recém saída. Ambas seguraram o queixo para não cair, Sabine advertiu-a por ter pego pesado e Van elogiou-a pela nobre atitude de voltar e contornar tudo. No fim, como sempre soube, ficou o dito pelo não dito.
***
Amanda correu pela casa, tropeçando nos móveis, querendo se arrumar a tempo de Adrian lhe buscar para irem juntos. Com a demora no passeio precisou correr contra o tempo para chegar em casa. Quando o fez, estava esgoelada no combinado estipulado. Por sorte, conseguiu vestir a combinação e fazer a maquiagem sozinha. Odiaria caso precisasse pedir ajuda a mãe, uma vez que soltaria o verbo sobre suas roupas e insistiria até que se irritasse e fosse igual uma noviça à festa.
Ao ouvir o som da buzina dos pais do namorado, deu um último retoque no cabelo, foi ao quarto da mãe, deu-lhe um beijo e partiu ao aniversário temático de Jeferson. Encontrou Adrian parado frente o portão de seu condomínio, parando alguns segundos para babar com a visão. O ruivo vestia um terno corte italiano preto, calça sem corte de mesma cor e sapatos sociais. Nos fios de cabelos cor de fogo, o gel deixava-os todos arrepiados. Um príncipe aos olhos da amada.
Ele, vendo-a, sentiu-se em um anime japonês, no qual eram os protagonistas românticos. a hora, riu pensando em pular para parte onde vão para um quarto e se trancafiam até altas horas descobrindo cada molécula de seus corpos. Via nela uma menina sutil, amiga, trazendo o sorriso capaz de arrancar suspiros. Cada vez mais sentia não ser amor de adolescente ou com fadado ao fracasso. Tinham futuro. Não resistiu e, antes de entrarem no carro, abraçou-a e deu-lhe um beijo na bochecha com o celular tirando selfie para suas redes sociais. A menina ficou rubra, dando tapas leves no ombro e pedindo que não faça mais se quiser que ela vivesse até o fim da noite.
Minutos mais tarde e estavam descendo do carro com os pais do ruivo e entrando no ‘Wunder Bar’. Mandy babou ao ver o trabalho todo feito. Logo na entrada, na recepção, dois bonecos em tamanho real de Darth Vader e Luke Skywalker, além de tencionados preto e branco alternando na cobertura da parede. No salão principal, uma goleira de balões de mesma cor indicava a mesa onde o bolo ficaria, além do cesto de presentes ser R2D2, arrancando risos do casal. A cara de Jeff, tinham certeza. As mesas, também alternando toalhas pretas e brancas, ficaram bem dispostas, deixando o meio vago para a pista de dança.
Amanda só parou de analisar a decoração ao ouvir a voz de Sabine adentrando a festa, tendo Van a seu lado. Ambas deslumbrantes com seus visuais. A ficante do aniversariante remetia à Vampira dos X Men, enquanto Vanessa, mais delicada, vestia um vestido azul royal indo até seus joelhos, bem como um salto branco nos pés e brincos de argola nas orelhas. Seus lindos cabelos estavam lisos como pétalas de flor e com aroma tão envolvente quanto.
Foram direto comprimentar Karen e Fernando, pais de Jeff, pela festa e pelo filho. Karen, inclusive, elogiou a beleza de Van, contando sobre o aviso do filho sobre sua presença, mas que nada dizia que era tão bela. A ex de Dan não soube onde enfiar a cara, apenas agradecendo e indo em direção ao casal de amigos a sua espera. Sabine tentou tranquilizá-la, dizendo que a mãe do rapaz era, de fato, espontânea e alegre, e que às vezes podia constranger mesmo. A outra riu, afirmando estar tudo bem, só não esperava por uma recepção tão boa para quem foi convidada na última hora e por terceiros. Bine não conseguiu segurar o riso.
Karen, aliás, foi só a primeira a notar a exuberante presença da menina. Adrian deu dois passos para trás ao conhecê-la. Ficou fora de órbita por alguns segundos antes de Amanda puxá-lo de volta ao planeta Terra para cumprimentar a nova amiga. Ficou constrangido pelo acontecido, tratando de disfarçar como podia a fim de não criar neuroses na cabeça da namorada. Para ajudar, sentaram todos na mesma mesa, com o casal de namorados de um lado e o de amigas do outro, frente a frente.
Sabine estranhou ao notar Mandy encarando vez ou outra a porta de entrada, não demorando a questionar a respeito. Até brincou, perguntando se tinha contratado um carro de som para passar ali na frente. A amiga pô-se a rir, negando e dizendo apenas estar curiosa pelo fato de Al e Dan não terem chego até então. A curiosidade de Van se apitou na mesma hora, lançando outro questionamento enquanto coçava a nuca.
— Eles marcaram de virem juntos?
— Olha, de afirmar que viriam até não. Só que do jeito que a coisa tá andando, não me surpreenderia se—
Adrian nem terminou seu pensamento quando avistou os dois entrando no salão. Alisson vestindo um casaco com tecido imitando couro, camiseta preta com uma estampa a dizer “NO RULES”, calça jeans azul escuro e all star; e Daniel vestindo um casaco moletom cinza, calça skinny preta e tênis de mesma cor, além de seus óculos novos, acessório permanente dali por diante. Ao avistarem a mesa onde estavam, ambos vieram para acompanhá-los.
Pela primeira vez na noite, Vanessa sentiu seu coração quase saindo pela boca. Não tinha ideia de como reagir, nem se tudo havia se resolvido, nada. Ali, sentiu o peso do título de ex namorada pesar sobre seus ombros, ainda que deliberadamente. Tinha ciência da não necessidade em carregar vergonha ou culpa pelo ocorrido, afinal de contas o ciclo da vida apenas fizeram mais uma das suas, o que não a impedia de ser feliz sem alguém a seu lado. O problema era fazer seu coração aceitar isso, pois mesmo com tudo explícito, ele se negava a parar de pulsar. Respirou fundo e ficou a espera da reação. Foi o máximo que as circunstâncias lhe permitiam fazer.
Para surpresa de todos, Dan chegou tranquilo, comprimentando sem distinção nenhum dos presentes e sentando na mesa ao lado de Sabine e Van, enquanto Al do lado de Amanda e Adrian. Antes de qualquer pergunta ser feita, Al tratou de comentar como rolou a organização, as combinações feitas e os amarros para a noite ser memorável. Mesmo sem saber formalmente, já foi o suficiente para perceberem que a paz lhes acompanharia àquela noite.
Aproximava-se das nove da noite quando, de repente, as luzes dos salão foram apagadas, restando apenas um refletor mirado para a entrada. Em meio ao silêncio provocado pela surpresa, a Marcha Imperial começou a ser reproduzida. Entraram então algumas pessoas vestidas de Stormtroopers para, só então, “Darth Vader” invadir a cena com a icônica frase: Eu sou seu pai. Todos, em meio aos risos, aplaudiram para, só então, revelar-se que o aniversariante estava por trás da fantasia do grande vilão da franquia.Tinha feito sua entrada triunfal.
As luzes então tornaram a ligar para que os pais fizessem seu discurso sobre o filho ali presente. Parados frente a mesa do bolo, Karen ficou responsável pela leitura de um pequeno trecho construído em conjunto justamente para a ocasião.
“Jeferson.
Filho amado e querido de seus pais. Sempre encheu nossa casa de amor, alegria e comentários cheios de propriedade de fala. Aprendeu a caminhar com oito meses, a falar com nove e a ler com quatro e meio. Esperto, sua curiosidade lhe moveu montanhas, trilhou destinos sem receio de estar errado. Caminhou por entre espinhos sem reclamar um único momento. Viveu, aprendeu, cresceu e evoluiu. Na data de hoje, completas o décimo oitavo aniversário desde a tarde quente na qual surgiu ao mundo. E fez jus a cada contração, expectativa, alegria e emoção que sua mãe passou ao longo de sua gestação. Conclui-se hoje um ciclo, mas que, na realidade, nada muda dentro do teu coração. Para o mundo, torna-te um homem, responsável por seus atos. Para teus pais, segues aquele piá de cabelos encaracolados que pedia repetição de Star Wars mil vezes ao dia, enquanto todas as crianças do mundo queriam só os Teletubbies. Lembranças que hoje, para nós, que presenciamos e sentimos isso de perto, aquecem o coração e nos lembra porque te chamamos de Jeferson: pois tu trouxe paz as nossas vidas.
Todo o amor e felicidade do mundo pra ti, meu guri! Estes velhos aqui estarão sempre te dando força pra tudo que precisares. Conte conosco e, mais ainda, com nosso amor por ti.
Abraços,
Karen e Fernando, teus pais!”
Jeferson até tentou segurar, mas não aguentou. A crise de choro saiu vencedora. Não só ele como os demais tiravam os lenços das bolsas ou casacos para limpar os olhos marejados. Mandy estava entre eles, recebendo o abraço do namorado também em prantos. Sentiu seu coração quentinho pelas palavras, quase como se fossem pra si. Achava lindo o amor e admiração recíproco entre eles e nada no mundo mudaria isso.
Quando a maioria conseguiu se restabelecer, a pista de dança foi liberada através do anúncio feito pelo aniversário e de U can’t touch this embalando o início dos trabalhos. Na hora, Jeff correu até a mesa e puxou Sabine rápido pela mão para zoarem no centro da pista. Al levantou e foi na sequência, enquanto Dan seguiu sentado. Van entrou na onda e se enfiou no meio da galera. Amanda e Adrian até tentaram fazer companhia ao amigo, porém, o chamado da pista foi difícil de segurar. Acabaram por ir, deixando-o ali.
Mesmo tendo certeza que não nasceu para ser bailarina ou dançarina, Mandy não se permitiu ter amarras ou repressões. Tirou de dentro de si seu jeito mais frenético, afinal, julgava, a ocasião merecia. Vendo a impulsão da namorada, foi impossível para Adrian ficar inerte. Precisou entrar no ritmo, dançando todas que podiam juntos, grudados com os corpos encaixados um no outro. O problema foi em dado momento, próximo da uma da manhã, quando a garota se deu conta de que havia algo rígido roçando em si. Não segurou o riso, virando frente a Adrian e lançando na lata.
— Tá no cio, é? — brincou.
— Desculpa — o rapaz, vermelho, coçou a nuca — Foi inevitável.
A moça apertou as bochechas do namorado e, então, puxou-lhe para um beijo enquanto I Gotta Feeling tocava a todo volume.
— Quem sabe mais tarde… — falou em seu ouvido.
Adrian sorriu, malicioso. Mesmo sem uma confirmação, a possibilidade já era muito animadora. Não faziam o gênero viciados no coito, porém, aproveitavam bem ao fazerem. Não havia uma queixa a ser feita por ambos, apenas o desfrute da ação de terem um ao outro para curtirem juntos momentos íntimos capazes de levá-los aos portões do paraíso.
Pouco depois, a moça sentiu a mão de Alisson tocando seu ombro direito, virando-se para ver qual seria o assunto. Notou nele um certo ar de desligado, como se tivesse acabado de enfiar o dedo na tomada e seu cérebro na luta para tentar entender o ocorrido. Ele pediu então que fossem conversar num cantinho mais silencioso a sós. Nada entendeu de imediato, mas aceitou o pedido. Foram então para mais próximos da recepção, afinal, por ser uma ocasião reservada, não havia ninguém pagando nada no caixa.
— Curtindo a festa? Quase não pus o olho em ti ou no pessoal! — comentou ela, enquanto Al andava de um lado para o outro.
— Mais do que eu imaginava que ia curtir — revelou, respirando fundo.
— Tô te achando uma pilha. Rolou alguma coisa com a tua mãe?
— Que mané minha mãe! Foi comigo! — exclamou, animado — Mandy, é ele. Não tem “mas” ou “porém”. É ele.
— O Daniel?!
Alisson então sorriu, malicioso.
— Minha boca nunca encontrou sabor igual… — salientou — E por vontade dele, inclusive…
Por um instante, o chão todo ao redor ruiu. Mandy soube ali que o mundo, a partir daquele momento, giraria de outra forma…
CONTINUA
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