A Teoria das Cores
58 Laranja IV
DIVERSÃO
Nada melhor do que curtir merecidas férias ao lado de pessoas que amamos muito. É uma forma de podermos criar momentos que nos acompanharam para o resto da vida, e que mesmo após a partida destes, ainda permanecerão vivas e intactas em nossa memória. Não existia nada no mundo que pudesse tirar essa alegria que o jovem Ian tinha por estar ali, junto dos primos, naquela manhã de sábado. Sentia prazer (quase que literalmente) em ter sua companhia.
Acordou ajeitando seu “amigo” dentro da cueca após mais um sonho erótico com Daniel, o único dos primos não presente. Nele, ambos iam, só de roupão, a uma banheira de hidromassagem, em um local que o garoto de olhos claros não pôde identificar. Enquanto beijava cada centímetro de seus ombros, Dan tirava com cautela o roupão branco do primo, ajudando-o em seguida a entrar na tal banheira. Depois disso, a pegação rolou solta. Entretanto, no meio de tanta euforia e pegação, o mais novo falara algo que despertou seu interesse:
“Faz como ele fez, primão”
Daniel repetia isso quase que sucessivamente durante o avanço das carícias. Agora, já acordado, Ian achava curioso. Fazer como quem? Quem seria a misteriosa figura? E, além disso, por que estava se referindo a outro guri se ele próprio disse que isso jamais aconteceria? Essas e tantas outras perguntas que faziam as cabeças do garoto trabalharem a mil.
Após um longo banho matinal para começar bem o dia, foi para sala tomar seu café da manhã. Clara e Sérgio não haviam retornado de sua pequena “lua de mel”, então seguia com a companhia dos primos para alegrá-lo. O primeiro que o fez, quase quinze minutos depois, foi Andreas. O mais velho estava com uma cara nítida de sono, só com uma cueca azul marinho cobrindo suas partes íntimas.
— É incrível como, apesar da cara de zumbi, tu continua sendo gostoso — Tirou o mais novo, recebendo um dedo do meio de resposta. Riu com o feito — Dormiu bem?
— Como um pássaro — Preenchia uma xícara com leite — Tô pasmo de estarmos todos vestidos. Que milagre te deu?
— Tu acha que eu faria uma blasfêmia dessas? — Fingiu uma careta de espanto.
— Óbvio. Sempre acontece isso quando tu vem pra cá.
— Sabe o que é, Drê — Levantou-se da cadeira, indo em direção ao mais velho. Quando o alcançou, abraçou por trás — É que é tão mais divertido persuadir vocês a tirarem a roupa.
— Ué, não era tu quem tava “fazendo greve” comigo? — Pressionou o garoto de sardas.
— Tu mereceu pelo que fez com o Dan. Mas agora tu tá se comportando direitinho. Merece uma chance — Sussurrou ao pé do ouvido.
No entanto, para sua surpresa, Andreas se afastou de seus toques e amassos. Encarou-o perplexo.
— Que foi? — Questionou.
— Nada. Só estamos nós de novo falando do Daniel.
Ian revirou os olhos como forma clara de mostrar seu contragosto pelo comentário do primo.
— Drê, não vamos começar de novo essa história né?
— Óbvio que não. Ainda mais depois do que rolou entre vocês dois.
— Foi só um beijo. Tu não tava beijando o Luan quando o Jô veio aqui? Então, cara!
— Que seja, Ian — Deu de ombros — Não vou perder meu tempo falando mais sobre isso.
O garoto mais novo riu fraco, desligando a leiteira para o leite fervido não derramar.
— Se nós fôssemos parte de algum livro, os leitores iam dizer que tu parece aqueles vilões mal comidos saca?
— Tu que tá rastejando pelo amor de uma mula e eu que sou vilão? Bem certinho — Ironizou — Se os leitores quisessem me odiar, que me odiassem. Não ia mudar o fato de tu tá perdendo teu tempo correndo atrás de um guri que não vai te dar a metade do que tu merece.
— Quem disse que tô rastejando? Tô bem sem estar com ele.
— Ótimo. Então para de dar em cima dele.
— Então eu paro de dar em cima de vocês também — Chantageou com um sorriso malicioso nos lábios, puxando Andreas pela calça moletom que este vestia e colando-o contra seu corpo magro definido — E eu ia odiar isso.
— Tu não é capaz de odiar nem mosquito que eu sei — Retribuiu o sorriso.
— Claro! É um bichinho da natureza!
— Tu também. Aranha trepadeira. Conhece?
O menor não pôde deixar de gargalhar com a fala do mais velho. Não resistindo, puxou-o para um selinho rápido. Porém, por uma falha de cálculo, o ato acabou se estendendo por mais alguns minutos.
Como Andreas gostava de saborear a boca desenhada que o primo tinha. Por muito tempo, sequer cogitou a hipótese de tocá-la: Por, na época, acreditar ser hétero e também pelo rapaz ter laços de sangue consigo. No entanto, ele mesmo se prontificou a o mudar para sempre. Era grato por isso, mais até do que seus limites familiares permitiam. Depois dos momentos que viveram na praia do Cassino, queria muito mais que simples beijos, toques e transas – queria Ian para si, ser o garoto merecedor de todo aquela chama vitalícia incansável que fervia dentro do mais novo. Infelizmente, não era o que o destino queria, só não descobrira isso naquela época...
— Tu faz falta aqui, sabe? — Comentou o primo mais velho.
— Vocês também me fazem lá — Confessou, ainda com as mãos na cintura do primo.
— Tem certeza que não quer mudar para a UFRGS? Tenta o vestibular deles que tu passa.
— Justo agora que consegui um emprego e a faculdade de Música, Drê? Não rola.
— ‘Pera. O quê? — Questionou.
— Eu ainda não falei pros meus pais, portanto silêncio — Pediu — Eu consegui sair de Logística e ir fazer Música. Fiz a transferência faz um mês mais ou menos.
— C*r*lho, Ian! Que f*da! – Elogou, dando um abraço apertado no rapaz — Finalmente foi para uma área que tu curte né?
— Os coroas não curtem tanto assim — Coçou a nuca — Mas f*da-se. Eu sei que isso terão consequências, mas não vou limitar meus sonhos por causa dos sonhos alheios.
— Por isso tu é especial — Deu um selinho no outro, fazendo-o rir.
— Bah! Mas continuam nessa pegação?! — Uma voz ecoou na entrada da cozinha. Era Micael — Que medo de dormir perto de vocês.
— Tu não sabe o que tá perdendo, viu? — Ian desdenhou.
— A única coisa que perdi foi o número da guria que fiquei na festa do sábado passado. Tu lembra que calça eu tava usando, Drê?
— Sei lá, velho. Nem lembro de te ver sábado passado. E vai por um desodorante! Não quero morrer asfixiado — O mais velho ordenou.
— Cheiro de macho, Andreas. Vê se aprende!
— Um cheiro desses, em grande escala, extingue a humanidade. Tá ligado nisso, né?
— Se f*der também — Mostrou o dedo do meio para ambos, que só souberam rir.
Era bom um momento de descontração. Para Ian, isso era importante – ter todos os primos juntos, unidos, brincalhões e, se possível, se pegando. Mas, por hora, era o que lhe bastava. Precisava de tempos assim, já que a volta a Nova Petrópolis tiraria o seu sossego...
***
A melhor parte em se ter amigos é poder ter momentos a se compartilhar. Isso que tornará o futuro incerto, recheado de boas recordações e histórias para contar. E o fato de estarem ensaiando juntos, fez com que Alisson e Daniel vivessem coisas no mínimo hilárias. Ambos ainda estavam aprendendo a se soltar mais para poder ganhar a tática de movimentos necessários na street dance. Ainda sim, visivelmente, Al mandava muito bem. Suas horas vendo vídeos dos profissionais e tentando praticar os gestos mais fáceis tinha valido a pena. Treinaram durante quase meia hora para conseguirem, por fim, acertar todos os passos.
— Até que enfim! — Comemorava Dan, eufórico — Achava que não ia acabar nunca esse c*r*lho!
— Se tu não dançasse igual uma minhoca morrendo, quem sabe teríamos conseguido antes — Al não podia deixar de alfinetar o colega — E para de reclamar. Acho que conseguimos terminar cedo até.
— Minhoca morrendo é teu c*.
— Quer ensaiar de novo ou vamos lá apresentar pro professor? — Mudou a conversa. Sabia que pisar nos calos de Dan era inútil, apesar de gostar de vê-lo surtar.
— Tô esperando a Van. Ela foi num banheiro na China eu acho pra demorar tanto.
— Deixa a mina. Vai ver, ela já tá até lá e nós dois aqui.
— Vamos esperar mais um pouco pra ver se ela aparece. Já consegui decorar os passos.
— Decorar? Tu tem que ter aprendido, pateta! Eu te disse que é pra levar isso a sério! — Contestou o mais velho.
— F*da-se — Deu de ombros — Temos tempo pra aprender.
Al só revirou os olhos, sentando em uma cadeira que havia no seu lado. Dan fez o mesmo, mandando mensagem para a namorada em seguida. Ficaram em silêncio por alguns instantes, ficando só com a cabeça focada em seus próprios problemas. Para Al, a vida lhe dava um a cada dia, deixando sua cabeça cada vez mais atarefada e com pendências a resolver. Para Dan, o namoro com Van e como este ficaria abalado com a notícia de que ele havia beijado outro rapaz, mesmo que sem querer.
Devido aos movimentos rápidos que tinham feito, Alisson logo começou a sentir calor, tirando casaco preto que o cobria para poder tirar os dois blusões de lã que tinha por baixo. Quando foi levantar ambos, um de cada vez, acabou por deixar transparecer parte de seu abdômen. O fato não passou despercebido pelo amigo, que assistiu a tudo de canto de olho.
— Desde quando tu malha? — Puxou assunto.
O maior arqueou a sobrancelha, curioso com o comentário.
— Malhava até uns três meses atrás, quando minha mãe parou de pagar — Respondeu, não deixando sua curiosidade morrer — Tá me cuidando, pateta?
— Não se pode mais fazer um comentário — Foi sua vez de revirar os olhos.
Al riu do comentário.
— Aposto que nunca viu um tanquinho tão definido né? — Debochou.
— Até parece que eu cuido tanquinho de macho. Não curto nem mulher com isso, imagina homem.
— Não tô falando dos outros, patetão. Tô falando de ti mesmo.
— Eu tenho um pouco. Sei lá, não fico reparando — Resmungou.
— Sei... — O garoto analisou o perfil do amigo, tentando tirar algumas conclusões — Tu deve ter uma bacia no lugar de tanque mesmo.
— Não é pra tanto — Levantou um pouco o casaco e a camiseta que o cobriam, mostrando seu abdômen também levemente definido — Viu?
— É... Parece um suflê que desandou, tá ligado?
— Muito melhor que a tua tá! — Rebateu.
— A minha tá muito melhor sim. As gatas adoram.
— Falador!
— Ah é? Te liga, então.
O mais velho tornou a tirar o casaco, em seguida da camiseta, deixando seu peito a mostra para a avaliação de Dan. Todavia, ao fazê-lo, provocou nele uma certa pontada no estômago, um sentimento esquisito que não soube identificar do que se tratava. Para piorar, sua visão ficara um pouco turva, não conseguindo enxergar direito.
— Vai ter que chegar mais perto. Não tô enxergando — Confessou ele.
— Como não tá enxergando?
— Não enxergando c*r*lho! Chega mais perto.
— Como tu enxergou antes então?
— Beleza. Fica aí — Voltou sua atenção ao celular.
— Tá. Eu vou — Al revirou os olhos, se aproximando.
Com mais clareza, pôde perceber os traços firmes que tinha o peito do rapaz. Ainda sim, com a proximidade, Dan se sentiu mais desconfortável.
— Tua vez — Ordenou o mais velho.
— O quê? — Perguntou sem compreender.
— Ué, não sou eu o trovador? Tá fazendo o que ainda que não provou que tem mais do que eu pra oferecer?
— Quer mesmo me ver sem camiseta?
— Tu quis me ver, não quis?
— “Querer” é uma palavra muito forte e sentimental.
— Deixa de ser fresco, pateta! Alguém aqui vai te morder por um acaso?
— Morder não sei, mas beijar... — Ironizou, tirando a paciência do outro.
— Se tu falar de novo nessa p*rra de beijo, eu vou —
Al foi em direção ao garoto, parando a centímetros dele. Sentiu seu coração bater tão forte que parecia querer pular para fora, como se algo além de seu controle quisesse tomar posse de seus atos. Dan não estava por menos. Ambos se encararam por alguns minutos, estranhando suas atitudes. Seus olhares estavam estranhos, distantes, e ao mesmo tempo tão próximos. O que estava acontecendo ali? Algo que estava fora de seu controle?
O mais velho apenas recuou quando percebeu seu ato. Talvez tivesse levado o afronte além do permitido? Era bem possível. Não havia motivo plausível para perder a cabeça daquele jeito. Entretanto, assim que o fez, Daniel levantou da cadeira e tirou as vestimentas que cobriam seu tronco.
— É isso que queria ver? — Perguntou de má vontade.
Alisson revirou seus olhos e tornou a olhar para o garoto. Desta vez, com espanto. Não esperava tal reação depois do drama que o outro fizera. O encarou com o coração seguindo em batimentos que transcendia do habitual. Os olhos ficaram expressivos, o restante imóvel. Cada poro de seu corpo suava tanto que parecia uma imensa cachoeira. Mal sabia se compreender diante daquilo.
O corpo de Daniel, apesar de ligeiramente mais baixo, tinha sim alguns traços atléticos. A pele bronzeada dava um realce a mais em sua curiosa figura, fazendo com que o mais velho piscasse algumas vezes. Deu um passo para trás devido a uma leve vertigem que apareceu. Tudo tão curioso; tudo tão estranho...
— Vai ficar aí com cara de pão de forma ou vai me responder? Tá frio c*r*lho! — Dan retrucou, impaciente.
— Responder o quê? — Estava completamente desnorteado.
— Se eu tenho algo pra oferecer — Revirou os olhos ao falar.
— Ah... — Coçou a nuca — Tem... Ou não. Sei lá.
— Como não sabe?
— Pateta, eu não sou experiente com guris pra saber.
— É mesmo? Porque contando comigo sou o segundo teu.
— E daí? Não significa nada.
— Sei...
Dan vestiu suas roupas novamente, ainda tentando lidar com a situação. Sabia que jogar a culpa para cima de Alisson não era o mais apropriado a se fazer, afinal, ele mesmo beijou Ian de livre e espontânea vontade. Via, no olhar do amigo, uma confusão incomum. Suspirou fundo, ajeitou seu moletom e foi em direção a ele, tocando em seu ombro para que virasse e pudessem conversar.
— Bebezão — Chamou mais calmo.
— Quê? — Perguntou sem interesse.
— Lembra do Ian? Meu primo que a gente flagrou querendo fazer—
— Sim. Lembro — Nem esperou o menor terminar — Por quê?
Engoliu seco. Era a primeira vez que falava daquilo com alguém. Foi até a porta, certificando-se de que nem mesmo Vanessa estava retornando, aproximou-se de novo e confessou:
— Eu... — Falava baixo — Beijei ele.
— O QUÊ?! — Al exclamou alto, porém, Dan colocou a mão em sua boca para tapar o grito histérico.
— Isso mesmo que tu ouviu. E cala boca que tu não tem moral pra me julgar.
— Tá, tá — Empurrou a mão — Como rolou isso?
— Foi um pouco antes dele se despedir e ir passar as férias em Porto Alegre.
— Isso foi antes ou depois da gente ter... — Gesticulou. Ainda era vergonhoso pronunciar aquilo em voz alta.
— Depois. Três dias depois pra ser mais exato.
— C*r*lho...
— Mas não vai deduzindo coisas! Só fiz porque... Bem, eu me senti na obrigação.
— Obrigação de quê?
— Eu gosto dele, porém como meu primo. No máximo irmão. E ele ir embora assim é meio... Difícil.
Al refletiu um pouco. Fazia sentido, tinha de admitir.
— E aí tu quis dar esse presente a ele? — Questionou.
— Sim. Não vai mais se repetir, antes que pergunte.
— Por que eu ficaria interessado em saber se vai repetir?
— Não sei. Só senti que tinha que te falar isso pra tu não encher meu saco depois.
O mais velho riu. Ficaram em silêncio por mais alguns minutos antes de decidirem ir apresentar a coreografia improvisada ao professor. Quando lá chegaram, Gustavo falou que eles eram a segunda dupla a ter ido apresentar e que estava curioso para ver os meninos – que na aula anterior foram suas “cobaias” no pole dance – em ação. Foi tiro e queda, ambos tiraram de letra a apresentação, dançando na mais perfeita sintonia “Beautiful People”, do cantor Chris Brown, mesmo artista escolhido por Ana e sua dupla.
Falando neles, não tardaram a chegar – Foram a quinta dupla. Entretanto, Dan não entendeu o motivo de encontrar Vanessa com eles. Iria falar sobre aquilo, em outro momento. Por hora, só queria mesmo ir para sua casa descansar. Marcella e Ronaldo pediram para o garoto uma ajuda extra naquele sábado. Não tardou a se despedir de Al, ainda que sentisse que algo não estava bem encaixado. O que ocorria ali?
***
A noite chegou e com ela o ânimo de Alisson para viver um pouco. Mais uma vez, seu Antero tivera problemas com sua familiar enferma – Ao que parecia, seu quatro piorara de tal forma que não havia mais solução. Em breve, faleceria. Aquilo chateava o garoto, pois via o quanto o senhor lutava para se manter firme e, ainda sim, tocar seu café para frente. Tinha arquitetado o plano para ajudar nas finanças do lugar, só contava com a vitória do time no campeonato. Ainda sim, não deixara se abater para sua noite. Deixou aquilo de lado e pensou um pouco mais em si mesmo.
Havia resolvido que precisava de sua própria companhia para relaxar. Julgava que ter tanta gente lhe trazendo problemas se tornara mais um. Quem sabe uma noite sozinho faria bem? Vestiu uma camiseta qualquer, um blusão quente de lã e um casaco xadrez azul/preto para cobrir os membros superiores; e uma calça skinny preta com tênis all star. Para preencher um pouco seu ego, arriscou por um pouco de gel na franja que crescia.
— Tá gostosão hein? — Elogio-se.
— Tá mesmo — A voz de Marisa fez com que o rapaz desse um pulo de susto.
— MÃE! — Exclamou — Não se entra no quarto dos outros sem bater!
— A porta tava aberta. Não tive culpa nenhuma — Defendeu-se — Posso saber onde meu filhote vai com toda essa produção?
— Na verdade, não sei ainda. Só vou sair. Decido no caminho.
— Aposto como vai encontrar alguma criatura pra fazer minha casa de motel né? — Cruzou os braços, encarando o filho.
— Se a senhora quiser, vou pra um motel mesmo e— Não concluiu a fala, levando um tapa no ombro em seguida — AI! Que foi?!
— Meu filho? Num motel? Só no dia em que chover vacas!
— Tá! Então eu trago pra cá! — Mais um — AI!
— Não quero ninguém aqui, tá ouvindo?! Imagina! Meu bebê enfiado na cama com uma dessas meninas sem vergonha! NUNCA!
Al revirou os olhos enquanto ria. Sabia que era drama da mãe.
— Tá bom. Vou me comportar — Prometeu.
— Bom passeio — Deu um beijo na bochecha do filho, indo em direção ao seu quarto.
Saiu de casa por volta das 20h47min. Cedo, em seu julgamento, mas com toda a vida de trabalhador, aprendera que chegar em casa depois das 22h é tarde demais. Iria parar em algum lugar para poder curtir, foi quando, por ironia, passou em frente a uma casa um pouco mais afastada da região. O lugar parecia movimentado, com pessoas dançando –e arriscando alguns amassos tímidos – na própria calçada frente à casa. No meio de tantos rostos, um lhe foi familiar. Por coincidência, o dono dele também o reconheceu.
— EI! Alisson né?! — Gritou a voz do lado oposto da rua. Era Ana.
— Sim! — Respondeu de volta.
— Chega mais, cara!
Assim o fez. Atravessou a rua com cautela, a fim de evitar acidentes. Assim que chegou ao outro lado, fez um cumprimento de mãos com o garoto trans.
— Essa é minha mina — Apresentou uma moça de cabelos pretos, longos e um olhar terno como uma noite de outono — Acredite se quiser, mas o nome dela é Mia.
— Mia? Igual a dos Rebeldes?
— Irmãs gêmeas separadas na maternidade né? — A moça brincou enquanto ria — Satisfação.
— Igualmente — Respondeu, educado — Tá animado aqui, não?
— Meu amigo tá dando uma festa. É que um outro amigo dele tá por aqui de férias, e resolveram “botar pra quebrar”, como se diz — Ana explicou.
— Bacana. Bom, vou deixar vocês à vontade. Já tenho que ir mesmo.
— Ei! Espera! Fica por aí! — Sugeriu — Ele não vai se incomodar.
— Será?
— Sem dúvida nenhuma. Ainda mais que os pais dele saíram.
— Se tu acha que não dá nada, vou ficar mesmo.
— Assim que se fala, brother! Entra lá, pega algum petisco e volta aqui pra continuar o papo. Mal nos conhecemos...
— Ok. Com licença.
E foi assim que Al fez. Entrou pelo portão e foi em direção a porta de entrada. Não sabia porquê, mas tinha certeza que aquela casa lhe era familiar... Lá dentro, as pessoas dançavam efervescidas ao som de “Sexy B*tch” de David Guetta. O mais curioso para ele, no entanto, foi a quantidade de casais LGBT que encontrou. Garotos pegando garotos, garotas pegando garotas, ambos se pegando... Era como uma grande salada de frutas onde tinha de tudo. Sentia-se um pequeno hétero no meio de tanta diversidade.
O pior veio em seguida quando, por acaso, trombou com mais um rosto conhecido.
— Gil? — Questionou.
— Mas olha aí, gente! — Estava visivelmente alterado pela bebida — É o Alisson! Dá oi, Al!
— O-oi — Respondeu, sem compreender muito bem o que passava — Tu foi convidado pra festa é?
— Convidado? — Deu uma gargalhada alta, mesmo que quase inaudível por conta da música — Eu tô dando essa festa, Al.
CONTINUA
Fale com o autor