A Teoria das Cores
76 Laranja VI
DIVERSÃO
Atravessar o dia-a-dia com um sorriso no rosto, ao mesmo tempo carregando uma história de vida cheia de dores, mágoas e indecisões, por muitas vezes, pareceu uma tarefa árdua de ser cumprida. Alisson, por vezes, conseguia realizá-la, ainda que alguns percalços fizessem questão de aparecer para provarem que não podia impor sua vontade sempre. Mas naquela manhã de sexta feira, acordou com uma ponta verde de esperança e ânsia de fazer acontecer.
Vestiu sua camiseta de banda, deu um jeito na barba rala que teimava em crescer em seu rosto juvenil, arranjou tempo até mesmo para dar um trato em seu cabelo com um pente enquanto não fazia uma visita ao cabeleireiro (algo nem tão comum assim, apesar do trabalho no “Wunder Bar” lhe exigir uma certa formalidade).
Marisa, quando viu o filho chegando no andar debaixo, estranho seu bom humor, dada a hora da manhã a qual acordara. Encarou aquela figura como quem vê um estranho pelado na rua, sem saber se ria, tremia ou corria. Al lhe deu bom dia, sentou a seu lado na mesa, puxando inclusive assunto — queria saber a razão de ainda estar em casa. A mãe foi entrando no clima descontraído mesmo desconfiada, pois não sabia o que esperar daquilo. Talvez por conta do desconhecido sempre causar um certo desconforto, a saída de uma rotina morna para algo grandioso e fora do comum.
Tomaram o café com aquela aura tão suspeita pairando sobre suas cabeças, sem qualquer tipo de explicação ou motivo mínimo aparente. Marisa conhecia bem aquele garoto rebelde o qual deu à vida dezoito anos antes — seus rompantes de bom humor eram sempre cercados de alguma “arte”, desde criança era assim. Observou-o dos pés à cabeça, na expectativa da primeira prova que o comprometesse. Como foi um fracasso na busca, resolveu ser mais objetiva, mandando a sutileza as favas.
— Pode-se saber qual a razão do patrocínio comercial pra pasta de dente? — questionou, irreverente, arrancando uma risada sincera do filho.
— Ué, não se pode mais ser feliz? — retrucou, no mesmo tom.
— Sem razão, soa como loucura.
— E eu aparento ter surtado de vez agora?
— Sim — debochou.
O menino gargalhou enquanto mexia o café na xícara e o encarava, lembrando do dia anterior e como ter conseguido ajeitar as coisas com Daniel fez a diferença. Um tanto irônico para ele, pois sequer tinha certeza de tudo ficar bem por conhecer o gênio do cão com o qual tinha se embestado a bater de frente. Não se arrependeu, afinal, os fins haviam justificado os meios.
A mãe seguia no aguardo de uma resposta enquanto os devaneios e sorrisos deste o levavam para alguns metros longe dali. Marisa, como raposa combatente em anos de experiência, sabia bem o motivo daquilo. Fato curioso a ela, pois nem mesmo a moça mais simpática a qual o filho escolheu ser sua namorada tinha lhe proporcionado um êxtase tão platônico. Tinha absoluta certeza de, fossem quem tivesse sido, havia arrematado aquele coração rebelde de jeito.
Mesmo com dó no coração por ter de atrapalhar a “viagem” do filho, Marisa encostou sua mão de leve em seu braço para trazê-lo de volta a realidade. O rapaz voltou um tanto quanto desligado, demorando alguns segundos a se reestruturar. Ao notar a mãe lhe fitando com olhar de mãe coruja, e ciente de sua possível insistência, acabou por falar uma “verdade mentirosa” — o misto perfeito entre fatos verídicos e mentiras muito bem articuladas.
— Vou passar com o qualitativo máximo esse ano… Em algumas matérias — enfatizou, brincando. Como esperado, a mulher pegou-o no pulo.
Marisa suspirou, pegou as duas mãos do filho e olhou bem fundo, fazendo-o sentir como se o visse nú diante de tudo aquilo que escondia e omitia, por vezes, até de si mesmo. Suas mãos começaram a soar frio, mas a mãe prosseguiu segurando-as carinhosamente, a fim de mostrar que estava ali como amiga, não juíza.
— A última vez que vi alguém assim foi quando Edu e eu nos tornamos namorados — o menino baixou a cabeça, em um misto de vergonha e desconforto florescendo dentro do peito como um bolo com fermento demais — Ele me levou para o alto do morro aqui da cidade e ficava rindo, todo bobo e eu, idiota apaixonada né, nem me ligando no que havia. Quando ele me abraçou e sussurrou perguntando se eu e ele poderíamos formar o nós…
— A senhora quase empacotou — Al brincou.
— Guri, eu não queria mais nada na vida! — exclamou, lembrando emocionada — E isso, filho? Isso que deixou teu dia mais feliz?
O bolo que crescia dentro do estômago de Al, de repente, se viu transbordando, e a massa caindo pelos lados sem ele ter a mínima noção de como proceder. Acreditava nas boas intenções da mãe e no seu amor, todavia, suas dúvida ainda não estavam plenamente respondidas a ponto de se sentir confiante em abrir o jogo todo. A escalada para vencer o jogo ainda não havia sido concluída, julgando então que, diante disso, o melhor era preservar os acontecimentos e deixar as coisas irem acontecendo uma de cada vez.
— A vida resolveu me dar uma chance. Só isso mesmo — sorriu, levantando da cadeira, seguindo até a mãe e lhe dando um beijo na bochecha.
Tomou o restante do café bebido às pressas e saiu a busca de sua mochila, enquanto Marisa ainda maquinava seus pensamentos acerca do filho. Seu menino estava longe de ser quem era apenas dois meses antes — cheio de manias, rabugices e comportamentos indevidos. De fato, tal como ele próprio afirmara, o universo parecia estar sendo um bom professor, lhe passando com exatidão as lições que o faziam menos menino e mais homem.
Antes do filho praticamente voar porta fora rumo à escola, Marisa gritou da cozinha “Eu te amo”. Mas não foi dito em vão ou de qualquer jeito, e sim, como uma forma de acolhimento, apreço e o próprio amor que sentia diante daquele ser que ajudou a pôr no mundo. Al, ao ouvir aquilo, parou, deu meia volta e foi a cozinha como um corcel indomável. Encheu seus pulmões de ar e falou com convicção.
— Eu tô sabendo que a senhora tá bem a fim de fazer o Edu vir pra cá e tal... Sei que rolou aquela treta do meu pai, e… — coçou a nuca.
— E? — o coração da mulher palpitava em ritmo frenético a espera da resposta.
De novo, Al respirou bem fundo antes de proferir as palavras.
— Quero que a senhora seja feliz, mãe. E não é justo que eu corra atrás da minha felicidade e a senhora seja obrigada a ficar na sombra.
A pupila de Marisa dilatou diante daquela colocação tão inimaginável pouco tempo antes. Uma lágrima tímida escorreu de seu rosto ainda bem juvenil. Suas mãos tremiam e as palavras pareciam ecoar em sua mente, fazendo-a entrar num transe semelhante ao do filho pouco antes. Não tinha palavras que a fizessem descrever o orgulho que cresceu em seu peito — Alisson havia compreendido, afinal.
— Então… Se ele vier pra cá…
— A senhora tá no seu direito — presenteou a mãe com um belo sorriso, genuíno e sincero — Também te amo, mãe.
E assim o rapaz seguiu para mais um dia na escola, enquanto a outra segurava para as lágrimas não escorrerem, acabando com sua maquiagem e obrigando-a a fazer uma nova em cima da hora. Tarefa difícil quando o peito transbordava de emoção e felicidade diante de uma atitude tão inesperada. Pela primeira vez em anos, sentiu-se livre para amar e ser amada. E, de quem mais ansiava apoio, finalmente, tinha conseguido.
Ter o apoio de Al agora era o melhor que poderia ter acontecido. Torcia para essa sensação perpetuar para a paz reinar em sua vida após tanta luta e sacrifício. Acreditava que sim, e seu coração parecia acreditar também, dando para ela a segurança de conseguir ser feliz sem precisar olhar para trás.
***
Aceitar que errou e seguir em frente é tarefa para os mais corajosos e honestos de nós. Aqueles cuja capacidade de se olhar no espelho e viver com cada momento ou decisão cujos resultados poderiam/foram catastróficos, parecem atingir o nível máximo de plenitude emocional possível. Há aqueles, porém, que vivem as sombras de seus feitos, remoendo-os eternamente como se uma maldição tivesse sido lançada sobre si. E dentro de uma mesma casa viverem duas personalidades com essas características tão antônimas é um desafio e tanto para as forças regentes do universo.
Ian e Daniel, todavia, não eram como água e azeite, mas sim, água e açúcar. Misturavam-se na tentativa de criar um novo tom, consistência e sabor a vida um do outro. Como primos ligados que eram, essa busca, muitas vezes, culminava em situações tristes, outras alegres, e até na composição homogênea dessas duas sensações. O beijo sem qualquer propósito antecedente da noite anterior, por exemplo, era o caso perfeito, onde a virtude e o pecado se uniam e faziam a festa.
De um lado, o garoto dos olhos azuis saltitava de alegria e bom humor; de outro, Dan encolhido debaixo das cobertas pergutando-se quais as chances daquele dia ser evitado. Para piorar, sabia do trote da troca de roupas, o que deixava a situação ainda mais constrangedora a si. Diante do acontecido tão recente, sentia-se como um rato prestes a ser devorado, como se qualquer movimento, por menor que fosse, pudesse fazê-lo ser engolido por uma onda gigantesca de críticas, olhares de repugnação e zombaria.
As únicas partes do menino fora da coberta em tons de cinza eram seus olhos e nariz, Estava estático olhando para seu trevo e pensando na desculpa mais convincente possível para não arredar o pé dali. Sabia da cobrança que viria em cima disso, porém, era um preço disposto a pagar. Encontrar os lábios de Ian lhe lançando um sorriso sádico com um toque de malícia, definitivamente, não era o que necessitava.
O universo não conspirou a seu favor. Logo ouviu três batidas na porta e a voz do dito cujo alertando sobre seu possível atraso a escola caso não desse jeito na vida. Dan resmungou para si, baixo, como se já não tivessem coisas suficientes para resolver. Ian, com seus ouvidos aguçados, perguntou o que o primo falara só para ver se ele teria coragem de repetir. Como deduziu, não teve. Riu, abrindo a porta devagar enquanto isso (Pois ao contrário do habitual, Dan esquecera de trancar a porta com a animação depois de ter “ganho” a brincadeira).
O mais velho entrou quase na ponta dos dedos, com um certo temor de sua “besta fera” tomar alguma de suas decisões irracionais pouco agradáveis. Notou seus olhos focados no trevo e seu casulo de cobertas. Sorriu, sentando de leve na cama e colocando sua mão bem próxima do rosto do mais novo. Este voltou do transe, encarando espantado a figura a sua frente, pouco compreendendo de sua razão ali. Ao notar a confusão, Ian explicou sobre a porta, fazendo o outro revirar os olhos e entrar embaixo das cobertas outra vez.
— Vai ficar aí então? Posso ir trabalhar? — perguntou o menino de olhos claros, sem maiores delongas.
— Deve! — exclamou o primo, tapando-se por completo — Me deixa aqui. Quero dormir.
— Levanta, Dan! Anda! — sacudiu o primo em cima da cama — Tu tem que estudar ou tua mãe vai presa! Anda!
— Não por uma falta só!
Vendo ser inútil tentar argumentar, ameaçou de urinar em cima dele caso não parasse com sua mãe infantil. Sem duvidar do potencial do primo em fazer chover porcos do céu, Daniel acabou acatando a ordem na hora, sentando na cama e coçando os olhos. Ian, sempre indiscreto, lançava seus olhares mais sedutores, arrematadores, enquanto admirava o menor acordando na força do ódio. Pouco se importava com aquela ceninha boba! Ver o peito nú de Dan exposto ao frio enquanto ele tomava os primeiros raios da manhã era algo que, se fosse por sua vontade, tomaria como bater continência.
O outro percebeu, como era de se imaginar. Aquela altura, muita coisa havia acontecido e pouco do que poderia falar serviria de argumento sólido para Ian se retirar e deixá-lo quieto com seus pensamentos. O olhar do primo penetrava sua pele como as garras de um tigre feroz, depois de ter passado dias faminto. Forçando um pouco a mente, podia lembrar das mãos de dedos largos e finos do primo lhe tocando a pele quando tomaram banho na cachoeira, nús, sozinhos, apenas a natureza de testemunha daquele retrato de como tudo começou a mudar. Sabia que não custava muito para acontecer de novo — talvez até pior do que da primeira vez.
Numa tentativa desesperada de demonstrar autocontrole, Daniel engoliu seco, pegou a primeira camiseta que encontrou em cima da cadeira em seu quarto e vestiu, para a tristeza do mais. O deleite, ao menos por hora, havia acabado.
— Acordar e dar de cara com uma assombração. Ninguém merece — reclamou, arrancando mais um sorriso doce do primo.
— Poucos têm esse privilégio pro teu governo — foi a réplica enquanto mexeu nos cabelos já bagunçados do outro.
— Em uma escala global, talvez. Agora, Porto Alegre e Nova Petrópolis com certeza pouquíssimos não viram.
O garoto de olhos claros sorriu, coçando a sua nuca, sabendo da veracidade da informação. Passou então a encarar o primo em seus olhos para, de alguma forma, ficarem unidos, nem que por meros instantes. Levou sua mão direita ao encontro da pele sensível do outro, arrepiando-o ao mesmo tempo em que uma calma descomunal lhe tomava por dentro. Era como um toque de anjo, cujos poderes iam além de sua limitada compreensão.
Dan permanecia inquieto diante da nova investida do mais velho, pois, ainda que lhe transmitisse serenidade, trazia à tona aqueles velhos questionamentos tão intrigantes e responsáveis por assombrar sua vida. A possibilidade de desenvolver algo muito além do que um amor fraternal causava um tremor tão intenso em sua alma, que a sensação mais próxima possível seria a de um terremoto seguido de um furacão e tsunami. Ao mesmo tempo que era paz, Ian também era a guerra.
A única pergunta a qual Dan sempre remetia em momentos como aquele era: Por que diabos ainda aceitava? Estaria tão carente a ponto do toque singelo do primo lhe confundir a cabeça? Ou teria mesmo a obviedade em cada movimento dele em relação a si tenha, finalmente, surtido efeito?
— Posso garantir que quem viu, curtiu — a mão delicada do mais velho passeava pelo rosto de Daniel, parando em alguns momentos em seus lábios — E quis de novo.
— J-já vi desde piá. Cansei — apesar do nervosismo, tentou manter um clima descontraído. Em vão. Ian já armava o bote como uma aranha cercando sua presa minúscula e indefesa.
— Não foi o que pareceu ontem — rebateu, para o desespero do outro — Aliás, a impressão que tive foi de… querer mais — foi se aproximando mais do menor enquanto a respiração desse se tornava pesada e suas entranhas se enrolavam em um nó gigante difícil de ser desatado — e tu sabe que pode ter mais.
Daniel tentava fugir dos olhares intensos e sedutores do primo, pois eles eram os principais algozes diante da batalha de sentimentos ocorrida em sua mente desde quando deu a primeira chance de um rapaz juntar os lábios aos seus. Eles cercavam seus olhos e os envolviam de tal forma que cedia de livre e espontânea vontade, não como uma vítima diante de um ser violento, mas sim, alguém com a certeza de que seria amado e respeitado… mesmo que fosse por um homem… mesmo que fosse por seu próprio primo.
— E… por que eu iria querer mais? — tentava, nos últimos esforços de resistência, lutar contra aquela vontade que já tomava conta de si a cada aproximação de Ian, como se ele fosse capaz de, com sua presença, tornar tudo possível e palpável.
Ao fim, Ian chegou perto de sua orelha esquerda, sussurrando com os lábios sorridentes e maliciosos.
— Por isso não te fazer mal — mordiscou a orelha, fazendo Dan fechar os olhos e sentir suas mãos e pernas tremerem — Por te fazer ter tesão. Só por isso.
Assim que o mais velho voltou a pôr os olhos nos do mais novo, tal qual na noite anterior, uma força uniu os dois de forma tão inesperada e intensa, que o fato do garoto de olhos escuros como a noite puxá-lo para um novo beijo, fez seu coração pular algumas batidas.
Daniel tinha suas mãos dominadas pelo desejo ardente de provar de novo aquela boca tão macia e bem desenhada, como se sua vida só fizesse sentido após assim o fazer. Não satisfeito em manter seus lábios unidos, fez suas mãos percorrer o pescoço do mais velho, indo por dentro de sua camiseta xadrez e puxando-o cada vez mais para perto de si, como se quisesse unir ambos em um só ser.
Passado o choque inicial, o primo também conseguiu reagir às investidas, tratando de acompanhar o ritmo frenético no qual aconteciam. Ajudou Dan a tirar a camisa recém posta de novo para ir em direção aos seus mamilos, alternando língua e mordiscadas (tinha um certo fetiche nisso). Via o corpo deste reagir, com a ereção debaixo das cobertas ansiando para sair dali. Deixou assim por hora, pois ficara louco vendo Dan perdendo os sentidos e se controlando para não gemer. E tinha medo da possível reação do menino caso fizesse algo mais extremo.
O garoto mais novo logo puxou Ian para cima a fim de realizar um novo beijo, seguindo com as mãos deslizando sobre o corpo dele. Quando chegou na cueca, no entanto, parou e ficou estático por dois segundos.
Tinha se dado conta.
Buscou se afastar de forma um tanto brusca do mais velho. Este, o encarava confuso, pois não entendia o que raios acontecera. Daniel saiu da cama e sentou no chão de seu quarto, de pernas cruzadas, enquanto passava as mãos por seu rosto, incrédulo com a cena protagonizada por eles. Quando Ian percebeu o desespero do primo, foi indo com cautela ao seu encontro, sentando ao seu lado e abraçando-o com toda calma do mundo.
Algumas lágrimas involuntárias começaram a escorrer do rosto do menor, que não negou o abraço do outro. Por mais “culpa” que ele tivesse, ainda era seu alicerce diante de qualquer problema — principalmente daquele. Sabia o quanto ele seria prestativo e solidário para com sua atitude, ainda que aquilo lhe fizesse sofrer mais do que se tivesse sido duramente rejeitado.
Aliás, para Ian, de fato aquilo era pior do que qualquer episódio de estupidez o qual Daniel lhe causou no passado. As duras palavras quando ele lhe flagrou com Gil na sala de sua casa trocando carícias quentes faziam até rir diante daquele mesmo garoto, outrora tão prepotente, agora, vendo-se como uma frágil criatura que só necessita de colo. A vida tinha lhe ensinado uma lição, a qual Ian jamais pensou ser possível — o quanto sofremos quando não nos conhecemos.
Após poucos minutos apenas no abraço, Daniel se levanta, desmotivado e chateado consigo mesmo, vai até o guarda roupa e em seguida ao banheiro. Já o primo ficou sentado ao chão pensando em como fazer o menor entender sua personalidade e aceitá-la. Tarefa difícil diante de tantas recaídas e momentos de indecisão, contudo, o garoto não se dava por vencido. Prometeu a si mesmo que ainda o veria sendo feliz e faria o impossível para tal.
Foi até o banheiro, onde viu o primo já embaixo do chuveiro, calado, ainda com olhar distante e perdido.
— Dan… — chamou por ele, que imediatamente o encarou, ainda sem dizer uma palavra — Sobre agora pouco…
— Tá tudo bem — tentou esboçar um sorriso forçado.
— Não tá. Infelizmente — o garoto tornou a coçar a nuca — Sei o quanto isso é difícil pra ti, o quão novo é tu sentir atração por um cara e —
— Ian, por favor. Só me dá um tempo ok? — o pedido soou quase como uma súplica de clemência — Tá tudo bem. Não vou surtar contigo se é essa tua preocupação. Rolou e pronto. Só… me deixa processar isso.
Mesmo sem ter ciência se essa era a melhor solução, o garoto deu uma chance a intuição do menor para ver se assim o processo se desenrolava. O único ponto positivo o qual conseguiu notar foi a desenvoltura, ainda que sob uma óptica beirando a frieza e apatia. Daniel, em sua opinião, pareceu um pouco mais maduro; confuso, sim, mas já com uma melhora substancial.
Lançou um sorriso quase forçado, ao mesmo tempo, genuíno para o primo antes de deixá-lo tomar banho em paz. A sua visão das coisas pareceu confortar seu coração atordoado por ver o sofrimento nos olhos de quem tanto amava. Com isso, conseguia sair com a consciência tranquila.
— Eu tô aqui. Sempre. Pro que tu precisar — disse, antes de sair do banheiro.
— Valeu, primo — agradeceu, de coração.
Ficou ali refletindo enquanto se banhava por dez minutos, quando saiu, secou-se e foi em direção ao seu quarto. Escolheu qualquer coisa aceitável para vestir e se atirou na cama outra vez, fazendo o perfume do primo subir por suas narinas, lembrando sobre tudo aquilo mal resolvido em sua vida. Queria muito poder ter uma resposta fácil, prática. Mesmo assim, tinha consciência de que tudo que vinha fácil, iria fácil — o próprio ato de reatar com Vanessa era um exemplo claro de como aquilo podia dar errado.
Então, o que ainda faltava aprender? Mal teve tempo de formular a pergunta quando, de repente, a vibração de seu celular o faz voltar sua atenção ao mesmo. Pela notificação, notou quem era — Alisson. O menino avisou que já estava na escola e que, sabendo de sua patetice, havia falado com Sabine para conseguir uma roupa que seria a sua cara.
“Vai ficar uma graça com essas pernas cabeludas de fora”
O deboche do amigo foi o suficiente para tirá-lo daquela crise de consciência e arrancar um riso, ainda que tímido, de sua boca. Afinal de contas, talvez ir a escola lhe fizesse bem. Tratou de pegar sua mochila e ir caminhando em direção a escola, sem nem se tocar o quão próximo estava de sua lição mais valiosa.
***
Jeferson acordou aquela manhã mais animado do que sambista no carnaval. Como previsto, os convites para seu aniversário já haviam chegado e os planos para que a festa fosse realizada no “Wunder Bar” acertados. A vontade de ver tudo montado e pronto para recebê-lo quase fez sua mãe ter um ataque com o rapaz, pois o menino regrediu em dez ano o comportamento diante de seu sonho realizado.
O tal cartão era personalizado e com a cara dos gostos de Jeff — ou melhor, do gosto, afinal a festa foi toda planejada nos moldes de Star Wars. A parte frontal metalizada com uma foto do rapaz vestido como o protagonista do filme junto aos amigos da tropa em uma montagem extremamente bem feita, e na parte interna a devida convocação para a festa com bordas feitas de sabres de luz. O sonho da criança interior do rapaz.
Saiu de casa cedo, acordando também Sabine com seu caminhão de mensagens de quem acabou de ganhar na loteria. Apressou o passo para chegar lá antes da moça visualizar e se aprontar antes dele conseguir ser pontual e cumprir os horários que estipulou. Deu bom dia ao porteiro e subiu as escadarias como quem vai apagar um incêndio, apertando a campainha no momento exato no qual a menina estava indo buscar o jornal do pai na caixa de correio do prédio. Ainda estava completamente descabelada e com uma cara de assassina em série medonha. Apesar disso, tentou usar o bom humor e a sátira para arrancar uma risada dela, só recebendo um dedo do meio e uma cara recheada de blasé.
Foi junto a garota até o térreo buscar o tal jornal e o resto da correspondência dos pais, sem parar de tagarelar um minutos sequer. Sabine ouvia tudo calada, revirando os olhos e torcendo para uma gota de saliva entrar enganado nos pulmões do “amigo” e, por uma triste fatalidade, lhe fazer ficar quieto pela eternidade. Odiava aquele falatório nos primeiros 30 minutos de seu dia — precisava deles para entender quem era na vida e quais os seus planos para a vida e o que faria para realizá-los naquele dia. Mesmo tendo convivido por dias durante a viagem, Jeff parecia ter esquecido tudo.
Quando chegaram em seu andar, em um nível o qual a garota já pensava em se jogar da primeira janela para ver se tinha um pouco de silêncio, ela não aguentou. Deu um berro tão alto no corredor que até cães dos andares superiores e inferiores começaram a latir. O “cala boca” escalafobético ao menos serviu para acalmar os ânimos de Jeff, deixando a garota assim mais calma.
Antes de entrarem no apartamento, porém, viram algo tão estranho que fez aquela picuinha parecer mera birra juvenil. Encontraram Vanessa descendo as escadas, com um semblante de uma pessoa recém saída de um hospital e em processo de recuperação. Só não estava tão “cadavérica” pois ainda tinha em si um brilho especial, algo que ainda dava um charme e ajudava a esconder um pouco o quão abatida estava — provavelmente em virtude dos acontecimentos tão difíceis.
Deu um bom dia fraco ao casal de amigos, cujos olhares lhe acompanharam até sumir de vista. Diga-se de passagem, olhares suspeitos, desconfiados e até mesmo preocupados. Pareciam intrigados com a diferença no comportamento da moça, mas não tiravam dela sua razão. Ao entrarem, ajudaram Alícia, mãe de Sabine, a montar a mesa de forma rápida enquanto conversavam sobre as razões pelas quais Van parecia ter voltado de um enterro.
O assunto, para infelicidade da loira, não durou muito, pois sua mãe tratou de perguntar o porquê da visita tão cedo e Jeferson tornou a abrir a boca e falar mais do que sua língua aguentava. No entanto, Sabine seguia intrigada em seus pensamentos sobre aquela visão e chegou até mesmo cogitar a hipótese de alertar Dan para, quem sabe, resolver o problema. Sabia o quanto fazer aquilo lhe soava estranho, esquisito e, de certa forma, como sabotagem ao próprio sentimento o qual havia sido reprimido com a presença de Jeff. Era o certo a se fazer, em seu pensamento, mas por que estava tão temerosa em tocar de novo no assunto com o ex namorado da menina?
Enquanto tentava responder a essas e outras perguntas, foi tomando seu café e buscando dar o mínimo de atenção a Jeff e aos pais, os quais não pareceram se incomodar em nada com a presença do menino ali. Alícia, inclusive, lançava olhares sugestivos a filha. Sentia-os empurrando-a para cima do rapaz sem que ele tivesse a chance de qualquer argumentação. Revirava os olhos, mas acabava por rir, pois sua mãe arqueava as sobrancelhas juntos de forma tão engraçada que lhe remetia a séries americanas. Um café da manhã um tanto atípico.
Tomado o café, ambos ajudaram rápido com a louça e foram direto para a escola. Jeff, apesar de descontraído, percebera o interesse da garota no estado de Van e o quanto ela parecia não tirar a cena da cabeça desde que viu. Questionou, a fim de obter alguma resposta coerente. No entanto, a garota pouco disse a respeito, apenas o quão estranho aquilo era. Insatisfeito, pressionou de novo, mas a garota voltou seu assunto a festa do garoto para ter tempo de raciocinar e, de fato, pensar em alguma solução para o problema.
Quando chegou na escola, surpreendeu-se, assim como os amigos que foram chegando depois, da nova aproximação de Alisson e Daniel. Foi o tempo de Jeferson entregar eufórico os convites para os garotos começarem a caçoar um do outro, ainda que, no fundo, Sabine visse que Al era o mais animado deles. Não compreendia a razão, mas as teorias a respeito, no fundo, faziam-na ter calafrios…
***
O sino ecoou pelos corredores da escola alertando que o horário do intervalo havia chegado. Os terceiros anos, claro, foram de longe os mais empolgados, afinal de contas seria mais uma experiência no mínimo curiosa para lembrarem ao longo da vida. Alguns alunos, no êxtase da empolgação, haviam se animado e vindos já de casa arrumados para aqueles quinze minutos de zoeira e bobagens juvenis.
No grupo de amigos, Amanda e Adrian foram os primeiros a conseguirem as tais roupas e trocá-las. Como o estilo de ambos era, no fundo, bem semelhante, ficou quase o elas por elas: uma camiseta com estampa de banda e uma calça com alguns rasgados na costura, sendo o único ponto diferencial era o tênis dele usado por ela e a bota dela usada por ele.
Jeff, mais animado com a brincadeira, conseguiu um vestido vermelho, um salto (com a mãe) e até uma peruca loira (sendo esta última arranjada perto da loja onde trabalhava! A maquiagem foi gentilmente oferecida por algumas meninas, aproveitando ao máximo aquele momento para quebrar a frágil masculinidade de seus colegas.
Sabine, em concordância com Alisson, conseguiu umas roupas do garoto. Sentiu-se um saco de batatas vestindo a larga camiseta com estampa de caveira do menino, afinal o porte dele era maior do que o seu. O boné em si não foi um problema. O costume de usar seu Fedora preto de abas largas serviu para algo. A calça moletom também poupou esforços para vestir, pois sentiu-se mais confortável do que usando suas saias xadrez com meia calça.
Já os dois meninos restantes, Al e Dan, a coisa foi um pouco mais curiosa. Por mais que tivessem conseguido as roupas, os banheiros pareciam a entrada de um formigueiro, devida a alta demanda de seus usos (fosse pelos próprios terceiros anos ou pelos próprios alunos das demais turmas). Os garotos, dominados pela preguiça, não mostraram ânimo em ir até o vestiário da quadra para se trocarem, ficando sem muitas opções. Al, atento a uma delas, compartilhou-a com o amigo, ainda que esta fosse um tanto quanto estranha.
— Consegue uma toalha aí, pateta — falou.
— Pra quê? — Dan não entendia qual a razão.
— Um de nós dois segura a toalha em algum canto pro outro poder se trocar.
— E pretende fazer isso onde?
— Aqui, ué!
— AQUI?! — exclamou, com surpresa — Tu bebeu?
— Larga mão de ser chorão e consegue uma toalha com alguém aí. Acho que o Vinícius tinha uma. Fala com ele.
— Mas pra que—
— Vai, c*r*lho!
Espraguejando e resmungando como todo bom ranzinza, saiu em busca do tal colega com a toalha. Perguntava-se para que o menino o fazia se, mesmo com a desculpa da Educação Física, a escola fornecia uma para cada aluno. No entanto, não achou a melhor hora de entender manias com as quais não tinha ligação — até porque Al lhe encheria o saco caso assim não fizesse.
Diante de todo o ocorrido com Ian, a última coisa que precisava era ver o amigo semi nú em sua frente. O constrangimento lhe fazia ferver a face só com a ideia passando por sua cabeça e armando barraca — aliás, indo para o sentido mais literal e físico desta expressão, seu corpo também reagia. Tantas situações estranhas acontecendo entre eles estava fazendo seus parafusos afrouxarem ainda mais.
Não bastasse seu medo, Vinícius parecer um agente do governo ultra secreto com tantas perguntas por conta do usufruto de sua toalha. O garoto parecia realmente atordoado com a ideia, fazendo Dan se irritar ainda mais com seu toque. Quando o outro tentou explicar sem avançar em seu pescoço, a situação se agravou. Mais uma tonelada de perguntas e recomendações, cuja culminação foi um “Tá bom, vou esfregar isso aqui na bunda e te devolvo. Ok?”.
Retornando a Alisson, o garoto lhe encarava segurando o riso o máximo que conseguia — e a cara amarrada apelidada por ele de chihuahua valentão dava mais vazão.
— Por quê? — foi a única coisa a qual Dan queria saber.
— Pra alegrar teu dia — o riso já escapava sem que pudesse controlar — Ele foi meu colega ano passado. Sabia dessa mania insuportável com germes e o c*r*lho lá. Imaginei que seria divertido apresentar vocês dois.
— Tu devolve a toalha. Caso contrário, enfio essa m*rda pelo c* dele que nem com cirurgia vai sair — alertou, para o deboche de Alisson.
— Cala boca aí e segura isso direito pra eu me trocar — ordenou, indo em direção ao canto mais próximo para assim o fazer.
Como previamente deduziu, ver o garoto expôr cada parte de seu corpo era tarefa cujo nível de constrangimento ultrapassava os limites conhecidos. Era terrivelmente estranho ser obrigado a ficar fugindo o olhar para que Al não percebesse o quase descaramento com qual seus olhos percorriam seu tórax, coxas e outras coisas mais no breve momento em que ficaram expostos a eles. O coração por pouco não saiu de dentro do peito e começou a dançar. Queria mentir a si mesmo que era devido a fragilidade do acontecido de manhã cedo, todavia, era inútil — Alisson havia mexido com seus brios, só estava fugindo disso e a ficha começava a querer cair cada dia mais.
Quando foi a vez deste sair e deixar Dan se trocar, apesar da semelhança entre as situações, a visão com a qual encarou parecia de maior conformidade. Algo dentro de si já sabia que o amigo marrento lhe provocou uma sensação nova e não conseguia ser tolo suficiente para negar isso depois de tudo. Presenciá-lo se masturbando e sentir prazer com isso era a prova mais do que incontestável de uma nova visão perante aquele corpo de pele bronzeada, com leves músculos dando as caras. Mexia consigo, com cada célula de seu ser, e estava difícil omitir isso. Vê-lo constrangido enquanto tirava suas roupas e colocava as novas só fazia sua mente maliciar.
O problema é que ela ficou tempo demais focada na parte traseira do garoto que acabou por ser pega no pulo — Daniel lhe chamou de volta a terra, mais sem jeito do que nunca, pedindo para que virasse o rosto enquanto ele se vestia. Para atazanar sua vida, Al reagiu ao pedido.
— Para de frescura que quando foi minha vez fiquei peladão de boa — nunca, nem em seu pior momento, deixaria a insegurança ficar aparente do rapaz. Gostava de ser o caçador, jamais a caça.
— Se tu parasse de olhar minha bunda, talvez ficasse mais fácil mesmo — revidou.
Mesmo não falando isso de forma relativamente alta, a fala estranha atraiu os olhares de alguns dos presentes na sala — inclusive dos próprios amigos. A saia justa por pouco não fez Al ficar sem palavras, dando assim a falsa sensação do gostinho da vitória ao outro e a garantia de sossego para terminar suas vestimenta. Claro, estava enganado. Alisson não iria sair de uma situação daquelas como tarado a troco de nada.
— Bah, não sabia que tu curtia buzanfa de macho, Al! — um dos colegas resolveu atiçar a fera, tirando sarro.
Ao contrário do que faria em outras circunstâncias, o garoto preferiu aumentar a perplexidade da coisa e envolver Daniel até o último fio de cabelo no vexame diante de todos.
— Curto só da minha mina — virou para Dan de volta e encarou-o, chamando sua atenção — Né, gata?
O menino trocou de cor. O tom bronzeado de sua pele, por um momento, pareceu ficar branco como a neve, sem saber onde se enfiar. Os colegas é quem ficaram com ares de deboche, soltando um “Bah!” longo e recheado de risadas sátiras, sarcásticas e maliciosas.
— Retira o que disse agora — ordenou, ainda nervoso.
— Ou o quê? — provocou, se divertindo com a maldade plantada — Vai me unhar?
— Ah, seu— quando fez menção em correr, Alisson o advertiu.
— Lembra que tu tá pelado, hein? Não quer que todo mundo veja essas duas melancias aí. Ou quer?
— AH! SEU!
Daniel terminou de por a tal saia o mais depressa que sua raiva permitiu, só para, em seguida, sair disparado atrás de Alisson para lhe fazer engolir cada uma de suas palavras. Para o mais velho, a diversão estava garantida pelo resto da manhã. Para outros, porém, era prova mais do que suficiente de que havia algo muito forte acontecendo ali, mais do que a bobice permitia ver — mas o olhar atento de Sabine havia pegado cada palavra e gesto dito pelos dois, e já processava tudo de forma absurdamente chocante…
***
Depois de passarem alguns minutos correndo pelo pátio vestindo roupas que chamavam atenção para suas figuras, Dan e Al só pararam com o aviso da diretoria sobre o recreio prolongado em comunhão com a confraternização dos terceiros anos. Para os alunos, uma verdadeira festa. Logo uma voz ecoando do ginásio esportivo do colégio chamou-lhes para prestigiar alguns minutos de música e se deixar contagiar pelos ritmos frenéticos. Claro que os rapazes não ficaram de fora, afinal de contas, curtição era essencial num dia tão atípico.
Logo após algumas músicas mais chicletes, estilos mais ecléticos deram as caras e trouxeram até os mais tímidos para a quadra. Alguns tentavam improvisar passos aleatórios; outros com dancinhas mais bobas feitas com o único propósito de entreter por alguns minutos; e Al e Dan, bem como seus colegas de aula de dança, até tentavam coisas um pouco mais incrementadas. Os dois rapazes, entretanto, de longe se destacavam com sua habilidade quase natural, atraindo olhares das mais diversas índoles.
Ao tocar uma das músicas da aula então… impossível conter a vontade de mostrar a que veio. Muito cuidadosos com os passos que faziam ao som de Love You Gently do cantor Usher, os meninos usaram e abusaram da sincronia com os ares da música e de seu tato frente as notas musicais e elevações dela. Apesar de diferentes, a dança acabou por gerar uma roda em torno deles, como se uma energia cósmica tivesse sido gerada e sendo alimentada pela admiração (e de alguns até inveja) da desenvoltura exemplar. E quando a música acabou, não foram poucas as palmas e aplausos. Felizes, ambos trocaram olhares vitoriosos, de quem realmente estava no rumo certo e seguindo o que o coração mandava.
Quando Lonely Is The Night começou a tocar, grande parte dos alunos zoou, achando melosa demais para o clima, mas acabaram por dançar mesmo que por mera brincadeira. “Casais” de diversas tribos se uniram para tal, atraindo risadas e encarando tudo na esportiva; Já casais de verdade aproveitaram para viver mais um dos momentos clichês que só quem ama pode sentir. Al e Dan é que não sabia exatamente o que fazer — Jeff tirou Sabine quase à força para dançar, mesmo a garota tendo cedido depois; Amanda e Adrian só não estavam mais colados pois as leis da física os impedia de tal… Sobraram apenas ambos olhando um para cada lado, com uma vergonha incomodativa a qual nenhum sabia explicar a razão de existir.
— Não vão dançar? — Mandy, a mais próxima deles, questionou.
— Com quem? — foi a réplica de Dan — Todo mundo já se ajeitou.
— Vocês dois, ué — Adrian afirmou, em tom de brincadeira.
— O QUÊ?! — ambos pareceram surpresos com a sugestão.
— Ah, por favor! Não vão morrer se dançarem juntos — a namorada do jogador tentou justificar.
Alisson, apesar de surpreso, encarou Daniel para ver qual era sua reação. Como esperava, seu olhar clamava histérico para ele nem cogitar uma hipótese daquelas. Seu gosto por atormentar a vida do amigo, para infelicidade deste, não lhe deixou escapar ileso. De forma muito rápida, pegou-lhe pelo braço e encaixou perfeitamente contra seu corpo, começando a dançar e arrancando algumas risadas de Adrian e Amanda.
Para ambos, no entanto, após os primeiros deboches, a graça foi dando lugar a outras sensações um pouco mais profundas, introspectivas, as quais faziam até mesmo seus sentidos mais primatas se manifestarem através de cada troca de olhares que faziam enquanto os passos eram dados. Al, sendo poucos centímetros maior, ficava hipnotizado encarando aqueles olhos castanho escuro que, nos últimos tempos, tirava sua paz e fazia-o questionar sua própria razão de ser. O estranho incômodo no estômago, aos poucos, tornava uma forma a qual ora lhe assustava, ora trazia uma vontade imensa de se jogar e esquecer do mundo ao seu redor. Suas mãos, sem que percebesse, pressionou Dan ainda mais perto de si, deixando seus rostos a uma distância arriscada e suspeita para o ambiente onde estavam. Podia sentir a respiração do outro ficar arrítmica com o simples gesto.
E o menor, tão hipnotizado quando o maior, ficou com as pernas duras, pouco conseguindo se mexer com tamanha aproximação. Sua mente já não raciocinava direito, perdendo-se entre a vontade de sair correndo dali e jamais olhar para trás e nem na cara de Al e permanecer ali para o resto de seus dias. Ao mesmo tempo que incomodava, fazia lhe sentir bem. quase como palpar uma rosa com espinhos — seguramos apenas para ter o gozo de encará-la bem próxima e sentir seu contagiante perfume, ainda que ela nos cause algumas dores. Diferente do ocorrido com Ian, os pecados os quais aquela atitude poderiam representar não faziam um só arranhão em si. Era como se, perto de Alisson, tudo fosse possível, tudo fosse palpável. Acabou por apertar um pouco mais o entrelaço de suas mãos, como se sentisse segurança nelas. Assim ficaram até que a música terminasse de fato. Quando assim aconteceu, as palmas em torno de si foram tão fortes que ambos deram um pulo, assustando-se com a quantidade de pessoas ao seu entorno notando cada passo deles. Alguns zoaram nos elogios, outros já ficaram empolgados de verdade, como era de se esperar.
Trataram de desfazer o “casal” na mesma hora, constrangidos com toda a atenção atraída para suas sinuosas pessoas. Os amigos, claro, aproximaram-se comentando da “química” deles, sendo Jeff e Adrian os mais debochados. Amanda só comentou o quão fofo estavam e Sabine, até então quieta, chamou Daniel para falar em particular. Sem maiores rodeios ou pudores da possível reação, a loira jogou a pergunta:
— Foi ele né? O responsável pelo teu término com a Vanessa...
CONTINUA
Fale com o autor