A Teoria das Cores
68 Bronze I
ÁSPERO
Ter amigos é ter com quem contar nas horas de dificuldade. E, por mais estranha que fosse a amizade deles, Gil tinha estima por Alisson e se preocupava com o menino. Talvez fosse um pouco de mea culpa devido ao episódio vergonhoso do beijo entre eles, mas, ainda sim, o carinho era genuíno.
Aproveitando do fraco movimento da manhã de sábado, Gil pediu para Seu Antero um breve intervalo de meia hora a fim de resolver pendências particulares — não as suas, diga-se de passagem, mas o senhorzinho não precisava ter conhecimento disso. Iria a casa de Daniel falar com Ian, afinal sabia o descrédito com o primo do ex. Seria inútil conversar diretamente com ele — além de sua paciência em relação aos mimos dele ser quase inexistente para manter uma conversa civilizada por mais de dois minutos.
Chegou em frente da casa e chamou pelo nome do ex. Este prontamente atendeu, carregando um sorriso sincero e contagiante. Parecia feliz com a “surpresa”. Abraçaram-se e, por instinto (e vontade reprimida), Gil acabou por roubar um selinho seu ali no portão mesmo. Ian apenas riu da pequena travessura, dando passagem para o outro entrar.
Isabel e Bruno estavam na sala assistindo a uma série quando eles entraram. Cortez, o convidado comprimentou o casal, sendo respondido com igual cordialidade. A mulher já o conhecia, claro — incontáveis vezes encobriu sua vinda a pedido de Ian, devido ao seu temor quanto à reação de Daniel. Bruno lembrava vagamente da figura, todavia sua memória não fora lá uma grande aliada na busca pela resposta.
Agradáveis, os pais do pequeno rabugento convidaram os meninos a acompanhá-los para assistir ao filme passado na tv, porém negaram. Gil acabou por dizer que não tinha muito tempo e só veio com o intuito de resolver pendências. Para ter mais privacidade, despediram-se dos mais velhos e subiram até seu quarto.
Gil não conseguiu evitar balançar a cabeça e rir do cenário: se a guerra de Tróia tivesse acontecido ali estaria melhor organizado em comparação ao caos existente no cômodo. O maior defeito de Ian, de longe, era esse: ser bagunceiro. Quantas vezes lembrava de ter de limpar o quarto porque o ex passara o fim de semana? Os anos passaram e as manias seguiam as mesmas. Ouviu também um som sendo emitido baixinho do notebook dele. Em primeiro instante, com o pensamento recheado de maldade, achou serem gemidos, todavia viu depois: tratava-se de música mesmo. Porém, não seria incomum se aquilo de fato fossem gemidos…
Para dar lugar ao amigo, Ian tirou o Everest de roupas de cima da cadeira e as colocou no chão, bem a frente do guarda roupas. Gil se sentou, ainda analisando tamanha desordem. O outro bem reparou e sorriu, matreiro como uma criança aprontando e sendo pega no ato.
— Vou organizar, ok? — começou falando.
— Eu espero que sim — falou, de certa forma intimando — Como não tem baratas aqui ainda é um mistério.
Outra risada.
— Bom te ver por aqui — disse, depois de se recompôr — Tá se mantendo sóbrio?
— Não sou um alcoólatra — retrucou, cruzando os braços — Tô sóbrio desde uma festa lá em casa.
— Fico feliz. De verdade. E eu sei que não é, mas, se tu der brecha… Sabe que o teu organismo é sensível quanto à isso.
— Obrigado pela preocupação — agradeceu, mesmo desconfortável com o assunto. Tratou de mudar os rumos logo, até para não se atrasar — Mas vim aqui falar sobre o teu primo.
— Dan?
— A mosca varejeira do Andreas que não seria, né? — ironizou, arrancando um riso debochado do ex — Se o Daniel teve coragem de te falar, tu já deve saber sobre o beijo dele com outro guri.
Na hora, pela primeira vez na vida, Gil sentiu Ian desconfortável com alguma coisa. A expressão (uma hora feliz, e na outra, de alguém incomodado) causou um certo espanto ao rapaz, afinal sempre, mesmo nas piores discussões, o rapaz conseguia manter sua calma e tranquilidade. Julgou ser mais um reflexo da sua paixão não correspondida pelo primo. Dan sempre teve essa influência sobrenatural em Ian, algo que deixava o outro irritado. Manteve a calma e o foco pelo bem da conversa. Mais discussões iriam atrasar a resolução do problema.
Ian se ajeitou na cama, cruzando as pernas em “x”. Jamais passaria pela cabeça estar tendo uma conversa daquelas à respeito do mais novo. Para Gil querer comprar a briga, era um sinal claro: algo estava errado.
— Sim, ele falou — coçou a nuca — Tá bem mexido com isso, aliás.
— Tá na hora dele enfrentar isso. Se fosse superar os preconceitos dele já seria um problema difícil e tu sabe disso; agora: ter de aceitar o fato de estar se apaixonando por um cara? Um vulcão explodindo é menos problemático.
— Tu acha isso? Que ele se… apaixonou pelo Alisson?
O olhar suplicava por uma negação. Assim como Dan, Ian acabou, mesmo sem querer, criando uma bolha de contos de fadas em torno de si e do primo. Suas ações mudavam à medida que o mais novo precisava. Era um peso enorme estourar aquele mundo criado a sonhos e esperanças frustradas, mas Gil sabia que aquele mau era necessário.
— É bom começar a trabalhar na hipótese, Ian — pegou delicadamente a mão do ex parceiro — Nem mesmo o mais frágil dos héteros estaria numa pilha de nervos remoendo essa situação.
— Como sabe disso?
— Porque eu vejo no olhar do Alisson o quão preocupado ele está quanto ao Daniel. E isso só pode estar acontecendo se—
— O Alisson curtir o Dan— interrompeu, colocando sua dedução — Só que isso não é sinônimo de—
— Não banca a avestruz. Encara as coisas — foi sua vez de interromper. Encarou-o no fundo da íris — Teu primo não tá se sentindo estranho? Ele não falou nada contigo à respeito?
Suspirou. A conversa parecia mais difícil do que ele previu.
— Falou… — baixou a cabeça enquanto coçava a nuca — Bem, se isso é mesmo verdade, não vamos demorar muito a descobrir.
— Só vim te avisar porque sei o quão importante ele é pra ti — levou a mão até o queixo do garoto de olhos claros, erguendo sua cabeça e lançando um sorriso amigo — por mais que ainda ache burrice tu nutrir esse sentimento por ele.
— Valeu, Gil. De coração — mesmo com a resposta em sintonia com um sorriso esboçado em seu rosto, o outro sabia que, no fundo, estava doendo ter de encarar algo nunca imaginado.
O visitante até tinha outras palavras para aconselhar o menino, porém algo tirou sua concentração. Começou a ouvir das caixinhas de som do notebook ecoando a música marcada a ferro em seu coração: A introdução já foi o suficiente para Gil aumentar o volume, sentindo cada célula do corpo entrando em transe emocional forte.
— Ainda ouve a nossa música… — disse, comovido — Tá em playlist?
— No Spotify, mas é deles, não fui eu quem criei — comentou, sorrindo.
— Curioso tocar justo agora…
— Eu chamo de brincadeiras do destino — num ato carinhoso, pegou na gélida mão do ex e já levando a outra mão até sua cintura. Iniciaram assim uma dança de casal, juntos um ao outro.
Gil não falou mais nada, deixando-se levar pelas lembranças que a letra traziam em sua cabeça. Lembrou da primeira transa juntos no topo do morro de Nova Petrópolis; das noites em claro trocando beijos e com seus corpos colados; os passeios; as viagens; as loucuras; o amor perdido no tempo, culminância de um erro fatal seu. Jamais se perdoou por aquilo. Soube, no dia do término, que perdia o homem mais precioso de toda sua vida. Ninguém seria capaz de amá-lo tal como Ian o fez.
Doía, claro, era natural doer. Mesmo estando na companhia um do outro, gozando da mais perfeita paz entre eles que demorou tempos para acontecer, aquilo incomodava seu peito. Tivera o perdão do rapaz, ainda que não fosse o suficiente para tapar o vazio de seu coração entristecido. Abraçou-o a ponto de lhe tirar o ar. Aquele momento único poderia durar para sempre, se unidos ao carinho e a afetividade nele presentes permanecessem também.
Ian conduzia a dança com o mesmo jeito de garoto apaixonado dos tempos de namoro. Entregou-se ao momento e a nostalgia, deixando as asas de sua mente o ajudarem a encarar os mais altos vôos na busca ambiciosa da eternidade daquele sentimento. Algumas coisas contribuíram: o cheiro do perfume de Gil entrando pelas vias aéreas lhe era familiar — tinha dado aquele perfume de presente de Natal; os braços deste sobre seu pescoço, seu olhar tênue… Até a música: mesmo se tratando de uma balada romântica, não uma valsa, curtia sem medo de ser a coreografia errada.
Foi desconcertante quando uma voz feminina do lado de fora os fez cair do sonho mágico que estavam vivendo. Ian conhecia bem — tratava-se de Ágata. Gil não moveu um músculo, deixando que o dono do quarto fosse atender. Como sempre, foi animado, para o desgosto do garoto. Aberta a porta, a morena entrou comentando a respeito da música quando deu de cara consigo.
— Olá, bonitinho — cumprimentou, simpática.
Gil, entretanto, dispensava aquela baboseira toda. Limitou-se apenas a balançar a cabeça com o sorriso mais verdadeiro que conseguiu realizar.
— Eu vou indo. Ainda tô no meu horário de trabalho. Só passei pra conversarmos sobre aquilo mesmo — não queria falar assuntos deles diante da “rival”.
— Não vai se encrencar, Gil — pediu o rapaz de olhos azuis.
— Relaxa. Tô de intervalo. Até — sequer esperou resposta, saiu dali o mais rápido que pôde.
Ágata, esperta como uma raposa, soube na hora: algo havia sido interrompido. Por mais disfarçado que a situação estivesse, sentiu o tom “indiferente” do convidado de seu ficante para consigo.
— Era o Gil, meu ex — explicou o garoto, já baixando a música e (tentando) organizar sua bagunça) — veio aqui levar um papo.
— Não perguntei nada — riu — Calma, tigrão. Sem neuras.
— Eu sei — retribuiu com seu sorriso — Só achei importante falar.
— Já vi ele… Foi no Wunder Bar! — recordou.
— Sim, é o trabalho dele. Mas acho que não foi por ele que veio aqui… ou sim?
A menina riu, roubando um selinho antes de começar a ajudar o ficante na arrumação daquele pequeno universo caótico denominado de quarto.
— Mais ou menos. Digo, é sobre guris também, mas nesse caso é o Diógenes.
— O que tem ele?
— Ele comentou sobre o pequeno atrito contigo — jogava algumas coisa no lixo — Achei totalmente desnecessário. Olha, se tu visse o quanto já tentei conversar…
— É um homem apaixonado, ué — deu de ombros — Óbvio que vê em mim uma ameaça, mesmo já tendo deixado claro que não é o caso.
— Mas nós não somos namorados! É esse o ponto — suspirou — Sabe, se eu ainda tivesse disposta a namorar… mas não. Aí fica criando uma situação ridícula dessas só pra se machucar.
— Eu entendo. Acho até que tu tem razão de certa forma — colocou as roupas de volta na cadeira — Ainda sim, tenta falar com ele, compreender seus sentimentos. Se ele tá levando isso à sério demais, já deixou de ser amor saudável. Não deixa ele se destruir querendo te conquistar.
Ágata então começou a refletir sobre as palavras do ficante. Sua percepção começou a mudar, saindo de um Diógenes louco a alguém frágil emocionalmente. Considerou até a hipótese de ter sido dura demais com ele, afinal a conversa pelo aplicativo de mensagens não foi das mais leves. Culpa não tinha, pois Dio procurou por aquilo; o mais preciso talvez fosse compaixão com pitadas de empatia. A cegueira da revolta havia lhe tirado a razão, enquanto Ian, com sua maneira calma e eficaz, a trazia de volta. Era incrível o poder quase médico dele de proporcionar tal sentimento. Diógenes tinha sorte de ser mais compreensiva e aberta a opiniões do que outras garotas — por muito menos, rapazes levavam block sem a menor piedade.
— Ainda tem chances dele entender será? — perguntou após os minutos de reflexão.
— Basta querer — respondeu, passando a mão nos longos fios negros da menina — Tudo depende da boa vontade.
— Tu é o melhor, tigrão — roubou um beijo do rapaz.
No fim sempre terminavam agarrados um ao outro, despindo as roupas e se deixando levar pelo êxtase delirante do momento. Um detalhe, entretanto, mudou a rotina: Gil. A cabeça de Ian ainda estava recordando os momentos agradáveis ao lado de seu ex namorado. Acabaram ficando apenas nos amassos, com o rapaz deixando claro isso. Ágata estranhou, mas respeitou sua vontade. Estar junto já se mostrava uma terapia e tanto.
***
Se o coração fosse uma bomba relógio, o de Alisson podia estourar tudo a qualquer momento. Chegou em casa sem nem se lembrar como, tamanho sua ânsia de encontrar seu quarto, se trancar lá e não sair mais o dia todo. Claro, seria impossível: tinha trabalho no “Wunder Bar’ que não iria se fazer sozinho. Por um lado era ruim ter de ver gente quando só precisava da compreensão de sua cama, porém, com tantos afazeres, ficava difícil parar para resolver seus conflitos internos. Precisava de um descanso do seu cérebro, principalmente de seus pensamentos.
Desde a nova tentativa de conversa com Daniel, o ritmo de seus batimentos corria tanto quanto o vencedor recorde da São Silvestre, deixando sua cabeça uma pilha de nervos e seus pensamentos turvos, talvez até desconexos. Para piorar, não havia uma pessoa confiável para compartilhar daquela angústia, alguém capaz de lhe dar um holofote no caminho da felicidade. Gil bem tentava, mas ainda sim, a necessidade de intimidade bateu forte naquela bad.
Analisava, por sua própria boa vontade, ser tudo medo de encarar o desconhecido. Achou curioso: todas as vezes, quando o destino tentava lhe pregar uma peça, reagia quase imediatamente. A garra, o foco e mais o acréscimo da força de vontade fizeram dele um cara centrado em seus objetivos, precursor de suas vontades, realizador de seus desejos. Driblou grande maioria das apostas negativas a seu respeito (exceto às da escola de certa forma) e, dava graças, ao zelo da mãe. Por que então parecia impossível resolver algo tão simples? Já se considerava bissexual, então qual peça ainda faltava para criar a sensação plena de conforto? Estaria Dan ligado à ela? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Só sabia pensar nisso.
Deitado em sua cama, encarava o teto, vendo sua mente se expandir por ele como um grande universo mostrando suas mil formas. Via cada momento seu até então, as dores pelas quais passou, as batalhas enfrentadas e barreiras destruídas. Do garoto rebelde sem causa ao rapaz dando tudo de si para mudar estava sendo difícil, mas valia a pena. Enxergar a vida sem as vendas do ódio gratuito era, sem dúvidas, aliviador. No entanto, ao ver a imagem de Dan refletida naquele mesmo teto causa estranheza, medo e incerteza. Havia algo naquela cabeça atormentada que o deixava tão inquieto. O beijo fora um gatilho para ter ideia de algo maior surgindo. Restava saber: Iria reprimir ou deixar florescer?
Tais devaneios foram interrompidos quando Marisa, sua mãe, entrou com um punhado de roupas dobradas. Colocou-as em cima da cama do filho e sentou frente a seus pés.
— Já disse pra não subir de tênis em cima da cama — advertiu, em tom descontraído.
— Foi mau. Se quiser, posso tirar e— O filho, entrando na onda, fez menção. A resposta foi rápida.
— Deus me livre! Quer me matar asfixiada?! — ambos riram da situação — Mas e aí? Chegou sem falar nada, voou feito galinha fugindo do abate…
— Nada demais. Tá tranquilo — tentou passar garantia em suas palavras, por mais que seu íntimo gritasse para expôr a verdade.
Para seu azar, não convenceu.
— Se eu já fui capaz de saber quando tu tava com diarréia, sou capaz de sentir quando tu não tá bem.
— Jura que a senhora sabia?! — ficou pasmo com a revelação.
A mãe riu, confirmando com a cabeça.
— Não muda o assunto — pediu — A não ser que seja algo muito, mas muito íntimo mesmo. Ainda sim, sou tua mãe. Se não confia em mim pra conversar, em quem confiará?
Ela estava com a razão. Impossível discordar. Marisa sempre se esmerou em ajudá-lo, talvez fosse a pessoa mais indicada para aquilo. Mas antes que pudesse abrir a boca, o celular vibrando chamou sua atenção. Amanda mandava mensagem. Estranhou, afinal a garota mal lhe chamou desde o retorno ao campeonato. Dizia assim:
“Oiieee! Tá ocupado?! Voltamos da viagem e marcamos com o pessoal de nos encontramos aqui na praça da República! Temos novidades! Bjs” — Enviado por Mandy
— Desculpa, mãe. O pessoal tá me chamando — coçou a nuca de vergonha — Podemos conversar mais tarde.
— Quando tu quiser — deixou-lhe a vontade — Só apareci para entregar as roupas e dizer o quanto eu te amo.
O garoto sorriu, contente pelo gesto. Carinhoso, deu um beijo na bochecha da mãe.
— Também te amo.
Sempre correndo, acabou por deixar Marisa ali enquanto ia até o local indicado pela amiga. Não era de total surpresa, dado o entusiasmo da menina, qual era o motivo: tinham vencido o jogo. Só podia ser aquilo, afinal ela já sabia de seus planos de uma reunião para reerguer a popularidade do seu local de trabalho, mantendo a tradição e acrescentando novidades — manter os pontos positivos e mudar os necessários.
Notou quando se aproximou o grupo de amigos se reunindo, dando abraços de boas vindas e fazendo as cordiações segundo manda a etiqueta. Qual não foi a sua surpresa ao ver Daniel de cara amarrada. Pelo visto, a conversa menos de uma hora antes já tinha ido toda para o ralo sem rolha da cabeça do amigo.
Deu de ombros. Cumprimentou a todos, buscando ser o mais simpático possível — inclusive com Dan. Reunidos o grupo todo, Adrian apenas confirmou o esperado: tinham vencido o campeonato. Comemoraram, eufóricos, enquanto Al ligava depressa para o trabalho, na esperança da linha estar vazia. Por sorte, era o caso. Falou com Gina e foi passado a linha da sala de seu chefe. Quando o garoto contou os planos do time, pôde sentir dali a felicidade do senhor Antero, tornando-se quase o mais animado dentre os envolvidos com o evento.
Ao fim da ligação, Amanda explicou que os preparativos já estavam em andamento — na verdade, a menina queria falar apenas que os convidados já haviam sido avisados da confraternização. Aos olhos da maioria, tudo era festa, menos a um sinuoso rapaz.
— Vai ir, né Dan? — questionou Sabine.
— Claro que vai! Nem é louco de ficar em casa batendo bronha ao invés de curtir com a rapaziada! — Al se intrometeu. O menino não curtiu nada.
— Ela disse “Dan” — respondeu, ainda de cara amarrada.
— F*da-se — deu de ombros — Tu vai.
— Posso saber quem vai me obrigar?
— Eu! — exclamou Adrian, para a surpresa de todos — Não vai ficar de sacanagem justo hoje, né cara?
— Ninguém tem mais o direito de ter um dia ruim. Daí é f*da!
— Deixa o mal humor pra amanhã. É domingo mesmo — deu a solução — Queremos te ver lá. Caso o contrário, te prepara bem para o que te espera na segunda feira…
Revirou os olhos. Seria pedir demais ter dez minutos para si? Era algo tão extraordinário que não podia ser compreendido? Já perdendo a paciência com a melação toda, foi direto.
— Era só isso? Posso ir pro meu trabalho?
Adrian, chateado pela atitude infantil e sem fundamento do amigo, apenas concordou com a cabeça. Dan foi embora acompanhado dos olhares furiosos do grupo sobre si, exceto por Al, que apenas ignorava o fato.
— A menstruação chegou atrasada esse mês — debochou, já retomando o assunto — Bom, se querem organizar algo, é melhor irmos pra lá. Como tá quase no meu horário de trabalho, ajudo vocês.
— Beleza — o jogador voltou a se animar.
— Precisa algo de decoração? — questionou Sabine.
— Não dá. Muito em cima da hora — Jeff lembrou — Mas podemos colocar algumas toalhas especiais,sei lá…
— Minha mãe tem algumas! Vou pedir pra ela levar. Aproveito e já vejo ela — Adrian lembrou, tirando o celular do bolso e discando o número.
Enquanto isso, Sabine aproveitou o momento para tentar fisgar alguma informação. Aos olhos dos demais podia até ter escapado o clima estranho entre eles, mas para a loira soou esquisito.
— Daniel e suas implicâncias… Vai entender — puxou assunto com o mais velho.
— Ele é estranho por natureza. Eu é que não frito meus neurônios tentando compreender como funciona aquela cabeça com casca de moranga.
— Mas há poucos dias tavam tão bem…
— E uma hora atrás também — comentou — Relaxa. Ele vai aparecer.
— Espero que sim — torcia verdadeiramente.
Jeff escutava a conversa com ciúmes. Relevou por querer um clima legal entre todos, afinal de contas se tratava da comemoração de mais um troféu para a escola, ganho com o esforço e dedicação de um amigo — em cumplicidade com os demais jogadores. Precisavam de alegria, e assim teriam.
O grupo foi caminhando até o “Wunder Bar”, onde as providências já estavam sendo tomadas. Gina, sempre uma moça competente e ágil, orientava seus colegas sobre todos os passos para organização de uma reunião de sucesso; Seu Antero conferia pessoalmente toda a dispensa, conferindo validade e qualidade dos comes e bebes a serem oferecidos; Gil conversava com Jeff a respeito da decoração das mesas e Al se sentia parte de algo grande pela primeira vez na vida. Corria de um lado para o outro para atender aos clientes ainda em horário de almoço, mas escutava as conversas dos amigos e os planejamentos para mais tarde. Considerava um evento importante, e seria, mas não pelos motivos que ele acreditava. Águas turbulentas se preparavam para passar por debaixo de sua ponte e teria de ser forte se quisesse sobreviver a elas…
***
O início daquela noite gerava apenas mais revolta em Daniel. Desta vez, como por milagre, era contra si mesmo e não tinha nada haver com o mundo. Quando resolveu sair do encontro dos amigos para ir trabalhar, um vazio tão grande preencheu seu interior de tal forma que ele podia jurar ser oco por dentro. Uma verdadeira casca de árvore com duas pernas. Por que tinha um gênio tão difícil? Uma maneira tão complicada de agir e pensar? Seria mesmo gênio difícil ou pura e simplesmente birra de adolescente, “chiliques” como Alisson citou?
Só queria poder ir a festa e se divertir como todo mundo. Dançar, cantar, se esbaldar com a felicidade distribuídas aos baldes nessas ocasiões. Sua infelicidade era, no momento, a bagunça em sua cabeça. Vanessa o traiu; Alisson o traiu, tentou se redimir e acabou por piorar tudo. Podia passar dias sem olhar em sua cara, não fosse o simples fato dele ser um imã. A prova se dava ali, na aflição de ir àquela festa. Queria saber, além de se divertir, o quanto o garoto poderia ser traiçoeiro. Bobagem, mas que seu cérebro acreditava fielmente ser um motivo plausível.
— Dan, eu e a Ágata vamos assistir filme. Pilha? — Ian lhe convidou, simpático.
— Valeu — deitado na cama estava e assim permaneceu — Tô bem aqui.
— Tu nunca foi um bom mentiroso — debochou o garoto, rindo.
— É sério. Juro — tentou ser mais convincente.
— Sei de longe quando algo tá te perturbando. Conta pra mim, vai.
Negar algo ao olhar de cão arrependido de Ian parecia mandá-lo á forca. Nem mesmo Daniel, no ápice de sua masculinidade frágil, vencia seus métodos convincentes para arrancar algo de alguém. Suspirou, ajeitando-se na cama e olhando o primo.
— Tava tri afim de ir na festa dos guris hoje… — confessou, triste.
— Se estivesse, tava lá agora — recebeu um olhar ameaçador, pouco se importando — Que foi? Desculpa, Dan, mas é verdade. Se queremos algo, vamos à luta e fazemos acontecer.
— Mas tem razões pra isso! — justificou.
— Velho, nem tenta. Já conheço esse teu papo aí.
Bufou.
— Então pra que quer saber, c*r*lho?! Vai lá assistir filme e me deixar em paz!
— Me preocupo com o teu bem estar. Não consigo ficar feliz se não ver essa boca gostosa abrir um sorriso junto comigo — passou as mãos pelos cabelos do menor, este ruborizado, lembrando uma maçã — Quero tu correndo atrás do que quer, e não deixando a vida passar e te tornar mais amargo.
— Não sou amargo — reclamou, ainda de biquinho como criança sem ganhar brinquedo.
— Mostra isso pro mundo — incentivou — Simples.
Mais uma vez, o raciocínio de Ian estava certo. Admitir a si mesmo o quão fechado sua mente (ainda) estava era de doer. Tanto lhe aconteceu, oportunidades de conhecer um outro lado da vida e, no entanto, encarava tudo como sendo martírio, uma cruz pesada. O primo tinha razão: Precisava urgentemente tomar goles de humanidade.
Em mais uma tentativa de realizar algo por impulso, definiu:
— Ok. Vou ir à festa — sorria — Mas tu e a Ágata vão comigo.
— Ah, Dan… Qual é? — suspirou — A gente tem planos.
— Não foi um pedido — Já foi em direção ao guarda roupa, tirando de lá alguns conjuntos para vestir.
Apesar de ligeiramente irritado, Ian procurou encarar aquilo como um pedido de ajuda de Daniel, alguém tentando tomar as rédeas da vida do jeito certo. Convencer sua ficante a ir, por sorte, foi tarefa mais do que fácil — a garota bem queria algo mais interessante para fazer o dia ter valido a pena. Como já havia se arrumado para vir até a casa dos meninos, se deu trabalho apenas de mudar de roupas. Os primos, no entanto, pareciam se enrolar no banho. Acabaram por sair de casa às 20h22min, pouco mais de uma hora depois da festa já ter dado início.
Bruno levou o trio no carro, com todos até começando a entrar no clima. Daniel fazia um esforço imenso evitando pensar nas dores de cabeça que encontraria lá, mesmo isso sendo absolutamente impossível.
Chegaram rápidos e foram guiados por Gina até sua mesa. Tudo normal, até o olhar de Alisson e Daniel se cruzarem. Duas feras prontas para se engalfinharem. Ian sentiu o clima tenso entre os dois e pôde compreender a birra do menor.
Descarado, Al se aproximou de sua mesa e se escorou bem na ponta, encarando todos de maneira contente.
— Bom ver vocês por aqui. Ian, menina que não sei o nome… Bacaninhas vocês! — brincou. Ágata levou na esportiva, rindo da cena.
— Ágata — respondeu — Já nos vimos por aqui.
— Imaginei…
— Veio anotar nosso pedido? — Dan questionou, sério.
Alisson, no entanto, virou para ele e fingiu total surpresa ao ver sua face.
— Pateta! Não tinha te visto! Dá um abraço aí! — sem cerimônia, puxou-o para realizar o ato, deixando-o a roer os dentes. Ian pareceu surpreso com aquilo, mas achou engraçado também — Na real, hoje tô de convidado. Seu Antero me liberou.
— Como assim liberou? Devia tá trabalhando!
— Compra o “Wunder Bar” então — deu de ombros — Boa noite, galera. Tenham uma boa festa.
O casal apenas encarava com surpresa a reação dos outros dois rapazes. A noite, pelo visto, seria longa…
CONTINUA
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