A Teoria das Cores
22 Branco II
CONFUSÃO
— Hã... Bom gente. Desculpa ai a forma com que vocês foram recebidos aqui em casa. Sério mesmo, nunca pensei que-
— Relaxa Dan. Tá tudo bem... Eu acho – Adrian tentou consolar o amigo.
— Vou pegar uma roupa e me vestir no banheiro. Se vocês puderem esperar mais um pouquinho...
— Á vontade!
O clima era de total constrangimento. Ninguém sabia exatamente como se portar, nem o que falar. Só sabiam encarar o vazio ou se encararem. Dan pegou uma muda de roupa qualquer e foi até o banheiro se vestir. Fechou a porta do ambiente com certa força. Um misto de raiva, ódio e decepção estava preenchendo seu peito. Logo agora que as coisas pareciam querer se ajeitar, acontece um fato daqueles.
Não se vestiu com pressa. Aliás, se conseguisse ser mais lento do que já estava certamente ele seria. Não tinha condições de dar explicações a ninguém, nem conversar. Só queria ficar quieto no seu canto. Mas já que não seria possível, suspirou fundo e foi indo até seu quarto. Inconscientemente olhou em direção ao quarto do primo, e notou que a porta estava fechada. O primo mais velho tinha se trancado lá. Torcia para ele não sair até a hora de ir para faculdade pelo menos.
Assim que entrou no quarto, Dan sentou-se na sua cadeira que estava em frente a sua escrivaninha e passou a mão pelos cabelos.
— Que louco – Adrian tentou puxar assunto.
— Põe louco nisso – Jeff complementou – Como foi lá embaixo Al?
— Eu tinha um assunto pendente com o Gil, que é o carinha que tava-
— Por favor, poupem os detalhes – Dan pediu, interrompendo a fala de Al.
— Foi mal – O outro se desculpou – Enfim, vocês sabem quem.
— E o que ficou resolvido? – Mandy perguntou.
— Não muita coisa, eu acho. Pelo menos a explicação que eu queria eu consegui.
— E tu Dan? Tá tão quieto – Adrian notou.
— Não queria que eu dançasse rumba depois do que aconteceu né? – Dan não estava com o melhor dos humores – Cara, que vergonha. Não sei nem onde enfiar minha cara.
— Relaxa ai mano. Tudo bem que foi estranho e... Nojento... Mas a gente supera.
— Desculpa Dri, mas na verdade eu até achei interessante – A namorada do rapaz confessou.
— COMO É QUE É?! – Os rapazes falar em conjunto.
— Ai, por favor. Não sejam dramáticos. Quem nunca deu uns pegas no meio da sala?
— Mas Mandy, eram dois guris. Dois GURIS! – Jeff enfatizou.
— E daí? Só héteros agora que podem dar uns pegas? – A garota rebateu – Olha, se querem saber de uma coisa, eu to achando isso tudo uma palhaçada.
— Porque não foi na tua casa. Porque não foi com o teu primo que é praticamente um irmão mais velho – Dan rebateu.
— Desculpa Daniel, mas se fosse um primo meu que tivesse feito isso eu só diria pra ele ir pro quarto. Pronto.
— Sei...
— Sinceramente esse preconceito de vocês tá me dando agonia. Credo.
— Ah não. Até tu com essa história de preconceito?! – Al se meteu – O que o fato da gente ter visto p*taria na sala tem haver com preconceito?
— Será que não dava pra gente tentar mudar de assunto?! – Dan ordenou.
— Dan tem razão. Já chega de tretas por hoje – Adrian concordou – Por que a gente não sai pra dar uma volta?
— Ou jogar videogame que era o plano inicialmente né? – Jeff começou a se animar.
— Mas o videogame ta lá na sala... – Dan lamentou.
— Adrian, tu me ajuda a pegar a TV. Jeff, tu e a Mandy pegam o console e trazem as coisas pra cá – Al solicitou.
— ‘Xá comigo –Jeff se levantou veloz e foi correndo até a sala. Como os demais, também bateu o pé na planta – Ai! Que c*r*lho! De onde surgiu isso?!
— Bem feito. Isso é por não me esperar – Mandy falou rindo. Adrian vinha logo atrás da namorada.
Al ficou pra trás. Solidarizou-se com o estado do outro.
— Relaxa ai, pateta. Vamos nos animar – Falou.
— É... Por enquanto né. Depois todo mundo vai embora e eu vou ter que ficar aqui e enfrentar o Ian – Dan falava com um tom entristecido.
— Deixa o depois para o depois. Presta atenção no agora.
Dan deu um leve sorriso.
— Valeu a força.
— Precisar, estamos ai – Al deu um leve tapa nas costas de Dan.
Dan refletiu um pouco. De nada adiantava sofrer de antemão, então porque não curtir um pouco? Logo o quarteto chegou com a TV e o console de videogame. E por algumas horas, Dan pareceu se esquecer do mundo.
***
11h28min. O grupo – com exceção de Mandy – estava entretido com o jogo de corrida do console. Porém num susto, Al verificou a hora em seu celular e teve de se despedir.
— Ser o último novato a ter entrado no trampo é f*da. Parece que a gente rala mais que os outros – Comentou ele.
— Por experiência própria, te digo que é dureza os primeiros meses. Mas depois de um tempo só vai – Dan falou.
— Se cuida Al – Jeff não tirou os olhos do jogo.
— Te vejo na aula amanhã? – Perguntou Mandy.
— Claro né. Falou ai gurizada.
— Falou – O coro despediu-se.
Al saiu do quarto, quando ouviu algo.
— Psiu.
Parou por um minuto e virou-se. A porta de um dos quartos, antes fechada como ele bem reparou, agora estava entreaberta.
— Tu mesmo. Pode vir aqui um pouco? – Era Ian.
Al revirou os olhos.
— Parece cena daquele filme do palhaço – Comentou.
Foi indo lentamente até a porta de onde veio o barulho. Abriu-a e viu que lá estava o primo mais velho de Daniel. Agora estava com calção e uma camiseta qualquer.
— Não tá com frio não? – Foi a primeira coisa que pensou.
— Sendo bem sincero, não – Respondeu o rapaz – Sou muito calorento. Chega ai.
Al ficou temeroso ao entrar. Não queria que o garoto tentasse algo com ele. Já tinha tido experiências estranhas demais para um hétero só.
— Olha cara, já vou avisando que se tentar alguma idiotice-
— Fica frio. Tá achando que eu vou abusar de ti é? – Ian riu fraco.
— Depois do que eu vi lá na sala...
— Bem, aquilo foi com um guri que eu tava disposto a pegar. Mas não foi pra te molestar que te chamei aqui.
— E então?
— Quero saber como tá o Dan.
Al riu irônico.
— Como tu espera que ele esteja? Dançando Macarena?
— Ouvi barulho de jogo. Ele tá jogando junto?
— Aham.
— Que bom – O mais velho sorriu aliviado – Pelo menos conseguiu se distrair.
— Queria que ele ficasse chorando num canto né? Fala sério, deixa de-
— Cuidado com o que falar. Eu to te respeitando e espero que tu me respeite também – Ian advertiu e Al suspirou.
— Era isso que queria saber? Se quiser perguntar mais alguma coisa pergunta de uma vez.
— Quero saber aquilo que o Gil falou é verdade.
— Olha mano, eu mal conheço o Gil beleza? Aliás nem sei o que deu na minha cabeça de convidar ele pra uma reunião de amigos na minha casa. Se eu soubesse que ele curtia guris, óbvio que não teria chamado!
Ian riu irônico.
— Sabe qual a melhor parte de vocês héteros? Essa mania de querer sempre ser o macho alpha e ficar ai fazendo essa pose. Qual o problema do Gil ser gay?
— E tu ainda pergunta?! Olha o que ele me fez!
— E o que o c* tem haver com as calças? O que isso tem haver com o fato dele ser gay?
— Homens não fariam aquilo que ele fez.
— Ah não é? E por um acaso nunca foi vitima de trote não? Nunca teve as unhas pintadas enquanto dorme, ou colocado uma peruca?
Al não respondeu a pergunta.
— Ponto pra mim – Ian comemorou.
— Acabou? Ótimo. Tenho que ir trabalhar.
— Espera!
— O que é c*r*lho?
Ian suspirou fundo.
— Só... Não maltrata o Gil. Eu sei que ele parece bem mau caráter, mas é gente fina. Só que comete m*rdas como todo mundo.
— Não sei. Vou pensar nisso.
— E eu sei que tu não tem muita intimidade com ele, mas... Se tu puder ficar de olho no Daniel...
— Quer que eu seja babá do teu primo? Sou babá de marmanjo não.
— Por favor cara... É só... Até as coisas se ajeitarem com ele.
Al pensou um pouco.
— Não vou prometer nada, mas vou falar com o pessoal pra ficar de olho nele. Afinal eles conhecem mais o Daniel do que eu.
O mais velho sorriu e, num impulso, abraçou o outro.
— Valeu cara. Sério mesmo – Disse.
— Tá bom. Tá bom. Só me deixa ir tá legal? – Al pediu. Não era um fã de abraços. De garotos então.
E lá se foi o garoto. Assim que chegou no portão, alguém segurou seu braço.
— Precisamos conversar Alisson – Era Gil.
O outro revirou os olhos e olhou para cima.
— Eu salguei a santa ceia né? Só pode! – Exclamou.
— Dá pra gente trocar uma ideia ou não?
— A última ideia que tu trocou foi algumas horas atrás. Aliás, parabéns pela cena de filme pornô.
— Larga mão de ser infantil Alisson! Que m*rda! Faz tanta questão de se frisar como “homem” e fica agindo como um guri de três anos! Tenha dó!
Al passou a mão pelos cabelos, respirou fundo e respondeu:
— Tá. Vamos conversar então.
— Pode ser na tua casa?
— Não. Pode ser aqui mesmo. Não quero ficar sozinho muito tempo contigo.
— Tudo bem. Sem problemas.
— Tu ficou aqui parado esse tempo todo?
— Até cinco minutos atrás, estava sentado ali na frente da porta. Só que como ninguém saiu, não me viram.
— E o que quer comigo?
— Te pedir desculpas. Pelo que eu fiz e por te fazer ver o meu revival com meu ex.
— Tá cometendo um erro de pessoa. Não é pra mim que tem que pedir desculpas agora, e sim pro Daniel.
— Com ele eu falo depois. Se eu falar né, ele foi tão trouxa que preferia nem olhar mais na cara dele.
— Se tu tivesse no lugar dele, também agiria daquele jeito.
— Ficaria bravo sim, mas daí a me chamar de viadinho e bicha o tempo todo.
— Ah e tu é hétero por um acaso? Não lembra que tu falou pra mim aquele dia?
— Respeito é bom e eu gosto sabia? Ele podia ter medido melhor as palavras.
— Pois então respeitasse a casa do cara. E também ME respeitasse. Sou homem c*r*lho.
— Hétero e homem são coisas diferentes Al...
— Al o cac*t*. Al é pros amigos. E quem faz o que tu fez, não é meu amigo.
— Tá, que seja. Não quero arranjar mais uma treta. Só quero pedir desculpas.
— Já pediu. Posso ir agora?
— Só uma coisa – Gil pegou Al pela cintura e o puxou para perto – O dia que mudar de ideia e quiser experimentar... Eu tenho interesse.
Al ficou perplexo com aquilo, mas não se surpreendeu tanto quanto se imagina. Já viu do que Gil é capaz, então esperava mesmo tudo dele.
— Tu é nojento – Limitou-se a dizer.
— E tu é ‘mó gostoso – O garoto se atreveu a passar o dedo indicador nos lábios de Al, que o empurrou.
Não quis mais nenhum tipo de conversa. Saiu correndo em direção a sua casa. Sua cabeça só conseguia imaginar que o mundo havia virado de cabeça para baixo. Desde quando havia tantos homens querendo tirar proveito dele? Preferia mil vezes que mulheres o fizessem, mas aparentemente o destino lhe odeia.
Entrou em casa e foi correndo para o banho. Queria ver se esquecia daquela cena horrenda em sua opinião. Primeiro a de Gil e o primo de Daniel se agarrando, e depois a de Gil o agarrando na rua. E se algum conhecido tivesse visto? Como se explicaria? Temia muito por isso.
Ficou quase quarenta minutos no banho. Quando o terminou, se vestiu e resolveu descansar um pouco a fim de clarear sua mente tão confusa. Porém isso piorou. Num dos sonhos que teve, se viu em seu quarto. Estava nú, ofegante e suado. Não sabia reconhecer nem a si próprio, nem ao outro rapaz que estava consigo. Sim, eram dois rapazes na cama. Ambos estavam do mesmo modo e pareciam estar gostando. Os gemidos que ecoavam pelo quarto, fazendo Al se debater na cama enquanto dormia sem perceber. Acordou assustado, para não dizer apavorado. O que diabos havia sido aquilo?
A situação só piorou quando olhou o relógio. 12:58.
— P*ta que p*riu! – Gritou.
Pegou a toalha que esqueceu de levar de volta ao banheiro e tentou se secar. Estava suado e ofegante. Não conseguia acreditar que até sua mente estava o sabotando. Passou um perfume qualquer e saiu desesperado em direção ao “Wunder Bar”. Chegando lá, viu que Gil também chegara junto com ele. Revirou os olhos em desaprovação.
— Só pode ser castigo. Que c*.
Ambos passaram correndo desesperados para o vestiário do local para trocarem de roupa. Al pegou sua roupa em seu armário, mas quando chegou ao banheiro estava trancado. Provavelmente alguém estava o usando.
— Vai demorar muito? – Perguntou a fim de que alguém respondesse.
— Sim – Era a voz de um rapaz. A julgar pelo barulho, seu estômago não estava bem – E acho que vão ter que interditar esse banheiro depois que eu sair.
— M*rda – Reclamou para si – Literalmente.
— Se troca aqui mesmo, Alisson. Não dá nada.
Pelo visto, Gil continuava ali.
— Me trocar na tua frente? Pra quê? Pra tu se masturbar depois?
— Fiz isso antes vir. Acho que vai demorar um pouco pra fazer de novo – O garoto sorriu malicioso.
Al revirou os olhos. Não tinha opção, teria de se trocar ali mesmo. E foi o que fez.
— Que material interessante hein Alisson? Isso ai é só volume ou a cobra é indomável mesmo?
— Vai pra p*rra Gil! – Exclamou o rapaz envergonhado. Sabia que o outro não deixaria passar em branco.
Terminado a vestimenta, foi correndo até Gina que lhe indicou uma mesa onde havia um rosto conhecido.
— Ei! Alisson né?
— Eai – Disse ele tentando ser o mais natural possível – Tu não estava doente?
— Estava sim. Mas tomei um remédio e já to melhorando.
— Hum.
— Que cara é essa de quem viu um fantasma?
— Hã? Eu? Eu não vi nada!
Sabine e Van se entreolharam.
— Tá tudo bem moço? – Van perguntou delicadamente.
— T-tá sim. Tem algum pedido especial? Alguma coisa extra que queiram?
Aquilo estava muito estranho. Bine notou que o outro rapaz que entrou com Al também parecia estar em outra dimensão.
— Um pedaço de cheesecake de morango, por favor – Pediu ela.
— Tá na mão.
E Al foi correndo atender outras mesas, deixando as duas garotas sem entender nada. Era impressão, ou o universo queria lhe enlouquecer?
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