A Teoria das Cores
91 Amarelo V
FELICIDADE
Desde o início dos tempos, procuramos dar significado a nossa existência no plano terreno, fazendo disso uma meta de vida. Com olhares bem atentos aos movimentos frenéticos das peças de xadrez componentes do destino, tentamos entender as habilidades exigidas e estratégias numa tentativa desesperada de não cair no breu sem conhecer o rumo da condição mais plena. Esta busca, ou jogo, não cessa, não tem pausas, e Daniel estava com a vez. Só tremia inteiro só de pensar na culminância da jogada.
Era dedutível saber como as coisas se sucederiam. Em meio a tantos percalços e desafios, passar incólume não parecia nem de longe uma culminância válida. Seu coração, tão apertado e perdido dentro de seus anseios, lutava com todas as forças para não ceder, na esperança de sustentar uma mentira menos impactante do que a verdade. Ela parecia pesada demais para seus ombros, e já não podia afirmar se aguentaria muito mais tempo o impasse.
Já passava da primeira hora da madrugada de sexta para sábado e seguia sentado à mesa observando todos eufóricos a balançar o esqueleto na pista de dança. Garotos com garotas coladas em suas cinturas, outros avulsos arriscando alguns passinhos apenas para não perder o timing, e, finalmente, seus companheiros de solidão, sentados em cantos apenas vendo tudo acontecer sem esboçar reação. Aquilo tirava seu temperamento dos eixos. Não se conformava, todavia, nada fazia para mudar. Conflituoso e contraditório, como ele próprio tinha ciência de ser.
Alisson estar tão confortável em sua posição deliberada de bom dançarino, com algumas das mais belas meninas convidadas para a festa grudadas nele também ajudou muito na sua vontade de sair berrando a quem quisesse e quem não sobre sua indignação. Não compreendia como sua cabeça estava a um fio de perder a razão enquanto o amigo se conformara. Seria a posição de gostar de homens tão confortável? Estar seguros de seus sentimentos trazia uma paz tão completa a ponto de nada mais importar? Na realidade, bem sabia das respostas. Assumi-las era o risco que atormentava seu sonho de ser feliz.
Para piorar, cada minuto que passava aumentava um grão em sua consciência pesada. Viver parecia uma tarefa complicada demais para conseguir decifrar todos os segredos necessários, a fim de culminar na chave do sucesso e prosperidade. Entretanto, sendo as escolhas parte essencial do processo, e Dan sem ter a menor ideia de quais fazê-las sem lhe causar maiores prejuízos, o grão se transformava em montanha. Não podia seguir com o coração apertado daquele jeito. Uma ação precisava ser feita.
Seus devaneios só foram interrompidos ao sentir dentro da calça seu celular vibrando com o nome de Ian na tela. Como o barulho iria incomodar a compreensão, acabou levantando e indo até a recepção, à hora praticamente vazia, onde a música alta perdia um pouco do fôlego existente na pista de dança ao som de Don’t You Worry Child. Ao atender, a voz animada ecoou pelo aparelho eletrônico questionando a quantas andava a festança. Dan tentou disfarçar, falando do ambiente, o clima descontraído, pessoas dançando e se pegando a cada dois passos dados, mas o primo já tinha doutorado em sua pessoa. Conversas como aquela já não surtiam o mesmo efeito.
— E já conseguiu se divertir por ti mesmo, sem ser essas coisas externas? — indagou.
— Ué, e tem como não estando numa festa? — o mais novo tentou sair pela tangente.
— Se existem pessoas com coragem suficiente pra rir em velório, tu acredita mesmo que não existam pessoas tristes em festas?
— Não tô entendendo. De onde tirou que tô triste? Tô muito bem se quer saber a real!
— Tu pode enrolar quem tu quiser, não eu…
— Sempre se achando o refrigerante mais gelado do mercado, né? P*rra…
— Quer parar de enrolar e assumir logo quem é a causa disso?!
Revirou os olhos. Sempre cair naquela ciranda de sai ou não sai, definitivamente, já lhe dava nos cascos. Parecia um livro de mistério sem suspense, ou filme de terror sem causar medo. Diante disso, apenas respirou fundo sem tentar argumentar mais. Seria inútil, afinal.
— Ele tá lá igual aquele gurizinho dançante dos gifs, sabe? — comentou — Sei lá… Talvez eu vá dançar também.
— Com ele?
— Olha, que eu saiba minhas pernas ainda não só minhas. Compartilho com ninguém, não.
— Mas é uma boa desculpa — o menor não sabia, mas Ian sorria travesso do outro lado — Parte logo pra ação e encerra esse capítulo da tua vida, c*r*lho! Já virou livro chato!
— Minha vida não é um livro!
— Tá mais pra fanfic mal escrita mesmo — ironizou — Se der a m*rda que tu pensa que vai dar, relaxa. Eu estarei aqui sempre que tu precisar.
Não era a primeira vez que Ian estendia a mão caso Dan precisasse segurá-la, todavia, toda vez seu coração aquecia um pouco mais. Era como um pãozinho no forno crescendo e mantido sempre na temperatura ideal quando a fome batesse. Odiava-se cada vez que lembrava das mágoas pelas quais fizera-o passar.
— E como fazer isso sem causar arranhões?
Ian sabia que o primo falava de si. A montanha de sentimentos entre eles, capaz de desvirtuar até o mais puro dos pensamentos, criava também um formigamento interno cada vez mais incômodo. Não pela ação primitiva de seguir aos impulsos herdados de nossas raízes animais, mas sim, pelo puro medo de calcular mal os estragos. De um forma meio torta, o mais velho tinha certeza que o primo lhe cuidava, sempre, claro, dentro de suas possibilidades.
— Arranhões vão existir sempre. Cabe a nós decidirmos se as lembranças deles serão por empurrão nas britas ou brincando de pega pega.
Dan riu-se. Não conseguia manter a inércia por muito tempo quando falava com Ian. A aura genuína e atrativa dele, capaz de emular a força do Sol, ofuscava o breu, volta e meia atento para lhe caçar. Considerava-o quase uma força da natureza, das mais poderosas e belas já conhecidas, envolvido sempre no equilíbrio de propósitos daqueles que o rodeiam. Vez ou outra lembrava-se de agradecer por tê-lo por perto. Aquele momento foi um deles.
Assim que despediram-se por Ian ouvir alguém no portão de casa, Dan desligou e voltou para o saguão principal, com olhar ferino atrás de sua presa a fim de saber seus passos. Viu-o sendo a atração na rodinha formada na pista de dança e caiu de novo na gargalhada. Num piscar de olhos, todos pareciam esquecer quem era merecedor de atenção àquela noite.
Sua dúvida, no entanto, tinha outros propósitos: Seria ele merecedor da atenção dele?
***
Conversar com Daniel acerca do pulsar de seu coração sempre lhe soou tarefa ingrata de se realizar. Com todos os vieses possíveis de uma situação como aquela, qualquer um, de alguma forma, enfiava uma faca em seu amor cristalino pelo primo mais novo. Se fosse recíproca, comprometia sua relação com os demais primos, principalmente Andreas, inconformado de Dan ser o único com o poder para fisgá-lo; Não sendo, como era o caso, tirava de si toda a crença de que um sentimento pode brotar da mais problemática das criaturas, como uma árvore crescendo em meio a pedras.
Na realidade, sabia que era exagero, já que ele demonstrou estar se apaixonando e querendo dar vez ao sentimento como jamais pensou ser possível. A diferença era o alvo. Essa era, sem sombra de dúvida, a maior das surpresas dentro daquele quadro de acontecimentos. Pensar que os mesmos rapazes, responsáveis por lhe apontar o dedo a fim de lhe ofender por quase ter tido relações sexuais com outro rapaz e ser flagrado, agora estarem com imãs afoitos para uní-los causava espanto. Mesmo assim, por que não viver aquilo consigo? Era indigno de ter o privilégio daquele amor?
Contrariando todas as possibilidades, respeitava o ciclo da vida e suas ações, buscando mais compreendê-lo à julgá-lo. O medo de ver o que guardava de mais precioso dentro de si passar pela metamorfose sinistra tal qual Andreas consigo e Diógenes com Ágata o fazia querer focar mais naquilo com o qual lidava tão bem: a música. Espremer cada gota daquele sentimento em versos de canções, tinha certeza, ajudaria a canalizar sua atenção e, de quebra, contribuiria para a arte.
Ouvindo o chamado de alguém no portão de sua casa, obrigou-se a desligar o telefonema e ir atender quem quer que fosse. Torcia para não ter ocorrido alguma catástrofe ou incêndio que demandasse solução urgente. Para sua surpresa, ao chegar na porta, encontrou Gil parado aguardando por ele. Vestindo uma calça skinny preta e uma camisa xadrez preta e branca, o menino sorriu ao notar a presença de seu ex. Claro que o fato do rapaz já estar com short de dormir e camiseta rala contribuía para ficar tão feliz quanto da primeira vez que assistiu um vídeo pornô só de rapazes.
— Gil! Boa noite! — exclamou o garoto de olhos claros — Pensei que estaria no ‘Wunder Bar’ hoje. Não foi trabalhar?
— Na real, estava até bem pouco trabalhando. De outro jeito, mas trabalhando.
— Não acredito que resolveu conhecer esse lado obscuro das ruas! — maliciou, levando um tapa leve no ombro.
— Idiota! Claro que não! — riu-se — Tava organizando minha mala. Por isso vim até aqui.
— Ou eu tô muito lerdo ou tu não se explicou bem — brincou, arrancando mais um riso.
— Tô indo viajar a trabalho. Vou ficar um mês fora ajudando na nova filial do ‘Wunder Bar’.
Ian não segurou o sorriso. Abriu o portão, puxou-lhe para dentro dando um abraço bem apertado. Tanto tempo após a separação, ainda conseguia estimá-lo além do que ex namorados nas circunstâncias deles teriam um pelo outro. Vê-lo prosperar, não cedendo às tentações perigosas de sua vida tal como o álcool, fazia-o ter esperança de, um dia, reencontrarem a conexão perdida. Não alimentava isso, claro, tampouco negava a possibilidade. Viveram bons momentos, estes fundamentais para a construção de seu ser — talvez até mais do que Jonathan, seu primeiro. Se Gil conseguisse, não seria ele o empecilho.
— Parabéns, boneca — maliciou, relembrando o apelido de namoro — E aí? Onde será essa filial? São Paulo? Londrina?
— Melhor… Pelotas. Quase colada no Cassino.
Apesar da iminente surpresa, não pôde deixar de se entusiasmar pela conquistas. Não só por isso, lógico, afinal voltaria onde tudo havia começado anos antes e com outro olhar sobre tudo envolvido na maior praia em extensão do mundo.
— Impossível ir pra lá sem sentir a brisa da nostalgia, né? — indagou, seguindo agarrando o outro pela cintura.
— No fim das contas é bom retornar às raízes. Faz a gente ver de onde saímos e para onde fomos.
— E a faculdade?
— Consegui passar para o EaD. Quando voltar, vou ter que seguir nessa modalidade até o fim do semestre, mas é um preço justo a se pagar por não precisar andar de ônibus pra cima e pra baixo.
Ian então encarou fundo no olhar castanho de Gil, vendo nele toda história vivida com tanto ardor, gozando dos benefícios e malefícios de se amar alguém. Terminaram de forma irrisória, mediante contestações de atitudes questionáveis, entretanto, venceram o incidente para, enfim, ver suas vidas entrelaçadas outra vez. Com maturidade, algumas recaídas e episódios constrangedores, sim, que fazem da vida de ambos um floco de neve, desenhado especialmente para eles.
— Vê se manda notícias. Não some, hein?
— Depois que tu teve o descaramento de ir na minha casa pra ressuscitar cadáveres, acha mesmo que vou sumir no mundo?! — brincou.
— Pois fique sabendo que não me arrependo — sorriu, malicioso — Queria resolver nossos pendengas e consegui.
— Tu queria era um motivo pra ir me dar uns pegas, safado. Te conheço de outras encarnações!
Gil tinha certeza da sincronia entre eles, de como suas auras não esbarravam uma na outra, e sim, complementavam-se, numa mistura de cores que saía diferente a cada nova tentativa. Não tinha mais como certo a volta com aquele que conquistara seu coração anos antes, mas só de estar em sua vida de novo já considerava sorte grande.
Arrancando suspiros seus, Ian pegou-lhe pela cintura e deu um último selinho para ficar de agrado. O garçom do Wunder Bar pô-se a rir do feito, mesmo que seu olhar transbordasse de amor.
— Vou voltar outro de lá. Sinto isso — confessou para o de olhos claros.
— Torço por isso — sorriu — E nada de agir feito um gambá entendeu?
— Pode deixar — revirou os olhos, enlaçando seus braços na cintura fina do rapaz a sua frente antes de se virar e tomar seu rumo.
Nenhum dos dois sabia ao certo dizer qual a razão de terem de reviver sua história, partindo do ponto trágico do término à despedida para novos horizontes. Ian, porém, permitia-se acreditar ser mais uma das grandes lições do universo, dizendo a si que nem tudo é tão definitivo que não possa ser mudado. Gil, alheio aos ensinamentos filosóficos do ex, só agradecia pela oportunidade de ter sentido aqueles lábios finos e delicados outra vez. Se pudesse escolher, seriam seu passaporte ao paraíso, enquanto na ponta do destino lá estaria de braços abertos a lhe esperar.
***
O melhor de uma festa sempre são suas músicas e a capacidade que elas têm de reinventar um ambiente. Em meio a tantas vidas, cada qual com suas dores, melancolias, alegrias e peripécias, unidas em meio no ritmo viciante de I Gotta Feeling. O mundo ao entorno pareceu sumir, existindo apenas entre os convidados arriscando passos na pista de dança e tentando aquela pessoa mais especial para futuros entendimentos.
Depois da conversa com o primo, foi difícil para Daniel seguir inerte enquanto todos embarcavam na vibe do lugar. A tímidos passos sentiu suas pernas mexendo na cadeira, a ponta dos dedos brincando na mesa, culminando então em sua entrega absoluta. Quando deu por si, seu corpo remexia, pulava, sapateava e tudo mais que sua mente fosse capaz de inventar, Nem ele acreditava ter tanta disposição para encarar uma coisa daquelas. Não que fosse avesso a festas, longe disso, apenas havia momentos da vida no qual apenas tudo que eventos assim podem proporcionar a alguém pareciam fugir de si.
Mexendo e remexendo ao longo da tal música, acabou esbarrando não só em alguém cujas lembranças ainda permaneciam vivas em sua mente já tão machucada, como também a presença física criava um ar nostálgico de coisas de um passado marcado por muita insegurança, palavras não ditas, sendo que as que foram ditas, muitas foram não foram compreendidas. Vanessa e seus esvoaçantes cabelos loiros de encontro a sua pessoa, com olhar tão confuso e intrigado quanto o seu.
Trataram-se sem melindres ao se encontrarem no início, porém, àquela altura, alguns pontos primordiais transformavam a situação em uma nascente com vários rios a dissipar suas águas. O primeiro deles era o clima: mais íntimo, pois, ainda que todos ao seu redor fossem testemunhas em potencial, platéia para seus momentos de pingos sendo postos nos ‘is’. O segundo baseava-se na concepção mútua de seus assuntos por resolver serem difíceis demais de serem tratados a seco. Todavia, Dan sabia que algo precisava ser feito. Se não fosse ali, talvez nunca mais tivessem a oportunidade — nem coragem — de conversar.
Depois de algumas trocas de olhares, Vanessa foi quem tomou atitude. Chamou o ex para um local mais privado onde pudessem falar e serem escutados. Acabaram na recepção do ‘Wunder Bar’ de novo, pelo menos para o rapaz, contudo, ante a poluição sonora do ambiente de convivência, era de longe o melhor espaço. Para dar início, novamente a ação partiu da moça.
— Fiquei feliz que tu veio. Realmente não esperava — comentou.
— É… apesar do Jeff ser muito camarada meu, não sei se tô num bom momento pra ficar no meio da zoeira, mas até que tá divertido — indagou o menor.
— Ainda em dúvida?
— Sempre em dúvida tu quer dizer — coçou a nuca — Não é fácil tomar partido de uma coisa dessas.
— Não deveria ser antes de tu beijar um guri, agora já era pra ser ciclo fechado. Poxa, Dan, até meus pais tão preocupados.
— Teus pais?! Como assim?! Eles… ficaram sabendo?
Van respirou fundo antes de seguir.
— Eles não tão bravos se é isso que quer saber — tranquilizou, sorrindo — Na realidade, perguntaram se tu tava conseguindo lidar, se eu tava auxiliando por trás…
— Muito legal da parte deles defender o cara que não conseguiu fazer a filha deles feliz… — por melhor que tentasse esboçar o sorriso, era nítido seu descontentamento. O peso de anos de um comportamento questionável começara a doer as costas.
Ainda que toda história deles tivessem controvérsias desde quando resolveram seguir juntos, a loira mantinha aquecido dentro de seu coração aquela mesma compaixão aprendida com seus pais, principalmente em seus anos mais difíceis. Tendo recém se formado em Psicologia, compreendia bem a importância de uma palavra amiga (e necessária).
— Dan, se eu me afastei um pouco, foi por precisar de espaço pra raciocinar. Foram anos juntos que culminaram de uma hora pra outra. E também não sumi totalmente. Te ajudei sempre que me chamou, então não há razão pra terem ódio de ti. Ao contrário. Eles te consideram demais!
— É, mas depois de tudo que passamos—
— Foi parte do que construímos juntos. Pode não ter sido o melhor dos caminhos, mas teve suas razões de ser. Aprendemos muito e agora vamos levar tudo de outra forma no próximo relacionamento.
— Será?
— Sinceramente? É o que espero — riu, fraco. Levou sua mão esquerda de leve a direita dele, conseguindo sua atenção direta com o olhar — Principalmente pra ti né?
Deu-lhe então um último beijo. Este, na testa, como símbolo explícito de um amor que resistiu a mais brandida das tempestades, encarando os medos vindos com ela, as adversidades de tudo ocorrido e achado forças para vê-lo sucumbir e seguir rumos opostos aos traçados juntos. Dan sentia isso, tendo ali a certeza da qual tanto precisava para não perder as estribeiras de vez.
Voltaram a pista com a visão um pouco menos embaralhada, contudo, não tornava tudo mais fácil. Daniel via a ex namorada se afastando ao mesmo tempo no qual procurava uma outra pessoa. A ligeira conversa com a moça lhe trouxe uma pulga atrás da orelha. O problema todo girava em torno da figura sinuosa estar aprontando das suas. Já conhecia-o bem demais para deixar sua imaginação formular hipóteses suspeitas de seu comportamento. Não precisava muito para tirar o dito cujo para um cantinho.
Quando, pouco depois, encontrou-o por entre as massas com seu corpo mexendo em torno de um grupinho envolvido na folia — incluindo Jeff, o aniversariante. Ambos curtindo a vida como se fossem seus últimos suspiros, ao lado de duas moças de cabelos morenos (sendo a próxima de Jeff estilo liso e a de Al cacheado) lançando seu charme e azaração a cada oportunidade tida. A primeira coisa passada pela mente de Dan era onde estaria Sabine que não pegou o amigo pelo pescoço e tirou dali a tapas, já que estavam “se conhecendo” melhor. A segunda foi por que ele precisava querer fazer o mesmo com Alisson.
Muito havia se passado entre eles para ter dimensão da resposta, sabendo, àquela altura, ser ineficaz uma tentativa de negar ainda mais a seu coração, privando-o de sentir, de se entregar aos caprichos tão valiosos de uma relação, mesmo que fosse com outro rapaz. Como adiar o inevitável? Como tornar aquele sentimento uma coisa boa, algo no qual sua mente não criasse tremeliques só pela ideia de acontecer? De fato, uma solução palpável havia. E sabia que precisaria tomá-la caso quisesse um desfecho bem diferente do tido com Vanessa tempos antes.
Ao invés de dar as costas e sumir esbravejando o mundo inteiro por conta das ações mal pensadas, realizadas na base de pretextos insossos, sem qualquer relação prática com sua vida e suas vontades, caminhou com a face de um monge budista até chegar onde os rapazes estavam. Al, inclusive, espantou-se ao vê-lo num primeiro momento.
— Vejam só se a Cinderela não resolveu pôr o sapatinho de cristal e vir?! — provocou, arrancando risadas dos colegas a seu lado.
— Bom, gente, satisfação muito grande em vê-los, mas é hora de zarpar! — Jeff comentou, despedindo-se das moças e indo para outro canto.
A moça que o acompanhava o mesmo fez, para um lugar diferente. Restaram apenas Dan, a moça cacheada e Alisson ali encarando-se como coiotes.
— O que rolou pra tu decidir levantar a bunda da cadeira e fazer algo da vida?
— Ué! Não posso querer me divertir também?
— Se por diversão tu inclui reclamar de tudo o tempo todo, é bem provável que sim — riu. A cacheada acompanhou no gesto.
Daniel hesitou em dar uma resposta capaz de tirar dos dois o cinismo provocador de seus rostos, pensando então que, depois de tantos enroscos, o melhor era ser objetivo o máximo que pudesse.
— Falando nisso, amigos não se deixam largados pelos cantos, sabia?
— Culpa minha! Desculpa! — a menina se manifestou pela primeira vez — A gente tava curtindo tanto aqui que—
— Então já deu né? — cortou na lata, deixando até Al desnorteado — Qualquer hora vocês marcam de novo.
— Espera, mas—
— Vai lá, gatinha. Mais tarde a gente se fala — Al ponderou, antes mesmo que ela tivesse chance de contestar.
— Certeza? — replicou, um tanto quanto insegura com relação a ação deles.
— Só de que eu tô vivo. O resto a gente vai vendo — riu.
Ela então revirou os olhos partindo tão rápido quanto um asteróide em rota de colisão. O mais velho encarou o menor e sua expressão de criança ganhando sorvete no passeio sem segurar o riso. Era cristalino o incômodo dele com a aproximação dos dois. Não queria nada com a moça, nem por questões fisiológicas, mas por inércia. Realmente apreciava a companhia dela e nada mais a acrescentar. Se Daniel havia visto algo a mais e prestou-se a um papel assim, qualquer dúvida possível sobre suas intenções foram sanadas.
— Posso saber por que desse ‘chega pra lá’ na coitada da guria? — perguntou, cruzando os braços.
— Como assim? — fez o sonso.
— Sério isso?! Pra cima de mim?!
— Não tenho culpa se ela resolveu se mordeu. Só preciso de dois minutos contigo.
— E precisava ser agora? Tô curtindo a música!
— Eu vi a cabine de fotos e quis tirar umas fotos legais. Só que sozinho não rola né?
De novo, o riso saiu por reflexo da boca de Alisson.
— Tá de zoação comigo?
— Olha bem pra mim e vê se eu tô brincando.
— E precisava ser agora? Comigo?
— A não ser que a boca da guria lá seja mais importante. Se não, bora lá.
Mesmo sem entender nada daquilo, o mais velho acabou por ir entrar na onda. Pouco compreendia daqueles surtos inexplicáveis do mais novo, mas os que tinha conhecimento sempre acabava em alguma coisa suspeita, capaz de atrair a curiosidade e fazer muros inteiros caírem por inteiro só com a força do dedo mindinho. Valia a pena o risco.
Chegando até a tal cabine — que, literalmente, fazia jus ao nome — de cor vermelha e com vários emojis colocados na volta de sua estrutura, o rapaz responsável sorriu, questionando se iriam querer tirar algumas fotos e ambos concordaram. Avisou então para que entrassem e fizessem as caretas as quais desejassem, sendo cada flash um registro de fotos, somando um total de cinco. Os meninos abriram então a porta da cabine, entraram dentro e tentaram se posicionar o melhor possível.
Antes mesmo do primeiro flash ser ativado, um estalo na mente de Dan o lembrou de que todas as oportunidades tidas de ter feito a diferença e não fez, ora por medo, ora por fraqueza. Sempre se colocou na frágil posição de vítima das circunstâncias mais absurdas. Entretanto, se quisesse mudar e atingir o que realmente almejava, tinha certeza quanto a necessidade de tomar atitude, agir como sujeito ativo dentro de sua própria vida e ter seu protagonismo de volta. Com isso em mente, puxou Alisson pelo pescoço e deixou que tudo aquela angústia ficasse para depois.
Os lábios macios e carnudos de Dan encontravam os do mais velho no afoito de conseguir extrair do ato os sentimentos até então reprimidos dentro da armadura de ferro do menor, pondo-se a mercê das atitudes e da curiosidade de provar Al. Mesmo um tanto desajeitado, procurando ainda as melhores condições e posições de condução, estava feito. E registrado. Cada novo flash eternizava o momento dos dois, ainda que durassem por dois segundos. Agora, tinham dentro deles a lembrança viva de um beijo eterno.
Para o mais velho era a conclusão de uma prova de maratona difícil de ser batida. Depois de tantos perrengues e descobertas extraordinárias sobre si próprio, ter a oportunidade concedida por Dan de tê-lo tão próximo quebrava os paradigmas com um só golpe. O peso daquele beijo em sua vida era tamanho que seu passado inteiro parecia se curvar aos preceitos. Seria inevitável dar seguimento aos desejos deles e sabia disso. Era uma caminhada sem retorno na qual não temia enfrentar o mundo se preciso fosse.
Só quando o último flash foi disparado seus lábios se desencontraram, deixando a cargo dos olhos fazerem a conexão outra vez. Respiravam com dificuldade, tomando fôlego depois de tanto esforço e vontade.
— Como? — o mais velho perguntou — Por quê?
— Queria saber se meu coração tava me trollando…Tô vendo que não — sorriu.
O coração de Al não podia estar mais feliz. Finalmente estavam em paz com suas respectivas consciências, podendo seguirem livres para amar e respeitar como bem quisessem. As amarras possíveis, vindas por conseguinte, apenas seriam reflexos de suas escolhas, as quais não se arrependeriam jamais. Ao menos, assim desejava.
Saíram da cabine agradecendo ao fotógrafo junto indo depois ao encontro dos amigos com um carnaval acontecendo dentro deles. Alisson, vendo Amanda logo de cara, tocou seu ombro direito, fazendo-a virar-se para ver qual seria o assunto. Notou nele um certo ar de desligado, como se tivesse acabado de enfiar o dedo na tomada e seu cérebro na luta para tentar entender o ocorrido. Ele pediu então que fossem conversar num cantinho mais silencioso a sós. Nada entendeu de imediato, mas aceitou o pedido. Foram então para mais próximos da recepção, afinal, por ser uma ocasião reservada, não havia ninguém pagando nada no caixa.
— Curtindo a festa? Quase não pus o olho em ti ou no pessoal! — comentou ela, enquanto Al andava de um lado para o outro.
— Mais do que eu imaginava que ia curtir — revelou, respirando fundo.
— Tô te achando uma pilha. Rolou alguma coisa com a tua mãe?
— Que mané minha mãe! Foi comigo! — exclamou, animado — Mandy, é ele. Não tem “mas” ou “porém”. É ele.
— O Daniel?!
Alison então sorriu, malicioso.
— Minha boca nunca encontrou sabor igual… — salientou — E por vontade dele, inclusive…
Por um instante, o chão todo ao redor ruiu. Mandy soube ali que o mundo, a partir daquele momento, giraria de outra forma…
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