A Teoria das Cores
21 Laranja II
INTOLERÂNCIA
Quantas vezes na vida você já teve de encarar situações embaraçosas? Bom, espero que não muitas já que isso é deveras... Embaraçoso. Pois é, nem em seu pior pesadelo, Daniel imaginava que ia passar um vexame tão grande quanto naquela quinta feira.
Assim que deixou Ian na cozinha, foi para seu quarto. O local estava um verdadeiro pandemônio. Suspirou e admitiu que era hora de começar a organizar tudo para parecer pelo menos que era um local onde dormia alguém civilizado. Começou a organização, achou coisas que há muito não se lembrava da existência.
Achou por exemplo seu boletim da oitava série, a cueca da sorte que um cachorro que tivera destroçou e ele “guardou”, um livro da biblioteca que leu no primeiro ano mas mentiu ter perdido para ficar com o livro, e até uma foto. De todos as coisas que ele encontrou essa certamente fora o que mais mexeu consigo. Era uma foto de quando Dan estava no último ano do ensino fundamental e jogava no time de futsal da escola. Naquele ano seu time havia sido campeão graças a um gol dele, e na foto Ian estava junto dele e o resto do time com a taça na mão. Lembrou-se que foi o primo quem lhe motivou a jogar naquele dia.
— Nunca gostei de futsal. Só joguei porque era a nota do terceiro trimestre — Comentou ele na véspera do jogo. Estava entretido lendo uma HQ de uma marca famosa.
Naquela época Ian não morava com eles, estava ali como visita junto de seus pais. Conseguiram folga para prestigiar o sobrinho na final.
— É essa tua desculpa pra arregar? — Ian perguntou debochado.
— F*da-se o que vão pensar. Não quero jogar.
— Cara, a vida não é só feita de coisas que a gente curte. Vai ter muita m*rda que tu vai ter que fazer e ficar quieto. As coisas são assim.
— Mas algumas coisas são evitáveis. Como esse jogo por exemplo.
— Afinal tu tá com medo do que?
— Quem disse que to com medo?!
— Tu tá com medo. Olha tua cara!
— Vai pra p*rra Ian.
— Velho, tudo bem se tu tá te sentindo inseguro. É normal.
— Eu não to me sentindo inseguro c*r*lho!
Alguns minutos de silêncio e Ian se manifestou.
— Tá tão óbvio quanto à luz do dia que tu tá inseguro.
Dan suspirou.
— Que seja. Odeio esportes.
O mais velho sentou ao seu lado e puxou pra perto.
— Tu vai fazer o gol da vitória – Disse firme.
— Fumou maconha?— Dan riu.
— É sério. Eu sei que tu vai fazer o gol da vitória.
— Não sabia que tu era vidente.
Ian olhou bem fundo nos olhos do mais novo, fazendo-o sentir calafrios.
— Não é que eu seja vidente. É que eu confio em ti. Tu consegue.
Dan sentiu a força daquelas palavras que ecoavam em sua mente.
— Valeu a força cara. De verdade.
— Sempre estamos ai primo.
Dito e feito. Na noite seguinte lá estavam os dois comemorando a vitória. O garoto sorriu ao lembrar daquilo. Estaria ele sendo intolerante demais? Já tinha aceitado a namorada trans (Em partes), podia deixar passar esse deslize do primo não? Afinal, Ian é família. E família está sempre junto.
Eram 09h30min quando finalmente concluiu a limpeza. Era outro lugar. Sentiu-se útil por finalmente fazer algo em beneficio próprio. Resolveu tomar um banho e também iria falar com o primo. Começou a perceber que era bobagem continuar com essa intriga. Ficou no banho um bom tempo, refletindo e avaliando qual seria a melhor forma de se desculpar com o primo. De repente o rapaz começou a ouvir uma música vinda da sala. Depois de um tempo, conseguiu processar de qual música se tratava: “It’s my life” do Bon Jovi. Não estranhou. Ian sempre adorou a música e a banda. O problema é que adorava tanto que repetia vezes seguidas irritando o primo.
— Ian, baixa esse c*r*lho! Ou pelo menos troca a música! – Gritou. Mas nada adiantou – Tá me ouvindo?!
Nenhum sinal de resposta. Seguiu com seu banho tentando ignorar o barulho que ecoava pela casa.
— MAS QUE P*RRA É ESSA AQUI??!! – Um grito de uma voz diferente fez com que Daniel se assustasse.
Desligou o chuveiro às pressas, colocou uma toalha na cintura e foi correndo até a sala. Temia que algo ou alguém tivesse ferido Ian. Nunca iria se perdoar. Só que no meio do caminho, esqueceu-se de um vasinho de planta que a mãe colocara ali no corredor e acabou batendo o dedo mindinho.
— Sua planta p*ta do c*r*lho!
Mesmo com dor tentou ir até a sala e assim que conseguiu descer as escadas encontrou Jeff, Adrian, Amanda e Alisson olhando atônitos a sala. E assim que viu, entendeu o por que...
***
Se tinha alguém na face da Terra que conseguia ser otimista até em momentos difíceis, esse alguém era Ian. Quem o via preparando aqueles sanduíches – um de salada com queijo e presunto e outro com creme de avelã – nem imaginava a situação na qual ele se encontrava com o primo. O fato é que ele tinha certeza que mais dia menos dia Dan voltaria atrás na decisão de manter esse gelo. Tinha errado sim ao querer ficar com um hétero que ainda por cima é seu primo, mas não tinha porque alimentar aquele clima por muito mais tempo. Isabel, a mãe de Dan, já estava muito desconfiada dos dois. Ela já havia perguntado para Ian muitas vezes sobre o acampamento, e o rapaz sempre desconversou. Não sabia quanto tempo mais iria conseguir sair pela tangente, mas tinha certeza que com a conversa daquela manhã a situação iria se resolver mais rápido do que pensava.
Assim que acabou de comer seus sanduíches, recebeu uma mensagem de Ágata:
“E ai tigrão! Tá ligado aquele emprego que fiquei de arranjar pra ti? VAI ROLAR! Já pode marcar a data de comemoração, se é que me entende rsrs Beijocas ♥ – Enviado por Ágata”
— FEEEITOOOOOOO! – O rapaz parecia que ia explodir de alegria. Finalmente sairia daquele curso que “detestava” para algo que curtia muito fazer.
Não aguentando a felicidade, correu até o seu quarto e começou a caçar algum CD em meio as suas coisas.
— Cadê esse c* de CD agora c*r*lho?! – Se perguntava nervoso, porém feliz.
Quando após alguns minutos o achou, correu até a sala, claro, não sem antes bater com o dedo na planta que sua tia colocara no corredor para “enfeitar o espaço vazio” .
— Que planta chata do cac*t*! – Reclamou e voltou a seu percurso.
Ligou o rádio de forma rápida. Colocou o CD para tocar em uma música específica: “It’s my life” do Bon Jovi. Aumentou um pouco o volume do rádio, não o deixou muito alto. Pegou uma vassoura e começou a imitar gestos de guitarrista ao som da música.
Como alegria de pobre sempre dura pouco, logo viu alguém parado no portão da casa. E não tinha como ser uma visita mais indesejada: Era Gil. Ian revirou os olhos, respirou fundo e foi atender ao rapaz. Deixou a música tocando enquanto isso. Notou que Gil ficou observando seu corpo enquanto ia em direção ao portão e sorriu com o canto da boca. Não era um garoto debochado, mas a situação de ver seu ex namorado lhe devorar com os olhos pareceu atrativo para si.
— Gil! Não esperava mais te ver – Comentou assim que chegou ao portão.
— Será que a gente podia trocar uma ideia Ian? – Perguntou o rapaz.
— As ideias ficaram bem claras no nosso último encontro. Fui bem didático não lembra mais? – Sorriu malicioso.
— E-é, mas tipo eu queria me explicar contigo. Eu sinto que te devo isso.
O outro revirou os olhos, mas deixou que o outro entrasse e encostou o portão. Gil entrou na casa e aguardou o retorno do outro.
— Falou de mim que te atendi de pijama, mas hoje tá ai desse jeito. O mundo dá voltas né? – Comentou.
— Pois é. Mas eu duvido que tu tenha realmente algo de útil pra falar.
— Não dá pra baixar a música pra gente conversar melhor?
— Tu pretende ficar pro almoço que não consegue ser rápido?
— Tá bom, tá bom.
— Estou a todo ouvidos – Ian cruzou os braços.
Gil suspirou.
— Sabe o que é Ian, é que aquele dia que tu foi lá em casa, falou aquelas coisas e fez aquilo de me beijar... Aquilo tudo me deixou-
— Com tesão? – O outro não podia perder a piada.
— Pensativo – Gil corrigiu – Eu ratiei legal contigo. A gente tinha um lance legal, se curtia e ai eu fui lá e c*guei tudo.
— Por que não me fala algo que eu não saiba pra economizar teu latim?!
— Só queria vir até aqui e selar um acordo de paz. Vai ser ridículo a gente ficar assim toda vida.
— Qualquer mágoa que eu tinha contigo eu apaguei aquele dia na tua casa. Se tu ficou de c* doce, ai já não é problema meu.
— Estamos em paz então?
— Estamos. Agora pode ir embora. Até qualquer dia.
— Mas antes...
Num movimento rápido, Gil agarrou Ian pela cintura e o beijou arduamente. O outro ficou surpreso por tal ato, mas não recuou. Sentiu curiosidade em saber até onde Gil iria. O rapaz foi avançando tão rápido que acabaram passando perto do botão de volume do rádio, fazendo-o aumentar. Não que eles se importassem com isso.
Após o beijo que durou alguns minutos e andar por toda sala Gil jogou Ian no sofá. Tirou a própria camiseta e voltou até o pescoço de Ian dando algumas mordidas de leve.
— Isso é minha vingança por ter ido até minha casa me atiçar – Sussurrou no ouvido do outro – Lembra quantas vezes a gente transou aqui enquanto teu primo tava na escola pra ele não descobrir sobre a tua sexualidade?
— Lembro sim – Como não era de ferro, Ian também tirou uma casquinha do ex namorado – E lembro quantas vezes tu gemia pra mim. Dizendo que me queria dentro desse teu c*zinho apertado. Lembra como tu fazia?
Gil sorriu e começou a tirar a calça, ficando só com sua cueca.
— Mete bem fundo Ian. Mete vai. Assim que eu gamo.
Foi a vez do outro sorrir e se entregar um pouco ao desejo. Aquela situação era muito excitante.
— Vou te amansar minha boneca – Sussurrou ele no ouvido de Gil – Lembra que era assim que eu te chamava?
— Faz isso, faz – Gil já descia o abdômen do ex quando algo não esperado aconteceu.
— MAS QUE P*RRA É ESSA AQUI??!!
***
E lá estavam todos: Alisson, Adrian, Jeff e Amanda encarando a cena embaraçosa; Daniel só de toalha atônito com o eu via e Ian e Gil no sofá sem saber o que fazer. O primeiro a tomar alguma providência foi Dan, que correu para desligar aquela música que estava num volume infernal.
— Será que eu posso saber que p*taria é essa na minha sala?! – A expressão que Dan tinha no rosto não era das mais amigáveis.
— E-eu vou indo nessa – Gil, vermelho como um tomate estava catando suas roupas quando Dan, com raiva, agarrou seu braço e o jogou no sofá oposto.
— TU NÃO VAI A P*RRA DE LUGAR NENHUM, SEU VIADO DE M*RDA!!
— Dan, eu – Ian se explicava, mas o primo o interrompeu.
— CALA BOCA IAN! SENÃO EU VOU TE ARREBENTAR!
O mais velho ficou em silêncio.
— Hã... Galera, vocês podem ir lá pro meu quarto por favor? – Pediu ele, tentando se acalmar.
— T-tudo bem – Amanda respondeu um tanto nervosa – Vem Dri. Vem Jeff.
— Que barra hein – Adrian comentou baixo. Jeff não se manifestou.
Al foi o único que permaneceu ali.
— Não vai subir com eles Alisson? – Dan questionou.
— Não. Eu quero ouvir umas explicações que o Gil vai me dar AGORA – Impôs.
— Vamos resolver nossos problemas outra hora, Alisson – Disse Gil, sem muita motivação.
— Tá ficando surdo?! Eu disse agora! – Repetiu Al com mais entonação.
— Tu conhece esse viadinho Alisson?! – Dan se surpreendeu.
— Infelizmente sim. Ele armou uma arapuca pra mim e vai me explicar direitinho que p*rra que ele fez.
— Quer mesmo falar disso aqui? – Gil mais uma vez tentou se impor.
— Cara, eu juro que se tu não contar eu deixo o Daniel te deixar aleijado.
— Conta logo o que ele quer saber sua bicha! – Dan se intrometeu.
— Dan, para de chamar o Gil assim c*r*lho! – Ian defendeu o ex namorado.
— E se tu não calar a tua boca ou defender essa bicha eu juro que te tiro daqui! Cansei dessa modernidade! Fica na tua!
Alguns minutos de silêncio, até que Gil finalmente abriu a boca.
— Eu não... Eu não transei contigo.
— Graças a Deus – Al se sentiu aliviado.
— Porque tu achava que tinha transado com ele Alisson? – Dan perguntou desconfiado.
— Eu te disse cara! Ele armou uma arapuca pra mim. Se aproveitou que eu bebi demais e quando acordei tava esse viadinho pelado do meu lado. Que nojo.
— Eu queria dar uma lição no Ian – Gil confessou – A ideia era... Tirar umas fotos contigo como se a gente tivesse transado e enviar pro Ian pra ele se sentir irritado e fazer alguma coisa. Mas eu... Acabei desistindo. Aquilo eu fiz só pra ver a tua masculinidade frágil toda abalada.
— Ah seu filho da-
— Calma ai irmão. Agora é a minha vez de ter uma explicação – Dan parou em frente ao sofá onde Gil estava – Posso saber por que tu e o meu primo resolveram fazer a minha sala de quarto de motel?
— Eu vim aqui esclarecer umas coisas com ele. Só isso.
— Esclarecer o que? Se o chupão que tá ai no teu mamilo é dele ou não? Ou se o roxo também é dele? Sim por que é a única explicação que eu encontro pra tu tá praticamente pelado na minha sala em cima do colo dele.
— Tu nunca teve um revival com alguma ex não? – Gil provocou e Dan não se manifestou – Tá na cara que não. Acredite, consegue ser mais excitante do que quando tu mantém relação com a pessoa.
— Cala boca seu nojento!
— Será que agora eu posso me defender nessa p*rra?! – Ian se intrometeu.
Dan pensou um pouco antes de responder.
— Tá Ian. Tenta o impossível.
O mais velho suspirou.
— Eu tava realmente a ponto de trepar com o Gil, que é meu ex como todo o planeta já tá sabendo.
— Não querendo me meter mas já me metendo, isso não te ajuda não mano – Al falou.
— Fica quieto que a conversa não é contigo.
Al não gostou do comentário, porém Gil tentou esconder a risada.
— Eu errei em ter o deixado querer fazer isso aqui. Mas também nunca que eu ia imaginar que um monte de gente ia invadir a casa assim sem mais nem menos!
— Eles são meus parças Ian! Podem entrar aqui quando bem entenderem! E tem mais: Mesmo que eles não tivessem visto nada. E eu?! Tu não consegue nem me respeitar mais?!
— E-eu sei Dan. Eu juro que eu respeito, mas não fui eu quem chamou ele aqui! Ele veio por que quis e do nada me agarrou!
— Porque TU foi na minha casa e fez a mesma coisa esqueceu?! – Gil se defendeu.
— Tá calem a boca os dois! – Ordenou Dan. Em seguida, olhou com um olhar de desaprovação ao primo – E pensar que eu ia me desculpar contigo e tu me faz uma coisa dessas.
Em seguida, foi em direção a seu quarto.
— Dan! DANIEL! – Exclamou Ian, mas de nada adiantou.
— É melhor tu deixar ele quieto agora. Só um conselho – Disse Al – E tu Gil, vê se não fala mais comigo beleza?
E assim foi se juntar aos demais no andar superior.
Gil e Ian se encarar por algum tempo, como se procurassem respostas. O primeiro não tardou a vestir suas roupas e sair sem dizer uma palavra. Ian só conseguia encarar o vazio. Agora sim, estava no fundo do poço.
CONTINUA
Fale com o autor