CORAGEM

Descrever o ódio presente no olhar de Daniel quando saiu disparado do “Wunder Bar” se assemelhava a sensação de uma navalha cortando seu peito de forma lenta e sofrida. Foi horrível assistir aquilo. Jamais imaginou algo semelhante acontecendo, mesmo ele próprio já tendo provado do suco ambíguo fruto de uma traição: se para quem o fazia era adocicado, a quem bebia restava o azedo para deteriorar o paladar. Triste, porém real. Seria hipócrita de recriminá-la por tal, mas por que Alisson? Era a única pergunta em sua mente? O rapaz que ajudou a criar o tormento fora justamente a quem foi pedir abrigo? Nada no mundo, em sua opinião, poderia explicar aquilo.

Mandou o trabalho pro inferno. Estava indignado e triste demais para pensar em pães e bolos. Queria explodir, quebrar, gritar bem alto para o quatro cantos do mundo sentirem suas cordas vocais se arrebentando com a força do ato. Seu cérebro parecia uma pilha, melhor dizendo, um computador, processando páginas e páginas de vários arquivos no mesmo instante. Aquilo, certamente, piorava seu estado, mas nada o continha. Nada colocaria um freio no trem desgovernado de sua mágoa.

Chegou em casa e sequer percebeu o carro dos pais estacionado frente ao portão. Entrou depressa tal como um furacão, nem olhando para trás ou dando tempo dos mais velhos explicarem o que faziam ali. Estes ficaram preocupados, entreolhando-se na expectativa de sugerirem alguma coisa.

— O que tu acha? — perguntou o pai, coçando a barba por fazer.

— Nosso filho sendo nosso filho — falou rindo, apesar de, no fundo estar preocupada — Não era pra ele estar com os tios no trabalho?

— Era, mas—

A porta então se abriu: tratava-se de Ian. O garoto havia chegado após mais um dia de trabalho a escola de música. Ficou surpreso ao encontrar seus tios em casa aquele horário.

— E aí, tio! Tia! Vieram mais cedo do serviço? — questionou.

— É nosso horário de almoço, então viemos comer em casa pra não gastar tanto — explicou Isabel — Tu encontrou o Daniel no caminho? Vocês brigaram?

— Não. Ele tá em casa?

— Subiu como um furacão lá pro quarto — o tio respondeu — Sabe se aconteceu algo?

— Pior que não, mas se quiserem eu posso—

— Deixa, filho. Eu converso com ele — Isabel se impôs.

— Certeza, Bel? Depois do que rolou, pode ser melhor — Bruno falava quando a esposa interrompeu.

— Sou mãe dele. Com birra ou sem, me preocupo com o bem estar do Daniel.

Dito isso, a mulher foi, com toda calma do mundo, para o andar de cima em direção à porta do quarto de seu único filho. As diferenças entre pais e filhos sempre existiram, era fato. Ainda sim, nada no mundo, na opinião dela, justificava ser indiferente à alguém que foi gerado dentro de si por nove meses. Criou-o com amor, carinho e afetividade, mas a adolescência é um período turbulento, mudanças acontecendo no corpo e na mente. Passava longe de ser uma expert em psicologia, mas entendia da vida. Essa fase tão confusa (e fantástica ao mesmo tempo) também causou dificuldade quando ocorreu consigo. Tentava entender e, ao mesmo tempo, criar empatia com as dores do filho. Esse era seu papel como mãe, no seu julgamento.

Bateu a porta no instante em que ouviu um barulho de saco plástico. Deduziu (o que se confirmou segundos depois) ser algo sendo colocado fora, tamanha agressividade na qual soou o barulho. Ao chamar por seu nome, Isabel viu Daniel abrir a porta com os olhos marejados e inchados, indicando o quanto havia chorado. O menino a abraçou forte, deixando claro o quão necessitado de carinho e atenção estava. A mãe respondeu na hora, retribuindo o gesto. Encarou sua cama, onde a sacola estava, e pôde ver pela sombras objetos como um quadrinho e algumas outras quinquilharias não identificadas à primeira vista.

Com calma, foi entrando no quarto, vendo então a porta do guarda roupa aberta e, lá de dentro, algumas coisas bagunçadas. Até em cima da cama o caos arrumou morada — vários objetos espalhados por ela davam um volume considerável. No único espaço disponível no móvel, Isabel ajudou Dan a se sentar, enquanto ela própria fechou a porta e se ajeitou na cadeira presente frente à escrivaninha. Segurou a mão do menino, mostrando sua preocupação e o zelo por sua pessoa.

— Quer me contar? — sua voz se mantinha serena, tal como sua expressão. Sabia o quão inútil seria se exaltar num momento daqueles.

Suspirou antes de falar. Doía, mas precisava de alguém para lhe dar uma outra visão dos fatos.

— Briguei com a Vanessa… e acho que agora acabou — dizia com o coração despedaçado — Foi além de uma simples briga: fui infiel com ela duas vezes. Agora pouco tive o troco disso.

— Ela te traiu?

— Aham — limpava a lágrima — com alguém… importante pra mim.

— Ô, filho — puxou-o para seu colo — Quando a relação chega a esse nível é porque a felicidade já não tá morando ali.

— Mas como foi que isso aconteceu, mãe? Não entendo isso — resmungava, ainda choroso.

— O tempo e o desgaste se encarregam disso quando andam lado a lado — explicava — Essa sucessão de traições são provas mais do que suficientes para afirmar com toda convicção: vocês não dão mais certo juntos.

— Eu gosto dela ainda! Muito!

A mãe afagou os cabelos castanhos do menor, mostrando sua solidariedade. Difícil dizer aquelas palavras para um coração recém aprendendo a amar (sabia disso devido a experiência de vida. Jovens sempre estão na trilha inicial do amor, jamais em qualquer outra parte dela), porém, viu a necessidade de abrir os olhos do menino.

— Insistir em algo tão fragilizado não fará bem a nenhum de vocês, Dan. Tu tem tanto da vida pra conhecer ainda, tantas gurias vão passar por ti… Quando tu se dedica à uma relação que chegou nesse ponto, não é enfrentar os problemas, é adiar o inevitável. Tu quer que o amor aconteça em algo já muito tóxico, doente. Compreende?

O menino limpou algumas lágrimas caídas em seu rosto, levantando a cabeça do colo de Isabel e a encarando de frente.

— Eu devia terminar com ela então? — questionou, ainda chateado.

— Na minha opinião, sim, apesar de ainda ter muita curiosidade em conhecer ela melhor. Na festa do Micael foi tudo tão corrido. Nem pensei em parar pra conversar.

O rapaz, pela primeira vez no dia, sorriu com o comentário da mãe.

— Se a Van quiser, posso trazer ela aqui um dia…

— Vai ser muito bem recebida. Ela me parece ser muito gentil e educada. Mesmo com essa situação tensa entre vocês, não consigo imaginar um cenário na qual ela fizesse isso de propósito. E tu também não. Leva isso como experiência pra uma próxima — retribuiu o sorriso — Filho…

— Oi?

— Essa sacola? — apontou — Coisas da Vanessa?

Envergonhado, o menino pegou a referida, desfez o nó e abriu para mostrar a Isabel. Lá dentro, fotos, algumas lembrancinhas, cartões e objetos que materializam o amor do casal. Tomada pela curiosidade, a mulher tirou algumas das fotos e passou a observá-las uma a uma, cuidando os mínimos detalhes para entender mais sobre aquela relação. Via nelas um rapaz apaixonado, carinhoso, brincalhão… o oposto exato daquele a sua frente. Nas imagens, Dan parecia uma criança, feliz e alegre a curtir a fase mais bonita de sua vida. O questionamento pessoal de como aquele rapaz havia se transformado no Daniel do presente foi inevitável.

— Realmente… Ela é muito bonita — elogiou Isabel, devolvendo as fotos ao filho — Agora eu sei pra onde ia teu salário.

— Coloquei tudo aqui para jogar fora — revelou, sem olhar em seus olhos — Fiquei com tanto ódio que quis me ver livre disso tudo.

— Ah, se isso adiantasse... — suspirava — Não joga fora, entrega a ela quando vocês se verem de novo. Certamente depois do acontecido vocês tem o que conversar.

— Tem razão. Eu pensei nisso depois do que a senhora falou — concordou, já guardando os objetos de novo na sacola — Vou devolver pra ela.

— É mais bonito e maduro da tua parte — sorriu, dando um beijo na bochecha do filho — Bom, eu vou indo. Se quiser descansar hoje, tudo bem. Eu ligo e explico pra tua tia.

— Eu agradeceria… de verdade.

A mulher se levantou da cadeira, só então viu um trevo de quatro folhas em um vasinho, bem ao lado do notebook. Com cuidado, molhou com água da torneira da pia e o trouxe de volta. Ao sair, Dan a abraçou de novo, mostrando sua gratidão.

— Obrigado, mãe — agradeceu com todo o coração — E… Desculpa pelo outro dia. Tava chateado e acabei descontando na senhora…

— Esquece, filho — outro beijo, este na testa — Não foi nada.

Isabel fechou a porta e foi para o andar inferior. Viu no olhar de seu sobrinho e do marido a curiosidade lhes corroendo. Riu com a atitude, apesar de achar ligeiramente fofa.

— Tá tudo bem — acalmou os ânimos — Conversei com ele e… acho que tomará a decisão certa.

— Tomara — torcia o rapaz de olhos claros — Porque não é mole fazer o Dan mudar de ideia.

— Vocês filhos nos ouvem mais do que imaginam, Ian — pegou seu prato e levou até o microondas — Eu sei. Daniel vai agir corretamente.

— Ainda bem. Não queria ter de sentar o chinelo num marmanjo daqueles — Bruno comentou, levantando da mesa e indo à pia lavar sua louça do almoço.

— Mudando de assunto… Custava ter tampado a minha comida? Ia cair a mão? Se eu comer ovo de mosca hoje eu é que vou sentar o chinelo nos dois! — ameaçou, levando os dois ao riso.

Pelo clima agradável da tia, Ian teve certeza: Algum efeito havia tido. Torcia, ao menos, para ela ter posto algum juízo na cabeça tumultuada do filho.

***

O beijo de Alisson e Vanessa terminou poucos segundos depois, tendo sido presenciado pelos demais funcionários do “Wunder Bar” — incluindo Gil, claro. Este ficou abismado pelo acontecido, e mais ainda pelo estrago de proporções incalculáveis resultantes dele.

Foi Al quem desfez o ato ao ouvir o doce som da ficha caindo. Marcara aquele encontro na intenção de resolver um problema. Arranjar outro, naquela circunstância, só pioraria ainda mais a frágil situação. Não entendeu o porquê dela agir de forma tão impensada e sem qualquer demonstração de querer isso há tempos, então a única explicação próxima ao condizente da realidade foi ele entender que aquilo foi fruto de carência. A garota também estava desnorteada, sentindo a areia movediça onde tinha pisado e por pouco não afundou.

Tamanha vergonha a fez sair dali o mais depressa possível, deixando para trás os olhares curiosos e comentários recheados de ironia para Al. Um dos rapazes da cozinha, inclusive, se esmerou em soltar tiradas infantis e de total inconveniência. É claro que teve sua réplica: um xingamento até educado, afinal, ainda que houvessem poucos clientes, não mereciam ouvir palavras de baixo calão em pleno almoço.

Gil foi rápido ao agir. Sequer pediu autorização para agarrar seu braço com força e puxá-lo para o vestiário, tampouco tateou as palavras a fim de soar mais agradável aos ouvidos.

— Parabéns, príncipe encantado. Ficamos todos comovidos com sua performance memorável durante o beijo junto à bela Rapunzel — o garoto recheava com ironias sua fala — Tenho certeza que Daniel deve estar aplaudindo horrores também.

— Daniel não vai saber disso. Nunca — disse, esperançoso — Ela com certeza não vai contar. Gosta demais dele pra isso.

— Saber disso pelos outros? Pra quê? É tão mais divertido quando descobrimos um galho por nós mesmos. E, como eu disse, ele deve estar aplaudindo muito agora…

Um iceberg começou a se formar no intestino de Alisson, fazendo-o cogitar a hipótese dele próprio ter afundado o Titanic. Custou a acreditar naquilo. Há tempos Daniel não vinha ali para almoçar, aliás, não lembrava nem se já tinha o feito desde o início de seu trabalho ali. Por que ele viria justo num momento tão crítico daqueles?

— Tu tá mentindo. Ele trabalha esse horário — duvidou.

— Isso aqui é um fantasma então? — mostrou a foto em seu celular, deixando o coração do outro ainda mais acelerado e apavorado — Vou te dar um conselho: Pelas poucas vezes que fui na casa do Daniel enquanto eu namorava o Ian, começa a poupar freio, porque aquela mula desgovernada quando surta…

— Quer parar de zoação? É sério! — ficou desesperado — Chamei a Vanessa aqui pra conversar, só isso! Não queria nada com ela!

— Eu sei. Agora explica isso pra ele — ajeitou seu cabelo — Um spoiler: Nem tenta. Perda de tempo demais pra alguém que nem vale o investimento.

— Mas eu preci—

— Olha, Alisson, sinceramente — interrompeu a fala — Fazer algo pra parar essas sangria desatada só vai piorar a situação. Deixa o destino acabar com esse namoro de uma vez! Assim esse sofrimento desnecessário acaba e ele fica livre pra tu conquistar.

— Tu só pode tá louco! No máximo, eu vou pegar guris. Namorar é forçar a amizade! Eu nunca vou chegar nesse ponto.

Gil percebeu o quão inútil seria convencer tentar argumentar com ele num momento tão tenso. Suspirou, quase desistindo de tentar salvar uma alma da escuridão da negação. No entanto, queria bem (até demais, diga-se de passagem) Alisson. Por mais que sua história não seja exatamente um exemplo de amizade bem sucedida e, porque não, sincera, conhecia bem a confusa mente do rapaz. Diante daquele incêndio, raciocínio era a última coisa na qual iria se firmar. Aí um ponto de diferente entre Al e Dan, segundo Gil: Al surtava, mas passado o fervor do ato, começava a comedir suas ações e tentava — dentro do possível — redimir-se por ela; Dan se limitava a ser uma bomba relógio constante, e sem chances de reintegração — o máximo de sucesso com ele era adiar sua explosão. Foi inevitável pensar em como este estaria, visto que Al, mesmo sendo ligeiramente mais racional, deixou seus parafusos afrouxarem outra vez.

— Não diz isso com tanta força. O universo costuma nos dar lições bem sinistras — alertou. Julgou ser o mínimo a fazer.

— Mais do que já rolou? Difícil — deu de ombros — Já fiz tudo que podia fazer, mais até do que achei permitido.

— Nessas horas eu penso: O Ian diria o quê? — comentou — A resposta nesse caso, pelo menos pra mim, é: Deixa teu coração livre. Amarras só vão fazer ele doer mais.

— Ele já dói… — confessou — Daniel vai ficar p*to comigo o resto da vida…

Solidário, Gil colocou a mão em seu ombro e deu um sorriso leve, como de consolo e empatia por tudo. Al agradeceu repetindo o gesto, mesmo sabendo a verdade. Seu peito estava corroído com mais um problema para resolver. Quando sua vida tinha virado uma tragédia grega?

Ao mesmo tempo, Vanessa também tentava desvendar o mistério do fato recém cometido: Por que cargas d’água havia beijado um rapaz com quem trocara uma ou duas palavras? Tentava fazer a junção entre as variadas explicações as quais seu cérebro poderia formas, no entanto, falhava. Absolutamente nada criada um motivo, na pior das hipóteses, crível. Apenas um ato impensado. Só. Sem se dar conta, acabava por criar laços de compreensão pelo drama vivido no namorado na festa causadora de toda a confusão — ele também havia dado um beijo impensado em alguém e pagava o preço por isso. E ela? O que aconteceria consigo? Deveria contar a ele e limpar sua mente tão perturbada com seu feito?

Chorava incansável, atraindo, inclusive, olhares dos mais curiosos. Seu rosto, outrora tão belo, se transformava em um enorme borrão de maquiagem dissolvida nas lágrimas teimosas escorrendo sobre ele. Buscaria conforto onde sempre teve abrigo: Ágata. Aquela hora a menina devia estar em casa ainda. Correu para lá o mais rápido que pôde, clamando por si.

Ágata a atendeu rápido, um tanto espantada por sua nítida expressão de desespero. A reação da loira foi abraçar a amiga o mais forte que conseguia, para sentir o amparo daquela que tanto admirava.

— Ai, Ágata — dizia entre os soluços e crises de choro — Já era. Eu tenho certeza.

— O quê, Deus? — não entendia. Seguia retribuindo o abraço.

— Daniel… Agora a gente termina de vez… Que namoro sobrevive à uma traição em cima da outra?!

Qualquer questionamento foi sanado naquela única frase. Conversariam sobre aquilo, é claro, apesar da surpresa de mais uma traição. Era inevitável passar por sua cabeça o quão privilegiada se sentia. Aquele tipo de dor de cabeça há tempos não lhe perturbava — desde a trágica história com o ex.

A morena então trouxe a amiga para dentro de casa. Esta contou com detalhes o ocorrido, deixando-a incrédula. Só então pôde concordar: Eles não durariam muito como casal.

***

O sábado chegou e com ele mais uma aula de dança fornecida pelo instrutor Gustavo. Por mais estranhas que fossem algumas experiências, o intuito da aula estava sendo atingido: com a quebra do gelo, os discentes se permitiam errar, dançar de forma livre, sem preconceitos e julgamentos. Algo interessante brotava ali.

A única quebra de clima, sem dúvida, era o estranhamento entre Alisson e Daniel. Cada qual com seus motivos para ignorar o outro: O primeiro ainda estava abalado com o beijo de Vanessa e não queria ter de encarar o amigo; O segundo, ciente de tudo, poderia fritar aquele a quem chamava de “bebezão” em poucos segundos caso tivesse a chance, o ódio e a mágoa lhe tomavam por inteiro. Esse contraste de sentimentos, a olho nú, não foi perceptível, apenas àqueles cientes da proximidade dos dois. Ana foi um deles.

Depois de mais exercícios e explicações teóricas de passos de danças e conceitos artísticos, Gustavo lançou uma prática: os alunos deveriam, em grupos, criar uma coreografia apenas com músicas de batidas lentas. Quando todos apresentassem, estariam dispensados. Durante a formação dos grupos, Al e Dan foram cada um a seu canto: Al se uniu a Ana e seus amigos, ao passo de Dan se enturmou em outro. É claro que o mais velho sentia algo estranho no ar, já tendo a impressão do amigo saber seu “segredo”. Engoliu seco. Não havia nada a fazer… Por hora…

Sem se conter de curiosidade, o jovem transsexual lançou a pergunta ao rapaz:

— Tu e o carinha… se estranharam?

— Sim — foi sincero. Achou desnecessário mentir já que sempre participaram juntos da aula — Por burrice minha.

— Ah… relaxa. Brigas entre amigos é como as com irmãos, né? No fim, tudo acaba bem.

Ana nem imaginava o quanto Alisson almejava isso. Encerrar de uma vez aquele clima péssimo era sua prioridade desde o dia anterior. Faria aquilo após a tarefa, custasse o que tivesse de custar.

Os grupos tiveram das 08h30min até 09h30min para ensaiarem seus passos de suas respectivas músicas. Quando todos, ao fim do tempo, chegaram ao ginásio de novo para apresentar, deu início às avaliações do instrutor. Al fora o terceiro grupo, dando um show de sincronia e profissionalismo digno de veteranos. Ficou deveras orgulhoso, tanto de si quanto dos aplausos recebidos de pé. Dan, irritado com aquilo, quis ser o quarto grupo, sequer tendo consultado a vontade de seus colegas. A sorte foi que eles também foram um colírio para os olhos dos colegas, pouco diferenciando entre a apresentação do grupo anterior. Também foram aplaudidos — inclusive por estes.

Concluídas as apresentações, Guga liberou seus dançarinos: não sem antes falar a respeito da importância dos treinos em casa. Os alunos começaram a dispersar indo em direção à saída da instituição, exceto por Alisson e Daniel. O primeiro ficou de olho no segundo, aguardando a oportunidade perfeita de acertar suas contas. Novamente, foi o chamado da natureza quem o ajudou — Dan precisou ir ao banheiro. Cuidou para nenhum outro aluno entrar, para sua sorte, o que não ocorreu. Apenas os dois sozinhos naquele ambiente, digamos, peculiar para uma conversa daquelas.

Assim que entrou, fechou a porta sem cerimônia e a trancou, caindo o risco de serem interrompidos devido algum xereta. Ficou escorado nela até o menor aparecer, levando um susto com sua presença, mesmo assim, mantendo a cara nítida de desgosto misturado com raiva e nojo.

— De novo? Tá sem criatividade? — confrontou este.

— Tu vai calar a boca e vai me escutar, beleza? — ordenou, cruzando os braços.

— Tu não manda em mim.

— Mas mando na palma da minha mão. E ela começa a coçar quando certas crianças começam a berrar na minha volta.

— Sai da—

— Cala boca, agora! — exclamou em alto e bom som — Não sou teu priminho, então pode esquecer essa viadagem sentimentalista! Começar com birra eu te meto um soco.

Dan revirou os olhos. Tais palavras não foram suficientes para lhe criar medo ou pavor. Ao contrário, pareceram alimentar ainda mais seu sentimento amargo.

— Eu é que devia te arrebentar depois daquela cena — revidou — Tu pegou a minha namorada, guri! Perdeu a noção?!

— Tu tem razão de estar chateado. Isso eu entendo. O problema é que tu não sabe o contexto da coisa.

— Jura? Qual seria? — usava de tom irônico em suas palavras — A Vanessa te pediu pra abrir um pote e sem querer tua língua caiu na boca dela?

— Pra começo de assunto, não fui eu quem beijou ela. Foi o oposto — esclareceu.

— Eu tenho aqui meus motivos pra não acreditar nisso — olhou fundo em seus olhos.

— Caguei — deu de ombros — Tenho problemas demais pra ficar me preocupando com essa tua paranóia. Não quer acreditar? Beleza, fica aí agindo feito masoquista. Só não vem com essa cara de bunda pra cima de mim.

— Na próxima eu venho maquiado. Quem sabe melhora, né?

Já se irritando com aquilo, Alisson empurrou Dan para a parede, pressionando (sem tanta força) contra ela. Queria apenas imobilizá-lo, jamais machucá-lo. O menor tentava reagir, porém estava longe de conseguir a mesma força que seu “rival”.

— Me solta, Alisson! — esperneava.

— Qual parte de calar a boca não ficou clara? — perguntou, irônico.

— Tá! Bate em mim logo! — ordenou, igualmente irritado — Mas isso não vai te fazer menos Judas, seu viado do c*r*lho!

— Ah! Tá se achando corajoso? — apertou mais um pouco, sufocando de leve o amigo — Já te disse que esse teu chilique não me comove. Ao contrário, me irrita. Muito.

— O que me irrita é saber que meu melhor amigo pegou minha namorada — as lágrimas corridas eram de mágoa, raiva, não exatamente de tristeza — O que me irrita é ele ter me beijado por motivos até hoje meio duvidosos. É essa m*rda toda que se transformou a minha vida desde esse maldito beijo!

— Pois eu tenho uma novidade pra ti: Tua vida não precisou da minha boca pra ser uma b*sta, caro pateta. Até onde eu sei, ela tá assim desde que tu soube sobre ela ser trans. Tô errado?

— Cala boca! — gritou.

— Ué, fala o que quer, mas não gosta de ouvir? — riu, fraco — É por isso que vai perder a namorada. Não sabe se controlar, não sabe ser gente! Tem um grande rótulo de babaca de marca maior bem no meio da testa! Aceita isso de uma vez e cresce, Daniel! Não faz mal a ninguém, sabia?!

Foi a deixa para Dan finalmente tirar forças do éter para reagir. Conseguiu, a duras penas, empurrar Al para longe, fazendo-o, inclusive, cair no chão daquele banheiro. Tamanha fúria que estava, foi certeiro e de punhos fechados socar seu rosto. Porém, chegando bem próximo (já com o mais velho aceitando o fato sem se defender), encarou bem sua vulnerabilidade e… desistiu. O choro incontrolável que sucedeu pareceu ir além da raiva sentida por ele.

Caiu no chão também, triste, despedaçado, com o coração em frangalhos. Chorava mais do que criança ao cair de um balanço. Seu peito doía, sangrando pelas palavras ouvidas cruamente devido a uma situação lamentável. Ficou agachado, debruçando-se em lágrimas até Al ter compaixão pos sua pessoa. Começo a doer nele próprio o peso das palavras. Era horrível vê-lo assim. Tentando minimizar o sofrimento, Al foi puxando, com cautela, o dorso de Dan até seu colo e passando a mão de leve em seus cabelos.

Tremia. Fora a primeira vez na vida que teve de fazer aquilo em alguém. Nem suas ex namoradas tiveram tal caridade. Enquanto, por um lado, sentia-se constrangido, por outro, algo estranho seguia tomando conta de seu peito. Algo forte, novo, fazendo cada músculo de seu coração querer bater mais depressa do que um relâmpago.

Talvez pelo nervosismo e desamparo, Daniel aceitou o carinho sem contestar ou fazer colocações impróprias e imaturas. No entanto, a dor permanecia ali.

— Eu vou perder a Van, Alisson — disse, já mais calmo, mas com a voz ainda trêmula.

— Eu exagerei. Desculpa — estava muito arrependido do que dissera — Vocês namoram faz ‘mó tempão! Uma crise dessas não representa nada!

— Algo aqui dentro tá me dizendo isso — falava — A gente vai terminar. E por minha causa.

— Vocês… vocês vão ficar juntos. Relaxa — tentou ser esperançoso.

— Por que ela te beijou? — mudou o foco.

O outro pensou bem se deveria contar, mas chegou à conclusão de que seria o melhor a se fazer. Toda aquela confusão havia se formado devido à falta de diálogo, portanto, disso ninguém mais iria se queixar. Seria um livro aberto ao amigo.

— Carência, eu acho. Ela tava bem abalada ontem — explicou.

— Quais as chances dela já estar de olho em ti faz tempo? Tipo, tu é… — engoliu seco, encarando o garoto maior nos olhos — tu é mais bonito do que eu.

— Para de delirar, pateta — sorriu — Não temos nada. Foi algo do momento.

— Como o nosso beijo?

Era estranho lembrar daquilo, e mais, a forma como aquela pergunta lhe deixou desconcertado. O destino parecia querer fazer justiça pela dor causada em Dan, ainda que fosse sem querer.

— Sim — levantou, ajudando-o a se levantar também — Como… o nosso beijo.

Os garotos se encararam e o tempo parou por alguns instantes. Suas cabeças mais confusas do que jamais estiveram; seus corações a milhas por hora sem saber quais direções tomar e seus olhos a apreciar e decifrar. Estranhos. Assim se definiam a mercê daquela cena: Como dois estranhos aprendendo a se conhecer. Por um momento, Dan teve a certeza de ouvir o barulho de outro coração (além do seu) e que era o de Al. O garoto pareceu perceber também, ficando tão vermelho quanto um tomate maduro.

— D-desculpa, pateta — foi sua última frase antes de abrir a porta e sair o mais rápido possível dali. Sentia-se um grande idiota bobalhão.

— Desculpa — sussurrou o outro, com a mesma sensação.

CONTINUA