IMPONENTE

(Significado do título do capítulo)

A vitória do time da escolas nas competições escolares, sem sombra de dúvida, atraiu muita gente para a pequena festa realizada no “Wunder Bar”. Alunos, professores e familiares se uniam a fim de se esmerarem dos esforços de seus filhos, sobrinhos, netos o seja qual fossem os laços para com os jovens jogadores. Vantagem para seu Antero, cujo olhos brilhavam mais do que diamantes vendo tantos clientes em seu estabelecimento. Com uma tragédia pessoal acontecida tão recentemente, foi bom ter conforto, nem que isso viesse do trabalho — fruto dos esforço e da dedicação de um funcionário tão prestativo e estimado por ele. Estava só amores por Alisson, liberando-o para se unir aos amigos e curtirem a noite.

Com a ajuda de Gina, uma playlist tocava algumas músicas ambientes enquanto os convidados se serviam e sentavam nas mesas dispostas no canto direito, deixando o meio do saguão limpo em caso de uma dança rolar. Al conversava justamente isso com uma menina — não sabia se era colega, prima ou qualquer coisa assim dos conhecidos do time — quando ficou pasmo vendo Amora se atirando nos braços de Adrian. Aquilo lhe tirou do sério. A garota bem sabia do compromisso dele com Amanda,e, mesmo assim, gostava de destilar seu veneno, provocar cena, burburinho. Se realmente ela tinha esse intuito, faria isso com outro rapaz, não com o namorado de sua melhor amiga.

Sem pensar duas vezes, foi em direção aos dois, lembrando uma locomotiva sem freios. Parou bem frente à eles, para o espanto de Adrian, e começou a falar.

— Dá o fora, Amora — ordenou, de cara bem amarrada.

— Estamos conversando, Alisson — a garota tentou se prevenir. Para seu azar, a desculpa foi em vão.

— Mais um pouco e tu avança igual um peixe boi no pescoço dele. Acha que eu sou cego?

— Não sei, mas com certeza nem meu pai nem namorado tu é pra me mandar sair daqui — enfrentou, cruzando os braços.

O jogador seguia estático com aquilo, só observando o olhar de Amanda sobre si. Não aparentava estar brava, mas sim, preocupada. Vendo a inércia dele, Alisson seguiu tomando as rédeas da coisa até sua volta a terra.

— Que decepção, Amora. Se me contassem que tu era esse tipo de guria quando ficamos lá atrás, jamais acreditaria.

— Eu continuo a mesma.

— Eu sei, por isso não te culpo. Devia ter percebido que aquele papo de ser livre era fachada. Pena… Seria bom se tu levasse aquilo ao pé da letra…

— Quem te disse que não levo?! — a menina começou a ficar nervosa — Sigo exatamente tudo o que falei.

— Se realmente seguisse, teria vergonha na cara e ficaria com guris solteiros.

— O Adrian é — seu cinismo deixou ambos rapazes espantados.

— Cara, que sorte tu tem de eu tá num bom dia… Caso contrário, te arrastava pra fora daqui.

— Faz isso e mostra pra todo mundo o “cavalheiro” que tu é — ameaçou — Testemunhas são ótimas em processos, sabe?

— Continua aqui e peço pros seguranças te tirarem daqui nem que seja amarrada — revidou — Trabalho aqui, esqueceu? Se tu tiver incomodando meus clientes, posso muito bem te por pra fora.

A garota tentou pensar em algo para responder, porém não conseguiu. Saiu bufando igual um bufalo porta fora, sem sequer olhar para trás. Seu Antero, vendo o ocorrido, sequer perdeu tempo com a menina. Deixou que fosse — uma incomodação a menos, pensou.

Já Al nem se deu ao trabalho de amparar o amigo, ele mesmo foi procurar apoio na namorada. Amanda estava sentada, quieta, não brava, só quieta. Seu rosto permanecia sereno como de costume, sequer cogitando a hipótese de começar um escândalo pela cena. Passava longe de ser uma garota ciumenta ao extremo — teve lá suas crises bobas vendo as garotas de outras escolas babando por seu namorado, mas era segura quanto ao carinho e cumplicidade do rapaz consigo. O ruivo fazia questão de demonstrar seu afeto sempre que possível, sendo honesto e verdadeiro mesmo no mais humilde dos gestos. Amora teria de batalhar muito para criar um clima, até porque Mandy a conhecia de outras eras…

— Tu viu, né? — tremia como vara verde — Juro que não quero nada com ela. Tipo, nada, nada mesmo. Nem antes da gente começar a sair junto eu—

— Calma — a garota ria da situação. Estava realmente se divertindo com a cara espantada do namorado — Tá tudo bem.

— Mesmo? — ainda sim se preocupava.

— Mesmo — mostrando confiança, Amanda roubou um beijo do ruivo, deixando-o mais tranquilo, mas não menos atento ao redor — Sei que ela fez aquilo pra me irritar. Não tirou a história do Al da cabeça.

— Qual?

— Lembra? O dia que viemos aqui, pouco antes dele começar a trabalhar?

— Ah… Sim. Nossa, aquilo faz ‘mó tempão!

— Pois é — riu — Deixa ela.

Alisson ficou contente com a atitude da amiga, apesar de não ter ouvido uma vírgula da conversa. Sentiu-se útil — e feliz — por poder ajudar. Então, pôde voltar e conversar com a garota de minutos antes, torcendo para ela ainda querer alguma coisa.

Daniel não deixou escapar um minuto da cena, rangendo os dentes tamanha raiva sentida. O pior era simplesmente a explicação para ela ser inexistente. Sentia raiva por sentir, mesmo que a razão e a lógica tivessem sido mandadas às favas. Aquilo mexia consigo, causando sensações tão indescritíveis quanto seus atos impensados. Ian estava a seu lado, comendo alguns quitutes e igualmente observando Al salvar um namoro do fim.

— Querendo se aparecer — reclamou para si, ainda que o primo tivesse ouvido.

— Ah, Dan, qual é. Foi legal — repreendeu — Faria o mesmo.

— Que ótimo! Agora o bebezão tem um anjo da guarda — revirou os olhos — Desde quando se importa com o que ele faz?

— Me importo com a atitude que ele fez —corrigiu — Pra que essa crise agora?

— Me deixa —ajeitou seu cabelo, pegando o cardápio para fingir estar lendo. Novamente, sua visão pareceu incomodá-lo com alguns borrões, porém nada falou.

Continuou encarando Al com seriedade, enquanto este se esforçava para conquistar a menina de cabelos morenos e pele pálida a seu lado. Pior de tudo: estava conseguindo. Isso o tirava do sério. Como podia, passado tudo pelo que passara, estar agindo com a maior displicência?

Gil apareceu em sua mesa, trocando alguns copos já sujos e levando-os para a cozinha (não sem antes receber cumprimentos do ex e de sua ficante. Dan estava “ocupado” demais para tal). Sabendo disso, foi fervendo chamar o amigo (Alisson) de canto. Al revirou seus olhos, indignado. Tão perto de tirar o atraso da seca na qual sua vida amorosa foi transformada e, aparentemente, o destino se esforçava em atrasar ao máximo a concretização disso.

Puxou o garoto para um canto mais afastado. Sentiu-se na obrigação de alertar o fato esquisito que ocorria sem ele se dar conta. Talvez tomasse alguma providência, conversasse com o primo teimoso de Ian e, finalmente, se entendessem de vez.

— Ele não para de olhar pra ti — foi direto.

— Quem? — encarou-o, confuso.

— Cavalo manco, agora eu vou te ensinar… — cantou a música, fazendo referência ao rapaz. Al riu daquilo.

— É mesmo? — sorriu, malicioso — Pois bem. Quer ficar de c* doce? Fica, mas com motivo agora.

Naquele momento, Gil percebeu a bomba se armando. Sua cabeça achava bizarro os dois estarem numa guerra fria na qual nenhum dos dois tomava partido para entender as coisas. Se não se gostavam, tudo bem, mas a insistência feroz em irritar um ao outro só o fazia confirmar suas suspeitas (e talvez a de outras pessoas atentas aos estranhos movimentos dos rapazes nos últimos tempos).

Alisson retornou a garota, cochichando em seu ouvido se ela estaria afim de uma dança. Feita a confirmação, puxou-a para a “pista de dança” e foi até a mesa do DJ. O ato atraiu ainda mais a curiosidade de Daniel, sem compreender qual era a do mais velho. Não tardou a descobrir: Da caixas de som começou a se ouvir Livin’ La Vida Loca ecoando pelos salões do “Wunder Bar”, atraindo não só a dupla (Al e sua garota), como outras pessoas contagiadas pelo ritmo ágil da música cantada por Ricky Martin. Disposto a entrar no joguinho, nem esperou convidar alguém. Foi direto em Sabine, sentada na mesa atrás das cadeiras de Ian e Ágata, puxando-a para o meio da roda que se formava. A loira, lógico, estava em estado de choque com aquilo.

Quando começaram os primeiros versos da canção, Al já mostrava o controle e parte do talento adquirido nas aulas de Gustavo. Coordenava a dança com o ritmo correndo em suas veias, dando a parceira a confiança necessária para se entregar de vez aos movimentos (sejam eles quais fossem). O menino a fez rodopiar feito um pião de madeira, agarrou sua cintura colada na sua, imitou a maioria dos gestos vistos nos filmes… tudo só para manter a pose e se divertir, é claro.

Dan não ficava atrás em nada. Também fez de Sabine uma colega de dança extremamente competente. Dançavam colados, fazendo referências ao tango clássico e até, tal qual Alisson, filmes antigos como os passos inesquecíveis no maior estilo Dirty Dancing, porém adaptados ao passo da música. A menina, sem ter noção, realizava os movimentos quase por reflexo, mostrando o quão seu parceiro também tinha coordenação necessária para conduzir uma dança se preciso fosse.

Ao chegar no primeiro refrão, as duplas entraram em uma sintonia absurda (se tivessem combinado daria errado, sem sombra de dúvidas). Os rapazes tomaram frente, se encarando como feras batalhando por território, enquanto as moças tomavam fôlego para o round se aproximando. O momento foi deles, Al e Dan; unidos, mesmo separados. No pós refrão, retomaram as parceiras e iniciaram de novo o show de talento e dedicação. O público ao redor, inclusive, parou para admirá-los enquanto batiam palmas no ritmo exato da canção.

No momentos finais, mesmo com o suor mostrando sua exaustão, seguiam firmes na birra. Agora sozinhos, cada qual inventava um passo diferente para impressionar — usando até movimentos originais do hip hop e dança de rua, adaptados para o pop chiclete dos anos 90. Quando a música chegou ao fim, os aplausos foram ouvidos a quilômetros de distância, tamanha efervescência dos garotos e suas parceiras. Estas estavam tontas já de tantas piruetas e passos quase aeróbicos. Ambas tiveram de sentar em um banco para se recompor, enquanto os meninos seguiam se encarando com olhares distintos entre si. Al encarava Dan com certo deboche, já Dan o fazia com mais inquietude e raiva ainda. Preocupados demais, nem notaram tanto os aplausos, apenas retornaram cada qual para sua mesa.

Daniel escorou-se na mesa de Jeff para respirar e acabou por perder o fôlego. Chateado com a atitude impensada do amigo, este o advertiu, perguntando porquê do feito.

— Eu… quis dançar, ué — respondeu, entre os suspiros.

— Jura? E por que não pensou em outra pessoa?

— Ah, sei lá — deu de ombros — Jeff, qual é, cara? Não vou dar em cima dela.

— Então não traz esses sentimentos de volta. Isso só vai piorar a situação.

— Que situação? Do que tu tá falando?

Jeff bufou. Seria difícil contar aquilo sem o consentimento de Sabine, todavia, seria injusto sofrer calado sem poder se manifestar. Confessaria com certo “pesar”, por incluir terceiros, mas nada o impediria de fazer Daniel saber de toda verdade.

— Nessa nossa viagem, as coisas mudaram um pouquinho… — relembrava — não ficamos nem nada, mas curtimos vários momentos à dois juntos. Foi incrível. Nem lembrava o quão divertido e interessante era sair com uma guria.

— E? — o outro queria chegar logo ao ponto.

— Estamos aprendendo a conviver juntos.

— Isso eu vi. Antes mal se aguentavam dois minutos num mesmo ambiente sem se implicar, hoje sentam juntos na mesa — observou — Fica frio. Foi só uma dança. Se tu ficou ofendido, desculpa.

— Tranquilo. Só manera. Ela também tá… superando uns lances aí — comentava do seu crush com Dan, ainda não superado completamente.

— Não entendo porquê dançar comigo seria um estrago, mas — deu de ombros — fiz isso pra mostrar pro bebezão como se dança de verdade.

— Pera — só então a ficha caiu — Tu… só queria provocar o Alisson?

— Ele tava se achando demais só porque tá pegando uma mina. E daí? Eu poderia também.

Jeferson lembrou das suspeitas de Sabine dias antes. Teria aquilo algum sentido enfim? Estranhou, afinal de contas os motivos para aquela cena toda, segundo foi constatado, eram os mais absurdos possíveis. Tão absurdos que Daniel via apenas o seu lado como algo legal, travesso, não como… ciúmes. Deveria contar a loira sobre a colocação? Perguntaria a Dan se ele estava ciente do que disse?

***

A noite foi seguindo alegre e contagiante. Com a abertura dos trabalhos feita pelos meninos, os convidados se animaram em dançar grandes clássicos memoráveis da música, fazendo o DJ escolher a dedo cada uma das faixas para manter a emoção. Alisson, inclusive, se deixou levar pela corrente enérgica da pista várias vezes, dançando e conquistando ainda mais a garota morena a quem fazia companhia. Ela estava entregue as palhaçadas e ao charme do menino. Do outro lado do salão, no entanto, havia alguém extremamente intrigado e focado neles. Daniel tentava se distrair, porém algo o impedia, tirava sua paciência. Queria entender o porquê daquela quase obsessão com seu amigo naquela noite, mas seu coração parecia mais perdido que sua mente.

Sabine ficou mais quieta depois do episódio e Jeferson sabia bem o motivo. Tinha certeza: aquilo havia conturbado seus sentimentos outra vez. Todo o progresso vivido até então conseguiu ser ameaçado por uma única dança, motivada ainda puramente por besteiras da cabeça de Daniel. Aquilo era digerido em sua cabeça como uma carne dura sentando no estômago. Buscava perdoar o amigo, porém, os motivos levado àquela ação, somados ao constrangimento de Sabine, impediam. Queria poder falar com Alisson para ver se sentia o mesmo, achando melhor, após muito pensar, deixar o tempo lhe dar mais provas das suspeitas de sua crush para poder afirmar algo com maior convicção.

Tudo só piorou quando, do nada, Daniel bateu os punhos com força na mesa enquanto Ágata e Ian se divertiam ao lado. Ambos até se assustaram. Ian, no entando, ao reparar onde estava o olhar do primo, entendeu tudo. Lembrou-se da conversa com Gil — e o ex estava certo. Alisson pegava a menina em um cantinho mais afastado dos convidados (até porque ainda era seu local de trabalho, mesmo liberado para curtir a noite). Pareciam bem empolgados entrelaçando suas bocas e com as mãos bem livres para percorrer por onde desejassem. Dan parecia um vulcão assistindo aquilo, tamanho tremedeira dada nele e seus olhares intimidadores. O primo não teve dúvidas : Ele ia explodir. Pensou em intervir, porém, achou interessante ele começar a lidar com as consequências das coisas. O menor precisava amadurecer, cair na real, e se Al era o mais indicado a fazer isso, tanto melhor. Apenas controlaria para o menino não perder a razão de vez.

Em um estalo de dedos, Daniel foi até o canto, pegou Alisson pelo braço e começou a puxá-lo sem dar satisfações a ninguém. O mais velho ficou estarrecido com a atitude, mas foi indo até a porta do “Wunder Bar” e, depois, para o outro lado da rua, onde pararam e ele finalmente foi largado.

— Tu é louco, pateta?! Tava num beijo tri gostoso que com esse puxão quase arrancou meu lábio fora! — reclamou.

— Eu quero que tu me explique agora que p*rra era aquela! — falou em um tom alto.

— O quê, seu doente?!

— Aquela p*taria no meio do salão! Fez aquilo de propósito, né? Pra me irritar, tirar minha cabeça do lugar…

— Teu problema só um psicólogo resolve. E dos bons, porque p*ta que p*riu! Haja saco pra aturar esses teus surtos.

— Surtos?! — do nada, Dan agarrou Alisson pela gola da camiseta e o pressionou contra a parede de uma loja desativada — Eu tô te aguentando desde o início da noite. Tu quer me fazer sentir pena de ti, ao mesmo tempo fica se agarrando com uma guria na minha frente! Qual a lógica disso?

— Qual a lógica dessa tua pergunta, isso sim! E me larga! — ambos já estavam visivelmente alterados.

— Tu fez aquilo com a Vanessa só pra me atingir, é claro. Tu tem inveja porque eu tenho uma namorada linda e gostosa do meu lado.

— Ah, tá. Faz me rir — riu, dechado — Essa tua felicidade falsa aí não quero nem de graça. Quero é ser feliz de verdade, com pessoas e coisas de verdade, e não fantasias da minha cabeça.

— Então me deixa em paz! — gritou — Deixa minha cabeça em paz! Para de querer atormentar a minha vida! Que m*rda!

—Tá vendo? Pelo menos EU encaro os problemas da minha vida. Sabe por quê? Eu sou um HOMEM, Daniel! Cresci e amadureci, ao contrário de ti que adora colocar tudo nas costas quentes do teu primo!

— Mas que p*rra! Tanto tá falando do Ian agora, hein? Tá querendo pegar é?

— E seu eu quiser? — disparou, para o espanto de Dan — E se me der na telha? Hã? Ele não é lindo, gostosão, f*dástico? Então… Traço ele todinho, bem gostoso pra nunca mais esquecer. Me diz aí, qual o problema? Se ele quiser, o que tu vai fazer?

Aquelas palavras foram duras diante daquela circunstância tão desagradável. Ian, Ágata e Gil observavam de longe, incrédulos com o que ouviam. Ao que parecia, Alisson estava se entendendo. Gil não pôde deixar de sorrir, orgulhoso apesar de tudo.

— Tu tá falando isso pra me irritar. Tá tão óbvio isso — Rebateu.

— Não, c*r*lho! Tô falando isso porque tá aqui ó — a força, pegou a mão direita de Daniel e colocou sobre seu coração — É ele quem decide isso. Não eu.

— Então… Tu tá dizendo que —

— Se eu bem entender, vou pegar teu primo, sim! É isso, p*rra! Entendeu? — gritou — E não é só ele não. Qualquer marmanjo que eu tiver tesão e quiser, eu pego.

— Tem noção da idiotice que tu tá falando?

— Não é idiotice não, é vontade. É querer fazer… Por mais difícil que seja pra mim admitir isso… Agora eu pego guris também.

Foi então que Daniel algo acabou interligando pontos desconexos de sua mente perturbada. Relembrou dos momentos na casa de Gil, das conversas em conjunto e da noite no Labirinto Verde. O beijo… aquele marcado para sempre como o mais impactante de sua vida, mudando toda sua história, destino, criando mil e uma facetas novas e desconhecidas, agora tudo parecia se encaixar perfeitamente. Para a infelicidade de Alisson, não foi para o bem. Dan o largou, já o encarando de novo com olhar de desprezo.

— Claro… Foi armação… O beijo na praça — ligava os pontos.

— QUÊ?! Claro que não! — tentava se justificar, recebendo um empurrão forte contra a parede. Desta vez, o menor não ficou pressionando, limitou-se aquele gesto.

— Não chega perto de mim, seu viado do c*r*lho! — gritou, deixando lágrimas escorrerem — Esquece que eu existo, onde eu moro, minha amizade. Me mata na tua vida!

— Dan! Dan, espera! — o garoto chamou, tentando ir atrás do mais novo, porém ele repetiu o ato de o empurrar e saiu dali o mais depressa que pôde em direção a sua casa.

Pela primeira vez em muito tempo, Alisson deixou um grito de ódio e mágoa ecoar por sua cabeça enquanto o choro vinha com força total. Era um garoto assustado, triste, arrasado e humilhado por alguém que considerava muito. Gil e Ian foram na mesma hora socorrê-lo e tentar acalmar seu coração. Infelizmente, estava tarde demais para isso: estava em pedaços.

CONTINUA