A Teoria das Cores
89 Dourado III
PROSPERIDADE
Ao contrário do que se propaga, sexta feira também é um bom dia para recomeçar algo. Dentro de algumas perspectivas de estudiosos, o dia é como um grande amuleto para os corações flechados por cupidos, propício, então à cenas dignas de filmes românticos clichês. Dan podia não ser o maior fã do clima dessas produções, mas já não tinha certeza se conseguiria fugir delas por muito mais.
Acordou aquela manhã com o sol raiando sobre seu rosto, querendo de forma inútil que ele se apagasse por dez minutos mais. Com o término de sua suspensão, era a hora de retornar a velha rotina, perguntando-se a possibilidade de gastar as outras duas só para não precisar encarar o gélido clima da região serrana. Entretanto, sem ideias para tal, acabou apenas se vestindo, tomando seu café e caminhou até a escola.
No fim das contas, os dias em casa valeram a encrenca pela qual precisou responder. Pôde repensar, dar-se o desfrute de alguns questionamentos e até confirmar outros os quais lutara tanto para fugir. Não compreendia como havia se metido naquilo, mas fugir deixava-o mais atordoado do que barata castigada com inseticida. Os poucos momentos onde baixou a guarda levaram a maré tempestuosa para tão longe que podia jurar que sumiria, caso não sentisse as ondas voltando vez ou outra.
A grande questão àquela altura era o que fazer com Alisson. Tantas dúvidas pairavam sobre sua cabeça quando chegava no rapaz que mal conseguia contabilizar ao certo. Se por um lado agradecia pela coincidência da formatura de Vanessa ter lhe impedido de sair com ele, por outro arrepiava-se pensando até onde teriam ido. Não era tão ingênuo: sabia que alguma coisa aconteceria e não sabia quais ações posteriores seriam executadas. Isso só aumentava a tormenta. Precisava de respostas, estava farto das perguntas.
Chegou na escola eram 07h18min encontrando apenas as moscas e alguns professores. Assim como não cumprimentou, não foi cumprimentado. Não havia razão à esconder o quanto seu estômago revirava por ter de encontrar alguns deles outra vez — principalmente por Elis ser a primeira deles. De novo a hipótese de um novo surto começou a latejar forte sob seus pensamentos, conseguindo imaginar-se pegando uma cadeira qualquer, quebrando no chão e iniciando um berro capaz de ser ouvido até na lua.
Por muita sorte, desistiu ao notar Sabine e Jeferson chegando. O garoto, aliás, tagarelava mais do que a própria boca sobre algo que entendera só ao se aproximarem, enquanto o olhar da loira suplicava por clemência. Riu da atitude, dando cumprimentos matinais e já lançando a pergunta do porquê da euforia. Jeff não tardou a responder.
— Em primeiro lugar, vai tomar no meio do teu c* por não saber. Segundo, os decoradores mandaram fotos de como o ‘Wunder Bar’ vai ficar depois de arrumado e… mano, tá f*da demais! — exclamou, exalando alegria.
— Tô ouvindo isso desde as cinco para as seis da manhã. Imagina a minha gana — desabafou a loira.
— Fala isso porque o aniver não é teu, caso contrário teria mandado soltar fogos. Aposto! — contestou o ficante.
— Não tenho cinco anos de idade, Jeferson, pra ter ciúmes de aniversário — revirou os olhos — E tu, Dan? Imagino que já começou a se empolgar com a noite! Apesar do exagero, tô levando fé mesmo na força da festa!
— E tem que levar mesmo! Meu aniversário tá quase virando feriado regional, se querem saber.
O trio caiu na gargalhada. Daniel preparava-se para dar a resposta à pergunta de Sabine quando notou a figura de Alisson adentrando a porta principal da escola. Em uma das raras ocasiões onde sentiu aquilo, pôde ouvir seu coração iniciando uma batida mais violenta cada vez que os passos se aproximavam de si. Viu os olhos castanho escuros dele mirando nos seus, buscando com urgência qualquer outro ponto capaz de esconder a vontade de cavar um buraco na terra e se enfiar dentro.
O outro percebeu e, como um bichano louco para aprontar das suas, quando se aproximou dos amigos, escorou seu braço esquerdo no ombro direito de Dan antes de cumprimentar a todos e começar a questionar o que falavam. Sabia que ele iria soltar fogo pelas ventas, mas seu lado infantil falou mais alto. Queria vê-lo agindo em seu habitat natural.
Jeff encarregou-se de situar o mais velho, acrescentando um ou dois detalhes passados batidos antes. Sabine foi quem fechou o assunto, lembrando da pergunta feita ao filho de Isabel. Al riu, tratando de responder depressa.
— Achei que tinham falado pra ele sobre a história dele ir de palhaço e tal… — provocou. A resposta veio sem demora.
— Por que não vai tu, então, já que passa o dia sendo um?!
— Não teria tanta graça quanto te ver passar vergonha — revidou.
Apenas revirou os olhos, mal acreditando na façanha única dele em fazê-lo sair de desconfortável à irritado numa fração de segundos. De certa forma, parecia conhecê-lo bem até demais, tirando da primeira condição por ser mais a odiosa.
Sabendo de tudo como sabiam, Jeferson e Sabine trocavam olhares cúmplices. O óbvio da culminância daquelas provocações parecia certo a tal ponto que a loira já espantou da cabeça a hipótese do menor não ter consciência de seus sentimentos. Assumí-los, porém, sabia ser a próxima batalha à frente.
Ficaram ali trocando ideias até Adrian e Amanda chegarem para, só então, partirem rumo à sala de aula. Tanto Al quanto Dan não engoliam a ideia de precisar aturar mais uma aula com Elis, tamanha obsessão pela prova onde colaram que ela vivia a relembrar. Se Matemática não era lá um componente curricular agradável, com a docente puxando-lhes a orelha tornava-se o suprassumo do incômodo infernal em suas vidas.
Sentaram mais ao fundo com objetivo de passar despercebido ao menos uma única vez. Sem sucesso. Quando pôs o primeiro pé dentro da sala, seus olhos miraram os de Dan, vendo-o revirar os olhos por notar a ação. Não era mais um segredo o descontentamento dela com aquela situação, afinal de contas estava ali para fazer valer seu empenho. Aturar malandragem não merecia vir de brinde.
Os rapazes notaram-a ajeitando seu material sobre sua classe e, na sequência, escrevendo a data e “Estudo dirigido para última prova semestral”. Elis encarou a turma sem compreender a razão dos gritos e expressões de espanto.
— Avaliações são parte da composição da nota. Ou será que esqueceram disso?! — questionou à classe, enquanto estava de braços cruzados.
— Esquecemos é do que essa mulher ensina — resmungou Dan à Al. Os ouvidos da docente, para seu desgosto, eram de tuberculoso.
— Algum comentário que deseje fazer à classe, senhor Daniel?! — encarou-lhe no grão do olho.
— Só o quanto acho a senhora linda — ironizou, arrancando risos da turma.
Havia algo entre os três que parecia os impedir de passarem dez minutos sem trocar qualquer tipo de alfinetada. De tão opostos em suas visões de mundo, viravam do avesso, dificultando uma comunicação saudável e respeitosa. Alisson preferiu se abster de qualquer fala posterior, afinal de contas o menor havia feito o trabalho sem que precisasse se sujar mais.
Para os amigos a preocupação eram suas notas e peso da avaliação semestral. Com exceção de Jeff, o Ás das exatas, para os demais vencer os números era tarefa executada a prestação. Comentavam sobre a possibilidade de talvez arranjarem um tempo ao longo do fim de semana, num impulso desesperado de compreender o que não havia sido assimilado em três meses de estudos, a princípio. Surpresos ficaram ao ver Al colocando as mãos por detrás de sua nuca, garantindo sucesso no exame.
— Nem tu acredita nisso! — Amanda exclamou, com a cara no chão — Tu odeia Matemática!
— Odiar eu odeio, mas sei algumas coisas. Só tenho preguiça de pensar. Pergunta pro pateta se não gabaritei a recuperação que ela deu a última vez — Dan revirou os olhos.
— Aposto como caçou respostas em algum site. Ou foi sorte, só isso — desdenhou.
— Pra provar que não é vou até te ensinar. Viu como sou um cara legal?!
— Bah! Um verdadeiro professor aloprado!
O grupo não conteve o riso diante de tal comentário, nem o próprio, diga-se de passagem. Concluindo o assunto, Amanda acabou por afirmar ajudá-los de verdade caso precisassem, pois não queria lhe ver diante daquela redoma outra vez. Sabine tampouco, já deixando avisado que iria arrancar seus ouvidos caso pensassem em trapacear.
A aula então passou, com exercícios de fixação feitos à exaustão, passando então pela ‘decifra-me ou devoro-te’ aula de Língua Alemã ministrada por Elrew para, somente aí, chegar o intervalo. Enquanto Adrian e os demais foram para a quadra bater uma bola com os colegas, Al e Dan escaparam pela tangente, indo direto para seu lugar nem tão secreto assim. Queriam treinar, uma vez que pouco tinham tempo para dedicar sem ser no dia da aula. E nada melhor que fazer isso longe dos olhos fuxiqueiros frequentadores do colégio.
Tentaram seguir os mesmos passos da aula, bem como a mesma música. Sabiam que, caso já estivessem acostumados àqueles movimentos, mais fácil seria seu envolvimento nas práticas de sábado. Treinaram Dynamite mexendo seus membros superiores e inferiores no timing da música, arriscando algumas piruetas e mexidas mais complexas.
Apesar de ter ficado duas semanas sem praticar, Dan não remava para acompanhar o colega. Moldava seu corpo segundo as necessidades da música tanto quanto, vez ou outra até em desarmonia devido ao acréscimo pessoal de movimentos como erguer o corpo com as duas mãos de apoio no chão. Criava um certo desafinamento, mas ao menos deixava claro seu esforço em chegar lá.
A pior parte foi quando, sem querer, acabaram se aproximando demais por não verem um ao outro. Aconteceu quando deram um giro de corpo inteiro e pararam milímetros de distância apenas separando-os. Alisson nem se atreveu a mover um músculo, pois não garantia bons frutos em caso de um eventual escorregão. Daniel não ficava por menos, mal se dando ao desfrute de respirar muito rápido. Ficaram assim por alguns minutos, imóveis, segurando os últimos resquícios de sanidade ainda restantes que os impedia de sucumbir.
Só tomaram atitude ao ouvir o sino bater outra vez, dando dois passos para trás enquanto coçavam suas nucas. Seus corações já começavam a ruir mais um pedaço ante seus medos. O jogo estava todo à mesa, com todas as cartas marcadas, então por qual razão não cediam? Dan, muito mais do que Al, condenava-se pela injustiça cometida contra si mesmo, negando-lhe direitos por puro orgulho ferido.
— Foi bem hoje — limitou-se a dizer — Parabéns.
— Valeu — o mais velho limpava a testa devido excesso de água escorrendo.
Não resistindo ao calor, acabou por tirar a camisa apenas para deixar seu tórax semi definido sentir o impacto da brisa sob sua pele quase pálida. O gesto atraiu o olhar cobiçado do outro, que não poupou encarar as largas costas dele, descendo até partes mais íntimas, chegando até mesmo a tentar evitar, sem muito sucesso. Atraia-o como o fruto proibido, incapaz de passar despercebido nem pelo mais santo pensamento.
Quando se deu conta, Alisson não deixou por baixo. Mais uma vez se viu na obrigação de afrontar a tênue linha da maledicência.
— Tô bem pra lavar roupa, né? — ironizou, rindo.
— Que pena… Não consigo ver direito, lembra? — revidou na mesma moeda — Aliás, meu óculos já ficou pronto. Tá afim de ir buscar comigo agora de tarde?
— Com medo de tropeçar e cair na rua, né? Tô sabendo! — mal terminou a frase e sentiu o punho do menor socar-lhe o ombro do braço esquerdo de leve.
— Idiota — mostrou-lhe o dedo médio.
— Pateta.
O primo de Ian virou então para o lado contrário esperando que ele se vestisse, mas, enquanto fazia-o, não deixou de pensar nos momentos pregressos tidos com ele. Tal como pouco antes, sempre houve uma pitada de insegurança, uma faísca teimosa em fagulhar quando seus corpos se aproximavam demais. Acabou por pensar alto demais.
— Acho que assim eu vou poder ver melhor…
Alisson quase caiu pra trás. Seu cérebro demorou para assimilar se tinha compreendido bem a força daquelas palavras, uma vez que pareciam a lenda do Boitatá. Virou-se então já pondo a camisa outra vez, chegando bem próximo atrás dele e segurando a vontade de pôr suas mãos nos ombros a sua frente, virá-los e arrancar de seus lábios a verdade. Conteve-se para não prejudicar o bom rumo que tudo estava tomando, mesmo com seus pensamentos lhe odiando.
— Pode repetir? Não escutei direito — fingiu-se de desentendido.
Dan, percebendo a cilada, ficou atônito, controlando seu rosto já incendiando descarado. Engoliu seco antes de responder.
— Vamos aproveitar e ir no otorrinologista. Teus ouvidos tão com cera demais...
Foi o máximo que conseguiu proferir para passar longe de suas reais intenções. Tratou de sair na frente a passos largos, querendo chegar na sala de uma vez e terminar aquele dia incômodo. Alisson tentou acompanhar o mais rápido que pôde, mas o eco daquelas palavras seguia sob sua mente e deturpava seus sentidos. Teve ali a certeza tão almejada, além da prova de que o elo formado era mútuo, incapaz de segurar dois corações flamejantes sedentos pelo toque alheio.
O xingão dado pela professora de Biologia devido aos três minutos de atraso nem fez cócegas. Sentaram lado a lado, prestando atenção apenas quando ouviram a informação acerca de um trabalho em duplas já valendo para o último trimestre. A tarefa era organizarem-se assim e realizarem até o findar daquela manhã. Sabendo como as duplas se ordenariam, Dan se intrometeu, convidando Sabine para ser sua parceira e sugerindo à Al que fizesse com Amanda ou um dos rapazes. Os quatro encararam ambos sem entender bem a razão, mas acabaram por aceitar: Alisson e Amanda, Daniel e Sabine, Jeferson e Adrian. Assim ficaram dispostos.
Ao juntar sua classe com a de Amanda, Al sabia que a pergunta seria inevitável. Tratou, então, de lançar o dardo depressa.
— Ele tá fugindo. Pra variar — deu de ombros — Depois de dizer o que disse, também, é f*da encarar as consequências.
— Tá brincando que ele te destratou?! — a namorada de Adrian interpretou mal.
— Capaz! Tá louco pra me enxergar melhor — sorriu, malicioso.
— Mentira! Ele disse isso? Desse jeito mesmo?!
— Tô falando! — indagou — Não sei quando e nem como, mas sabe a sensação boa que dá na gente quando algo legal tá pra acontecer?
— Fala das “viadagens”?! — alfinetou usando antigos argumentos de Alisson — Sei, sim. Conheço muito bem, aliás.
Al não segurou o riso. Sempre que se deparava com eles, ficava surpreso como a vida podia ser uma força bruta na conquista de seus objetivos. Pouco importavam os sujeitos, suas manias, defeitos ou vontades. Era dona absoluta dos fatos e só lhe interessava satisfazer seus caprichos. Geniosa, bem mais do que Daniel, porém sábia e esperta. Tanto jogou feitiços que uma hora ele virou contra, e, para sua sorte, não era nada mal quanto julgava ser.
Dan, no entanto, passava longe de ser o maior fã daquela nova circunstância onde havia se metido por injustiça (ou praga de Ian, como gostava de pensar). Os tremores de seu coração ao se verem diante de um rapaz tão astuto e firme, como àquele cujo empenho roubou-lhe parte de seu autocontrole, deixavam-o pirado, preso dentro de tantos nós que já perdia o controle das contas. Cada vez que chegava próximo a desatá-los, como aconteceu pouco antes, aquela nuvem tempestuosa se diluía, tornava-se uma bolinha de algodão insignificante.
Sabine reconhecia de longe tal semblante. Ele conseguia ser um espelho em quaisquer circunstâncias: de bravo à romântico, de herói à vilão, suas feições entregavam de bandeja. Bastava se dar ao trabalho de analisá-las e as respostas estavam todas lá. Ciente de tudo ocorrido entre os rapazes, não restavam dúvidas de sua natureza. Porém, a neblina entre as razões de nada ter se concretizado causavam um certo estranhamento, uma vez que, dados os óbvios propósitos, qualquer extra seria invenção de suas cabeças tortas, em sua opinião.
— Tá tudo muito estranho… — nem precisou abrir a boca, pois o garoto mesmo tratou de fazê-lo — Ele tá muito estranho.
— Só ele? — revidou.
Revirou os olhos.
— Isso tudo é um surto. De todos nós.
— Curioso um surto ser tão real, não acha? — lançou de novo uma provocação — Eu ainda te perguntei aquele dia em que dançaram juntos, mas tu resolveu se fazer…
— A gente não tem nada, c*c*te! — exclamou, baixo.
— Até quando posso saber? — não teve condições de revidar, engolindo seco enquanto a loira prosseguiu — Quanto mais tu vai se flagelar por algo tão simples, Dan? Uma coisa tão corriqueira quanto gostar de alguém?
— Mas não é de alguém… que eu devia gostar… — seu olhar baixou, mirando seus pés — Tá f*da fingir que nada tá acontecendo. Quando eu vejo já saiu alguma pérola e depois de dizer não dá pra voltar atrás…
— Então encara de frente e para de fugir como se tivesse escapando da polícia! — ordenou a garota — É amor, Daniel, não um atentado terrorista. Quanto mais tu fugir, pior vai ficar. Não vai ser feliz nem deixar ninguém feliz.
Sabia de sua razão. Quanto mais tentou fechar os olhos, mais abertos ficaram e cada negação era uma gota de limão pingada neles. O problema todo era o pós aceitação. Como agir diante de todos? Assumir seria uma boa alternativa? Perguntas capazes de deixá-lo fugitivo pelo resto da vida, mesmo sabendo que, na prática, seria impossível. A vida lhes colocaria frente à frente ainda que estivessem um na África e ou na Oceania.
— E se der tudo errado, Bine? E se eu não servir pra isso e for tudo armação do destino pra zoar com a minha cara? — questionou, temeroso.
— Segue o baile e pronto — respondeu num estado de espírito a dar inveja a água de poço — Foi o que fiz quando gostei de ti, sabia?
Ergueu as sobrancelhas.
— Sabia que aquele papo na festa dos namorados não tinha sido em vão. Tinha alguma coisa naquele chamego todo — relembrou.
— Tinha — coçou a nuca. Era estranho admitir aquilo ao próprio, mas se isso o ajudasse, valeria a pena — Mas tranquilo. Já estou em outra.
— Tô sabendo — riu — Valeu, Bine. Significa muito.
A moça retribuiu então com um sorriso de orelha a orelha. O mundo estava girando e Dan sabia disso, só corria na direção contrária numa tentativa desesperada de provar ser mais valente do que qualquer tramóia do universo. Entretanto, não era nenhum Hércules. Sofria, tinha dores, temores, e, se até mesmo Sabine havia superado seus sentimentos, por que não conseguiria fazê-los também, mas com àqueles capazes de impedir sua felicidade? A hipótese ainda parecia arriscada. No entanto, para seu coração, no amor e na guerra valiam tudo.
***
Boas ações geram ações ainda melhores. Sem dúvida, a prosperidade de Ian devido a sua performance com as crianças suas alunas na escola de seu primo havia dado bons frutos, capazes de fazer seu chefe, Manolo, distribuir sorrisos. Com a disponibilização do material nas plataformas digitais, conseguiram um número considerável de visualizações e, por conseguinte, várias ligações para seu escritório. Houve até mesmo a necessidade dele assumir mais duas turmas de sete alunos cada.
O garoto de olhos azuis deixava de lado a modéstia, afinal havia se esforçado junto aos pequenos para que desempenhassem bem seus papéis. Orgulhava-se deles e de sua dedicação, pouco fazendo questão de esconder a alegria de ter feito o que amava, transmitindo assim tudo aquilo que acreditava sobre música. A arte respirava aliviada, tinha certeza.
Próximo do meio dia, concluía a última aula daquela sexta. Despedia-se de seus pupilos e organizava sua sala quando ouviu três batidas na porta. Teve um ligeiro espanto ao ver Diógenes parado nela aguardando, afinal pouco conversavam, e, de um modo geral, seu assunto sempre era Ágata e acabava em um chilique por parte dele. Mesmo com pé atrás, consentiu a entrada, aguardando qual cobrança viria.
— Parabéns pelo festival de música. Acho que não tinha te dito isso ainda — o moreno coçou a nuca.
— Parte por não querer, diga-se de passagem — alfinetou, enquanto ria — Tudo bem. Sem condenações. Tem tuas razões pra isso.
— Quero que tu saiba que, apesar destas razões que tu fala, o parabéns é real. Sem ironia ou inveja — garantiu.
— Valeu, cara. De verdade — sorriu.
Seguiu dando uma geral no ambiente e, percebendo o incômodo de ficar parado feito um poste, Diógenes resolveu pôr a mão na massa e ajudar o mais velho a deixar tudo como estava antes da aula. Guardaram os instrumentos restantes, posicionaram as cadeiras de forma estratégica e, por fim, guardaram as partituras na pasta preta, guardando-a num armário chaveado posto no canto direito da sala cor de creme.
O instrutor tentava entender o motivo daquela disposição toda. Não por sua vontade, mas havia um incômodo entre eles, uma barreira criada pela imaturidade de certas atitudes do outro. Estar ali sem criticar ou ironizar suas ações, no mínimo, parecia suspeito. Como não era de levar qualquer coisa para o coração (tampouco para casa), jogou logo na lata, a fim de resolver logo o que quer que fosse e seguisse sua vida.
— Precisa de mais alguma coisa?
O menino ficou da cor de um tomate, com expressão nítida de querer cavar um buraco na terra e se enfiar dentro até passar. Sem condições para tal, tomou fôlego e disse a que veio.
— Mesmo já estando num nível bacana, inclusive meu professor disse isso hoje, queria melhorar mais, saca? E pensei que tu pudesse me dá essa mão.
— Olha — coçou a nuca — Poder, eu posso. só não vejo finalidade. Tu mesmo disse que tá indo bem. Pra que levar à exaustão?
— Tu ama música tanto quanto eu, devia saber como é a gente querer melhorar e alcançar sempre um bom patamar — justificou — Além do mais… tu é um grande músico. O lance da Ágata não pode mudar isso.
— Fico feliz que pense assim — sorriu — Bem, se quer aulas, pode ser no sábado final da tarde?
— Tranquilo. O valor tu me manda depois que eu aviso meus pais. Pode ser?
— Beleza — estendeu a mão.
Mesmo um pouco incomodado, Dio retribuiu o gesto. Não tinha ojeriza ao mais velho, longe disso, só achava sua visão de mundo estranha demais para o mundo racional. A materialização do amor líquido, em sua visão, beirava o bizarro, sem qualquer procedência de ser eficaz e trazer felicidade de fato. Usar isso com o consentimento da menina que amava, então, era o cúmulo do absurdo. Entretanto, tinha ciência de seu papel, acabando por engolir aquele sapo o máximo que conseguia, ainda que fizesse seu jovem coração apertar de saudade.
Saiu na sequência, tornando a deixar Ian com seus botões questionando sobre as reais intenções dele. Claro, não era insano de pensar ser golpe de paquera, já que Diógenes era hétero convicto. Pensava se não faria apenas para que flagrasse ele com Ágata, numa tentativa desesperada de apunhalá-lo. Soava novelesco, mas não tinha dimensão do dito amor que ele sentia por ela. Riu do pensamento. Julgou até, no caso de ver a ação digna de vilã do horário nobre, jogar em sua cara toda a verdade sobre seu primo, na esperança de, com isso, trazê-lo de volta à terra para entender que o garoto era o único a desestruturar seu ser.
Só saiu de suas deduções ao sentir o celular vibrando. Tirando-o do bolso, notou no visor o nome de Micael e a mensagem de sua chegada no dia seguinte pela manhã. Um sorriso instantâneo se abriu em seu rosto cor de areia molhada. Afinal, uma boa notícia. Talvez não para Diógenes, julgava, mas para os demais seria interessante. Perguntava-se se Ágata já estava ciente, contudo, preferiu se omitir e guardar segredo. Teriam bastante tempo para revelá-lo, tendo certeza de que tristeza não estaria na lista de sentimentos deste feito.
***
Aguentar Daniel aquela tarde foi quase tão ruim quanto deixar dinheiro cair do bolso. O rapaz fazia questão, a cada dois segundos, de buzinar em seus ouvidos o quão injusto achava a ideia de precisar usar óculos, já que jamais havia tido necessidade, só podendo ser praga de Elis e coisas do tipo. Aguentou calado o máximo que pôde, abrindo a boca mesmo para debochar de seus novos “olhos extras” e levando mais uma série de desaforos por tal.
Alisson chegou ao ‘Wunder Bar’ próximo das 15h19min, vendo o pessoal feito formigas caminhando a passos apressados de um lado para o outro querendo deixar tudo encaminhado até a noite. Por mais que Jeff tivesse avisado pela manhã, esqueceu-se do evento acontecer em seu trabalho e que, portanto, deveria estar ali para auxiliar no que fosse necessário. Mal bateu o ponto já correu até o vestiário, trocou de roupa e foi procurar o que fazer.
Começou coordenando a distribuição das mesas, depois a colocação das toalhas, disposição de louças, dos arranjos decorativos feitos por Gina, bem como, com a ajuda de Gil, verificou pessoalmente a validade dos quitutes, comes e bebes a serem oferecidos mais tarde. Pouco em comparação com o demais realizado, porém, essencial para o bom andamento.
Quando a decoradora e o DJ, por fim, foram embora depois de ajeitar sua parte no evento, seu Antero, até então na sala de seu escritório, apareceu no saguão chamando por todos, em especial Gil. Os funcionários atenderam de imediato, organizando-se em meia lua de frente ao senhor sorridente. Este colocou as mãos para trás antes de prosseguir.
— Agora que estamos todos aqui, e nossos colegas organizadores foram embora, gostaria de dar-lhes uma grande notícia! — exclamou, transpirando ansiedade e euforia — Como já é de conhecimento geral, minha irmã faleceu recentemente. Um evento trágico para todos nós, membros da família. Contudo, em meio a essa infeliz tragédia, minha irmã me estendeu a mão sem que eu soubesse. Na leitura de seu testamento, descobri que me deixou como herança seus dois apartamentos inutilizados de Rio Grande para que vendesse e investisse o dinheiro no meu sonho. Palavras não serão suficientes, tamanha gratidão que sinto por tê-la tido em meu lado ao longo da vida e, além disso, um gesto tão generoso que só ela poderia ter feito por mim — agradecia, controlando a emoção — Fiz conforme ordenado. Semana que vem, ‘Wunder Bar’ ganhará uma nova filial em Pelotas! Nosso querido Gil, em virtude disso, será enviado para treinar o novo pessoal contratado por um mês!
Na mesma hora, uma onda de aplausos foi emitida junto a assovios e gritos de histeria. Al realizava alguns deles, uma vez que, apesar das incomodações do passado, no presente era um de seus maiores entusiastas. Vê-lo crescer e ser valorizado soava como perceber um irmão que dois dias antes usava fraldas se formar na faculdade. De certa forma, orgulhava-se junto a ele pela conquista, não deixando de dar um abraço quando foi possível.
Como forma de comemoração, seu Antero disponibilizou uma porção de batatas com molho de queijo e refrigerante aos funcionários, afinal era uma conquista a ser celebrada com classe e vigor. No meio do “evento”, porém, Al chamou o amigo até o vestiário, sinalizando com a cabeça para irem conversar. O garoto foi, acreditando já ter ocorrido besteira na qual teria de apagar o incêndio.
Surpreendeu-se, quando fechou à porta, ao sentir as mãos do menor virando-lhe e pressionando contra a parede, culminando num beijo rápido, mas cheio de volúpia. Foi o tempo de sentir seus lábios encaixarem nos carnudos dele, para meio minuto depois soltar, deixando-o tonto, sem a linha do raciocínio. Percebendo a cara, o filho de Marisa riu.
— Foi só pra desejar boa sorte. Não tô te pedindo em casamento — ironizou.
— Se eu fizesse isso tu diria que foi… como é mesmo? Abuso? — revidou na mesma moeda.
— É que tu me pegou desprevenido aquela vez. Hoje é diferente — maliciou — E também, tô descompromissado. Pode dormir com a consciência tranquila.
— Pelo Martelo de Thor… Ainda essa novela?! Fala sério! — revirou os olhos, rindo — Bom, tu já sabe minha opinião, então não vou me desgastar. Só agradecer mesmo pelo gesto simpático.
Seguiu no mesmo tom de gargalhada.
— Faculdade, então, já era?!
— Professores vão me enviar EaD. Consegui falando com a coordenadora do curso — explicou — Vai ser bom refrescar a cabeça. Foram meses tumultuados.
— Eu que o diga — coçou a nuca — Tenho certeza que vai te dar bem lá. Quando voltar, traz uma caixa de doces pra mim bem cara. Mereço.
— Abusado do c*r*lho!
Deram, então, um último e longíquo abraço fraternal, pois, no fim das contas, haviam se tornado isso. Gil, com sua sabedoria ousada de vida, mostrava a luz a Alisson num momento onde poderia ter caído fácil no abismo escuro e profundo. Este, com sua atitude perspicaz e apurada, ensinou-lhe a lutar, ter garra e vencer barreiras. Não seria fácil apagar um do coração do outro. Tinham feito suas marcas.
Ao saírem minutos depois, Al deu uma olhada a decoração, quase saturando os olhos de tantas referências a Star Wars que seus olhos puderam contar. Seria uma grande noite, disso tinha certeza, para além do que sua imaginação conseguia imaginar. O inimigo agora não era o Império, mas sim, a grande muralha entre ele e a felicidade tão próxima...
CONTINUA
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